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Em algum momento, há muito tempo, Zoro ouviu alguém dizer a frase "o amor é cego".
Cego, porque faz você ver coisas que não existem e ignorar outras que estão presentes.
Que maneira peculiar de dizer que o amor te transforma em idiota, pensou ele naquele momento.
E ele também achava que era um exagero. Não fazia sentido. Pelo menos não para ele.
Zoro sempre se considerou uma pessoa guiada pela razão e pela lógica; portanto, mesmo que viesse a se apaixonar, achava ridícula a ideia de que esse princípio se aplicasse à sua vida amorosa.
E então ele começou a pensar que MC, o cara que tinha como companheiro, não era tão feio e estranho assim.
Neste momento, vendo-o gritar com Usopp e Luffy, ele o acha bastante bonito, na verdade.
Zoro precisa de um exame oftalmológico.
Ele precisa remover os olhos e examiná-los minuciosamente.
Algo está errado. Algo fatal. Um vírus. Uma doença. Uma bactéria mortal está corroendo sua retina. Ou algo parecido.
Zoro deve ter problemas de visão.
Talvez o problema não esteja nos olhos dele. Talvez seja na cabeça.
Talvez, por navegar tanto sob o sol escaldante, seu cérebro tenha frito com o calor. Seus neurônios se esgotaram, e é por isso que ele está tendo pensamentos tão estranhos. Claro! Faz todo o sentido, não é...?
Ou talvez seja algo resultante de um golpe que ele recebeu no passado, em alguma briga ou confronto, e que só agora está manifestando suas consequências, fazendo-o acreditar que MC é um homem de beleza incomparável, que bastava olhá-lo de um bom ângulo para entender seu charme.
Que absurdo! Que ridículo! Isso não está certo!
Isso vai contra toda a lógica, a química, a física e tudo o mais.
Há algo de errado em achar MC, dentre todas as pessoas e criaturas existentes, extremamente bonito.
"Ei." O homem em questão responde, com a cabeça inclinada na direção dele, uma sobrancelha arqueada. MC o observa com evidente interesse, e Zoro não consegue respirar direito. Seus joelhos tremem. Seu coração dói. Ele quer gritar e rir.
E que ele dê um beijo naquele companheiro desgraçado, talvez.
Não, não. Vamos ignorar isso.
É que o MC fica muito fofo assim. Os olhos castanhos dele parecem ficar maiores quando ele faz essa pose, os lábios rosados, carnudos e delicados, o nariz enruga de um jeito quase adorável, e...
Zoro precisa de um médico agora.
Um médico especializado em demência. Um mágico, talvez. Talvez ele tenha sido enfeitiçado, amaldiçoado.
Fofo, adorável? Ele está perdendo a cabeça. Esses adjetivos simplesmente não combinam com MC, droga.
"O quê?", ele diz. Assim, sem mais nem menos. Como se não tivesse bebido água e estivesse morrendo de sede. Sua garganta está apertada por palavras estranhas que querem escapar de sua boca, mas se enroscam em sua língua. Zoro não tem certeza do que são essas palavras, mas algo dentro dele (sua dignidade, talvez?) grita que ele deve mantê-las em silêncio, presas atrás dos dentes, incapazes de serem pronunciadas.
MC se aproxima, e ele é perigoso de uma forma que Zoro jamais imaginou. Ele o deixa fora de si. Há algo quase sedutor em seu andar. Em seu olhar inquisitivo, em seus lábios curvados num sorriso pensativo, na pele clara que transparece por entre os nós daquela camisa improvisada que ele veste; músculos definidos emergem, e Zoro deseja cravar os dentes naquela carne até deixar sua marca.
Ela quer lamber o suor do pescoço dele para saciar sua sede, beijar sua boca até ficar sem fôlego e desabar aos pés de MC para lhe dar satisfação da maneira mais básica possível. Da maneira carnal.
"O que foi?" pergunta MC, afastando abruptamente os pensamentos completamente impróprios que estão fazendo as bochechas de Zoro queimarem. A necessidade está levando-o à beira da loucura. Zoro crava as unhas nas palmas das mãos e solta um suspiro lento, forçando-se a recuperar o controle da língua.
"O que você quer dizer?" Ainda mais do que antes. Algo queima dentro do peito dele, fazendo o suor escorrer pela testa quente. Está prestes a explodir. Zoro está realmente tentando fingir ignorância e parecer despreocupado, mas sabe que está falhando. Falhando miseravelmente. É quase patético. MC confirma isso estalando a língua e lançando-lhe um olhar demorado que grita que não acreditou nem um pouco na atuação dele.
"Você está agindo de forma muito estranha desde esta manhã", esclarece MC, apesar de ser desnecessário. Zoro sabe que está agindo de forma esquisita. Provavelmente todos já perceberam. Nesse ritmo, não vai demorar muito para que alguém o veja e entenda o motivo de seu desconforto. Zoro está apavorado. "Você teve um pesadelo ou algo assim?"
Por baixo do tom zombeteiro, há um toque de preocupação. As emoções genuínas do companheiro sempre transparecem nas entrelinhas, um brilho por trás de suas caretas sérias; Zoro aprendeu a ler MC melhor do que ninguém. Ele consegue ver nos olhos dele, na maneira como sua testa se franze. MC está preocupado, bastante inquieto ao vê-lo agindo de forma estranha.
Que fofo.
O estômago de Zoro revira e seu peito esquenta; ele inspira e pisca atordoado, tentando comparar aquela sensação de vertigem com o nojo que lhe embrulhava o estômago toda vez que tinha que encarar aquele rosto desagradável há menos de dois meses... ou já tinham se passado três meses? Quatro?
É impressionante. Em algum momento da sua vida, Zoro teve que fazer de tudo para controlar a expressão facial e não demonstrar o quanto estava irritado por ter que olhar nos olhos do garoto. E agora...
Agora ela precisa controlar a respiração e afastar a emoção que lhe tinge o rosto de vermelho e lhe causa um arrepio na pele. Suas mãos coçam de desejo. De necessidade.
Ela quer passar os dedos pela pele áspera e pelos músculos definidos de MC. Quer acariciar seus cabelos com os dedos e traçar aqueles traços delicados que recentemente a fascinaram. Quer beijar seu queixo, suas bochechas, sua boca. Quer abraçar o corpo menor contra o seu e garantir que respirem juntos, como se fossem um só. Quer entrelaçar seus corpos até que ninguém consiga distinguir onde um começa e o outro termina.
Ela quer aceitar tudo o que seu companheiro lhe der e abrir seu coração para guardá-lo com carinho. Ele quer se entregar completamente, dizer a ele que cada fio de seu cabelo verde lhe pertence. Deixar claro que ele é dono de sua lealdade, de sua força, de sua liberdade. Zoro pertence a ele. Ele é dele para usar, para valorizar, para amar.
Zoro quer dizer-lhe que o ama com todas as fibras do seu ser e quer perguntar-lhe, de joelhos se necessário, se ele também deseja ser amado.
Sua pele formiga, seus dentes coçam, seu sangue queima.
Zoro está apaixonado. Ele está apaixonado como nunca imaginou que pudesse estar.
A revelação o atinge em cheio. Rouba-lhe o fôlego e as forças. Cambaleando, fisicamente afetado pela intensidade de seus sentimentos, MC dá um passo à frente e o segura, olhando para ele com seus belos olhos transbordando uma preocupação mal disfarçada.
Zoro quase sente vontade de empurrá-lo e se libertar. De se atirar a seus pés. Ele quer se ajoelhar e demonstrar sua adoração o máximo que seu companheiro permitir. Ele quer arrancar seu coração e colocá-lo em suas mãos, exigindo que ele o receba e o guarde junto ao seu.
"O amor é cego", murmura ele, quase inaudível, apertando os braços do homem mais baixo por um instante antes de soltá-los e se afastar como se o contato o queimasse. Porque queima. Queima e fere. Zoro se sente paralisado quanto mais se afasta.
Ele leva a mão as espadas embainhadas, numa tentativa de controlar o impulso que pulsa em cada célula do seu corpo e o incita a seduzir aquele rapaz, que aos seus olhos é inegavelmente bonito, que é dono do seu coração e de cada batida que ele dá no seu peito, para um beijo.
Um beijo que lhe roubaria o fôlego. Que entrelaçaria suas almas para que jamais se separassem. Zoro umedeceu os lábios, o rosto corado. A necessidade o fazia sentir-se envergonhado e desesperado ao mesmo tempo.
MC parece surpreso por um instante ao ouvir aquilo; suas sobrancelhas se erguem de forma cômica (e fofa), e sua boca se abre para soltar alguma besteira, obviamente. Zoro não lhe dá chance, vira-se nos calcanhares e segue em direção oposto ao garoto, ignorando o chamado de seu nome vindo daquela boca que o tenta a pecar.
Talvez, se ele treinar até que seus músculos doam, consiga encontrar uma maneira de conviver com essa nova revelação sem enlouquecer. Talvez, se ele se exaurir fisicamente, consiga resistir aos desejos que o consomem e turvam sua mente com pensamentos indecentes.
Caso você esteja se perguntando, isso não funciona.
É completamente inútil.
Antes que a lua se ponha completamente naquele mesmo dia, Zoro se vê mergulhando a língua na boca de seu companheiro, tocando onde quer que suas mãos alcancem enquanto segura MC pressionado contra a parede de... seja lá onde eles estejam. O fogo que o contato acende em seu corpo o consome, e Zoro arde com uma felicidade que poucos homens jamais experimentam.
Os músculos se contraíam sob seus dedos, e MC estremecia a cada toque, a cada sucção e mordida que Zoro lhe dava. Tinha um gosto celestial em sua boca. Zoro nunca se sentira tão feliz quanto naquele momento em que sua boca estava cheia, ouvindo seu companheiro proferir palavras incompreensíveis. Nunca sentira uma sensação melhor do que a de, após cuidadosa preparação, se inserir no corpo de MC.
Ele beija sua boca e bebe de suas lágrimas. Sorri contra a pele endurecida pelos anos de treinamento. Aperta o corpo de MC contra o seu, como desejara horas antes, e o beija de tal forma que recebe golpes no peito e a lembrança de que o outro homem não consegue prender a respiração por tanto tempo quanto ele.
Ela o preenche com sua essência e o ama depois. Seus lábios estão permanentemente curvados em um sorriso, o prazer ainda aquecendo seu sangue.
Zoro se livra de suas preocupações e decide deixar o problema para MC.
Sim, o melhor é deixar que MC encontre uma solução para a situação em que se encontram.
Afinal, foi ele quem causou isso.
Ele e seu charme abstrato.
