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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-07-02
Updated:
2026-07-16
Words:
16,692
Chapters:
5/30
Comments:
9
Kudos:
6
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2
Hits:
175

Quando o tempo quebrou

Summary:

A batalha final entre os irmãos Uchiha. Durante o confronto, Sasuke percebe uma brecha na defesa de Itachi e decide testar um selo roubado de Orochimaru. Quando ele cola o selo no irmão, os dois são arremessados para longe. Sasuke consegue permanecer consciente e presencia uma cena absurda: Itachi é envolvido por uma fumaça preta densa e, quando ela se dissipa, ele não é mais um adulto — virou uma criança de cerca de cinco anos, dormindo tranquilamente no chão.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Chapter 1: O Peso do Sangue

Chapter Text

O som das shurikens atravessando o ar ainda ecoava quando Sasuke viu aquela fresta. Meio segundo de desvio, um ângulo errado na defesa de Itachi — algo que ele jamais teria mostrado antes. O selo queimava contra sua palma, úmido de suor e sangue, e ele não pensou duas vezes. A técnica que roubou de Orochimaru nos porões fedorentos daquele esconderijo não era bonita, não era limpa, e ele sabia que usá-la contra o irmão era um tiro no escuro. Mas o ódio cega, e Sasuke já estava cego há tempo demais para perceber o que fazia. Quando a marca tocou o peito de Itachi, uma fumaça preta e densa explodiu entre eles, quente como um vulcão, e o mundo se desfez em um rodopio de cores e gravidade invertida.

Os dois foram arremessados para longe, atravessando árvores como se fossem papel, até que Sasuke sentiu o impacto nas costas e a visão escureceu por um instante. Acordou com o zumbido nos ouvidos e a boca amarga. A fumaça preta ainda se dissolvia lentamente, e ele se arrastou sobre os cotovelos, cada movimento puxando uma dor aguda das costelas. O chão estava coberto de folhas molhadas e o céu já escurecia quando seus olhos encontraram a figura caída a poucos metros. Não era o Itachi que ele conhecia, não era o homem de olhos vazios e sorriso cruel que massacrou seu clã. Era uma criança. Pequena, frágil, com os cabelos escuros espalhados no chão como tinta derramada e as bochechas redondas demais para qualquer fardo. Quatro anos, talvez cinco. As orelhas pontudas estavam imóveis, não demonstravam medo, não demonstravam nada, apenas quietude de quem dorme sem sonhos.

Sasuke engoliu em seco e sentiu o estômago se revirar. — Isso não é real — sussurrou, a voz rouca. Levantou-se cambaleando e foi até o corpo pequeno. A mão tremia quando tocou o ombro do irmão, esperando uma armadilha, um genjutsu, qualquer coisa que explicasse aquela aberração. Mas a carne era macia, quente, humana. E então ele chacoalhou. Forte, desesperado, como se pudesse sacudir a verdade para fora daquele corpinho minúsculo. A criança acordou com um sobressalto, os olhos negros se abrindo arregalados, e Sasuke viu reflexo no fundo da íris — medo, confusão, nada da frieza que ele aprendeu a odiar. E então Itachi chorou. Um choro alto, agudo, desesperado, que rasgou o silêncio da floresta como uma lâmina. Sasuke congelou. Nunca ouvira o irmão chorar. Não como aquilo, não com os punhos cerrados contra os olhos e os soluços sacudindo o peito inteiro.

— P-Para com isso! — Sasuke tentou, a voz mais alta do que pretendia, e a criança só chorou mais forte, as orelhas pontudas se achatando contra a cabeça em um gesto primal de pânico. Ele não sabia o que fazer. As mãos, que já mataram tantos, pairaram sobre o irmão sem conseguir tocar. E então, por instinto, ele o puxou para o colo. Ajustou o corpo franzino contra o peito, sentiu o peso quase nulo, o cheiro de leite e terra que exalava da pele clara. Murmurou algo, uma palavra antiga, um som que sua mãe usava quando ele acordava assustado de noite.

Aos poucos, o choro de Itachi diminuiu para soluços irregulares, e Sasuke se sentou no chão, as costas contra um tronco, com o irmão, seu familiar, seu irmão, uma criança, aninhado contra ele. A realidade caiu como uma pedra. O selo de Orochimaru. A técnica amaldiçoada.
Itachi era uma criança agora, e Sasuke, tão cheio de ódio há minutos, segurava uma criança que não entendia nada. A culpa era daquela cobra maldita. Claro que era. Tudo sempre era culpa de Orochimaru, mesmo agora que o homem estava teoricamente morto, seus dedos ainda se estendiam para estragar a vida de Sasuke.
Ele apertou os olhos e sentiu a raiva borbulhar, inútil, impotente. Não adiantava matar uma criança, não adiantava odiar aquela criatura que tremia contra ele e o olhava com olhos que pediam proteção. Itachi, naquela forma, não era o monstro que Sasuke jurou destruir. E isso doía mais do que qualquer golpe que o irmão já lhe dera.

Foi quando ouviu o barulho. Galhos quebrando. Passos. Muitos passos. Sasuke ergueu a cabeça e sentiu o sangue gelar: ninjas de Konoha. Claro que seriam. A vida não podia dar trégua. Ele agarrou Itachi com força, sentindo a criança se prender ao seu pescoço como um macaquinho assustado, e correu.
Rasgou a floresta com os pés, cada salto um grito dos músculos, o corpo de Itachi firme contra seu peito. Ele ainda odiava o irmão. Sim, odiava. Mas não mataria uma criança indefesa. E aqueles ninjas de Konoha não tocariam no que era dele. Mesmo que fosse Itachi. Mesmo que tudo fosse um pesadelo.

— Fica quieto — ordenou, e a criança obedeceu, as orelhas se erguendo ligeiramente, captando a urgência na voz. Não adiantou. O chakra familiar, intenso e sufocante, apareceu na sua frente como um muro. Um metro. Não mais que um metro. Naruto Uzumaki, com os olhos azuis furiosos e o cabelo dourado bagunçado pela corrida, estava parado diante dele como um fantasma do passado.

E, por um segundo, Sasuke esqueceu de respirar. O loiro estava mais alto, mais largo, o rosto marcado por linhas de cansaço e determinação, e o olhar que Sasuke conhecia tão bem, que já viu em tardes secretas e noites roubadas, agora o fixava com algo entre raiva e desespero. Sasuke desviou. Não podia encarar aquilo. Não podia pensar no que deixou para trás. Apertou Itachi com mais força e correu na direção oposta, mas a cauda de raposa, quente, avermelhada, como uma energia intensa, que enrolou sua cintura e o puxou para trás com uma força impossível. Ele caiu de joelhos, protegendo o irmão com o corpo, o braço envolvendo a cabeça da criança enquanto o chão subia ao encontro. E, quando levantou os olhos, viu mais. Uma mulher de cabelos rosas o encarava com olhos verdes arregalados, um ninja mascarado que escondia qualquer expressão. E mais alguns que Sasuke talvez devesse ter reconhecido, rodeando-o como animais prontos para o abate.
— Desgraça — Sasuke cuspiu, a língua antiga dos Uchiha escorrendo como veneno. — Não mandei você ficar longe da minha vida? Não mandei você esquecer?

Naruto deu um passo à frente, e Sasuke viu algo fraturar no rosto do loiro. Uma dor que não era nova, mas que estava guardada, enterrada. E, antes que pudesse dizer mais, ouvir mais, ver mais, o mundo escureceu. A calda de raposa ainda estava enrolada nele, Itachi ainda estava seguro em seus braços, e a última coisa que Sasuke fez foi chamar Aoda. A cobra gigante surgiu da fumaça, envolveu os dois irmãos em seus anéis grossos e protetores, e Sasuke sentiu o desmaio chegar com alívio. Não veria a reação de Naruto. Não ouviria as perguntas que não queria responder. Apenas o escuro e o peso de seu irmão contra o peito. Naruto ficou parado por um longo tempo. Os músculos do maxilar contraídos, os olhos fixos na figura desmaiada de Sasuke. Ele ainda podia ouvir a frase, aquela maldita frase, ecoando na língua que Sasuke o ensinou em noites que nenhum deles deveria ter tido.

"Não mandei você ficar longe da minha vida." E ele não tinha obedecido. Nunca obedecerá, mesmo quando Sasuke o empurrava, mesmo quando o odiava, Naruto sempre esteve próximo, sempre esperando, sempre doendo. Agora, ver o Uchiha tão pálido, tão magro, os cabelos longos como seda preta quase tocando o chão, parecia um soco no estômago. Sasuke era uma sombra do que foi, e Naruto sentiu o impulso de tocar aquele rosto, de passar a mão pelos fios escuros, mas não fez. Não na frente de todos.

— O que ele disse? — Ino perguntou, a testa franzida. — Aquele idioma estranho...

— Não sei — Naruto mentiu, a voz plana.

Kakashi se aproximou com cautela, os olhos fixos na cobra que enrolava os dois Uchihas. Aoda estava imóvel, mas cada escama brilhava com uma ameaça silenciosa. O jounin examinou a cena com a calma de quem já viu muitas coisas bizarras, mas até ele pareceu hesitar quando viu o rosto da criança. Itachi. Claro que era. Mesmo pequeno daquele jeito, a semelhança com Sasuke era gritante, os mesmos traços finos, a mesma pele clara, as orelhas pontudas. Mas a criança dormia como quem não tem culpa, e Kakashi sentiu algo se revirar dentro dele.

— É a língua antiga dos Uchiha — Kakashi respondeu a Ino, sem tirar os olhos  dos irmãos. — Não há registro escrito sobre a língua, ela foi passada oralmente. Nenhum Uchiha jamais revelou o nome, e provavelmente nunca revelarão.
Mas Sasuke acabou de usar algumas palavras muito específicas.

— Que palavras? — Shikamaru perguntou, e até ele parecia ter deixado o tédio de lado. Kakashi balançou a cabeça. — Não vou traduzir. Não é meu direito.

Sakura deu um passo à frente, o coração apertado. Ela viu Sasuke, seu Sasuke, tão quebrado e tão longe, e a raiva que sentiu por ele se misturou com a saudade que nunca soube enterrar. Ela se aproximou da cobra, tentando ver melhor a criança, e Aoda sibilou, as presas brilhando. Sakura saltou para trás com um grito abafado, e Kiba soltou uma risada nervosa.

— Cuidado, Sakura — disse Kakashi. — Aoda não vai deixar ninguém tocar em Sasuke ou na criança.

— É o Itachi, não é? — Kiba perguntou, e todos ficaram em silêncio. — O irmão que matou todo mundo? Por que o Sasuke está protegendo ele?

Naruto se virou, o olhar tão afiado que Kiba deu um passo atrás.

Sasuke matou Orochimaru — disse Naruto, a voz baixa, mas cada palavra pesada. — Esquartejou ele e todos os aliados que estavam nos esconderijos. Você não viu? Os corpos? Os esconderijos destruídos? Não foi o que você viu na missão? Kiba abriu a boca, mas fechou. Ninguém respondeu. Kakashi acionou o selo de invocação, e Pakkun apareceu com um estalo. O cachorro cheirou o ar e sentou, a cauda abaixada.

— Vá até a Hokage —, Kakashi ordenou. — Diga que encontramos Sasuke Uchiha e Itachi Uchiha, este último em forma de criança. Sasuke está desmaiado, Aoda os protegerá. Peça um quarto médico preparado. Pakkun desapareceu, e o grupo ficou em silêncio.

Chegaram a Konoha no mesmo dia, o sol já se pondo quando as portas do hospital se abriram. Naruto carregou os dois Uchihas nos braços, Sasuke ainda desmaiado, Itachi ainda envolvido na proteção de Aoda — que se enrolava menos agressivamente, mas ainda se recusava a soltar os irmãos. Tsunade apareceu no corredor, os olhos franzidos, e tentou tocar a cobra com chakra médico, mas Aoda sibilou e o campo de defesa repeliu o contato.
A Hokage bufou. — Essa cobra só vai soltar quando Sasuke acordar e ordenar — Tsunade concluiu. — Tratem do que for possível à distância.

Naruto deitou os dois em uma cama larga, Sasuke ainda segurando Itachi contra o peito. A criança mexeu os lábios no sono e os dedos pequenos se fecharam na gola da blusa do irmão. Naruto observou por um segundo longo demais, sentindo algo se apertar no peito. Aquele era Sasuke. O homem que ele amou, que odiou, que esperou. E agora, segurando o irmão que jurou matar, parecia tão vulnerável que Naruto queria sacudi-lo, gritar, ou apenas... sentar ao lado dele e não sair mais.

Tsunade puxou Naruto para fora do quarto. — Me dê o relatório completo, Naruto. Naruto respirou fundo e começou a falar, a voz monótona enquanto listava os fatos. Dez esconderijos de Orochimaru encontrados. Todos destruídos. Corpos de aliados da cobra, cortados com precisão cirúrgica. Alguns sobreviventes, que falaram com a língua frouxa de quem viu algo que não entende. "O aluno mais querido de Orochimaru", diziam. "Revoltou-se após uma conversa. Matou o mestre e Kabuto. Matou os que estavam em situação crítica com um só corte. Libertou alguns. Mas também matou os aliados."

Naruto omitiu o que os sobreviventes disseram sobre Sasuke chorar enquanto cortava. Omitiu porque aquilo era dele, só dele, e não dos olhos curiosos de Tsunade.

— Encontramos ele correndo com Itachi no colo — Naruto concluiu. — Capturei com a ajuda de Kurama. Mais nada. Tsunade olhou para ele por um longo tempo. — E a língua antiga? — O que tem? — Ouvi dizer que ele usou algumas palavras. Direcionadas a você.

Naruto desviou o olhar. — Não entendi.

Ela suspirou, a mão passando pelo rosto. — Sasuke Uchiha, procurado por assassinato de clã e deserção. Itachi Uchiha, procurado por ele. Agora um é uma criança e o outro a está protegendo como se fosse um tesouro. Os velhos do conselho vão enlouquecer. O que eu faço com isso, Naruto?

O loiro finalmente a encarou, os olhos azuis mais escuros do que ela jamais vira. — Não deixe ninguém tocar neles — disse Naruto, a voz um grunhido. — Não até Sasuke acordar e explicar tudo. E eu vou ficar no quarto, vigiando. Não confio em ninguém. Tsunade ergueu uma sobrancelha. — Nem em mim?
— Nem em mim. Terminou o loiro.

Ela riu, sem humor. — Vá. Fique. Mas, se aquela cobra te morder, não vou lamentar.

Naruto voltou para o quarto e puxou uma cadeira para perto da cama. Observou Sasuke, os cabelos negros espalhados no travesseiro, o rosto mais magro, as sombras sob os olhos mais profundas. Observou Itachi, a respiração calma de criança que não sabe que seu futuro foi roubado. E então Naruto fez algo que ninguém viu. Estendeu a mão, tocou os dedos de Sasuke com os seus — apenas por um segundo, a ponta dos dedos, um toque quente e breve — e sussurrou, em Uchiha, a língua que Sasuke o ensinou: — Você é um idiota. Sempre foi. Mas não vai fugir de mim de novo. Aoda se mexeu, as escamas brilhando, mas não atacou. Apenas observou o loiro com olhos antigos e pacientes, como se soubesse mais do que qualquer um ali.