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Eunseok dirige rápido.
Do lado de fora do carro, o cenário parece derreter e se mesclar. Um amálgama de construções esparsas, árvores altas e plantações preenche a visão periférica de Sungchan como um borrão panorâmico, multicolorido e hipnótico. No painel, vermelho neon - 03:56 da madrugada, 110 km/h. 111, 112.
O céu é uma aquarela, um degradê de azul marinho, turquesa e violeta no limiar do dia. Rajadas constantes de vento gelado invadem o veículo pelas janelas abertas, despenteando ainda mais os cabelos já desgrenhados dos jovens sentados lado a lado; o outono tem sido cada vez menos leniente com o passar dos anos. Arrepiados, os dois estremecem simultaneamente, quase em sincronia.
03:57.
Abraçando suas pernas compridas contra o próprio peito, Sungchan observa o melhor amigo atentamente, encolhido no banco do carona. Concentrado, Eunseok mantém uma mão no volante enquanto a outra pende no vão entre seus assentos, solta. Por um segundo, Sungchan se permite imaginar como seria se a palma pequena, após uma troca de marchas, escorregasse e decidisse envolver sua coxa num aperto firme; se os dedos finos se entrelaçassem aos seus e buscassem repouso em seu colo. Como seria se ele, de repente, lhe encarasse de canto de olho e pudesse enxergar, de alguma forma, o turbilhão de sentimentos virando suas entranhas do avesso.
Talvez não devesse fazer isso. Talvez fantasiar com Eunseok não seja a coisa mais sã no momento (ou nunca), mas Sungchan não se policia. A capacidade de controlar o rumo dos próprios pensamentos, aliás, é um mito que desmascara assim que tenta. Não consegue censurar sua mente; devanear é inevitável. Desejá-lo é inevitável, mesmo que não conheça o gosto da boca dele.
Se soubesse o que se passa em sua cabeça… o que Eunseok diria então?
Ele não pode ler mentes, é claro, mas os dois se conhecem há séculos; não deve ser difícil para Eunseok saber que Sungchan está ruminando algo quando passou os últimos minutos calado e, praticamente, imóvel - um comportamento bastante incomum para alguém tão cheio de opiniões e ímpetos.
— Tá pensando no quê? — o outro questiona.
Disfarçando, Sungchan encara um ponto qualquer na pista. — Nada. Só tô prestando atenção na paisagem.
Não estão fugindo e também não precisam estar em lugar nenhum tão cedo; não há a necessidade de qualquer tensão. É só um passeio sem destino pelos limites da cidade, sem planejamento. Não há por que ter pressa. Ainda assim, Eunseok faz questão de correr, como se deslizar sobre o alsfalto o empolgasse mais que tudo. Sungchan está, genuinamente, feliz por poder compartilhar este momento com ele e vê-lo assim; afinal, a alegria dele sempre foi a sua.
— Hm. Você quer ligar o rádio? — sutil, Eunseok sugere.
Não, Sungchan pensa; quero continuar ouvindo sua respiração pra ter certeza de que você é real. Pra saber que estamos vivos e que você está aqui de verdade e que isso não é só um sonho.
— Não precisa. — é o que responde ao invés disso. — A não ser que você queira.
O sol está prestes a nascer; ao menos, é o que parece.
Embora tenha o seu valor, o magenta a despontar no horizonte não é nada impressionante se comparado ao rosa impresso nas bochechas de Eunseok, coradas por culpa do frio seco. A beleza dele quase lhe desconcentra por um minuto ou dois, mas Sungchan tenta ser melhor que isso.
— Eu não faço questão. Na verdade, só perguntei por perguntar. — os lábios dele se curvam num sorriso delicado, o foco fixo na estrada. — A gente devia fazer isso mais vezes, cara.
Como se fosse normal bater à porta de alguém no meio da noite, dizendo: "Tá a fim de dar uma volta comigo?". Ele é maluco e Sungchan, mais ainda por ter aceitado.
— Sim… — o estômago repleto de borboletas, não tem escolha senão concordar. — Seria legal. Quer dizer, eu adoraria!
Agora, Eunseok sorri com vontade; um sorriso largo, cegante, cheio de dentes. E os olhos dele brilham. (Caso ele confessasse ter se apaixonado também em algum momento, Sungchan não se espantaria. Só lhe resta esperar que sim).
— Era, exatamente, o que eu queria ouvir!
— Então vamos! — seu próprio rosto se ilumina.
Não há mais nada a dizer.
Eunseok dirige rápido, rumo ao amanhecer, e o coração de Sungchan acelera na mesma medida, galopante e desejoso; quase pulando pela boca. Sem freio.
Se isso não for amor, Sungchan não faz ideia do que seja.
