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19 de janeiro de 2019, São Paulo.
Era aniversário de Giovanna Grigio, a comemoração ocorria em seu próprio apartamento. Um apartamento amplo, moderno, desses com janelas amplas que revelam o brilho da cidade à noite. A sala, iluminada por luzes amareladas e aconchegantes, misturava sofás baixos, algumas cadeiras espalhadas e uma decoração minimalista com toques pessoais — quadros discretos, plantas em vasos de cerâmica e uma estante cheia de livros e objetos afetivos.
— Amiga, feliz aniversário! — disse uma convidada, envolvendo Giovanna em um abraço apertado.
— Obrigada! — ela respondeu, rindo. — Pode pegar bebida, comida... a casa é sua hoje.
— Giovanna, isso aqui tá lindo — comentou outra pessoa, olhando ao redor.
— Eu tentei fazer uma coisa mais aconchegante — ela deu de ombros, sorrindo. — Nada muito formal.
— Tem mais gelo na cozinha?
— Tem sim! Fica à vontade, pega lá — respondeu ela, já sendo puxada por outro grupo.
Entre um cumprimento e outro, o olhar de Giovanna passeou pela sala — e foi então que ela notou Alanis Guillen, mais ao canto, observando o movimento com atenção, mas sem realmente se integrar a nenhum grupo. Segurava o copo com as duas mãos, o olhar curioso, quase analítico, como quem absorve tudo antes de se permitir participar. Giovanna franziu levemente o cenho por um segundo, reconhecendo ali um certo deslocamento silencioso — mas logo teve sua atenção retomada por mais um convidado.
— Você sempre reúne gente boa, né? — brincou um amigo.
— Eu tenho bom gosto pra tudo — Giovanna respondeu, rindo, antes de brindar com ele.
Ao fundo, uma playlist animada alternava entre pop internacional e hits brasileiros, criando uma atmosfera leve, quase íntima, apesar do número de convidados ser razoável.
— Já volto — Giovanna disse rapidamente para o pequeno grupo que socializada no momento.
Com um sorriso leve, atravessou a sala até Alanis.
— Ei — chamou, aproximando-se com naturalidade. — Tá se escondendo ou só observando mesmo?
Alanis se surpreendeu levemente, mas sorriu.
— Um pouco dos dois, eu acho.
Giovanna riu baixo.
— Vem, vou te salvar de você mesma — disse, estendendo a mão de forma quase brincalhona. — Quero te apresentar para as meninas — Chamou Giovanna, segurando de leve o pulso de Alanis e puxando-a com cuidado pelo meio da sala.
Elas atravessaram o ambiente desviando de pequenos grupos, risadas e copos erguidos, até pararem perto de um canto mais tranquilo na varanda, onde três meninas conversavam animadamente e com muita intimidade.
— Gente, finalmente meus mundos colidindo! — Disse Giovanna, com um sorriso animado. — Essa é a Alanis.
As três se viraram quase ao mesmo tempo.
— Essa aqui é a Isa — continuou, apontando para Isabella Scherer, que abriu um sorriso acolhedor.
— Prazer! — Isa disse, já inclinando o corpo para um meio abraço.
— Aqui é a Daphne — Giovanna seguiu, indicando Daphne Bozaski, que cumprimentou Alanis com um sorriso mais calmo, porém igualmente simpático.
— Oi, Alanis, finalmente nos conhecendo — disse Daphne, com uma voz suave.
— E... — Giovanna fez uma pequena pausa, quase teatral, antes de olhar para a última. — Gabi.
Gabriela Medvedovsky virou o rosto na direção de Alanis, os olhos curiosos, um sorriso surgindo de forma espontânea. E que sorriso.
— Finalmente — Comentou com leveza. — Mas a gente já pode dizer que te conhece há anos, de tanto que ouvimos falar de você, Alanis, a "amiga-de-infância-irmã-de-outra-mãe" da Gi.
Alanis riu, um pouco sem graça, mas genuinamente envolvida.
— Espero que coisas boas...
— Só coisas ótimas! — Gabriela respondeu rápido, quase interrompendo, com um brilho divertido no olhar.
Por um segundo a mais do que o habitual, os olhares das duas se sustentaram — e, mesmo no meio do barulho da festa, algo ali pareceu se alinhar em silêncio, pelo menos para Alanis.
Foi ali que Gabriela Medvedovsky e Alanis Guillen se conheceram pessoalmente pela primeira vez. Já sabiam da existência uma da outra, claro, unidas indiretamente pela aniversariante, mas nunca haviam tido a chance de se encontrar. Bastaram poucos minutos para que a conversa fluísse com naturalidade — como se retomassem um assunto antigo, e não iniciando um novo.
A química foi imediata, intensificada pelo momento específico que Alanis vivia. Ela estava prestes a começar as gravações de Malhação, onde sua personagem enfrentaria uma gravidez na adolescência — exatamente como a personagem de Gabriela havia vivido duas temporadas antes.
O acaso parecia quase roteirizado.
Entre risadas, goles de bebida e o som da música preenchendo os silêncios, as duas mergulharam no assunto.
— Eu tô um pouco nervosa, pra ser sincera — Alanis confessou, segurando o copo com as duas mãos, como se buscasse apoio ali. — É uma história muito delicada... tenho medo de não conseguir fazer jus.
Gabriela inclinou o corpo na direção dela, imediatamente interessada.
— Eu senti exatamente isso — respondeu, com um sorriso compreensivo. — Mas isso já é um ótimo sinal. Significa que você se importa.
— E você fez o quê? — Alanis perguntou, com curiosidade genuína.
— Escutei muito. De verdade — disse Gabriela, gesticulando levemente. — Conversei com pessoas, tentei entender sem julgar... e, principalmente, fui gentil comigo mesma no processo. Não dá pra carregar tudo sozinha.
Alanis assentiu, absorvendo cada palavra.
— Você vai ficar incrível nisso — completou Gabriela, com naturalidade, como se fosse um fato simples. — Dá medo, mas também transforma. Você vai ver.
Gabriela seguiu falando com entusiasmo, gesticulando enquanto relembrava cada etapa da experiência: os desafios emocionais, a responsabilidade de dar vida a uma história tão sensível, os aprendizados que ultrapassaram a ficção. Compartilhou conselhos práticos, mas, sobretudo, ofereceu algo mais valioso — compreensão. Ela sabia exatamente pelo que Alanis estava passando.
Alanis ouvia com atenção, absorvendo cada palavra, ainda que não percebesse completamente naquele momento o quanto precisava daquele encontro.
No meio de uma festa comum, entre luzes suaves e músicas dançantes, nascia ali uma conexão não tão improvável, dessas que parecem pequenas à primeira vista, mas que, com o tempo, revelam o peso exato de terem acontecido no instante certo.
Alanis também se entrosou com facilidade com as outras meninas do grupo, especialmente com Daphne, já que Isabella se dividia entre as amigas e um rapaz que havia conhecido naquela noite, um amigo de um amigo de Giovanna, e que ela jurava ser o amor da sua vida e que teriam filhos gêmeos dali 3 anos. Todos se divertiam e faziam piadas com a empolgação de Isa, havia uma leveza nas conversas, uma sintonia espontânea que fazia com que o tempo passasse sem ser notado.
Mas ainda assim, para Alanis, com Gabriela era diferente. Havia algo difícil de nomear — um tipo de presença que transformava o espaço.
Gabriela brilhava de um jeito particular aos olhos de Alanis. Sua simpatia era expansiva, sua risada alta preenchia o ambiente com uma energia contagiante, e seus monólogos — sempre carregados de humor, observações perspicazes e histórias vívidas — tinham o poder de capturar a atenção de todos ao redor. Alanis se pegava observando mais do que participando, hipnotizada pela forma como Gabriela gesticulava, inclinava levemente a cabeça ao falar, e fazia com que qualquer assunto parecesse fascinante.
Em uma de suas idas e vindas entre os grupos, Isabella se inclinou na direção de Gabriela, falando mais baixo, com um sorriso sugestivo.
— Amiga... o amigo do meu futuro namorado ali — ela fez um gesto discreto com a cabeça — perguntou de você.
Gabi arqueou levemente a sobrancelha, já com o riso solto de quem tinha bebido o suficiente para tudo parecer mais leve.
— De mim? — perguntou, divertida. — Ih...
— Tô falando sério — Isa insistiu, rindo. — A gente podia sair daqui com eles hoje.
Gabi soltou uma risada mais alta, balançando a cabeça.
— Amiga, eu acabei de sair de um relacionamento... — disse, ainda rindo, mas com um fundo de sinceridade que escapava na voz. — Três anos... eu não quero mais saber de homem pelo resto da minha vida.
— Dramática — Isa provocou.
— Tô falando sério! — Gabi insistiu, apontando o dedo, ainda entre risos. — Hoje eu só quero vocês, bebida e zero responsabilidade emocional.
Isa riu junto, assentindo.
— Justo... mas então — ela hesitou um pouco — você se importa se eu for com ele? Eu sei que viemos juntas, mas acho que você pode dividir o táxi da volta com a Daph, né?!
Gabi fez um gesto despreocupado com a mão.
— Claro que não, vai viver! — respondeu, sincera. — Só me promete que vai compartilhar a localização e me mandar mensagem quando chegar.
— Pode deixar — Isa sorriu. — Você também se cuida, tá?
— Sempre — Gabi piscou, levantando o copo antes de dar mais um gole.
Alanis não tinha certeza de nada, mas acreditava que Gabriela fosse hétero. Essa suposição funcionava como um freio silencioso: ao mesmo tempo em que se sentia cada vez mais encantada, mantinha uma distância cuidadosa, quase estratégica. Em outro contexto, talvez já tivesse dado algum sinal mais claro, se permitido avançar — mas ali, naquele cenário de incerteza, preferia se proteger atrás da discrição. Ainda assim, em meio ao barulho da festa e do papo entre ela, Giovanna e Daphne, captou de relance uma frase de Gabriela para Isabella — algo como "não quero mais saber de homem" — dita entre risos. A frase ecoou mais do que deveria, abrindo uma pequena brecha em suas certezas, suficiente para confundir ainda mais o que até então parecia simples.
Enquanto isso, a festa ganhava intensidade. A música aumentava, migrando para batidas mais dançantes — um pop vibrante misturado com funk leve, daqueles que fazem o corpo se mover sem esforço. O volume das conversas subia junto com o teor alcoólico. Copos eram reabastecidos, risadas ecoavam mais soltas, e as distâncias físicas diminuíam naturalmente.
Foi nesse clima que os toques e olhares começaram a se insinuar entre Alanis e Gabriela. Nada explícito — um braço que demorava um segundo a mais sobre o ombro, um riso compartilhado muito próximo, olhares que se encontravam e sustentavam por tempo suficiente para gerar dúvida. Alanis, que antes tentava se convencer de uma narrativa simples, já não tinha tanta certeza de mais nada. Havia sinais... ou talvez fosse só o efeito da atmosfera, da música, da proximidade. Ou do real interesse que Gabriela despertava nela.
O problema é que Gabriela parecia ser assim com todos: carinhosa, intensa, física, envolvente. Isso embaralhava ainda mais os pensamentos de Alanis, que alternava entre a esperança silenciosa e a racionalização cuidadosa.
Daphne, por outro lado, observava tudo com uma clareza que as outras não tinham. Tendo acabado de ter seu primogênito, era a única completamente sóbria da noite — e talvez por isso, também a mais atenta. Seu olhar percorria o ambiente com uma percepção aguçada, captando nuances que facilmente passariam despercebidas: a frequência com que Alanis buscava Gabriela com os olhos, a forma como Gabriela respondia, ainda que de maneira sutil.
Daphne não disse nada. Não ali, não naquele momento. Limitou-se a um meio sorriso discreto, como quem guarda uma informação para depois.
Algum tempo depois, ela se aproximou do grupo, olhando rapidamente o celular antes de falar:
— Meninas... eu vou ter que ir — disse Daph, com um sorriso quase de desculpa. — Já são quase três da manhã.
— Já? — Giovanna choramingou, fazendo um bico exagerado. — Fica mais um pouco...
Daphne riu, balançando a cabeça.
— Eu queria, mas não dá. Daqui a pouco o Caetano acorda pra mamar, e eu combinei com o Gustavo que não passaria das três... — fez uma pausa, olhando o relógio. — Ou seja, já tô atrasada.
— Tá, tá... — Giovanna suspirou, abraçando a amiga. — Você tem um motivo muito melhor que a gente.
— Tenho mesmo — Daphne brincou, retribuindo o abraço.
Gabriela, sempre com um copo na mão, riu.
— Eu definitivamente não tenho — disse, animada. — E não pretendo ir embora tão cedo.
Daphne virou-se para ela, já pegando a bolsa.
— Amiga, então você não vem comigo? — perguntou. — Depois que a Isa foi embora, a gente tinha combinado de voltar juntas...
Gabi fez uma careta leve, mas ainda sorrindo.
— Ah... eu sei, mas... — deu um gole na bebida — eu quero ficar mais um pouco. Sério, pode ir.
— Tem certeza?
— Tenho — Gabi respondeu, tranquila. — Pode ir sem mim, de verdade. Eu me viro depois.
Daphne a observou por um segundo, avaliando, e então assentiu.
— Tá bom... juízo, Gabriela.
— Sempre — Gabi garantiu, piscando.
— Nem sempre! — Giovanna riu, também meio afetada pelo álcool. — Inclusive, você não vai embora nunca mais. Vai dormir aqui hoje e juntas seremos as inimigas do fim!
Gabi ergueu as sobrancelhas, interessada e com um sorriso largo.
— Quanto mais o tempo passa mais eu tenho certeza de que você é a minha alma gêmea! — Gabi respondeu, brindando com a amiga.
Mais ao lado, Alanis ouviu a conversa e sentiu uma animação discreta crescer por dentro. Se Gabi ficaria, significa que as duas passariam mais tempo juntas, já que Alanis, que mora no Rio, estava hospedada ali, no apartamento de Giovanna, como sempre fazia quando estava em São Paulo.
— Então pronto — Daphne concluiu. — Vocês se cuidem, tá?
Gabi respondeu apenas soltando um beijo no ar e levantando o copo em despedida.
O movimento de saída de Daphne acabou puxando uma corrente silenciosa: outros convidados começaram a pegar suas coisas, a chamar carros, a se despedir entre abraços demorados. A festa, aos poucos, começava a se dissolver.
O clima mudou. Já não havia mais a energia expansiva de antes, mas algo mais íntimo, quase silencioso. As conversas ficaram mais espaçadas, os gestos mais lentos. Alanis sentia isso com intensidade — como se, de alguma forma, o ambiente tivesse se ajustado para algo mais delicado, mais próximo.
Gabi apareceu ao lado dela quase sem aviso, ainda com o copo na mão, apoiando o corpo levemente no encosto do sofá.
— Engraçado, né? — disse Gabriela, com a voz um pouco arrastada, mas leve. — Parece outra festa agora.
Alanis sorriu, virando o rosto na direção dela.
— Parece mesmo... mais calma.
— Mais perigosa — Gabi completou, rindo sozinha da própria observação. — Porque a gente começa a pensar demais...
Ela deu um gole demorado, quase esquecendo o copo na mão depois.
— Você gostou? — perguntou, olhando para Alanis com curiosidade sincera.
— Gostei. Foi... melhor do que eu esperava.
— Que bom — Gabi disse, sorrindo de um jeito aberto, mas claramente afetado pelo álcool. — Eu sempre fico meio... — fez um gesto vago com a mão — intensa demais nessas coisas.
— Eu percebi — Alanis brincou, suave.
Gabi riu alto, sem se importar.
— Eu tô meio bêbada, né? — admitiu, sem cerimônia.
— Um pouco — Alanis respondeu, contendo o riso.
— Um pouco nada — Gabi rebateu, aproximando-se só o suficiente para diminuir a distância entre as duas. — Mas tá tudo bem... hoje pode.
E, aquele movimento deliberado, fez o momento parecer ainda mais íntimo.
Agora o apartamento já não era mais o mesmo. O som, antes alto e vibrante, vinha baixo, quase como um eco distante — uma playlist mais tranquila, com músicas suaves que pareciam acompanhar o cansaço coletivo. Copos vazios se acumulavam sobre a mesa de centro.
Em determinado momento, agora quase com o dia amanhecendo, restavam apenas Giovanna, Gabi, Alanis, e o último convidado que se despedia calorosamente das meninas e deixava o apartamento. Depois disso, as três rapidamente foram se recolher, ficou natural que Gabi e Alanis dividiriam o quarto de hóspedes, onde Alanis já estava há 3 dias. Não houve constrangimento, nem necessidade de discussão — apenas uma sequência lógica dos acontecimentos.
Ainda assim, para Alanis, nada parecia exatamente simples. Ela já estava sóbria, na verdade, acha que nem chegou a não estar sóbria em qualquer momento da noite. O que tornava tudo mais nítido pra ela. Cada detalhe ganhava um peso maior: o som da água do chuveiro vindo do banheiro, o leve cheiro de shampoo se espalhando pelo quarto, a luz indireta do abajur criando sombras suaves nas paredes. Alanis se sentou na beirada da cama por alguns instantes, tentando parecer tranquila, mas completamente consciente da presença de Gabriela a poucos metros dali.
Gabi saiu do banho ainda meio desajeitada, com os cabelos úmidos caindo pelos ombros e vestindo uma roupa larga emprestada de Giovanna — uma camiseta folgada e um short confortável. Havia algo de despretensioso nela naquele momento, quase vulnerável, distante da figura expansiva e magnética da festa. Mesmo assim — ou talvez justamente por isso — Alanis sentiu o interesse se intensificar.
Era difícil não olhar. Difícil não reparar.
Gabi se jogou na cama com naturalidade, como se estivesse em casa, murmurando algo sobre o cansaço enquanto se ajeitava entre os lençóis. Não havia cerimônia, nem espaço para interpretações mais profundas naquele gesto — pelo menos não da parte dela. Para Alanis, no entanto, cada movimento parecia carregado de significado.
— Nossa... eu ainda to tonta — Gabi soltou, com a voz arrastada, rindo sozinha enquanto puxava o travesseiro. — Bebi mais do que eu devia... de novo.
Quando se deitou ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa, mas inevitavelmente próxima, Alanis percebeu o quanto estava alerta. O quarto estava silencioso, exceto pela respiração tranquila de Gabriela, que já começava a desacelerar rumo ao sono. O cheiro suave de sabonete misturado ao perfume que ainda resistia na pele dela criava uma presença quase palpável. Alanis virou levemente o corpo na direção dela, apoiando o peso no cotovelo.
— Quer água? Eu posso pegar.
— Hm... acho que não... — Gabi respondeu, fechando os olhos por um instante e depois abrindo devagar, como se o mundo ainda estivesse girando um pouco.
— Tem certeza? — Alanis insistiu, com um cuidado evidente. — Se você passar mal, me fala, tá?
Gabi esboçou um sorriso preguiçoso, daqueles meio tortos, meio sinceros.
— Você é muito cuidadosa... — disse, quase num sussurro. — Tá tudo bem, juro. Só tô... meio fora do ar.
Ela se virou de lado, ficando de frente para Alanis, os olhos demorando um segundo a mais do que o necessário sobre os dela.
Alanis sentiu o peito apertar de leve, sem saber exatamente o que dizer, se é que algo deveria ser dito. Acabou apenas sorrindo, discreta.
Um pequeno silêncio se instalou, confortável e ao mesmo tempo carregado. Gabi piscou devagar, já claramente sendo puxada pelo sono.
— Boa noite, Alanis... — murmurou.
— Boa noite, Gabi — respondeu, em tom baixo, quase acompanhando o ritmo da respiração dela.
Alanis virou levemente o rosto em direção ao teto, tentando controlar os próprios pensamentos, mas era inútil. A proximidade, o contexto, tudo contribuía para que aquele interesse — antes difuso, contido — ganhasse forma, peso, quase urgência.
Ainda assim, ela não fez nada. Ficou ali, imóvel, dividindo o mesmo espaço, a mesma cama, sustentando em silêncio uma tensão que só existia plenamente dentro dela. E talvez fosse justamente isso que tornava tudo ainda mais intenso.
