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— Má ideia, — sua imagem no espelho murmurou, — péssima ideia.
Ela se sentia ridícula agora. Seu corpo magro e sem curvas, as pernas demasiado longas e as mãos desengonçadas, os cabelos ainda não compridos o suficiente para fazer um penteado decente e a falta de gordura — apesar de um pouco já preencher o sutiã — faziam-na parecer mais um cabide solto do que uma mulher. Uma pessoa, até. A luz do vestiário tampouco ajudava, o amarelado e intenso das lâmpadas deixando mais claras as suas imperfeições diante do espelho do tamanho do seu corpo todo.
O maior problema, porém, era ela mesma.
Viktoria tinha certeza de quem era. Não havia dúvidas, ela era uma mulher, uma cientista interessada em criar um mundo melhor mesmo que tivesse que se sacrificar para isso. E ela, até dois anos atrás, o fazia de certa forma, esquecendo-se de todo o seu bem estar em prol do bem da sua pesquisa da Hextech com seu parceiro Jayce Talis. Até que um dia veio — um dia comum e sem nada divergente, pensando bem — em que ela simplesmente não aguentou mais. Foi ao médico e confessou que precisava mudar, nem que fosse um pouco, e em meio a pernas tremidas e a vontade de cavar um buraco no meio do consultório, o homem que a atendeu entendeu a situação. Viktoria saiu de lá com vários exames para fazer, remédios para comprar e um plano a seguir.
Era estranho ser assim. Viktoria nunca se achou uma pessoa muito vaidosa, exceto pelos seus hábitos de higiene, mas mesmo esses eram justificáveis — ela não queria ser vista por sua deficiência e, por mais difícil que fosse cuidar da aparência enquanto sentia frio e dor, tentava o seu melhor para ser a pessoa mais cheirosa do recinto. Ainda assim, sempre se julgou alguém humilde, por questão prática.
Até que surgiram os brincos. As maquiagens. Os acessórios e cremes e esmaltes e máscaras de cabelo. As roupas com padrões que deveriam ser combinados apenas com outras peças, criando conjuntos com os sapatos. Ah, os sapatos. Sempre um inferno encontrá-los. Seus pés até que eram pequenos, mas o direito insistia em fazer sua vida mais difícil até em questão de moda, e Viktoria sentia um receio gigante sempre que suas solas se desgastavam, porque significava que ela teria que ir atrás de pares novos.
De qualquer forma, uma coisa foi surgindo atrás da outra e, quando Viktoria notou, estava se sentindo muito insatisfeita com a sua apresentação. Seu corpo até que estava tomando uma forma boa com os hormônios, e ela podia dar um jeito nos lábios e olhos com um retoque de vermelho, mas sempre que via as habitantes de Piltover, algo crescia nela. Mesmo que se sentisse bem diante do espelho do seu banheiro, ela queria compartilhar sua identidade de forma mais ampla, ir mais a fundo.
Então ela contou para Jayce. Ele entendeu, apesar de no início quase cair de joelhos no chão de nervosismo por ter achado inicialmente que Viktoria iria lhe contar sobre sua saúde piorando ou algo do tipo. "Mas é claro que não tem problema! Por que está se desculpando?" Jayce havia lhe dito, depois de ela dizer várias desculpas. "Eu meio que sempre suspeitei mesmo…"
Viktoria corou, o reflexo denunciando de imediato a cor. Ela não conseguia conter o sorriso com a forma que Jayce havia aceitado tão fácil. Não que ela precisasse de aprovação — não peça por permissão para mudar o mundo, certo? — mas era um alívio e alegria ser aceita dessa forma. E era fofa a maneira que Jayce olhava feio para os assistentes quando faziam uma piada sexista perto deles, de como ele levava revistas com modelos que ele achava parecidas com Viktoria, como ele lhe deu algumas meias-calças, joias e sapatos que Cait recomendava. Jayce era fofo. Era um homem inteligente, perseverante, bonito e…
Muita areia pro caminhão dela.
— Ai, droga, — ela reclamou com o zíper preso no meio do caminho. Já não era fácil vestir algo pelas costas, era ainda mais difícil com os pinos instalados pela sua coluna. Outro motivo de tristeza: por mais que ela tivesse condições agora, ela não queria passar por mais cirurgias, não quando apresentavam um risco à sua saúde. Por sorte conseguiu um pouco de substância na área do peito, mas todo o resto teria que ser esquecido. Ela teria que fazer funcionar. Apesar de por metade do tempo ela se sentir ridícula em tentar fazer funcionar.
Eu nunca vou ter chances, ela decidiu pensar agora, em vez de dizer em voz alta. A atendente iria achar que ela é louca, em algum momento. O pensamento estava em um limbo — ela achava que não tinha chances em ser como queria ser, ou com Jayce, como uma possível namorada? Nem ela sabia dizer.
Seus dedos suaram, batalhando contra o zíper novamente, até ela puxar e ele quebrar. Por sorte, o vestido havia aberto, e ela poderia tirar ele de si, mas a humilhação continuou em forma de plástico arrancado ainda nas suas mãos. Viktoria se encarou no espelho. O seu reflexo a encarou de volta.
Olheiras, espinhas, pintas, sangue fluindo no seu pescoço, fazendo vermelhos, roxo, amarelo e branco pintarem sua imagem. Seu rosto se aproximou, com sulcos tão profundos, nariz torto, ângulos todos apontando para as direções erradas…
— Viktoria? Você tá aí?
O susto de ouvir aquilo a fez se retrair, quase batendo com o pé contra a bengala encostada no banquinho. A voz era animada, masculina e um pouco insegura. Jayce. Como ele sabia que ela estava ali?
— Jayce?
— Ah, é você mesmo. Em qual provador você tá, o dez ou o nove?
E antes que Viktoria pudesse perguntar qualquer coisa:
— Bem que a Cait tinha me dito que você estava por aqui. Por que veio sozinha? Não tinha te falado que ia te acompanhar pras compras?
E Viktoria não havia respondido a pergunta anterior, mas Jayce pareceu entender onde ela estava mesmo assim (será que havia se agachado para confirmar que aqueles eram seus pés? Será que Jayce a reconhecia por algo tão pequeno?), e continuou conversando enquanto Viktoria tentava retirar o vestido e ficar mais apresentável para o parceiro.
— Eu vim porque preciso de um cinto novo, mas tive que ficar no laboratório pra entregar aqueles documentos pra Sky… Ah, é, a gente vai ter que revisar os materiais daquela planilha, aquela empresa… Vik?
Ela já estava com a calça de volta, o seu uniforme simples e sem graça que ainda não havia mudado.
— O que você está experimentando?
— Ah… — A decepção saiu óbvia demais na sua própria voz, — nada demais. Eu queria, é… um vestido.
— Ah, sim. Encontrou um bom?
— Não exatamente.
O reflexo reclamou um porque você não tentou mentir? dito sem som, a franja escorrendo para os olhos. Houve uma pausa entre sua frase e o auto julgamento, até que a voz de Jayce ressurgiu.
— Posso escolher algo pra você?
Dessa vez, Viktoria encarou não a si mesma, mas a porta de madeira que os separavam. Ela conseguia sentir dali o calor do colega. O seu sorriso meio sem graça. O seu rosto bonito.
— Ou talvez você esteja procurando por algo específico, não sei…
— Eu quero, — a frase veio com mais firmeza do que ela esperava. Engoliu o nódulo que se formou na garganta mais cedo e se sentou, aliviando um pouco a pressão na coluna. — O que você escolher, eu aceito.
— Sério?
Era impressão sua ou o tom de Jayce parecia um pouco contente demais?
— Sim. Confio em você, Jayce, acredito que tenha bom gosto. Só não pode ser algo muito curto ou aber—
— Não sai daí!
Não que ela tivesse escolha. Seu coração estava batendo forte demais, e ela teria um ataque se tentasse levantar agora. Era capaz até mesmo de não ter mais força alguma restando e acabar desmaiando contra a porta trancada.
Por sorte, as vendedoras daquela loja eram legais e deixaram os dois à vontade, porque o tempo que passou esperando parecia horas, momentos intermináveis em que Viktoria se encarava no espelho, tentando encontrar uma expressão no seu rosto que mostrasse que talvez ela fosse capaz disso. Talvez ela não fosse tão pouco para Jayce quanto achou inicialmente.
E não era tão difícil de imaginar esse tipo de coisa, uma vez que, tecnicamente, já estava acontecendo. Aquilo estava longe de ser o encontro de filme, livraria, jantar e compras cotidianas que Viktoria fantasiava, mas era o suficiente. Bem, às vezes ela sonhava apenas com os dois conversando embaixo de cobertas no meio da madrugada; às vezes, ela preferia pensar neles sentados em um parque qualquer trocando lambidas em sorvetes; às vezes, ela gostava de imaginar nos dois juntos nos mesmos lugares de sempre, encontrando magia de mãos dadas. Qualquer cenário em que seus olhos se encontrassem e Jayce lhe desse a mão seria o suficiente.
Duas batidas na sua porta a fizeram despertar do torpor, e Viktoria abriu uma fresta para pegar o que quer que Jayce tivesse escolhido. Surpreendeu-se não apenas em ter encontrado seu olhar — mesmo tentando se esconder — como também com a quantidade: não chegou só um vestido, mas uns sete ou oito.
Novamente, ainda bem que as atendentes eram legais. Se uma pessoa comum demoraria para sair de lá, então Viktoria passaria um bom tempo tendo que se trocar.
— Mostra pra mim quando terminar de vestir cada um, tá bem?
Ela concordou com a cabeça, mesmo sabendo que Jayce não estava mais enxergando sua figura. Pendurou quase todos os vestidos e se sentou para analisar o primeiro: ele ia até suas canelas, marrom, com a gola em V grande o suficiente para mostrar um pouco do seu peito. Era bonito, bem simples, tecido leve, algo para o verão ou primavera.
Viktoria demorou para vesti-lo, e se sentiu um pouco envergonhada, mas mostrou-se para Jayce mesmo assim. Ele sorriu, elogiou, mas, enquanto o sorriso de orelha a orelha continuava do rosto, declarou:
— Acho que os outros vão ficar ainda melhores.
Estranhamente, ele tinha razão. A cada peça que ela mostrava, ela conseguia ver algo que se encaixava melhor — a gola não ficava tão grande, nem as mangas pinicavam, nem as pernas pareciam inapropriadas no conjunto. Saias mais curtas, mais longas, mangas bufantes, barriga transparente, costas abertas, cada peça tinha algo único que fazia Viktoria perceber características novas sobre si — qualidades até, pela maneira que os olhos de Jayce se demoravam sobre algumas partes do seu corpo.
Às vezes, o zíper emperrava, os laços pareciam toscos, algo ficava grande demais no seu corpo. Mas nada gerava frustração o suficiente para ela a ponto de se esquecer do calor que a dominava quando notava as olhadas.
— Aqui, tenta esse também, — Jayce pediu quando ela estava mostrando o penúltimo, um vestido verde de algodão.
— Já estou tomando muito do seu tempo.
— Que tempo? Eu estava planejando passar o dia com você, de qualquer maneira.
— Eu não sei o qu—Jayce? — Ela segurou o vestido pelos ombros, o único de cor berrante até agora. — O que é isso?
— O vestido que você vai usar pro nosso jantar hoje, — ele respondeu, sorrindo como se fosse inocente, — só nós dois, claro.
A temperatura subiu tão rápido à sua cabeça que Viktoria fechou a porta na sua cara, pouco percebendo se foi rude ou não. Ela quis rir, mas estava sem reação lógica, então precisou de alguns momentos para olhar o vestido novamente. Ele era de um vermelho forte, quase de cor de vinho.
A cor da casa Talis…
Ela abriu a porta.
— T-Tem certeza? Jayce, você está mesmo me chamando para o que acho que está?
— Bem, o que você acha que é?
Não, ela não podia lidar com aquele tipo de brincadeira, caso estivesse errada. Não queria encontrar esperanças e depois ser decepcionada com a verdade. Não que fosse impossível que ela tivesse chances, afinal, Jayce sempre agiu de forma mais amigável com ela, a tocou em lugares que não tocava nos outros, lhe deu presentes, lembrava das suas comidas favoritas e das suas ferramentas favoritas e às vezes falava como ela estava cheirando bem ou com o cabelo bonito…
Ah.
— Tem certeza mesmo? — Ela repetiu, mais por querer ver a confirmação do que para retirar a dúvida do seu coração. Ela queria. Queria tanto. Mas Jayce realmente queria, ou estava refém das circunstâncias?
Para isso, Jayce sorriu. Em pé encostado contra uma das paredes, ele não parecia cansado de esperar. Na verdade, parecia até confortável. Como se Viktoria pudesse tomar todo o tempo do mundo que quisesse para se preparar.
— É um encontro então, — Jayce confirmou, parecendo tão aliviado de ver Viktoria segurando o vestido contra o corpo, como se já tentasse vesti-lo, quanto ela.
E ao sentir a seda no seu peito, ela corou mais uma vez. Era uma peça simples, mas muito mais elegante do que tudo que tinha, a cor criando um ar de nobreza, o acabamento dando volume para seu peito e deixando a curva natural da sua bunda delicada, e as costas descobertas não seria algo que ela escolheria por pura e espontânea vontade, mas era extremamente confortável.
Provavelmente porque ela sabia que, quando saísse dali vestindo-o, teria uma mão para cobrir o que a roupa não fazia.
— Jayce, você poderia…? — Ela se virou para deixar o zíper disponível para ele, e Jayce deu um passo para dentro do provador para obedecer; sua mão grande subiu o tecido para cima até a sua cintura, e com um sorriso ele afirmou:
— Está linda.
Além de tudo, Jayce sabia do seu tamanho, e o vestido serviu como uma luva, entrando nela com o conforto de como se ele sempre lhe pertencesse.
E, mais tarde, naquela noite, ele deslizou para fora do seu corpo com a mesma facilidade.
