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Uma chuva fria e intensa caía. Os muros e muralhas da Fortaleza Vermelha estavam encharcados e escuros como sangue. Sentado próximo à lareira, o rei acreditava que os deuses choravam pela vil traição que lhe era infligida.

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Capítulo Único

Porto Real

290

Uma chuva fria e intensa caía. Os muros e muralhas da Fortaleza Vermelha estavam encharcados e escuros como sangue. Sentado próximo à lareira, o rei acreditava que os deuses choravam pela vil traição que lhe era infligida.

Rhaegar umedeceu os lábios enquanto refletia sobre como tentara ser bom para Elia após seu retorno da guerra. Compreendia que a presença de Lyanna e do filho que tivera com ela era uma ofensa, mas esperava que a esposa se acostumasse. Ela, porém, nunca se acostumou. Tratava-os com cordialidade e gentileza em público e evitava-os em privado. O tratamento para com ele era ainda pior: um rancor silencioso e um desprezo sutil. Nos primeiros anos após a vitória, convidava-a diariamente para tomar o desjejum ao seu lado. Ela sempre recusava, encontrando os mais diversos motivos para declinar do convite, muitas vezes alegando problemas de saúde, apenas para, pouco depois, ser vista conversando animadamente com suas senhoras, entretendo sua corte erudita ou visitando orfanatos ao lado das septãs. O único convite que jamais recusava era o de comparecer às reuniões do Pequeno Conselho. Mais tarde, arrependeu-se de tê-la convidado, pois a competência com que ela expunha suas opiniões fazia com que, não raras vezes, elas lhe parecessem mais pertinentes do que as suas próprias e as dos conselheiros.

Então, no quinto aniversário de seu reinado, sua esposa retornou depois de três dias ausente. Estivera tão preocupado, temendo que ela pudesse ter se ferido durante a peregrinação que optara por fazer ao lado de suas damas e septãs. A cada três ou quatro meses, Elia costumava ausentar-se por cerca de quinze dias para percorrer, a pé, as ruas de Porto Real em peregrinação ao Grande Septo de Baelor. Pelo percurso, visitava órfãos e doentes, distribuía esmolas, ouvia as queixas da população, rezava ao lado dos fiéis e recusava acomodações confortáveis, preferindo repousar em hospedarias simples. Quando o tempo se tornou hostil, mandou que a trouxessem de volta e decidiu esperá-la em suas câmaras.

E então, deparou-se com algo inimaginável.

A iluminação baixa contrastava com a escuridão da noite. O silêncio era rompido apenas pelo tamborilar violento da chuva contra os vidros. Diante do frio, podia até mesmo ver a respiração dos dois, próximos demais um do outro na antecâmara dos aposentos.

Rhaegar sentiu o mundo ruir ao seu redor. Os olhos verdes de seu cavaleiro juramentado estavam fixos no rosto de sua esposa, como se nada mais no mundo importasse. Então, um sorriso presunçoso surgiu nos lábios de Jaime Lannister antes que ele inclinasse a cabeça. Na penumbra, ele a beijou.

O rei deixou os aposentos sem ser notado. Do lado de fora da Fortaleza Vermelha, a chuva intensa o esperava, lavando-lhe o rosto já banhado em lágrimas.

E pensar que houve um tempo em que todos os beijos de amor de Elia lhe pertenciam.