Chapter Text
O dia amanheceu nublado naquela quarta-feira, assim como todos os outros dias, afinal morar em São Paulo era basicamente isso: um amontoado de nuvens e céu cinza, clamando pela liberdade de um dia azul e ensolarado.
O relógio apontava 7h45 e a 13° delegacia da Aclimação ainda funcionava trabalhando intensamente. O turno da noite dizia adeus, dando início a mais um novo plantão. Os telefones tocavam sem parar, as impressoras brigavam com as folhas de papel que sempre insistiam em ficarem presas e a máquina de café trabalhava mais do que muita gente ali dentro, mesmo que o barulho de pessoas transitando de um lado para o outro também fossem ouvidos.
A equipe de limpeza terminava os últimos retoques antes da troca de turno, enquanto investigadores caminhavam pelos corredores com pastas debaixo do braço e, um pouco mais audível que os outros, o escrivão cansado reclamava, pela terceira vez naquela manhã, da internet do prédio.
E esse era um grande problema, ninguém entendia ao certo o porquê o delegado Jairo não dedicava um pouco mais de recursos para investir em tecnologia. Ele tinha aquele ar de policial velho e cansado, que não confiava em nada que não fosse escrito por mãos habilidosas ou um cérebro com ideias mirabolantes.
Nunca confie em nada que você não possa ver de onde pensam. - Era o que ele sempre insistia em dizer.
A delegacia começava a despertar, como se aos poucos espreguiçasse pronta para enfrentar aquele dia. E a quarta-feira é quase como o melhor dia da semana, pois: era sinal que a quinta estava próxima e consequentemente a sexta. As sextas podiam ser turbulentas, mas isso era um problema para o turno da noite.
— Bom dia, minha gente!
O delegado entrou distribuindo um sorriso largo e acenos para quem cruzava seu caminho. Era provavelmente o único ser vivo que estava animado antes das oito da manhã, o que é rotineiro, salvo os dias em que ele e a terceira esposa, Morena, não estavam em bons termos. Essa animação já era um forte indício, por si só, de que ele só poderia ser um alienígena ou algo do tipo. Recebeu alguns cumprimentos distraídos, algumas piadas sobre não trazer café da manhã para a equipe e seguiu até a sala de investigações.
Como imaginava, Lorena já estava lá.
Sentada à própria mesa, com os longos cabelos presos em um coque, digitava sem desviar os olhos da tela. Ao lado do computador, uma pilha de inquéritos organizados por ordem de prioridade. Uma caneca de café, ainda intacta, soltava fumaça.
Ela claramente não usava a mesma roupa do dia anterior, o que momentaneamente trouxe alívio ao chefe.
Significava que ao menos dessa vez, ela tinha ido para casa, tomado banho, dormido algumas horas e, ainda assim, conseguido chegar antes de todo mundo.
Lorena, sim, poderia facilmente ser uma alienígena infiltrada entre reles humanos para estudar seus trejeitos e levar informações à nave mãe.
O delegado largou o paletó sobre a cadeira e apoiou as mãos na mesa.
— Bom dia, senhorita. Por acaso você dormiu essa noite?
Lorena continuou digitando por mais alguns segundos, os olhos, verdes bem claros por conta das luzes de led da sala, vidrados fixos na tela do computador antes de responder:
— Exatas seis horas.
Digitou mais alguma coisa.
— E estou ótima! Muito bem, obrigada.
O delegado soltou uma risada meneando a cabeça.
— Me fascina que você sempre responde as horas exatas, você dorme com um cronômetro do lado ou coisa assim?
Só então ela ergueu os olhos por um instante, com o cenho franzido.
— O senhor perguntou, só estou te respondendo. E você deveria conhecer algo muito interessante chamado alarme. – Brinca.
— É, justo.
Ele se acomodou na cadeira.
— Soube da novidade? Hoje chega uma investigadora nova. Recém-formada e sob sua total responsabilidade.
Lorena voltou a atenção para a tela.
— Aham, já tô sabendo.
— E...?
Ela retorna atenção para ele, desta vez cruzando os braços enquanto faz uma cara pensativa.
— Minha dúvida é outra, delegado.
— Ah, é? Fala aí, então. - Ele devolveu com ar de riso.
—Se o Paulinho ainda trabalha nesta delegacia - se levantou agora indo em direção ao homem, que a olhava confuso esperando pelo fim da pergunta. -...ou todos os problemas resolveram vir direto para mim?
A gargalhada do delegado ecoou pela sala.
— Para que isso, minha filha? Você nem conhece a menina.
— Não conheço, mas o problema era que nem queria conhecer. Menos ainda ser responsável por uma pessoa que é tão policial quanto eu e você. Não sou babá de ninguém.
— E por que já está reclamando? O Paulinho fez o mesmo por você. - Acusou.
Lorena bufou, dando de ombros.
— Tá, tanto faz. Nem sei por que estou criando caso também. - Deu de ombros voltando ao trabalho.
Prosseguiu digitando em silêncio, deixando um sinal mudo de que o assunto estava encerrado. Ficou intimamente feliz por Jairo não querer retomar o assunto, ela tinha muito o que fazer e ainda lidar com isso.
Lorena Ferette era filha de um delegado aposentado. Santiago Ferette construiu sua carreira através da seriedade e idoneidade, e isso era bem evidente notando quantas medalhas de honra ao mérito e jantares de premiação em que Lorena sempre fora obrigada a comparecer desde criança.
E mesmo naquela época ela sabia o que queria: ser como ele.
Com seu irmão as coisas foram parecidas. Ele era mais velho, então entrou primeiro. Depois disso, o pai não conseguia evitar de fazer comparações entre eles. Lorena odiava, odiava que ele precisasse falar todas as vezes de como Leonardo era excelente no trabalho, como ele sentia orgulho do único filho homem ter seguido a mesma carreira que ele.
Era cansativo.
Por isso, estudou mais que todo mundo, se esforçou o dobro ou mais para tudo o que precisasse enfrentar para estar sentada naquela cadeira agora. Faria muito mais para mostrar ao pai que era tão merecedora do orgulho dele quanto seu irmão.
Tinha um ímpeto de justiça e um quê natural para investigação, desde descobrir quem colocou uma tachinha na cadeira da professora até desbancar toda uma quadrilha de tráfico de drogas.
E Lorena Ferette de fato se tornou como seu pai, séria e comedida. O trabalho era sempre em primeiro lugar, e se pudesse moraria facilmente em sua sala. Mas, infelizmente era obrigada a retornar para casa ao menos para tomar um banho e fingir que havia dormido, ou cochilar algumas horas.
Era como se o trabalho fosse o gás necessário para que enfrentasse a vida, em meio a tantas incertezas e crimes brutais, ela precisava garantir que soubessem que ao menos ela estava ali para resolvê-los. E, de alguma forma, se sentia satisfeita com isso.
Servir e proteger.
Esse era seu lema.
Ela ainda digitava quando começou a ouvir uma movimentação anormal para aquela manhã nos corredores da delegacia. Suspirando, se levantou e saiu caminhando até a entrada.
Uma senhora, aparentando não mais que sessenta anos, segurava sua bolsa sob o peito com tanta força que era possível ver os nós dos dedos quase brancos, ela ofegava como se tivesse corrido quilômetros para chegar até ali.
— Minha senhora, sente-se, por favor? - A recepcionista disse saindo do seu posto para ajudá-la.
A senhora negou com a cabeça.
— E-eu… - Gaguejou.
As palavras não saíam. Parecia segurar o choro que ameaçava sair a qualquer momento. Parecia realmente apavorada quase como se tivesse visto um fantasma horrível ou, como se tivesse esquecido de fazer a declaração de imposto de renda no último dia de maio
Essa sensação, Lorena Ferette não conhecia, era muito metódica e organizada para esquecer esse tipo de coisa.
Sacudiu a cabeça afastando os pensamentos e focando na idosa.
— Bom dia, meu nome é Lorena Ferette, sou investigadora. A senhora consegue me dizer o seu nome?
Ainda que aparentasse seriedade, falava de forma calma e com o olhar atento a senhora à sua frente.
— E-e - Tremeu ao dizer. Respirou fundo. -... Liz. - Disse, por fim.
Lorena sorriu tentando acalmá-la. Isso estava no seu treinamento, lá pela página quinze: sorrir e falar com calma para acolher a vítima.
— Tudo bem, Liz. Consegue me contar o que aconteceu?
Lorena se sentou ao lado da idosa, esperando qualquer tipo de resposta que ela pudesse dar, ou uma pista do que havia acontecido.
A senhora tentou, respirou uma, duas, três vezes. Mas nada ainda assim, nada saiu.
Então uma voz surgiu ao seu lado.
— Oi, me desculpe a intromissão - disse.
Eduarda virou o rosto pela primeira vez, desviando a atenção da idosa ao seu lado.
Ela tinha cabelos ruivos, que caíam emoldurando o seu rosto, as pontas enrolavam levemente em cachos. Os olhos de um castanho tão profundo que quase conseguia refletir a luz do sol nele, uma ruguinha no canto da boca se formou enquanto falava, junto de um quase sorriso. Segurava a alça de sua bolsa, se inclinando um pouco em direção a onde sentavam.
— Será que eu posso tentar? - Perguntou tímida.
Lorena a encarou confusa.
— Você a conhece?
A jovem negou.
— Então por que...?
— Ela parece bastante nervosa para responder suas perguntas. Acho que posso ajudar. - Ela interrompeu Lorena, que mesmo contra a vontade assente, lhe dando espaço.
A morena odiava que se metessem em seu trabalho, mas odiava ainda mais um caso não resolvido, por menor que fosse, então mesmo um pouco irritada deixa a garota prosseguir.
A mulher então continua.
Ela não fez perguntas sobre o nome, não quis saber sobre o crime, nem sobre horários ou suspeitos. Tudo o que fez foi sorrir, segurando as mãos da senhora entre as suas.
— Você veio sozinha até aqui? - Perguntou gentil.
A mulher fez que não com a cabeça e disse que a vizinha havia dado uma carona até lá.
— E ela está aqui com você?
— Sim. - Respirou fundo e procurou pela vizinha, que de longe acenou com a mão indicando onde estava.
— Ótimo, quer dizer que não está sozinha. - Sorriu terna.
E a jovem prosseguiu, com calma, fez perguntas corriqueiras vendo que a mais velha estava ficando mais tranquila para conversar. Fazia um carinho leve na mão dela vez ou outra. Pensava que se fosse sua avó, estaria muito preocupada de vê-la daquele jeito.
Lorena observava tudo com uma curiosidade ímpar. Não sabia o que pensar, apenas assistia com atenção.
— Me diga, você já tomou café hoje? Está bem cedo.
Ela negou novamente.
A jovem então olha para a recepcionista.
— Será que conseguimos um copo d'água para ela?
A moça diz que sim e se retira.
Enquanto ela vai em busca da água, todos ao redor permanecem em silêncio, mesmo Eduarda e o delegado - que agora percebe estar ali o tempo todo.
Apenas após a senhora tomar bons goles do líquido, a jovem continua.
— Agora me conta, o que fez a senhora sair de casa assim tão cedo? Sem nem tomar um cafezinho antes?
Dessa vez a resposta veio.
— Eu acho que… minha casa foi invadida durante a noite.
Lorena aproveita o gancho e retoma a conversa:
— E por que a senhora acha isso? Ouviu algum barulho, ou algo assim?
— Eu acordei hoje de manhã, percebi que a minha cozinha estava uma zona, e ontem ela estava limpinha, eu sempre limpo a cozinha à noite. Alguns móveis estavam fora de lugar na sala e minha TV sumiu.
A investigadora troca olhares com o delegado e anota as primeiras informações. Após o relato, finalmente tinham uma ocorrência.
Enquanto anotava, percebeu a jovem ainda alí, próxima a vítima, ouvindo tudo em silêncio como se analisasse cada palavra.
Não interrompeu em nenhum momento deixando-a conduzir a conversa.
Quem é essa garota? Como ela está tão calma vendo tudo isso? E ainda se intrometeu na minha investigação!
Depois que a senhora conseguiu relatar tudo, agradeceu aos policiais e foi para casa com a amiga, recebendo um boletim de ocorrência e a promessa de que seria investigado. Lorena informou que ela pessoalmente iria cuidar do caso, e assim que tivesse alguma notícia a contataria. Deixou seu cartão com Liz, pedindo para que se tivesse qualquer informação não hesitasse ligar.
Eduarda se aproximou da moça, que agora estava aguardando na recepção.
— Você trabalha com atendimento ao público? Ou é psicóloga?
A moça sorri, fitando-a.
— Ah, com certeza não.
Olhou por cima do ombro de Eduarda, de onde pôde ver o delegado depois de deixar a idosa na porta da delegacia.
Ele sorria feliz como se tivesse ganho na loteria.
— Meninas, com tudo isso acontecendo, vou aproveitar para apresentá-las.
Tocou o ombro das duas à sua frente.
— Investigadora Lorena Ferette - aponta para a ruiva.- essa é Eduarda Fragoso, a nossa nova colega de trabalho.
Lorena, que até agora não estava entendendo nada da situação anterior, finalmente compreendeu o porquê de a desconhecida ter agido de forma tão natural com a vítima. Mas ainda assim, não escondeu a surpresa.
- Ah, então é você - estende a mão para a moça, que corresponde ao gesto um pouco incerta. - Muito prazer.
- Prazer. Espero que isso seja uma coisa boa…? - maneou com a cabeça, com um sorriso tímido.
Lorena recolhe as mãos, colocando no bolso de trás da calça enquanto suspira lentamente.
— É, eu também espero.
O Delegado, conhecendo a funcionária, logo cortou o assunto antes que ela pudesse falar o que não deveria. Ainda era a apresentação da moça, e só trabalharia no dia seguinte. Poderia esperar um pouco mais para conhecer os humores de Lorena
— Bom, Eduarda - começa, enquanto leva ela até a recepção. - Sei que nos falamos por telefone, mas me chamo Jairo, delegado responsável pela 13°. Se precisar de qualquer coisa pode contar comigo, ou com a Lorena. - Apontou para Eduarda, que ainda estava ao seu lado.
Lorena assentiu em silêncio concordando.
Não só poderia contar, ela teria que contar comigo, não é?
— Ela vai ficar encarregada de supervisionar você nesse início, tudo bem? Entregue seus documentos à Lucélia e você pode voltar amanhã para o primeiro dia oficialmente.
Ela acena que sim com a cabeça.
— Muito obrigada, delegado. E obrigada Lorena. Espero que possamos nos dar bem.
Lorena concorda com um aceno de cabeça, também esperando que ela não a atrapalhe com o tanto de investigações que precisava revisar, mas achou melhor não dizer nada.
O delegado dá um joinha para ela, se afastando com Lorena para retornarem a sua sala deixando Eduarda com o frio na barriga em expectativa do que viria a acontecer.
