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Impedimento • Loquinha

Summary:

Eduarda Fragoso é a estrela consolidada do meio-campo do Barcelona feminino. Quando o clube anuncia a contratação de Lorena Ferette, sua rival de longa data, com quem carrega um rancor não resolvido, Eduarda decide que aquela seria uma inimizade duradoura. O que ela não sabe é que Lorena guarda um segredo antigo, e que a rivalidade entre elas esconde muito mais do que aparenta. Entre treinos tensos, gols decisivos e as ruas de Barcelona, as duas vão descobrir que o que sentem uma pela outra pode ser mais forte do que qualquer implicância em campo. Mas só se conseguirem ser honestas sobre isso antes que seja tarde demais.

Notes:

já que estamos em clima de copa do mundo... ;)

Work Text:

Eduarda Fragoso soube da notícia do jeito mais humilhante possível: por um jornalista. Estava saindo do treino, cabelo ainda molhado do banho, mochila num ombro só, quando um repórter da Mundo Deportivo enfiou o microfone quase na boca dela.

— Eduarda, o que você acha da contratação de Lorena Ferette?

Ela parou, sorriso de treino ainda colado no rosto, porque anos de entrevista tinham ensinado ela a nunca deixar a cara cair na frente de câmera.

— Contratação de quem?

O jornalista pareceu genuinamente surpreso por ela não saber.

— Lorena Ferette. Meia-atacante do PSG. Saiu a notícia há vinte minutos, o Barça fechou por doze milhões.

Doze milhões por uma armadora brasileira que jogava na França. A mesma que, dois anos atrás, tinha dado a assistência do gol que eliminou o Barça nas quartas da Champions, e que Eduarda já tinha enfrentado em campo três vezes sem nunca trocar mais que um aperto de mão frio depois do apito final. Boa jogadora, ela tinha que admitir, daquelas que faziam o gramado parecer menor do que era. Só que também era exatamente a posição dela.

— Eu acho que é uma ótima contratação — ela disse, no automático. — Toda reforço é bem-vindo.

Mas no carro, sozinha, o sorriso sumiu na mesma hora.

Naquela noite Paulinho ligou vídeo e encontrou a amiga deitada na cama, olhando pro teto.

— Já vi as notícias — ele disse, sem nem "oi". — Tá se sentindo ameaçada?

— Não é sobre ameaça — Eduarda respondeu, virando de lado. — É sobre eu ter construído meu espaço aqui, Paulinho. Quatro anos. Fui eu que levei esse time pra final de Champions. E agora chega uma menina de fora e todo mundo já fala "agora sim o meio-campo do Barça vai ser imparável", como se eu não tivesse feito nada até agora.

— Ninguém disse isso.

— A imprensa disse isso o dia inteiro.

Paulinho suspirou.

— Você nem conhece ela ainda. Talvez seja gente boa.

— Não preciso que seja gente boa — Eduarda cortou. — Preciso que não atrapalhe.

Desligou sem imaginar que, a quatro mil quilômetros dali, em Paris, Lorena Ferette fazia as malas com uma expectativa que não contava pra ninguém: a de finalmente jogar no mesmo time que Eduarda Fragoso.

Lorena chegou à Ciutat Esportiva Joan Gamper numa segunda-feira de sol forte, cabelo escuro preso num rabo impecável. Reconheceu Eduarda antes de qualquer apresentação formal, aquele cabelo ruivo brilhando sob o sol catalão. Sentiu o estômago revirar, mistura de nervosismo com aquele crush antigo que nunca contara a ninguém, nem mesmo à Maggye, sua melhor amiga desde os tempos de base, que sempre dizia:

— Você tem cara de quem guarda segredo, Lorena.

A apresentação oficial foi seca. A técnica reuniu o elenco no centro do campo.

— Essa é a Lorena. Vem do Paris Saint German, vai jogar de meia. Espero que recebam ela bem.

Quando chegou a vez de Eduarda, o aperto de mão foi curto, educado.

— Bem-vinda — ela disse, num tom que soava mais como boa sorte tentando do que acolhimento.

Lorena sorriu de volta, gentil.

— Obrigada. Sou fã do seu jogo há muito tempo.

— É? — Eduarda ergueu uma sobrancelha, quase debochada. — Que bom que finalmente vai poder assistir de perto.

E virou as costas pra ir se alongar.

O que ninguém no vestiário sabia, exceto Gerluce, que sempre sabia de tudo, era que aquela frieza vinha de mais longe do que o anúncio da contratação.

Nos três confrontos de Barça contra PSG na Champions, foi no último que tudo mudou. Numa disputa de bola dividida, uma zagueira do PSG entrou de sola alta no tornozelo de Eduarda, lance que o VAR demorou minutos pra revisar e que terminou em cartão vermelho tardio demais pra evitar o estrago. Eduarda ficou fora dos gramados por oito semanas. Lorena, na época, era a capitã de time do PSG em campo naquele jogo.

E não disse nada. Nenhuma palavra pública de solidariedade, nenhum "espero que ela se recupere logo", nada. Eduarda guardou aquilo com um rancor silencioso, do tipo que não esperava explicar pra ninguém, mas que carregava consigo como prova de que Lorena, apesar do talento, não tinha caráter. Porque bastava um gesto conciliatório, uma frase, e teria significado alguma coisa.

O que Eduarda nunca soube foi que, naquele mesmo campo, Lorena tinha se ajoelhado do lado dela por três segundos antes da comissão médica chegar, sem que nenhuma câmera captasse, e sussurrado pra ela ficar parada, que a assistência já estava vindo. Depois disso, calada de propósito diante da imprensa, porque na cabeça de Lorena, qualquer declaração emocionada naquele momento teria virado manchete, teria distraído a atenção médica de Eduarda, teria transformado uma lesão grave em espetáculo. Ela preferiu o silêncio que parecia frieza a um gesto bonito que atrapalhasse o atendimento. Só que nunca teve chance de explicar isso, porque Eduarda nunca perguntou, só guardou a mágoa.

No vestiário, mais tarde, Gerluce sentou do lado de Lorena enquanto trocava a chuteira.

— Não liga pra Eduarda — disse, baixinho. — Ela tá meio na dela desde que soube da tua contratação. Coisa de território.

— Eu entendo — Lorena respondeu. E entendia mesmo, embora não contasse pra Gerluce que aquele desprezo doía de um jeito que ultrapassava profissionalismo. Doía porque era Eduarda.

A rivalidade em campo cresceu. No primeiro treino tático, testaram as duas juntas, Eduarda mais avançada, Lorena recuada armando. Eduarda ignorava os passes sempre que podia driblar sozinha. Numa jogada em que Lorena preferiu arriscar um passe pro ponta:

— Passa a bola! — Eduarda gritou.

— Eu vi espaço — Lorena respondeu, sem se abalar.

O passe deu certo. Assistência perfeita, gol, aplausos do banco. Eduarda não disse nada, mas o maxilar travado dizia tudo.

Depois do treino, a técnica chamou as duas.

— Vocês duas são as melhores criativas que eu tenho — disse. — Mas se continuarem competindo em vez de jogar junto, vão estragar o que podia ser a melhor dupla de meio-campo da Europa. Decidam se querem ser rivais ou parceiras.

O primeiro clássico da temporada com as duas no mesmo time foi contra o Real Madrid, um sábado de outubro com o Camp Nou lotado até o último degrau, bandeiras balançando, o hino ecoando antes mesmo da bola rolar. A técnica escalou as duas juntas de novo, e o time inteiro sabia que aquilo era, na prática, um teste: ou a dupla funcionava sob pressão de verdade, com o adversário mais duro da temporada, ou a rivalidade explodia na frente de oitenta mil pessoas e de câmeras do mundo inteiro.

Nos primeiros vinte minutos, funcionou mal. Eduarda subia pela esquerda, pedia a bola batendo a mão no peito, gritando o próprio nome como se Lorena não soubesse quem estava se movimentando ali, e Lorena, irritada com os gritos, segurava a jogada um segundo a mais só pra mostrar que decidia sozinha quando soltar o passe. Numa dessas disputas de vaidade, Lorena preferiu tentar um passe complicado por dentro em vez de simplesmente lançar pra Eduarda, que estava livre na ponta, e a bola foi interceptada, dando início a um contra-ataque veloz do Real Madrid que terminou em gol, exatamente pelo buraco que a falta de entrosamento das duas tinha deixado no meio-campo.

O Camp Nou vaiou. Eduarda bateu palma irônica na direção de Lorena, sem dizer nada, o gesto dizendo tudo. Lorena, do outro lado do campo, cruzou os braços por um segundo antes de voltar a se posicionar pro reinício de jogo, o maxilar travado.

No intervalo, no vestiário, o clima estava pesado, ninguém falando muito, todo mundo trocando a camisa suada em silêncio até a técnica entrar e bater na mesa com a mão aberta, o barulho seco fazendo todo mundo levantar a cabeça.

— Vocês duas estão jogando um jogo diferente uma da outra — disse, a voz seca, andando de um lado pro outro na frente do quadro tático. — Eduarda, você grita ordem, não pede. Lorena, você segura bola demais só pra provar um ponto. As duas melhores jogadoras que eu tenho em campo, jogando pra lados opostos, e o resultado tá lá no placar. Se vocês não resolverem isso lá fora, nos próximos quarenta e cinco minutos, eu tiro as duas do jogo e ponho no banco pro resto da temporada.

Gerluce, sentada num banco próximo, trocou um olhar preocupado com Maggye, que mordia o lábio, tensa.

A técnica saiu do vestiário pra falar com o preparador físico, deixando o silêncio pesado atrás dela. Foi Gerluce quem quebrou primeiro, se levantando e indo até as duas, cutucando o braço de Eduarda.

— Resolve isso — ela disse, baixinho. — A gente precisa de vocês duas jogando junto, não competindo.

Eduarda não respondeu na hora. Ficou parada, ainda de cabeça baixa, até finalmente levantar os olhos e encontrar Lorena do outro lado do vestiário, também sozinha, também séria.

— Posso falar com você um segundo? — Eduarda perguntou, a voz mais baixa do que o normal.

Lorena hesitou, mas assentiu, seguindo Eduarda até um canto mais isolado do vestiário, longe dos ouvidos das outras.

— Eu não vou pedir desculpa por jogar do meu jeito — Lorena disse primeiro, cruzando os braços, na defensiva.

— Eu não pedi que você pedisse — Eduarda respondeu, no mesmo tom firme. — Só pedi que você confiasse em mim quando eu peço a bola. Eu não peço só pra aparecer, Lorena. Eu peço porque eu vejo o espaço que tem lá na frente.

— E eu pedi que você confiasse que eu enxergo o campo tão bem quanto você — Lorena rebateu, a voz subindo um pouco. — Você acha que só porque eu sou nova aqui eu não sei o que tô fazendo?

— Eu não acho isso — Eduarda disse, surpreendendo a si mesma com a sinceridade da resposta. — Eu acho que a gente tá se atrapalhando porque as duas querem provar dois pontos ao mesmo tempo, e isso não devia ser sobre orgulho. Devia ser sobre ganhar o jogo.

As duas se encararam por um segundo, tensas, o barulho abafado da torcida ainda audível do lado de fora, mas foi Eduarda quem cedeu primeiro, suspirando fundo.

— Tá bom. Você vê o espaço, eu finalizo. Você toca, eu confio, sem questionar. Só isso. A gente tenta assim no segundo tempo.

Lorena hesitou, olhando pra ela com uma desconfiança que aos poucos foi cedendo, até finalmente assentir.

— Só assim. E você para de gritar ordem como se eu fosse surda.

— Combinado — Eduarda disse, quase sorrindo, apesar da tensão.

O segundo tempo começou diferente. Aos cinquenta e um minutos, Lorena recebeu a bola no meio-campo, marcada de perto, e em vez de tentar sozinha, ergueu a cabeça rápido, viu Eduarda se movimentando pelas costas da zaga adversária, e tocou a bola no espaço exato, sem nem precisar olhar de novo pra confirmar que ela estaria lá. Eduarda, recebendo em velocidade total, controlou num toque só e bateu cruzado, rasteiro, sem chance pra goleira. A bola morreu no fundo da rede, e o Camp Nou explodiu num rugido só.

As duas se abraçaram no meio do gramado, o resto do time correndo pra se juntar à comemoração, e por um segundo, ali, no meio de tudo, Eduarda sentiu alguma coisa que não sabia dar nome ainda, porque não era só o alívio do empate, era o corpo de Lorena contra o dela, o riso dela perto do ouvido, gritando alguma coisa que Eduarda não conseguiu escutar direito por causa do barulho da torcida, mas que sentiu como se fosse dirigido só pra ela.

O jogo continuou tenso, disputado, o Real Madrid pressionando pelo empate de novo, até que aos oitenta e três minutos veio o gol da virada, saindo de uma jogada praticamente idêntica, só que ao contrário: Eduarda quem abriu espaço puxando a marcação pra um lado, Lorena quem apareceu livre e bateu cruzado, o gol comemorado com as duas correndo até a lateral do campo, mãos batendo, gritando juntas, ainda sem entender direito o que tinha mudado entre elas em quarenta e cinco minutos de futebol.

O jogo terminou com o placar de dois a um pro Barça. Na saída do estádio, já no ônibus, Gerluce, ainda com a camisa suada enrolada no pescoço, resumiu pro time inteiro o que todo mundo tinha percebido:

— Vocês duas descobriram como jogar junto bem na hora que quase perderam. Espero que isso não precise acontecer toda semana, porque meu coração não aguenta.

— A gente só precisava de um empurrãozinho — Lorena disse, olhando de rabo de olho pra Eduarda, que corou de leve e desviou o olhar pra janela do ônibus, fingindo interesse na paisagem.

Naquela noite, sozinha em casa, Eduarda assistiu de novo ao vídeo do passe de Lorena e precisou admitir, só pra si mesma, que tinha sido brilhante.

A trégua de verdade começou por acaso, numa quinta-feira em que as duas foram as últimas a sair do centro de treinamento. Eduarda estava no vestiário vazio, gelo no joelho. Lorena passou pelo corredor, hesitou na porta.

— Precisa de ajuda?

— Não — Eduarda respondeu, seca. Depois, suspirando: — Na verdade, pode segurar essa bolsa de gelo enquanto eu ajusto a faixa?

Lorena entrou, sentou do lado dela, segurou o gelo com um cuidado que pegou Eduarda de surpresa.

— Você joga muito bem — Lorena disse, olhando pro joelho e não pro rosto dela. — Eu sei que não parece, do jeito que a gente tem treinado, mas eu realmente acho isso. Sempre achei.

— "Sempre"?

— Eu assisto seu futebol desde que você jogava juvenil no Corinthians — Lorena admitiu, um leve rubor subindo pelo rosto. — Antes de ser rival, eu era fã.

— Isso é meio estranho de admitir — Eduarda disse, mas sem veneno, quase brincando.

— Eu sei — Lorena riu, envergonhada. — Mas é verdade.

Foi a primeira vez que Eduarda viu ela sorrir de um jeito que não era pra câmera. Um sorriso pequeno, real, só pra ela.

— Então — Eduarda disse, quebrando o silêncio que se instalou depois, ainda um pouco sem graça — Quer dizer que eu tenho uma fã disfarçada de rival há semanas.

— Rival talvez não seja mais a palavra certa — Lorena respondeu, o tom leve, testando o terreno.

— Ainda não decidi qual é a palavra certa — Eduarda disse, mas sorriu ao dizer isso, e foi o suficiente pra Lorena entender que a guerra, pelo menos aquela, tinha acabado.

Dali em diante as coisas mudaram devagar, quase teimosamente devagar, do jeito que duas pessoas mudam quando nenhuma quer admitir primeiro que gosta da companhia da outra. No campo, o entrosamento cresceu quase da noite pro dia. A imprensa não demorou a notar: "A dupla que pode reescrever a história do Barça feminino", dizia uma manchete, com foto das duas comemorando um gol, mãos entrelaçadas.

Foi Gerluce quem, no vestiário, comentou pela primeira vez em voz alta o que o resto do time já cochichava:

— Vocês duas parecem que se conhecem há anos. Semana passada vocês nem se olhavam.

— A gente só aprendeu a jogar junto — Eduarda respondeu, rápido demais, o que só fez Gerluce erguer as duas sobrancelhas e trocar um olhar cúmplice com Maggye, que tinha ido buscar Lorena depois do treino.

Fora de campo, a rotina foi se entrelaçando sem que nenhuma decidisse conscientemente. Começou com o café. Numa manhã, Lorena chegou ao centro de treinamento vinte minutos atrasada, os olhos ainda de sono, e Eduarda, sem dizer nada, empurrou um copo pra ela assim que sentou no banco.

— O quê que é isso? — Lorena perguntou, surpresa.

— Cortado, sem açúcar — Eduarda disse, sem tirar os olhos do celular, como se não fosse nada de mais. — Reparei que é o que você sempre pede.

— Você decorou meu pedido de café?

— Eu decoro o pedido de café de todo mundo — Eduarda mentiu, mal disfarçando o sorriso.

— Você não sabe nem o meu sobrenome direito até semana passada.

— Ferette. Eu sei o seu sobrenome, Lorena.

— Eu tô só provocando — Lorena riu, pegando o copo, os dedos roçando de leve nos de Eduarda por cima da mesa. — Obrigada. Sério.

A partir daquele dia, virou rotina: Eduarda sempre com dois cafés na mão quando Lorena chegava, e Lorena sempre guardando lugar do lado dela no ônibus pros jogos fora de casa, sem perguntar, como se aquele assento já fosse dela por direito adquirido.

— Você senta comigo há três semanas sem perguntar — Eduarda comentou uma vez, num desses trajetos, olhando pela janela.

— Você nunca reclamou — Lorena respondeu, encostando a cabeça no vidro, os olhos já se fechando de sono.

— Não reclamei.

— Então tá resolvido — Lorena murmurou, já quase dormindo, a cabeça escorregando aos poucos pro ombro de Eduarda, que ficou olhando pra ela por um segundo longo demais antes de decidir não se mexer, pra não acordar.

No fim da pré-temporada, o clube organizou um período de treinos intensivos numa cidade litorânea perto de Sitges, hospedagem coletiva, dois treinos por dia, e um único fim de tarde livre no meio da semana pra descanso. Lorena e Eduarda acabaram escaladas pro mesmo quarto de hotel. Coincidência, garantiu a comissão técnica, apesar do sorriso suspeito de Gerluce ao entregar as chaves.

— Você ronca? — Lorena perguntou, jogando a mala na cama mais próxima da janela sem pedir licença.

— Eu não ronco — Eduarda respondeu, ofendida. — Você que provavelmente ronca.

— Eu durmo como um anjo.

— Isso não é coisa que se diga sobre si mesma, Lorena, isso quem decide são os outros.

Na primeira noite, Eduarda descobriu, entre risos abafados no escuro, que Lorena de fato roncava baixinho, um ronco quase fofo, que ela negou veementemente na manhã seguinte mesmo depois de ouvir o áudio que Eduarda tinha gravado escondida.

— Isso é fabricado — Lorena insistiu, cruzando os braços na mesa do café da manhã.

— Isso é evidência sonora — Eduarda rebateu, mostrando o celular pra Gerluce, que ria descontroladamente do outro lado da mesa.

No fim de tarde livre, as duas decidiram fugir do resto do grupo, que preferiu ficar na piscina do hotel, e caminharam sozinhas até uma praia menor, mais isolada, os pés afundando na areia quente. Lorena tirou os tênis e entrou correndo na água até os joelhos, gritando com o choque frio, chamando Eduarda pra entrar também.

— Tá gelada demais — Eduarda reclamou, da areia, se recusando a molhar mais que os tornozelos.

— Você é atleta profissional e tem medo de água fria? — Lorena provocou, jogando água na direção dela.

— Eu não tenho medo, eu tenho bom senso — Eduarda respondeu, mas acabou entrando também, gritando exatamente do mesmo jeito que tinha zoado Lorena por fazer segundos antes, o que rendeu uma risada tão alta de Lorena que ecoou pela praia inteira vazia.

Ficaram lá até o sol começar a baixar, sentadas na areia, os pés ainda molhados, o silêncio confortável de quem já não precisa preencher toda pausa com conversa.

— Eu tô gostando de estar aqui — Lorena disse, baixinho, olhando pro horizonte. — Com o time. Com você.

— Eu também tô gostando — Eduarda respondeu, no mesmo tom, sem coragem de olhar pra ela, o coração batendo mais forte do que devia por uma frase tão simples.

Voltaram pro hotel já de noite, os cabelos ainda cheirando a maresia, e naquela segunda noite no mesmo quarto, o silêncio antes de dormir foi diferente do da primeira. Mais leve, mais próximo, as duas camas separadas por menos de um metro parecendo, de repente, uma distância desnecessária.

Um sábado de folga, já de volta a Barcelona, Lorena convidou, mandando a localização por mensagem antes mesmo de perguntar se Eduarda estava livre:

Eu descobri um bairro, longe do circuito turístico. Tem uma padaria que faz o melhor pão de cristal da cidade. Quer ver?

Você nem perguntou se eu tenho compromisso, Eduarda respondeu, só pra provocar.

Você tem?, veio a resposta, rápida.

Não. Que horas?

Eduarda aceitou sem pensar duas vezes. Se encontraram numa esquina de Gràcia, Lorena já esperando com dois cafés de novo, dessa vez ela quem tinha decorado o pedido de Eduarda: um flat white, sem canela, por favor, porque da última vez ela tinha feito careta pra canela sem perceber que Lorena estava reparando.

— Você reparou nisso? — Eduarda perguntou, pegando o copo, genuinamente surpresa.

— Eu reparo em tudo — Lorena respondeu, dando de ombros, como se não fosse confissão nenhuma, embora fosse.

Passaram a tarde inteira andando pelas ladeiras estreitas, comendo pão quente numa praça pequena, rindo de bobagem, falando de tudo menos de futebol: família, séries que assistiam escondidas depois dos jogos, o medo idiota que Eduarda tinha de aranha, a mania de Lorena de aprender frases em todo idioma do país onde passava mais de um mês.

— Fala alguma coisa em catalão então — Eduarda desafiou.

Lorena pensou um segundo, orgulhosa.

Ets la meva jugadora preferida.

— O que isso significa?

— Descubra — Lorena respondeu, sorrindo de um jeito que fez o estômago de Eduarda revirar sem aviso.

Numa hora, sentadas num banco de praça, os ombros se encostaram por acidente e nenhuma das duas se afastou. Lorena tirou uma foto das duas, sol batendo de lado, Eduarda rindo de olhos fechados, e mandou sem legenda nenhuma. Eduarda ficou olhando pra aquela foto por mais tempo do que devia admitir, e naquela noite, sem saber muito bem por quê, mandou um boa noite pra Lorena antes de dormir, coisa que nunca tinha feito com nenhuma outra colega de time.

Boa noite, Duda, Lorena respondeu na mesma hora, como se estivesse esperando, e o apelido pegou Eduarda de um jeito que ela não soube nomear.

A partir dali virou hábito diário, quase um ritual: toda noite, sem falta, uma mensagem de boa noite trocada entre as duas, cada vez um pouco mais longa que a anterior.

Boa noite. Hoje o treino foi bom, Eduarda escreveu numa dessas noites.

Foi bom porque você fez aquele passe de calcanhar bonito, ou foi bom por outro motivo?, Lorena respondeu.

Foi bom porque você riu quando eu escorreguei tentando fazer o passe de calcanhar e caí sentada na grama.

Você ficou uma graça caindo, admito.

Isso não é coisa que se diga pra rival, Lorena.

Você já não é minha rival há semanas, Duda. Você sabe disso.

Eduarda ficou olhando pra aquela última mensagem por mais tempo do que gostaria de admitir, o polegar pairando sobre o teclado sem saber o que responder, até finalmente escrever só boa noite de novo, como se aquilo resolvesse o nó que sentia no peito.

Numa outra dessas noites, já tarde, Lorena mandou uma foto do teto do próprio quarto, só pra ter alguma desculpa de mandar mensagem.

Não consigo dormir, escreveu.

Por quê?, Eduarda respondeu, quase na mesma hora, como se estivesse esperando o celular tocar.

Não sei. Talvez porque hoje eu ri demais no treino e agora meu corpo não quer parar de sorrir sozinho, o que é ridículo.

Isso não é ridículo, Eduarda escreveu, sentindo o próprio peito se aquecer com a frase. É bom saber que eu não sou a única acordada pensando em bobagem.

Em que bobagem você tá pensando?, Lorena perguntou, o coração acelerando ao mandar a mensagem.

Eduarda demorou pra responder, o cursor piscando na tela por quase um minuto inteiro.

Em nada em especial, escreveu, por fim, sem coragem de admitir que a bobagem em questão tinha nome e sobrenome e estava do outro lado daquela mesma conversa.

Havia mensagens trocadas até tarde da noite sobre nada em especial. Havia Paulinho, do outro lado da tela numa chamada de vídeo, perguntando direto:

— Você fala da Lorena em praticamente toda frase há um mês. Tem certeza que isso é só sobre futebol?

— É sobre time — Eduarda respondeu, rápida demais outra vez.

— Tá — Paulinho disse, sem acreditar em uma palavra, o sorriso entalado no canto da boca.

Foi numa confraternização do elenco, num restaurante perto da Ciutat Esportiva pra comemorar a vitória sobre o Real Madrid, que Lorena conheceu Aitana, meio-campista reserva, uma das mais antigas do elenco, sorriso fácil e jeito íntimo de conversar com todo mundo, do tipo que puxava assunto com qualquer pessoa como se já a conhecesse há anos.

A noite começou animada, todo mundo relaxado depois da vitória difícil, taças de vinho circulando, risadas altas por toda a mesa comprida que o restaurante tinha reservado só pro time. Lorena estava sentada perto de Gerluce e Maggye, conversando sobre nada em especial, quando viu Aitana se aproximar de Eduarda pelo outro lado da mesa.

Foi só quando Aitana cumprimentou Eduarda com um abraço longo demais, as mãos ficando um segundo a mais nos ombros dela, um comentário baixo no ouvido que fez Eduarda rir de um jeito reservado e cúmplice, que Lorena sentiu uma pontada estranha no peito, sem saber ainda de onde vinha aquilo.

— Quem é aquela? — perguntou pra Gerluce, tentando soar casual, os olhos ainda grudados na cena do outro lado da mesa.

— Aitana. Jogou aqui desde a base — Gerluce respondeu, mordendo uma azeitona, sem prestar muita atenção. — Reserva boa, mas nunca conseguiu ser titular por muito tempo.

— E ela e a Eduarda são próximas? — Lorena insistiu, tentando não parecer óbvia demais.

Gerluce parou de mastigar, olhando pra Lorena com um interesse repentino.

— Elas tiveram um lance, faz uns dois anos. Nada sério, rolou por uns meses e depois esfriou. Continuam amigas.

Lorena sentiu o estômago apertar de um jeito que não fazia sentido nenhum, já que ela e Eduarda, ainda nem eram amigas de verdade. Tinham deixado de ser rivais fazia poucas semanas, e o gesto de Aitana, aquele abraço, aquela intimidade fácil, não deveria significar absolutamente nada pra Lorena. Mas significava.

— Isso já acabou faz tempo? — perguntou, tentando manter o tom leve, quase distraído, pegando a taça de vinho só pra ter alguma coisa pra fazer com as mãos.

— Acabou, sim — Gerluce confirmou, olhando pra ela de um jeito curioso agora, um sorriso lento se formando no canto da boca. — Por quê? Por acaso você tá com ciúme?

— Claro que não — Lorena respondeu, rápido demais, a voz saindo mais alta do que pretendia, os olhos indo sem querer de novo pra mesa onde Eduarda e Aitana continuavam conversando, próximas, rindo de alguma coisa que Lorena não conseguia ouvir.

— Sua cara diz outra coisa — Maggye comentou, se intrometendo na conversa, um sorriso enorme se abrindo.

— Minha cara não diz nada — Lorena insistiu, mas terminou a taça de vinho de um gole só, o que só fez as duas amigas trocarem olhares divertidos.

O resto da noite, Lorena se pegou observando aquela proximidade mais do que gostaria, o jeito como Aitana tocava no braço de Eduarda ao rir de alguma piada, o jeito como Eduarda não se afastava, o jeito como as duas pareciam ter uma linguagem própria, cheia de referências que só elas entendiam. Cada risada compartilhada entre elas era como uma pequena facada, irracional, que Lorena não conseguia explicar nem pra si mesma.

Só quando Eduarda, notando o silêncio incomum de Lorena depois de um tempo, se levantou da conversa com Aitana e atravessou o restaurante pra se aproximar dela, foi que Lorena percebeu o quanto tinha ficado tensa a noite inteira.

— Você tá bem? — Eduarda perguntou, se sentando ao lado dela, a expressão preocupada. — Ficou quieta a noite inteira. Não é seu normal.

— Tô bem — Lorena mentiu, forçando um sorriso. — Só cansada. O jogo foi puxado.

— Tem certeza? — Eduarda insistiu, se aproximando mais, os olhos analisando o rosto dela com atenção. — Você tá com uma cara estranha desde que a Aitana chegou.

Lorena sentiu o rosto esquentar, pega em flagrante.

— Absoluta — ela disse, forçando o sorriso a ficar mais convincente, decidida a não deixar transparecer que aquela pontada estranha no peito tinha um nome que ela ainda não estava pronta pra admitir nem pra si mesma, muito menos pra Eduarda.

Eduarda ficou olhando pra ela por mais um segundo, desconfiada, mas acabou deixando pra lá, voltando a se juntar à conversa do resto da mesa.

No caminho de volta pra casa, sozinha no carro, Lorena mandou mensagem pra Maggye, que tinha ido embora mais cedo: Acho que eu meio que fiquei com ciúme hoje. De uma affair antiga da Eduarda. Isso é loucura, né? A gente nem é nada.

Isso é a prova de que você gosta dela mais do que finge que gosta, Maggye respondeu, quase na mesma hora, como se estivesse esperando a mensagem chegar. Ciúme não aparece do nada, Lorena.

Eu não devia sentir isso. A gente é só amiga.

Vocês são "só amigas" que trocam mensagem até tarde todo santo dia, guardam lugar uma pra outra no ônibus e decoram pedido de café uma da outra. Amiga não fica com ciúme de affair antiga, Lorena. Para de se enganar.

Lorena não respondeu, mas ficou olhando pra mensagem por um longo tempo, o carro parado num sinal vermelho, antes de finalmente guardar o celular e seguir dirigindo, o peito ainda apertado com uma sensação que ela não tinha vocabulário pra descrever direito, não ainda.

Paulinho finalmente conheceu Lorena pessoalmente num fim de semana em que veio visitar Eduarda em Barcelona, aproveitando uma folga rara no trabalho pra fazer a viagem que vinha adiando havia meses. Eduarda foi buscá-lo no aeroporto sozinha, mas ao saírem do desembarque, encontraram Lorena esperando do lado de fora, encostada no carro, com um cartaz de papelão feito às pressas escrito BEM-VINDO, MELHOR AMIGO MISTERIOSO em letras grandes e tortas.

— O que é isso? — Eduarda perguntou, rindo, tentando esconder o próprio constrangimento.

— Eu quis fazer uma recepção digna — Lorena respondeu, orgulhosa do próprio cartaz, estendendo a mão pra Paulinho. — Você deve ser o Paulinho. Eu sou a Lorena.

— Então essa é a Lorena que você não para de mencionar — ele disse, apertando a mão dela com um sorriso largo demais, do tipo que já sabia de coisas que não devia saber, olhando de Lorena pra Eduarda e de volta pra Lorena, avaliando a cena inteira em segundos.

— Ela fala de mim? — Lorena perguntou, erguendo uma sobrancelha na direção de Eduarda, que revirou os olhos e começou a puxar a mala de Paulinho pra dentro do carro, tentando escapar da conversa.

— Ela fala de você o tempo todo — Paulinho confirmou, ignorando o olhar mortal que Eduarda mandava pra ele por cima do carro. — "A Lorena fez isso", "a Lorena disse aquilo", "você precisa ver o passe que a Lorena deu ontem, Paulinho, foi absurdo"...

— Paulinho — Eduarda cortou, as bochechas ficando vermelhas, batendo o porta-malas com mais força do que necessário.

— Eu só tô sendo honesto — ele se defendeu, entrando no carro, rindo, cutucando Lorena no banco de trás. — Ela também me mandou uma foto de vocês duas comendo pão numa praça um dia desses. Legendou como "dia normal com colega de time".

— E foi um dia normal — Eduarda insistiu, do banco do motorista, os olhos fixos na estrada com uma concentração exagerada.

— Claro — Paulinho disse, trocando um olhar cúmplice com Lorena pelo retrovisor, os dois já se entendendo como se fossem amigos de longa data.

Os três passaram a tarde juntos, andando pela cidade, Paulinho fazendo perguntas descaradas sobre a "amizade" das duas que Lorena respondia com evasivas divertidas e Eduarda respondia com olhares de aviso que nenhum dos dois levava a sério. Sentaram numa terraça pra tomar sangria, o sol batendo de lado, Paulinho contando histórias vergonhosas da adolescência de Eduarda que a fizeram esconder o rosto nas mãos várias vezes.

— Conta aquela do time de vôlei — Lorena pediu, já rindo antecipadamente.

— Não conta a do time de vôlei — Eduarda implorou.

— Ela caiu de cara no chão tentando impressionar uma menina que ela gostava — Paulinho contou de qualquer jeito, ignorando completamente o protesto de Eduarda. — Bateu o nariz na quadra inteira. Sangrou geral. A menina nem olhou pra ela de novo.

— Isso é constrangedor demais pra ser verdade — Lorena disse, chorando de rir.

— É verdade sim — Eduarda admitiu, resignada, cobrindo o rosto vermelho. — Eu tinha catorze anos, me julguem menos.

No fim do dia, já se despedindo perto do metrô que Paulinho ia pegar de volta pro hotel, ele puxou Eduarda de lado por um segundo, longe do alcance de audição de Lorena, que esperava um pouco afastada, mexendo no celular.

— Ela é ótima — ele disse, sério pela primeira vez no dia inteiro, o tom de brincadeira desaparecendo. — E você olha pra ela de um jeito que eu nunca vi você olhar pra ninguém, Duda. Nem pra Aitana, na época.

— A gente é só amiga, Paulinho.

— Tá — ele disse, do mesmo jeito que sempre dizia quando não acreditava em nada do que ela falava, dando um beijo na testa dela. — Continua repetindo isso até você mesma acreditar. Mas não demora muito, porque enquanto você decide, alguém mais esperto pode aparecer e tomar a frente.

Eduarda não respondeu, só revirou os olhos, mas a frase ficou martelando na cabeça dela pelo resto da noite, muito depois de deixar Paulinho no hotel e voltar pra casa sozinha.

Os treinos foram ficando cada vez mais fluidos entre as duas, a ponto de a comissão técnica começar a estruturar jogadas específicas em cima da parceria que tinha nascido, sem ninguém esperar, daquela rivalidade inicial. Numa sessão de finalização de uma tarde de quarta-feira, o sol já baixo, o preparador físico gritou de longe, segurando uma prancheta:

— Fragoso, Ferette, escanteio ensaiado, número sete do nosso caderno. Mais uma vez essa jogada, e dessa vez sem erro, por favor.

Era um escanteio ensaiado que ainda estava em construção: Lorena batendo curto pra um ponto específico, Eduarda saindo de trás de uma zaga imaginária, representada por dois cones, pra cabecear no ângulo. Erraram a primeira tentativa porque Lorena bateu forte demais.

— Você tá batendo curto demais, mas forte demais também, isso não faz sentido — Eduarda reclamou, as mãos na cintura, meio sem fôlego.

— Isso não é uma crítica coerente — Lorena rebateu, rindo, se posicionando de novo pra bater o escanteio.

Erraram a segunda tentativa porque Eduarda saiu cedo demais, chegando no ponto antes da bola.

— Você tá saindo cedo demais agora — Lorena apontou, as mãos na cabeça, fingindo desespero teatral.

— Eu calculei errado o tempo — Eduarda se defendeu, voltando pra posição inicial.

Erraram a terceira tentativa porque as duas riram tanto da situação que nem prestaram atenção na jogada, a bola indo parar longe de qualquer cone, rolando até a lateral do campo enquanto as duas se dobravam de rir, apoiadas uma na outra.

— Vocês duas são profissionais? — o preparador gritou, mas rindo também, balançando a cabeça.

— Vamos tentar de novo — Eduarda disse, ainda rindo, limpando as lágrimas de riso, se posicionando outra vez, mais séria agora.

Na quarta tentativa, funcionou perfeitamente: bola batida no ponto exato, cabeceio no ângulo certo, gol imaginário comemorado com um abraço apertado que durou mais do que uma comemoração de treino costuma durar, os corpos grudados por um segundo longo demais antes que qualquer uma das duas se desse conta e se afastasse, meio sem graça, fingindo que não tinha sido nada, evitando o olhar uma da outra por alguns segundos.

— Boa, meninas — o preparador gritou de longe, sem notar a troca de olhares constrangida entre elas. — Guardem essa jogada, vamos usar no próximo jogo importante.

E usaram. Duas semanas depois, contra o Atlético de Madrid, num jogo tenso de zero a zero até os minutos finais, o escanteio ensaiado virou gol real: Lorena batendo exatamente como tinham treinado, Eduarda saindo do lugar certo, na hora certa, cabeceando no ângulo pra decretar a vitória. O gol foi comemorado com o mesmo abraço apertado do treino, dessa vez sob os olhares de oitenta mil pessoas e das câmeras de televisão, que capturaram o momento em close: os rostos próximos demais, os sorrisos largos demais pra ser só comemoração esportiva, alimentando ainda mais os rumores que já circulavam nas redes sociais sobre a proximidade das duas.

No vestiário depois do jogo, Gerluce jogou a toalha em cima da cabeça de Eduarda, rindo.

— Vocês duas treinaram esse abraço tanto quanto treinaram o escanteio, é impressão minha?

— É treino de escanteio, Gerluce — Eduarda respondeu, tirando a toalha da cabeça, tentando parecer séria.

— Treino de escanteio não costuma deixar duas pessoas se olhando desse jeito depois — Gerluce provocou, piscando pra Maggye do outro lado do vestiário, que ria escondida atrás de uma garrafa de água.

Foi num treino comum de terça-feira que tudo quase mudou de vez. Numa arrancada, Eduarda sentiu a panturrilha travar, uma pontada seca que a fez mancar pro banco antes mesmo que o fisioterapeuta chegasse correndo. Nada grave, disse o médico depois de examinar, só um espasmo que precisava de gelo e repouso, mas o suficiente pra tirar ela do resto do treino e mandá-la pro departamento médico, sozinha, com a perna elevada numa maca.

Lorena apareceu vinte minutos depois, ainda de chuteira, sem nem trocar de roupa.

— Vim assim que soube — disse, meio sem fôlego, parando na porta.

— Não precisava — Eduarda respondeu, mas o jeito como o rosto dela relaxou ao ver Lorena entrar contradizia completamente a frase.

Lorena puxou uma cadeira pra perto da maca e sentou, sem perguntar se podia.

— Dói muito?

— Só quando eu tento fingir que não dói — Eduarda respondeu, e as duas riram, baixinho, da sala vazia à volta delas.

O silêncio que veio depois não era desconfortável. Lorena olhava pra perna elevada, pro gelo já colocado, pro jeito como Eduarda mordia o lábio de leve tentando não parecer incomodada. Sem pensar muito, esticou a mão e ajustou a bolsa de gelo que tinha escorregado um pouco, os dedos roçando de leve na pele da panturrilha.

— Assim fica melhor — disse, baixinho, sem tirar a mão.

Eduarda não respondeu. Só olhou pra ela, pra aquela proximidade repentina, pro jeito como Lorena também tinha parado de falar, os olhos indo do gelo pro rosto dela e ficando ali. A distância entre as duas, que nunca tinha sido tão pequena fora de campo, diminuiu mais um pouco sem que nenhuma decidisse conscientemente se aproximar. Lorena inclinou a cabeça de leve, os olhos descendo até a boca de Eduarda por um segundo que durou tempo demais pra ser acidental.

— Lorena — Eduarda sussurrou, e não era um pedido pra parar.

Foi nesse exato instante que a porta abriu com a fisioterapeuta entrando, tablet na mão, falando alto sobre o protocolo de recuperação antes mesmo de perceber a cena que interrompia. As duas se afastaram rápido demais, Lorena levantando da cadeira feito quem tinha sido pega fazendo algo proibido, o rosto queimando.

— Eu... vou deixar vocês trabalharem — ela disse, já na porta, sem coragem de olhar pra trás.

Eduarda ficou deitada ali, o coração ainda acelerado, sentindo a marca dos dedos de Lorena na pele muito depois do gelo ter esfriado tudo à volta.

Nos dias seguintes, nenhuma das duas mencionou o que quase tinha acontecido. Mas havia agora um tipo diferente de tensão entre elas, silenciosa, presente em cada olhar trocado no vestiário, em cada mensagem que demorava mais pra ser respondida porque nenhuma sabia bem o que escrever. Numa dessas trocas de mensagem sem assunto nenhum, Lorena finalmente escreveu, de madrugada:

A gente devia conversar sobre aquele dia no departamento médico.

Devia, Eduarda respondeu, o coração acelerando só de ver a mensagem na tela. Mas eu acho que prefiro fazer isso pessoalmente.

Combinado. Vem jantar na minha casa no sábado?

Eduarda releu a mensagem três vezes antes de responder que sim.

No sábado combinado, Lorena cozinhou ( mal, ela mesma admitiu rindo, um risoto que ficou empapado) e as duas acabaram jantando pão com queijo na bancada da cozinha, rindo da tentativa fracassada.

— Isso foi humilhante — Lorena disse, encarando a panela queimada.

— Foi a melhor comida que eu já comi este ano — Eduarda respondeu, e não estava mentindo, embora não fosse sobre o risoto.

Foi depois do jantar, sentadas na varanda com taças de vinho que nenhuma bebia de verdade, que o assunto do departamento médico voltou.

— Eu não devia ter feito aquilo — Lorena começou, olhando pro copo. — A gente trabalha junta. Ia complicar tudo se...

— Se o quê? — Eduarda perguntou, o coração na garganta.

Lorena hesitou, e foi Eduarda quem se aproximou dessa vez, decidida a não deixar aquele momento ser interrompido de novo. O beijo aconteceu devagar, na varanda do apartamento de Lorena, com a Sagrada Família iluminada ao longe, como se fosse a continuação exata de algo que já devia ter acontecido semanas atrás.

Depois disso vieram as mensagens de bom dia, agora com um peso diferente do de antes. Numa manhã, Eduarda mandou uma foto do café que estava tomando sozinha na cozinha, com a legenda Sentindo sua falta desde as sete da manhã, e Lorena respondeu com uma selfie de cara amassada de sono, escrevendo Também. Vem aqui.

Tenho treino em uma hora, Lorena.

Eu sei. Só queria que você viesse mesmo assim.

Um domingo raro sem treino nenhum marcado, as duas decidiram fugir de Barcelona por algumas horas, pegando o trem até uma praia menos badalada, mais ao sul, onde a chance de serem reconhecidas era bem menor. Levaram uma bolsa de praia improvisada, toalhas emprestadas do hotel de um jogo anterior, e um pacote de biscoito que Lorena insistiu em trazer "porque praia sem biscoito não é praia de verdade".

— Isso não faz sentido nenhum — Eduarda riu, estendendo a toalha na areia.

— Faz muito sentido. É tradição de família — Lorena respondeu, séria, como se estivesse defendendo uma tese de doutorado.

Passaram a manhã inteira alternando entre o mar e a areia, Eduarda insistindo em ensinar Lorena a nadar de costas direito, já que ela nadava "torto, parecendo um caranguejo com problema de coordenação", segundo as próprias palavras de Eduarda, o que rendeu uma perseguição na água inteira, Lorena tentando afundar a cabeça dela em retaliação, as duas rindo alto o suficiente pra chamar atenção de um casal de idosos que tomava sol por perto.

Depois, já cansadas, deitaram lado a lado na areia, os corpos próximos, os dedos se encontrando quase sem querer entre as duas toalhas.

— Posso te perguntar uma coisa? — Lorena disse, os olhos fechados, o sol batendo no rosto.

— Pode.

— Você tem medo do que a gente é? — Lorena perguntou, a voz mais séria do que o resto da manhã tinha sido. — Tipo, de verdade. Não de rótulo. De... isso. De ser importante desse jeito.

Eduarda ficou em silêncio um instante, sentindo o peso genuíno da pergunta.

— Tenho — ela admitiu, por fim. — Não de você. De perder o controle sobre alguma coisa que importa tanto assim. Já perdi antes.

— Eu não vou embora só porque você tem medo — Lorena disse, virando de lado pra olhar pra ela, séria. — Mas eu preciso que você não deixe o medo decidir por você.

— Eu vou tentar— Eduarda respondeu, sincera. — Todo dia eu vou tentar um pouco mais.

Lorena sorriu, um sorriso pequeno e verdadeiro, e apertou a mão dela por cima da areia quente, sem dizer mais nada, porque não precisava.

Voltaram pra cidade já no fim da tarde, a pele levemente queimada de sol, o cabelo cheio de sal, cantando junto com o rádio do trem baixinho, e foi só quando desceram na estação, já perto de casa, que perceberam duas pessoas com celular erguido, tirando foto de longe. O primeiro sinal, ainda pequeno, de que a bolha protegida daquele dia não ia durar pra sempre.

Foi também nas mãos que a coisa se tornou impossível de esconder, pelo menos entre as duas, se não ainda pro resto do mundo. Numa noite de jantar de time inteiro, comemorando uma vitória, sentadas lado a lado numa mesa comprida cheia de gente, a mão de Lorena encontrou a de Eduarda por baixo da toalha, os dedos se entrelaçando sem que ninguém visse.

— O que você tá fazendo? — Eduarda sussurrou, sem tirar o sorriso do rosto, continuando a conversa com o resto da mesa como se nada estivesse acontecendo por baixo dela.

— Segurando sua mão — Lorena sussurrou de volta, o polegar acariciando de leve os nós dos dedos dela. — Isso é permitido, não é?

— Depende — Eduarda respondeu, apertando a mão dela em resposta. — Você vai soltar se alguém olhar pra baixo?

— Não — Lorena disse, olhando pra ela com uma certeza que Eduarda sentiu no peito inteiro. — Mas ninguém vai olhar. Fica tranquila.

E ninguém olhou, naquela noite. Mas os olhares que duravam um segundo a mais, as mãos que se encontravam por baixo da mesa, os textos de bom dia que viravam conversas de horas, mas rótulo, essa palavra nunca chegou a ser dita entre elas, nenhuma das duas quis ser a primeira a perguntar o que aquilo significava, com medo da resposta ou com medo do peso que a pergunta carregava.

Foi Maggye quem tocou no assunto primeiro, numa tarde em que Lorena tinha ido visitá-la, deitadas as duas no sofá do apartamento da amiga.

— Vocês tão namorando ou não? — Maggye perguntou, direto, sem rodeios.

— A gente não conversou sobre isso — Lorena respondeu, olhando pro teto.

— E por que não?

— Porque tá bom do jeito que tá — Lorena disse, mas a voz saiu meio insegura demais pra convencer alguém. — A gente se vê todo dia, dorme junto na maioria das noites, manda bom dia, segura mão embaixo da mesa. Eu não preciso de um nome pra isso agora.

— Você tem certeza que é você quem não precisa, ou é você com medo de perguntar e ouvir que ela não quer o mesmo nome que você quer?

Lorena ficou calada um instante, porque Maggye, como sempre, tinha acertado exatamente no que doía.

— Talvez as duas coisas — ela admitiu, por fim. — Mas por enquanto eu prefiro só viver isso. Se eu perguntar e a resposta não for a que eu quero, eu perco isso tudo. Se eu não perguntar, eu ainda tenho a chance de continuar tendo.

Do outro lado da cidade, Eduarda tinha uma conversa parecida com Paulinho, sentados numa praça tomando sorvete depois do treino.

— Vocês tão namorando? — ele perguntou, sem rodeio nenhum, do jeito que só melhor amigo de anos consegue perguntar.

— A gente não colocou nome ainda — Eduarda respondeu, lambendo o sorvete pra ganhar tempo.

— E isso não incomoda você?

— Incomoda um pouco — ela admitiu. — Mas colocar nome significa assumir publicamente, e assumir publicamente significa expor a Lorena pra tudo que eu já passei antes. Eu não quero fazer isso com pressa. Quero ter certeza que ela também quer isso, do jeito que vai vir depois.

— Isso é sensatez ou é medo disfarçado de sensatez?

Eduarda não respondeu na hora, porque não tinha certeza da resposta.

— Talvez as duas coisas — disse, por fim, ecoando sem saber a mesma frase que Lorena tinha dito pra Maggye no mesmo momento, do outro lado de Barcelona.

E durante todo esse período sem nome, sem rótulo, havia noites que as duas passavam inteiras juntas, e nem sempre eram noites de conversa até tarde ou filme na cama. Havia manhãs em que Eduarda acordava no apartamento de Lorena com a certeza no corpo inteiro de que tinha sido uma boa noite, havia mensagens de manhã cedo que diziam só que saudade de ontem sem precisar especificar de quê, havia um jeito diferente, mais íntimo, de se olhar no vestiário depois que o resto do time já tinha ido embora. O que existia entre elas, ainda sem nome, era real e físico e frequente, mesmo que nenhuma das duas dissesse em voz alta o que aquilo significava.

Foi nesse vazio de definição que a Alexia entrou. Capitã do time havia quase uma década, admirada por todo mundo dentro e fora do vestiário, ela tinha reparado em Lorena desde a chegada. Não de um jeito insistente, mas com a paciência de quem sabe esperar a hora certa. Começou pequeno: elogios sinceros depois dos treinos, conselhos táticos que Lorena genuinamente apreciava, convites pra tomar um café que pareciam só sobre integração de elenco.

— A Alexia é gente boa — Lorena comentou uma vez pra Gerluce, sem dar muita importância. — Ela sempre pergunta como eu tô me adaptando.

— Ela pergunta como você tá se adaptando, ou ela tá flertando com você? — Gerluce perguntou, erguendo uma sobrancelha.

— As duas coisas, talvez — Lorena riu, sem se abalar, porque naquela época ainda não via aquilo como ameaça a nada, já que nem sabia ao certo o que tinha com Eduarda pra que fosse ameaçado.

Foi numa roda de conversa depois do treino, um fim de tarde comum de terça-feira, que Eduarda viu, pela primeira vez de forma clara, o quanto a aproximação entre Lorena e Alexia já tinha avançado. As duas estavam sentadas um pouco afastadas do resto do grupo, na grama, garrafas de água na mão, Alexia fazendo Lorena rir de um jeito que Eduarda reconheceu imediatamente: o mesmo riso solto e genuíno que ela própria adorava provocar, o riso que Lorena só dava quando alguém dizia alguma coisa realmente engraçada, não o riso educado de compromisso.

— Elas estão sempre por perto ultimamente — Eduarda comentou pra Gerluce, tentando soar casual, os olhos ainda grudados na cena do outro lado do gramado, o corpo tenso sem que ela percebesse.

— A Alexia é gente boa. Sempre foi atenciosa com jogadora nova — Gerluce respondeu, dando de ombros, sem entender ainda o que estava se passando na cabeça de Eduarda, ocupada demais amarrando o cadarço da chuteira.

— Atenciosa como assim? — Eduarda insistiu, o tom saindo mais cortante do que pretendia.

— Café, conselho tático, esse tipo de coisa — Gerluce disse, e só então percebeu o tom de Eduarda, levantando a cabeça e virando pra ela com um sorriso malicioso se formando devagar. — Espera. Você tá com ciúme?

— Não tô com ciúme nenhum — Eduarda respondeu, rápido demais, cruzando os braços.

— Você tá com uma cara de quem tá prestes a atravessar o campo inteiro pra separar essa conversa e sentar no meio das duas.

— Isso é ridículo — Eduarda disse, mas não conseguiu deixar de olhar de novo pra grama onde Lorena e Alexia continuavam conversando, próximas, Lorena rindo de novo de alguma coisa, a cabeça jogada pra trás.

Aquela noite, sozinha no apartamento, Eduarda ficou olhando pro celular por um bom tempo antes de finalmente mandar a mensagem: Você e a Alexia parecem próximas ultimamente.

Ela é legal, Lorena respondeu, sem dar muita importância, como se a pergunta fosse a coisa mais banal do mundo. Por quê?

Só reparei, Eduarda escreveu, e depois ficou olhando pra tela, o polegar pairando sobre o teclado, escrevendo e apagando três versões diferentes de uma pergunta mais direta: você gosta dela?, isso me incomoda, eu queria que fosse eu com quem você ri assim, antes de decidir não mandar nada daquilo, só um boa noite seco que nem parecia com o dela.

Porque perguntar significaria admitir que aquilo importava, e admitir que aquilo importava significava ter que colocar nome no que ela sentia, e aquela era exatamente a conversa que ela vinha evitando havia meses, escondida atrás de mensagens de bom dia e cafés decorados e mãos que se encontravam por baixo da mesa sem nunca precisar de explicação.

Foi Paulinho quem, numa chamada de vídeo alguns dias depois, ouviu o desabafo inteiro, Eduarda deitada na cama, o celular apoiado no travesseiro.

— Você tá com ciúme de uma pessoa que se aproximou da Lorena justamente porque você nunca assumiu nada — ele disse, sem papas na língua, a expressão séria através da tela. — Você entende a ironia disso, né?

— Eu entendo — Eduarda admitiu, a testa apoiada na mão, um suspiro pesado escapando. — Mas entender não faz o ciúme parar, Paulinho. Eu vejo elas duas rindo e eu sinto uma coisa horrível no peito que eu não sei nem nomear direito.

— O nome disso é ciúme, Duda. E o antídoto pra ciúme não é ficar espionando de longe, é fazer alguma coisa a respeito. Fala com ela. Diz o que você sente.

— E se ela já tiver decidido dar certo com a Alexia?

— Então pelo menos você vai saber, em vez de ficar remoendo isso sozinha até explodir — ele disse, a voz mais suave agora. — Você merece saber, Duda. E ela merece saber o que você sente, pra poder escolher de olhos abertos.

Ela não fez, não naquele momento. Engoliu o medo, guardou o ciúme, continuou fingindo que tudo estava bem.

A zona mista depois do clássico contra o Real Madrid estava lotada, câmeras e microfones disputando espaço, jornalistas gritando perguntas de todos os lados enquanto as jogadoras passavam, suadas, ainda eufóricas com a vitória. Eduarda parou pra dar a entrevista de praxe pra emissora catalã, Lorena parada a poucos metros, terminando outra entrevista com um jornalista diferente, as duas dentro do mesmo cercadinho de imprensa sem realmente se olhar.

— Eduarda, grande atuação hoje. Antes de falar do jogo, queria te perguntar sobre um assunto que anda circulando bastante — o repórter disse, o sorriso já insinuando o que vinha a seguir. — Tem saído muita foto sua com a Lorena Ferette por Barcelona. Vocês têm sido vistas de mãos dadas, jantando juntas. É verdade que vocês estão namorando?

O microfone ficou parado na frente da boca de Eduarda, esperando. Ela sentiu o corpo travar por um segundo, o sorriso de entrevista quase escorregando do rosto antes de ela conseguir se recompor.

— Ai, para — ela disse, rindo sem graça, desviando o olhar da câmera pro chão por um instante. — A gente é só amiga, colega de time. Vocês sempre inventam romance onde não tem.

— Mas as fotos são bem sugestivas, Eduarda — o repórter insistiu, sem deixar o assunto morrer. — Tem uma em especial em que vocês aparecem se beijando numa esquina.

— As pessoas se cumprimentam de todo jeito hoje em dia — Eduarda respondeu, o tom ainda tentando soar leve, embora a voz tivesse ficado um pouco mais tensa. — Eu e a Lorena somos próximas, é verdade, ela é uma grande companheira de time. Mas romance é fruto da imaginação de vocês.

— Então você nega categoricamente?

Houve um segundo de hesitação, pequeno, quase imperceptível pra quem não estivesse prestando atenção. Mas Lorena, a poucos metros dali, terminando de responder outra pergunta sobre a atuação em campo, ouviu cada palavra, o corpo ficando rígido sem que ela precisasse virar a cabeça pra confirmar do que se tratava.

— Nego — Eduarda disse, por fim, o sorriso voltando ao rosto, treinado, seguro. — Próxima pergunta.

O jornalista seguiu pra outra pauta, satisfeito com a resposta, e Eduarda continuou a entrevista sobre o jogo, sobre a assistência que tinha dado, sobre as expectativas pro próximo confronto europeu, sem imaginar que cada palavra que dizia depois daquilo soava, pros ouvidos de Lorena, cada vez mais vazia.

Lorena terminou sua própria entrevista com o mesmo sorriso profissional impecável de sempre, agradecendo ao jornalista, respondendo sobre a assistência que também tinha dado naquele jogo, sem que nada no rosto denunciasse o que estava sentindo por dentro. Só quando as câmeras se afastaram, e as duas caminhavam lado a lado de volta pro vestiário, foi que ela finalmente falou, a voz baixa, controlada.

— "Próxima pergunta" — repetiu, sem olhar pra Eduarda, só andando. — Rápido assim.

— Lorena...

— Foi rápido, Eduarda — Lorena disse, ainda sem parar de andar, sem elevar a voz. — Você nem hesitou.

— Eu hesitei sim — Eduarda tentou, mas a própria voz saiu insegura.

— Não pareceu — Lorena respondeu, e entrou no vestiário antes que Eduarda pudesse dizer mais alguma coisa.

No dia seguinte, quando Eduarda tentou puxar assunto no vestiário, encontrou Lorena arrumando a mochila, séria, o tom de voz completamente diferente do de sempre.

— A gente pode conversar? — Eduarda perguntou, se aproximando devagar.

— Sobre o quê? — Lorena disse, sem erguer os olhos da mochila.

— Sobre ontem. Sobre a entrevista.

— Você já respondeu a pergunta que importava — Lorena disse, fechando o zíper da mochila com um movimento seco. — A gente não tem nada mesmo. Tudo bem.

— Lorena, não foi assim que...

— Foi exatamente assim — Lorena a interrompeu, calma, sem alterar o tom, o que doía mais do que se tivesse gritado. — E tá tudo bem, sério. A gente nunca combinou nada. Você não devia nada a ninguém.

Ela pegou a mochila e saiu, deixando Eduarda parada ali, sem saber como consertar alguma coisa que, até aquele momento, ela nem tinha certeza de ter quebrado de verdade.

Foi pra Maggye, numa ligação de vídeo, que Lorena finalmente colocou aquilo em palavras, sem drama nenhum na voz.

— Não é raiva — disse, dando de ombros pra câmera. — Eu só percebi que talvez estivesse criando expectativa demais em cima de uma coisa que, pra ela, não passava de nada. Ela nem pensou duas vezes antes de responder. Acho melhor eu me afastar antes de continuar esperando alguma coisa que talvez nunca fosse vir.

Nas semanas seguintes, Lorena se fechou, educada mas distante em tudo. E foi nesse afastamento que ela finalmente aceitou um convite de verdade da Alexia. Não mais o café rápido, mas um jantar, marcado, claro, intencional.

— Eu não sei se devia — Lorena confessou pra Maggye antes de sair.

— Você não deve nada a ninguém, Lorena. Vai, se distrai, se diverte. Você merece isso depois do que passou.

O jantar foi agradável, sem pressão, Alexia fazendo companhia de um jeito gentil e nada apressado, perguntando sobre a vida de Lorena antes do Barça, sobre a família em São Paulo, sobre os planos depois do futebol, tudo o que Eduarda, no auge da negação pública, nunca tinha perguntado com tanta calma. Lorena aceitou um segundo encontro, depois um terceiro, sempre gentil, sempre sem pressa, deixando que o tempo decidisse se aquilo ia virar alguma coisa, mesmo sabendo, no fundo, que o peito continuava reagindo mais forte quando pensava em outra pessoa.

Gerluce contou pra Eduarda, meio sem graça, um dia no vestiário:

— Elas têm saído bastante. Achei melhor você saber.

Doeu de um jeito que pegou Eduarda completamente desprevenida. Ela esperou até depois do treino, um dia em que Lorena ficou fazendo trabalho extra de finalização, pra finalmente encará-la.

— O que tá acontecendo entre você e a Alexia? — perguntou, a voz falhando um pouco no meio da frase.

Lorena, sem parar de guardar as bolas no carrinho, respondeu com uma calma que doía mais que raiva:

— Não vejo por que isso seria da sua conta. Segundo as suas próprias palavras pra imprensa, a gente é só colega de time que se dá bem.

O golpe acertou em cheio. Eduarda abriu a boca pra se explicar, mas Lorena já tinha terminado de guardar as bolas e passava por ela em direção ao vestiário.

Foi Paulinho quem, dias depois, finalmente disse o que precisava ser dito:

— Você não pode querer os dois lados, Duda. A proteção da negação e o conforto do relacionamento. Hora ou outra vai ter que escolher. E talvez já tenha escolhido errado uma vez, mas ainda dá tempo de consertar, se você tiver coragem de fazer isso de um jeito que não seja só entre quatro paredes.

A oportunidade veio depois de uma vitória importante na Champions. O vestiário inteiro comemorava quando um jornalista, autorizado a entrar pra flashes rápidos, perguntou de novo:

— Eduarda, os rumores sobre você e a Lorena voltaram com força, principalmente depois das fotos dela com a Alexia. Você quer comentar?

O vestiário inteiro ficou em silêncio. Lorena estava parada a poucos metros, mochila já nas costas, pronta pra ir embora sem esperar a resposta.

— Sim — Eduarda disse, sem hesitar dessa vez. — Eu me importo com uma companheira de time mais do que devia esconder. A gente nunca chegou a conversar sobre rótulo, sobre o que era. E eu acho que, no fundo, tive medo de responder aquela pergunta da última vez porque relacionamento entre jogadoras do mesmo time sempre vira assunto, sempre gera comentário, e eu quis poupar a gente disso sem nem perguntar se ela queria ser poupada. Isso não foi justo.

O vestiário inteiro virou pra olhar pra Lorena. Ela não disse nada. Saiu sem responder.

Eduarda foi atrás dela pelo corredor até o estacionamento, o coração na garganta, quase tropeçando nos próprios pés de tanta pressa.

— Lorena, espera.

Lorena parou, mas não se virou na mesma hora. Ficou ali, de costas, a mão já na maçaneta do carro, respirando fundo antes de finalmente se virar pra encarar Eduarda, os braços cruzados, o rosto calmo demais pra alguém que tinha acabado de ouvir seu próprio nome dito daquele jeito, na frente de todo o time.

— Fala — ela disse, simplesmente.

— A gente nunca conversou sobre o que era — Eduarda começou, a voz tremendo mais do que ela gostaria. — Isso entre a gente. E eu acho que foi por isso que eu não soube o que responder naquele dia, na zona mista. Não foi porque não importava, Lorena. Foi porque eu não sabia nem pra mim mesma o que dizer.

— Você teve tempo de sobra pra descobrir — Lorena respondeu, sem se abalar. — Foram meses.

— Eu sei — Eduarda admitiu. — E eu vou te contar o motivo, mesmo sabendo que não é desculpa suficiente. Relacionamento dentro do mesmo time sempre vira circo. Sempre tem gente comentando, torcida especulando, patrocinador perguntando se isso vai afetar o rendimento do elenco. Eu já vi isso destruir gente antes. E eu quis evitar isso pra você, sem nem te perguntar se você queria ser poupada.

— Você decidiu isso sozinha — Lorena constatou, a voz ainda firme, mas com uma rachadura pequena aparecendo. — Decidiu por mim.

— Decidi — Eduarda confirmou, sem tentar fugir da palavra. — E foi errado. Eu devia ter perguntado. Devia ter conversado com você antes de qualquer jornalista perguntar qualquer coisa.

Lorena ficou em silêncio um instante, os olhos fixos nela, avaliando.

— Isso não muda o fato de que doeu — disse, por fim, sem alterar muito o tom, mas a voz um pouco mais baixa do que antes. — Não foi só a resposta. Foi o "próxima pergunta" logo depois, como se o assunto já estivesse encerrado. Como se eu fosse só mais uma pergunta chata que você queria despachar rápido.

— Eu sei — Eduarda disse, a voz falhando um pouco. — E eu queria poder voltar naquele momento e responder diferente. Mas eu não posso. Só posso pedir uma chance de fazer diferente daqui pra frente.

— Que tipo de chance?

— Eu queria que a gente voltasse a se conhecer — Eduarda disse, dando um passo à frente, hesitante. — Devagar. Sem pressa de rótulo nenhum dessa vez. Sem eu presumir nada, sem você ter que adivinhar nada. Do jeito certo.

— "Do jeito certo" — Lorena repetiu, um quase-sorriso descontraído escapando pela primeira vez, embora ainda cético. — E como seria isso, na prática?

— Eu não sei ainda — Eduarda admitiu, um risinho nervoso escapando. — Mas eu queria descobrir com você, se você deixar. Encontros de verdade. Marcados, sem pressa, sem eu esconder nada de ninguém.

Lorena baixou os olhos, pensando, os braços ainda cruzados, mas menos rígidos do que antes.

— E se eu disser que preciso de tempo pra confiar de novo?

— Então eu espero o tempo que for preciso — Eduarda respondeu, sem hesitar. — Eu não tô pedindo pra você esquecer o que eu fiz. Só tô pedindo uma chance de mostrar que consigo fazer diferente.

Lorena suspirou, olhando pra ela por um longo momento antes de finalmente descruzar os braços.

— Eu não prometo nada — disse, por fim.

— Eu não tô pedindo promessa — Eduarda respondeu. — Só uma chance.

— Tudo bem — Lorena disse, um fio de voz mais leve escapando, quase um alívio. — A gente se conhece de novo. Sem pressa. Sem rótulo. E se em algum momento eu sentir que você tá fugindo de responder alguma coisa de novo, eu vou embora, Eduarda. De verdade dessa vez.

— Combinado — Eduarda disse, e o sorriso que abriu, pequeno, aliviado, foi o primeiro sorriso de verdade desde a entrevista do dia anterior.

Lorena entrou no carro sem se despedir com um beijo, mas antes de fechar a porta, parou e olhou pra ela mais uma vez.

— Você me deve um café amanhã. Cortado, sem açúcar.

— Combinado — Eduarda repetiu, o coração enchendo de esperança pela primeira vez em dias.

Eduarda cumpriu aquilo à risca. Nas semanas seguintes, em vez de tentar forçar as coisas de volta ao que eram, levou Lorena a encontros de verdade, planejados, sem o peso de expectativa que tinha existido da primeira vez. Um deles foi um passeio de barco saindo do Port Vell, só as duas, o sol batendo forte na água.

— Isso é um encontro? — Lorena perguntou, testando, os pés balançando na beirada do barco.

— É o que você quiser que seja — Eduarda respondeu, cautelosa, aprendendo a não presumir nada.

— Eu quero que seja um encontro — Lorena disse, depois de um silêncio, um sorriso pequeno escapando.

Depois vieram outros: um jantar num restaurante escondido no Gòtic que Lorena tinha descoberto sozinha meses atrás, uma tarde inteira no MNAC vendo quadros que nenhuma das duas entendia direito mas fingiam apreciar só pra rir da cara séria uma da outra, uma noite de karaokê particular em que Eduarda cantou desafinado de propósito só pra ver Lorena rir até chorar.

— Você canta pior que eu esperava — Lorena disse, enxugando os olhos de tanto rir.

— Eu canto exatamente assim de propósito — Eduarda mentiu, e as duas sabiam que era mentira, e não importava.

Aos poucos, o riso fácil dos primeiros meses foi voltando, mas com uma camada nova de cuidado que não existia antes.

As saídas foram ficando mais frequentes entre elas de novo, e mais visíveis também. Um domingo de folga, decidiram caminhar pela cidade sem esconder nada, de mãos dadas desde a saída do apartamento até a Barceloneta, parando pra comer gelato numa banca de rua, rindo alto o suficiente pra chamar atenção.

Foi ali que os primeiros flashes de verdade aconteceram. Não mais fotos furtivas de longe, mas paparazzi de plantão que reconheceram as duas de cara e passaram a segui-las discretamente por quarteirões, clicando as mãos entrelaçadas, o jeito como Eduarda ajeitava o cabelo de Lorena que o vento bagunçava, o beijo rápido que trocaram parada numa esquina esperando o sinal abrir.

Na segunda-feira seguinte, as fotos estavam estampadas numa revista de fofoca catalã, manchete grande: Fragoso e Ferette: o novo casal do futebol feminino europeu confirma o romance nas ruas de Barcelona.

No treino daquela tarde, Gerluce chegou correndo com o celular na mão, mostrando a capa pro vestiário inteiro.

— Olha só quem virou capa de revista — ela provocou, segurando o celular perto do rosto de Eduarda. — "O novo casal do futebol feminino". Vocês nem confirmaram nada oficialmente e já viraram manchete.

— Cala a boca, Gerluce — Eduarda disse, rindo, tentando tomar o celular da mão dela.

— Não, deixa eu ler mais um pouco — Gerluce insistiu, afastando o celular pra continuar zoando. — "As duas foram flagradas de mãos dadas pela Barceloneta, trocando um beijo em plena luz do dia." Ai, que fofura. Lorena, você tá vermelha até a orelha.

— Eu não tô vermelha — Lorena protestou, as bochechas evidentemente vermelhas.

— Tá sim — Maggye confirmou, do outro lado do vestiário, rindo.

O time inteiro passou o resto do treino fazendo pequenas provocações, alguém assobiando toda vez que as duas se aproximavam em campo, Gerluce chamando as duas de "pombinhas" a cada intervalo, até a técnica precisar pedir silêncio pra conseguirem terminar o treino direito.

No dia seguinte à publicação das fotos na revista, o grupo de WhatsApp do time, que Gerluce insistia em chamar de "Central de Fofoca do Barça Feminino", apesar dos protestos recorrentes da técnica, explodiu de mensagens antes mesmo do café da manhã. Maggye mandou uma sequência de vinte emojis de coração sem nenhuma legenda. Gerluce mandou um GIF de fogos de artifício seguido de outro de uma pessoa desmaiando de emoção. Alguém do elenco, sem se identificar, mandou só: ERA HORA. Outra pessoa respondeu: EU SABIA DESDE O PRIMEIRO TREINO JUNTAS.

No treino daquela manhã, o clima estava elétrico, todo mundo trocando olhares e sorrisos disfarçados durante o alongamento, ninguém corajoso o suficiente pra comentar em voz alta até o intervalo da água, quando Maggye finalmente puxou Lorena de lado, ainda sorrindo de orelha a orelha.

— Então? Vocês vão assumir de vez ou vão continuar nessa novela mexicana pra sempre?

— A gente ainda não conversou sobre isso oficialmente — Lorena admitiu, ajeitando as chuteiras, tentando desconversar.

— Lorena. Vocês estão estampadas numa revista de mãos dadas, se beijando numa esquina. O "ainda não conversamos" já passou da validade há muito tempo.

— Eu sei, eu sei — Lorena riu, sem graça, as bochechas corando. — A gente vai conversar. Em breve.

Aquela exposição, ao contrário do medo antigo de Eduarda, não trouxe o caos que ela sempre imaginou. Trouxe, ao invés disso, um alívio que ela não esperava sentir: o de não precisar mais esconder nada, de poder segurar a mão de Lorena em público sem pensar duas vezes.

Foi depois disso, numa noite tranquila no apartamento de Eduarda, sentadas no sofá vendo um filme que nenhuma das duas prestava atenção de verdade, que Lorena finalmente perguntou:

— Você acha que a gente devia parar de fingir que isso é só "viver o momento"?

Eduarda desligou a televisão, virando o corpo inteiro pra encará-la.

— Eu acho — ela disse — que eu já devia ter perguntado isso há muito tempo.

E foi ali, entre risadas baixas e um silêncio cheio de expectativa, que Eduarda finalmente disse as palavras que faltavam:

— Lorena Ferette. Você quer ser minha namorada? De verdade, com rótulo, com Instagram, com tudo que vem junto?

Lorena riu, aquele riso que Eduarda tinha aprendido a amar desde a primeira tarde em Gràcia.

— Eu esperei essa pergunta desde muito antes do Barcelona — ela disse. — Desde os tempos em que eu só assistia seus jogos pela televisão e sonhava, sem imaginar que um dia a gente ia estar aqui, disputando o mesmo campo e o mesmo coração. Sim. Eu quero.

O beijo que veio depois foi diferente de todos os anteriores: não tinha mais nada escondido, nem medo, nem pressa de esconder de ninguém. Foi devagar se aprofundando, as mãos de Lorena subindo pelo pescoço de Eduarda, a distância entre elas desaparecendo aos poucos até que não houvesse mais espaço nenhum pra dúvida. Naquela noite, as luzes do apartamento foram se apagando uma a uma, e o que ficou foi só as duas, finalmente sem nenhuma palavra não dita entre elas, aprendendo de novo, com toda calma do mundo, o corpo uma da outra, dessa vez sem pressa de amanhecer, sem medo de manchete, sem nada além da certeza tranquila de pertencerem ali, uma nos braços da outra, até o sol já estar quase nascendo sobre Barcelona.

No dia seguinte, ainda meio grogue de sono e felicidade, Eduarda mandou mensagem pro grupo com Paulinho: Ela disse sim.

EU SABIA, ele respondeu, seguido de uma sequência enorme de emojis, e depois: Finalmente. Vocês demoraram mais que casal protagonista de novela das oito.

No treino daquela manhã, Gerluce percebeu o sorriso bobo estampado no rosto de Eduarda antes mesmo de qualquer palavra ser dita.

— Vocês vão assumir ou vão continuar fingindo que "colega de time que se dá bem" é uma categoria de relacionamento oficialmente reconhecida?

— Eu já pedi ela em namoro, Gerluce — Eduarda disse, tentando manter o tom baixo, mas incapaz de esconder completamente o sorriso.

— MENTIRA — Gerluce gritou, alto o suficiente pra chamar atenção de meio campo inteiro, várias cabeças virando na direção delas, o que fez Eduarda rir e tentar calar ela, tapando a boca dela com a mão.

— Fala baixo, pelo amor de Deus!

— Você pediu ela em namoro e não me contou?! — Gerluce continuou, ignorando completamente o pedido, se soltando da mão de Eduarda e agora abraçando ela com força, sacudindo ela de um lado pro outro. — Quando? Como foi? Ela disse sim na hora?

— Foi ontem à noite, ela riu, disse que já esperava a pergunta há muito tempo, e sim, ela disse sim — Eduarda respondeu, rindo, tentando escapar do abraço apertado.

— Eu preciso contar pra Maggye AGORA — Gerluce declarou, já correndo pro outro lado do campo, gritando o nome de Maggye antes mesmo de chegar perto dela.

Maggye largou a garrafa de água no chão e correu na direção das duas, o resto do time inteiro parando o alongamento pra assistir à cena, curiosos, até Maggye chegar perto o suficiente pra abraçar as duas ao mesmo tempo, as três rindo e gritando juntas, o treino inteiro parando por vários minutos até a técnica precisar gritar, entre risos que ela mesma não conseguia disfarçar completamente:

— Isso tudo é muito bonito, meninas, mas a gente tem treino pra fazer! Champions League não se ganha com abraço em grupo!

Com o rótulo finalmente resolvido, e a confiança sendo reconstruída dia após dia, Eduarda passou a demonstrar de todas as formas possíveis que aquele "sim" não seria dado como certo de novo. Depois de cada treino pesado, era ela quem preparava a banheira de gelo antes mesmo de Lorena pedir, testando a temperatura, cronometrando o tempo no celular.

— Dez minutos, não mais que isso — dizia, sentada na beirada, uma toalha já separada do lado. — Você sempre fica cinco minutos a mais do que devia e depois reclama que a panturrilha não relaxa.

— Você virou minha fisioterapeuta agora? — Lorena provocava, tremendo de frio.

— Virei o que for preciso — Eduarda respondia, séria de repente. — Eu passei muito tempo sem prestar atenção no que você precisava. Não vou repetir esse erro.

Eram nos detalhes que Eduarda mostrava o que não conseguia dizer só com palavras: a garrafa de água deixada do lado da cama antes de Lorena acordar, o carro já aquecido nas manhãs frias de inverno catalão, a massagem nos ombros depois de jogos difíceis, sem que ninguém pedisse. Mas as palavras também vinham, fartas, ditas sem vergonha nenhuma.

— Você foi a melhor em campo hoje — Eduarda dizia, quase todo jogo, mesmo quando não era estritamente verdade. — Eu falo isso porque é verdade, não porque eu sou sua namorada.

— Você fala isso toda vez — Lorena ria, encostando a cabeça no ombro dela.

— E vou continuar falando toda vez que for verdade — Eduarda respondia. — Você merece ouvir isso, mesmo quando já sabe.

Nos dias em que não tinha treino, Eduarda desenvolveu o hábito de deixar bilhetinhos escondidos pelo apartamento de Lorena: dentro da caixa de cereal, colado no espelho do banheiro, dobrado dentro do calçado que ela ia usar naquele dia. Nenhum deles dizia nada muito elaborado, só frases curtas: Você é incrível e eu tenho sorte, ou Bom dia pra melhor jogadora do time, ou simplesmente Te amo, escrito rápido, sem cerimônia, como se fosse a coisa mais natural do mundo escrever aquilo.

— Você não precisa fazer isso toda semana — Lorena disse uma vez, encontrando um bilhete novo dentro da bolsa de treino.

— Eu sei que não preciso — Eduarda respondeu, dando de ombros. — Eu quero.

Nos dias de jogo em casa, Lorena tinha o hábito de dormir na casa de Eduarda na véspera, as duas deitadas na cama, o notebook equilibrado entre elas, assistindo vídeos táticos do adversário, comentando cada lance com o mesmo entusiasmo com que assistiam série.

— Essa zagueira sempre erra o posicionamento em bola parada — Lorena apontou, pausando o vídeo com o dedo na tela, se aproximando pra mostrar melhor. — Olha aqui, ela sempre olha pra bola antes de olhar pro adversário. Se a gente jogar cruzado nessa zona, ela nunca vai chegar a tempo.

— Você tá analisando vídeo de adversário na cama comigo às onze da noite — Eduarda comentou, achando graça, olhando pra ela com um carinho que não tentava mais esconder.

— Você prefere fazer outra coisa? — Lorena perguntou, erguendo uma sobrancelha, um sorriso malicioso se formando devagar, fechando o notebook sem nem esperar resposta.

— Eu não disse isso — Eduarda respondeu, rindo, jogando o controle remoto pro lado e se aproximando dela, o vídeo tático esquecido no meio da tela pausada, as luzes do quarto se apagando pouco depois.

No jogo seguinte, contra o Chelsea, na semifinal da Champions League, um jogo eletrizante que manteve o Camp Nou em pé o tempo inteiro, a jogada que Lorena tinha estudado na cama funcionou exatamente como previsto: cruzamento na zona certa, a zagueira inglesa chegando um segundo atrasada, exatamente como Lorena tinha calculado, Eduarda batendo de primeira, sem deixar a bola cair, direto pro ângulo, sem chance nenhuma pra goleira adversária.

A comemoração, dessa vez, não precisou de disfarce nenhum, nem de cuidado, nem de olhar em volta antes de se aproximar demais. Lorena correu até ela, atravessando o campo inteiro, e pulou no colo dela no meio do gramado, as pernas envolvendo a cintura de Eduarda, e Eduarda a girou no ar, as duas rindo, gritando, o estádio inteiro cantando o nome das duas juntas: Fragoso! Ferette!  sem que nenhuma câmera precisasse mais especular absolutamente nada, o beijo que trocaram ali, no meio do gramado, transmitido ao vivo pra milhões de telespectadores, sem que nenhuma das duas se importasse nem um pouco.

Depois do jogo, no vestiário eufórico, Gerluce jogou uma toalha na direção das duas, ainda ofegante da comemoração.

— Vocês transformaram estudo de vídeo tático em pré-jogo romântico. Isso devia ser proibido pelo regulamento da competição, sinceramente.

— Funciona — Lorena disse, dando de ombros, um sorriso enorme no rosto, ainda sem fôlego.

— Funciona demais — Maggye completou, rindo, jogando os braços em volta do pescoço das duas ao mesmo tempo. — Vocês fizeram gol decisivo numa semifinal de Champions porque passaram a noite anterior namorando e estudando vídeo tático ao mesmo tempo. Isso devia virar case de faculdade de esporte, sério.

— Ou pelo menos devia virar rotina oficial pré-jogo — Eduarda brincou, puxando Lorena pra mais perto, ainda suada, ainda sorrindo, sem vontade nenhuma de que aquele momento acabasse.

Numa tarde de treino leve, tipo regenerativo, o elenco inteiro alongando em círculo no gramado, Gerluce e Maggye, que nunca perdiam a chance de discutir sobre absolutamente qualquer coisa, entraram numa briga acalorada sobre qual das duas tinha sido responsável pela ideia original de juntar Eduarda e Lorena.

— Fui eu que comecei a mandar elas sentarem perto no ônibus — Gerluce insistia, apontando o dedo pro peito da própria camisa. — Eu que via o potencial desde o primeiro treino.

— Você não via potencial nenhum, Gerluce, você só queria parar de ouvir a Eduarda reclamar da contratação — Maggye rebateu, cruzando os braços. — Fui EU que disse pra Lorena ir atrás dela naquele dia do gelo no vestiário.

— Isso é mentira histórica — Gerluce declarou, indignada. — Eu estava lá. Eu vi tudo.

— Vocês duas estavam bêbadas de vinho barato numa confraternização discutindo teoria de conspiração sobre namoro alheio — Eduarda interrompeu, passando por elas com uma bola debaixo do braço, revirando os olhos, mas sorrindo. — Nenhuma de vocês duas fez nada. A gente se apaixonou sozinha, gente.

— IMPOSSÍVEL — as duas gritaram juntas, praticamente em uníssono, o que fez todo o resto do time explodir em risada.

Lorena, se aproximando pra ouvir a discussão, entrou no meio com um sorriso.

— Na verdade foi a Aitana que sem querer me deixou com ciúme numa confraternização, isso sim mudou tudo — ela provocou, só pra ver a reação.

— EU SABIA — Gerluce berrou, virando pra Maggye num triunfo instantâneo. — Eu disse que tinha rolado ciúme! Você disse que não!

— Isso não invalida minha contribuição com o gelo no vestiário! — Maggye rebateu, ainda competitiva.

A discussão continuou por mais alguns minutos, cada vez mais ridícula, até a técnica precisar apitar pedindo silêncio pra retomar o treino, resmungando algo sobre "esse elenco discute mais fofoca do que tática", enquanto Eduarda e Lorena trocavam olhares divertidos por cima da confusão, as duas amigas ainda cochichando disputa entre si por todo o resto do treino, cada uma jurando pro resto da vida que tinha sido a responsável pelo casal mais comentado do futebol feminino europeu.

Foi numa dessas noites de banheira de gelo, com Lorena reclamando de uma dor no posterior de coxa depois de um treino puxado, que o assunto do rancor antigo finalmente veio à tona.

— Eu sempre achei que você tinha se acovardado — Eduarda admitiu, baixinho, enchendo a banheira com gelo pra ajudar Lorena com a dor. — Depois daquela entrada, na Champions. Eu esperei alguma coisa de você. Um post, uma palavra. Nada.

Lorena, já sentindo o frio da água, fez uma careta antes de responder.

— Eu me ajoelhei do seu lado, Duda. Falei baixinho pra você ficar parada, que a assistência já vinha. Não falei nada pra imprensa depois porque, na minha cabeça, qualquer coisa que eu dissesse virava manchete, e eu não queria que virasse espetáculo enquanto você ainda nem sabia o tamanho da lesão. Eu escolhi ficar calada torcendo pra isso te ajudar a ser atendida rápido. Não imaginei que você fosse interpretar como covardia.

Eduarda parou, a água escorrendo entre os dedos.

— Eu nunca soube disso.

— Porque eu nunca contei — Lorena disse, entrando devagar na banheira gelada, o corpo se contraindo com o choque. — E você nunca perguntou.

— Eu tô perguntando agora — Eduarda disse, sentando na beirada, segurando a mão dela por cima da água gelada. — Sobre tudo. Sempre que você quiser contar.

Foi mais uma peça se encaixando, mais uma camada de mal-entendido que as duas finalmente desfaziam juntas, dessa vez sem pressa nenhuma, com todo o tempo do mundo pela frente.

A temporada seguinte, o Barça feminino conquistou a Champions League com a dupla Fragoso-Ferette apontada pela imprensa inteira como a espinha dorsal do título. Duas semanas depois da conquista, uma revista esportiva de circulação nacional as convidou pra uma entrevista de capa, a primeira que fariam juntas, oficialmente, como casal.

A fotógrafa pediu que se sentassem próximas, naturais, e não precisou pedir duas vezes: Lorena aninhou-se no ombro de Eduarda sem que ninguém precisasse dirigir a pose, e Eduarda passou o braço em volta dela no automático, como quem faz aquilo havia anos.

— Como foi pra vocês, sair da rivalidade em campo pra essa fase que estão vivendo agora? — perguntou a jornalista, sorrindo, claramente encantada com a cena.

— Foi terrível no início — Eduarda respondeu, rindo. — Eu não suportava ela.

— Ela me odiava mesmo — Lorena confirmou, dando risada. — Mas eu sabia que ia dar certo, porque eu já era fã dela muito antes de virar implicância.

— É verdade — Eduarda disse, beliscando de leve o braço dela. — Ela escondeu isso de mim por meses.

— Eu sou discreta — Lorena provocou.

— Você é péssima escondendo as coisas, meu amor — Eduarda riu, beijando a cabeça dela sem se importar com a câmera. — Foi por isso que eu percebi rápido.

A jornalista, visivelmente derretida com a cena, perguntou por fim o que cada uma diria pra si mesma, lá atrás, no primeiro dia de treino juntas.

— Eu diria pra parar de ser tão orgulhosa — Eduarda respondeu, olhando pra Lorena com um carinho que não escondia mais de ninguém. — Eu perdi tempo demais tendo raiva de alguém que só queria estar perto de mim.

— E eu diria — Lorena completou, entrelaçando os dedos com os dela — pra ter mais paciência. Valeu a pena esperar.

A foto que estampou a capa da revista, semanas depois, mostrava as duas rindo, testas quase se tocando, num momento tão íntimo e bobo que virou, da noite pro dia, uma das capas mais compartilhadas do ano, não pela conquista da Champions, mas pelo jeito simples e apaixonado como duas rivais, contra todas as chances, tinham se tornado o time uma da outra dentro e fora de campo.