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É uma coisa estranha, mudar – essa é a conclusão a qual Riku chega após alguns minutos de reflexão, tendo a impressão de sentir o tempo escorrer por entre seus dedos, úmido e líquido feito água.
Hoje é um dia quente. Sentado na varanda da casa que pertenceu a seus avós antes de pertencer a seus pais, Riku tem uma visão privilegiada do jardim. Sion e Yushi, deitados no chão de barriga para baixo, balançam as pernas no ar em sincronia, quase como um par de gêmeos siameses. Como se estivessem conectados por uma força sobrenatural, algo extraordinário; algo que Riku não pode ver.
Magoa.
Nos últimos meses, Riku tem se sentido assim com bastante frequência; como se estivesse falhando em enxergar detalhes importantes, cego para uma boa parte daquilo que importa. Para algumas coisas, fazer vista grossa pode ser considerado como um mecanismo de defesa; admitir é difícil, mas Riku tende a se desligar do mundo quando sente que algum calo seu foi pisado, para se afastar da dor. De outras coisas, sente que simplesmente não é bem-vindo a participar, nem como um mero espectador, recortado da cena. Como se tudo, por alguma razão, acontecesse bem debaixo de seu nariz e não lhe coubesse reconhecer isso de forma alguma. E, ainda que o ciúme ou a inveja não sejam admiráveis, provavelmente, não existem termos melhores para nomear seus sentimentos agora.
Comer melancia na companhia dos outros dois garotos nunca foi tão torturante. Conforme cospe os caroços num prato raso de louça, Riku só consegue ficar desapontado consigo mesmo por ser um mau anfitrião e uma companhia pior ainda para Sion e Yushi. Não deveria parecer tão complicado; não há nada demais em dividir uma fruta, rir quando é preciso rir e, então, se manter o mais inerte possível na tentativa de driblar um pouco o calor excessivo, mas existe uma certa tensão à sua volta. Riku faz seu melhor para interagir e oferecer suas opiniões sem parecer perdido quando é puxado para a conversa, se esforça a fim de manter o foco e agir como se não se incomodasse; ainda assim, se sente sufocado. Na verdade, sente tanto ao mesmo tempo que acredita estar prestes a vomitar.
Apesar de não conseguir mais se imaginar vivendo aqui, Riku está triste por deixar esta casa velha, cheia de fantasmas ancestrais; a idéia de sair em busca de novos horizontes assusta tanto quanto a de permanecer estagnado. Da mesma forma, não se sente preparado para ver Sion partir ou estar distante dele de fato, mesmo que a Coréia não fique tão longe e suas próprias malas já estejam feitas; afinal, já está tudo acertado para que eles passem a dividir um apartamento nas imediações de sua nova faculdade dentro de algumas semanas. Vão morar sob o mesmo teto em breve, por anos.
E Riku não está pronto para encarar o constrangimento que deve surgir assim que for deixado sozinho com Yushi nem a sensação de que, fossem outras as circunstâncias, isso não funcionaria; numa dimensão alternativa, essa relação já teria desandado sem a intervenção de Sion, porque ele tem agido como a cola responsável por mantê-los unidos há séculos. Sem ele, as coisas só andariam para trás.
Riku se sente culpado. Se sente terrível, principalmente, por pensar desse jeito; porque talvez seja o único a enxergar a situação de um modo tão pessimista; o único atolado em questionamentos sem fim, com uma percepção (possivelmente) distorcida dos fatos, sem ter ao menos a capacidade de explicar o que lhe causa tanta insegurança, tanto medo.
Fora a negatividade, Riku também sente uma sede estranha ao observar o caldo avermelhado que pinga das fatias de melancia devoradas por Sion e Yushi; vontade de chupar os dedos melados de ambos, interceptar com a língua o suco que escorre em filetes pelos cantos de seus lábios e de suas palmas até seus cotovelos antes de formar mini poças sobre o assoalho. Nem o ato de mastigar os pedaços de fruta que tem na própria boca é capaz de enganar o desejo. É desconcertante.
O emaranhado de sentimentos conflitantes culmina numa angústia quase tangível, tão colossal e opressiva que nem parece lhe pertencer – um pensamento intrusivo. Sendo rebatida como uma bola de pingue-pongue dentre suas costelas, a agonia é como um corpo estranho e parasitoide, implantado por algum agente externo no organismo de Riku. Como algo que esmaga seu peito de um modo tão particular pode parecer, na mesmíssima medida, tão alheio e infundado ou descabido? Não faz sentido.
Riku tenta se controlar; tenta não parecer absurdo ou espantar Sion e Yushi, mas seus olhos marejam.
Riku não quer nada disso, seja lá o que isso signifique. Riku quer inspirar e expirar o ar abafado tranquilamente, sem sentir o peso de todos os verões e demais estações que ainda não viveu sobre os ombros. Quer ficar em paz consigo mesmo para que possa ficar bem com Sion e Yushi e vice-versa. Quer se sentir mais próximo e, realmente, estar mais próximo deles sem o medo constante de estragar algo bonito ou destoar completamente do conjunto, como um estranho no formigueiro. Quer que eles lhe desejem igualmente; mais intensamente, da maneira como parecem desejar um ao outro. Quer confiar neles cegamente; acreditar que nenhum dos dois lhe abandonará independentemente de tempo, espaço ou quaisquer mudanças. Quer estar certo de que não há mal algum em viver no presente; no aqui e agora, livre do ímpeto de matar até a menor das esperanças de um futuro isento de catástrofes e decepções. Quer ser como eles, seguro de tudo. Quer ser compreendido por eles sem que as palavras certas precisem ser costuradas por seu cérebro e, só então, cuspidas juntamente com os caroços da melancia; telepaticamente. E Riku sabe que esse não é um pedido simples.
Ainda que esta não seja a melhor época do ano para refletir e se lamentar, lágrimas rolam pelas bochechas de Riku como véus de cachoeira; cristalinas e incessantes.
É vergonhoso. Não há como evitar.
Yushi é o primeiro a se arrastar pelo piso, apressado ao erguer o tronco e sentar sobre os próprios calcanhares à direita de Riku. A preocupação dele, evidente pela linguagem corporal, só lhe faz chorar mais.
— Ei, o que aconteceu? — ele indaga, o cenho franzido.
— Não sei, eu… — falar a verdade soa pavoroso. Riku jura sentir a garganta fechar. — E-eu só…
Nada.
Sion não tarda a seguir o exemplo do namorado e se move para cercar Riku pelo outro lado numa questão de segundos, lhe observando atentamente. Partindo de outro alguém, o olhar fixo poderia ser traduzido em intimidação, mas o tom caramelo refletido pelas íris castanhas de Sion quando o rosto angelical é iluminado por um raio dourado do sol entrega que ele é nada senão isso; doce.
— Você não precisa falar. — é o que ele solta, um sussurro contra seu ouvido. — Que tal um abraço?
Não há resposta plausível além de sim, é claro.
Assim que Riku assente em confirmação, Sion enlaça sua cintura e lhe acalenta contra o próprio peito, cedendo um ombro para que apoie a testa enquanto alisa suas costas. Leve como uma pluma, uma segunda mão pousa entre suas omoplatas; delicada, desenhando figuras imaginárias sobre as vértebras salientes de sua coluna cervical.
— Eu sinto muito. — Riku acaba deixando escapar, engasgado.
— Você pode chorar, Kkuri. — o hálito quente de Yushi faz cócegas ao atingir sua nuca suada. — Está tudo bem, não faz mal.
— Pois é, não precisa se desculpar. — Sion reforça. — Nós estamos aqui.
De fato, eles estão. Pelo menos, neste instante.
Logo que Riku recupera o fôlego e engole o restante das lágrimas, Yushi segura a faca esquecida no prato de louça e faz mais um corte na fruta quase desfigurada para lhe oferecer outro pedaço. É automático aceitar. Aliás, essa é a única opção; Yushi sempre teve a voz meiga, naturalmente persuasiva, porém sem qualquer malícia. Seja qual for o contexto, Riku não se julga forte o bastante para dizer não a ele.
A primeira mordida é a mais gostosa. Deitar a cabeça no colo de Sion e receber um cafuné dele enquanto come sua quarta fatia de melancia é o bastante para expulsar 90% do estresse do corpo de Riku. E, quando toca sua coxa nua – hesitante a princípio, antes de pressionar o polegar com mais insistência contra a carne macia até que uma marca rosada desabroche sob sua pele –, Yushi causa um curto-circuito tão grande em sua mente que ela fica vazia. Riku não consegue raciocinar, apenas encarar o teto e respirar bem fundo.
Enfim, uma rajada de vento. No jardim, o farfalhar das folhas das árvores e o canto dos pássaros empoleirados nos galhos mais altos formam uma bela canção. Na varanda, os três garotos suspiram em uníssono, satisfeitos com a brisa refrescante, mas ninguém se mexe.
Por alguma razão, cada segundo de silêncio parece antecipar algo maior; uma contagem regressiva à medida que os ponteiros do relógio imaginário em seu cérebro giram. É como se o cosmos lhe enviasse um sinal, um aviso escrito nas nuvens do céu azul lá em cima: Riku deve ficar atento para a oportunidade de tomar uma atitude e agarrá-la na hora certa. Precisa se arriscar se não quiser morrer na dúvida.
Não por acaso, assim que Yushi estende a palma livre para limpar seu queixo, Riku segura o pulso dele e não solta.
— Me beija? — a face ardida, dispara.
Não seria a primeira vez; por isso, talvez, Yushi não esboça surpresa. A despeito de seu nervosismo, ele apenas sorri, radiante, e se curva na intenção de conceder seu pedido.
O beijo é açucarado, casto e quase rápido demais. A língua de Yushi atiça, mas não chega a invadir sua boca e Riku geme quando ele se afasta minimamente, frustrado. Mesmo assim, seu coração galopa, batendo alto o suficiente para que todos ouçam – o motivo, Riku imagina que esteja claro: existe amor aqui. Os dois não são um caso perdido e não há por que cogitar o contrário. Ah. Pela maneira como Yushi acaricia a lateral de seu pescoço e contorna a gola esgarçada de sua camiseta com a ponta dos dedos, os olhos apertados em sinal de alegria e as maçãs do rosto coradas, Riku sabe que ele pensa o mesmo.
Então, sem que ninguém exija, Yushi abre espaço para Sion se dobrar ao meio e beijar Riku em seguida; como se fosse combinado. Meio atrapalhado, Sion pena, mas consegue encaixar seus lábios. A experiência, embora engraçada, também se revela maravilhosa.
Quando volta a sentar, buscando recuperar o ar dos pulmões e se recompor, Riku não consegue segurar uma gargalhada. Se sente preso num delírio febril, extasiado, e ter uma nova fatia de melancia empurrada entre seus dentes por Yushi só aumenta a magia da coisa.
— É bom que você ria, mesmo. — Sion lhe empurra com o mínimo de força, brincalhão, e deita no chão novamente. — Seu sorriso é lindo demais pra ficar escondido.
Esparramado com ambas as pernas jogadas por cima das dele, Yushi balança a cabeça em concordância. — Exatamente.
Tudo isso serve para desatar os nós em seu estômago, aliviar a dor em seu peito e apaziguar sua ansiedade de uma vez por todas.
De repente, Riku se sente estúpido por surtar.
Sim, algumas coisas sempre estarão fora de seu alcance e isso é enlouquecedor. Riku não pode controlar o modo como o universo opera, mas pode confiar no próprio julgamento e acreditar que vai colher bons frutos daqui para a frente. Esse é o primeiro passo. É como a vida funciona.
Riku escolheu amar Sion e Yushi, e esse amor já é correspondido. Contanto que eles não lhe virem as costas, Riku também não vai. Não é preciso se desesperar com a hipótese de encarar um final triste, porque esse final depende exclusivamente dos três. Eles podem fazer isso dar certo; basta querer e se esforçar. Não é impossível.
Vai ficar tudo bem.
— Deita aqui. — Sion convida, gesticulando para si mesmo e Yushi enquanto pisca lentamente, visivelmente sonolento.
Sossegado, Riku acata. — Já vou.
A temperatura ridícula realmente não lhe impede de terminar espremido entre os outros dois garotos, todos amontoados e quietos na pretensão de tirar um cochilo. Sem mais pensar, Riku relaxa e se permite ser feito de travesseiro por Yushi enquanto Sion mantém seus dedos entrelaçados, um sorriso estampado na cara por ter a certeza de que, embora o amanhã seja inevitável, o que é mais precioso deve continuar assim: seu e imutável.
