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Flor de Tangerina

Summary:

Lorena precisa dançar a quadrilha para não tomar recuperação em Educação Física e Eduarda não pode ser seu par.

ou

Eduarda passa semanas se mordendo de ciúmes.

Notes:

oi gente!! fiz essa aqui pro aniversário da nay, então parabéns naynay!! espero que goste <3
e para quem mais estiver lendo, muito boa leitura e espero que gostem e se divirtam também :)
beijinhos!

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

– Zezé? Mãe?

A voz suave de Lorena flutuou pelo apartamento, dissolvendo-se pelo espaço amplo e aparentemente vazio. A menina hesitou por mais alguns instantes mas, quando viu que não obteria mesmo nenhuma resposta, terminou de abrir a porta com o pé e puxou Eduarda para dentro com um sorriso largo.

– Viu, amor? Te disse que não teria ninguém aqui. - Lorena disse com um sorriso faceiro, olhando para a namorada por cima do ombro. - A mamãe deu o dia de folga pra Zezé e me disse que ficaria presa no escritório. A casa é toda nossa.

– Graças a Deus. - Eduarda respondeu, permitindo-se ser puxada escada acima enquanto equilibrava as mochilas das duas. - Odeio ter que ficar fingindo que sou sua amiga.

Assim que entraram no quarto, a ruiva deixou que as mochilas pesadas caíssem no chão do quarto de Lorena. Sentou-se, meio desleixada, na cadeira estofada da escrivaninha, correndo as mãos pelos cabelos e esticando as pernas.

– Pronto. Cadê suas anotações de física? Eu prometi que ia te ajudar a estudar, não foi?

Lorena não respondeu imediatamente. Ela encarou os olhos brilhantes da namorada por mais alguns instantes antes de fechar a porta delicadamente, o coração acelerado, e, ao invés de pegar os cadernos, caminhou lentamente até a escrivaninha, parando bem na frente de Eduarda.

– Lorena? - a ruiva voltou a perguntar, parecendo genuinamente confusa, mas com um sorrisinho de canto já crescendo em seus lábios. - Essa é a sua pose de quem vai gabaritar a prova, meu amor?

Mais uma vez, a morena não respondeu. Em um movimento rápido, Lorena sentou-se de lado no colo da namorada, acomodando as pernas por cima das da ruiva e escondendo o rosto em seu pescoço de um jeito manhoso até demais. Eduarda piscou, pega de surpresa, quando começou a sentir alguns beijinhos molhados sendo depositados bem na sua clavícula.

– Oi, Duda… - a Ferette sussurrou com uma voz mansa, quase um ronronar.

Afastou a cabeça do pescoço da namorada lentamente, seus olhos verdes de pupilas dilatadas em um olhar quase felino antes de inclinar a cabeça, o caminho preguiçoso de beijos pelas bochechas de Eduarda, traçando a linha do maxilar até tocar o canto dos lábios.

– Hm… Oi… - a ruiva respondeu, tentando se manter firme mas sentindo um arrepio lhe subir pela espinha. Segurou a cintura de Lorena com as duas mãos, fechando os olhos enquanto recebia de muito bom grado aquela súbita demonstração de afeto. - O que você está fazendo, gatinha?

Lorena deu de ombros antes de selar de vez os lábios aos da namorada, dando início a um beijo lento, como se quisesse saborear cada pedacinho da namorada. Sentiu a ruiva suspirar contra sua boca e não demorou a ceder passagem para a língua ansiosa dela, permitindo que aprofundasse o beijo. Só depois de alguns longos minutos ela quebrou o enlace.

– Nada, Duda. - respondeu em um tom doce, a cabeça pendendo um pouco para o lado, as mãos pousadas nos ombros da menor. - Eu só estava com saudades. Não posso ganhar um carinho da minha namorada?

Eduarda semicerrou os olhos, sentindo a cabeça começar a desanuviar. Mesmo ainda envolta no cheiro do perfume, embalada pelos beijos e pela voz serena da namorada, ela reconheceu na mesma hora: a cabeça tombada, a voz uma oitava mais alta naquele “nada” quase cantarolado, tudo angelical e inocente demais. Lorena estava tentando lhe amaciar.

– Pode. Deve, inclusive. Mas eu conheço você, Lorena. - arqueou as sobrancelhas, dando uma beliscadinha na cintura da menor. - Pode ir abrindo a boca, o que aconteceu?

Lorena bufou, cruzando os braços na frente do peito. Inclinou-se para frente mais uma vez, encostando a testa no ombro da namorada antes de murmurar.

– Para minha imensa tristeza, você vai ter mesmo um futuro brilhante como investigadora. Já pode contar para o seu pai.

Eduarda soltou uma risada alta, não aguentando a pose da namorada. Lorena era sim, um pouco mimada, e já sabia exatamente qual carinha fazer e que inflexão usar para conseguir exatamente o que queria. E a ruiva, como uma boa observadora, já sabia exatamente os trejeitos dela.

– Eu só conheço você muito bem, Lore, são anos de prática. - plantou um beijinho na bochecha da menina. - Agora me conta, você está começando a me preocupar.

Com um suspiro dramaticíssimo, Lorena endireitou a postura e olhou fundo nos olhos da namorada, que tinha uma postura receptiva mas um tanto desconfiada. Sem sequer fazer menção de se levantar do colo da ruiva, começou:

– Você sabe que os professores já estão começando a soltar as notas do trimestre, né? Inclusive o de educação física.

– Educação física? - Eduarda questionou com um risinho, já imaginando onde isso iria parar. - A matéria que você mata toda semana para ficar lendo poesia na arquibancada, né? Sei sim.

– Eu não mato! - Lorena choramingou, o lábio inferior se projetando em um biquinho. - Eu só esqueço de levar a camiseta!

– Esquece de propósito…

– Isso não importa! - Lorena se intrometeu, lançando um olhar feio para a namorada. - O meu ponto é, você sabe que eu só passei com média no primeiro trimestre porque fiz um trabalho escrito sobre a história do vôlei, mas o professor resolveu que vai usar um critério diferente dessa vez.

– Que seria? - a ruiva perguntou, se divertindo mais do que o esperado com a situação.

– Ele só vai dar os pontos para quem dançar a quadrilha na festa junina.

Eduarda não conseguiu evitar. Explodiu em gargalhadas no mesmo instante, a expressão contrariada de Lorena - sempre tão certinha quando o assunto era a escola - apenas colocando lenha na fogueira. A morena revirou os olhos verdes, esperando que a namorada parasse de rir.

– E você vai ter… Vai ter que se vestir a caráter? - a ruiva quase não conseguia falar, sem ar de tanto rir.

– Eduarda, cala a boca.

– Fazer pintinhas nas bochechas?

– Eduarda.

– Pintar o dente de preto?

– Eduarda Fragoso.

Percebendo que já estava em cima da linha entre irritar a namorada de brincadeirinha e irritar a namorada de verdade, Eduarda levantou ambas as mãos em rendição, respirando fundo para conter as risadas.

– Tá tudo bem, meu amor. Não faz mal dançar uma vez, ok? - tentou tranquilizar a garota, mas o canto de seus lábios ainda tremia. - Eu danço com você, princesa. A gente passa vergonha juntas.

Lorena suspirou mais uma vez, levando dois dedos às têmporas como se toda essa situação lhe estressasse. Encarou a namorada com a sobrancelha arqueada, esperando que ela percebesse.

– Espera… - Eduarda começou, as engrenagens de sua cabeça finalmente rodando. - Você não pode dançar comigo.

Lorena assentiu devagar.

– Não posso.

– Porque o seu pai vai estar lá. - falou mais uma vez, os nós de seus dedos ficando brancos ao redor da cintura da menina.

– Exatamente, Duda.

O clima leve desapareceu no mesmo instante e Eduarda baixou o olhar, sentindo um aperto característico no peito. Era uma realidade com a qual já estava acostumada, mas isso não tornava mais fácil de suportar, principalmente agora que as duas já tinham feito 18 anos. Entretanto, elas tinham um plano e já estavam quase lá. Só precisavam ultrapassar mais alguns obstáculos.

Depois da festa de formatura, Lorena poderia se libertar de toda e qualquer amarra que dissesse respeito à Santiago Ferette e seus preconceitos. Só faltavam mais seis meses e a morena não dependeria mais dele para nada. As duas começariam a faculdade, morariam no apartamento que Eduarda já havia ganhado dos pais e seguiriam com suas vidas. Faltava muito pouco.

– E com quem exatamente você teria que dançar? - Eduarda perguntou, tentando não demonstrar nenhuma reação muito exagerada.

– Com o Michel… O professor sorteou hoje.

Silêncio absoluto. Eduarda piscou uma, duas, três vezes e só então abriu a boca.

– O Michel? - questionou, a voz totalmente neutra. - O mesmo que dá em cima de você desde o primeiro ano?

– Esse mesmo. - a morena assentiu com uma careta, mordendo o lábio inferior por nervosismo mas Eduarda apenas concordou com um meneio da cabeça.

Entretanto, assim tão de perto, Lorena conseguia reconhecer cada pequeno sinal que antecipava a explosão da namorada. As orelhas ficando da cor dos cabelos ruivos, o maxilar trincado, os músculos dos braços enrijecendo sob o toque… Não demorou cinco segundos.

– Lorena… - a voz de Eduarda praticamente tremia.

– Eu sei, eu sei! Mas eu não posso rodar por causa de educação física no terceiro ano do ensino médio, amor, meu pai ia me matar. Eu ia me matar.

– E você vai dançar de casal com ele? - a ruiva reclamou, suas bochechas pegando fogo. - Ficar no passeio na roça e sei lá mais o quê? Voa andorinha, coroa de flores?

Sem dar chance para que Lorena respondesse, Eduarda flexionou os dedos na cintura da morena, arrastando os corpos para mais perto.

– Ele vai encostar na sua cintura? Porque, veja bem, essa cintura tem dona.

Foi a vez da Ferette segurar a risada. Abraçou o pescoço da garota, correndo os dedos pelas madeixas acobreadas com carinho, tentando amaciá-la mais uma vez.

– Ah é? Quem?

– Eu, Lorena! - Eduarda esbravejou, fazendo a garota rir.

– Eu sei, amor… A cintura é sua, eu sou sua, é tudo seu. - disse em uma voz doce por entre os risos, segurando o rosto da namorada em suas mãos e acariciando as bochechas dela com o polegar. - Mas eu não tenho escolha, Duda.

Eduarda resmungou, um bico quilométrico em seus lábios.

– Tudo bem. Lore. - cedeu, claramente a contragosto. - Mas é bom você me compensar por isso. E se ele começar a ficar cheio de gracinhas com você, eu vou chutar uma bola no meio da cara dele.

– Você não faria isso. - a morena tentou desconversar, mas bastou um olhar da namorada.

– Faria sim.

Lorena soltou uma risadinha.

– Faria mesmo. Mas não vai precisar, ok? Logo passa e você nem vai lembrar dessa quadrilha.

Eduarda suspirou mais uma vez. Não havia nada nesse mundo que deixaria de fazer por aquela garota, só não sabia o tamanho da encrenca em que estava se metendo ainda.

 

[...]

 

As semanas passaram depressa. Logo a escola ficou cheia de cartazes e pessoas vendendo convites para a festa junina, os ensaios para a quadrilha começaram e Eduarda, depois de muitos pedidos e muitos beijos de Lorena, havia prometido não assistir a nenhum deles.

Segundo a morena, seria tortura para as duas. E a ruiva concordou, não porque queria mas porque sabia que a namorada tinha razão. Mesmo assim, a cada vez que ouvia alguém comentando sobre os tais ensaios, sentia o estômago revirar com uma sensação ruim.

Naquela quinta-feira, essa sensação piorou. Assim que saiu do simulado, percebeu um burburinho diferente na escola, com corredores mais barulhentos e grupinhos conversando em todos os cantos. No meio de quase todas aquelas conversas, ela conseguia distinguir o nome de Lorena. Não só o dela, mas o de Michel também.

Eduarda apertou a alça da mochila, sabendo que aquilo não era um bom sinal mas tentando se convencer de que não significava nada. Michel, por motivos que ela era incapaz de compreender, era um dos garotos mais populares da escola. E Lorena, mesmo contra sua vontade, também sempre fora uma espécie de it girl inalcançável por ali.

O que Eduarda já sabia ser o jeitinho tímido e até meio esquisitinho da garota, acabava sendo traduzido para os outros como uma personalidade misteriosa que só atiçava a curiosidade. Somando isso com a beleza inegável e o fato de que Lorena era podre de rica, não havia a menor chance de passar despercebida.

Então era perfeitamente possível que nada demais tivesse acontecido. Porém, assim que viu a namorada vindo em sua direção com dois bombons, teve certeza de que a bomba ia ser forte. Nem abriu a boca quando a morena segurou sua mão, lhe puxando para baixo da arquibancada onde ninguém mais poderia vê-las, e cruzou os braços assim que pararam lá.

– Oi, meu amor. Já te falaram que você está ainda mais linda hoje?

– Desembucha, Lorena. Eu já sei que alguma coisa aconteceu.

Lorena fez bico na mesma hora, dando um passo para frente com os maiores olhinhos de cachorro pidão que ela era capaz de fazer.

– Não fala assim comigo, amor… - choramingou em um tom manhoso, segurando a mão da namorada. - Eu fico triste.

Eduarda fechos os olhos por um segundo, encostando a testa na da maior por alguns instantes antes de se afastar novamente.

– Desculpa. - falou em um tom mais contido. - O que aconteceu, princesa?

Lorena mordeu o lábio inferior, os olhos fixos em tudo que não fossem as orbes brilhantes da ruiva.

– Então, acontece que eu sou um pouco melhor em dançar quadrilha do que o previsto…

– Lorena…

– O professor colocou eu e o Michel como os noivos da quadrilha. - soltou de uma só vez, aproveitando a boca aberta da namorada para soltar tudo de uma vez. - E minha mãe vai mandar fazer o vestido em uma loja de noivas de verdade. E tem uns rumores circulando na escola de que eu e ele somos um casal.

Eduarda fechou a boca. Abriu de novo. Fechou mais uma vez. Quando finalmente falou, nem ela mesma sabia o que ia deixar sua boca.

– Você é boa em dançar quadrilha?

Lorena franziu o cenho.

– Hã?

– De tudo que você me falou, foi o que mais me surpreendeu.

– Você tá me chamando de sem ritmo? - a morena questionou, meio indignada.

Eduarda soltou uma risadinha, o franzidinho entre as sobrancelhas da namorada aliviando seu coração.

– Sim. - concordou antes de pincelar o nariz da garota com o indicador.

– Eduarda! - Lorena esperneou, batendo o pé no chão, mas foi rapidamente calada por um beijo.

– Você quer saber, Lore? Eu não ligo. - a ruiva finalmente falou, um sorrisinho convencido em seus lábios. - Ele vai casar com você na quadrilha? Ótimo. Quem vai estar esperando por você no altar de verdade vai ser eu.

Lorena sentiu sua garganta secar com aquelas palavras, o coração batendo desesperado em seu peito. Até mesmo umas lágrimas teimosas encheram seus olhos antes de ela envolver o pescoço da namorada em um abraço apertado.

– Eu te amo, Duda. Você sabe disso, não sabe?

– Eu também te amo, meu amor. Muito.

Mais uma vez, Eduarda colou os lábios aos seus. Lorena se permitiu ser guiada cegamente, os olhos fechados e as mãos da ruiva em sua cintura, até que suas costas bateram contra a coluna metálica que sustentava a arquibancada. Arfou contra a boca da menor no instante em que sentiu o material gelado contra suas costas, e a Fragoso se aproveitou do momento para aprofundar o beijo, explorando a boca da morena com a língua.

Era um beijo afoito e Lorena conseguia sentir o desespero da namorada ali, o ciúme e o amor que ela sentia batalhando por espaço em seu peito. Subiu as mãos pelos braços da garota, sentindo os músculos tensionados por baixo do casaco, até que pousou as mãos delicadamente no rosto dela, separando o beijo mas mantendo suas testas coladas.

– Se sente melhor, amor?

Eduarda apenas grunhiu.

– Orem por mim, sinto muito ciúmes.

Lorena soltou uma risada alta.

– Você é uma boba e eu te amo.

– Pra sua sorte, eu te amo também.

Com um sorriso que fazia Eduarda perder as estribeiras, Lorena se inclinou para lhe dar mais um selinho.

— Eu sou mesmo muito sortuda. Agora vamos, nós temos aula de história!

 

[…]

 

Para melhor ou para pior, o dia da festa junina finalmente chegou. Tanto Lorena quanto Eduarda acordaram cheias de expectativa, mas, enquanto Lorena tinha um horário marcado no salão, a ruiva tinha outros compromissos. Não que não fosse se arrumar, muito pelo contrário, mas Eduarda apenas tinha decidido que, se sua namorada faria parte da festança, nada mais justo do que ela se envolver também.

Durante o horário dos ensaios, os quais havia prometido não assistir, a Fragoso chegou a conclusão de que deveria fazer algo mais útil do que apenas sentar emburrada na biblioteca enquanto pensava furiosamente em Lorena dançando. E foi assim que ela acabou na comissão da festa junina, com uma barraca para chamar de sua e um plano em andamento.

Lorena, por sua vez, estava uma pilha de nervos. Foi com sua mãe para o salão, pintou as unhas, arrumou o cabelo e até mesmo se maquiou, mesmo achando que podia ter feito tudo aquilo sozinha em sua casa. Dona Zenilda não parava de dizer o quanto estava empolgada em ver a filha dançando, coisa que não acontecia desde a infância, e a morena cedeu à todos aqueles frufrus apenas para deixar a mãe feliz.

Entretanto, a cada vez que Santiago dizia naquele tom estoico que estava orgulhoso de vê-la se envolvendo em atividades sociais, a Ferette mais nova sentia aquela vontade urgente de jogar tudo para o alto apenas para contrariá-lo que a acompanhava desde a pré-adolescência. Mas não podia fazer isso, então apenas sorria sem dentes e se retirava para o próprio quarto, como havia feito agora, pronta para finalmente se vestir e acabar logo com isso.

O vestido, Lorena precisava admitir, era bem bonito. Apesar de ter achado de um desperdício enorme de dinheiro toda a história de alugar um vestido de noiva de verdade e ter morrido de medo de acabar ficando ridícula, todas as adaptações que a mãe havia feito no vestido o deixaram simplesmente adorável. O corpete bem marcado, ressaltando sua cintura, com uma renda rosa claro no decote que continuava nas mangas caidinhas em seu ombro, a saia armada, curtinha, com tule aparecendo por baixo e um laço enorme na parte de trás, no mesmo tom de rosa da renda. Parecia mesmo uma noivinha, e até que gostava da visão.

Completou o visual com uma meia-calça branca rendada, um tênis branco e fitas cor de rosa no cabelo, colocando o véu por último. Estava pronta e esperava, do fundo do coração, que tudo desse certo e pudesse passar por esse dia sem grandes empecilhos. Nada podia dar errado e nada iria dar, ela já mentalizava.

Quando chegou no lugar em que a festa aconteceria, estava ciente de que atraía vários olhares. Também tinha plena noção de seu pai, andando ao seu lado com um sorriso presunçoso, realizado por possuir um bem que, ele acabara de perceber, parecia bem valioso por ali. Zenilda saltitava ao seu lado e Leonardo, seu irmão e o único que sabia sobre quem de fato guardava o coração da caçula, apertou o ombro da irmã em um gesto cúmplice.

Todos olhavam, Lorena sabia. Mas ela não estava interessada em nenhum olhar que não viesse daqueles olhos castanhos enormes que ela venerava em segredo, não queria nenhuma cabeça virando em sua direção que não trouxesse junto o balançar suave de fios acobreados, não queria nenhuma boca entreaberta se não fosse aquelas dos lábios macios que ela já conhecia também. A morena só queria saber de Eduarda e, quando finalmente a encontrou, sentiu a garganta secar.

Por algum motivo que ela desconhecia, sua namorada estava parada em frente à barraca da cadeia, com um um distintivo de xerife pendurado no pescoço e um chapéu de cowboy encarapitado no topo da cabeça. Ela estava languidamente apoiada contra as grades da prisão, um sorrisinho de canto nos lábios pintados e as mãos nos bolsos da calça jeans, a bota de bico fino batendo de forma rítmica no chão. Lorena ao menos percebeu o quanto seu colo já estava vermelho, mas conseguia sentir o calor se espalhando por seu peito.

– Cuidado, irmãzinha, você não é muito boa em disfarçar…

O sussurro de Leonardo a acordou de seus devaneios, nenhum deles propício ao ambiente, e Lorena tratou de desviar o olhar apenas para encontrar a maneira mais rápida de se livrar dos pais. Levou-os até a mesa que Santiago havia comprado e ficou apenas o mínimo possível para não parecer estranho, se levantando rapidamente com a desculpa de que precisava encontrar suas amigas.

Tentou não dar na cara demais, mas praticamente correu em direção à barraquinha da prisão. Assim que Eduarda entrou em seu campo de visão, precisou morder o lábio inferior porque, meu Deus, que visão era aquela. Deixaria a ruiva prendê-la em qualquer lugar e a qualquer momento, e bem quando achou que não tinha como aquela mulher ficar mais atraente, ela olhou em sua direção.

Lorena acompanhou ao vivo as pupilas já ridiculamente grandes de sua namorada dobrarem de tamanho enquanto lhe encaravam com o olhar mais devoto que já havia recebido em sua vida. Quando viu lágrimas tomando conta daquelas orbes castanhas apenas por vê-la vestida de noiva de festa junina, a Ferette sentiu que poderia engravidar ali mesmo, sem nem precisar encostar na ruiva. Esse era o poder de Eduarda sobre si.

Duda virou-se rapidamente para Paulinho - porque é óbvio que ele a acompanharia seja lá qual fosse o motivo de eles estarem ali - e murmurou algo que Lorena não conseguiu entender. Depois, apenas fez um sinal com a cabeça para que a morena a seguisse, o que ela não hesitou por um segundo em fazer, o mais disfarçadamente que conseguiu.

A Fragoso dobrou uma esquina entre as barraquinhas de comida e seguiu por um corredor estreito, por trás da quadra, em direção ao armário do almoxarifado, onde as decorações ficavam guardadas. Esperou apenas por alguns segundos até que a namorada aparecesse e, no segundo em que a viu se aproximando, abriu a porta com a chave que estava em seu bolso.

A morena entrou primeiro e, no segundo em que Eduarda cruzou a porta também, avançou sobre a figura da namorada, colando seus lábios em um beijo necessitado, soltando um suspiro quando finalmente sentiu o corpo da menor contra o seu. Colou a ruiva contra a porta, que até demorou uns segundos antes de reagir, envolvendo os braços na cintura estreita da menina.

– Ei, calma, calma… - Eduarda finalmente conseguiu dizer em meio aos beijos, impulsionando a cintura de Lorena um pouco para trás para afastá-las. - Eu quero olhar para você.

E assim ela fez. Correu os olhos de cima a baixo pela figura da mais nova, o polegar acariciando a lateral da cintura dela enquanto tentava absorver toda a imagem. Mais uma vez, ela lacrimejou.

– Você é a noiva mais linda que eu já vi na minha vida. - Eduarda sussurrou, emocionada, antes de plantar um selar delicado na testa da morena. - Eu mal posso esperar pelo dia em que vou te fazer minha esposa de verdade.

Lorena choramingou, escondendo o rosto no pescoço da ruiva.

– Não fala essas coisas, eu vou chorar e vai borrar toda a minha maquiagem.

Eduarda apenas soltou uma risadinha, envolvendo o corpo da morena com cuidado e descansando a cabeça contra a dela em um abraço confortável. Era um momento doce e Lorena brincava distraída com a gola da blusa xadrez que a ruiva usava por cima da camiseta, até que a ponta dos seus dedos tocou o material gelado da corrente do distintivo e ela lembrou do porquê estava ali em primeiro lugar.

– Duda… - chamou naquele tom manhoso que a outra conhecia muito bem, se afastando somente o suficiente pra encarar a menina nos olhos. - Por que você tá com essa roupa?

O sorriso de canto nos lábios de Eduarda foi inevitável, principalmente quando ela percebeu a possessividade com que a morena segurava o cordão. A ruiva traçou devagar os dedos pela linha da coluna da namorada, ancorando a outra mão no pescoço da garota, por baixo dos fios castanhos.

– Por que a pergunta? Gostou do que viu?

– Até demais… - Lorena sussurrou em meio a um suspiro, já molinha nos braços da ruiva.

– Eu achei que precisava me envolver mais na festa, meu amor, já que você estava fazendo a sua parte. E o Paulinho topou, então nós viemos.

Lorena não respondeu, apenas avançou sobre os lábios da namorada mais uma vez, quase a desequilibrando. Seus dedos adentraram os fios ruivos, puxando-a para mais perto ainda que já estivessem totalmente coladas, e Eduarda cravou as unhas no tecido fino das costas do vestido.

Com a delicadeza de quem sabe o que está fazendo, a ruiva separou o beijo apenas para traçar um caminho molhado pelo rosto de Lorena, descendo os beijos pelo pescoço dela. A mais nova arfou com o contato, pendendo a cabeça para trás para dar mais abertura para a namorada, que alternava de maneira rápida entre mordidas e chupões, tudo com o devido cuidado para não deixar nenhuma marca.

– Eu adoraria continuar aqui, Lore… - Eduarda comentou em um tom baixo, subindo os lábios para roçá-los contra a orelha da garota. - Mas nós temos que voltar para lá.

Lorena grunhiu, claramente contrariada, mas não fez nada além de um bico quando a namorada se afastou. Apenas ajeitou o vestido, ajeitou o cabelo e deu um passo para trás para que ela, finalmente, pudesse se desencostar da porta.

– Eu vou dizer que vou para a casa da Maggye e vou dormir na sua casa hoje. - a morena mais decretou do que pediu, franzindo o cenho ao ver a ruiva caminhar para dentro do almoxarifado e não para fora. - O que você está fazendo?

– Eu esqueci minhas algemas. - Eduarda respondeu inocentemente, balançando o objeto ao lado do rosto.

Os olhos de Lorena escureceram no mesmo instante.

– Eduarda…

– Vamos, noivinha. Você ainda tem que casar. - a ruiva piscou, deixando um tapinha na bunda da Ferette antes de sair do armário.

Lorena respirou fundo antes de sair, prevendo que seria um longo, longo dia.

 

[...]

 

A dança do terceiro ano seria a última, o que deixava Lorena com muito tempo para matar e nada para fazer. Depois do encontro com Eduarda, ela realmente foi encontrar as amigas, já entrando com Maggye e Gerluce na fila da canjica. Elas conversavam animadamente, discutindo sobre tudo e mais um pouco enquanto esperavam sua vez.

Quando finalmente conseguiram chegar ao balcão, Lorena já sonhava com o doce quentinho. Recebeu o potinho em mãos e, antes que pudesse provar a primeira colherada, um barulho alto de sirene quase fez com que ela derrubasse tudo em seu vestido.

– Parada aí!

A voz de Eduarda, como de costume, atraiu sua atenção, assim como a de todos os demais. Lorena lançou um olhar meio exasperado e meio confuso para a namorada, que vinha andando em sua direção com um sorriso presunçoso e Paulinho ao seu lado, as algemas tilintando em suas mãos.

– Pode entregar a canjica para a sua amiga, noivinha, porque nós recebemos uma denúncia. Você está sendo detida por roubar muitos corações.

Um coro de suspiros, interjeições e risadinhas tomou conta de todos em volta, o público geral adorando testemunhar a prisão da noiva da quadrilha, todos imaginando quem foi que havia comprado o bilhete. Mas Lorena sabia muito bem e devia ter imaginado isso no segundo em que viu a namorada com aquela roupa.

Revirando os olhos mas ainda sorrindo, Lorena entregou a canjica para Maggye e estendeu os braços, pronta para ser presa. Eduarda passou as algemas em seus pulsos com uma piscadela e a morena precisou morder a parte interior da bochecha para não soltar nenhum grunhido indevido, agradecendo por Paulinho estar logo ali com aquela sirene ridícula que atraía a maior parte da atenção.

Eduarda puxou-a pelas algemas até a grade que estavam usando como cadeia, empurrando-a para dentro e trancando a porta logo em seguida. Nos primeiros segundos, várias pessoas ainda acompanhavam a comoção, mas logo se dispersaram. O show já havia acabado, agora Lorena só teria que ficar sentada ali pelos próximos dez minutos.

– Eu devia saber… Eu estava ansiosa para comer a minha canjica, sabia? - comentou em um tom brincalhão, apoiando o rosto na mão esquerda.

– Você come depois, gatinha. Agora você só sai daqui sob fiança.

– Ah é? E qual é o pagamento?

– Pra você… Acho que mais uns 15 minutos no almoxarifado e eu te libero.

Lorena soltou uma risada alta.

– Mas esse tempo é maior que o da minha pena, xerife.

– É? Ih… Então acho que você vai ter que ficar detida mesmo. - e se inclinou com um sorriso cúmplice antes de sussurrar. - E pode se preparar porque eu comprei cinquenta fichas.

A morena revirou os olhos, sem acreditar muito, e ficou batendo papo com a namorada até que o tempo passasse. Assim que foi liberada, foi atrás de Maggye para comer sua canjica. Já havia esfriado um pouco, mas continuava gostosa.

Estava na metade do potinho e escutando Gerluce contar sobre como teve que costurar seu vestido de quadrilha de última hora, já que ele havia rasgado sem querer, quando escutou a sirene de novo. Não deu muita bola, achando que devia ser para outra pessoa, mas não demorou nem dois minutos para que Eduarda estivesse parada na sua frente de novo.

– Mãos ao alto, Ferette! Você está sob custódia. Foi acusada de andar causando muita desordem por aí com toda essa beleza. - a ruiva disse com um sorriso engraçadinho, mas dessa vez Lorena não achou graça.

Não tinha nem terminado a sua canjica.

– Sério mesmo? Eu acabei de ser presa. - reclamou, segurando o pote com o caldo com as duas mãos.

– Você tem que reclamar com quem faz as denúncias, noivinha, eu só efetuo a prisão. - a ruiva disse com a maior cara de pau. - Vamos, dessa vez eu deixo você levar a canjica.

Resmungando baixinho, Lorena deixou que a menor lhe guiasse com uma mão em seu ombro, entrando meio emburrada nas grades da cadeia de novo. Sentou-se com o pote de canjica na mão, olhando para a ruiva de cara feia.

– Você comprou mesmo cinquenta fichas, Eduarda?

Com a cara mais lavada e um sorriso cafajeste, a Fragoso respondeu.

– Comprei. Você vai ser todinha minha pela festa inteira.

Para o estresse de Lorena, ela não estava brincando. A cada dez minutos, Eduarda surgia com Paulinho a tiracolo e aquela sirene ridícula, levando-a para a cadeia por motivos que se tornavam mais patéticos a cada prisão. Sequestro de corações. Fazer com que todos os anéis de noivado da cidade fossem comprados. Causar choro nos apaixonados. Homicídio por beleza fatal. A ruiva estava se superando na baboseira.

E logo toda a escola pareceu perceber. A noiva que já fora presa umas 15 vezes virou atração e Lorena não aguentava mais ficar sentada no meio daquelas grades. Já estava fuzilando Eduarda com os olhos, mas não parecia adiantar - ela estava dedicada a tirar seu sossego.

– Isso é por todo o ciúmes que eu senti e ainda vou sentir vendo você dançar hoje. - Eduarda sussurrou, empurrando-a para dentro da cadeia mais uma vez.

– Você é insuportável. - Lorena devolveu no mesmo instante, se jogando contra o banquinho de madeira de muita má vontade.

Quando já começava a anoitecer, Eduarda deixou Paulinho cuidando da presa e desapareceu no meio das barracas. Lorena revirou os olhos, ainda mais indignada. Não bastava lhe prender, aquela ruiva de meio metro ainda a deixava ali sozinha. Ela ia ver só.

Porém, não demorou muito para que Eduarda voltasse com uma tigelinha de caldo de feijão, uma coquinha zero e um brownie muito bem recheado. Ela entregou para a morena por entre as grades com um sorriso enorme, claramente muito contente consigo mesma e com o fato de que seu plano maligno tinha funcionado. A noivinha fora toda sua durante a festa inteira.

– Contrabando pra você, Ferette. Alguém tem que alimentar a noiva antes do casamento.

– Você é uma chata. - a morena reclamou, devolvendo a garrafinha de coca para a menor abrir. - Mas obrigada.

– Por nada, minha dama. Agora come, já está quase na hora de você dançar.

E assim Lorena fez, comeu tudo rapidinho enquanto conversava com a ruiva sem ninguém atrapalhar. Por fora ela estava, sim, irritada, mas por dentro seu coração dava pirueta atrás de pirueta. Tinha passado a festa inteira bem onde mais queria, ao lado de Eduarda. Às vezes, os fins justificavam sim os meios.

Quando os alunos do terceiro ano foram chamados pelos alto falantes, Lorena se levantou sentindo um súbito frio na barriga por ter que se apresentar ali. Com cuidado para que ninguém visse, Eduarda entrelaçou os dedos aos dela.

– Não se preocupa, Lore. Você vai arrasar.

– Eu espero. - Lorena murmurou, apertando a mão da ruivinha antes de se adiantar para a quadra.

Eduarda foi logo atrás, determinada a conseguir um lugar bem de perto para assistir sua mulher dançar. Parou bem na ponta da quadra, vendo Paulinho correr para a concentração de alunos, parando bem ao lado de Gerluce.

Por alguns segundos, a ruiva sentiu inveja. Queria poder dançar com a sua noivinha também, mas suspirou e tentou focar no que era importante: era ela quem receberia os beijos de Lorena mais tarde. E isso contava bem mais.

Logo o teatrinho do casamento caipira começou. Paulinho, que ela tinha acabado de descobrir ser o pai da noiva, entrou de braços dados com Lorena, parando bem em frente ao padre, interpretado por Zé Maria. O sotaque forçado do interior era até engraçado, Lorena estava linda e Eduarda estava se divertindo.

E então, escoltado por Maggye e Júnior, os pais do noivo, Michel entrou logo em seguida. Celina, em um vestido todo preto, fez o papel da viúva. Só aí o casamento começou, para a infelicidade da ruiva.

Depois de todo o teatrinho, que sinceramente Eduarda achava patético, em que o noivo tentava fugir, os dois foram dados como marido e mulher. A ruiva cerrou os punhos ao ver as mãos daquele verme envolverem a cintura de sua namorada, erguendo-a e girando-a no ar, cruzando os braços enquanto a dança de fato começava.

Cada milissegundo daquela dança foi uma tortura para Eduarda. Ela não queria ver Michel de braços dados, de mãos dadas, dançando colado ou o que quer que fosse com a sua namorada, mas teve que testemunhar tudo isso. Precisou conter a vontade de ir lá e socar a cara dele quando, durante o passeio na cidade, os olhos do garoto estavam bem abaixo do que deveriam.

E quando o locutor gritou “Olha a cobra!” e ela viu aquele infeliz segurando a sua Lorena no estilo noiva, as pernas dela balançando enquanto ela fingia um gritinho, Eduarda viu tudo vermelho. Ela queria morrer, matá-lo, trancar Lorena naquele quartinho do almoxarifado e fazê-la esquecer que o mundo exterior existia. Sua cabeça estava uma bagunça completa quando o caracol finalmente começou, dando início ao final da dança.

Foi com um enorme suspiro de alívio que Eduarda assistiu os casais começarem a se despedir do público, a fila puxada por Lorena começando a se direcionar para fora da quadra. No fim das contas, a morena estava mesmo certa: se a Fragoso tivesse assistido aquele ensaio por semanas, não estaria mais aqui para contar história.

Eduarda caminhou ainda meio irritada de volta para a cadeia, sabendo que Lorena iria para lá assim que pudesse. E se não fosse, poderia ir lá prendê-la de novo. Mas agora a Ferette mais nova precisava se despedir da família e a ruiva precisava espairecer.

Com uma latinha de refrigerante nas mãos, Eduarda voltou a se recostar nas grades da cadeia. Depois de alguns minutos, ela viu a família Ferette andando em direção à saída, ganhando um aceno disfarçado de Leonardo. Ela acenou de volta, se perguntando onde é que estava a Lorena, mas foi interrompida de seus devaneios por uma presença inusitada.

– Será que eu consigo subornar você para me prender ou vou ter que ir lá comprar a ficha?

Era Laura, uma garota do segundo ano com quem Eduarda não tinha trocado mais do que duas palavras na vida, o que não impedia Lorena de nutrir um ódio imenso pela loira. Segundo a Ferette, ela secava a ruiva toda as vezes que estavam no mesmo ambiente e, aparentemente, ela estava certa.

– Tem que comprar a fichinha lá na barraquinha da Lucélia. - respondeu meio sem jeito, ajeitando a gola da camisa.

– Pra ser presa por um rostinho desses, eu compro até dez. - a loira cantarolou, se inclinando perigosamente para perto. - Você parece ser bem jeitosa com essas algemas.

– Escuta aqui, quem você tá achando que é?

A voz de Lorena ribombou logo à esquerda de Eduarda, que virou a cabeça apenas o suficiente para ver a morena soltando fogo pelas ventas, as bochechas vermelhas de raiva e os olhos verdes faiscando. Ela cruzou os braços, encarando Laura fixamente sem parecer se importar que estava juntando uma plateia.

– Laura, muito prazer. - a garota disse com um sorriso cínico, arqueando as sobrancelhas. - Agora se você me der licença, eu estou tentando dar em cima dela.

Toda a cor do rosto de Eduarda sumiu enquanto Lorena parecia ficar cada vez mais nervosa. Ela cerrou os punhos, os nós dos dedos ficando brancos, e a ruiva genuinamente não sabia o que fazer.

– Lorena… - tentou sussurrar em um tom tranquilizante, hiperconsciente dos olhares em cima delas. Era um relacionamento secreto, mas a Ferette não parecia estar se importando com isso agora.

– Cala a boca, Eduarda. - a morena praticamente rugiu, sem paciência nenhuma. - E você, Laura, pode dar meia volta e ir embora porque ela já tem dona.

Eduarda arregalou os olhos, metade da escola prendeu a respiração e Laura apenas deu mais um passo a frente.

– É mesmo? Quem? Porque eu não tô vendo anel nenhum no dedo dela.

No mesmo instante, Lorena apenas virou de lado, agarrou os dois lados da camisa xadrez que a namorada usava e puxou-a para um beijo intenso, bem ali no meio de todos. Pediu passagem com a língua imediatamente, tomando controle do enlace entre as duas e colando totalmente o corpo ao da mais baixa. Eduarda, ainda completamente desestabilizada, demorou até para retribuir, mas assim que o fez ancorou as mãos aos quadris da mais nova, derretendo-se em seus braços como sempre fazia.

A gritaria que tomou conta da escola foi inevitável, mas Lorena não se importava. Quando separou o beijo, ainda meio vermelha, só fez lançar um olhar feio para a loira que continuava parada ali.

– Vaza, sua ridícula. A única que a Duda vai prender sou eu.

E com isso, Lorena arrastou a namorada para dentro da cadeia, fazendo-a sentar no banquinho de madeira e sentando-se diretamente em seu colo. Ela continuava emburrada, de cara feia, e Eduarda precisou segurar a risada.

– E olha que você passou todas essas semanas me chamando de ciumenta…

– Cala a boca, Eduarda. - Lorena retrucou, brava. - Eu não ia deixar nenhuma piranha dar em cima de você bem na minha frente.

– Ah, mas eu podia passar semanas com todo mundo pensando que você namora o Michel?

– Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Eduarda gargalhou alto, encostando a testa no ombro da menina.

– Você não existe, Lorena Ferette. E eu te amo.

– Eu também te amo. - a morena retrucou, deixando um beijo no topo dos cabelos ruivos. - Enfim, agora a escola já sabe. Eu vou contar pra minha mãe também, eu acho que ela já percebeu. Viu a gente saindo do almoxarifado,

– É mesmo? - Eduarda perguntou, meio surpresa. - E ela ficou de boa?

– Parece que sim. - Lorena deu de ombros. - Menos barreiras pra gente. Vai ficar tudo bem, não é como se alguém daqui fosse contar pro meu pai.

Eduarda apenas assentiu, sentindo-se mais feliz do que nunca. Com um sorrisinho de canto, cutucou a cintura da morena.

– Você sente muito ciúmes.

– Cala a boca, Eduarda. - Lorena revirou os olhos, dando um tapinha na testa da ruiva.

– Mas você sente! - Eduarda riu, se divertindo com a situação. - Perdeu totalmente o controle.

– Eu não tenho sangue de barata! - a morena reclamou, fazendo bico. - Agora dá pra parar de me perturbar?

– Eu vou pensar no seu caso…

E depois de alguns segundos, Eduarda completou.

– Sabe o que eu acho? Que vou levar essas algemas pra casa sem querer.

Lorena soltou o maior sorriso que tinha dado até ali.

– Eu acho uma ótima ideia.

Notes:

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espero que tenham gostado e até a próxima!!