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Noites em Hopeland

Summary:

Wolfwood retornou ao orfanato onde cresceu em busca de refúgio e um lugar para Vash descansar. Porém Vash não estava preparado para lidar com várias crianças ao mesmo tempo, nem mesmo pronto para ouvir uma declaração de amor de seu melhor amigo.

Vash e Wolfwood acabam dormindo juntos em Hopeland e as crianças do orfanato descobrem sobre seu relacionamento.

Notes:

Essa história se passa logo depois do episódio 8 de Stargaze

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Wolfwood estava ferido. Após fugir da Arca com um Vash exausto nas costas, e ter de lutar contra seu irmão com dupla personalidade, Wolfwood finalmente pôde descansar em paz no antigo orfanato onde cresceu. Ele pôde relaxar em segurança ao lado das únicas pessoas que confiava. Sra. Melanie ofereceu um quarto para os três novos visitantes, um espaço apropriado. Wolfwood teve a sorte de ficar com o colchão maior para descansar.

 

Em contrapartida, Vash não dormiu naquela noite. Apenas ficou sentado numa cadeira próxima, observando Nicholas dormir. O peito do homem deitado subia e descia devagar, respiração lenta e relaxada. Dessa vez, Wolfwood levaria alguns dias para se recuperar por completo, e era exatamente essa parte que Vash temia. Em tantos anos já viu gente demais morrer das mais diversas formas, tinha medo do homem parar de respirar enquanto dormia. Permaneceu de vigia durante toda a noite.

 

No dia seguinte, Vash fez o café da manhã. Mais de 150 anos tendo experiências com comidas serviram pra algo. Usou os ingredientes da dispensa e teve a criatividade de fazer panquecas doce, mesmo com poucos recursos. Quando a Senhora Melanie acordou, Vash já havia preparado cerca de vinte panquecas para todos. Ela se surpreendeu com as habilidades culinárias do rapaz e o ajudou a terminar de fazer o café. 

 

Aos poucos outras crianças foram acordando e se juntando ao café da manhã. A mesa de repente ficou cheia. Lívio e Wolfwood também se juntaram aos outros. O orfanato ficou barulhento. Muito barulhento, com o falatório de tantas vozes. Logo depois da refeição matinal as crianças mais velhas permaneceram na cozinha para ajudar Melanie a arrumar a bagunça deixada. Enquanto isso as crianças mais novas correram para fora na intenção de brincar. 

 

Mal se passou cinco minutos e uma pequena menina voltou correndo, puxou o casaco de Vash ansiando por atenção. Ela apontou para o lado de fora alertando sobre um dos meninos ter ficado preso no telhado do orfanato. Vash parou o que estava fazendo e correu para fora, olhou pra cima e lá estava o garoto, com cerca de sete anos, sentado na beira do telhado. 

 

— DANIEL! COMO VOCÊ SUBIU AÍ?!! — Vash perguntou incrédulo — DESCE AGORA! 

— Só se for pulando!

— NÃO PODE PULAR DAÍ, É MUITO ALTO!

— Posso sim! — o garoto insistiu

— VAI QUEBRAR A CABEÇA! 

— JÁ TÁ QUEBRADA! — ele apontou para um machucado na testa, proveniente de outra travessura

 

THUMP.

 

A criança saltou com tudo na direção de Vash. O mesmo agarrou Daniel por reflexo e ambos caíram no chão. O susto foi tão grande que seu coração quase saiu pela boca, pelo menos o garoto não se machucou. Wolfwood, que estava encostado na janela com um cigarro na boca, olhou curioso. Riu da tentativa falha do amigo em ser babá.

 

Antes que Vash pudesse se aproximar de Wolfwood uma criança passou correndo pela porta, seguida por outra, depois mais três. Uma delas parou, olhou para Vash e apontou:

— Porque você usa esse casaco vermelho tão grande? Você é um palhaço? — disse um garotinho

— Não sou um palhaço!! — Vash respondeu sem graça

— É sim.

— NÃO SOU!! — agora ele começou a se irritar 

 

Wolfwood soltou uma risada baixa, claramente se divertindo vendo a cena em Vash estava perdendo a discussão com uma criança. 

 

— Você tem cara de quem tropeça sozinho. — disse o menino

— EU NÃO TROPEÇO SOZINHO!

 

No mesmo instante, Vash virou para trás… e tropeçou em um balde largado no caminho. As crianças começaram a rir. Wolfwood cobriu o rosto com a mão em descrença. Como pode um pistoleiro tão habilidoso ser tão tapado com crianças. Agora com o joelho ralado, Vash conseguiu alcançar Wolfwood no lado de dentro do orfanato e ganhou um breve conselho.

 

— Se você vacilar essas crianças vão arrancar seu couro. Vash, você precisa ser mais firme! 

— Estou tentando. Acho que não dou conta de tantas de uma vez. 

— Juro que não sei como a tia Melanie conseguia cuidar de todos nós sozinha.

 

Uma menina de tranças apareceu do nada e apontou para os dois rapazes conversando na janela da sala.

 

— Nico, você e o tio Vash são namorados?

 

Um silêncio mortal surgiu com a pergunta. Nicholas ficou vermelho na hora. Vash também envergonhado teve que questionar sobre a curiosidade da garota:

— Porque você acha isso?

— O Nico chegou aqui pedindo ajuda pra gente cuidar de você. E ontem você estava tão preocupado com o Nico que nem dormiu. Isso quer dizer que vocês dois estão namorando? Vocês se beijam?

 

Wolfwood respondeu agora muito irritado. — NÃO É DA SUA CONTA, ABIGAIL!!!

— Então são! — a garotinha riu da vergonha dos dois

— SOME DAQUI PIRRALHA! 

A criança saiu correndo, satisfeita. Vash ainda estava em choque com a sugestão. — Ela… tirou conclusões precipitadas muito rápido! 

— São crianças. Inventam coisas.

 

___________

 

Era o começo da noite, do lado de fora do orfanato Vash estava sentado em uma rocha, olhando para o céu estrelado quando percebeu a aproximação de Nicolas. Desceu e se juntou ao amigo para uma longa conversa. Wolfwood ainda precisava do apoio da muleta, mesmo assim cruzou os braços, claramente incomodado com alguma coisa. Ele olhou pro chão, depois pro céu, depois pra Vash… e bufou.

— Que saco.

— O quê?

— Eu não sou bom com essa coisa de sentimentalismo. Merda eu tive que chegar à beira da morte pra perceber isso.

— Do que você está falando? 

— Às vezes eu queria não ter te conhecido!

 

Vash levantou a sombrancelha não entendendo o que Wolfwood queria dizer, mas então o homem continuou:

 

— Sabe, eu já fiz coisa demais que não dá para apagar. Matei e enganei muitas pessoas... — a voz dele ficou mais baixa — E quando o Knives me contratou pra te levar até July, achei que você seria só mais um babaca igual os outros. Mas então, eu te conheci de verdade...

 

Eles se sentaram no chão de areia. 

 

— Você não era um deles. Você com esse jeito idiota de acreditar nas pessoas. E de algum jeito… fez eu querer acreditar também.

 

Wolfwood soltou um riso curto, coçou o pescoço em nervosismo com a declaração — Você é a única coisa nesse mundo que me faz querer ser melhor do que eu sou. E... Isso me faz... querer passar meus amanhãs com você. 

 

Vash olhou pra Wolfwood, os olhos brilhando. — Isso foi a coisa mais bonita que alguém já disse pra mim.

 

Wolfwood bufou. — Não se acostuma. Eu disse que não sou bom com sentimentos.

 

O silêncio caiu entre eles, quebrado apenas pelo vento frio do deserto. Vash continuava olhando para ele com aquela doçura impossível. Wolfwood apertou a mandíbula, desconfortável, mas não se afastou. Em vez disso, sua mão direita segurou a gola da jaqueta vermelha de Vash, puxando-o para mais perto.

— Para de me olhar assim… — murmurou, voz rouca. — Como se eu fosse alguém que merece isso.

Vash sorriu de leve. — Mas você merece, Nicholas.

 

Foi o suficiente. Wolfwood soltou um som baixo, quase um rosnado, e puxou Vash com força para seus lábios. O beijo começou brusco, urgente, cheio de tudo que ele não conseguia dizer. Tinha gosto de cigarro barato. Vash congelou por meio segundo antes de corresponder, as mãos subindo hesitantes até o peito dele, sentindo o coração acelerado por baixo da camisa preta.

O beijo foi ficando mais lento, mais profundo, como se aquele momento fosse só deles e esses minutos eram preciosos. Quando se separaram, as testas ficaram coladas. A respiração de Nicholas estava pesada.

— …Merda — sussurrou ele, quase rindo de si mesmo. — Eu realmente fiz isso.

Vash riu baixinho, o nariz roçando o dele. — Eu gostei. Parece que Abigail tinha razão.

 

Wolfwood fechou os olhos, ainda segurando a jaqueta vermelha. — Então aguenta. Porque agora que eu comecei… não sei se consigo parar.

 

 

__________

 

 

Mais tarde, quando finalmente a hora de dormir chegou, o caos diminuiu. Aos poucos, as crianças foram se ajeitando nas camas espalhados pelo grande quarto coletivo. Algumas ainda cochichavam, outras já dormiam abraçadas em cobertores finos. Vash observava tudo com olhos brilhantes.

 

— Aqui parece... bem aconchegante — ele comentou, em voz baixa.

Wolfwood deu de ombros. — Sempre foi.

— Você dormia aqui também?

— Aham. 

Vash sorriu de leve. — Deve ter sido bom ter tanta companhia pra dormir.

 

Wolfwood não respondeu na hora. Ele apenas caminhou até um canto onde ficavam guardados os colchões sobressalentes. Como Nicholas ainda estava debilitado, pediu a ajuda de Lívio para carregar dois desses colchões e seguiram para outro quarto um pouco menor. Nicholas fez questão de exigir que os colchões ficassem um ao lado do outro no novo cômodo

 

— A gente fica aqui a partir de agora.

Vash piscou em dúvida. — Aqui? — Vash olhou para os dois colchões já forrados, mas eles eram três.

— É. Somos adultos e obviamente dormimos em quartos separados das crianças. 

— Oh, não se preocupem comigo. — Lívio respondeu a dúvida de Vash — Vou dormir no outro quarto de hóspedes. Além disso não quero atrapalhar vocês, irei acordar bem cedo pra ajudar a Tia Melanie. Então, boa noite para os dois.

 

Vash continuou encarando a proximidade dos colchões mesmo depois de Lívio ir embora — Mas... então nós dois vamos dormir juntos?

Wolfwood olhou pra ele com aquela expressão de “você é burro ou só finge?”

— Quer que eu te coloque no telhado?

— NÃO FOI ISSO QUE EU QUIS DIZER!!!

 

Quando finalmente se deitaram, o quarto já estava totalmente silencioso. Eles ficaram lado a lado, olhando para o teto. Por alguns segundos, nenhum dos dois falou nada. Mas então Vash decidiu quebrar o gelo.

— Wolfwood...

— Hum.

— Você era… feliz aqui?

A pergunta ficou no ar. Wolfwood respirou fundo, olhando para o teto escuro.

— Acho que sim... Eu tive o que precisava.

 

Não era exatamente uma resposta, mas também não era mentira. Vash virou o rosto para ele, com aquele olhar suave de sempre. — Fico feliz que você não esteve sozinho.

 

Vash voltou a olhar para o nada, corpo ainda tenso.

Como se estivesse esperando alguma coisa dar errado. Wolfwood soltou um suspiro pelo nariz, jogou um braço sobre os olhos, como se tentasse convencer o próprio corpo a descansar, mas notou a inquietação do parceiro.

— Você vai dormir ou vai só ficar olhando pro teto a noite inteira? — ele resmungou.

Vash não sabia como reagir — Eu só… não tô com sono agora.

Wolfwood abaixou o braço, olhando pra ele de lado.

— Mentira! O que foi? Desembucha logo.

Vash desviou o olhar. — Eu não… costumo dormir assim. Sabe, ao lado de alguém.

 

A frase saiu baixa, causando estranheza. Wolfwood ficou encarando por um segundo, então decidiu mudar de posição. Mexeu-se devagar na cama, empurrou Vash para que ficasse de lado e envolveu seu braço na cintura do mais velho. Wolfwood o agarrou de lado, agora ambos estavam deitados de conchinha.

 

— É melhor ir se acostumando. 

 

Vash ficou parado, sem saber como reagir. Como se aquilo fosse mais difícil do que qualquer batalha que ele já enfrentou. Wolfwood se encolheu no aperto, encostando sua testa na nuca de Vash e o tranquilizou.

— Relaxa… — murmurou, a voz rouca de sono — Não vou passar desse ponto. Vamos apenas dormir.

 

Algo no peito do Vash despertou. Ele cedeu ao contato extremamente próximo. Sentiu o calor do corpo do homem ao lado que lentamente o aquecia. Aquilo era bom. O corpo dele relaxou apenas alguns minutos depois, como se, sem perceber, estivesse esperando por isso há anos. Wolfwood soltou um suspiro baixo e apertou mais o abraço entre eles.

— Vash…

— Hm?

— Se você fugir, de manhã eu te caço.

Vash soltou uma risadinha fraca, já com a voz pesada de sono. — Não vou fugir.

 

Dessa vez ele estava falando sério. Vash não queria ir embora, estava gostando da sensação, e Nicholas não precisou fingir que não se importava. Pela primeira vez os dois dormiram relaxados, sem o medo e as preocupações do amanhã.

 

__________

 

A luz do sol entrava fraca pela pequena janela do quarto. Nicholas ainda estava agarrado à cintura de Vash, provavelmente para que ele não saísse de perto durante a noite. Um som estranho de passos leves e curtos pôde ser ouvido pelo quarto. O som de vozes agudas sussurrando lentamente acordou Vash. 

 

No momento em que abriu os olhos, seu sangue gelou. Um par de pequenos olhos arregalados o encarava, um menino estava observando-o enquanto dormia. Atrás dele outras quatro crianças também estavam ali. Nicholas acordou em sequência, se assustando com uma certa garotinha, a Abigail, o encarando com um sorriso genuíno no rosto, foi então que ela literalmente gritou:

 

— EU DISSE QUE ELES TAVAM NAMORANDO!

Wolfwood levantou num pulo. — O QUÊ?! Que porra é essa?!

— Nico, não pode xingar! — diz Daniel ainda rindo baixinho — Tia Melanie vai brigar com você!

— Saiam daqui, seus pestinhas! Não têm o que fazer não?!

As crianças não se mexeram. Na verdade, riram ainda mais alto. Abigail cruzou os bracinhos, muito orgulhosa:

— Eu sabia! Desde que vocês chegaram eu falei pra todo mundo que vocês eram namorados. O tio Vash olha pro Nico com carinha de bobo.

Wolfwood passou a mão no rosto, irritado, mas com as orelhas levemente vermelhas.

— Nós não… não é… ah, pelo amor de Deus! Vão brincar lá fora antes que eu levante e use a muleta em vocês!

Vash, ainda deitado, cobriu o rosto com as duas mãos, completamente envergonhado, mas não conseguia parar de sorrir por baixo dos dedos.

— Abigail… não é bem assim… — Vash tentou explicar, mesmo com a voz abafada.

— É sim! — responderam as crianças em coro, rindo.

Uma das meninas mais velhas sorriu com doçura.

— Mas tudo bem. Vocês podem ser nossos tios. Tios namorados. A gente gosta de vocês.

Abigail concordou, balançando as tranças e Daniel ressaltou: — É! Vocês são da família agora. A gente aceita o tio Vash, ele faz panquecas gostosas.

Wolfwood soltou um suspiro longo e derrotado, passando o braço ao redor dos ombros de Vash de novo, dessa vez de propósito, como se quisesse proteger ele das crianças. 

— Vocês vão me matar de vergonha um dia… — murmurou Vash, ainda vermelho, mas se inclinando um pouquinho contra Wolfwood.

— Já matou. — resmungou Nicholas, mas sua voz saiu mais suave do que ele queria. — Agora vão embora, deixem a gente levantar em paz.

As crianças saíram correndo pelo corredor, rindo e gritando “Tios namorados! Tios namorados!”.

Quando a porta fechou, Wolfwood olhou para Vash, que ainda estava escondendo metade do rosto.

— …Você tá bem vermelho, Stampede.

— Cala a boca — murmurou Vash, mas não conseguia parar de rir baixinho.

Wolfwood bufou, puxando ele para um abraço rápido e bagunçando seu cabelo loiro.

— Pelo menos as crianças aprovaram. Agora você é o “tio namorado” oficial.

 

Fim.

Notes:

Pensei em escrever um momento fofo entre VashWood e as crianças de Hopeland então surgiu essa ideia. Espero que tenham gostado ^^