Work Text:
— Por que faz isso comigo Louis? Não basta me ignorar, ainda brinca com meu amor.
Era sua vontade de gritar quando sua alma gêmea, seu filho e amado imortal o pede ajuda. Isso depois de ignorar o fato que Lestat levou um tiro, contudo o príncipe moleque, o vampiro Lestat, o rockstar ou qualquer que fosse o título que lhe quisesse atribuir estava ali, usando o dom da nuvem para voar direto para o único que o fazia voltar sempre — Louis de Pointe du Lac
Os anos eram cruéis para os imortais, ele brinca com a memória e faz com que a verdade se misture com o desejo.
Regina, esse era o nome da criança.
Ela lembrava Cláudia, mas não era Cláudia.
Agora diante dela, Lestat entendia por que Louis estava tão atormentado. Ela lembrava aquilo que foi bom em anos de matança, a breve família feliz. A criança vampira com dois pais orgulhos que desfilavam pelas noites de Nova Orleans.
— Sei que sou egoísta, mas por favor Lestat, me diga, é ela? Ela voltou para nós?
A voz embargada de desejo de que a ilusão fosse verdade ainda ecoava nos ouvidos de Lestat quando cruzou a porta da lanchonete velha e cheia de gordura e humanos decadentes.
E ali estava, talvez para outra pessoa Regina conseguisse se passar por Cláudia, mas para ele não.
Ele a criou e estava lá no momento de sua morte. Ele estava lá, sem desviar o olhar, enquanto ela virava cinzas diante de todos no Theatro dos Vampiros. Ele escolheu proteger Louis, mas nunca deixou de amar Cláudia.
Ela era sua criança mais perfeita, mais poderosa. Tinha seu sangue e sua alma para caçar. Cruel e infantil, não tinha como não se apaixonar por ela. E Regina tinha vida, tinha sangue e seus olhos... A maior diferença entre as duas, eram seus olhos.
Mesmo em toda a sua vida, Regina não tinha em seu olhar o brilho que Cláudia tinha. A alegria, a dor, a morte... Cláudia tinha tudo e ao mesmo tempo não tinha nada.
Regina ainda falava, mas para Lestat bastava.
— Não fale mais com Louis, isso só está o machucando.
Foi tudo que conseguiu falar antes de dar as costas e sair pelo mesmo lugar do qual entrou. Caminhou até Louis que esperava, consumido pela dor e pela loucura.
— Não é ela. E me atenda da próxima vez que tentarem me matar.
Ele sentia vontade de chorar, de preferência longe de todos, mas as lágrimas de sangue não vinham. Deveria voltar para o estúdio e gravar, mas sua mente gritava por Cláudia, a dor que tentava suprimir em meio ao caos.
Lestat conhecia esse sentimento, esse torpor, era o mesmo de quando tocava nos palcos ou quando interpretava Lelio. Sentou-se no piano, dedilhando, mas a canção já tinha forma.
Ele só a deixou sair e enquanto cantava Cláudia estava ali.
Em seu nascimento, em sua breve existência imortal, em seus olhos enquanto ela perdia a vida. Agora ela estava ao seu lado a dedilhar o piano, em uma doce ilusão que apenas servia para machucar mais e lembrá-lo do que perdeu.
Ah Cláudia, sua doce filha vampira, sua boneca de cachos e olhos brilhantes... Você rir do inferno da miserável vida que o vampiro Lestat leva? Que mesmo desejando a morte, a morte continua a escapar por entre seus dedos...
Terminou a canção e seus dedos sangravam, assim como as lágrimas que antes não corriam, agora manchavam de vermelho seu rosto. Sozinho, não sabia se levaria essa canção para a banda, mas sabia que precisava dar voz a tudo que Cláudia foi para ele.
O dia se aproximava, sabia que precisava se recolher, porém sua mente brincava o convidando para provar o sol, se deixar queimar assim como Cláudia foi queimada. Um luxo que apenas vampiros de segunda classe tinham direito, ele não podia morrer, não tão fácil. Ele era amado pela rainha dos condenados, ele tinha o sangue de Akasha, o sol não o mataria. Olhou para as teclas manchadas de vermelho e se recolheu. Tinha seu tributo a vida e a morte de sua filha, e isso apenas bastava.
