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As velas estavam baixas, mas ainda não tinham se apagado.
Jaime estava olhando para o teto há tanto tempo que já havia perdido a noção das horas — tempo suficiente para ouvir a respiração de Brienne se aprofundar, estabilizar-se e se transformar no ritmo lento de quem dormia sem peso nenhum. Ela estava de costas para ele, de lado, o ombro largo subindo e descendo devagar.
Ele não a tocou.
Ficou do seu lado da cama, de barriga para cima, os olhos fixos no teto de madeira escura, esperando que o silêncio fosse suficiente para esvaziar alguma coisa dentro dele.
Não foi.
“Vim até você para te encontrar, te dizer que sinto muito.” (Come up to meet you, tell you I'm sorry.)
Cersei.
Não foi uma escolha. Nunca era — ela simplesmente aparecia, como sempre aparecia, sem pedir licença, sem aviso, ocupando cada canto que ele tentava manter vazio. O rosto dela. A voz. A forma como ela o olhava quando estavam sozinhos e deixava cair toda a armadura, toda a performance de rainha, voltando a ser apenas ela.
“Você não sabe o quanto é adorável.” (You don't know how lovely you are.)
A beleza de Cersei era uma lenda em Westeros — uma lâmina impecável que ela usava como arma contra o mundo. Mas não era essa perfeição distante que mantinha Jaime acorrentado a ela. O que o devorava desde a infância era algo que a própria Cersei não conseguia enxergar: a beleza da vulnerabilidade crua por trás da fúria, a humanidade desarmada que ela só deixava transparecer quando estavam a sós. Para o resto do reino, ela era a rainha inatingível; para ele, era uma fascinação antiga, profunda e perigosa. Algo que nenhuma distância, nenhuma guerra e nenhuma noite nos braços de outra pessoa jamais conseguiram apagar.
“Eu tive que te encontrar. Te dizer que preciso de você.” (I had to find you, tell you I need you.)
Precisava.
Esse era o problema — não era querer, não era escolher, não era nada que pudesse ser racionalizado ou desmontado. Era precisar. Do tipo que não pergunta se é certo ou errado, que não consulta a razão antes de se manifestar.
Ao seu lado, Brienne respirava devagar.
Ele continuou olhando para o teto.
“E te dizer que sempre te coloquei à parte de tudo.” (And tell you I set you apart.)
Não havia comparação possível. Nunca havia. Cersei não competia com ninguém porque nunca esteve na mesma categoria que os outros — ela existia em um lugar dentro dele que ele nunca tinha conseguido nomear direito, mas que reconhecia toda vez que tentava se afastar e não conseguia. Todo o resto da vida tinha acontecido ao redor disso. Não por causa disso, não apesar disso — ao redor. Como se ela fosse o centro fixo e tudo mais, absolutamente tudo, fosse apenas órbita.
Ele virou o rosto levemente. Não para Brienne — para o lado oposto. Para a chama de uma das velas que morria devagar em uma corrente de ar vinda de algum lugar invisível.
Os segredos deles não eram coisas que se contavam. Eram coisas que se carregavam — no corpo, no silêncio, no espaço entre uma palavra e outra. O relacionamento que o mundo não podia saber. Os filhos que ele nunca pôde chamar de seus em voz alta, nunca pôde apresentar, nunca pôde lamentar do jeito que um pai lamenta.
“Me conta seus segredos.” (Tell me your secrets.)
Joffrey. Myrcella. Tommen.
Três nomes que ele repetia dentro da cabeça às vezes, sozinho, só para não esquecer que eram reais. Três mortes que ele tinha engolido em silêncio porque o segredo não permitia o luto — porque lamentar publicamente teria sido confessar, e confessar teria sido destruir tudo o que Cersei tinha construído a um custo tão alto.
Então ele guardou. Como guardava tudo o que era deles.
Só ela entendia o tamanho disso. Só ela podia entender.
“E me faça suas perguntas.” (And ask me your questions.)
As perguntas que ela nunca fez em voz alta, mas que ele via nos olhos dela toda vez que voltava. Por que você demorou tanto? O que aconteceu com você lá fora? Você ainda é meu? Perguntas que doíam mais do que qualquer acusação, porque vinham de um lugar onde ela não tinha defesa nenhuma — onde era só Cersei, sem armadura, esperando uma resposta que ele não deu e nem saberia dar.
“Vamos voltar para o começo.” (Oh, let's go back to the start.)
Antes de tudo isso. Antes das perdas.
“Correndo em círculos, tirando coroas.” (Running in circles, coming up tails.)
Era o que eles faziam — o que sempre tinham feito. Ele foi para a Guarda Real e a deixou sozinha em King's Landing com um rei que a odiava. Voltou e ela já tinha aprendido a sobreviver sem ele. Foi capturado, passou meses achando que ia morrer longe dela, voltou sem a mão e com metade de si mesmo faltando. E então foi para o Norte.
E ela estava lá. Sempre estava.
Com raiva, às vezes. Com frieza, em outras. Com aquele olhar que cortava mais do que qualquer espada. Mas estava lá — e essa era a única constante que o mundo tinha lhe dado.
“Tirar cara é uma arte à parte.” (Heads on a science apart.)
Seria quase impossível. Escolher diferente, cair do outro lado, parar o círculo — exigiria algo que ele não tinha certeza de possuir. Talvez nunca tivesse possuído. A moeda girava no ar e ele já sabia o resultado antes de ela pousar. Sempre soube.
Jaime fechou os olhos.
Não para dormir — para ver melhor. Quando estava escuro assim por dentro, ela aparecia com mais nitidez. O rosto de Cersei. A linha da mandíbula, os olhos verdes, a boca que sabia exatamente o que fazer com cada palavra antes de soltá-la.
“Ninguém disse que seria fácil.” (Nobody said it was easy.)
Não. Nunca tinha sido. Amar Cersei tinha um custo que ele pagava em parcelas desde que era jovem o suficiente para não entender o tamanho da conta — a Guarda Real, o isolamento, os filhos que não podia reconhecer, a reputação destruída, a mão. Sempre havia algo sendo cobrado. O mundo não deixava aquilo existir de graça.
“É uma pena nos separarmos.” (It's such a shame for us to part.)
Cada separação tinha deixado uma marca. Não era figura de linguagem — era físico, era real, o tipo de coisa que ele sentia no corpo quando a distância entre eles crescia demais. Uma falta de ar que você aprende a ignorar, mas que nunca sumia de verdade. Ele tinha ficado bom em ignorar. Tinha ficado bom em muita coisa que não deveria precisar aprender.
“Ninguém disse que seria fácil. Ninguém disse que seria tão difícil.” (Nobody said it was easy. No one ever said it would be this hard.)
Ele abriu os olhos.
O teto de madeira escura ainda estava lá, as velas ainda queimavam, e Brienne continuava respirando devagar ao seu lado. Tudo igual. Mas dentro dele alguma coisa tinha se assentado — limpa, direta, sem margem para dúvida. A decisão estava tomada. Provavelmente sempre esteve.
“Me leve de volta para o começo.” (Oh, take me back to the start.)
Ele jogou o cobertor de lado.
Sentou-se na beirada da cama devagar, com cuidado para não fazer barulho. Ficou ali por um segundo — os pés no chão frio, as mãos nos joelhos, a cabeça baixa. Depois se levantou.
Vestiu-se em silêncio, peça por peça, sentindo o metal frio contra os dedos. O corpo executava os movimentos de memória — tinha feito aquilo tantas vezes, em tantos lugares diferentes, que não precisava pensar.
Em algum momento olhou para ela. Foi breve, direto. O ombro largo, a respiração estável, o rosto relaxado de um jeito que raramente ficava quando estava acordada. Ela dormia como quem não devia nada ao mundo.
Ele desviou o olhar e continuou a se vestir.
“Eu estava apenas tentando calcular números e figuras.” (I was just guessing at numbers and figures.)
Com Brienne tudo parecia ter uma lógica. Honra, dever, o caminho certo — ela acreditava nessas coisas com uma convicção que ele tinha perdido há tanto tempo que mal lembrava como era tê-la. E por um tempo, perto dela, ele tinha quase conseguido acreditar também.
“Desmontando as peças do quebra-cabeça.” (Pulling the puzzles apart.)
Tinha tentado encaixar as peças de uma versão de si mesmo que fizesse sentido — o cavaleiro honrado, o homem redimido, alguém digno do que Brienne enxergava nele. Mas as peças eram dele, não dela. E, no fim, as peças de um homem só encaixam de um único jeito.
O que tinha acontecido naquela noite expusera algo que ele já sabia, mas vinha evitando nomear. Perto dela ele tinha tentado ser outra pessoa — e tentado de verdade, não por cinismo nem cálculo. Mas não funcionara. No momento em que o silêncio chegou e sobrou só ele mesmo, Cersei estava lá. Como sempre esteve. Como sempre estaria.
A versão de si mesmo que Brienne enxergava não existia. Nunca tinha existido.
Ele pegou a capa e a jogou sobre os ombros. Parou na porta.
Não por hesitação — só por um segundo, só o tempo de deixar aquilo assentar de vez. O quarto atrás dele, as velas, Brienne dormindo. A vida que ele poderia ter tido se fosse outra pessoa.
Não era.
“Questões de ciência, ciência e progresso.” (Questions of science, science and progress.)
Ele entendia o argumento. Tinha ouvido versões dele da boca de Tyrion, tinha construído versões dele dentro da própria cabeça nas noites em que tentava se convencer de que havia outro caminho. O cavaleiro honrado. O homem redimido. Alguém que merecia o que Brienne enxergava nele — alguém que podia, talvez, ser o que ela acreditava que ele era.
A razão tinha argumentos de sobra.
“Não falam tão alto quanto o meu coração.” (Do not speak as loud as my heart.)
E não adiantava nada.
Porque debaixo de tudo — debaixo da razão, dos argumentos, de cada versão sensata que ele tinha tentado construir para si mesmo — havia uma coisa só que não se movia. Não importava o que Cersei tinha feito, não importava o que ele sabia sobre ela, não importava o que tinha acontecido naquela cama. O coração dele tinha sido de Cersei antes de ele saber o que era um coração.
E então veio a clareza — não como revelação, mas como reconhecimento. A diferença entre o que ele sentia por Brienne e o que sentia por Cersei não era de intensidade. Era de natureza. Brienne tinha sido um espelho — ela mostrava uma versão dele que ele queria acreditar que existia, e ele tinha confundido a admiração pelo reflexo com outra coisa. Mas espelho não é amor. Espelho é só imagem.
Com Cersei não havia imagem. Havia ele. Inteiro, com tudo o que era indefensável e impossível de justificar, sendo visto. Sendo escolhido de volta.
Sempre tinha sido assim.
Ele abriu a porta e saiu.
O corredor estava vazio. Winterfell dormia — ou o que restava da cidade depois de tudo o que tinha acontecido.
Ele atravessou sem fazer barulho, desceu as escadas e saiu para a noite. O frio cortou de uma vez, o tipo de frio do Norte que não pede licença, e ele puxou a capa com a mão boa antes de continuar andando.
Cersei estava grávida.
O pensamento apareceu com a mesma naturalidade com que ela sempre aparecia — sem aviso, sem esforço, simplesmente ali. Uma criança. Mais um filho que o mundo não ia deixar ele ter em paz, mais uma vida que ia nascer carregando o peso do amor deles. E ela estava em King's Landing, com tudo desmoronando ao redor, sozinha.
“Me diz que me ama.” (Tell me you love me.)
Ela tinha dito. Cersei não era o tipo de pessoa que dizia essas coisas facilmente — palavras assim custavam caro para ela, saíam de um lugar que ela protegia com tudo o que tinha. Mas tinha dito. Em momentos onde a armadura caía e sobrava só ela, tinha dito, e ele tinha guardado cada palavra como quem guarda algo raro.
“Volta e me assombra.” (Come back and haunt me.)
Assombrar era a palavra certa. Ela não precisava estar presente para ocupar cada pensamento dele — existia nele de um jeito que independia da distância, do tempo, de qualquer coisa física. Nos meses de cativeiro, quando achava que ia morrer, era o rosto dela que aparecia. Nas batalhas, era o nome dela que ficava. Em Winterfell, nessa noite, depois de tudo — era ela.
Sempre ela.
Os estábulos estavam logo à frente.
Ele entrou, encontrou o cavalo e começou a selá-lo. Os movimentos eram mecânicos, conhecidos — as mãos trabalhavam enquanto a cabeça já estava em outro lugar, em uma estrada que ele ainda não tinha percorrido, mas que conhecia de memória.
“E eu me apresso de volta ao começo.” (Oh, and I rush to the start.)
Ele não caminhava. Nunca tinha caminhado de volta para ela — corria, mesmo quando fingia que estava indo devagar, mesmo quando construía justificativas, rotas alternativas e razões para demorar. No fundo, estava sempre correndo. Aquela noite não seria diferente, exceto que dessa vez não havia mais nenhuma justificativa no caminho.
Só ele. A estrada. King's Landing no horizonte.
“Correndo em círculos, correndo atrás do próprio rabo.” (Running in circles, chasing our tails.)
Era um ciclo sem fim, uma busca que sempre os trazia de volta ao mesmo ponto zero. Ele tinha tentado quebrar esse círculo no Norte; tinha tentado ser o homem que Brienne enxergava — o cavaleiro de armadura reluzente, o herói capaz de recomeçar do zero e merecer uma vida limpa. Mas a tentativa de ser outra pessoa, ser quem não era, fora apenas mais uma volta ao redor do mesmo eixo.
“Voltando exatamente como somos.” (Coming back as we are.)
Porque a redenção que Brienne enxergava nele exigia um esforço exaustivo — o peso de sustentar a imagem de um homem que ele nunca fora. Com Cersei não havia tribunal moral e nem a necessidade de performar virtude. Ela conhecia cada podridão dele, cada escolha indefensável, e ele não precisava fingir. Voltar para ela era despojar-se de todas as máscaras: era retornar à sua própria natureza, nua e crua, exatamente como ela sempre foi.
Ele estava terminando de ajeitar a sela quando percebeu que Brienne estava lá.
Não olhou. Continuou o que estava fazendo — as mãos no couro, os dedos apertando a correia — como se o movimento pudesse adiar o inevitável. Brienne ficou parada ao seu lado por um momento, e ele sabia, sem precisar olhar, que ela estava sem armadura. Que tinha se vestido rápido. Que estava lá porque tinha acordado e entendido.
— Eles vão destruir aquela cidade. Você sabe disso.
— Você já fugiu de uma luta?
Ela se aproximou e tomou o rosto dele nas mãos — as duas palmas abertas de cada lado, forçando-o a olhá-la. E ele olhou. Olhou nos olhos dela.
— Você não é como sua irmã. Não é. — A voz estava firme, mas havia algo por baixo que ela segurava com esforço. — Você é melhor do que ela. É um bom homem e não pode salvá-la. Não precisa morrer com ela. Fique aqui.
“Ninguém disse que seria fácil. É uma pena nos separarmos.” (Nobody said it was easy. It's such a shame for us to part.)
A separação nunca tinha sido uma escolha dele. O mundo sempre dava um jeito de arrancá-lo de perto de Cersei — por guerras, por correntes, por deveres —, e ele sempre gastara cada gota de força para encontrar o caminho de volta. Ouvir o aviso de Brienne na penumbra do estábulo só tornava mais nítido o chamado que vinha do Sul. Cersei estava sozinha em King's Landing, com a cidade prestes a queimar e um filho no ventre. Toda vez que eles se separavam, o mundo desmoronava um pouco mais. E a cada retorno, sobrava menos deles para salvar.
Os olhos de Brienne estavam úmidos. Ela, que nunca tinha pedido nada a ninguém, que carregava tudo calada, ereta e sem reclamar — estava pedindo.
— Fique aqui comigo, por favor... Fique comigo.
“Ninguém disse que seria fácil. Ninguém disse que seria tão difícil assim.” (Nobody said it was easy. No one ever said it would be so hard.)
Olhando para o choro de Brienne, ele entendeu o preço final. Escolher Cersei nunca tinha sido uma busca por felicidade — era a escolha pelo próprio naufrágio. O amor deles era feito de escombros, de escolhas imperdoáveis e de uma ruína que pertenciam só aos dois. Brienne oferecia salvação, mas a salvação exigia que ele se tornasse um homem que ele não era. A dor de voltar para Cersei era insuportável, mas era a única dor que parecia sua.
Ele levantou a mão. Uma de cada vez, tirou as mãos dela do próprio rosto.
— Acha que eu sou um bom homem? — A voz saiu baixa, sem drama. — Eu empurrei um menino do alto de uma torre. O aleijei para sempre. Por Cersei. Estrangulei meu primo com minhas próprias mãos, só para voltar para Cersei. Teria matado cada homem, mulher e criança em Riverrun por Cersei.
O choro dela era visível agora. Ela não desviou o olhar.
Ele ficou em silêncio por um segundo.
— Ela é horrível.
Uma pausa.
— E eu também sou.
Virou-se. Montou. Não olhou para trás.
“Estou voltando para o começo.” (I'm going back to the start.)
E foi.
