Chapter Text
De John H. Watson ao Sr. Sherlock Holmes
Enviada em 12 de abril de 1895
Meu caro Holmes,
Escrevo-lhe do trem. Não sei bem porquê — a carta só será enviada quando eu chegar, e o senhor a lerá depois que eu já estiver instalado. Talvez seja apenas a necessidade de ocupar as mãos enquanto a paisagem corre.
Vendi o consultório. A decisão foi mais fácil do que eu esperava, o que me assusta um pouco. Durante anos, a medicina foi a única certeza que tive fora de Baker Street. Agora, quando entro num consultório, só vejo o que não pude curar.
Não se preocupe — não estou melodramático. Estou apenas cansado.
Vou para um mosteiro beneditino em Yorkshire. Sei que o senhor revirará os olhos ao ler isto, provavelmente comentando algo sobre o cheiro de incenso e a inutilidade estatística da oração. Mas é o que vou fazer.
Há meses que não durmo bem. A casa está silenciosa há demasiado tempo. Pensei em procurá-lo, mas o senhor estava ocupado com o caso de Sussex, e depois veio aquele em Bristol, e depois... bem, o senhor está sempre ocupado. Não é uma acusação. É uma constatação.
O mosteiro aceita hóspedes que desejam fazer retiro. Escrevi ao abade — um homem chamado Dom Ambrose Kennerley, que curiosamente conhecia os meus relatos do Strand — e ele respondeu com uma gentileza que me desarmou. Disse que eu poderia ficar o tempo que quisesse, que havia uma cela disponível e que o silêncio ajudava.
Não sei quanto tempo ficarei.
Escreverei quando chegar.
Seu,
John H. Watson
P.S. — Não tente convencer-me do contrário. Já estou a caminho.
