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Enough for who? (you’re the lowest type)

Summary:

Durante anos de relação conturbada, Tony ignorou as atitudes incoerentes e inquietantes do namorado e colega de banda, Vic Fuentes.

Enquanto isso, Jaime, seu melhor amigo, esteve sempre de lado, aparando a relação quando as coisas pareciam querer desmoronar pela vigésima vez em mais de vinte anos — ainda que, depois de todo esse tempo, ainda estivesse apaixonado pelo melhor amigo.

E, bem, Loniel vê as coisas com uma visão privilegiada.

 

!Continuação de uma one shot que não é minha, fiz meu melhor em relação ao contexto!

Notes:

⚠️Continuação de uma original one shot escrita em inglês por um(a) autor(a) que eu desconheço intitulada “Enough for you” ⚠️

Basicamente, eu não gostei do final do original e achei que o romance entre o melhor amigo que vê o outro sofrer numa relação confusa seria um par melhor! Por que não?
A história se passa muitos anos depois do original, espero que gostem!

Chapter 1: Suficiente.

Chapter Text

Preciado observava os estabelecimentos fechados e as árvores da janela da cama que ocupava enquanto seu peito se apertava cada vez mais e a tensão que carregava na garganta parecia querer enforcá-lo antes de cruzarem o estado. 

O ônibus que viajavam há mais de um ano parecia quieta, sem nenhum barulho diferente do confortável do motor funcionando plenamente e dos pneus que atritavam contra o asfalto de uma Califórnia movimentada e acesa. O último show, em Monterrey, havia sido um sucesso, como era de praxe e como as vendas de ingresso haviam prometido um mês antes. 

Já fazia anos desde o primeiro confronto de Jaime contra Victor em São Diego, e as coisas pareciam andar melhores do ponto de vista de todos e até mesmo na mídia. A banda estava indo bem e o sucesso que haviam feito chegava até mesmo a ser questionável. 

Tony e Vic pareciam felizes e estáveis, finalmente. E Jaime também estava feliz pelos amigos e companheiros de banda, é claro. 

Ou, pelo menos é assim que deveria se sentir. 

A pontada de ciúme e decepção que sentiu na noite em que seu melhor amigo correu para lhe contar o que tinha acontecido no último minuto antes de uma promoção importante no estacionamento do evento que estavam atendendo aquela noite perpetuou pelos últimos quinze anos. 

Ridículo, patético, inacreditável, ele sabia. 

Naquele mesmo dia, quando voltou para o ônibus, percebeu que dessa vez talvez as lágrimas de Perry não fossem em vão. Que, finalmente dessa vez, Vic fosse finalmente aceitar o sacrifício perpétuo que o outro estava disposto a fazer só para que estivessem juntos durante o maior tempo possível. Mas, depois de todo aquele tempo, o que é que Jaime poderia dizer?

Múltiplas foram as vezes em que aconselhou Tony a mudar de rumo e procurar alguém que realmente merecesse a sua presença e múltiplas foram as vezes em que mesmo sentindo que estava fazendo a coisa errada, aconselhou Vic a ir atrás dele, sabendo que seria difícil encontrar um amor como aquele de novo. 

Porque, apesar de tudo, nunca seria capaz de sacrificar a felicidade do melhor amigo em prol da própria. Nunca seria sequer capaz de cogitar fazer o contrário. 

Ele deixou um suspiro pesado sair conforme os pensamentos tomaram sua mente. Iria fingir que as coisas estavam imensamente bem com o mesmo sorriso que dava sempre que comia sua comida favorita. Se Tony estava feliz e sorrindo, ele não se intrometeria. 

O silêncio confortável do automóvel se estendia conforme os pensamentos do baixista continuavam a falar mais alto dentro de sua própria cabeça, as respirações do casal de amigos próxima e inquietante como batucadas barulhentas em seu cérebro. 

No fim, não era nada demais. Quem sabe, eram apenas as consequências de não conseguir dormir irritando sua mente.

Jaime suspirou novamente se revirando pela décima vez no colchão aquela madrugada. Todas as luzes estavam desligadas e a silhueta dos outros dois não era completamente visível ainda com a pouca distância de um lado para o outro. 

Desviou o olhar uma última vez para a janela, frases antigas ressoando em sua mente como um mantra negativo.

“Você sabe que é como um irmão de sangue pra mim.”

**

— Não, espera, não dá. – Vic soltou pela décima vez naquela tarde, a voz no microfone ressoando pelas caixas de som. Se virou para encarar os companheiros de banda, esperando que alguém se explicasse.

Jaime suspirou passando uma das mãos suadas pelos fios igualmente molhados enquanto encarava o chão. Segurou a palheta com força, vendo a ponta de seus dedos esbranquiçar. 

— Jai, tá tudo bem? – Tony chegou ao seu lado, esbarrando seu ombro ao do amigo. 

— Tá sim, claro. –  Mostrou um sorriso fraco, tentando convencer o amigo sem se explicar. — Acho que…Deve ser só cansaço. – Concluiu, engolindo em seco. 

— Certeza? – Perry o olhou de cima a baixo, preocupação transparecendo em seu semblante. — A gente pode pedir pro Vic dar um tempo.

— Falando no diabo. – Jaime sussurrou, olhando além do rosto do melhor amigo.

— Jaime. – Victor disse, ainda segurando o microfone na mão esquerda.

— Vamos parar um pouco, pode ser? 

— Tony. – Ambos disseram em uníssono.

— Eu concordo. – Ouviram a voz de Loniel surgir atrás de Vic. — A gente já tá aqui há muito tempo, querendo ou não. Vai faltar uma hora pro show daqui a alguns minutos, a gente ainda consegue voltar.

— Obrigado. – Tony suspirou, encarando os dois. — A gente volta em quinze minutos, vem. 

 

Fuentes não teve tempo de questionar antes que Jaime fosse puxado pelo próprio namorado até o backstage. Se virou para o lugar em que iam tocar na próxima hora, soltando uma respiração que não percebeu prender.

— Vic? 

— Eu já vou. – Virou a cabeça em um movimento rápido apenas para olhar rapidamente para o companheiro, assentindo uma última vez antes de voltar a atenção para as cadeiras vazias do Mechanics Bank Arena. O ar frio ardendo em suas narinas e algo dentro de si se contorcendo por algo além da leve ansiedade pré show e preparação de palco, algo que parecia incomodar e doer um pouco mais do que só preocupação. Fuentes evitou pensar mais, sabendo onde sua mente o levaria. Onde pensar em Tony o levaria agora.

Apertou o microfone na palma de sua mão, prendendo a respiração e fechando os olhos por alguns segundos. Era para as coisas estarem pelo menos próximas de perfeitas. 


**

— Você não vai falar nada? – Tony soltou num tom quieto, como se não quisesse correr o risco de ecoar pelas paredes.

— Eu? – Jaime respondeu. Seu baixo descansava contra a parede, deixando seus dedos livres para se mexerem inquietamente em seu colo. Suspirou silenciosamente uma vez antes de se recostar na parede atrás de si, a cadeira rangendo. 

Tony estava de pé, a guitarra ao lado do baixo do melhor amigo, de braços cruzados. 

— Claro que é você. – Sussurrou para si mesmo, desviando o olhar numa tentativa de buscar paciência. — Sério. Você não é de ficar distraído. 

— É? – Murmurou. 

— Hime. – Preciado ouviu a voz do outro suavizar, chegando mais perto. — Você precisa falar comigo. Você sabe que…

— Não, Tone, não dessa vez. – Interrompeu, a frase saindo mais ríspida do que realmente intencionava. Se levantou encarando os olhos surpresos que o encaravam de volta. — Desculpa, mas eu não acho que seja eu quem precise dizer alguma coisa. 

Tony franziu a sobrancelha, a surpresa sendo substituída imediatamente por confusão. 

— Como? 

Jaime não deixou que a conversa se prolongasse, agarrou o braço do baixo e saiu pela porta tomando cuidado para não esbarrar em Tony e nem fazer um estrondo com a madeira. Mesmo costume ‘estúpido’ de zelo que sempre teve com ele. O mesmo. 

Por mais de quinze anos. 

Ninguém poderia dizer que ele não tinha razão em estressar com os próprios sentimentos. 

**

Nunca importava o quão Vic estivesse nervoso com a probabilidade de si mesmo – e erros técnicos – estragarem o show por meio de qualquer besteira, tudo sempre acontecia da melhor maneira possível. 

A receptividade foi maravilhosa e o calor dos fãs misturado com o esforço de cada um em cima do palco não poderia resultar em nada diferente. Na última hora, o vocalista parou para agradecer a todos os presentes pelo entusiasmo, porque talvez sem eles nada estaria se saindo tão bem. 

A reação da plateia foi histérica enquanto os três se reuniam em frente a bateria, trocando alguns olhares cúmplices de vitória. 

O sorriso de Jaime foi o primeiro a desaparecer enquanto os outros três iam em frente em direção ao ônibus. 

O vento frio da madrugada em Bakersfield esfriava a palma de suas mãos com uma facilidade impressionante, com poucas pessoas por perto e todas elas dispersas, ficava mais difícil atrair atenção em meio ao céu noturno. Suspirou, vendo sua respiração sair em frente ao seu rosto em forma de nuvem. 

— Jaime. – Uma mulher jovem utilizando a camiseta “Pierce the Crew” apareceu ao seu lado dando um sorriso pequeno, a ponta do nariz e dos dedos vermelhos. 

— Jess. – Respondeu, assentindo e devolvendo o sorriso. — Eu… acho que vou dar uma volta antes de voltar, pode ser?

— Eu deveria avisar alguém? 

— Não, não. Eu volto em um instante, beleza? 

— Quinze minutos?

— No mínimo. 

— Quinze minutos. – Avisou, se distanciando em direção ao ônibus.  

Jaime observou o outro lado da rua praticamente lotado, pessoas andando de um lado para o outro fazendo barulho e pequenas festas pós show com som alto e copos de cerveja. A rua que levava até a área onde as lojas de conveniência se concentravam parecia mais deserta, apesar de que ocasionalmente a maioria das pessoas se direcionava para lá. 

Olhou ao redor, percebendo que talvez pudesse se misturar no meio dos grupos. Apertando o passo e recebido alguns olhares, enfim atravessou a porta da primeira lojinha que viu. O lugar não era nada demais, o básico de uma conveniência estadunidense com tudo o que qualquer pessoa ali poderia estar procurando. Sem pensar muito, agarrou um maço de uma marca de cigarro qualquer junto de um isqueiro descartável e uma lata de energético sem pensar nas consequências da madrugada. 

Deu um sorriso simpático quando o atendente o reconheceu, fingindo que logo estaria longe. Do lado de fora, o frio o atingiu novamente parecendo ter piorado desde que saíram do anfiteatro, a madrugada passando a engolir a cidade por inteiro. 

— Jaime Preciado – Ciciou para si mesmo do lado de fora da loja, acendendo seu cigarro. —, você é um idiota apaixonado pelo seu melhor amigo. – Continuou enquanto colocava o isqueiro em um bolso aleatório, passando a observar as redondezas. — E isso é besteira o suficiente. 

 

Quando finalmente voltou para o ônibus, o clima parecia inteiramente pesado. As equipes já estavam todas distribuídas, mas algo ainda parecia errado do lado de fora. 

— Tony? – Foi o primeiro nome que chamou ao subir as pequenas escadas dentro do ônibus. 

— Jai? – A voz suave ressoou do back lounge. O interior do veículo estava escuro e parecia vazio, como se as únicas presenças no momento fossem os pensamentos de ambos. 

Jaime fechou a porta atrás de si, andando até o mini cômodo em que apenas uma luz amarela e fraca iluminava a feição pesarosa que Perry carregava. 

Após a conversa nos corredores do local do show anterior, nenhum dos dois teve coragem de trocar mais do que um “Bom show” ou “Boa sorte” nas últimas – ou pelo menos – doze horas. 

O baixista abriu a boca algumas vezes, sentindo as palavras chegarem à ponta da língua e serem consideradas inúteis para o momento por seu cérebro. Tony também ficou em silêncio, por minutos sem saber como encarar o outro, antes de dar um suspiro cortante. 

— Loni não me deixou sair. 

— Por que? – Preciado disparou, confusão genuína estampada em seu olhar conforme deu dois passos à frente, se aproximando do melhor amigo. 

— O Vic sumiu. 

Ah. 

Claro. 

Jaime desviou o olhar para uma das paredes brancas do automóvel, percebendo do que toda aquela cena realmente se tratava. 

Não seria a primeira vez que Vic sumia depois de um show, muito menos a primeira vez que Loniel ia atrás dele antes que Jaime ficasse sabendo e fosse tentar confortar Tony. Nada naquela situação era novo. 

— Tone…

— Não, Jaime. Não foi como você falou? – Ele levantou o olhar, exibindo os olhos vermelhos que começavam a marejar novamente. Piscou algumas vezes, tentando impedir que elas caíssem novamente. — Não dessa vez, não agora. 

— Tone, você tem que escutar pelo menos algum de nós dois. Você acha mesmo que…

— Não. – Cortou. — Eu não acho nada, Jaime. 

— Então você quer dizer que eu e o Loni estamos errados esse tempo todo? – Respondeu, um sorriso irônico estampado em seu rosto. 

— Por que você acha que é sobre você?

— Claro que não é, não foi isso o que eu disse. 

— Mas é o que parece. Sempre. – Tony olhou para o chão, impedindo a si mesmo de passar mais um segundo se expondo. 

— Tone, você sabe que não é. Eu tô tentando te mostrar o óbvio. 

— E você acha que eu não tentei falar com ele nesses últimos tempos? Mesmo? Porra. – Perry puxou a manga do suéter de esqueleto que usava, o usando para cobrir seu rosto. 

— Eu não…

— Você não perguntou. 

— Isso não é o tipo de coisa que precisa ser perguntada. Pelo amor de Deus. 

— Você não poderia, sei lá, tentar? – Deu de ombros, voltando a encarar o rosto familiar. 

 

Jaime se sentou do outro lado do pequeno lounge, evitando contato direto com os olhos de vidro da única pessoa que não queria ver em pedaços. Um nó começando a se formar em sua garganta. 

— Você realmente se sente bem com isso? – A pergunta saiu hesitante, ligeiramente amarga e quieta. 

— Jaime, já fazem quinze anos. – Ele parecia implorar. — Estamos praticamente casados, eu não posso simplesmente jogar tudo isso fora. 

— Tudo. – Jaime murmurou encostando a bochecha no metal frio. A definição de “tudo”para Tony o incomodou desde o primeiro momento. 

“Tudo” era não saber se poderia dizer eu te amo de forma livre. Era não questionar quando Vic sumia e aparecia chorando duas horas depois. Se limitar a aceitar o romance de backstage e tour buses. Tomar cuidado com cada passo que dá porque, sabe Deus, e se alguém de fora percebesse? 

Mas ao mesmo tempo, por que ligar se alguém notasse? Por que se importar tanto com uma mídia desprezível? 

Perry nunca fez essa pergunta. 

Mas, quem sabe, Vic fosse responder algo como “Eu não quero que você sofra as consequências” e “Porque querendo ou não, foram eles que trouxeram a gente até aqui”.

Jaime nunca teria se importado com nenhum desses fatores.

E as coisas nunca mudariam se a conversa continuasse a mesma. 

— Em quinze anos teríamos tido filhos, Tony. – Sibilou, as palavras cortantes contra o ar seco e frio que envolvia os dois.

— Jaime? – Chamou, a voz falhando com confusão. O guitarrista franziu as sobrancelhas, seus olhos adquirindo um brilho diferente. Um clique de compreensão. — Jaime. – Chamou novamente, tentando se recompor. 

O outro retribuiu o olhar confuso do amigo percebendo o que disse, porém, ao mesmo tempo, não se importando em voltar atrás. Se Tony estava tão disposto a viver do mesmo jeito pelo resto da vida, uma confissão velada  não seria capaz de mudar o rumo de seus planos. 

 

Preciado se levantou do acolchoado, sentindo o nó em sua garganta apertar e seu estômago se revirar quando tentou olhar nos olhos do rapaz mais uma vez antes de entrar no banheiro ao lado. 

Claramente, Jaime demorou debaixo da ducha de água quente por exagero. Fingiu não ouvir quando – de fato – ouviu a voz de Vic o chamando do lado de fora enquanto os passos pesados de Loniel logo atrás ressoavam no metal. Tony parecia não ter movido mais nenhum dedo nos minutos que ficou dentro do banheiro fingindo que não sabia que os outros companheiros de banda também precisavam tomar banho. Porém, surpreendentemente, ninguém havia batido na porta ainda. 

Quando saiu, foi envolvido por um silêncio ensurdecedor e um ar tenso. Ninguém se atreveu a abrir a boca, todos parados exatamente onde estavam.

Loniel estava no sofá com as costas apoiadas encarando o teto com um expressão indecifrável, Tony parecia irredutível encolhido em sua cama encarando a janela com fones de ouvido e Vic, que também estava na própria cama, fingia que suas mãos eram uma coisa nova em seu corpo. Tudo isso enquanto Jaime tentava decidir internamente se dizia ou não alguma coisa, olhando de um companheiro para o outro sabendo que nenhuma frase seria capaz de abranger tudo o que estava tentando enfiar goela a baixo desde o momento em que deixou o melhor amigo sozinho no back lounge.

Fechou uma das mãos, formando um punho que não teria coragem de usar tão cedo, antes de decidir que não era momento de falar sem pensar e ir se deitar em seus lençóis em cima de onde o guitarrista estava ainda sem desviar o olhar da estrada por um segundo. 

Talvez, a primeira coisa a se fazer era pedir desculpas ao casal de amigos (ou apenas para Tony), a segunda seria conversar com Loniel sobre a mancada da vez (ou com Tony), respirar fundo antes de conversar propriamente com o melhor amigo (o que seria difícil sem o próprio, então seria mais fácil apenas ignorar e só pedir desculpas) e, por fim, tentar achar paz nas mini férias pós turnê (o que também seria difícil caso perdesse seu melhor amigo). 

Jaime fez o primeiro barulho no meio do silêncio ensurdecedor que assolava o ambiente, buscando seus fones de ouvido dentro da caixinha jogada na cama em uma tentativa de fugir do crepitar da quietude prolongada.

**

A manhã do dia seguinte começou silenciosa, mas logo se tornou meramente conturbada.

Loniel sorriu ironicamente, sem saber o que dizer.

São Diego era a última parada do mês, o que significava um último show de despedida e encerramento da tour depois de um mês e um tempo das atividades antes de decidir o próximo passo – um tempo, provavelmente.

Tony estava completamente perdido dentro de sua própria cabeça desde o começo da madrugada, indeciso se chorava ou gastava energia questionando Vic pela milésima vez no ano e, claro, a confusão acumulada pelas palavras do melhor amigo. 

Então, lá estava ele. Com a cabeça entre as mãos sentado em um dos sofás do camarim do último estádio do ano com Loniel ao seu lado, o único que não estava envolvido na bagunça romântica completamente inesperada ao redor de Perry.

— Ele disse o que? 

— Filhos, Loni. Filhos. Por que ele diria algo assim?

— Você tá fingindo que não sabe. –  Disse baixo, suspirando.

— Ele é meu melhor amigo. 

Quando não recebeu resposta levantou a cabeça, se virando para o outro.

— Meu melhor amigo.

— Eu entendi.

Tony franziu as sobrancelhas.

— Eu não sei o que fazer. Não tá ajudando, a propósito. 

— Você tem certeza que ele te vê da mesma forma? Como seu melhor amigo?

— Por que não veria? Fazem, sei lá, quase vinte anos que a gente se conhece, se tivesse algo a mais ele teria me contado.

— Tone, então me dá pelo menos um motivo plausível pra não ter contado pra  ele que você tinha dado um tempo com o Vic, mas sim pra mim. 

— Porque eu confio em você.

— E não confia no Jaime? Ele não é o seu melhor amigo a quem você conta tudo há quase vinte anos ou sei lá?

— Mas não faz sentido.

— Ele escolheu não te contar porque achou que era a melhor opção.

— Isso…isso não faz sentido, Loni. – Sua voz falhou, a negação sendo seu primeiro instinto.

— Você falaria pra ele?

— Loni, eu amo o Vic.

— Não foi isso o que eu perguntei.

O silêncio pairou por um momento enquanto Robinson tentava assegurar de que Tony havia mesmo entendido o que ele queria dizer. 

— Eu…não sei.

— Você não falaria, eu também não falaria. O Vic também não. Ninguém se declararia pro melhor amigo que namora um amigo, o que só piora a situação, claro. 

— Mas eu não quero perder meu melhor amigo por causa disso.

— Então, não perca. Mas não deixa as coisas com o Vic piorarem.

— Eu não… Não vou. – Suspirou, tentando afastar a indecisão constante de seu cérebro. — Eu não vou perder nenhum dos dois.

 

As horas seguintes foram menos conturbadas do que Tony imaginou que seriam. Vic trocou apenas algumas palavras como “Me avisa se precisar de algo” enquanto Jaime parecia completamente distante de uma forma que doía. Entre conferir os instrumentos, conversas diárias e fazer as refeições, Preciado não parecia ter aberto a boca em nenhum momento para se referir a Tony ou Vic. No máximo conversas longas com os engenheiros elétricos, que pareciam mais passatempos, e curtas com Loniel, o que deixou Perry certamente mais tranquilo. Pelo menos havia uma confirmação de que o problema estava entre o casal –  não que não fosse extremamente óbvio.

Apesar de tudo que poderia dar errado em cima do palco, o soundcheck foi mais tranquilo do que o esperado. O guitarrista não chegou a se aproximar do baixista, apenas observando de longe como o suor descia pelo seu pescoço e testa e algumas tentativas quase completamente falhas de contato visual visto que nas únicas vezes que davam ‘certo’ eram quando Jaime parecia querer olhar quando Tony não percebia, mas logo desviava. 

A tensão durou apenas mais uma hora depois, antes de entrarem no palco interagindo uns com os outros com sorrisos largos e calor fraterno. 

Todos os problemas pareciam sumir no momento em que cada um segurava e tocava seu instrumento, dando vida para as músicas que tanto amavam, interagindo ao máximo e aproveitando as presenças calorosas em uma forma de despedida alegre.

— Obrigado, nos vemos no ano que vem! –  Fuentes soltou uma última frase antes que a música mexicana de encerramento começasse a tocar e os membros a se despedir jogando papéis, palhetas e baquetas. 

A última reunião com a equipe também foi afetuosa, demonstrando a gratidão da banda pela dedicação de todos e pelo fato de estarem juntos.

O caminho até o ônibus foi feito em trio, Jaime um pouco atrás de Tony e Loniel, que caminhavam em silêncio.

— Onde tá o Vic? – Preciado perguntou, parando de andar e olhando em volta como se tivesse acabado de sair de dentro de seus próprios pensamentos e percebendo o mundo à sua volta. 

Tony deu um suspiro pesado.

Não era possível que estivesse acontecendo de novo. 

Jaime encarou os dois, buscando por respostas que não fossem parecidas com o que já tinha em mente. Porém, quando percebeu que o olhar do melhor amigo havia caído para o chão e Loniel não dizia nada além de o encarar com um semblante penoso, sua mandíbula travou. 

— Puta que pariu. – Sussurrou, se virando de costas. 

Foram apenas três passos até que Tony o alcançasse, uma mão fria tocando o ombro do outro.

Ambos não disseram nada por alguns segundos, encarando com profundidade os olhos preocupados um do outro. Jaime com a certeza de que em breve seria dispensado pelo outro, impotência e dor se acumulando de uma vez só em seu estômago; se os seus sentimentos não poderiam ser retribuídos, o máximo que poderia fazer era proteger os de quem amava. Tony o encarava na mesma intensidade, sem saber ao certo se era uma boa hora para ter a conversa que queria ter com o seu melhor amigo ou se deveria correr para o namorado novamente, esperando que ele tenha uma desculpa boa o suficiente para que seu coração amoleça. 

— Não precisa ir.  – Murmurou, se distanciando. — Vai pra casa, eu resolvo isso.

—  Tone…

— Tá tudo bem.  – Interrompeu dando um sorriso fraco, parando no lugar por mais alguns segundos antes de se virar em direção ao acesso de apenas pessoal autorizado do estádio.

Seus passos ressoavam pelo metal, fazendo um eco cortante pelas paredes vazias tanto quanto sua mente. O tempo que passava se preocupando com Vic sempre costumava deixar sua cabeça mais barulhenta do que o normal, mas, dessa vez, as coisas pareciam mais dramáticas. E Tony estava cansado. 

Cansado dos quinze anos que pareciam não terem sido capazes de mudar quem Vic realmente era. Cansado de se culpar por não se sentir suficiente, até porque: “O que essa garota tem que eu nunca ofereci?” ou “Qual é o meu problema por não conseguir me encaixar no modo de vida de quem amo?” 

Sempre pareceu fazer mais sentido quando Fuentes voltava depois dizendo que no fim não tinha nada a ver com ele, o assegurando de que estava tentando e lembrando a conversa que tiveram naquela noite no RV.

Quinze anos não era ir devagar o bastante?

A promessa era provisória. 

A promessa de que Vic iria tentar não foder com tudo a cada uma semana.

E Tony aceitou com o coração mais aberto do que já esteve em toda a sua vida. Com todo o amor que poderia oferecer junto da paciência inesgotável sustentada pelo amor que sentia.

Durante todo esse tempo, mesmo sabendo de tudo que acontecia quando ele sumia e presenciando as consequências de quando voltava e quando a confissão ambígua preenchia o peito de Perry com dor, ao mesmo tempo sentindo uma empatia que só o amor mais puro poderia se deixar sentir, nunca chegou em nenhum momento a duvidar de seus sentimentos pelo “companheiro”. Nem mesmo quando a pessoa que mais confiava no mundo tentava o alertar de todas as formas possíveis  – simplesmente quase todos os dias de sua vida  – que a dor que sentia nunca iria passar enquanto não houvesse mudança. 

Que tipo de namorado ele seria se deixasse Vic sozinho dessa forma?

Talvez a única coisa que Tony ainda não tinha levado em consideração esse tempo todo, era que Fuentes nunca estaria sozinho. 

E isso incluía sua própria presença porque, querendo ou não, ele sabia que estaria ali de todo jeito a qualquer momento o apoiando como o amigo que sempre foi. Vic era um bom amigo para Tony, sempre seria.

Até chegar na primeira vez em que os lábios de ambos se encontraram e uma corrente elétrica inteira percorreu cada membro do corpo do guitarrista com a possibilidade de que tudo o que tocava pudesse ser seu.

Os murmúrios e respirações abafadas que ouviu ao passar por uma porta específica foram suficientes para o tirar dessa linha de pensamento pelos próximos anos.

Seus pés ficaram pesados, difíceis de carregar até o ponto em que a ponta de seus dedos gelados foram capazes de tocar a maçaneta. 

A ação não foi completamente imediata.

Foram razoáveis cinco segundos até que a porta estivesse completamente aberta, revelando um homem pelo menos cinco anos mais novo e alguns centímetros mais baixo que Tony se entregando completamente ao toque quente das mãos bobas de Vic. 

De seu então namorado. 

E então mais cinco segundos prendendo sua respiração sem ao menos perceber enquanto seu coração batia em seus tímpanos. Por um momento achou que poderia desmaiar ou simplesmente cair de joelhos a qualquer segundo, suas pernas se tornando geleia enquanto seus olhos estavam completamente abertos observando tudo

O problema é que nenhum dos outros dois abriu os olhos durante os outros cinco minutos em que Perry ficou parado no batente, suas sobrancelhas franzindo cada vez mais ao mesmo tempo que percebia sua visão desfocada  – provavelmente por causa das lágrimas que começavam a se formar severamente, chegando a cair em seu rosto sem que piscasse nem uma vez.

A tensão no ar continuou até que Victor perdesse o controle da situação, sendo sua vez de ser colocado contra a parede enquanto a mão do desconhecido subia por dentro de sua blusa e as suas segurasse com força a nuca dele, o trazendo mais para perto até que o ar separou ambos; Fuentes abriu os olhos uma vez, piscando lentamente enquanto beijos eram distribuídos em seu pescoço com pressa conforme o brilho em seu olhar desaparecia. 

Tony deu um suspiro trêmulo, sentindo suas mãos também começarem a tremer. O outro se desvinculava dos braços de sabe se lá quem enquanto a pessoa também percebia o que estava acontecendo, seus olhos tão abertos quanto os do tatuado estavam há poucos minutos. 

O indivíduo se apressou em sair do cômodo sem olhar para trás, tomando cuidado para não esbarrar no mais alto após sussurrar um “Desculpa” que ele faria questão de lembrar depois. 

Vic andou alguns passos contra o concreto como se a qualquer momento pudesse pisar em falso em uma bomba. De fato, o que estava tentando fazer não era seguro e quem sabe, dessa vez, não fosse possível impedir que essa bomba explodisse em frente ao seu rosto. 

Ele suspirou fundo, tentando ajeitar as próprias roupas para não ter que encarar o olhar machucado do namorado.

Nenhum dos dois disse nada por longos segundos, um silêncio nada confortável e extremamente pesado recaindo sobre os ombros de ambos como se a gravidade tivesse decidido sugá-los de uma vez para o núcleo da terra. 

Fuentes só levantou o olhar quando os soluços baixos de Tony já não eram mais tão quietos, sendo possível sentir a dor que perpetuava e era transmitida pelos olhos quase doentes de tristeza através da íris do mais alto. Um arrepio percorreu seu corpo inteiro, culpa pesando em seu peito, sentindo que poderia vomitar a qualquer contínua hora em que aquela visão continuasse a martelar seu cérebro.

Era tão irônico que doesse agora, ele pensou, quase sorrindo da completa desgraça.

Desculpas não seriam o suficiente em nenhuma realidade alternativa, então dizer qualquer coisa nesse momento poderia significar perder tudo de uma só vez. Perder a banda que demoraram tanto pra construir, a amizade de Tony e de Jaime e até mesmo a de Loniel. 

Perry sorriu sarcasticamente em meio ao choro, desviando a atenção para o corredor em que a visão era fria e sólida. Longe de todo o misto entre confusão arrependimento e culpa que a atmosfera da sala em que estavam inseridos carregava sem trégua alguma, penetrando-se em cada corrente de sentimento formado. 

Dessa vez, o que prevaleceu no coração de quem passou todos esses anos tentando relevar tudo, foi a raiva. 

E nem pelo que estava passando, mas sim porque a consciência de que foi uma experiência que escolhera de peito aberto e que em nenhum momento chegou a ser racional. 

— Vai se fuder. – Murmurou com dificuldade, sentindo a garganta apertar cada vez mais e seus olhos arderem sabendo que o rosto encharcado e pálpebras avermelhadas falavam por si só. 

— Tone…

— Não, Vic. Vai se fuder.  – Repetiu, dessa vez mais alto e firme, passando a encarar o rosto expressivo do outro. Uma risada escapou entredentes junto de um suspiro. Seu olhar vagou pelo cômodo por mais três segundos conforme suas pernas acompanhavam a inquietude, o deixando frente a frente com quinze anos de puro esforço em prol de um amor que nunca foi preservado. — Eu acho que já chega.

— Tony. Não é a porra do fim do mundo.

— Não é possível, Victor.  

— Espera, isso não foi… Não foi isso que eu quis dizer.

— E que porra você quis dizer, então? Sério. Eu só não… não consigo entender. – Tony sentiu as lágrimas voltarem a se formar novamente. — É incompreensível. Como nada nunca é o suficiente pra você. Nunca, nunca foi. Não tem nada que você poderia ter me dito durante esse tempo todo? Que eu nunca fui suficiente pra você?  

— Não tem nada a ver com você, Tone.  – Vic tentou dar um suspiro, sentindo vergonha de como aparentava agora. A vermelhidão descia de suas bochechas até seu pescoço, o olhar cansado como se finalmente o próprio egoísmo estivesse estampado em seu rosto.

 — Eu não sei se consigo acreditar nisso, Vic. Poxa. Porra.  – Sua respiração saiu trêmula antes que as gotas salgadas voltassem a deixar um gosto amargo na boca do guitarrista. — Qual é o seu problema, então? Porque eu não consigo me lembrar de uma única vez que eu te dei motivo pra continuar fazendo isso. Ou o que? Só continuou porque sabia que eu ia continuar perdoando? 

— Tony, a gente…conversou sobre isso. 

— Será? – Disparou, ríspido, as sobrancelhas franzindo. — Ou será que você só fez o que achou que fosse melhor pra você? 

— A gente conversou, Tony. Eu entendo a minha parte da culpa mas não tem como simplesmente esquecer de tudo o que a gente fez. 

— A gente? Você me prometeu que iria tentar. Você me prometeu, porra. – Soltou, apontando para o próprio peito, o tom de voz baixo e malmente soando como ele mesmo. O cansaço emocional batendo de uma vez só. 

— Eu nunca disse que…que daria certo. – Vic utilizou as duas mãos para passar os dedos entre os fios molhados de suor. Sentia seu rosto queimando em ansiedade enquanto tentava controlar a própria respiração. Victor nunca deixou de saber o peso que suas palavras tinham e o que as suas emoções carregavam, principalmente quando se tratava da pessoa que amava. 

— Você no mínimo confessou que me amava. 

O silêncio pairou novamente, a palavra atingindo o mais baixo como um soco na barriga. Ele amava Tony, amava mais do que tudo na vida. Mataria e morreria por ele de um jeito que sabia que ninguém ousaria por si.

— Eu sei. Não era mentira. Isso não…Nunca foi sobre eu te amar ou não. Você sabe, a gente conversou sobre tudo isso antes, quando a coisas já estavam confusas. – Vic insistiu. 

— Desde o começo ou “apenas” no começo? Porque o que a gente veio conversando durante todo esse tempo foi diferente. 

— Não tem diferença. 

— Claro que tem, porra. É claro que tem. 

Fuentes deu alguns passos para trás, se sentando em uma das cadeiras contra a parede – ou se jogando nela. Um gemido fraco escapando de seus lábios. 

— Desculpa. – Conseguiu dizer. 

Tony fechou os olhos por um momento, tentando se manter de pé antes de finalmente decidir se sentar no concreto frio contra a madeira insensível da porta ainda aberta. 

Ficaram ali por mais um tempo, o sentimento de que tudo estava perdido desde a primeira vez que Vic começou com o “hábito” de trair como um hobby de final de semana. Suor se misturava com as lágrimas que ainda insistiam em cair e manchar seu rosto. 

O cansaço, a impaciência e raiva se tornavam apenas uma nuvem de fumaça acima de sua cabeça. Não valia a pena. 

Não depois dos múltiplos gastos de energia dos últimos anos, jurando por tudo que é mais sagrado que seu colega de banda – seu parceiro de vida – tinha mudado, que eles estavam conversando, que as coisas estavam melhores agora. Diferentes. E poderiam estar, apenas não do jeito que esperava.

— Tá. 

Perry levantou devagar, seu corpo se acostumando com a saída do estado de correr ou morrer. Seus batimentos ainda estavam a mil por hora, com certeza, mas a sensação de finalmente aceitar e apenas deixar ir era libertadora. 

Não era culpa dele, ele sabia.  

— Tone? 

— Tá. – Ele disse, seu tom menos firme e agressivo do que antes. Estranhamente doce. — Vem cá. – Parou na frente da cadeira onde Fuentes estava, estendendo a mão. 

Victor olhou algumas hesitantes vezes entre o braço tatuado e o olhar compreensivo do outro. 

— N-não, Tone… 

— Para, vem. – Terminou de falar o puxando para um abraço. 

Lembrando da última vez que tentaram conversar, as coisas até pareciam que iam se ajeitar; mas, no final todos ao redor – e talvez até eles mesmos – sabiam que seria um processo doloroso de se passar. 

O mais baixo apertou as mãos nas costas do moreno, puxando o tecido e absorvendo todo o calor e empatia que sempre saía de Tony até mesmo em momentos em que claramente não merecia.

Era um abraço com gosto de “A gente já saberia que seria assim. 

Que funcionaria melhor se não tivéssemos escutado tudo o que nosso coração dizia ao pé da letra e talvez que se por um momento tivéssemos parado e prezado pelo nosso amor e por nós dois, não estaríamos aqui.

— Éramos novos, Vic. 

— Mas isso não tem nada a ver com a gente agora. Comigo. – Um murmúrio abafado foi tudo o que conseguiu fazer que saísse de sua boca contra o cheiro familiar da blusa de Tony.  

— Não. – Afirmou em um sussurro, a voz quente e reconfortante ressoando como um segredo. 

**

A madrugada estava com certeza mais profunda desde que o show havia terminado, mesmo que a maioria dos clubes ainda estivessem abertos, apesar de que com certeza não era novidade para uma cidade que vinha colecionando uma nova atenção e reputação desde que a banda havia começado. 

Tony não sabia ao certo em que momento seu celular começou a explodir de ligações e mensagens de quase todos os seus contatos, só percebendo que a maioria dos textos haviam sido enviados entre meia e uma hora. 

O de quarenta minutos atrás era de Jaime, perguntando se estava tudo bem e se ele deveria fazer algo; tudo escrito em uma única mensagem. 

O clima parecia ameno e confortável o suficiente, ainda que um vazio começasse a querer revirar seu estômago inteiro apenas para se encaixar entre cada espaço livre. 

A única pessoa em que poderia contar agora estava, provavelmente, em um lugar muito familiar e que já havia visitado milhares de vezes. 

Um que tinha seu cheiro e seus pôsteres preenchendo cada parede de seu quarto, com cheiro de café frio na cozinha e calor solene na sala enquanto um rajado deita no sofá, olhos fechados e corpinho quente. 

Tão quente quanto o abraço de Jaime que estava acostumado a receber diariamente. Tony nunca conseguiu concluir se o problema era ele por ter uma pele tão fria ou se Preciado tinha um dom para conforto familiar e uma superfície macia. 

De qualquer maneira, era isso que queria sentir naquele momento em meio ao vento frio que batia em seu rosto e – tinha certeza – avermelhava tudo que tocava. 

Então, lá estava ele: sem ter certeza se suas coisas estavam todas no ônibus ou se alguém da equipe ou até mesmo Jaime já havia levado para sua casa, se ele estava em casa ou até mesmo se ele gostaria de o atender naquele momento. 

A ideia de dar meia volta e entrar pelo batente da própria residência já havia passado pelo menos dez vezes na cabeça dele, no que seriam 20 minutos passados encarando o tapete da porta e a campainha branca tentando reunir algum tipo de coragem. 

O inconveniente é que Tony queria muito, muito ouvir a voz de Jaime naquele momento, ainda que tivesse que lutar contra a própria imensa vergonha de o ter ignorado em relação ao relacionamento com Vic durante os últimos longos e inesquecíveis anos. 

Perry estava afundando suas mãos nos bolsos das jeans quando um barulho o tirou de seu estado de transe entre pensamentos olhando para seus próprios vans surrados, o fazendo dar um passo para trás e só se acalmar ao perceber que o barulho vira de seu celular. 

Alcançou o aparelho no bolso de trás da calça, sentindo os dedos lentos e dormentes pelo frio  tentarem se acostumar a se mover novamente. 

“Você vai congelar aí fora.”

— Como…? – Olhou ao redor, percebendo uma luz acesa em um dos cômodos; tinha certeza de que ela não estava ligada há vinte minutos atrás. 

Piscou algumas vezes, sem saber como reagir. 

Jaime sabia que ele estava lá, na porta, agindo como se nunca tivesse a visto ou como se não tivesse umas das chaves reservas pendurada no seu chaveiro favorito. 

E, no momento en que ele abriu a porta encontrando o melhor amigo com olhos bem abertos, celular ainda em mãos, parado no mesmo lugar e nariz vermelho, foi quase impossível não sorrir. 

— Por que ficou aqui fora, Tone? Entra. 

Tony abriu um pequeno sorriso ao entrar e ver o outro fechar a porta, se sentindo envergonhado.

— Não sabia se você tava em casa. – Respondeu, sendo rapidamente envolvido pelo calor dentro da casa, tudo que tinha a ver com Jaime sempre era muito quente e confortável, o contrário de si.  

— E onde mais eu estaria? – Riu baixo. — Tá tudo bem? Achou o Vic?

— Sim, eu achei. – Suspirou, suas mãos de volta aos bolsos enquanto encarava o chão. — Acho que a gente terminou. 

— Tone… 

— Foi o melhor. – Murmurou, sorrindo sem graça. 

Jaime ficou parado, pensando no que seria o certo a se dizer naquele momento. 

— Você não… Não precisa dizer nada. E, por favor, eu sei que você já sabia que as coisas poderiam acabar assim mas…

— Não, Tone. – O mais baixo se aproximou, se preocupando em manter uma distância razoável o fitando com uma reação preocupada. — Eu não… Eu nunca diria algo do tipo. 

— Eu sei. Eu só não…na verdade, eu não sei. – Ele elevou o olhar novamente, a ponta de seus dedos agarrando ao seu suéter de esqueleto favorito. — Você pode só…?

O outro apertou os lábios, sem saber como confortar moralmente o amigo e lhe dar todo o suporte que precisava. No final do dia, diversas foram as noites em que sonhou com o momento em que seria ele a dar tudo que Tony merecia desde o começo de toda essa história. 

Mas, agora, as coisas só pareciam ter se complicado mais. 

 

Sem pensar muito, Jaime abraçou o melhor amigo de uma vez, sentindo seu corpo gelado e tenso relaxar um pouco conforme o toque se tornava mais forte. Depois de alguns segundos, ouviu um choro abafado em seu pescoço e fechou os olhos tentando não se entregar à vontade de desmoronar ali mesmo. 

Não importava o quão rápidas e doloridas as coisas acontecessem e se tornassem, nunca iria se acostumar totalmente a ouvir Perry usar seu ombro para se abrigar do resto do mundo, porque sempre conseguia sentir a dor junto. 

Então, como todas as outras vezes, seu coração se apertava intensamente simplesmente de saber que não poderia tirar o que quer que fosse que o mais alto estivesse sentindo naquele momento de seu peito e colocar no próprio. 

Doía, perturbava e sua única vontade era entregar tudo que pudesse para que Tony passasse não tão lentamente por uma parte tão ruim de sua vida. 

— Tone, você precisa de algo? – Se apressou em falar quando os soluços se tornaram um pouco mais altos. 

— Não, só fica aqui. Por favor.  

Uma hora depois, ambos estavam deitados na cama do quarto de cima reassistindo pela décima vez a sequência dos filmes de Star Wars desde que o mais velho se acalmara. 

Jaime tinha um braço em volta da cintura do amigo enquanto o mesmo já estava completamente adormecido em seu peito; observando, não pôde deixar de sorrir levemente com a visão reconfortante de finalmente vê-lo calmo e descansando com a respiração lenta conforme seus batimentos cardíacos também acompanhavam o ritmo de calmaria. 

O som do filme havia se tornado apenas parte do ambiente, como pequenas vozes distantes reafirmando conforto e segurança. A noite já havia se aprofundado e o único feixe de luz natural que iluminava o rosto delicado de Tony era a brecha deixada na janela para que a lua entrasse. Soava perfeito, a respiração quente do outro contra sua pele e o aconchego indescritível. 

Com os dois debaixo das cobertas compartilhando o calor necessário para passar a noite, por um breve momento Jaime se perguntou se não seria melhor ligar o aquecedor e evitar que o outro congelasse durante a noite caso a temperatura que seu corpo fornecesse não fosse mais suficiente. 

O mesmo nível de cuidado que passou tanto tempo se amaldiçoando por manter agora finalmente valia de algo, um algo mesmo que minimamente importante. 

Preciado suspirou, com medo de acabar o acordando de qualquer jeito e perder a posição incrível que a última vez que aconteceu foi quando o tatuado acidentalmente esqueceu as chaves de casa em algum lugar e estava muito cansado para se dar ao trabalho de procurar, então resolveu passar a noite. 

Era especial. 

Simplesmente maravilhoso e aliviante estar ao lado da pessoa que amava há tanto tempo depois de um processo conturbado que acabou machucando a todos ao redor. Ele deixou sua mente divagar por um momento, pensando em como Vic estava naquele momento. Deixou um beijo rápido nos fios escuros do outro antes de tentar se desvencilhar e ser parado no meio do caminho por uma leve puxada em seu suéter. Jaime parou no lugar, esperando para ver se Tony iria acordar. 

— Jaime. – Murmurou. 

— Tone? – Sussurrou de volta.

— Fica aqui. 

— Você não tá com frio? Pode ficar pior depois… 

— Não. — E puxou novamente, fazendo com o que o outro desistisse de uma vez e apenas se acomodasse com a posição na cama. 

Com a leve mudança de posição, Preciado passou a sentir a respiração calma de Perry em seu pescoço. Sorriu por um momento antes de sua mente voltar novamente ao pensamento do outro amigo. 

Victor sempre soube cuidar bem de suas coisas com sua própria cabeça. Normalmente escrevendo músicas ou ouvindo elas enquanto colocava ideias no papel ou simplesmente agindo como qualquer outra pessoa agiria conforme o estresse batia: buscava as maneiras convencionais. 

Não houve muito tempo para que chegasse à alguma conclusão antes que a voz ainda sonolenta soasse ao seu ouvido, deixando um pequeno rastro de arrepio na pele do moreno. 

— O que você disse antes…

Um breve silêncio se estendeu por alguns segundos enquanto a voz distante da TV ainda ligada servia de música de fundo para as memórias se alinhando. 

— Esquece. 

— No ônibus. 

Esquece, Tone. Não pensa nisso. Não foi… 

Desistiu antes que pudesse falar mais alguma coisa que, no fundo, iria contra tudo que vinha pensando recentemente. 

Era mais de uma década cultivando um amor que jurou que nunca seria retribuído. Uma paixão que nunca veria a luz do dia. 

E pareceu ainda mais irreal depois da conversa que tiveram no ônibus, ou melhor, do que Jaime disse naquela situação. 

Seria melhor assumir tudo de uma vez antes que morresse com esse sentimento. 

— Desculpa. Foi no calor do momento. 

— Você parecia bem irritado. 

— Calor…do momento? 

Mais um momento de quietude se estendeu com o estatelar das paredes. 

Jaime ainda não tinha entendido o porquê de Tony ainda estar onde estava – ambas mãos quentes em seu peitoral, deixando que sua cintura ainda tivesse a presença segura da mão do amigo ali – sabendo do que sabia; esperava que ele fosse no mínimo questionar de onde havia surgido tudo isso e por que trazer a tona justo naquele instante. 

— Quais nomes você gosta? – Soltou em um tom quieto, seus dedos brincando titubeantes com alguns fios soltos do tecido colado de Preciado. 

— Joanne. – Respondeu de imediato, antes que desse tempo de pensar demais. 

— E menino?

— Santiago. 

— São lindos. – Foi possível ouvir seu sorriso por cima do ciciar. 

— Você acha? 

— Acho.

O sussurrar dos dois deixou a situação mais íntima, como se estivessem acostumados a parecer um casal pensando em constituir uma família, como um segredo que no final das contas era inofensivo. A sensação da voz de Perry em seu pescoço era quente, com o poder vitalício de soar como um sonho. Por um momento, pensou se Victor e ele já tinham tido a mesma conversa daquele mesmo jeito.  

Jaime virou o rosto para o lado em direção ao outro, percebendo o par de olhos brilhantes que o fitavam de volta a poucos centímetros de distância dos seus. Deixou que seu olhar caísse para os lábios dele, gesto que normalmente se repreendia por fazer inconscientemente. 

 

— Você tá encarando. – O sorriso cresceu sutilmente. 

Sem dar chance para que outro pensamento se formasse o mais novo se aproximou de uma vez, fechando todo o mínimo espaço que havia restado entre seus olhares e respirações agora comprometidas com a ansiedade gradual.

 

Em um simples gesto, o toque satisfatório mas ao mesmo tempo hesitante durou por um breve momento até Tony puxasse o suéter do outro novamente e Jaime tomasse como um sinal de rejeição imediata, se afastando o suficiente para conseguir enxergar o rosto do mais velho com mais clareza. A esse ponto, pareciam adolescentes sentindo o gosto da paixão acompanhado do medo de rejeição pela primeira vez.

Por outro lado, parecia ser tudo ou nada.

De nada valia ir em frente com a vontade de ficar com o amor da sua vida se no final, na verdade, não fosse nada do que queria que fosse. 

Encaravam-se mutuamente trocando olhares cintilantes, buscando coragem para falar algo ou até mesmo se desvencilhar e encarar a realidade de uma vez, fingindo que nada daquele breve contato havia acontecido. 

Entretanto, nenhum dos dois queria fingir que não tinha sentido o toque um do outro. 

Jaime molhou os lábios enquanto Tony engolia em seco, ainda segurando na barra do suéter do amigo — o que esperava que parecesse sinal suficiente de que queria continuar com o que quer que fosse o que estariam começando a desenvolver ali.  

— Me avisa se eu estiver entendendo isso errado, por favor, porque eu não… – Sussurrou levemente contra o rosto do outro. — Eu não quero estar. 

Perry sorriu pequeno, tentando conter seu rosto de se abrir completamente. 

— Me beija antes que eu me arrependa, Jaime. 

Tony utilizou o choque elétrico que percorria seu corpo desde que a ideia surgiu dentro de sua cabeça para agir de uma vez por todas. 

Seu coração batia de forma completamente descontrolada dentro de seu peito, quase implorando para que ele fosse o primeiro a tomar alguma atitude concreta e pelo menos uma vez na vida, quem sabe, finalmente a decisão certa. 

A onda de calor e sentimento que o abateu imediatamente após sentir os lábios quentes de Preciado contra os seus foi o suficiente para o colocar em um transe. Suas mãos subiram do peitoral do outro para sua nuca, puxando o cabelo e trazendo o rosto de Jaime para mais próximo do seu enquanto desejava nunca ter ignorado os sinais que agora faziam todo sentido.

A forma que era encarado quando estava distraído, o jeito que todas as pessoas que apresentava para o amigo nunca pareciam boas o suficiente ou, como recentemente, as constantes brigas para que Tony tomasse alguma providência em relação ao relacionamento confuso que estava vivendo e que muitas vezes pareciam ser tendenciosas. 

Parecia ter valido a pena pagar para ver. 

Jaime arfou, mas logo voltou a procurar oxigênio como se ele estivesse escondido na saliva da boca do melhor amigo. O mais velho não lutou contra nenhuma das investidas, passando a mudar sua posição conforme a interação pedia. 

As línguas quentes de ambos se encontravam rapidamente sem pedir uma passavem “gentil” enquanto o ambiente ao redor ficava cada vez mais quente e o sangue correndo por suas veias ganhava uma nova velocidade que agora parecia praticamente imparável, o desejo tomando conta de seus corpos rapidamente.  

— Jaime… – Tony sussurrou com uma voz arfada, perto o suficiente para que pudessem encarar de perto um ao outro, ainda agarrando no tecido. Suas pernas em volta dos quadris do amigo e a fricção parada em ponto estratégico. 

Na visão do outro, seu rosto apresentava um vermelho quase igual ao de seus lábios que tinham a cor ressaltada pela saliva que os molhava. Preciado engoliu em seco com a ideia de que era o único a causar tudo aquilo de uma vez só: seus dedos traçando cada pedaço do corpo de Tony que conseguisse alcançar até que parassem em sua cintura, lambendo e mordendo a cada gemido fraco que ouvia sair da garganta do homem. 

— Tony. – Ele respondeu, finalmente desviando o olhar da boca para os olhos brilhantes e reluzentes do rosto que admira em silêncio há tanto tempo, desta vez com mais coragem. O brilho tão vívido, “como o mais bonito reflexo de olhos de fogos de artifício”, pela primeira vez, em direção aos seus. 

Encararam-se por mais alguns segundos, até que Jaime entendesse do que se tratava a interrupção abrupta quando o outro parecia estar se sentindo tão bem. O brilho parecia se fundir com as pequenas lágrimas se formando no canto de seus olhos. 

— Tony? Tony. Tony, desculpa. Eu não pensei direito. Você tá bem? – Tirou as mãos da cintura da figura a sua frente que agora parecia tão sensível. 

Ele balançou a cabeça, segurando ainda mais forte no suéter que o baixista usava. 

— Não, tá tudo bem. – Conseguiu dizer ainda que a sensação fosse de que sua garganta estava prestes a se trancar eternamente dentro de si. — Eu só… 

— A gente pode…parar, tá? Eu não quero que você se sinta forçado a fazer isso porque antes pareceu uma boa ideia. Eu não me importo, Tone. 

— Não, eu quero. Eu quero muito. – Piscou, tentando conter o peso emocional do alívio que sentia no momento. 

— Mesmo que você queira, se você não achar que seja certo… – Insistiu. 

O mais alto interrompeu a frase com o gesto mais plausível para que seu amigo conseguisse calar a boca e não se sentir culpado pela próxima meia hora: levou as duas mãos até o rosto dele e o beijou novamente, esperando não deixar dúvidas. 

Jaime se deixou levar completamente pelos próximos minutos em que passaram na mesma posição sentindo o toque se aprofundar  naturalmente enquanto sentia as lágrimas salgadas do guitarrista descerem por seu rosto, chegando a sentir o gosto delas se misturando com o excesso de saliva. O mais íntimo e exploratório possível, degustando cada segundo de vontade lentamente como se tivessem todo o tempo do mundo.  

Instintivamente, seus dedos subiram para as coxas do moreno, acariciando a pele coberta com mãos cheias conforme seu peito começava a descer e subir cada vez mais rápido, a excitação consumindo cada músculo. 

Perry sabia que havia um outro motivo, além da tensão e calor que começava a exalar para que o coração do melhor amigo estivesse batendo tão forte contra o seu conforme seus corpos se colaram cada vez mais; porém, poderia pensar sobre isso depois que seu sangue parasse de se concentrar em uma só parte do seu corpo. 

**

Quando Tony acordou no dia seguinte tateando o colchão coberto de lençóis bagunçados, deixou-se levar pelo leve cheiro de suor e perfume natural do corpo de Jaime por alguns segundos até perceber que, de fato, não era o calor do corpo dele presente ali. Aparentemente, as únicas coisas que haviam sobrado da noite passada eram o fantasma de Jaime e as leves lembranças oníricas no canto de sua memória. Perry se virou, encarando o teto conforme sua consciência voltava e tudo passava a ficar mais claro.

O quarto estava iluminado pelos feixes de luz que insistiam em atravessar as cortinas brancas que o mais novo costumava reclamar tanto mas acabava nunca trocando, raios laranjas reluziam em sua pele quase pálida e morna a essa hora da manhã. Seus pensamentos vagavam inquietamente, buscando algum motivo para Jaime não ter acordado ao seu lado do jeito que esperava.

Não que Tony estivesse arrependido de aproveitar e agarrar a chance que teve quando seu coração pediu, ou que no momento estivesse irritado com o outro; a sensação era apenas esquisita. 

Suspirou pesadamente, jogando o aperto em seu peito de lado conforme se levantava da cama e sentia o morno do piso de madeira abaixo de seus pés. 

Deu passos curtos até a porta, a abrindo lentamente como uma criança percebendo que está sozinha em casa. Mas, nesse caso, ele não sabia. Só esperava que não tivesse sido deixado sozinho na casa do amigo como se nada da noite anterior tivesse importado. 

Como se os milhares de beijos que passaram a noite praticamente inteira trocando não tivessem sido carinhosamente sinceros; Como se o olhar brilhante de Preciado falando os nomes dos futuros filhos que ele queria ter — filhos que ele queria com Tony — não tivesse valido nada até então. 

Perry olhou em volta, buscando qualquer pista da presença de outro adulto em casa. 

E, bem, Jaime não era do tipo de fazer as coisas de forma silenciosa. 

Levou menos de um minuto até que descesse as escadas e entrasse na cozinha, encontrando o quem sabe companheiro cantarolar de forma agradável para si mesmo enquanto mexia em algumas panelas da cozinha. 

Doméstico, natural. 

De uma forma que chegava a doer. 

Tony suspirou baixo, deixando que seus pés se acostumassem com a temperatura amena do chão de madeira enquanto observava em silêncio. 

O outro parecia não ter percebido a presença de Perry pela maior parte do tempo até desviar o olhar por um segundo e enxergar o maior encolhido perto da bancada, seus olhos abertos encarando diretamente o rosto de Preciado com o refletir da luz natural que cortava as cortinas da casa em suas íris. 

Jaime ficou calado por alguns segundos antes de engolir em seco, esquecendo completamente do que estava fazendo, e abrir a boca. 

— Você… tá aí há quanto tempo? – Murmurou, dando um pequeno sorriso. 

— Desde… – Começou, sorrindo apesar de toda a ansiedade que carregava no peito. Sabia que naquele momento qualquer que fosse a visão que Jaime tivesse, o jeito que olhava para ele o entregaria. — Tempo suficiente pra ouvir você cantando, eu acho. 

Tony deu alguns passos até estar próximo do fogão onde o outro voltava a mexer a panela, um pequeno sorriso em seus lábios e o corar tímido nas têmporas. 

— Falando nisso, faz tempo que você não faz as suas músicas. – Murmurou, observando cada movimento do mais baixo. 

— É…muita coisa pra fazer, eu acho. 

Com uma espátula na mão, Jaime começou a servir o que preparava, e o cheiro de comida caseira se intensificou pela casa. O nó que se formou internamente em Tony mais cedo agora se desmanchava, dando lugar a sua auto-consciência em relação à fome que sentia. 

Não havia comido nada antes ou depois da conversa que deu um ponto final ao seu namoro de anos com seu companheiro de banda, e, bem, antes de se encontrar perdido na frente da casa do melhor amigo. Os dois se sentaram lado a lado no balcão da cozinha, compartilhando um sorriso tímido. 

Preciado encarou o amigo por alguns segundos até que tivesse certeza de que Tony tinha começado a comer, fazendo uma feição de aprovação com mais um pequeno sorriso, do mesmo jeito que costumava fazer desde que eram mais novos.

No meio da manhã, com o sol californiano se fazendo cada vez mais presente nas janelas da casa, parecia impossível não pensar em como a última noite havia sido. Jaime não conseguia parar de pensar, na verdade. Desde o primeiro momento em que tinha visto Tony parado na varanda da frente como um cachorrinho perdido até o em que ele parecia ter se tornado outra pessoa, agarrando e beijando como se quisesse despedaçar o outro em vários pedacinhos e depois colar com selinhos calorosos. 

Mas, claro, com a visão borrada e o suor que não parava de descer de sua nuca até o seu peito ficava difícil de dizer se era de fato tudo real ou apenas delírios oníricos do que um dia desejou mais do que tudo para sua vida. 

Processar toda a situação do início estava sendo difícil, e tentar acreditar que o que compartilharam era de fato algo real só tornava tudo mais complicado. 

Jaime entendia que o jeito que decidiu agir era egoísta, mas talvez Tony precisasse de um tempo. 

E o que poderiam ser mais cinco anos? 

— Você… acha que o Vic vai ficar bem? – Perry quebrou o silêncio com sua voz baixa, deslizando o garfo pelo prato de porcelana. Um dos mais bonitos que a mãe de Preciado havia lhe dado de presente no Natal retrasado, pra ser honesto. 

O outro engoliu o último pedaço da comida com calma, pensando no que dizer. 

— É o Vic, acho que ele vai ficar bem. 

— Você tem certeza? – O outro perguntou após um momento. 

— Acho que temos que esperar pra ver. Ele vai precisar do tempo dele. – Jaime buscou a mão de Tony, deslizando seus dedos levemente pela pele dele, seus olhos se encontrando em um movimento de afeto. — E você do seu. Vai dar tudo certo. 

Preciado sorriu, tentando transmitir a ternura que o rosto preocupado do homem precisava.