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Eu só peço a Deus um pouco de Malandragem

Summary:

𝓠𝓾𝓮𝓶 𝓼𝓪𝓫𝓮 𝓪𝓲𝓷𝓭𝓪 𝓼𝓸𝓾 𝓾𝓶𝓪 𝓰𝓪𝓻𝓸𝓽𝓲𝓷𝓱𝓪
𝓔𝓼𝓹𝓮𝓻𝓪𝓷𝓭𝓸 𝓸 𝓸̂𝓷𝓲𝓫𝓾𝓼 𝓭𝓪 𝓮𝓼𝓬𝓸𝓵𝓪, 𝓼𝓸𝔃𝓲𝓷𝓱𝓪
𝓒𝓪𝓷𝓼𝓪𝓭𝓪 𝓬𝓸𝓶 𝓶𝓲𝓷𝓱𝓪𝓼 𝓶𝓮𝓲𝓪𝓼 𝓽𝓻𝓮̂𝓼 𝓺𝓾𝓪𝓻𝓽𝓸𝓼
𝓡𝓮𝔃𝓪𝓷𝓭𝓸 𝓫𝓪𝓲𝔁𝓸 𝓹𝓮𝓵𝓸𝓼 𝓬𝓪𝓷𝓽𝓸𝓼
𝓟𝓸𝓻 𝓼𝓮𝓻 𝓾𝓶𝓪 𝓶𝓮𝓷𝓲𝓷𝓪 𝓶𝓪́ ~ 𝓒𝓪́𝓼𝓼𝓲𝓪 𝓔𝓵𝓵𝓮𝓻

Onde uma jovem amazona de prata está tentando tirar uma pedra da consciência através da raiva e do ódio, mas o Grande Mestre torna essa tarefa mais difícil. Mas quem sabe é disso que ela precisava para finalmente conseguir ver a realidade. . .

Notes:

Essa história foi escrita para o evento "Crear tu Santiario", da @/ShunAndr0 no Twitter, usando as personagens criadas por mim e @/LadyHeinstein (com menções aos personagens criados por @/MarianneEdmun11, @/ShunAndro0 e @/tengo_gay). Quis escrever uma fic sobre esse momento em especifico porque desde que vi o ponto de vista de sua OC sobre a minha - especialmente em sua morte - eu fiquei com essa história na minha cabeça (e também com uns pequenos detalhes que - seguindo uma lógica inexistente no universo de Saint Seiya - até que seriam coerentes na história que montamos).

Espero que gostem da história tanto quanto gostei de escreve-la.

Work Text:

Quando Pietro caiu desacordado em frente ao exército de Atena e a própria deusa, eu não fiquei surpresa. Crateris me mostrou o colapso do Grande Mestre alguns dias antes do ocorrido, incluindo o inevitável desfecho de sua longa vida. Imaginei que ele não iria querer saber sobre isso, e mesmo se quisesse estaria ocupado demais para me ouvir com a relutância infinita da recém-chegada em assumir seu papel de deusa da guerra e da sabedoria. Mas o meu silêncio e as visões formaram um peso tão grande em minha consciência que não poderia simplesmente continuar quieta.

Então, quando todos os demais visitantes já haviam retornado a seus respectivos aposentos durante a noite, me esgueirei silenciosamente até o quarto em que Pietro estava descansando antes da morte.

- Eu sou um Cavaleiro Negro.

Foi a primeira coisa que consegui dizer quando me encontrei com o Grande Mestre para ter nossa última conversa.

- Eu sei.

Foi o que ele disse ao me responder.

Espera, O QUÊ?

- Acho que você não me entendeu, eu sou a amazona de Cisne Negro. - Retruquei, e como não poderia? Essa foi a coisa mais absurda e idiota que eu já escutei!

- Eu sei. - Ele insistiu.

Isso não faz o menor sentido. É claro que ele não sabia, não tinha como ele saber! Ele é o Grande Mestre, sim, mas não tinha como ele saber. Não o via muito por aí, Pietro era um homem ocupado. Quase nunca ele tinha tempo para alguma coisa além de seu trabalho. Não tem como ele saber da minha real identidade, ele estava ocupado demais para notar! E eu escondi tudo muito bem! Não existe forma dele ter descoberto nada, ele só está dizendo isso porque queria, sei lá, me confortar porque ele estava morrendo agora ou algo assim.

- Não, você não sabia. Não tinha como saber! - Eu continuei, quase como uma prece aos céus.

Ele só me encarou, com uma expressão que não conseguia entender. Ele pegou minha mão e me disse a frase mais aterrorizante que eu já ouvi:

- Eu sempre soube, desde o começo, quem você era e de onde veio.

- Como você ousa dizer isso? Não tem como você realmente saber disso! Se você sabia desde o começo quem eu era, deveria ter me impedido! Você sabe quem eu sou, o que eu fiz! - As palavras saíram da minha boca antes mesmo que eu pudesse me impedir.

- Eu tenho ciência disso. - Ele afirmou, me deixando com mais raiva.

- Então me diz porque! Por que não me impediu? Por que não me entregou para seus amigos cavaleiros? Por que não me aprisionar ou executar se eu sou inimiga?

Ele não disse nada. Ficou em silêncio por um tempo tão longo, que a pouca raiva da indignação em mim se dissipou. Pensando um pouco, o que eu disse poderia até ser cruel, na visão dos cavaleiros de Atena mais recatado e padronizado. Mas não deixava de ser verdade.

Por inúmeras vezes eu roubei pessoas inocentes, eu enganei pessoas que acreditaram em mim, eu matei soldados que estavam por muitas vezes fazendo o seu trabalho: Proteger os outros de pessoas como eu. O Grande Mestre é um dos principais responsáveis por essa proteção, então por que fez questão de me deixar viva?

Me ajoelhei ao lado da cama de Pietro, provavelmente seria a cena mais ridícula que ele deve ter visto em todos os seus duzentos e sei lá quantos anos de vida. Francamente, se um inimigo meu se ajoelhasse com o que parecia um rio de lágrimas ameaçando descer pela cara agora, eu também teria tanta pena quanto ele parecia ter de mim. Isso me frustra, nas vezes que realmente aconteceu, enquanto ainda queria acreditar nas mentiras que meus pais e mestre me contavam para me encaixar, suas súplicas não me comoviam e eu os matava.

Como qualquer pessoa que tem conhecimento desses fatos teria coragem de me deixar viver? Como Pietro deixa a pessoa que tanto prejudicou seu exército, a sua deusa, viver entre eles como se pertencesse ali? O que os outros diriam se soubessem disso? Será que o odiariam tanto quanto odeiam a mim?

- Por favor, me diga, por que você me deixou viver nessa mentira? Por que você não me entregou para os outros? Por que deixou que eles acreditassem em uma mentira sobre mim? - Eu continuava de joelhos, apertando a mão do Grande Mestre com força demais agora que eu parei para pensar melhor.

- Você saiu da caverna.

- . . .Hã?

- No passado, havia uma teoria filosófica, o Mito da Caverna de Platão. Nesse mito, um grupo de ladrões está preso em uma caverna de costas para a entrada. Eles passam suas vidas inteiras na caverna, desde o nascimento, vendo o mundo distorcido pelas sombras na parede. Um dia, um dos ladrões conseguiu se libertar e saiu da caverna, vendo o mundo como ele realmente é pela primeira vez e descobrindo a verdade sobre o mundo. - Ele tossiu um pouco de sangue, acredito que isso não deve ser tão normal quanto eu pensei. - Com suas novas informações, ele retorna à caverna e tenta compartilhar suas descobertas com os demais presos. Inconformados, o grupo mata o ladrão liberto por questionar a realidade que eles acreditavam sua vida inteira. Você sabe o que Platão queria dizer com isso?

- Não senhor.

- Quer dizer que algumas pessoas escolhem viver na ignorância por medo da realidade, enquanto outras conseguem se libertar através do conhecimento, separando os sentidos da razão. - Mais uma vez ele tá tossindo no meio da fala. - Ao escolher questionar a versão da história que você ouviu enquanto crescia ao invés de se acorrentar nela, você provou que não é realmente má.

- Isso não é verdade!

- Se não é verdade, então por que roubou de volta tudo o que havia roubado de nós?

Quase havia me esquecido disso. Antes de invadir seu quarto para uma última conversa com o Grande Mestre, fiz questão de reunir tudo o que roubei para meu mestre para devolver para seu dono. As informações que reuni em minha presença no santuário estavam em uma camera na tiara da armadura de Cisne Negro. Tudo que eu recuperei estava em uma velha e desgastada bolsa esportiva que eu estava carregando em minhas costas desde o começo. Mas toda essa conversa me deixou tão confusa que até tinha me esquecido.

Deixei que a bolsa caísse no chão, mais por não saber o que dizer do que por desrespeito e descuido com artefatos tão valiosos. Essa deve ser a coisa mais patética e vergonhosa que qualquer um já tenha feito em frente a tamanha figura importante, que continuava me encarando com a mesma expressão que Sordidum me lançava toda vez que eu desafiava a autoridade de meus pais e os outros líderes: pena.

Eu odeio essa expressão.

Antes que percebesse, já estava me sentando no chão ao lado da cama, com as mãos na cabeça. Não consigo pensar em mais nada além de que nada disso faz sentido.

Primeiro me dizem que os cavaleiros de Atena são monstros assassinos que nunca poupariam ninguém em combate, muito menos se importam com as pessoas ao seu redor. Depois, os cavaleiros negros se comportam da mesma forma dizendo que seria por causa da ameaça dos cavaleiros de Atena. Agora estou aqui, no meio do santuário, admitindo todos os meus erros e pecados para a sua autoridade máxima e ao invés de uma sentença de morte estou sendo acolhida. Se eu fizesse algo parecido com minha mãe, contando para ela sobre todas as vezes que escondi seus instrumentos musicais ou quebrei os vasos do meu pai, ela teria me trancado para fora de nossa palafita por pelo menos uma semana.

O que me mais machuca nem é o fato deles serem hipócritas, é o fato de que desconhecidos que deveriam me odiar se importam mais comigo do que a família que jurou me amar.

- Foedus e Pulvis podem ter laços de sangue com você, mas não poderiam prever que você precisaria ver para crer. Você viu a nossa verdadeira essência e escolheu nos seguir. - Ele continua tossindo sangue, tá bom ISSO DEFINITIVAMENTE NÃO É NORMAL! TÁ ME DEIXANDO NERVOSA! - Poderia ter escolhido permanecer no caminho que seus pais escolheram para você, mas não o fez. Existe bondade em você, Lavínia.

- Não dá! Não consigo! Eles deviam se importar mas não desse jeito!

Se Pietro não estivesse confinado em sua cama, eu provavelmente teria pedido um abraço. Não gosto dessa sensação em particular, vulnerabilidade é uma porcaria! Mas ele parecia não se importar com nada disso, nem com o ranho nem com as lágrimas. Eu acho que isso é a pior parte. Se meu pai me visse nesse estado só teria me ignorado e voltado ao trabalho, sem nenhum “Você está bem?” ou “Vai ficar tudo bem” para me confortar, mas esse homem - que eu não conhecia por mais de alguns anos - parecia não só não se incomodar como também parecia ter vontade de me consolar.

- Entendo como deve ser difícil. . . - Mais tosse e mais sangue, esse homem. . . mesmo a beira da morte está tentando me confortar. Meus pais nunca fariam isso por mim. - abandonar tudo o que você conhece, sua família e amigos para seguir o que você acredita ser certo. Mas se está se perguntando, não vamos impedir ninguém de mudar, independente de quem seja ou o que fez no passado.

- Não dá, não dá, é tarde demais!

- Nunca é tarde demais. - ELE FALA COMO SE FOSSE TÃO FÁCIL!

- Eu matei cavaleiros!

- E eu matei inocentes!

- Mas você não é uma pessoa má!

- E você é?

. . .É, tem isso também. Os Santos Assassinos. O Grande Mestre fez parte dessa geração. Esse é um fato imutável que os cavaleiros negros não precisaram mentir sobre. Pietro matou inocentes entre os inimigos seguidores do Deus Artificial, pessoas comuns que tiveram o azar de serem hipnotizados pelas telas e a tecnologia oferecidas pelo deus. Mas ele não é uma pessoa ruim, ele não queria que as coisas chegassem a esse ponto. Então, por que eu sou “má”?

- Desculpa. Não quis insinuar. . .

- Eu entendo. Não me ofende que você pense assim, lá no fundo eu também penso da mesma forma.

- Mas o senhor nunca quis que as coisas fossem do jeito que foram!

- Você diz isso mas mesmo assim não acredita em sua própria redenção. - Mais uma fala interrompida pela tosse infinita. Isso é realmente preocupante, ele deveria se poupar ao invés de me dar sermão. - É uma situação de dois pesos e duas medidas, você acredita que apesar dos nossos pecados que eu e minha geração somos boas pessoas mas você mesma se considera irredimível sendo que estava apenas fazendo o que qualquer soldado faria por seus líderes e companheiros. Ambos fizemos coisas ruins, então por que você aclama um lado enquanto se condena?

Ele tem razão. Eu sei que tem. Mas ainda sim, é injusto que eu saia impune enquanto o Grande Mestre esteja morrendo. Não é justo que ele que sempre zelou pelo bem da humanidade tenha que morrer assim enquanto eu continuo viva.

- Você não está escapando da sua punição, Lavínia. Nesse ponto, a sua maior punição é o peso em sua própria consciência.

ELE LÊ MENTES AGORA? O Grande Mestre realmente é um homem estranho. Eu aprecio isso nele, é um sentimento familiar. Eu vim aqui pensando em aceitar a morte dele através do ódio e da repulsa pela minha real identidade, mas agora estou saindo desta sala com certeza de que fiz a escolha certa. Me levantei e peguei a bolsa com os artefatos que roubei de volta.

- Eu vejo isso agora. . . muito obrigada. Acho que precisava dessa conversa mesmo não tendo o rumo que eu esperava.

Antes que eu pudesse sair de vez para nunca mais ver o líder do santuário, ele me inventa de comentar uma última coisa, como se eu quisesse saber. Mas eu aparentemente precisava saber, então mesmo assim me disse:

- Eu não sou a única pessoa do santuário que sabe. Meu discípulo Nereo e a Doutora Dendra também conhecem sua origem.

Esse velho é uma desgraça mesmo, eu poderia ter ido dormir sem essa.

- Como. . . como eles sabem?

- Como você disse, você matou vários dos nossos cavaleiros, mas como Nereo é o cavaleiro de Câncer ele conseguiu se comunicar com suas almas. E a Dendra, como a médica habilidosa que é, conseguiu ligar os pontos através dos corpos mortos. Boa sorte ao lidar com eles! Eu fui benevolente mas eles eu já não sei.

Retiro tudo o que eu disse, esse cara não bate bem da cabeça! Deve ser o veneno, certeza! Mas por enquanto eu vou relevar, ele está morrendo e eu não tinha o direito de atrasar o sono eterno dele. Já incomodei ele o bastante por uma vida inteira. Sendo assim, vou deixá-lo em paz de uma vez por todas. Que venham Nereo e Dendra! Vou lidar com vocês depois!

No dia seguinte, a notícia de que o Grande Mestre havia morrido se espalhou. Me sinto triste por sua partida, mas aliviada por ter conseguido tirar o peso da minha consciência, saber que não sou um caso perdido e muito menos odiada. Não conheço meu predecessor, mas sinto que terei um grande trabalho para manter o nível dele. E não pretendo decepcionar Pietro tão cedo. Ele confiou em mim, logo devo honrar a sua confiança.