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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-07-06
Completed:
2026-07-10
Words:
11,066
Chapters:
3/3
Comments:
6
Kudos:
71
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5
Hits:
639

Aquilo que me consome

Summary:

"Pensei que estava se divertindo com o seu mais novo amiguinho... tavam tão juntinhos."

Alexey é gelo, discrição e intimidação. Theo é calor, sorrisos e o centro das atenções. O mundo não pode sonhar que eles estão juntos, ou o preço político seria alto demais. Mas quando uma estratégia de Alexei para provocar os Estados Unidos acaba trazendo resultados inesperados. Em um corredor escuro, longe dos olhos do mundo, o ciúme fala mais alto.

Notes:

Ok, estou usando os OCs (Theo e Alexei) da Rise1888, pois achei eles muito fofinhos, misturei com hetália, porque sim e é isso!
Faz alguns anos que eu não escrevo nada, mas achei engraçadinho no twitter eles falando de ciúmes. E fiquei muito tempo nesse tema kk
Era pra ser só uma oneshot, mas talvez se torne algo bem mais longo

Ps.: As expressões em outros idiomas que não seja espanhol ou português brasileiro, tem como origem o google!

Chapter 1: Ciúmes

Chapter Text

O encontro não tinha nome oficial, nem pauta registrada. Era só mais uma daquelas “confraternizações dos países” que surgiam espontaneamente a cada dois ou três meses. Aproveitando o clima da Copa do Mundo, a reunião desta vez fora sediada no México. Mateo, o anfitrião, parecia radiante em receber a todos em sua casa. Dono de uma hospitalidade tão calorosa quanto a de Theo, ele circulava pelo salão com a missão pessoal de não deixar nenhum copo ficar vazio por muito tempo.

Alexey, fiel ao seu costume, havia sido um dos primeiros a chegar. Gostava de chegar cedo, mapear o ambiente, ver quem entrava, quem se cumprimentava e quem evitava contato. Mantendo sua habitual postura reservada, mal havia trocado palavras com os outros convidados, limitando-se a interagir com o dono da casa, que fazia questão de orbitar por ali para checar se tudo estava em ordem.

A mansão de Mateo, situada em um bairro alto e bem guardado da cidade, parecia ter sido desenhada para aquele papel. Luzes quentes derramavam-se pelos jardins, o som de conversas em múltiplos idiomas se misturava à música e o cheiro de especiarias tomava o ar, criando a ilusão de que a política, ali, era apenas um rumor distante.

— ¡Bienvenido, amigo! — A voz de Mateo o alcançou antes da presença física, carregando uma alegria contagiante. O mexicano surgiu da lateral já sorrindo, como se aquele encontro fosse a melhor parte do seu dia. — Qué gusto verte aquí.

— Dóbri viêtcher, Mateo — Alexey respondeu, permitindo-se um sorriso pequeno, mas sincero. — Sua casa está… movimentada.

— Como deve ser! — Mateo abriu os braços, indicando o salão cheio. — Se vamos fingir que não estamos eternamente falando de política, pelo menos que seja com boa comida e boa bebida, ¿no?

Mateo acomodou-se ao seu lado com um sorriso fácil nos lábios. O mexicano exalava um carisma magnético e natural: a pele de um tom bronzeado quente, os cabelos castanhos levemente ondulados teimando em cair sobre a testa e aqueles olhos verdes, expressivos, que pareciam sorrir junto com cada traço do seu rosto. Vestia uma camisa de linho clara, elegante porém descontraída, com as mangas dobradas até os cotovelos — uma imagem que traduzia perfeitamente a energia vibrante de um anfitrião que se recusava a deixar qualquer convidado isolado pelos cantos.

— Se anime, compa! A festa mal começou!

— Estou animado, Bratán! — respondeu Alexey, observando Mateo lhe estender um copo suado contendo uma nova bebida, que ele logo identificou como horchata. — Sem tequila dessa vez?

— ¡No! Ficar bêbado cedo demais faz a festa acabar cedo demais! A noite ainda é uma criança, amigo.

Alexey respondeu com um meio-sorriso, mas seu olhar já fazia outra varredura. O salão estava ficando mais cheio: França conversava com Itália perto da mesa de vinhos, Alemanha parecia discutir algo em voz baixa com Japão e, ao fundo, um grupo mais ruidoso indicava a chegada de alguém que adorava ser notado. E não demorou muito para que ele, de fato, se fizesse notar.

— Of course que a Rússia já estaria bêbada! After all, ele é basicamente movido a vodka!

A voz estridente cortou a conversa dos dois. Ao erguerem o olhar, deram de cara com o recém-chegado: Alfred estava parado a poucos passos de distância, ostentando um sorriso típico de puro deboche — a mesma expressão que exibia em entrevistas provocativas e em discursos cheios de indiretas.

Alexey tomou um gole lento da horchata, saboreando a bebida com uma calma ensaiada. Sem mover um único músculo em direção a Alfred, virou-se inteiramente para Mateo, abrindo um sorriso surpreendentemente caloroso.

— Buenas noches para ti también, Alfred! — Mateo respondeu com uma leve ironia, ainda mantendo-se próximo de Alexey. — Quer horchata?

— Pass — Alfred murmurou, levantando um copo já meio vazio. — Eu prefiro algo… mais forte, sabe? Bebida de verdade.

Era claro o que ele viera fazer ali. Afinal, provocar Alexey era, sem dúvida, o passatempo favorito do loiro. No entanto, o russo tinha um objetivo muito claro para aquela noite e decidira que não entregaria a reação que o outro tanto queria. Para lidar com o ego de Alfred, a melhor estratégia seria sempre a completa e absoluta exclusão.

— Sabe, Mateo... — Alexey começou, a voz suave, deixando o americano no vácuo. — Esta horchata é fantástica. Tem um sabor autêntico, sabe? Muito superior àquelas bebidas artificiais, cheias de xarope e corante, que tentam nos empurrar goela abaixo por aí.

O mexicano piscou por um segundo, surpreso, mas seu instinto rápido logo captou o jogo. Um brilho travesso cruzou seus olhos escuros e calorosos.

— ¡Verdad, compa! — Mateo riu alto, jogando a cabeça para trás e dando um tapinha amistoso nas costas do russo, uma intimidade que faria a maioria dos países recuar. — Tudo aqui eu faço como se fosse para a família. Se não é bom o bastante pra mim, não é bom o bastante pra ninguém! — acrescentou com um sorriso brincalhão, muito parecido com o de Theo. — E espere até mais tarde; separei a melhor garrafa do meu estoque pessoal só para nós.

Alexey inclinou-se um pouco mais para perto, num gesto de cumplicidade gritante.

— Spasibo, meu amigo. Mal posso esperar. Nossa parceria tem se mostrado a melhor e mais refinada parte deste continente.

O silêncio deliberado era um golpe direto no ego inflado de Alfred. Ele abriu a boca, franzindo o cenho, esperando o momento em que a atenção voltaria para si. Mas Mateo e Alexey já estavam emendando outro assunto, rindo como se compartilhassem décadas de profunda cumplicidade.

— Excuse me! — Alfred tentou intervir, elevando a voz. — Eu estou falando com você, seu...

Alexey manteve o olhar em Mateo, os lábios curvando-se num sorriso ainda maior.

— Você devia colocar essa receita em algum acordo internacional — comentou o russo. — Talvez resolvesse metade dos problemas do mundo.

Mateo gargalhou.

— Se dependesse de mim, todo conflito seria resolvido com comida e conversa. — Ele balançou a cabeça. — Você lembra daquela vez em que...

A conversa continuou como se os Estados Unidos não estivessem ali por mais uns vinte minutos.

— ...e então, eu juro por mi madrecita, o molho era tão picante que até o coitado do Matthew choraria! — Mateo atropelou a fala do americano, gesticulando de forma expansiva, enquanto Alexey soltava uma risada genuína e grave.

— Eu com certeza adoraria testar isso. Minha resistência à dor é lendária, da? — Alexey respondeu, brindando levemente com o mexicano.

A veia na testa de Alfred palpitou. O sorriso presunçoso derreteu, dando lugar à mais pura indignação. Ser atacado era uma coisa; ser considerado irrelevante era imperdoável.

— Whatever! Vocês dois se merecem! Fiquem aí perdendo tempo com essas conversas chatas! — Alfred esbravejou. Bufando de forma audível, girou nos calcanhares e marchou para longe, resmungando sobre "péssimo gosto" enquanto ia procurar Arthur para iniciar uma discussão decente.

Assim que as costas do americano desapareceram, Alexey e Mateo trocaram um longo olhar e caíram na gargalhada.

— Ay, caray... isso foi perfeito, camarada! — Mateo enxugou uma lágrima imaginária, ajeitando a gola de sua camisa de linho. — Para irritar gente como ele, estou sempre disponível! Bem, sinta-se em casa, Alexey. Vou circular um pouco para ver como estão os outros. Qualquer coisa… você me chama.

Quando o mexicano se afastou, o sorriso de Alexey desbotou, dando lugar à sua habitual expressão séria. Ele encostou-se em uma pilastra mais afastada, o olhar afiado varrendo o salão. Não estava ali pela Copa. Nem mesmo havia se classificado para o torneio. Havia cruzado o mundo e suportado aquele evento barulhento, tão próximo da região de Alfred, por um único motivo. E logo seus olhos finalmente o encontraram.

Não havia visto quando o brasileiro chegara, mas ele estava exatamente onde o mundo esperava, sempre no centro da sala, rindo com uma naturalidade que parecia profissão. Em volta dele, um pequeno grupo de países o escutava como se ele fosse o próprio sol numa constelação improvisada. França ria com a mão no peito, Espanha gesticulava em resposta e alguém atrás deles levantava uma taça em sinal de concordância com alguma história.

Theo falava com o corpo inteiro. Os olhos brilhavam, as mãos desenhavam no ar, o sorriso vinha rápido e fácil. De vez em quando, ele tocava o braço de um, o ombro de outro, como se distribuísse calor humano com uma generosidade inesgotável.

A cena era bonita. E, para Alexey, cruel.

O russo suspirou, tomando um pequeno gole da horchata. Já fazia alguns meses que haviam começado a ficar juntos, alguns meses vivendo aquele namoro secreto, e ele sabia muito bem por que deveria se manter assim. Um relacionamento entre eles, escancarado aos olhos do mundo, seria um prato cheio para sanções, fofocas e, principalmente, para a interferência direta de Alfred. O americano faria da vida política e pessoal de Theo um verdadeiro inferno se soubesse, e Alexey preferia engolir vidro a ser a causa do sofrimento do brasileiro... Mas, Deus, como era difícil.

Ele sabia que aquele jeito de Theo não era apenas a natureza calorosa do Brasil, e se apegava à certeza de que só ele conhecia seu lado mais vulnerável. Enquanto o mundo via o Brasil como festa, alegria, samba e diplomacia calorosa, Alexey via o peso que aquela performance carregava. Sabia dos dias em que Theo não tinha energia, dos momentos em que o sorriso era um esforço consciente e das noites em que ele desligava a câmera e finalmente desabava.

E ali, de longe, preso no papel de observador, Rússia sentiu a contradição com uma clareza dolorosa. Ele era quem mais conhecia aquela vulnerabilidade. E, ao mesmo tempo, era quem menos podia se aproximar em público para protegê-la.

O copo de horchata já estava quase vazio em suas mãos quando a dinâmica do salão pareceu mudar. Como se obedecesse a um reflexo incondicionado, Theo, que ria de algo que Antonio acabara de comentar, girou levemente o pescoço. O movimento foi sutil, camuflado pelo ato de levar a própria bebida aos lábios, mas seus olhos castanho-esverdeados, profundos e perspicazes, varreram a periferia da sala com uma precisão cirúrgica, encontrando os de Alexey e desviando-os no mesmo instante, o que causou um aperto em seu peito tão forte que ele quase sentiu fisicamente. Era em momentos como esses que ele sentia que esconder o que tinham era como prender a respiração debaixo d'água, enquanto Theo parecia nadar com uma facilidade irritante na superfície.

Às vezes, o russo se pegava pensando, em uma honestidade que nunca admitiria em voz alta: Será que ele se importa tanto assim quanto eu? Ou sou só eu que sinto essa angústia, esse aperto, esse medo? A resposta não vinha. Mas a oportunidade, sim.

Theo se despediu do grupo e caminhou em direção a um dos corredores menos iluminados, que levavam aos banheiros e aos jardins internos da mansão. Alexey não pensou duas vezes. Deixou o copo vazio sobre uma mesa qualquer e moveu-se com a precisão de um predador, silencioso e invisível, esgueirando-se para fora do salão principal para seguir o único que, nos últimos meses, vinha mexendo tanto com sua mente e seu coração.

O corredor estava em total contraste com a claridade da festa mexicana. Alexey caminhou em passos silenciosos, alcançando a figura esguia encostada no parapeito de pedra da varanda.

— Theo. — A voz de Alexey saiu grave, carregando uma tensão palpável.

O brasileiro já estava apoiado no parapeito, mas nada nele lembrava o anfitrião caloroso de minutos antes. Os ombros estavam tensos, o maxilar marcado, como se cada músculo estivesse em guarda. Ele demorou um pouco mais do que o normal para se virar.

Quando o fez, não havia sorriso.

— Pensei que estava se divertindo com seu amiguinho mexicano… — Theo murmurou, o tom de voz levemente áspero, carregado de acidez, mas polido demais para ser só brincadeira. — Tavam tão juntinhos.

A frase saiu antes que ele pudesse filtrá-la, mas, dessa vez, ele não recuou tão rápido. O queixo se ergueu um pouco, sustentando a própria provocação.

Alexey parou de supetão. Todo discurso que ele havia ensaiado mentalmente, cada frase cuidadosamente montada, evaporou como fumaça ao vento. Ele piscou, tentando processar.

— Estávamos conversando — explicou, ainda meio surpreso. — Irritando o Alfred.

Theo soltou um riso curto, sem humor.

— Conversando — repetiu, com ironia seca. — Engraçado... Você passa metade dessas reuniões fingindo que o mundo não existe, mas hoje descobriu que socializar não é tão impossível assim.

O russo apertou ligeiramente o maxilar.

— Era um jogo para tirar o Alfred do sério. E funcionou.

— Ah, claro. Sempre um jogo. — Theo inclinou a cabeça, analisando o outro com calma fria. — Só achei curioso que, pra jogar com ele, você não tem problema nenhum em se aproximar. Já comigo... — deu de ombros — a distância vira quase política oficial.

A acusação veio limpa, sem elevar a voz, mas certeira. Alexey deu um passo à frente.

— Você sabe por que eu mantenho distância.

— Sei, sim — Theo cortou, rápido. — Sanções, fofoca, o ego inflamado do Alfred. Eu ouvi esse discurso mais vezes do que ouvi meu próprio hino. — Ele ergueu a mão, como quem encerra um argumento. — Mas, aparentemente, isso tudo só é um problema quando se trata de mim.

Alexey o observou com atenção real agora, reparando nas mãos que apertavam a pedra com força demais, nos ombros rígidos, no olhar que fugia em milímetros, mas sempre voltava.

— Você ficou me olhando — disse, num tom baixo.

Theo riu, abertamente debochado.

— Não se ache tanto, Rússia. Eu estava olhando a festa. Não é culpa minha se você resolveu dar show bem no meio dela.

— Nyet. — Alexey se aproximou mais um passo. — Você estava me olhando.

O olhar de Theo endureceu.

— E se eu estivesse? — devolveu, rápido. — Tá proibido agora? Tem alguma resolução internacional da ONU sobre “não encarar parceiros” que eu perdi?

Alexey encurtou a distância, apoiando uma mão no parapeito ao lado do brasileiro, quase o encurralando.

— Você está com ciúmes.

A frase caiu como um diagnóstico. Theo congelou por um segundo, mas o orgulho veio na mesma velocidade.

— Não se iluda — retrucou, seco. — Eu não fico com ciúmes por causa de horchata e anfitrião simpático. — Ele levantou o queixo. — O que me incomoda não é você rir com ele. É você lembrar que existe com ele, e fingir que não existe comigo quando tem mais de duas pessoas olhando.

Ao dizer, sentiu o peito apertar, mas não permitiu que isso transparecesse na voz.

Alexey engoliu uma resposta automática e escolheu outra.

— Eu passei a noite inteira evitando chegar perto de você justamente porque tinha gente olhando.

— Pois é. — Theo deu um meio passo pra trás, esbarrando no parapeito e ficando ali mesmo. — Parece que eu sou o único que paga esse preço inteiro. Você ganha o jogo, eu ganho o silêncio.

Foi a frase mais honesta que ele se permitiu.

Alexey aproximou o rosto, reduzindo a distância até quase nada.

— Você acha mesmo que é fácil pra mim te ver lá dentro, no meio de todo mundo, e fingir que você não é... meu?

Theo sentiu o golpe, mas se agarrou ao orgulho.

— Se é tão difícil assim, você disfarça muito bem — murmurou, ácido. — Pelo visto, é mais complicado resistir a um sorriso mexicano do que ao meu.

O russo soltou um suspiro pesado, quase uma risada incrédula.

— Então é isso? Você vai jurar que não tá com ciúmes, mas vai me punir como se estivesse?

Theo apertou a borda da pedra até os dedos embranquecerem.

— Ciúmes é perder algo que a gente tem — disse, perigosamente calmo. — Você não me tem, Alexey. Pelo menos não aqui fora. Então relaxa: tá tudo dentro do protocolo.

Cruel. Mas era a forma que ele encontrou de se proteger.

Alexey aproximou-se ainda mais, até que as respirações se chocassem.

— Lá dentro, não — murmurou. — Aqui fora… você sabe muito bem que eu tenho.

Theo sentiu o controle escorregar por um segundo, o coração acelerando tanto que temia que o maior conseguisse ouvi-lo.

— Não começa — rosnou, a voz rouca. — Se você me beijar aqui, daqui a meia hora vai estar fingindo que eu sou só “Brasil, parceiro estratégico” de novo.

Alexey não recuou.

— E se eu não te beijar aqui... — encostou a testa de leve na dele, sem tocar os lábios — você vai voltar lá pra dentro e fingir que não se importou com nada do que viu.

Theo abriu a boca para rebater, mas nada saiu. Irritado com o próprio silêncio, escolheu a única saída que não envolvia admitir nada.

Antes que o russo pudesse terminar qualquer frase, Theo agarrou o colarinho da camisa dele e o puxou para baixo, esmagando seus lábios contra os do maior num beijo que começou mais como ataque do que como entrega.

O impacto foi brusco, elétrico. Alexey soltou um som abafado de surpresa antes do instinto assumir o controle. Sua mão desceu com urgência para a cintura de Theo, puxando-o com força contra seu próprio corpo, enquanto a outra se embrenhava com firmeza na nuca do brasileiro. O beijo, que começara como uma tentativa orgulhosa de calar seja lá o que o russo tivesse acabado de constatar, rapidamente se incendiou, tornando-se faminto e desesperado, uma confissão silenciosa de que pertenciam um ao outro, por mais que nenhum admitisse em voz alta.

Quando finalmente precisaram quebrar o contato, mantiveram as testas unidas, a respiração quente se misturando à brisa fresca do jardim. Alexey abriu os olhos lentamente, o sorriso agora tomando conta de sua expressão.

— Se essa foi a sua estratégia pra me calar... — Alexey sussurrou, a voz deliciosamente rouca, o hálito roçando os lábios ainda úmidos de Theo —, saiba que ela tem a minha aprovação incondicional. Nunca reclamei, sou superfã...

— Cala a boca — Theo rebateu na hora, escondendo o rosto ruborizado no pescoço do maior, como se assim pudesse negar qualquer coisa.

Brasil o abraçou com força, como se quisesse se encaixar ali e ficar, apesar de todo o discurso de orgulho. Rússia o segurou, firme, sólido, como se soubesse o peso que aquele abraço carregava, mesmo sem nenhuma palavra explícita. Por alguns minutos, nada existiu além da respiração compartilhada, do peso confortável dos braços, da segurança improvável daquele abraço. Rússia e Brasil, encostados um no outro, numa varanda mexicana qualquer, pareciam ser só Alexey e Theo.

O corredor continuava meio escuro, iluminado apenas pela luz suave que vinha da varanda e pelo reflexo distante da festa mexicana. O mundo parecia reduzido àquele abraço, até que um som quase inaudível de passos calculados ecoou pelo piso frio. Alexey ouviu primeiro.

O instinto, treinado demais para ignorar aproximações discretas, fez sua coluna se retesar, mas suas mãos não afrouxaram o abraço em torno de Theo. Ele apenas ergueu o rosto, os olhos endurecendo por um segundo, como se já calculasse rotas de recuo.

Theo demorou um pouco mais para perceber. Foi só quando um cheiro familiar, algo entre tabaco suave e rum envelhecido, que misturou-se à brisa que vinha da varanda que ele entendeu.

— Não se preocupem, compañeros… — a voz veio calma, melodiosa, carregada de um sotaque caribenho inconfundível. — Eu já vi coisa demais pra me chocar com um pouco de sentimento bem guardado.

Cuba estava encostado na moldura da porta que separava o corredor da varanda, meio escondido pela penumbra. Um sorriso tranquilo brincava nos lábios, e o olhar escuro vinha carregado de uma ironia suave, mas sem maldade.

Theo congelou por um segundo.

Alexey, por reflexo, puxou o brasileiro um pouco mais para perto, como se quisesse protegê-lo.

— Desde quando você está aí? — Alexey perguntou, a voz baixa, porém firme.

Cuba ergueu uma sobrancelha, dando dois passos à frente, mas mantendo distância respeitosa.

— Tempo suficiente pra saber que vocês dois não estão brigando por sanção, nem discutindo sobre petróleo — respondeu, sem perder o tom leve. — E pra ver que não é coisa que eu deva interromper.

Theo sentiu o coração bater mais forte. Não era medo de escândalo. Era algo pior: vulnerabilidade.

— Se você veio por fofoca, pode voltar — Brasil murmurou, rápido, tentando se recompor, o orgulho já subindo como escudo. — A mídia internacional tem assunto demais pra se ocupar com a nossa vida amorosa.

Cuba riu baixo.

— Ah, Brasil… — balançou a cabeça, quase carinhosa. — Se eu quisesse fofoca, ia lá pra dentro ouvir o que Alfred tá vomitando no ouvido de metade da sala.

Alexey não relaxou completamente, mas a tensão inicial diminuiu. Cuba percebeu, e isso pareceu deixá-lo ainda mais cuidadoso.

— Fica tranquilo, Rusia — disse por fim, usando o apelido com uma familiaridade tranquila. — Eu sei o que significa ter algo que o mundo adoraria usar contra você.

A frase carregava peso. Experiência. História.

Alexey desviou o olhar por um instante, reconhecendo ali um tipo de dor que ele conhecia bem demais. O bloqueio, o isolamento, o julgamento internacional: Cuba sabia de tudo isso de outras formas.

— Eu não vou falar nada — continuou a caribenha, mais séria agora. — Nem pra aliados, muito menos pra inimigos. O que acontece nesse corredor... morre nesse corredor.

Alexey estudou o rosto dele em silêncio. Ele não confiava fácil. Nunca. Mas havia algo na postura de Cuba, na ausência completa de choque, na falta de curiosidade maldosa, que o fez afrouxar o maxilar.

— Você já sabia? — Theo perguntou, quase num sussurro, como se a resposta importasse mais do que ele queria admitir.

Cuba sorriu de lado.

— Digamos que eu tenho prática em perceber coisas que não estão nos comunicados oficiais — respondeu, com humor contido. — Vocês acham mesmo que dá pra esconder tudo de quem vive cercado de vigilância e ainda assim sabe guardar silêncio?

Theo engoliu em seco. Alexey soltou um suspiro curto.

— E por que você nunca disse nada? — Rússia perguntou, direto.

Cuba apertou levemente os lábios, pensativo.

— Porque não é assunto meu — disse, simples. — E porque, sinceramente, eu gosto demais de vocês dois como indivíduos e como países pra fazer parte de qualquer coisa que possa machucar o que quer que isso seja.

Ela indicou o espaço entre eles com um gesto mínimo de mão. Theo sentiu algo dentro dele se aliviar. Não era só o fato de não haver perigo imediato. Era o reconhecimento. Alguém via. Alguém sabia. E ainda assim escolhia proteger, em vez de explorar.

Cuba apoiou o ombro na parede lateral, cruzando os braços com naturalidade. Ela observou os dois por alguns segundos, como quem pesa algo importante antes de se posicionar.

— Vou ser bem clara — disse, olhando primeiro para Alexey. — Eu não vou ser brecha. Se um dia isso for descoberto, não vai ser por mim.

Rússia sustentou o olhar, firme.

— Eu acredito em você — respondeu, com a honestidade dura de quem raramente concede esse tipo de frase.

Cuba assentiu, depois voltou os olhos para Theo.

— E você, Theo... — a voz suavizou. — Você já carrega palco demais nas costas. Se isso aqui... — apontou de leve para o abraço, sem vulgarizar o gesto — for um dos poucos lugares onde você realmente pode ser só você... eu não vou abrir essa porta pra ninguém.

O impacto daquelas palavras pegou Theo desprevenido. Ele sentiu o peito apertar, mas não de angústia, dessa vez, e sim de um alívio tão intenso que quase doía.

— Obrigado, hermana — murmurou, mais baixo, a máscara diplomática deixando escapar uma sinceridade rara.

Cuba sorriu de verdade, finalmente.

— Somos poucos, mas não estamos sozinhos, lembra? — respondeu. — Eles podem controlar muita coisa lá fora, mas aqui... — olhou ao redor, indicando o corredor vazio — aqui quem decide são vocês.

Alexey sentiu, pela primeira vez naquela noite, que o peso político se deslocava um pouco. Ainda havia risco. Ainda havia pressão. Mas, agora, havia também um círculo mínimo de segurança. Um aliado.

— Se alguém vier pra cá… — explicou Cuba, voltando ao pragmatismo — eu dou um jeito de desviar. Puxo papo, invento discussão, digo que preciso mediar algum conflito absurdo entre Alfred e Arthur. Eles adoram um palco.

Theo soltou uma risada breve, sincera.

— Isso funcionaria.

— Já funcionou antes. — Cuba piscou. — Vocês não são os primeiros que eu ajudo a não virar manchete.

Alexey trocou um olhar rápido com Theo. Havia algo quase reconfortante em saber que sua situação não era única. Ainda complexa, ainda perigosa. Mas não isolada.

Cuba endireitou a postura, ajeitando discretamente a barra da camisa.

— Eu vou voltar lá pra dentro antes que alguém venha me procurar — anunciou. — Dou uns dez minutos de vantagem pra vocês. Depois... sugiro que apareçam em lugares diferentes, com conversas diferentes. Nada muito sincronizado.

Alexey assentiu imediatamente.

— Razoável.

Theo respirou fundo.

— Obrigado, de verdade — repetiu, mais firme.

Cuba sorriu com um afeto tranquilo.

— Eu já tenho inimigos suficientes com bandeira oficial. Não preciso transformar amigos em mais inimigos — respondeu. — Fiquem tranquilos. Se alguém perguntar o que eu vi aqui...

Ele fez uma pequena pausa dramática.

— Eu vi dois países conversando sobre estratégia e blocos econômicos — completou. — Nada mais.

Alexey sentiu o canto da boca subir. Theo também.

— Boa noite, compañeros — Cuba concluiu, dando meia-volta. — E cuidem um do outro. O mundo lá fora não foi feito pra isso… mas isso não quer dizer que não possa existir.

Ele se afastou pelo corredor, os passos diminuindo até sumirem na direção oposta à da festa. Por alguns instantes, o silêncio voltou a preencher o espaço.

Theo encostou novamente a testa na do maior, agora com um tipo diferente de peso nos ombros.

— Acho que agora você tem prova suficiente de que não é só você que se importa — murmurou, num misto de rendição e provocação leve.

Alexey sorriu, enfim plenamente satisfeito.

— Da — respondeu, a voz baixa. — Agora eu tenho ciúmes confirmados, um beijo agressivo e uma cúmplice caribenha.

Ele aproximou os lábios, roçando-os de leve nos de Theo, sem aprofundar o contato.

— A noite está oficialmente melhor do que eu esperava.

Theo suspirou, mas não recuou.

— Só não se acostuma com plateia — avisou, embora o tom já estivesse mais suave.

— Hoje foi só ensaio — Alexey garantiu. — O espetáculo... esse, a gente continua mantendo só entre nós.