Chapter Text
༄˖°11:11..ೃ࿔*:・
“I'm eleven minutes away and I have missed you all day
So why aren't you here?
I think I missed you calling on the other line
I'm just thinking all these thoughts up in my mind
I would sell my soul for a bit more time.”
11/02/2014.
[ 10:34 pm]: Nichan, você está aí?
Rin perdera as contas de quantas mensagens enviou naquele mês, esperando que dessa vez fosse diferente.
[ 10:34 pm]: Aconteceram umas coisas no treino hoje e eu queria conversar com você...
Nada.
O som do próprio suspiro foi o único retorno que recebeu.
— Queria que você estivesse aqui… — murmurou, encarando a tela apagada do celular. — Tudo seria mais fácil se você estivesse aqui.
Mas ele não estava, e essa ausência era sentida de uma forma profundamente dolorosa.
As últimas palavras de Sae ainda ecoavam na mente de Rin.
“Rin, se um dia precisar de mim é só mandar mensagem. Eu sempre estarei a uma ligação, e a onze minutos de distância.”
Onze minutos…
Ele repetia como se sentisse o gosto amargo da frase entre os lábios.
Por meses, Rin se agarrou a essas palavras como uma tábua de salvação em meio à pressão incessante do futebol. Era a prova de que, não importava o quão longe Sae estivesse, ele ainda era amado. Ainda tinha um porto seguro.
Mas hoje, essa promessa soava falsa… soava oca.
As palavras não eram mais um consolo, mas sim o próprio abismo se abrindo sob seus pés. Um vazio prestes a engolir tudo que ele era.
Tudo que eles haviam sido.
— Nii-chan, se o que você me falou realmente for verdade, então por que você parece tão distante?
A pergunta rodopiava em sua mente, como se por um milagre, Sae pudesse ouvi-lo através do oceano, e finalmente se explicar.
Rin queria que Sae acalmasse todos os medos que agora habitavam sua alma. Que dissipasse a névoa de dúvida que sua mente cruel tecia ao seu redor.
O celular vibrou.
Uma parte adormecida de seu cérebro, que ainda acreditava na promessa, acendeu como um farol. Seu coração acelerou de forma tão intensa que doeu. Seus dedos se fecharam no cobertor, fazendo os nós ficarem brancos.
A esperança, no entanto, murchou no instante em que seus olhos pousaram na tela.
Não era Sae. Era uma notificação do grupo de treinamento, com os últimos avisos para o campeonato interestadual em duas semanas.
E abaixo, sua própria mensagem.
Visualizado.
Rin deixou o ar sair de seus pulmões em um suspiro quebrado.
— Se eu realmente posso contar com você — sussurrou, a voz rouca e carregada de uma amargura. — Então por que você simplesmente foi embora? Por que você não parece precisar de mim do mesmo jeito que eu preciso de você?
As palavras eram doloridas, um fardo pesado demais para ser carregado por alguém tão jovem.
Falar em voz alta era dar vida ao fantasma do seu irmão. Era reconhecer que a distância não era apenas geográfica, mas um oceano intransponível que Sae havia cavado entre eles.
— Nii-chan...
Seu sussurro se perdeu no quarto vazio.
Ele estava na beira do abismo, finalmente podia enxergar. E não importava para que lado se movesse, gritasse, suplicasse ou se debate-se…
Ele já estava caindo.
༄˖°11:11..ೃ࿔*:・
11/06/2018
A rotina do Rin havia se tornado uma névoa espessa.
Seus pés se moviam no campo por pura memória muscular. Ele driblava, passava, chutava, mas sua consciência estava em outro lugar.
— Rin!
O grito cortou o ar, mas demorou alguns segundos para perfurar a bolha em que seu cérebro estava envelopado.
Ele piscou, lentamente, e viu o treinador à sua frente.
— Já é a terceira vez que tenho que falar com você hoje! — o homem rosnou, baixando a voz na tentativa de não constranger o garoto na frente de todos. — Eu não vou falar de novo. Ou você para de pegar no celular a cada cinco minutos e atrapalhar o ritmo do treino, ou eu te coloco no banco. Entendeu?
Rin encarou o treinador.
A genuína confusão em seus olhos deve ter sido a última gota para o homem, que balançou a cabeça e se afastou, resmungando.
Só então ele olhou para sua própria mão.
Seu celular. Ele nem havia percebido que o tinha pegado.
Quando?
Enquanto amarrava a chuteira?
Enquanto bebia água?
O gesto havia se tornado um reflexo inconsciente, um tique nervoso para acalmar uma ansiedade que não tinha mais fim.
༄˖°11:11..ೃ࿔*:・
À tarde, no vestiário, os burburinhos eram um som distante e irritante na sua cabeça.
— Tá tudo bem, Rin?
Ele foi arrancado de seus pensamentos por Haruta. Seu colega de time.
— Você tá meio estranho hoje. O tempo todo no celular…
Rin não soube responder. No fundo nem queria, mas ainda assim aquela dúvida pairava em seus pensamentos.
O que havia de errado nele?
O que era aquela sensação?
Era tudo. E nada, ao mesmo tempo.
Era o portal para um mundo onde seu irmão ainda existia em conjunto com ele. Era todas as coisas que ele gostaria de dizer
“Nii-chan, o treinador do sub-12 veio me ver hoje. Disse que eu tenho um chute diferente.”
“O papai comprou aquelas chuteiras novas que a gente viu na vitrine. Lembra?”
“Tem um cara novo no time que joga de um jeito tão chato, que me deixa com raiva.”
Era um monólogo incessante e silencioso.
Um diário de um só lado.
Às vezes, a urgência de compartilhar era tanta que seus dedos agiam por conta própria. Ele abria o chat com Sae e digitava frases soltas, fragmentos de seu dia. Coisas que, em outra vida, teriam gerado uma resposta rápida, uma piada seca…um conselho.
Agora, a única resposta era o selo de visualizado que aparecia minutos depois.
A cada mensagem visualizada e sem resposta, uma pequena fratura se formava em seu interior.
Ele achava que se mandasse a coisa certa — a memória certa, o irmão quebraria o silêncio.
Talvez se ele falasse sobre aquele dia que jogaram juntos pela primeira vez. Talvez se ele mencionasse aquele dia que tomaram picolé juntos vendo o pôr do sol...
Mas não.
O muro era sólido, impenetrável.
༄˖°11:11..ೃ࿔*:・
A maior quebra de pensamento vinha à noite, quando os fantasmas ganhavam voz.
Deitado na cama, ele revia as mensagens não respondidas.
Onze minutos para onde? Para o vazio?
Ele não entendia. Se Sae via, significava que ele se importava o suficiente para abrir a mensagem.
Então por que não responder?
Ele estava com problemas?
Era indiferença?
Algo que Rin havia feito de errado?
Aos doze anos, a mente não consegue processar a complexidade de uma mudança tão brusca. Tudo que Rin conseguia processar era a dor do abandono.
O automático do futebol era seu refúgio, mas até ali, a sombra do irmão o alcançava.
Cada chute certeiro era um:
"Olha, Nii-chan, eu estou melhorando".
Cada treino ignorado era um grito silencioso que dizia:
"Por que você não está aqui para ver?".
E nesse ciclo de automatismo e esperança quebrada, o garoto que tinha um irmão herói estava, lentamente, se transformando no garoto que só precisava se tornar forte o suficiente para viver sozinho.
O abismo que ele via à sua frente não era mais só a ausência de Sae. Era o lugar para onde todas as suas partes mais vulneráveis estavam sendo empurradas.
༄˖°11:11..ೃ࿔*:・
11/08/2014
Rin estava sentado no chão frio do vestiário, encostado no armário.
Era sua primeira derrota.
O jogo havia sido uma catástrofe atrás da outra. Seu uniforme encharcado, colocado no corpo, não o incomodava em nada. Ele não sentia desconforto. Não sentia nada.
Na verdade ele sentia algo…
Nojo
O nojo de ter perdido. De se sentir pequeno. De olhar para si mesmo e ver que não é bom o suficiente.
Seus olhos estavam fixos no nada. Apáticos… sem vida.
O dia dos pais havia sido ontem, e assim como o dia das mães, Sae não voltou para casa no feriado. Sua mãe havia tentado fazer o jantar especial. O pai tinha colocado a mesa. Rin tinha sentado e comido em silêncio. Era tudo tão morno.
Por volta das onze da noite, Sae ligou para o pai.
A ligação havia durado exatos onze minutos. Rin ouvia tudo do outro cômodo. O coração pulsando, esperando ser chamado a qualquer momento.
“Não. Ele está... ele precisa descansar para os treinos, sabe como é”
O pai tinha dito, colocando a mão em seu ombro.
Rin tinha sentido o chão sumir sob seus pés.
Ele tinha mentido para não magoá-lo? Ou era a verdade que o pai mal conseguia esconder:
Sae não perguntou por ele?
Seis meses de mensagens ignoradas, visualizadas. Seis meses de esperança esmagada lentamente, como uma prensa hidráulica que, em vez de destruir tudo de uma vez, apenas apertava um pouco mais a cada dia.
O silêncio do vestiário era ensurdecedor.
E então, como um viciado que sente a abstinência latejar no corpo, a mão de Rin se mexeu.
Seus dedos tremiam, erguendo-se em direção ao celular caído ao lado de sua coxa.
Ele não queria passar por aquilo de novo. Não queria ver o selo de visualizado e sentir o estômago se contrair como se tivesse levado um soco.
Mas a necessidade era maior que a razão.
A necessidade… de quê?
De ser ouvido?
De ser visto?
De gritar para um vazio que talvez, talvez, gritasse de volta?
Seus dedos encontraram o celular. A tela acendeu, e ele já estava no chat com Sae.
[04:11 pm]: Eu perdi hoje.
A mensagem foi enviada. Seus olhos grudaram na tela.
[04:11 pm]: O time adversário não era bom. Não era pra eu ter perdido. Eu errei.
Visualizado.
O coração de Rin deu um pulo.
Sae estava online.
[04:12 pm]: Foi um controle de bola idiota. Na hora eu vi que tava errado, mas mesmo assim tentei chutar. Não sei por que eu fiz isso?
Visualizado.
[04:12 pm]: O treinador não falou nada, os outros jogadores também não, mas eu sei que foi culpa minha.
Visualizado.
[04:12 pm]: Nii-chan, o que eu faço?
Visualizado.
As mensagens estavam sendo lidas. Uma a uma.
E então, aconteceu.
Uma pequena bolha apareceu no canto inferior da tela. Os três pontinhos indicando que Sae estava digitando.
Rin sentiu o ar fugir dos pulmões.
“Ele vai responder. Ele vai responder dessa vez. Finalmente, ele vai…”
Os pontinhos piscaram uma vez..duas…três…
E então, desapareceram.
Sae ficou offline.
Rin encarava a tela do celular por longos segundos. Seu cérebro estava processando o que havia acabado de acontecer.
Sae tinha começado a digitar, ele tinha considerado responder. E então, simplesmente... não respondeu. Preferiu desligar o celular a ter que falar com Rin.
Era uma escolha.
O grito que subiu pela garganta de Rin ficou preso.
Em vez disso, seu braço se moveu por conta própria, num movimento descontrolado. O celular voou de sua mão, atingindo a parede com um estalo seco, se estilhaçando.
O aparelho caiu no chão, a tela rachada ainda emitindo uma luz fraca.
O silêncio voltou, mas agora era diferente. Era algo que pulsava, com tudo que Rin não conseguia expressar.
Ele pressionou as mãos contra o rosto com tanta força que suas unhas cravaram a pele de suas bochechas. Sentiu os sulcos que suas unhas estavam deixando, marcas vermelhas que provavelmente doeriam depois.
“Por que você não responde?”
“Por que você começou a digitar e parou?”
“O que eu fiz de tão errado?”
As perguntas se atropelavam em sua mente. E com elas, vinha uma onda de calor que subia pelo seu peito. Apertando sua garganta, queimando atrás de seus olhos.
Seu coração acelerava tanto que a sensação era de que ia explodir a qualquer momento. O rosto formigava em algo que ele conhecia bem.
Era o prenúncio de algo que ele já tinha aprendido a temer.
Sua respiração ficou curta e irregular.
Cada tentativa de inspirar parecia falhar. Seu peito subia e descia em movimentos convulsivos, e um som escapou de sua garganta. Um soluço abafado que ele tentou conter com toda sua força.
“Não…não…não aqui. Não sozinho…”
Mas ele estava sozinho. Estava sempre sozinho agora.
As lágrimas vieram aos montes, escorrendo quentes entre os dedos que ainda cobriam o rosto. Rin às sentiu queimarem os sulcos que suas unhas haviam deixado, e o contraste entre a dor da pele arranhada e a umidade das lágrimas era quase insuportável.
Ele tentou se concentrar na respiração.
Inspirar. Expirar. Contar até quatro.
Mas sua mente não obedecia, sua garganta fechava cada vez mais, e o choro que ele tentava abafar saía em pequenos gemidos sufocados, ecoando no vestiário vazio.
Seu corpo cedeu e ele inclinou para o lado. Os ombros encontrando o chão frio e duro, a superfície de cerâmica era gelada contra sua pele, fez um choque percorrer cada centímetro de seu corpo.
Ele se deitou completamente, esticando as pernas e deixando os braços caírem ao lado do rosto, ainda manchado pelas lágrimas.
O chão era frio…tão frio.
Mas era uma sensação que Rin conseguia processar, uma âncora no meio do caos.
“Inspirar. Contar até quatro. Expirar. Contar até quatro.”
As palavras de Sae, ditas há tanto tempo, voltaram à sua mente como um fantasma.
“Se um dia precisar de mim, é só mandar mensagem. Eu sempre estarei há uma ligação e a onze minutos de distância.”
Onze minutos…
Era o tempo que Sae levava para... o quê? Para ignorá-lo? Para escolher não estar ali?
Aquele chão frio era sua única companhia agora. O choro diminuía, transformando-se em uma respiração cansada e esvaziada. E no canto, o celular rachado ainda brilhava, mostrando o chat onde o fantasma da mensagem de Sae ameaçava chegar.
Em algum lugar no mundo, seu irmão havia começado a responder. E depois, tinha escolhido não fazê-lo.
O abismo era fundo. E Rin, pela primeira vez, não sabia se queria sair dele.
Continua...
