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Quando as duas tiveram a ideia de aproveitar as férias de Eduarda em um local diferente, Eduarda foi a primeira a dizer que preferia passar em algum lugar no Brasil. As duas, tendo sido criadas pelas pessoas que foram, já tinham experiências em vários países da Europa, mas pouco conheciam do próprio país. Lorena gostava de advogar pela causa das belezas naturais do local onde viviam, ciente de que, para além do que gostavam de fazer a população acreditar, o Brasil possuía cartões postais que deixavam muita paisagem europeia no chinelo, e ela estava disposta a conhecer o máximo possível agora que tinha a melhor companhia para isso.
Assim, não foi muito difícil decidir para onde queriam ir a partir disso. A época, é claro, foi um fator determinante. Era junho. E elas estavam indo prestigiar o maior São João do Maranhão.
— Duda, você tem certeza que pegou tudo? — Lorena questionou quando as duas se viram no Aeroporto Internacional Marechal Cunha Machado. As duas viajavam apenas com uma mala e uma bagagem de mão cada, o que foi um certo desconforto para Lorena, que gostava de ter opções. Eduarda acabou a convencendo de que poderia aproveitar a cultura local para aumentar seu guarda roupa, o que ela desconfiava que era apenas uma forma de reduzir a bagagem.
— Peguei sim, amor — Eduarda se aproxima dela, arrastando sua mala, com sua mochila de grife sobre ela. Lorena vez ou outra esquecia de que Eduarda era um pouco mais patricinha que ela, de tanto ver a mulher vestida de jeans e camiseta para trabalhar.
Mais motivos para Lorena se esforçar para fazer aquelas férias serem inesquecíveis. Era a primeira vez que as duas tiravam férias juntas desde que casaram, e era importante para ela que tudo saísse exatamente como planejado.
— E você tem certeza que consegue dirigir até o apartamento da sua amiga? — Lorena questiona, ainda um pouco hesitante com ideia de permitir que Eduarda dirija em um cidade diferente e desconhecida. — Porque a gente poderia cancelar o aluguel do carro e ir de Uber, como todos os turistas, sabe…
— Claro que eu consigo — Eduarda fala, exalando confiança no seu sorriso aberto. — Não precisa se preocupar, amor, vai dar tudo certo.
— Eu espero.
As duas caminham para a saída do aeroporto, se dirigindo até o local onde era possível ver alguns taxistas. A locadora da qual tinham alugado o carro era ali do lado, mas não era possível caminhar até lá com as malas.
— Que horas mesmo você disse que deveríamos ir para a apresentação? — Eduarda pergunta, quando as duas enfim conseguem usufruir do ar condicionado do carro alugado.
Lorena estava começando a perceber que a cidade tinha um clima bem diferente do que estava acostumada em São Paulo, apesar de ter sempre uma brisa gostosa que até fazia ela quase querer abrir as janelas.
— De acordo com a Juliana, a partir das nove — Eduarda responde, configurando o GPS para encontrar o apartamento onde ficariam durante aquela semana, supostamente localizado em um lugar chamado Olho D'água.
Lorena olhou para seu relógio de pulso, percebendo que estava se aproximando das uma da tarde, e elas ainda precisavam comer. Eduarda tinha se recusado a comer no aeroporto, alegando que precisava de uma opção com comida de verdade.
— Tempo suficiente para a gente parar pra comer e descansar um pouco antes de chegar, eu imagino — Lorena comentou, supondo que em uma capital tão menor que São Paulo a mobilidade pudesse ser mais favorável aos seus planos.
— Acho que sim — Eduarda respondeu, abrindo um sorriso ao perceber a quantidade totalmente razoável de minutos de deslocamento, totalmente diferente do que seria em São Paulo. — Mas a Ju também disse que tem um restaurante ótimo no shopping que fica no nosso caminho, então melhor acreditar, né?
Lorena assentiu, não tão confiante quanto deveria, visto que tinha que levar a super confiança exagerada de Eduarda com certa dúvida às vezes, para manter as duas seguras. Tinha perdido as contas de quantas vezes acabaram em situações desfavoráveis porque Eduarda jurou de pés juntos que algo seria interessante.
O shopping, claro, não era tão grande quanto os que estava acostumada a frequentar em São Paulo. As duas apenas se surpreenderam com a quantidade de adolescentes usando uniforme escolar de escolas claramente privadas e um número acima do aceitável de jovens adultos que, pela animação, eram provavelmente calouros da faculdade mais próxima. Eduarda tinha informado que havia duas na vizinhança. Eles falavam alto, animados demais, e se aglomeravam em bandos pela praça de alimentação.
— Olha, amor, você deu sorte — Eduarda falou animada, apontando para um restaurante informando variações de saladas que até pareciam até apetitosas, se Lorena fosse sincera. — Pelo menos você tem opções.
— Fico feliz em saber disso.
— Mas acho que eu vou escolher algo dali, olha… — Eduarda apontou para o lado oposto da praça de alimentação, em um canto mais afastado onde era possível ver um restaurante com uma estética meio exagerada em vermelho e preto, com funcionários do lado de fora entregando folhetos. — Achei mais a minha cara.
— Se você pretende comer um animal assado, claro — Lorena brincou. — Mas você pode ir lá adiantar seu pedido, não quero demorar muito por aqui, preciso muito de um banho.
Eduarda assentiu, concordando, e saiu na direção do restaurante, atraindo os olhares de diversos dos adolescentes amontoados ali por perto. Lorena revirou os olhos ao perceber que, infelizmente, ela atraía pessoas dos dois gêneros.
Enquanto esperava seu pedido, Lorena percebeu que, fora o restaurante que Eduarda tinha escolhido, um outro com nome de adjetivo pátrio era a escolha da maioria.
As duas comeram rápido, ambas cansadas da viagem e ansiosas para se verem livres das roupas sujas da viagem e loucas por um banho. Apesar da pressa, ainda precisaram visitar o supermercado mais famoso da cidade para comprar algumas coisas que precisariam durante aquela semana.
— Você não acha estranho um supermercado dentro de um shopping estar tão lotado em pleno meio dia? — Eduarda questiona, apontando para a multidão na frente dos vários caixas e ainda mais espalhados pelo espaço amplo.
Lorena observa também, percebendo que ela estava certa. Tinha mesmo muita gente ali.
— Aproveite, aproveite, quarta feira no Mateus é assim, promoção no Hortifruti e preço baixo garantido, só aqui! Quarta feira no Mateus! — A voz do locutor soou pelo espaço, respondendo as dúvidas das duas como se ele pudesse adivinhar o que pensavam.
— Bom, isso explica a multidão — Lorena aponta, soltando uma risada. — Mas você notou que a maioria das pessoas parece ser muito nova?
— Com duas faculdades aqui perto, eu imagino que seja um bairro recheado de jovens do interior do estado — Eduarda comenta, olhando em volta também enquanto Lorena escolhia um carrinho. — A Juliana comentou que é uma cidade cheia de universitários por conta disso. Muitos estudantes do interior e até mesmo de outros estados.
Lorena assentiu, percebendo que fazia sentido mesmo.
As duas se distanciaram um pouco dos caixas, dando uma volta para chegar ao Hortifruti, já que estava em promoção. Eduarda tratou de ir escolhendo as outras coisas, se afastando um pouco.
Aproveitando o tempo sozinha, Lorena escolheu tudo que precisava enquanto revisava mentalmente seu planejamento para a semana. Elas queriam, além de ver o arraial da cidade naquela noite, aproveitar o tempo na capital para conhecer o Centro Histórico, que era um grande cartão postal da cidade e, quem sabe, curtir algum dia de praia. Lorena ouviu falar que naquela época algumas ainda não estavam próprias para banho, mas veria isso quando chegasse lá. De qualquer forma, as duas aproveitariam a vista e quem sabe uma água de coco.
— Amor, você não vai acreditar! — Eduarda apareceu atrás dela com as mãos lotadas de… palitos de camarão? — Tá rolando uma degustação de camarão ali atrás, e de pizza, e tem esses docinhos de goiabada aqui…
Lorena aceitou o doce de goiabada, apesar de não ter certeza de que não continha leite, comendo apenas o doce por cima.
— E você trouxe todos os que conseguiu carregar? — Perguntou, rindo das mãos cheias de sua esposa.
— Bom, sim — Eduarda falou, dando de ombros enquanto comia mais um camarão inteiro. Até Lorena podia admitir que estava realmente atrativo. Se ela comesse, provavelmente levaria alguns. — A senhora insistiu muito, e quando eu falei que ia pegar um pra minha esposa ela encheu minhas mãos.
— Sendo assim… — Lorena capturou mais um doce de goiaba, saboreando esse por mais tempo. Era a melhor goiabada que já provou na vida.
— Se você gostou dessa goiabada aí, devia provar as que vende na feira da Cidade Operária, minina! — Uma senhora baixinha falou, parando ao lados das duas com uma expressão quase ofendida para o doce nas mãos de Lorena. — Isso sim é goiabada de verdade, não essas daí que vende por aqui.
— Sério? — Eduarda pergunta, subitamente interessada nessa tal feira. — E isso é muito longe daqui?
— Que nada, minha filha! Pertinho! — A mulher falou, deixando seu carrinho de lado para falar com as duas. — Só é bom ir bem cedinho, porque tá sempre chei' de gente e é ruim pra estacionar!
— É mesmo? — Eduarda pergunta, incentivando ela a falar mais.
— Vocês não são daqui, né? Tô ouvindo um sotaque aí — a mulher fala, sorrindo abertamente agora. — Se posso me meter e dar um conselho, se vocês forem conhecer o Centro Histórico, tentem ir em dia de feirinha, sempre tem um sambinha. Acho que cês vão gostar.
— Nossa amiga falou bastante sobre isso! — Lorena falou. — Ela contou também sobre a Praça dos Poetas e o Mercado das Tulhas.
— Nesse caso, filha, se vocês se incomodar com zoada melhor ir dia de semana, porque lá fica cheio e não dá pra ver nada pra comprar!
— Anotado, então — Lorena fala. — E tem alguma chance de a gente topar com a tal serpente por lá?
Ela brincou, já sabendo da lenda que envolvia a cidade.
— Ihhhh, minina… — a moça fala, sorrindo. — Só se for aquela da Lagoa da Jansen!
E seguiu com uma gargalhada espalhafatosa.
— Serpente? — Eduarda questiona, confusa.
— É que tem uma lenda que fala que a ilha é rodeada por uma serpente que vive nas galerias da cidade. O povo fala que a cabeça da bicha tá na Fonte do Ribeirão e o rabo na Igreja de São Pantaleão. Aí quando a cabeça tocar o rabo, ela afunda a ilha — A mulher explica, falando sério como quem acredita em cada palavra que diz.
Eduarda ouviu tudo de boca aberta, genuinamente surpresa com a informação.
— Caramba…
— Pois é, minina, mas isso é só estória pra boi dormir, não liga pra isso não. Vão lá conhecer as coisas e comprar uns pano de mesa, uns artesanato…
As duas riram, sendo acompanhadas pela senhora, que seguiu dando conselhos para a estadia das duas em São Luís.
O apartamento de Juliana era pequeno, padrão para uma adulta morando sozinha e recém formada, mas atendia perfeitamente às necessidades das duas, que praticamente voltariam lá apenas para dormir, se fossem seguir o itinerário que Lorena preparou.
— O que você achou da cidade? — Eduarda questionou, se apoiando na bancada, deixando os cotovelos sobre o mármore, assistindo Lorena se aproximar com passos lentos e felinos, os olhos verdes cravados nos seus com uma intensidade que, mesmo depois de meses juntas, ainda a derretia e desmontava da mesma forma que na primeira vez que a viu.
— Até agora, tô achando tudo bem agradável — Lorena fala, um sorriso perigoso se abrindo em seus lábios, fazendo um arrepio percorrer o corpo de Eduarda em antecipação. — Claro, não vimos muito. Os arredores do aeroporto, por exemplo, parecia ser mais um tipo de distrito de empreendimentos automotivos. Nunca vi tantas oficinas juntas.
— Nossa, sim? — Eduarda concordou, abrindo os braços para que Lorena se encaixasse ali, deixando suas mãos descansarem em sua cintura esguia por cima da camiseta larga que Lorena usava. — E as lojas de mangueiras?
— Eu nem sabia que tinha tanta procura assim!
— Fiquei confusa também — Eduarda assiste Lorena se aproximar, ainda sorrindo e, definitivamente, não ligando mais para o papo sobre lojas.
— É? — Lorena perguntou, agora pressionando seu corpo quente ao de Eduarda, que tinha acabado de sair do banho e ainda estava com a pele meio fria.
— Sim? — Eduarda perguntou, meio boba, sem nem ao menos se lembrar de qual era o assunto mesmo, porque agora Lorena tinha descido seu sorriso pela mandíbula de Eduarda, mordiscando em um caminho certo para seu pescoço.
Eduarda reagiu, descendo as mãos um pouco mais, apertando Lorena para ouvir um gemido abafado em seu pescoço.
— Acho que dá pra aproveitar um pouquinho essa tarde em casa… — Eduarda falou, subindo uma de suas mãos para o pescoço de Lorena para a puxar para um beijo lento com sabor de pasta de dente e de casa.
À noite, as duas estavam já um poço de ansiedade. Se arrumaram ao estilo mais junino possível, usando suas camisas de botão xadrez e calças jeans, as duas já acostumadas a usarem coturnos para combinar. Juliana tinha aconselhado que não saíssem muito tarde, visto que não estavam exatamente perto do Centro Histórico, onde ocorria a festa, portanto às sete elas já estavam prontas.
Todo o percurso até lá foi tranquilo, apesar de ser visível que havia um certo fluxo de pessoas tomando a mesma direção que elas.
Elas já tinham visto fotos de alguns locais quando pesquisaram atividades para se fazer naquela época, então tinham uma vaga ideia do que esperar, mas nada se igualava ao choque de ver com seus próprios olhos o quão investidos eles eram com aquela comemoração. Tudo parecia transformado para que pudessem perceber o quanto aquela festa fazia parte da rotina daquela época.
— O que será aquele casarão ali em cima? — Eduarda questiona quando finalmente consegue um local para estacionar em um estacionamento privado não muito distante de onde ficariam. — É… bem grande.
— Pelas minhas pesquisas, deve ser o Convento das Mercês — Lorena explicou, observando a construção iluminada numa parte um pouco mais alta, toda em vermelho com detalhes brancos, a estrutura lembrando aquelas casas de fazenda que ela costumava ver em novelas de época. — A construção começou em 1654, e era um convento de taipa e palha. Um tempo depois, reformaram e depois disso passou por várias mudanças até ser o que é hoje.
— Você pesquisou mesmo, né? — Eduarda brincou, segurando a esposa pela cintura para que fossem para o local onde veriam as apresentações.
— Na verdade, fiquei bem interessada pela cultura local — Lorena comentou, contente em poder falar sobre isso. — É incrível a quantidade de artistas que saíram daqui e foram reconhecidos, pensa só no tanto que simplesmente não é vista por causa do preconceito com essa região e a centralização da cultura valorizada apenas no sudeste…
— Bom, isso é verdade — Eduarda concorda, trazendo Lorena para mais perto quando precisam atravessar a rua movimentada. — É como a própria festa de São João. Aparentemente, aqui a cultura de Boi é algo muito mais presente do que estamos acostumados a ver ou ficar sabendo. Aqui, é uma tradição de família, passada de geração em geração.
— E isso que é mágico, né? — Lorena aponta, virando para a ruiva por um instante, pausando sua caminhada, desviando de pessoas que passavam por elas com pressa. — Eu pesquisei sobre alguns, e a maioria tem uma ligação profunda com as origens de bairros, com a cultura e comércio local, com a expressividade de pessoas que cresceram nesse meio, passando a cultura de pai para filho.
— E você quer saber a melhor parte? — uma voz soa ao lado delas, fazendo Lorena se aproximar de Eduarda novamente quase que por impulso. — Desculpa, não consegui deixar de ouvir.
— Tudo bem, não tem problema — Lorena fala, sorrindo para a mulher negra parada à sua frente, usando roupas tão expressivas e coloridas que Lorena não conseguia desviar o olhar. Ela usava tranças longas enfeitadas com diversos adereços dourados que destacavam sua beleza e ainda davam um certo ar de poder e imponência que poucas pessoas passavam estando tão relaxadas.
— É, pode falar! — Eduarda incentiva, aceitando o braço que Lorena lhe oferece para segurar.
A mulher assentiu, sinalizando para seu grupo que já ia se encontrar com eles.
— É que ouvi vocês conversando, e decidi me meter — A mulher justificou, sorrindo para as duas amigavelmente. — Mas, sobre os Bois, posso concordar com vocês. Existe uma magia, ou o que quer que você acredite, que move e motiva esses movimentos, mantendo eles vivos através das gerações. Aqui, o velho que bate matraca e canta é o mesmo que ensina o neto, desde bebê, a bater o tambor e cantar. Nossas crianças são frutos de uma cultura linda, cheia de história e tradição mas, acima disso, muito amor. Tanto pela nossa história, quanto pelas pessoas que nos contam elas. Existe uma ligação muito bonita entre religiosidade, principalmente com religiões de matrizes africanas, e os terreiros, a presença familiar e a tradição ludovicense.
— Eu não consigo imaginar como deve ser crescer tão inserido assim em algo tão bonito — Lorena falou, ainda admirada com a forma que a mulher se portava e como falava.
— Bom, eu sei que vocês são turistas — a mulher falou, apontando o óbvio de uma forma tão natural que nenhuma das duas levou como ofensa. — Então, se tiverem interesse em saber um pouco mais sobre a cultura, sobre a nossa história e sobre o nosso fervor, tentem visitar a Liberdade. Vocês podem entrar em contato comigo, se precisarem de uma guia.
— Acho que a gente pode tentar encaixar nos nossos planos, não é? — Lorena fala, virando para Eduarda em expectativa. — Qual o seu nome mesmo?
— Karina — A mulher fala, estendendo a mão cheia de anéis dourados dos mais variados tamanhos e formas. — Quem sabe a gente não toma uma cerveja um dia desses no maior Quilombo Urbano do país?
— Você tá falando do Quilombo Liberdade, não é? — Lorena questiona, afoita por ouvir mais do que aquela mulher tinha a dizer.
— Isso mesmo — Karina assentiu, apertando a mão de Eduarda também. — Eu sou nascida e criada na Liberdade, e vai ser uma honra ter vocês lá com a gente. As pessoas aqui costumam ver a região apenas como uma periferia conhecida por índices de criminalidade, mas tem uma história e uma cultura por trás que excede qualquer preconceito enraizado.
— Vai ser um prazer aprender mais sobre algo tão lindo assim — Eduarda quem fala, abrindo um sorriso educado para a mulher. — Eu sou Eduarda, essa é a minha esposa, Lorena. A gente pode trocar contatos e com toda certeza vamos aparecer pela Liberdade.
As duas terminaram de se apresentar e marcar aquele encontro, e então seguiram com o plano inicial de assistir às apresentações da noite. Sabiam que teria alguns shows simultâneos, mas não estavam tão interessadas nisso. O que queriam mesmo era absorver o máximo possível da cultura local.
A energia do arraial era algo que nenhuma das duas tinha antecipado. Era como se todas aquelas pessoas estivessem conectadas, todas entoando o mesmo som, cantando animadas enquanto a apresentação seguia. Não havia ninguém parado, ninguém que conseguisse resistir à força do que era dito através daquela arte, quase como se o poder fosse tão maior do que as diferenças que existiam entre todos ali.
Lorena se percebeu balançando no ritmo, observando Eduarda fazer o mesmo, as duas totalmente sem sincronia ou talento para aquilo, mas se divertindo muito mesmo assim.
— É tão lindo, né? — Eduarda grita por cima do tambor que soava forte, fazendo Lorena estremecer e senti-lo dentro de si, como o pulsar do seu próprio coração.
O som de um instrumento que Lorena não conhecia soava mais forte, marcando um ritmo acelerado e caloroso que fazia as duas olharem para os lados, vendo as pessoas que assistiam dançarem também.
As cores vivas das vestimentas, carregadas de história e tradição na forma que eram feitas, se destacavam no público. Os brincantes tinham idades diferentes, entre idosos e adolescentes, com algumas crianças circulando junto, e fazia tudo parecer bem mais unido assim.
— É… maravilhoso — falou encantada, incapaz de se afastar para ver qualquer coisa que fosse, presa na atração desmedida que estava sentindo pelos movimentos, pela música, pela energia das pessoas.
Eduarda se aproximou mais de Lorena, passando um braço pela sua cintura enquanto as duas assistiam praticamente sem piscar, ambas tão vidradas que perderam a aproximação de alguém que também se destacava na multidão.
— Boa noite! — O homem teve que gritar, surgindo ao lado delas de repente, um sorriso enorme no rosto enquanto apontava para o cinegrafista atrás de si, que carregava uma câmera enorme e uma mochila com equipamentos. — Nós somos da TV Mirante, afiliada à Rede Globo. Nós notamos que vocês são turistas, tudo bem ceder uma entrevista para a nossa matéria sobre o Arraial da Cidade?
Eduarda sorriu animada, se voltando para Lorena para se certificar de que ela tinha interesse e estava confortável com a ideia. O repórter, por outro lado, ficou observando as duas com um sorriso educado e claramente ansioso, destacando para elas sua animação com a possível matéria.
— Tudo bem por você, Duda? — Lorena perguntou para confirmar, sorrindo ao ver a esposa assentindo.
— Claro! Nunca dei uma entrevista antes! — falou animada, já passando as mãos pelos cabelos para arrumar.
— Ótimo, então — O repórter falou, se aproximando e cochichando algo com o cinegrafista. — Meu nome é Rodrigo, a gente vai fazer só algumas perguntas sobre a festa, nada demais. Se vocês não estiverem confortáveis com alguma é só avisar, a gravação vai ser editada e entrar no ar amanhã no nosso jornal local do meio dia, a nossa primeira edição.
As duas assentiram e deixaram com que eles arrumassem os detalhes mais técnicos enquanto se posicionavam melhor para iniciar a gravação. Ao fundo, o Boi de Maracanã se preparava para entrar no espaço demarcado para as apresentações.
Finalmente, Rodrigo sinaliza para que elas se posicionem onde a iluminação está melhor e avisa que vai iniciar a gravação.
— Boa noite! Estamos aqui com a Eduarda e a Lorena, vindas diretamente da cidade de São Paulo para conhecer as maravilhas da Ilha do Amor! — Ele faz a introdução, apontando para as duas enquanto fala. — Me contem aqui, é uma viagem de Lua de Mel, férias… O que trouxe vocês até aqui?
— Era uma viagem de férias, mas agora que você falou… — Eduarda é quem responde, rindo um pouco. — Talvez seja uma Lua de Mel mesmo, nós casamos recentemente.
Lorena assente ao seu lado, sorrindo.
— E o que vocês estão achando da cidade? Conta para a gente, Lorena — O repórter incentiva, dando uma direcionada para que elas se dividissem nas respostas.
— Nós chegamos hoje! Por enquanto, tudo está sendo muito agradável. A cidade é linda, e nós ficamos encantadas com as belezas do Centro Histórico. Não pudemos conhecer muito ainda, mas pretendemos passear um pouco mais até o fim da viagem — Lorena respondeu, soando muito mais calma e contida que Eduarda, que estava visivelmente mais animada com a situação toda.
— Nós recomendamos muito os passeios, São Luís tem muitos atrativos! — Rodrigo falou, se preparando para sua próxima pergunta. — Mas o que vocês estão achando da festa?
— A gente nunca viu nada assim! — Eduarda falou, olhando em volta para enfatizar. — As pessoas são tão animadas, as apresentações são lindas, as músicas então… Todas contam uma história, né? Eu nem sei no que prestar atenção primeiro. É legendário!
Lorena riu ao seu lado, empurrando a esposa com o ombro enquanto o repórter prendia a risada.
— Acho que você quis dizer lendário, amor.
— Não, é legendário mesmo! — Eduarda reafirma, olhando diretamente para a câmera com um sorriso doce e levemente arteiro que derretia Lorena. — Isso aqui é incrível! A gente com certeza volta pra São Luís em outros momentos.
— Sim, acho que temos tanta coisa para ver! — Lorena concorda, abraçando a ruiva de lado. — Eu nem acredito que estou aqui mesmo…
— Isso é ótimo, meninas, esperamos que vocês consigam aproveitar bem a viagem, e que voltem o mais breve possível! — O repórter falou, tendo conseguido o que queria para a matéria. — Obrigada por falarem com a gente!
