Work Text:
Chanyoung ainda está dormindo quando Wonbin decide levantar da cama. Sem sono, cata suas roupas do chão como quem cata os cacos do próprio coração partido; desgostoso, desiludido.
As paredes pintadas de amarelo parecem zombar da sua cara. A cor alegre não combina em nada com seu humor azedo. Wonbin sente vontade de descascar a tinta com as unhas, mas sabe que é impossível. Emudecido, se veste o mais rápido que pode, louco para ir embora.
Está cansado. Assim como o suor, precisa lavar a exaustão do corpo, mas nem cogita pisar no banheiro da suíte. Embora espaçoso, o quarto de Chanyoung não é grande o suficiente para comportar sua angústia. Wonbin se sente cada vez mais claustrofóbico, sufocado dentro dos quarenta metros quadrados. Se ficar aqui mais um minuto, vai acabar morrendo, provavelmente. Wonbin não quer pagar para ver. Não quer correr o risco de entreter a ideia de se atirar da janela a ponto de concretizá-la.
Já de sapatos calçados, joga o cabelo para trás e deixa o cômodo escuro na ponta dos pés. Por um erro de cálculo, seu cotovelo esbarra na porta de madeira maciça, que range e para entreaberta. Chanyoung continua estirado sobre o colchão, metade do rosto coberta pelo antebraço esquerdo; bem longe de acordar. Nem se mexe.
Wonbin não tarda a descer as escadarias e parar no corredor principal da casa, sem fôlego. Uma lâmpada acesa ilumina parcialmente o caminho até a cozinha, sombras desfiguradas de algumas das inúmeras obras contemporâneas, expostas em banquetas, sendo projetadas no assoalho. Pisoteando as figuras abstratas, Wonbin segue em frente à meia luz, os batimentos cardíacos disparados.
Debruçado sobre a bancada americana que marca o fim da copa, puxa o celular do bolso traseiro da calça e checa as horas então. Todos os pelos dos seus braços se arrepiam, o mármore frio, glacial contra sua pele quente.
04:55. Já são quase cinco da manhã. O clarão emitido pela tela queima suas retinas. Wonbin desliga o aparelho e funga, os olhos marejados.
Os pais de Chanyoung devem acordar em breve. Senão eles, o irmão mais novo. Apesar de poder dormir até mais tarde, o menino tem um sono leve e, também, o costume de pular da cama no meio da madrugada para tomar leite. Às vezes, um copo d'água.
O lado ansioso, histérico do seu cérebro teme trombar com algum dos três a qualquer momento; sua outra parte, porém, não está realmente preocupada ou a fim de dar a mínima para nenhum deles. Wonbin não consegue mediar as vozes dissonantes dentro da própria cabeça; por isso, as ignora igualmente.
De qualquer jeito, deveria ir. Deveria é a palavra-chave.
A falta de coragem momentânea lhe leva até a adega, onde pega uma garrafa de um vinho importado qualquer. Scarecrow, é o que diz o rótulo. Wonbin não tem ideia do que isso possa significar.
Conforme vaga para lá e para cá com a garrafa abraçada contra o peito, seus passos ecoam, mas a mansão é enorme. Não importa o quanto bagunce e revire tudo, jamais será ouvido do segundo andar. Por essa razão, não se importa com o barulho que faz ao vasculhar o armário da cozinha atrás de um saca-rolhas ou quando escolhe minuciosamente uma taça na cristaleira.
Infelizmente, quatro doses de vinho não são o suficiente para lhe deixar tonto ou embriagado. Wonbin vai virando copo atrás de copo, soluçando entre uma bicada e outra, até que a bebida acaba; ainda assim, não fica bêbado o suficiente para se alienar da própria estupidez. Precisa de outra garrafa.
Wonbin não é nenhum conhecedor de vinhos. Nunca teve dinheiro o suficiente para se preocupar com futilidades do gênero, então sempre balançou a cabeça e concordou com as opiniões de Chanyoung e da Sra. Lee, sem questionar os motivos que levam uma simples garrafa de determinada marca a custar os olhos da cara. Agora, sem ter ninguém para lhe informar as notas, a safra, a origem e o preço do vinho tinto que mal saboreia ao tomar com a boca grudada no gargalo, não sabe como deveria julgá-lo. Só sabe que não é coisa de outro planeta, mas também não é ruim. É bom porque adoça sua boca e molha sua garganta arranhada, apenas.
Wonbin deveria mesmo partir; desaparecer de uma vez por todas, mas é difícil. Essa é a verdade.
Quando está de bexiga cheia e a última gota de álcool encontra sua língua, enfim, abandona o saca-rolhas, a rolha, as garrafas vazias e a taça suja na pia, deixando a cozinha. Aí, trôpego, se dirige à sala de estar e se atira num dos sofás de couro, o olhar fixo no teto engessado em contemplação.
Nunca mais vai pisar nesta casa. Nunca mais vai sentar neste sofá ou apertar as almofadas enquanto assiste a um filme de terror na TV com Chanyoung, o volume baixo e uma perna dele jogada por cima das suas. Nunca mais vai disputar partidas de Mario Kart com o quase-cunhado de onze anos ou virar a noite em claro na companhia dessa família que tanto considera, ouvindo histórias do passado ou apreciando as habilidades do Sr. Lee no piano. Nunca mais vai participar de jantares e reuniões ou cumprimentar parentes que não são seus, ou ser convidado para a ceia de Natal, mesmo que não possa vir. Nunca mais vai arrastar a mesa de sinuca pesada de um canto a outro na área de lazer ou consertar a torneira frouxa da pia do banheiro de serviço a pedido da Sra. Lee. Nunca mais vai passar um fim de semana inteiro se enchendo de suco de manga, falando merda e torrando à beira da piscina larga, construída no meio do jardim de magnólias, ou beijar Chanyoung em sinal de despedida na soleira da porta dos fundos, com a promessa de voltar outro dia. Nunca mais vai precisar fingir ou mentir para quem se deixa ser enganado até hoje, nem vai viver como se estivesse num comercial de margarina ou ter a chance de dizer que está comprometido quando alguém pedir seu número.
Sim, Wonbin e Chanyoung foram algo em algum momento, mas deixaram de ser no instante que Wonbin pisou fora do quarto, minutos atrás. Acabou. Tudo que foi, já não é mais. Já era.
Wonbin pensa em escrever uma última mensagem. "Eu te amo e é por isso que decidi ir embora", mas não basta. É pouco perto do que tem entalado há meses, como uma espinha de peixe atravessada. Wonbin vai embora porque não quer mais ser ingênuo ou acreditar em promessas vazias, inúteis. Porque não quer mais ser um segredo – o Outro, escondido na sombra da covardia de Chanyoung.
Não quer continuar abrindo as pernas toda vez que ele chama, amoroso e dócil e complacente, somente para vê-lo posar ao lado da namorada, sorridente e falso numa foto postada minutos antes assim que abre o Instagram. Não quer se foder por não ter um coração de pedra enquanto Chanyoung fode outra pessoa, anda de mãos dadas com ela e faz planos para um casamento que, no mínimo, será um fracasso ou talvez nunca aconteça.
Wonbin não tem nada contra Hyewon. Mal a conhece para além do que já escutou sobre ela, na realidade. Para além dos batons e outras tranqueiras que ela vive esquecendo sobre a cômoda de Chanyoung, espalhadas e misturadas às coisas dele; para além do perfume floral impregnado nos travesseiros ou das declarações melosas que já leu no computador do rapaz mais novo, num e-mail extenso assinado por ela. Se já dedicou algum sentimento a Hyewon, esse sentimento é pena. E não é nada especial. É irônico, aliás; comparativamente, Wonbin esteve se prestando a um papel mais patético que o dela durante todo o tempo que se deixou fazer de consolo. Não à toa, sente pena de si mesmo, também.
Mas essa foi a última vez. Agora, chega.
Do mesmo jeito que não é eterno como pessoa de carne e osso, que vive e respira e transforma e habita a Terra por tempo limitado, Chanyoung não será eterno como lembrança.
Seu corpo vai esquecer da pressão aplicada pelos dedos esguios dele na sua cintura, da sensação fantasma das palmas geladas escorregando por baixo da sua blusa para fugir do frio do inverno, dos afagos e dos toques furtivos. Wonbin vai se esquecer da textura da pele alva, dos contornos e retas e curvas que passou madrugadas mapeando com as mãos; do gosto dos lábios macios que provou milhões de vezes e do tom exato de rosa a pintar as bochechas de Chanyoung sempre que o viu ficar tímido ou envergonhado por algum motivo. Vai se esquecer dos olhos castanhos e redondos e cintilantes lhe medindo de cima a baixo, da voz suave enunciando seu nome com ternura, da risada delicada e contagiante, das canções criadas do zero, cantadas sob o chuveiro e, ocasionalmente, murmuradas na curva do seu pescoço.
Wonbin vai apagar da memória a paixão e o fogo, os momentos bons e as conversas profundas; as discussões e os silêncios ensurdecedores e os momentos ruins, sem exceção. Vai apagar todas as vezes que foi feliz com ele e o quanto chorou até escolher não chorar mais. Tudo, tudo, tudo.
Um dia, não vai conhecê-lo mais – pelo menos, não da mesma forma. Por fim, vai enterrar o desejo de viver nas entranhas de Chanyoung, de fazer parte da vida dele custe o que custar, e vai aprender a viver sozinho, em paz. Nem tão cedo; não amanhã ou depois de amanhã, mas um dia.
Um dia, Wonbin será livre. Ainda que doa; ainda que sangre por isso. Genuinamente.
Uma lágrima solitária escorre, pinga do seu queixo.
No fim das contas, Wonbin acha que Chanyoung não merece uma explicação. Não quer discutir com ele, não quer ser interrogado ou odiá-lo por tentar questionar e reverter sua decisão; portanto, prefere poupar suas palavras. A última coisa que faz antes de sair é derrubar sua cópia da chave dentro do vaso de cerâmica na varanda, junto à entrada, e suspirar, mais calmo e determinado.
Chanyoung pode não aceitar seu silêncio, pode bater o pé e espernear por não entender por que Wonbin escolheu deixá-lo, mas isso não importa. Vai ser melhor assim.
Não há adeus. Ponto final.
Molhando os tênis em poças d'água no asfalto, Wonbin sobe a rua escura e some na primeira esquina sem olhar para trás.
