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Eu Fiz Uma Fogueirinha

Summary:

Era São João, mas os planos de Cadu eram simples: ficar em casa e sobreviver ao seu castigo ouvindo sua playlist no MP3 e relendo todos os seus livros… pela terceira vez. No entanto, quando Bernardo bateu em sua janela, implorando para que o amigo lhe acompanhasse na festa de arraiá daquela noite, o Park não teve outra opção — depois de muito suborno e manipulação por parte do melhor amigo — a não ser aceitar. O que ele não esperava era que aquela noite renderia muito mais do que comer milho pertinho da fogueira e ouvir forró das antigas no talo.

Work Text:

“King For a Day” de Pierce The Veil tocava nos fones de ouvido de Chanyeol, mais conhecido como Cadu, enquanto ele encarava fixamente o teto de seu quarto, coberto de estrelinhas que brilhavam no escuro. Elas já estavam começando a ficar desbotadas e ele bufava baixinho todas as vezes que pensava na trabalhadora que seria para encontrar outra vez no centro. Talvez devesse deixar o teto escuro mesmo.

Na verdade, as estrelas eram as únicas coisas que clareavam a penumbra daquele quarto, que não bastando estavam sempre com as luzes apagadas. Duas das quatro paredes eram revestidas de cima abaixo de uma tinta preta, com alguns desenhos de giz feitos à mão só para ficar um pouco mais personalizado. O resto de suas coisas também estava tudo naquela paleta de cores: absolutamente tudo preto. Não há uma camisa xadrez máxima vermelha ou azul marinho aqui e ali, que honestamente só usava para dar uma estilizada.

Cadu era todo assim, desde que se via como gente. Mais especificamente, desde que você ouviu uma música de My Chemical Romance e descobriu que aquela era sua estética até o fim de sua vida. Seus pais estranhavam um pouco, os amigos julgavam… Mas sinceramente, qual é o problema de um adolescente querer ser um pouco emo? Ele não via nada de errado consigo mesmo!

Rolou na cama, bufando enquanto voltava a música do início pela terceira vez seguida. Foi de castigo por umas três semanas depois que sua irmã fez um piti daqueles por ele ter roubado seu lápis de olho, e a briga que se desenrolou foi um pouco mais acalorada do que o necessário. A senhora Park não estava se importando nem um pouco se Chanyeol usava ou não usava lápis de olho, mas a partir do momento em que os dois apareciam gritando pela casa e assustando a pobre vovózinha dos dois, precisei intervir.

A punição principal ficou apenas com a proibição de receber amigos em casa e de sair para lugares que não fossem escolares ou atividades extra-aula. Cadu nem ligou muito, quem sofreu de verdade foi uma irmã, que perdeu as saidinhas até o cinema para beijar o namorado. Com os resmungos dela, ele só deu de ombros e falou “por mim”, enquanto se enfurnava no quarto daquele jeito que já faria com castigo ou sem castigo. 

No entanto, Cadu observa ao mesmo que “a ânsia de ter e o tédio de possuir” não era apenas um ditado; era muito real.

Ainda estava na primeira semana de castigo e o tédio já estava consumindo completamente. Por sorte consegui esconder bem o MP3 dentro de uma meia no armário, e por não encontrar, a mãe achou que ele tinha perdido. A música estava sendo sua única distração, já que já tinha lido todos os livros mais novos, já tinha desenhado um monte, já tinha feito besteira no cabelo — ficou todo picotado, mas ao menos ficou estiloso —, já tinha músicas escritas, poemas... E o tempo parecia simplesmente não passar.

Quando decidiu que era bom de Pierce The Veil e decidiu trocar para Panic! Na discoteca. Contudo, na mesma hora em que parou a música, tomei um susto com um som alto de algo batendo contra sua janela. Levantei, com a mão sobre o peito e se mexeu com os olhos arregalados, ao mesmo tempo que procurava algo para usar de escudo para o caso de precisar se defender. O que não foi o caso, porque quem estava atrás da janela era conhecido.

Ninguém mais, ninguém menos do que Baekhyun Byun, seu famoso melhor amigo Bernardo.

Se o mundo de Cadu era inteiro em preto e branco, o de Bernardo era um arco-íris completo. Agora, por exemplo, ele trajava uma camisa do Brasil verde e amarela e uma bermuda jeans surrada, além de um bonézinho jogado para trás, parecendo que nem prestou muita atenção no que estava usando antes de sair de casa.

O melhor amigo era basicamente seu oposto. Se perguntassem como os dois viraram amigos, genuinamente não saberia responder. Bernardo era o tipo de pessoa que não conseguia sair de casa sem encontrar alguém conhecido no caminho. Se fosse comprar pão, voltava meia hora depois porque tinha parado para conversar com a dona da banca de revista, com o carteiro e com a senhora que vendia cocada na praça. Tinha “tias” em todo lugar que visitava, e vivia sendo arrastada para um lado e para o outro para ajudá-las.

Ele era tudo o que Cadu não era. Quer dizer, era sim um rapazinho bem educado e estava muito longe de ser introvertido, mas por vezes tendia a ser meio tímido, caseiro e por vezes até um pouquinho bicho do mato com quem não conhecia. Bernardo não. Bernardo era festeiro, agitado e expansivo com todo o mundo, e de quebra sempre arrancava Cadu de sua bolha para viver experiências novas e se soltar.

Ainda assim, Bernardo nunca fazia o sentir deslocado. Era justamente o contrário, se lhe perguntasse com respeito. Em qualquer lugar para onde o arrastasse, acabava encontrando um jeito de incluir Cadu na conversa, de apresentar alguém novo ou simplesmente de ficar ao seu lado até que ele se sentisse confortável — o que quase sempre funcionava; toda saída que vai junto com ele acaba sendo divertido.

Depois de se aproximar, veja que não era a primeira pedra que ele jogava. Tinham mais de quatro jogadas no chão ao redor, e um Bernardo com um bico enorme no rosto por achar que estava sendo ignorado. Abriu a janela e colocou a cara para fora.

— O que você está fazendo aqui?! — “sussurrou alto” para ele.

— Vim te tirar do castigo, né. — e abriu uma sorriso daquela bem moleque, que para parecer uma criança atentada, só faltava a janelinha. — Mais tarde tem arraiá… Eu não quero ir sozinho.

— Nesse caso eu prefiro o castigo.

Cadu riu baixinho, fazendo menção de fechar a janela. Bernardo segurou o vidro e forçando para cima.

— Você esqueceu, né? — arqueou uma sobrancelha, e o mais alto franziu o cenho, confuso. — Você tá me devendo uma! Eu te cobri quando a 'fessora quase te flagrou colando na prova de matemática.

Pego no pulo. Cadu suspirou, mordeu os lábios inferiores e pensou por alguns instantes, catando no fundo da memória qualquer motivo que desse para escapar.

Não tinha nada contra sair com o amigo, claro que não! Quase sempre ia com ele sem reclamação — mentira, ia reclamando sim —, mas naquela ocasião… Ah, aquilo era diferente. Iria facilmente se fosse uma festinha de aniversário, uma escapadinha para a balada, um rolê no parque ou qualquer outra coisa. Mas tudo o que envolvia o São João era um pouco demais para ele. Ele nem sequer gostava de milho, então nem podia ser subornado com a comida.

O problema todo era que não bastava ir e ficar ali sentado em uma cadeira de plástico, comendo e conversando tranquilamente. Não, isso era pedir demais para uma festa junina. Precisava levantar, dançar, ouvir forró a noite toda, assistir apresentação de quadrilha — dessa vez deu sorte que Bernardo não ia participar —, jogar aquelas brincadeiras e de quebra ainda tinha aquela besteira de barraca do beijo.

Como se Cadu queria beijar alguém ao som da Calcinha Preta!

— Eu posso pagar de outra forma. — comentou o maior, escorado na janela do quarto. — Tarefa geográfica por seis meses, é pegar ou largar.

— Eu já estou pagando a minha prima pra fazer pra mim. E você tinha aqui que ia pagar da forma que eu escolher!

Bosta .

— Eu não tenho roupa pra ir em arraiá.

— Suas camisas xadrez servem. O lápis de olho a gente usa pra fazer uns bigodinhos em você e eu tenho um chapéu de palha extra.

Porcaria.

— Eu não quero ir, Bê… — fez bico, resmungão que só, dessa vez só sendo direto e sincero. — Eu nem sei dançar forró!

— Vai, Cadu, por favor! Deixa de frescor. — Bernardo insistiu de volta, encarando com aqueles típicos olhos de cachorro abandonados enquanto juntava as mãos. — Eu não quero ir sozinho, não tem graça sem você… E você não precisa dançar se não quiser.

Um suspiro profundo tomou conta do ambiente. O filho mais novo dos Park não tinha mais argumento nenhum. Nem adiantava falar sobre a mãe, porque já estava há alguns dias combinando com o Byun para fugir do castigo qualquer dia desses — e ele obviamente usaria isso como argumento para sua desculpa.

—Tá. — topou, enquanto estralava a língua no céu da boca. — Mas eu só vou fazer o que eu quiser lá.

Foi mais que suficiente para Bernardo abrir um sorriso de mil dentes na boca e levantar, esticando a mão para ele.

— Então vamos logo pular essa janela?

E assim, aconteceu um quase-grande-tombo quando Cadu impulsionou-se na mão do amigo para ir rumo à liberdade condicional — porque querendo ou não, ainda estava preso ao pedido imbecil do Bernardo.

Nenhum piu sequer foi aqui até virarem a esquina para não chamarem atenção, mesmo que parte do mais alto queria que sua mãe percebesse sua ausência e ela pusesse para dentro de casa de novo, apenas para não ter que ver gente, interagir ou aguentar ouvir Mastruz Com Leite no talo a noite todinha.

Mas pensando bem, ver quanto Bernardo parecia feliz com aquilo valia a pena seu grande esforço em se vestir de caipira e sentir cheiro de milho a noite toda.

 

 

— Boa tarde, tia — disse Cadu enquanto entrava na casa dos Byun, o corpo meio encolhido atrás de Bernardo. Mesmo que fossem amigos a anos, e visitasse a casa dele com uma certa frequência, o Park sempre ficava acanhado mesmo sem motivo. Era seu jeitinho de ser que todos ali já estavam acostumados.

— Cadu! Faz tanto tempo que não te vejo! — fazia uma semana, apenas.

— Estudando muito, tia. — Sorriu enquanto sustentava a mentira, pois precisava manter sua imagem de bom moço, claro.

— Tá vendo, Bernardo? Você devia aprender com o Cadu. Um menino tão obediente, mal sai de casa, estudioso… 

Um estalar de língua do Byun mais novo ressoou no ambiente.

— Tá bom, mãe. Eu sei. Mas agora a gente tá ocupado. Já já começa a festa e eu ainda tenho que arrumar ele.

— Só tu mesmo pra arrastar o Cadu pra essas coisas. — ela riu nasalmente. — Depois diga pra sua mãe passar aqui, tenho coisa que só pra contar pra ela.

— Podexá, tia… — o moleque coçou a nuca, com um sorriso tão estranho no rosto que parecia que estava passando mal. Mas antes que mais alguma coisa que ele fizesse fosse capaz de expôr que estava fazendo besteira, Bernardo o puxou pelo pulso e o arrastou até o quarto com pressa.

E assim que a porta do quarto se fechou, Cadu deitou-se na cama do Byun, podendo respirar aliviado de não ter mais que fingir naturalidade quando na verdade era só mais um adolescente fujão e rebelde.

— Se quer saber, você mente pior que grávida de Taubaté — provocou, rindo baixinho apenas em observar a expressão de indignação do amigo.

— Eu tentei o meu melhor, tá? Oh seu reparão!

Mesmo que parecesse estar irritado, tinha um certo sorrisinho nos lábios enquanto via o amigo soltar aquela risada gostosa que contagiava Cadu mesmo se o próprio não quisesse se deixar levar pelas gaiatices de Bernardo.

— Deixa de pantim e segura isso aqui.

O Park mal conseguiu responder, foi acertado em cheio por uma camisa xadrez verde com detalhes em preto. Se lembrava de quando Bernardo usou aquela na quadrilha junina do nono ano. Depois mais uma, azul com detalhes em amarelo, que Bernardo tinha vestido quando passou mal de tanto comer pamonha no ano retrasado. Depois outra camisa foi jogada em si, e outra, e outra…

— Vai usar pra fazer o teto da quadrilha, é? — E logo foi atingido por mais uma. O tecido branco e preto que Cadu recordava-se bem de onde já tinha visto aquele padrão. — Ei! Essa é minha! 

— Eu ia te devolver, macho!

— Só se fosse no dia de São Nunca. — Chicoteou a blusa nas pernas do amigo.

Depois de muita luta, conseguiu convencer Cadu de se vestir a caráter. Penou até demais para fazer com que ele vestisse e fechasse até em cima a camisa xadrez — geralmente, ele usaria amarrado na cintura, ou no máximo como sobreposição. Até permitiu que ele continuasse usando a calça jeans surrada e rasgadinha nos joelhos, mas só se ele topasse fazer o bigodinho e usar o chapéu de palha. 

— Usar os dois é demais. — negou imediatamente. — Ou é um, ou é o outro.

— Eu não lembro de ter te perguntado. — falou com um risinho baixo, enquanto agachava entre suas pernas e já chegava perto com o lápis de olho. — Vai ter bigode e chapéu de palha sim.

— Eu não quero… — Cadu fez bico, mas nem sequer se afastou enquanto ele riscava seu rosto. — Vou ficar parecendo um caipira.

— Você é um caipira, Cadu.

Bernardo falou, franzindo o cenho enquanto terminava de fazer o desenho, segurando seu queixo com a outra mão. Quando ampliou um pouco o olhar para ver o resultado, os olhos se encontraram com os do mais alto e ele se demorou encarando por um pouco mais do que o esperado. Um arrepio estranho lhe percorreu a espinha; nem sabia o porquê, já que estava ali perto há tanto tempo.

Com uma tosse baixa para tentar disfarçar, afastou-se com tudo e foi mexer nas próprias coisas para buscar o chapéu de palha. Os dois mais especificamente; já tinha comprado de teimoso um para si mesmo e outro para ele. Colocou o chapéu no topo de sua cabeça e o puxou para o espelho mais próximo.

— Olha aí, ficou bonitinho!

Cadu continuou cheio de birra, mas Bernardo jurou de pé junto ter visto pelo canto do olho ele dar um pequeno sorrisinho. Nem sabia se estava achando graça ou se estava se achando bonitinho, mas viu. Talvez fosse coisa de sua cabeça também.

— Vamos logo. Sua mãe vai levar a gente?

— Que nada, a gente vai no meu Uno. — O Byun falou com um meio sorriso.

— Que Uno? — franziu o cenho.

— Aham. Uno pé e uno outro.

— Menino idiota… — riu baixinho.

Enquanto eles andavam até o local da festa — o pátio de um colégio estadual ali do bairro —, foram conversando tão tranquilamente que quase esqueceram do que iam fazer em seguida. Cadu estava totalmente relaxado; só se desligou um pouco daquela calmaria quando escutou distante o “eu quero ver tu vir correndo atrás de mim…” ao passar na entrada da escola.

 

O cheiro de pipoca se misturava com o cheiro de milho assado, e só de chegar mais perto o ambiente parecia mais quente. Essa parte era excelente, na verdade, considerando que o clima estava serenando e garoando um pouquinho. Não demais, só o suficiente para deixar todo mundo que estivesse malvestido meio arrepiado. Felizmente, não era seu caso, já que a jaqueta de couro que usava por cima da camisa quadriculada lhe aquecia bem o suficiente.

Mas então, os olhos do Byun brilharam de verdade ao ver a barraca de fogos de salão. Já se imaginava assustando seus amigos — principalmente Cadu, apenas para arrancar aquele bico ranzinza dos lábios dele — jogando estalinhos em seus pés. No entanto, o carma de seu pensamento ardiloso veio logo em seguida quando ele e Cadu quase caíram para trás ao sentir algo em seus calcanhares. O som baixinho e repetitivo de pipocos junto aos resmungos de ambos os rapazes fez Sara cair na gargalhada enquanto se aproximava.

— Vocês comeram vento antes vir, por acaso? — perguntou a Kang, passando seus braços pelo pescoço de cada um, se colocando no meio de ambos. — Primeira vez que vejo um caipira do rock. Arrasou, Cadu!

— Eu falei. — Bernardo lançou para o amigo aquele olharzinho convencido enquanto o via revirar os olhos. — Isso foi covardia! Pegou a gente de supetão!

— Se não fosse eu, você faria primeiro. Acha que nasci ontem? — brincou.

— Mentira! — tentou se defender, mas era incontestável que seria o primeiro a fazer isso caso tivesse chegado mais cedo e já tivesse comprado seus traques. Droga.

— Vocês são piores que cachorro brigando por isso, velho — resmungou enquanto negava com a cabeça. — E tá só você aqui, Sasa?

— O Kauê tá na barraca ajudando a mãe dele, e o Jorginho tá se preparando pra entrar. A quadrilha dele é a próxima.

— E a Mari? — perguntou Bernardo.

— Vai dançar com ele.

— É nada! — disse o Park, a boca entreaberta de surpresa. Não que achasse que sua amiga não tivesse a capacidade de dançar bem, mas nunca imaginou que fosse ver ela naquela situação, porque Cadu sentia que a garota e ele compartilhavam do mesmo mecanismo que os fazia quase morrer de vergonha apenas em se expor em público. — Como foi isso?

— Jorginho subornou ela — Sara complementou, obtendo um “ah!” dos dois garotos; nenhuma surpresa vinda dali. — Ele prometeu que ia comprar um pratão de canjica e um espetinho de morango com chocolate pra ela na barraca do Kauê.

— E o Kauê já tá sabendo disso? — falou o Byun, no tom risonho de sempre.

— O que cê acha? — A garota rebateu naquele jeitinho irônico que arrancou uma risada dos dois rapazes.

E por falar no rapaz, não demorou muito para que ele se juntasse aos três, um sorriso enorme nos lábios ao ver os amigos ali.

— Tava com saudade de vocês. — Kauê falou com um sorriso simpático, enquanto cutucava a bochecha de Sara e bagunçava os cabelos de Bernardo. — Minha mãe mandou guardar o bolo de vocês, daí mais tarde cês pegam antes de ir. Tá nas marmitinhas no frigobar.

— Você é um anjo, boy! — Sara falou com um sorrisão de orelha a orelha. — Ei, cês tão a fim de ir mais pra perto? Eu preciso guardar na minha memória pra sempre a Mari dançando com o Jorge.

— A gente sabe que você só vai ficar malinando ela, Sasa. — Kauê riu. — Mas acho que tem cadeira pra sentar ainda. Querem ir?

— Só se for agora!

Cadu foi o primeiríssimo a falar, num instante se soltando de Sara que foi largada com um biquinho no rosto. Mas aproveitou para se agarrar em um abraço torto com Bernardo e sair se arrastando junto com ele e a galera até a quadra daquela escola, onde a quadrilha aconteceria.

Acharam algumas cadeiras vazias, próximas o bastante para enxergar toda a apresentação sem dificuldade. Não demorou muito para que Sara começasse a ter uma baita de uma crise de riso na mesma hora que viu a melhor amiga aparecer, parecendo não lembrar de nenhum dos próximos passos da coreografia. Marina pisou no pé de Jorge, quase trombou com outro casal durante a troca de pares e até entrou na fila errada em algum momento, o que obrigou o rapaz a puxá-la discretamente pela mão para o lugar correto. Cadu jurou ter visto o amigo sussurrar algo para a menina com um sorriso bobo, mas talvez fosse só impressão.

Ainda assim, os dois seguiam firmes, segurando sorrisos nervosos até o fim da quadrilha. No meio de um erro e outro, a apresentação continuou surpreendentemente bem, e quando a música chegou ao fim, o grupo inteiro explodiu em aplausos orgulhosos, com Bernardo assobiando alto entre as aclamações. Naquele momento foi que Cadu percebeu que de fato, se tivesse ficado em casa, não teria visto nada aquilo — e cá entre nós, o jovenzinho emo gostou além da conta de ver o quanto os amigos se divertiam.

Com o fim da quadrilha, a movimentação na quadra se dissipou entre as barracas de comidas e de jogos, a multidão toda se espalhando e assim o grupo conseguiu conversar tranquilamente. Os adolescentes correram para garantir os lugares deles ao redor da fogueira, então Marina, Sara, Jorge e Kauê ficaram guardando o lugar, enquanto Bernardo e Cadu foram buscar algo para comer.

— Você vai me pagar uma maçã do amor, não vai? — Cadu perguntou. — Como meu pagamento por estar aqui.

— E precisa? Jurei que tu tava se divertindo. Esse seu biquinho não me engana. — provocou. 

— Eu tô me divertindo porque estamos entre amigos! Não tem nada a ver com a festa. — e lá estava novamente, o biquinho emburrado. Bernardo deu um riso alto.

— Tudo bem, eu te pago uma maçã do amor. 

— E se você comprar mungunzá, vai separar metade do caldinho pra mim.

— Ah não, Carlos Eduardo! O caldinho do mungunzá é golpe baixo.

— Eu não gosto do milho! — o Park fez careta.

— Diabo de menino fresco! — resmungou, dando um empurrão no ombro dele com o próprio. — Mas tá bom. Só metade! E quando o salão tiver mais vazio, você vai aprender a dançar comigo.

— Mas nem que me paguem!

Voltando ao grupinho, Cadu com sua maçã de amor e o rosto todo melado daquele caramelo vermelho, e Bernardo com uma espiga de milho assada bem tostadinha em mãos. Na outra mão, carregava uma sacolinha com o que cada um do grupo pediu para comprarem. Naturalmente sentaram um ao lado do outro no espacinho vazio, e chegaram pegando o assunto pela metade.

— Seria bom demais se no ano que vem a Mari e o Jorge fossem os noivos! — Kauê falava, a mão na barriga de tanto que ria. — Imagina a noiva sem saber a coreografia… Isso existe não.

— Eu mesma não faço isso nunca mais não, Kaka. — Marina se defendeu, erguendo as duas mãos. — Bê, comprou minha pipoca? — perguntou para o Byun com um biquinho.

— Comprei, mas acabou a doce… Daí tive que pegar salgada. — ele esticou o braço para entregar a sacolinha para ela. Nesse momento, o Park reparou o quanto Bernardo estava arrepiado; de fato, enquanto ele estava todo trajado, o Byun usava apenas uma camisa xadrez, uma calça jeans e um sonho.

— Vem cá. — falou baixinho, enquanto tirava a jaqueta de couro e se achegava mais perto do amigo. Colou os ombros nos dele e passou a jaqueta por cima dos ombros dos dois como um cobertor. — Melhor?

— Ah… — Bernardo fez um joinha, encolhido e parecendo estranhamente acanhado para alguém que passou a festa toda tão soltinho. — Melhor, sim. Valeu — disse com um sorriso meio torto. O Byun não soube o porquê, mas aquela simples atitude lhe causou um friozinho na barriga familiar, porém tentou relevar aquilo, afinal com certeza era por causa do vento gelado e da chuva fraquinha daquela noite. Só podia ser.

Tentou distrair os próprios pensamentos arrancando mais um pedaço do milho quentinho enquanto seu olhar agora se voltava aos amigos: Jorge limpava o óculos de Marina com a manga de sua camisa, enquanto todos estavam em uma discussão importantíssima sobre quem ali morreria primeiro num apocalipse zumbi. Foi aí que Bernardo achou algo bem mais interessante para ocupar sua mente.

A saia típica quadriculada, o cabelo amarrado em uma trança lateral, a botas com um saltinho que deixava a garota ainda um pouquinho mais alta que o Byun. E melhor ainda, as amigas dela haviam saído de perto por um instante — evento raro e perfeito para Bernardo se chegar de uma vez na garota do terceiro B que ele estava de olho desde o primeirão. Não que nunca tivessem trocado uma palavra, ou se esbarrado pelos corredores, até porque o jeitão do rapaz fazia com que a escola todinha o conhecesse. Mas, mesmo assim, as interações que havia tido com ela não passavam de um “oi”, “de boa?” ou “hoje o lanche é o que?” por nunca ter tido a oportunidade real de tentar dar uma investida. 

Mas, naquela noite, seria diferente.

— Volto já — falou, afastando-se do amigo que apenas o olhou com curiosidade enquanto observava o Byun se afastar de fininho, os outros quatro entretidos demais na própria conversa para perceber o que Cadu estava observando de camarote: Bernardo chegando em Tereza.

O Park até mesmo parou de comer, cruzando os braços enquanto analisava Bernardo com o andar confiante, ajeitando o cabelo e tentando parecer natural, mas conhecendo bem a peça que vivia grudado consigo, de longe Cadu podia sentir o quão acanhado o amigo estava, mesmo que ele tentasse disfarçar com aquele sorriso bonitinho e a risada contagiante de sempre. Não conseguia ouvir muita coisa — ou melhor, não conseguia ouvir nada —, mas felizmente ser amigo de fofoqueiros natos — vulgo Sarah e Bernardo — desenvolveu em si o talento de leitura labial. Não havia dominado completamente aquela arte da fofoca, mas o pouco que conseguiu pegar da conversa parecia algo como:

“Tá a fim de dançar um forró comigo, Te?”

Ela riu. Pensou ser um bom sinal até estreitar os olhos para entender o que ela tava falando.

“Arreda o pé, moleque. Ainda não tô fazendo caridade não.” 

Cadu soltou uma risadinha, com todo o respeito do mundo à carinha de tristeza que o Byun tinha enquanto voltava para perto dos amigos, com o rabinho entre as pernas e o maior bico do mundo.

— Caridade do terceiro ano tá em falta pra os meros mortais, né? — brincou Sarah enquanto via o amigo se encolher na jaqueta novamente, virando a cara ainda com aquela marra que tentava manter.

— Não sei do que cê tá falando. — Bernardo resmungou, enquanto Cadu soltou um risinho baixo.

— Se faz você se sentir menos pior, se lembre que ela e todo esse povinho do terceiro se acham os donos da escola, não é surpresa nenhuma ela ser assim, ainda mais contigo que tem essa carinha de menininho criado por vó… Nada contra! — quem comentou dessa vez foi Jorginho.

— Eu sei, eu sei. Relaxem ai, não é como se o mundo tivesse acabado pra mim…— Deu de ombros, mas assim que virou a cara para a direção de Cadu, o Park percebeu pelo tamanho daquele bico que sim. Talvez parte do mundinho do Byun tivesse acabado, parcialmente.

Mal deu tempo de Kauê também zoar o amigo, já que sua atenção foi desviada quando escutou a música que tocava.

— É minha música! Meu deus! Sasa, você tem que dançar essa comigo! — O rapaz disse, já segurando na mão da amiga, que sequer teve tempo de dizer algo, foi logo puxada pelo Do.

— Mari… — Jorge choramingou, vendo a garota negar com a cabeça.

— Nem venha. Já fiz muito aceitando dançar contigo na quadrilha.

— Só essa música, vai! E eu juro que não vou te perturbar até o próximo São João. — Ok, era uma baita mentira, e Marina sabia disso, e mesmo sendo terrível quando se tratava de dança de salão, ela não conseguia negar os pedidos de Jorge quando ele encostava a cabeça em seu ombro e pedia tudo daquele jeitinho.

— Tá… Mas só essa! 

E quando menos perceberam, sobrou apenas Bernardo e Cadu ali no pé da fogueira, dividindo a jaqueta de couro do Park enquanto observavam os pares formados balançando o corpo em movimentos lentos e ritmados, o mais alto cantarolava baixinho.

— Sabe o que acho?

— Não, mas tenho é medo de saber.

Um estalar de língua pôde ser ouvido.

— É sério. Presta atenção — disse ele antes de Cadu virar a cabeça na direção dele, os rostos tão próximos um do outro que Bernardo conseguia sentir a respiração do amigo perto de si, os ombros se roçando e o olhar do Park parecia estar ainda mais brilhante perto da fogueira. Aquilo era no mínimo estranho, não sabia o motivo de estar reparando tanto nele, e nem sabia quando ele havia ficado tão fascinante para si. “Deve ser a carência depois de ter sido rejeitado”, pensou consigo mesmo antes de continuar a falar. — Eu acho que você deveria ser um bom amigo e dançar comigo, sabe? Como forma de agradecimento por eu ter sido tão humilde ao ponto de te trazer pra cá.

— Humilde? Você que me sequestrou de minha casa. 

— Eu te salvei daquela prisão, isso sim! E outra, acha que eu não percebi seu sorrisinho besta a noite toda?

Droga, Cadu havia sido descoberto.

— Independente. Eu não sei dançar. Esquece que essa não vai rolar, viu?! E nem adianta me olhar com esses olhos esbugalhados e esse bico do tamanho do mundo!

Bernardo bateu o pé.

— Vai, por favor! Faz isso por mim que foi humilhado, rejeitado e tirado pra caridade! 

— Você tá apelando. Nem foi tão ruim assim.

— E daí? Eu fiquei sentido e você deveria me consolar — pontuou.

Cadu suspirou, os olhos revirando antes de olhar para o amigo mais uma vez. Olhar de verdade. E céus, ele odiava como o Bernardo tinha aquele dom único — e perigoso — de lhe meter em situações que nunca imaginou se enfiar, porque com certeza dançar forró com o Byun não estava em sua lista de metas do ano.

Mas então, mesmo entre resmungos e reviradas de olhos, lá estava Cadu, deixando que Bernardo ditasse onde suas mãos ficariam, a distância entre ambos, e como eles deveriam se mover.

— Não é tão difícil, oh. Só me observa que você aprende. 

E o Park realmente observou como o par de pés se moviam de lá pra cá. Ele fazia parecer tão simples…

— Tenta você agora — disse antes de observar o amigo. Os passos eram meio tronchos? Eram. Desajeitados e descoordenados? Com certeza. Porém, algo bem no fundinho do Byun achava aquilo até mesmo fofo. — Ok… Isso é… é algo né. — Ele sorriu para o Park antes de colar ainda mais ambos os corpos, pertinho um do outro, uma perna sua entre as dele.

Naquela altura, mesmo que agora estivessem longe da fogueira, ainda sentiam um calor reconfortante no ar, e Bernardo teve que se concentrar muito para não perder o ritmo dos próprios passos. Sério, ele queria muito entender o que estava acontecendo consigo naquela noite…

— No mesmo tempo que eu. — Ele começou, e Cadu obedeceu.

Os pés começaram a se mover no mesmo ritmo lentinho, que aos poucos foi tomando forma e, quando o Park se deu conta, estava dançando. Dançando mesmo! Com direito a uma voltinha e tudo mais. Cadu tentava manter a cara amarrada, só tentava mesmo porque, sem nem se dar conta, um sorrisinho estava surgindo em seus lábios.

— Tá vendo? Você até que é jeitosinho pra isso — murmurou Bernardo, pertinho da orelha do amigo, arrancando dele uma risadinha.

Cadu, ao contrário, tinha uma pequena careta no rosto: o cenho franzido, o maxilar trancado e os olhos fixos nos pés do amigo. Estava concentrado. Simplesmente se esforçando muito para não pisar no pé dele, porque jurava que seria a coisa mais humilhante do mundo se, no meio do “dois pra lá, dois pra cá”, pisoteasse o amigo.

E além do mais, tinha algo de extremamente desconcertante na perna do amigo entre as suas. Observando os demais casais, tinha certeza de que era assim mesmo. Todos eles estavam agarrados daquele mesmo jeito, então por que Cadu ficava tão nervoso? Sentiu um revirar no estômago característico demais para fingir que não estava ali, mas preferiu pensar que era vergonha por estar dançando e nada além disso. Nada, nadinha além disso! 

Embora já estivesse olhando Bernardo de um jeito diferenciado há alguns meses. Mas aquilo não fazia sentido. Não quando eram melhores amigos desde sempre e o Park não queria nem imaginar como seria se todo aquele sentimento estranho evoluísse para algo a mais.

— E a regra principal do forró: tem que olhar pro parceiro enquanto dança, sabia? — brincou, fazendo Cadu encarar o rosto dele, percebendo que havia se perdido nos próprios devaneios por mais tempo do que deveria. — Mas até que é bonitinho ver você concentrado.

Cadu riu… de nervoso, porque aquele sorrisinho malandro de Bernardo conseguia quebrar o próprio Park facilmente. Se achava ridículo por estar observando o Byun com aquele olhar. O olhar de alguém que poderia facilmente beijá-lo ali mesmo se fosse louco o suficiente, e se não estivessem dançando “Você Endoideceu Meu Coração”.

O que ele não sabia, era que Bernardo se encontrava no mesmo dilema. Aquele friozinho na barriga que sentia enquanto dançava com o amigo, pertinho dele o suficiente para que seus olhos se prendessem a figura alta e meio desengonçada dançando consigo. Se achava o Cadu adorável naquela situação? Com certeza. Mas, tinha algo mais, uma admiração diferente. Estranha. Aquele tipo que sentia quando estava perto de uma gatinha que estava afim, só que multiplicado por mil. E aquilo lhe assustava, muito. Porque jamais imaginou estar cogitando dar beijinhos em seu melhor amigo, muito menos enquanto estavam dançando um forró agarradinhos.

Assim que a música parou, alguns casais saíram da pista, outros permaneciam, esperando a próxima música. Porém, Bernardo e Cadu continuavam ali, sem saber exatamente o que fazer, porque a única coisa que tinha certeza era que não queria se afastar um do outro.

Os dedos do Byun apertaram mais a cintura alheia, sentindo o tecido de couro da jaqueta amassar entre seus dedos. As bochechas de Cadu estavam vermelhinhas — devia ser por conta do frio, vergonha pela dança ou qualquer outra coisa —, e o estômago de Bernardo revirou com a visão. Por Deus, estava mesmo cogitando puxar o amigo para um canto e enchê-lo de beijos até ver aqueles olhinhos enormes lhe encarando cheios de surpresa. Estava, de verdade, pensando sobre a possibilidade de agarrar seu melhor amigo desde que se via como gente. Só podia estar ficando louco!

— Cadu, eu… — soltou a mão dele só para passar as mãos nas próprias madeixas, mais por nervosismo do que por estar de fato organizando alguma coisa ali. — Eu vou ali no banheiro, preciso lavar o rosto.

Sua intenção com isso era única e totalmente de afastar-se dele um pouco. Se continuasse ali perto, iria acabar fazendo alguma coisa que faria com que se arrependesse amargamente para o resto da vida. Ia, sim, aproveitar para lavar o rosto, deixar alguns tapas nas próprias bochechas e obrigar-se a parar de maluquice. Só não contava que Cadu quisesse fazer a mesma coisa.

— Ah, sim. Bora lá, então.

Merda, Bernardo pensou.

— Bora.

E foram os dois, andando meio esquisitos, completamente constrangidos e sem jeito, caminhando até o banheiro. No começo da festa, estava uma fila quilométrica ali, que fazia um corredor inteiro, mas a esse ponto muita gente já tinha ido embora, e agora só restava os dois e uma música distante. 

Bernardo não disse nada, ligou a torneira, deixou a água escorrer entre seus dedos num silêncio pesado que fazia Cadu certinho de longe que havia algo errado ali. Conhecia bem o Byun para saber que ele era do tipo de pessoa que não ficava mais de cinco minutos sem falar, ainda mais em festas como aquela.

— ‘Cê tá bem? — perguntou, de braços cruzados enquanto observava o corpo do amigo enrijecer.

O Byun virou lentamente o rosto, agora úmido, encarando o semblante preocupado de Cadu.

— Eu tô! Só… não sei, tô me sentindo estranho.

— Estranho como? Tá sentindo o que? Quer ir pra casa?

— Não é nada demais, é só uma coisa estranha, não sei. — não fazia ideia de como definir aquele misto de sentimentos, nem como explicar ao seu melhor amigo aquela sensação confusa que estava tendo quando olhava para o Park.

Cadu se aproximou, se aproximou, segurando na mão do rapaz.

— Se você não dizer, não tem como eu te ajudar, .

Bernardo engoliu seco. Embora tivesse uma lábia ótima, um sorrisinho que convencia qualquer um, quando se tratava de Cadu, o Byun era um fracote.

— Relaxa, Du. Eu tô de boa, juro pra tu. Tô relaxado, tô tranquilo. Muito tranquilo.

O Park estreitou os olhos, o rosto ainda mais próximo do rosto de Bernardo.

Que merda, por que ele parece ainda mais bonito de perto? O Byun pensou.

— Bê… conta o que aconteceu, vai — Cadu pressionou o rapaz, chamando-o com aquele tom meio dengoso que fazia Bernardo sentir um arrepio gostoso percorrer sua nuca. 

Mordeu o próprio lábio inferior, encolhendo-se na tentativa de reprimir aquela vontade que fazia seu coração bater mais rápido toda vez que seus olhos encontravam o do melhor amigo.

— E-eu… — Seus lábios se entre abriram. Não sabia como começar a dizer, e nem o que dizer exatamente. Como explicaria que estava doidinho para dar um beijinho no amigo? — Du, é complicado. — Ele riu nervosamente, e o Park ficava cada vez mais perto, os olhos grandões, e marcados por um lápis de olho preto, encarando a si, os dedos longos acariciando sua mão…

Bernardo não aguentou-se, mas também não se arrependia de ter feito aquilo.

Segurou em cada uma das bochechas do Park e, finalmente, deixou um selinho demorado nos lábios alheios.

Porra.

Aquele tinha sido o melhor selinho da vida dos dois.

— Bê? — Foi tudo o que o Park conseguiu dizer, com o rosto em surpresa genuína enquanto Bernardo compartilhava da mesma expressão, com o rosto mais vermelho do que o blush de Sarah. Cadu nunca imaginou que veria o melhor amigo daquele jeito: tímido, desconcertado e completamente corado.

— Desculpa, Du. Não sei o que… — Mal conseguiu terminar de falar porque, dessa vez, foi o mais alto que não conseguiu se controlar.

Mais uma vez, os lábios de ambos se uniram em um beijinho demorado, os olhos fechando, a cabeça pendendo levemente para lados opostos enquanto que, por alguns segundos, Cadu relevou que estava acontecendo o que mais temeu no começo daquela noite: beijar ao som de Calcinha Preta.

"Eu não desistirei jamais

Viro manchete dos jornais

Eu vou fazer de tudo pra não te perder

Porque amo você"

“Manchete dos Jornais” era a trilha sonora para o que seria o primeiro de muitos beijos trocados pelos dois rapazes. A mão do Byun, que antes movia-se inquieta na tentativa de controlar a si mesmo, envolveu a cintura do mais alto para puxar-lhe mais perto, como fazia sempre que beijava uma garota. Com ele, parecia um pouco diferente, mas não era ruim. Era só uma incompatibilidade de tamanhos — que estranhamente acabou gostando. 

Sentiu-se minúsculo quando a mão grande do Park envolveu sua nuca e embrenhou os dedos em um cafuné, que lhe fez amolecer inteirinho. Ele já lhe conhecia o suficiente para saber o quanto gostava de cafuné ali, e não hesitou em fazê-lo durante o beijo. 

Os dois estavam tão à vontade, beijando-se com leveza e calmaria, e os corpos quase sem querer se movendo no mesmo embalo da música romântica distante. Bernardo e Cadu só se afastaram no momento em que ouviram o som de fogos de artifício do lado de fora, o que acabou assustando-os levemente. Mas sinceramente, nem chegaram a se afastar de fato; tudo o que fizeram foi encostar as testas e se encarar com sorrisinhos tímidos.

— Você… A gente… — Cadu começou, meio envergonhado. — A gente deveria ter feito isso?

Bernardo não conseguiu evitar um risinho baixo.

— Rapaz… Capaz que não. — comentou, deixando uma carícia leve no braço coberto pela jaqueta. — Mas quem é que vai impedir a gente?

Cadu ficou observando o rosto do amigo de perto por mais tempo, a pontinha do nariz tocando a pontinha do nariz dele e as respirações mornas se misturando de forma suave e estranhamente confortável. Sem pensar muito, segurou-o pelo queixo e o puxou para mais um beijinho suave, um pouco mais demorado que os dois primeiros. Quase passaram mais tempo ali do que o necessário, mas quando ouviram sons de conversas se aproximando pelos corredores, afastaram-se como um pulo.

— É… Melhor voltar pra festa, né?! — Bernardo perguntou, entre um risinho sem graça e uma coçadinha na nuca. Encarava tudo ao redor, com exceção do amigo. Todavia, em seu rosto, estava o sorriso mais bobo do mundo, e suas bochechas estavam mais vermelhas que maçã do amor.

— Sim, sim, ‘bó voltar… — Cadu riu nervoso de volta e, arriscadamente, segurou a mão do melhor amigo e enlaçou os braços, antes de carregá-lo de volta ao pátio.

Os amigos desconfiaram bastante sobre o motivo de aqueles dois estarem parecendo dois tomates e rindo como dois idiotas, mas ninguém perguntou nada sobre. E quer saber o porquê? Porque eles nem deixaram. Ficaram o resto da festa agarrados dançando um arrasta-pé dos bons a noite inteira.

A volta para casa então? Nem se fala. 

Depois de se despedirem dos amigos, lá estavam os dois: numa caminhada silenciosa pela rua onde Cadu morava. Até porque, segundo Bernardo, ele precisava garantir que seu amigo chegaria em casa com segurança, já que foi o próprio Byun que o ajudou na fuga de casa; embora a pura verdade fosse que ele só queria aproveitar um pouquinho mais da companhia do melhor amigo, mas ninguém precisava saber desse pequeno detalhe. Não havia ninguém na calçada e estava com o típico vento gelado de todas as noites de junho, o que era um pretexto perfeito para andarem de mãos dadas, colados um no outro, mesmo que estivessem um tanto quanto sem jeito em fazer aquilo, dar ouvidos aquela vozinha na cabeça de ambos que dizia o quanto queriam estar perto um do outro estava fazendo valer a pena a certa vergonha que sentiam.

Pararam somente quando chegaram pertinho da casa da família Park, mais especificamente, perto da janela que deu início àquela noite.

— Então… — Bernardo começou, pigarreando baixinho. — A gente se vê segunda?

— Acho que é… Ainda tô de castigo até a faculdade, segundo minha mãe — brincou, num tom risonho antes de olhar para os próprios pés, tentando disfarçar o quanto ainda parecia envergonhado apenas em relembrar aquele acontecimento específico.

— Relaxa, eu te ajudo a fugir de novo a qualquer hora — falou com aquele sorriso de sempre, arrancando uma risada de Cadu. — E quase que eu ia esquecendo disso — Bernardo falou, tirando a jaqueta de couro que havia esquecido completamente de devolver, mas que o Park sequer fez questão de pedir de volta, afinal, aquela visão do amigo com a sua jaqueta era o suficiente para aquecer o mais alto por completo.

— Não precisa. Tá frio e você ainda tem que ir pra casa. Eu devolvo depois.

— Certeza?

 

— Sim!

Bernardo sorriu minimamente, mordendo os lábios como se ainda tivesse algo a ser aqui, mas se conteve apenas em virar as costas, preparado para ir embora… antes que sentisse os dedos gélidos segurando seu pulso, não pensei duas vezes antes de virar, ganhando um selinho rápido, que com certeza faria parte de seu melhor conjunto de lembranças daquele ano.

— Boa noite , Bê

— Boa noite , Du.

Foi tudo o que disseram antes de Cadu continuar ali, observando-o de longe resumir aos poucos enquanto pensava que talvez, mas só talvez, Calcinha Preta não fosse tão ruim assim…

Isso até a mamãe Park aparecer no meio da calçada com uma touca de cetim no cabelo, de pijama e com uma chinela Havaianas na mão em direção ao filho, é claro. Cadu infelizmente precisaria passar mais algumas semanas ouvindo música emo sozinho no quarto depois da fuga inesperada.  Mas isso é só um detalhe bobo.