Chapter Text
Era verão em Musutafu. Faltava uma semana para o aniversário do meu melhor amigo e, com isso, estava chegando o fim do período de aulas da U.A, escola onde estudamos.
A nossa vizinhança normalmente estava vazia, mas agora a rua onde eu e Mirio brincamos todos os dias depois da aula estava cheia de crianças, colegas de nossa sala que eram amigos dele.
Dele, e somente dele. Eu não gostava de fazer amigos. Detestava. E não é nem que eu não gosto de pessoas, é que eu não sei se consigo manter amizades.
Minha amizade com Mirio só tinha se iniciado por interesse da parte dele. Me lembro bem de quando a gente se conheceu, afinal de contas, ninguém conseguia esquecer do brilho que ele emanava fazendo qualquer coisa.
Ninguém conseguia não abrir pelo menos um sorriso de canto depois de olhar o belo sorriso que estava sempre estampado em sua cara. Ninguém consegue escapar do Sol.
"Tamaki-kun!" Escutei a voz de Mirio me chamando. Pela sua expressão confusa, deduzi que ele provavelmente já estava me chamando fazia algum tempo. "Você não quer brincar com a gente?"
"Não... Obrigada." Desviei meu olhar dos olhos azuis dele, calor subindo pelo meu pescoço e indo até minhas bochechas. Estavam todos me encarando, tinha certeza.
"Ahhh, por que?" O loiro perguntou, visivelmente triste.
Virei para o lado mais ainda, tentando evitar ele "Eu to cansado hoje, me desculpa."
"Ah... tudo bem então!" O sorriso voltou para o rosto dele. Não é como se saísse de lá também.
Eles começaram a jogar futebol, algo que o Mirio jogava todo santo dia. O sonho dele é ser jogador de futebol, ele fala isso pra mim todos os dias. E acredito que ele consiga, afinal, é bonito, forte, e joga muito bem.
Foi aí que eu notei que Nejiro Hado, a única menina que tinha ido pra rua, começou a andar pra cima de mim com um olhar curioso.
"Não vem pra cá, não vem pra cá!" O pensamento passou pela minha cabeça, mas isso não a impediu de continuar seu caminho. Não queria interagir, queria esperar o Mirio acabar de jogar pra eu ir paga casa.
Nejire se sentou, seu cabelo azul claro médio balançando contra o vento úmido de verão. "Você não quer jogar com eles?" Ela perguntou
"Ah, e-eu..." Fui começar a falar, mas ela me interrompeu
"Hum, você não parece ter um bom porte físico, deve ser por isso que você não joga, né?" Ela chegou mais perto, me deixando desconfortável "Por que você não faz exercício físico?"
"Ahn, eu..." Tentei de novo, mas a menina me interrompeu novamente
"Nossa, e mesmo a gente tendo praticamente a mesma idade, que são doze anos, você parece ser muito mais velho!" Nejire aponta um dedo pra minha cara "Por que você parece um velho? Acho que são as olheiras..."
Desisti completamente de falar, então deixei ela me criticar. Apesar de não gostar que as pessoas falem de mim ou da minha aparência, sabia que falar o que passava pela sua cabeça era da natureza dela.
Continuei sentado com as minhas pernas cruzadas em frente ao meu corpo. Apoiei minha cabeça nos meus joelhos e fechei o rosto, sentindo minha garganta apertar "Mirio, vai logo... eu quero ir embora."
"Sabe de uma coisa?" Virei minha cabeça, praticamente sugando as lágrimas que estavam prestes a cair pelas minhas bochechas, vendo Nejire me encarando com os olhos grandes e azuis dela "Você deveria falar mais como você se sente! Por que você parece tão desconfortável? Queria tá em casa?"
Travei por um tempo, mas depois assenti.
Ela botou um dedo no queixo, como se estivesse pensando "Por que? Você não gosta de mim?"
Eu não respondi, continuando encarando ela. "Tamaki-kun, você gosta de mim ou não?"
"Tamaki-kun!" Escutei a voz de Mirio ao meu lado "Vamos?" Ele disse colocando a mão em meu ombro.
Quando olhei para cima, vi ele segurando sua bola de futebol e me olhando com uma expressão preocupada, seus olhos encarando diretamente os meus. Meu melhor amigo parecia não ligar para todos que estavam reclamando que ele estava levando a bola para casa.
Fiquei vermelho de novo com o contato visual que ele fez comigo, sentindo as mesmas borboletas de sempre invadirem meu estômago. "Por que eu sinto isso toda hora que encontro ele?" Pensei para mim mesmo.
"V-você não vai jogar mais, Mirio-kun?" Coloquei minha mão encima da dele
Mirio balançou a cabeça em resposta, fazendo um biquinho "Vem logo, Tamaki! Eu quero comer picolé!"
Abri um sorriso, achando fofa a expressão que ele fez "Então vamos. Eu também quero um picolé."
"Tá bom!" Mirio esboçava um sorriso aliviado. Ele se virou para seus amigos "Tchau, gente! Desculpa por levar a bola, é que eu tô com fome!"
Ele pegou minha mão e começou a correr comigo para a loja de conveniência que ficava proxima da nossa rua e da casa. Estávamos ambos ofegantes quando chegamos na loja e Mirio estava rindo igual um maluco.
"Nossa, calma aí." Me soltei dele e me apoiei nos meus joelhos, recuperando o fôlego.
Foi quando olhei para cima que vi o momento que ele jogou a cabeça para trás e começou a rir. Aquela risada gostosa de escutar dele. A risada mais fofa e sincera que eu já escutei tantas vezes.
Era incrível como o Sol de fim de tarde batia tão bem nele, fazendo ele parecer mais ainda com o sunshine que ele é.
Depois de notar que estava encarando por tempo demais, desviei o olhar, me levantando e me espreguiçando para fingir naturalidade "Bem, você tem dinheiro?"
"Relaxa, eu quebrei meu cofrinho pra pagar isso!" Mirio correu para a porta loja, mas, antes de entrar, ele se virou pra mim e perguntou "Qual sabor você vai pegar? Eu vou com o de chocolate!"
"Ah, qualquer um serve..." Falei, segurando meu braço
"Pode ser de morango? Acho q é o único que eu ainda tenho dinheiro pra pagar..." Seu rosto ficou meio rosado de vergonha
Dei uma pequena risada "Pode ser, então."
Meu melhor amigo sorriu e adentrou a loja.
E foi aí que eu percebi que, se o que eu sentia por ele é o que eu acho que é, é melhor eu esconder caso ele não sinta o mesmo.
Eu nunca me perdoaria se sua luz se apagasse por minha culpa.
~~timeskip~~
As luzes estavam quase cegando a multidão do bar. Conseguia saber disso pois, cada vez que essas luzes passam entre a cortina, eu também ficava cego.
Diferentemente das pessoas que estavam frequentando o bar, que estavam amontoadas em frente ao palco, eu me encontrava no backstage, sentado no chão e em completo desespero.
"Kero, Amajiki senpai, a gente precisa ir logo!" Mire falou para mim, tendo que praticamente gritar por conta do barulho.
Mire, ou melhor, Tsuyu Asui. Tsuyu é uma menina do 1° ano da U.A que decidiu entrar no clube de música no final do ano passado. Ela é baixista e usa o nome Mire quando está no palco.
Ela é muito reconhecida pelo seu cabelo verde escuro longo natural, que combina com seus olhos, sua pele branca e suas feições muito parecidas com a de um sapo.
"Não me chama de Amajiki senpai." Falei, virando o rosto.
"Kero..." Mire falou com um tom triste. Meio que não era justo eu falar com ela assim, já que ele foi a primeira membro do clube de música e também a única mulher. Mas, nessa situação, eu não ligo para o que é justo ou não.
"O que está rolando? Por que está brigando com a Mire?" Corvo estava logo atrás de Mire.
Fumikage Tokoyami foi o segundo integrante do clube de música, entrou uma semana depois da Tsuyu. Ele também é do 1° ano, é guitarrista, utiliza o codinome Corvo e, apesar de ser mais novo que eu, ele é mais corajoso, porém mais quieto e na dele.
Possui piercings no nariz, nas orelhas e um na sombrancelha, seu cabelo preto médio com mechas roxas é o sonho de todo gótico. Apesar de sua vibe sem vida, ele tem um tom de pele moreno, como se pegasse sol todo dia apesar de não sair da sala de música.
"Mire tem razão, Jiki. Temos que subir logo." Corvo estava com as mãos no bolso, falando com o mesmo tom de voz.
"A GENTE TEM QUE SUBIR OU SENÃO VAMOS ATRASAR!!!!" A voz estrondosa de Crimson me deixou quase surdo. Esse era o poder de Ejirou Kirishima. Sua energia era tão contagiante que provavelmente até quem está na última fileira conseguiu escutar esse grito.
Quando Ejirou entrou no clube, mais pro começo do ano, ele possuía o cabelo preto e parecia mais emo que o Tokoyami. Porém, depois que o codinome Crimson virou sua personalidade inteira, ele decidiu pintar o cabelo de vermelho e agora o usa em um topete ridículo.
"Rápido, rápido!!!" Crimson gritou novamente, segurando seus bastões da bateria que ele toca.
"A gente já escutou, Ejirou-kun, kero." Mire estava cobrindo os ouvidos.
"Vamos. Levante daí, líder destemido." Tokoyami estendeu sua mão para mim, mas levantei sem agarra-la.
"Cadê o Duo?" Me virei para eles, mas eles desviaram o olhar
Doro-duo, Todoroki Shoto, foi o último integrante do clube de música. Ele aparentemente entrou pois não sabia em que clube entrar e o nosso era o mais vazio.
Shoto é filho de um militar famoso, o que tirava um pouco mais do sentido dele estar no clube. Seus cabelos são divididos em duas cores: um lado é vermelho, e o outro, branco. Ele foi completamente abençoado pelos genes perfeitamente dividos de seu pai e de sua mãe, herdando olhos de cores diferentes também.
"Erik. Cheguei atrasado." Todos nos viramos para encontrar o tecladista parado na frente da porta do camarim usando uma blusa preta manga curta com uma manga longa preta por baixo, combinadas com uma calça jeans escura.
"DOROOOOOO! FINALMENTE!!" Crimson berrou novamente "Ai, eu tô ansioso pra apresentar!"
"Kero, também mal posso esperar." Mire pegou o baixo nas mãos, seguida de Corvo, que pegou sua guitarra.
Vi todos os membros da banda conversando, a banda que eu criei: Nocturne. A banda que foi crescendo aos poucos e que agora estava no backstage antes de finalmente apresentar em um lugar que não seja a sala do clube ou a garagem de Crimson.
Cheguei perto deles e cutuquei Corvo, indicando que ele deveria iniciar o discurso.
"Ah, ahn... Nós percorremos um longo caminho para chegar aqui. Estivemos unidos, nunca desistimos, e agora iremos pagar pelo nosso esforço." Ele passou seus olhos negros por todos "Lembrem-se que isso não foi só o conjunto, mas como cada um também cresceu individualmente."
"Mas-" Tokoyami continuou "Temos que agradecer ao Jiki, que foi quem iniciou isso tudo. Valeu, líder destemido."
Todos mundo agradeceu junto por eu estar lá. Não parecia estar estampado na minha cara, mas estava prestes a explodir de vergonha. Apesar de gostar de que reconheçam meu esforço, odiava homenagens.
Quando as luzes começaram a ser ajustadas novamente, senti uma nova onda de coragem me dominar, então comecei a falar rapidamente "Obrigado por tudo. Façam seu melhor. Me chamem de Erik, não pelo meu nome real."
Peguei minha máscara, uma preta que tinha os olhos brancos fechados, que cobria tudo menos minha boca, e virei para eles "Encima do palco e vestindo essa máscara, eu sou Erik, vocalista dos Nocturnes. E isso cabe a todos vocês."
Coloquei a máscara no meu rosto "Ninguém sabe da existência dessa banda e ninguém precisa saber. Então, por favor, quando se trata da banda, utilizem somente os seus codinomes."
"Sim, senhor!" Eles falaram em uníssono
"Vamos logo, estamos perdendo tempo!" Crimson praticamente enfiou a sua máscara vermelha vinho com espinhos como chifres em seu rosto e pulou pra cima do palco.
Mire também colocou sua máscara, uma verde que parecia derretida e estava de língua pra fora, e alcançou a de Corvo para o mesmo.
A de corvo era preta e possuía penas nas bordas, os olhos afiados vermelhos e sem boca, somente um espaço vazio.
"Kero, agora só falta você, Doro." A menina estava na escada do palco, onde todos paramos atrás dela esperando pelo nosso tecladista.
Todoroki pegou sua máscara também, uma vermelha e branca, onde a expressão do lado vermelho era de raiva e a do lado branco, tristeza. "E arruma um jeito de esconder esse seu cabelo também." Corvo apontou para o cabelo de duas cores do menino.
"Relaxa," Duo puxou o capuz de sua blusa (que de alguma forma tinha capuz), que escondia o cabelo diferente por completo "Eu já pensei nisso daí."
Apertei mais a máscara no meu rosto, o medo de minha identidade ser revelada na frente de todos aqueles estranhos me dominando. Porém, senti um tapão nas minhas costas, um que quase tirou minha respiração inteira de tão forte.
"Vamos, Erik. Sem seus vocais nós não somos os Nocturnes." Apesar de usar a máscara, era possível imaginar o sorriso gentil que Crimson estava dando "Vamo subir e mostrar pra eles o que é rock de verdade!"
Também sorri, bagunçando meu cabelo para entrar mais na vibe do rock e subindo encima do palco.
Todos nós subimos e fomos em direção aos nossos respectivos instrumentos, eu indo direto para meu microfone.
Vendo todas aquelas pessoas nos olhando, esperando a gente começar a tocar, me deixou super nervoso.
"Batatas. Suas cabeças são batatas." Pensei, usando a técnica que eu sempre usava quando estava nervoso para falar em frente a uma multidão "Tá tudo bem."
Respirei fundo e comecei a bater o pé no chão, indicando que nossa primeira música ia iniciar. Crimson iniciou com a bateria, seguido de Mire e Corvo com o baixo e a guitarra.
Começamos a tocar a primeira música que eu compus, Ballad of a Homeschooled Boy.
~~
"AE, A GENTE ARRASOU!" depois de cinco repetições da mesma música e duas outras, que eu não lembro quais foram por conta que já estava perdendo minhas habilidades de canto, finalmente descemos do palco.
"Kero, meus dedos tão doendo..." Mire abria e fechava as mãos como se isso fosse surtir algum efeito.
"Os... Os meus também." Corvo encarava as próprias mãos, os dedos da mão direita sangrando por conta da intensidade de tinha tocado todas as músicas.
Duo suspirou entediado, como se o show de quase duas horas não tivesse sido nada "Por isso falei para você comprar uma palheta, Tokoyami-kun."
"Eu não ligo para palheta nenhuma. A maior satisfação de um artista é se machucar enquanto se expressa." O mais novo falou de forma poética enquanto Todoroki colocava band-aids nos dedos dele "Ai- quer dizer, não doeu."
"NOSSA, EU AINDA PODERIA TOCAR A BATERIA POR MAIS 2 HORAS!" Kirishima não parava de gritar de alegria desde que tínhamos descido "EU TÔ TENDO UM PICO DE ENERGIA!!"
Me apoiei na parede, retirando a máscara e ficando ofegante. Essa noite tinha sido longa e eu tinha exercido mais esforço que o normal, então estou fora de mim mesmo.
Provavelmente já estou sem voz, utilizei praticamente 45,6% dela na primeira música, e acho q foi uma decisão meio idiota. Tossi de leve e passei a mão pela testa para secar o suor.
Quando olhei para frente, notei que tinha uma menina me alcançando um pano, para secar melhor. Quando meus olhos se acostumaram com o escuro, notei que era a Host. Ou melhor, Kyoka Jiro.
Ela era a manager da banda, cuidava dos nossos shows e coisa assim já que tinha uma banda fora da escola e entendia desses assuntos.
Dei uma pequena reverência em agradecimento já que não conseguia emitir nenhum som e peguei o pano, secando meu suor.
"Mandou bem hoje, Erik." Disse a menina de cabelos arroxeados "Só acho que você poderia ter pegado um pouco mais leve, apesar de suas high notes terem sido incríveis."
Agradeci novamente com uma reverência. Como já disse antes, foi uma noite longa, então fiz o símbolo de um teto com as mãos.
"Casa? 'Cê já quer ir?" Assenti "Então vamos. Banda, vão se organizando. A van já já chega."
Vi todos começando a se arrumar enquanto conversavam, então decidi sentar e dar uma soneca. Conseguia prever a enxaqueca que chegava, mas eu poderia lidar com isso amanhã.
