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Como Quatro Corações Acorrentados

Summary:

Johanna Smith tinha pesadelos. Despencava pelo céu com o vento cortando seu rosto. Vivia aventuras como algum tipo de heroína destemida ou fugindo de alguma coisa fantasiosa diferente, até chegar em um lugar familiar apenas para descobrir que ele havia sido devastado, assim como seu coração partido. Até o fim do universo encontrá-la. Em todos os pesadelos, ele sempre estava lá, como um lembrete importante de algo que ela não deveria esquecer. Dizia algo em uma língua desconhecida, e ela sentia como se o corpo inteiro estivesse em chamas até tudo se dissolver em vazio e ela acordar.
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Promessas feitas por Senhores do Tempo não eram meras palavras ou gestos. Eram uma aposta arriscada, e embora o Mestre gostasse de riscos, arriscar a própria vida em nome da pessoa que mais deveria odiar no universo valia um preço ao qual ele não estava disposto a pagar. No entanto, lá estava ele: preso na Terra do século XIX, sem TARDIS ou escapatórias, e precisando cumprir uma única promessa: Proteger a Doutora da Divisão.

Chapter 1: human nature

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

  Ela estava caindo. Despencando do céu como um meteorito ou talvez um anjo caído. O vento cortava seu rosto e um grito mudo saía de seus lábios abertos. Era atingida por algo, e então o cenário mudava para um sentimento de desespero misturado com curiosidade e uma pontada de raiva. Havia uma nuvem destrutiva que parecia olhar para ela, perseguindo-a em qualquer lugar que estivesse. Ela sentia tudo. Cada rocha desintegrada, cada grito de socorro e cada suspiro de contentamento. O fim do universo. E ela sentia tudo bem no fundo de sua alma.

O fim do universo. 

— Senhorita Smith! — uma voz aguda, seguida do som cortante das cortinas se abrindo, a acordou, com aquele mesmo sentimento persistente de que seu sonho era real — A carruagem a aguarda lá fora! Não acredito que voltou para a cama!

Ela demorou alguns segundos para perceber onde estava, que toda aquela angústia mórbida não passava de algo criado pela cabeça dela para lhe atormentar durante o sono e impedi-la de descansar adequadamente. Momentos antes, a cama parecia confortável e acolhedora, agora, seguida do susto e da luz cegante do céu daquela manhã, era mais como uma armadilha.

— Senhorita Smith! — a dona da voz aguda ganhou a atenção dela, ou melhor, sua confusão — O senhor Jones já disse que a senhorita não deveria ser deixada perto de livros durante essa hora da manhã.

— Ora, por favor, Nelly, é literalmente o meu trabalho — ela resmungou, sentando-se na cama. Notou o pequeno diário ao lado do travesseiro, e então rapidamente pegou o lápis de carvão que sempre estava com ele e começou a anotar, tentando materializar em palavras aquele sonho estranho e… assustador.

— O qual a senhorita está atrasada! — no entanto, Nelly rapidamente a interrompeu, tirando o diário de suas mãos e fazendo com que ela erguesse os olhos em sua direção — O professor sempre permite que a senhorita chegue um pouco depois que as aulas comecem, mas ele não admite atrasos.

— Deixe de formalidades, Nelly — ela revirou os olhos e enfim se levantou — Me chame pelo meu nome, e ele não é senhorita — pegando o diário de volta e o escondendo debaixo do travesseiro, ela ouviu a empregada soltar um suspiro.

— Johanna…

— Viu! Não é muito difícil, é?

— A senhorita está atrasada, o cocheiro não vai esperar por mais tempo — Nelly manteve a mesma insistência, apesar de agora num tom um pouco mais suave. 

— Eu estou indo! — Johanna ergueu as mãos, sentindo como se estivesse sendo expulsa do próprio quarto — Hawthorne não vai morrer se eu me atrasar um pouco — ela caminhou pelo cômodo, recolhendo o que precisava e terminando de se arrumar.

— Morrer ele não vai, mas o cocheiro vai ficar irritado.

— Eu consigo me entender com Williams, não se preocupe — Johanna parou de frente para o espelho, alisando o vestido azul-escuro que havia escolhido antes de decidir que a cama era um lugar mais interessante para se estar naquele dia refazendo o coque que havia afrouxado.

— Deixe-me ajudá-la — Nelly se prontificou, não conseguia ficar parada vendo a bagunça ambulante que era sua senhora, embora não ela não aparentasse pouco mais do que a própria idade.

— Não sei o que eu seria sem você, Nelly — Johanna abriu um sorriso gentil, virando-se para a empregada ao invés de permanecer parada diante do espelho.

— Guarde o sentimentalismo para quando estiver com tempo, Johanna — a empregada reclamou, fazendo com que o sorriso dela aumentasse ainda mais, achando graça de seu jeito rabugento — Pronto. Agora vá!

— Está bem!

Mais uma vez, como se estivesse sendo expulsa dos próprios aposentos, Johanna se apressou, enfiando os pés nos sapatos antes de se preocupar em amarrá-los e pegando a bolsa no cabideiro, descendo as escadas do casarão, fazendo mais barulho do que o habitual.

A casa estava vazia naquele horário. Todos já haviam saído e apenas os empregados restavam, realizando suas tarefas rotineiras enquanto os patrões passavam o dia inteiro no trabalho. Johanna pensava que era uma pena um lugar tão bonito e grande como aquele passar tanto tempo vazio. Ela gostaria de ter alguns amigos para passar o tempo ali com ela. Bem, isso se o professor Hawthorne permitisse, já que a casa era dele e não dela.

Ela entrou na carruagem, e tinha quase certeza que Williams, o cocheiro, estava prestes a partir sem ela. Johanna não teria tempo para protestar com ele, já que os sapatos ainda estavam desamarrados, e o trajeto até a universidade não era tão longo de carruagem. Ainda que as chuvas de outono estivessem deixando boa parte do trajeto enlameado e atrasasse um pouco, ela não poderia estar mais atrasada do que já estava.

Era bem comum que aquilo acontecesse, na verdade. Era por isso que o professor Hawthorne havia tido aquela gentileza com Johanna e a deixasse chegar um pouco depois que as aulas começassem. Ela nunca conseguia chegar na hora, ou ter muita atenção nas tarefas devido às dores de cabeça e os breves episódios de narcolepsia. Sua condição era uma perdição para uma mulher no tempo em que vivia, mas seu intelecto — mesmo que brevemente afetado — era uma espécie de compensação por aquelas falhas, e a gentileza de Hawthorne em lhe arrumar um emprego ajudava a mantê-la ocupada e ativa.

— Chegamos, senhorita Smith — Williams abriu a porta da carruagem para ela quando chegaram, oferecendo o mesmo rosto rabugento de sempre. Johanna sempre tentou fazê-lo dar um sorriso, mas aquele homem era tão obstinado quanto uma rocha, ou quanto seu não-mais-tão-próximo colega “senhor” Jones.

— Obrigada, Williams — embora ele tivesse se oferecido para ajudá-la a descer, Johanna o fez sozinha — E sinto muito pelo atraso. Prometo que não vai acontecer de novo.

— A senhorita disse a mesma coisa duas semanas atrás.

— E eu estou dizendo mais uma vez — ela sorriu sem mostrar os dentes, apertando a bolsa entre os braços. 

Williams deu a volta, pronto para subir na carruagem enquanto ela seguia para dentro da universidade, erguendo a cabeça para observar o céu cinzento da estação, logo acima do arco de entrada. Era difícil saber o horário daquele jeito, talvez ela precisasse de um relógio de bolso igual ao que Jones sempre carregava. Johanna detestava estar à mercê daquele jeito, ainda mais sabendo que estava atrasada. Antes de entrar, seus olhos baixaram um pouco para os pilares de pedra, onde duas figuras de gárgulas repousavam logo abaixo das janelas do segundo andar.

Ela franziu o cenho, sentindo um arrepio estranho com o olhar das estátuas que de repente pareciam estranhas ao estarem ali. Johanna deu de ombros e enfim entrou quando o som do sino do intervalo chegou aos ouvidos dela, se arrependendo quase que instantaneamente. Ela enfrentaria aquele mar de alunos, os quais eram exclusivamente homens que tinham metade de sua idade, mas o quádruplo do ego e arrogância.

Os sapatos fizeram barulho enquanto ela atravessava o saguão, e quase ouvia a voz de Nelly em sua cabeça mandando que ela não corresse. Uma dama como ela não deveria correr daquele jeito, mas que outra forma de chegar a um lugar desejado senão correndo? Ainda mais quando estava fugindo de alguma coisa. 

Johanna começou logo a ficar com dor de cabeça ao subir as escadas, esbarrando com alunos de medicina presunçosos e que não se davam nem ao trabalho de pedir desculpas. Ou talvez ela devesse pedir desculpas? Aquilo não fazia muito sentido na maioria das vezes, mas eles eram homens, e era obrigação deles serem cavalheiros. Ela apertou a bolsa contra os braços, tentando parecer neutra e invisível, e continuou subindo.

O segundo andar era sempre um pouco mais vazio para o alívio dela. As salas de aula com poucos ou nenhum aluno, era o tipo de ambiente ao qual ela estava habituada. Como assistente do professor Hawthorne, passava a maior parte do dia organizando seus materiais, mas tinha o prazer de poder ficar na biblioteca. Os livros definitivamente eram companheiros melhores do que os estudantes da universidade, e Johanna já estava acostumada a passar a maior parte do tempo sozinha.

Uma das portas das salas de aula se abriram, e então lá estava ele. Com um sobretudo verde-musgo e os cabelos penteados para trás. Ele ergueu as sobrancelhas diante da presença atípica dela ali, até que, pelo suavizar — ou melhor, pelo retorno da típica falta de expressão com ela — de seu rosto, ele compreendeu.

— Atrasada de novo? — a voz dele ecoou pelo corredor vazio, ainda mais pela distância considerável que ele passara a manter com ela.

— Eu acabei dormindo de novo. Sinto muito — a resposta era quase parecia ensaiada do quanto ela dizia aquilo, e estava começando a fazer ela se sentir envergonhada e enraivecida consigo mesma.

Johanna esperava que ele apenas a ignorasse, como sempre fazia, passando por ela e deixando o frio vazio do corredor como resposta. Quando passavam um pelo outro, por coincidentemente estarem indo para o mesmo lugar, era o mais próximo que ele chegava dela.

— Pesadelos de novo? — ele arqueou a sobrancelha, e Johanna precisou controlar as próprias expressões com a surpresa dele estar mesmo falando com ela, mesmo que fossem as mesmas poucas perguntas de sempre.

— É — ela assentiu — Eu acho que dormi sem querer. Céus, agora eu pareço uma ridícula falando isso em voz alta… — Johanna fez uma careta constrangida.

— Não é rídiculo, Johanna. Você sabe da sua condição  — ele manteve as mãos nos bolsos do sobretudo — Nenhuma memória no meio desses pesadelos?

Ela negou com a cabeça.

— Só as mesmas fantasias de sempre.

Ele assentiu e então tudo voltou a normalidade de sempre, com o máximo de proximidade sendo os míseros três segundos em que seus ombros quase se esbarravam quando ele passava ao lado dela para seguir qualquer caminho que envolvesse ficar longe dela.

Mas, daquela vez, Johanna queria que fosse diferente.

— O! — ela se virou e o chamou, e mesmo que ele tenha se virado, ela ainda sentiu-se na necessidade de se corrigir, como se aquele apelido devesse permanecer esquecido ou pior, ignorado — Oscar.

Ele cerrou os olhos para ela. Claramente não esperava ser chamado daquela forma em público.

— Sim?

— Você acha que um dia elas vão voltar? Minhas memórias?

Oscar abaixou o olhar e Johanna temia não ter resposta. Em que momento, exatamente, a amizade deles se transformou naquela distância e indiferença?

— Eu não sei — ele deu de ombros, tentando expressar mais daquela apatia mas apenas denunciando apenas uma tensão inoportuna.

— Já faz bastante tempo…

— Onze meses, mais especificamente.

— Eu sei, mas… Você não acha que deveríamos tentar outro médico ou…

— Johanna — ele a interrompeu, a voz assumindo um tom autoritário que ecoou pelo corredor e vibrou nos ossos dela — Você está bem, não está?

— Tirando as dores de cabeça e as vezes em que não durmo, e as vezes em que durmo demais…

— Você está bem, não está? — Oscar perguntou entredentes e Johanna quase se sentiu ameaçada pelo brilho explosivo que surgia nos olhos dele.

Ela ficou em silêncio, relutante. Apertou a bolsa ainda mais contra o corpo, precisando se agarrar à alguma coisa enquanto o olhar dele faiscava para ela, com a ameaça de se tornar uma chama perigosa. Johanna engoliu em seco e deu um passo para trás.

— Estou.

Não era a resposta que ela queria dar, mas era a que ele queria, e ela não iria fazer uma cena no meio da universidade. Poderia arruinar os dois, tendo em vista que, além do casarão do professor Hawthorne, aquele era o único outro lugar que tinham. Ela não queria ser a responsável por fazê-los perder aquilo, ainda mais quando Oscar parecia estar crescendo ali dentro.

Ele deu as costas e desceu as escadas, parecendo menos o fantasma dos sonhos dela e mais aquela figura real de distância e frieza que passou a ser desde que o acidente em que ela perdeu a memória.

Johanna sabia que eles eram amigos, ele mesmo havia garantido quando ela acordou desorientada e perdida, o corpo tremendo de frio por conta da chuva que enfrentaram após um acidente de carruagem no inverno passado. Ela lembrava-se dele, Oscar Jones, — e do apelido pelo qual o chamava, O — tanto quanto lembrava-se do próprio nome e acreditava em quem era: uma mulher extraordinária para sua época, com conhecimento afiado e sem muita oportunidade de aplicá-lo até o ano anterior. Mas a distância dele, que começou aos poucos até que se tornou perceptível o suficiente para inicialmente perturbá-la e então fazê-la sentir sua ausência, até que Johanna simplesmente… se resignou ao ostracismo que ele parecia tê-la colocado.

Era injusto, mas ela já tinha injustiças o suficiente para apontar, e a distância do único elo com suas memórias perdidas parecia ser tão trivial comparado ao resto das coisas que ela passava.

Johanna resolveu ignorar aquilo, colocando na caixinha que ficava no fundo de sua mente — talvez fosse por isso que suas memórias não retornavam, porque ela era omissa com as situações que passava.

Ela entrou no escritório do professor Hawthorne após subir mais um lance de escadas e cruzar com estudantes de história e linguística, que eram um pouco mais gentis que os alunos de medicina, encontrando o velho senhor sentado em sua mesa ao lado de seus livros de filosofia natural.

— Bom dia, senhorita Smith — o professor a cumprimentou, tirando os óculos pequeninos — Está atrasada.

— Eu sinto muito — uma sensação amarga surgiu na ponta da língua de Johanna. Ela precisava mesmo estar se desculpando tanto assim?

— Tudo bem — o homem se levantou — Hoje você não terá tanto trabalho, de qualquer forma.

— Sem experimentos para hoje? — ela inclinou a cabeça — Eu devia ter ficado na cama, então.

Hawthorne riu, e Johanna deu um pequeno sorriso. O professor era um dos únicos que rias piadas ruins dela ou de suas ironias disfarçadas, e aquilo fazia com que ela gostasse um pouquinho mais dele, além de toda a gratidão que sentia pelo homem ter acolhido a ela e Oscar quando mais precisaram.

— Talvez amanhã, senhorita Smith — Hawthorne assentiu, voltando a colocar os óculos no rosto. 

Era um homem de idade avançada. Johanna nunca se atreveu a perguntar, e nem Nelly a dizer, mas seus ralos cabelos brancos contrastavam com a vivacidade em seus olhos claros, que guardavam um anseio por conhecimento que, segundo ele, também havia no fundo das íris cor de avelã de Johanna.

— Hoje, tenho quase o dia inteiro de aulas e, ainda por cima, preciso supervisionar Oscar lecionando hoje.

— Ah, ele finalmente vai conseguir dar uma aula como sempre quis? — ela tentou parecer empolgada, mas o breve encontro no corredor e a frieza de Oscar haviam a deixado… chateada, na melhor das palavras.

Johanna se concentrou em recolher as coisas da mesa do professor. Nelly dizia que eles se davam bem porque eram as únicas pessoas que, quando faziam bagunça, eram capazes de se encontrar no caos. Ela também não queria ficar parada, e quem sabe conseguisse ficar o dia inteiro na biblioteca da universidade já que não teria tanto trabalho assim.

— Não sei se ele está pronto, mas quero dar essa chance a ele — disse Hawthorne. 

— Ele é bom — ela disse, sem olhar para o professor, a voz baixa e meio magoada — Mas cuidado para ele não roubar sua vaga. Oscar tende a ser um pouco ambicioso às vezes.

Como típico, Hawthorne riu. E Johanna se forçou a rir com ele daquela vez. Ela organizou os livros em pilha ao lado da mesa, e guardou os envelopes e cartas na gaveta enquanto o professor acendia um charuto na janela.

— Algumas espécies nativas da Amazônia chegam amanhã. Quem sabe você possa catalogá-las para mim.

— Plantas não são meu forte — ela fez uma careta, cruzando os braços sobre o vestido.

— Eu sei — o professor se virou — Ofereci o mesmo ao Oscar, e ele me deu a mesma resposta.

— Precisamos mesmo estar falando dele, senhor? — Johanna odiou que não tivesse nada para fazer naquele momento e dividir sua atenção, talvez disfarçar o quão chateada ela ainda estava.

Hawthorne deu um sorriso gentil. 

— Vejo que continuam na mesma distância de sempre — o homem deu de ombros e voltou a atenção para a janela. O intervalo já estava terminando, muitos alunos provavelmente já estavam retornando para suas salas — Sabe, quando coloquei os dois sob minha tutela, Oscar me prometeu um grande projeto, e que você o ajudaria.

— É, ele prometeu isso a mim também — Johanna murmurou.

— Mas ele continua relutante em me mostrar seus avanços…

— Somos dois então, senhor — ela se encostou na estante de livros do escritório.

Houve um momento de silêncio. Johanna estava acostumada com eles, até gostava, às vezes.

— Curioso — o professor disse de repente — Difícil alguém mudar a posição delas.

Ela franziu o cenho, se afastando da estante e caminhando até Hawthorne. 

— O que quer dizer, professor?

O segundo sino tocou, e o professor se afastou da janela.

— Nada, senhorita Smith — ele apagou o charuto e tirou os óculos, limpando as lentes com o lenço de bolso — Delírios de um homem que já está ficando velho, não se preocupe. 

Bem, de delírios ela entendia. Johanna inclinou a cabeça para a janela, tentando ver o que quer que o professor tivesse visto, mas tudo o que enxergava eram os campos verdes e a cidade de Bristol ao longe.

— Há alguns documentos que preciso que sejam organizados, e também alguns artigos que precisam ser traduzidos — Hawthorne orientou, caminhando pelo escritório e pegando os livros que, cuidadosamente, Johanna havia organizado — Quando terminar, pode pegar aquele livro de latim. Ouvi você tentando praticar ontem.

Ela deu um pequeno sorriso, assentindo enquanto sentia o rosto enrubescer.

— Obrigada, professor. Boas aulas.

— Até mais tarde, Johanna — então, ele fechou a porta, e o mundo dela se limitou ao silêncio monótono de sempre.

No entanto, antes de fazer as tarefas que lhe foram designadas, ela se aproximou da janela mais uma vez. Não havia nada ali, ela já tinha visto antes, mas sentia um estranho instinto de olhar mais uma vez, como se uma força exterior guiasse seus movimentos. Johanna abriu a janela, deixando a brisa fria entrar. O céu cinzento indicava chuva para as próximas horas, e não deveria haver nada de anormal do lado de fora.

Exceto que as gárgulas haviam mudado de posição e, agora, pareciam encará-la pela segunda vez no dia.


  O Mestre nunca pensou que estaria em uma sala de aula de novo. Fazia tanto tempo desde que ele lecionara em Gallifrey que parecia que havia se esquecido como fazia. Aquela não era sua vocação, mas ele ainda precisava de um bom disfarce para a época em que estava. Por sorte, podia tirar vantagem de sua inteligência avançada.

— E… isso é tudo — ele fechou o livro de cálculo, puxando o relógio de bolso e o abrindo para checar o horário. Encerrando cinco minutos mais cedo? É, ele poderia ser o professor bonzinho — Alguma dúvida?

Houve silêncio na sala, e ele se virou para a lousa, se perguntando se o problema estava nos cálculos ou nas mentes pequenas daqueles que deveriam ser os melhores alunos da região. Os olhos do Mestre então foram para seu supervisor, o velho Hawthorne, que o observava no canto da sala.

Talvez ele devesse ser o professor pulso firme, então. Ou talvez nem tanto. Droga, ele só queria se livrar daqueles alunos de uma vez.

— Bom, eu vou assumir que não — ele deixou o livro sobre a mesa — Vou liberá-los alguns minutos mais cedo. Ao que tudo indica… — ao olhar pela janela, a tarde parecia preenchida pelo cinza-escuro de mais uma tempestade a caminho — As estradas estarão difíceis hoje.

Ele teria odiado o silêncio que teria se seguido mas, por sorte, o sino tocou e, em um movimento bizarramente calculado aos olhos do Mestre, os estudantes se levantaram e juntaram as coisas para sair da sala.

Odiava o ambiente acadêmico. Passou toda a época da Academia fugindo das aulas porque detestava aquele sistema, e agora a posição em que se encontrava, de novo, era a que sempre repudiou.

A Doutora iria pagar por estar fazendo ele passar por aquilo.

— Você não foi tão ruim — a voz de Hawthorne, enquanto se aproximava, o trouxe de volta àquele cenário com cheiro de giz e madeira velha.

— Eles me odeiam — ele disse. E a recíproca é verdadeira, teve vontade de completar.

— Eles não odeiam você, Oscar — Hawthorne assegurou — Você só é jovem. Acredito que eles não coloquem tanta fé nas habilidades de um professor com a idade tão próxima dos alunos.

O Mestre riu, balançando a cabeça enquanto se encostava na mesa.

— Você me superestima. 

— Eu confio no seu potencial — o professor colocou os braços atrás do corpo e inclinou a cabeça, como sempre fazia quando inspecionava algo ou alguém.

O Mestre não gostava daquele tipo de olhar. Lembrava-o bastante do olhar da Doutora, e não importa o que fizesse com Hawthorne, algumas características dos humanos ainda eram capazes de persistir através de qualquer manipulação.

— Como anda sua pesquisa? — Hawthorne perguntou, e o Mestre imediatamente sentiu os ombros tensos. 

Odiava se sentir daquela forma. Parecia que perdia o controle, e não havia sensação pior do que aquela. Embora a “pesquisa” não fosse uma coisa que estava, exatamente, sob seu controle.

— Improdutiva — murmurou, relutante — Como nos últimos meses.

Ele se mexeu para aliviar a tensão. O Mestre pegou o casaco sob a cadeira e o vestiu, talvez fosse a sua deixa para ir embora e também evitar a futura tempestade.

— Você deveria tentar uma nova perspectiva — Hawthorne sugeriu. Maldito homem que não sabia o momento de encerrar uma conversa.

— Não é uma coisa que eu posso simplesmente mudar a perspectiva.

— O universo não pode ser domado, de fato.

— E ele definitivamente cansou de se mostrar para mim — O Mestre suspirou, estalando os dedos da mão direita. Um hábito que havia adquirido nos últimos meses, ou talvez mais um tique que denunciava quando estava começando a perder o controle — Acho que vou engavetar.

Ele esperava que aquela declaração calasse Hawthorne. Mas conhecendo o homem como conhecia, aquilo fez o velho professor erguer as sobrancelhas como se estivesse ofendido.

— Que ultraje! Você não pode fazer isso, Oscar!

É claro que não vou fazer isso. Só preciso que você cale a boca por um instante.

— Sua pesquisa sobre a variabilidade luminosa dos corpos celestes é o motivo pelo qual te coloquei aqui.

— E ao invés de conseguir algum avanço, estou dando aulas de matemática para uma turma que parece feita de… — O Mestre respirou fundo. Onde estava com a cabeça quando resolveu aceitar a proposta de Hawthorne para lecionar? O ambiente acadêmico era um lugar enlouquecedor.

— Acalme-se, Oscar — o professor pôs a mão no ombro dele — O tempo não está ao nosso favor, mas ele logo melhorará.

O tempo definitivamente não iria melhorar. O Mestre sentiu aquele formigamento por entre os dedos, o motivo que o levara a desenvolver aquele tique de sempre estalar os ossos das mãos. Parecia que seu corpo queria fazer questão de lembrá-lo que seu tempo estava acabando.

“Um ano e um dia.” a voz dela ecoou em sua mente. Mais um maldito lembrete de que estava ficando sem tempo.

— Irei a um encontro da Sociedade hoje — Hawthorne se afastou, e o Mestre soltou a respiração que não sabia que estava prendendo até aquele momento. Foi sua vez de dar alguns passos para longe do homem — Você poderia vir. Quem sabe meus colegas não o ajudam a continuar esse projeto maravilhoso?

— Terei de recusar, Hawthorne — ele passou as mãos pelas lapelas do casaco e deu as costas — Você sabe que trabalho sozinho.

— Não era o que me parecia quando você apareceu com a senhorita Smith — a declaração do professor o fez parar. Aquele homem estava mesmo o testando. Ou talvez a pressão e indiferença da turma havia o deixado daquela forma… De qualquer forma, o Mestre logo encontraria um culpado para sua frustração. 

— Johanna é sua assistente agora.

— Mas continua sendo sua responsabilidade, como sua… — Hawthorne cerrou os olhos e inclinou a cabeça — A relação de vocês sempre me pareceu meio confusa, Oscar.

— Somos… — aquela palavra sairia amarga de sua língua. Era apenas um disfarce, embora houvesse tanta verdade quanto o que estava ocorrendo no universo — Velhos amigos. Ela está melhorando, talvez eu devesse…

Ele não podia se livrar dela. Temia até pensar naquilo com base nas consequências que teria para seu corpo. Aquele formigamento transformou-se em um tremor no fundo dos ossos, de modo que o Mestre pareceu sentir os próprios dentes batendo uns contra os outros. Era tão estranho como algo que o queimava por dentro podia ser tão frio às vezes.

— Leve-a para casa por mim hoje, por favor — pediu o professor, puxando o próprio relógio de bolso. Ele caminhou a passos largos para fora da sala — Tenho que terminar de corrigir algumas provas, e irei para o encontro com a Sociedade Científica. A senhorita Smith está…

— Na biblioteca, eu suponho — o Mestre completou enquanto o seguia, e o professor deu um sorriso.

— Se todos os alunos tivessem um anseio por conhecimento como o dela ao invés de apenas buscar por status… — o homem suspirou — Preciso ir, Oscar. Você foi realmente bem hoje. Continue assim, e você pode conseguir mesmo uma cadeira aqui na universidade. 

Como ele diria que aquela era uma das coisas que mais o repudiavam naquela época? Bom, ele sequer precisava responder. Se seu plano funcionasse ou fracassasse, acabariam levando-o para o mesmo caminho: para longe do século XIX e do disfarce entediante e submisso de Oscar Jones.

— Seria uma honra — o Mestre se forçou a dar um sorriso, mas não a mostrar os dentes, aquilo já seria demais.

Hawthorne deu um tapinha em seu ombro e passou pela porta, seguindo à esquerda, na direção do próprio escritório, enquanto o Mestre virou a direita, caminhando preguiçosamente para as escadas que levavam até a biblioteca. Tudo o que menos queria era ter que cruzar com Johanna Smith novamente, ainda mais falar com ela.

Era uma vitória quando conseguia passar um dia sem encontrá-la, seja no casarão ou na universidade. Ele deveria se sentir péssimo, já que tinha um dever a cumprir com ela, mas a Promessa, por mais que o obrigasse a cumprir um dever, não alterava suas emoções quanto a ele.

Senhores do Tempo e suas punições.

Havia sido difícil no começo, quando ela ainda era extremamente dependente dele. Ele havia sentido um certo prazer naquela época com a ideia de que ela estava na palma da mão dele. Embora ainda mantivesse um pouco da mesma personalidade arisca e desconfiada, ela sempre corria até ele, cheia de perguntas e… sentimentos. Até que ele começou a se cansar, e ela a se acostumar com aquela vida. A cada dia que se passava, os dois estavam cada vez mais no limite, e a distância havia sido a melhor decisão para restabelecer o equilíbrio da situação em que haviam se colocado.

Ele não deveria ter concordado em fazer a Promessa. E ela não deveria tê-lo obrigado a se colocar naquela posição, porque ele não tinha outra opção senão zelar por ela, quando o motivo pelo qual tudo havia começado era para destruí-la ainda mais.

O Mestre definitivamente odiava a Doutora mais do que tudo no universo. Mas Oscar Jones tinha a missão de proteger Johanna Smith. E, como exímio espião, ele sempre se entregava completamente aos seus disfarces.


  Os trovões não estavam mais tão fortes do lado de fora. O relógio marcava quase sete da noite quando o professor Hawthorne terminou de corrigir a última prova de geometria, colocando junto com as outras, perfeitamente organizadas. Johanna teria mais um dia sem muito trabalho, mas a garota era boa demais para ficar apenas organizando as coisas dele.

Hawthorne gostaria que ela pudesse fazer o que realmente gostava. Ele era o único que havia visto o lado científico de Johanna Smith, quando ela e Oscar Jones cruzaram seu caminho como uma dupla não muito convencional de pesquisadores precisando de fundos. Ele não se lembrava muito bem de como sua relação com eles havia se iniciado, apenas que confiava cegamente neles, e que gostava bastante de Johanna. Uma jovem à frente de seu tempo. Mas que dificilmente passaria dos limites da biblioteca da universidade ou de seu escritório. 

Levantou-se da cadeira ao som de mais um breve trovão, e resolveu aproveitar que a chuva havia parado por hora para se apressar e encontrar o cocheiro que o esperava na carruagem do lado de fora. Pobre Williams, ele pensou. Exposto ao frio e relento daquela forma… Embora o clima chuvoso do outono se apresentasse daquela forma típica, ainda parecia bastante injusto com um de seus empregados mais fiéis.

Apagou as velas e fechou a porta do escritório, encontrando os corredores vazios da universidade, iluminados pelos breves relâmpagos e pela meia luz das velas presas aos arandelas nas paredes. Hawthorne se encolheu no casaco com o frio da noite e pôs-se a acelerar os passos.

A universidade estava praticamente vazia naquele horário da noite e o encontro com a Sociedade Científica costumava ser sempre naquele horário. Era, normalmente, um encontro na casa de um dos membros para um jantar e um chá seguido de trocas científicas e boas conversas.

De qualquer forma, andar pela universidade naquele horário ainda era meio incômodo. Ainda mais pelo fato de Hawthorne não sentir que estava completamente sozinho. Ao descer as escadas, uma parte dele jurou ter ouvido o som de algo se arrastando, e quando um relâmpago cortou o céu, iluminando brevemente o corredor, uma figura pareceu se mover por entre as sombras.

Não era um homem supersticioso, muito pelo contrário. Acreditava na ciência, e a separava da religião ao qual havia sido educado e criado desde criança. No entanto… um arrepio passou por seu corpo, e não foi por conta do frio. Seus passos se apressaram na direção da saída, até que o guincho do portão de ferro ecoou, fechando-se por conta do vento. 

Ou… outra coisa.

Hawthorne parou, ouvindo aquele som de arrasto. Um timbre áspero preencheu seus ouvidos, mas não do tipo incômodo, e sim do tipo que representava algo pesado demais para estar se movendo. Não havia mais nenhum professor ali, sequer funcionários realizando um trabalho pesado como o que parecia pelo som.

Foi quando ele sentiu algo agarrando seu braço esquerdo, e mais um relâmpago brilhou, trazendo consigo o som do trovão, naturalmente mais lento que a luz. Hawthorne virou a cabeça para o lado, sentindo o pulso preso por algo rígido como pedra.

Ele sequer teve tempo de erguer o olhar para seu captor antes que o mundo ao seu redor começasse a girar e, de alguma forma incompreensível, o tempo se dissolvesse, levando-o junto.

Notes:

E VEIO AI!!!!!! já peço perdão pelo capítulo grande, não sei escrever pouco quando tô realmente empolgada em alguma coisa KKKKK
a ideia desse capítulo foi mais um slice of life (como já temos nas tags), mas também introduzir o mistério que vai mover parte da história, espero que não tenha ficado muito cansativo 🙏🏻
alguns capitulos tbm vão ter o nome de alguns episódios, e eu espero que vocÊs peguem as referências ao decorrer!
obrigada por terem lido até aqui!! sejam gentis nos comentários :))