Actions

Work Header

Are you here?

Summary:

Entender o que realmente aconteceu com Roier naquela montanha era a única coisa que importava para Cellbit. Ele só não esperava que a resposta destruiria seu mundo. Diante de uma versão obsessiva e distorcida do garoto que sempre amou em segredo, Cellbit se vê diante do dilema mais cruel da sua vida: aceitar a dor insuportável da verdade ou ceder ao abraço tentador de uma mentira perfeita?

Notes:

Por favor leiam as tags direitinho!! Estou muito feliz de participar desse incrivel projeto que é o guapoanime, espero que vocês gostem do que eu preparei, tenham uma boa leitura <3

Work Text:

O verão em Quesadilla nunca tinha sido tão sufocante. O ar quente e denso parecia preso dentro da sala de aula vazia, mas o suor que descia lentamente pela nuca de Cellbit era completamente frio.

 

​Ele fingia rabiscar em seu caderno de anotações, os olhos azuis fixos nas linhas do papel, mas sua atenção não estava ali. Todo o seu corpo estava tenso, em alerta, reagindo à figura parada a poucos metros de distância, encostada na grande janela de vidro da parede.

 

​Era Roier. Ou, ao menos, tinha a intenção de ser.

 

​Tinha o mesmo uniforme meio desbotado nas mangas, a mesma postura recatada, a mesma bagunça familiar nos lindos cabelos escuros segurados pela clássica bandana azul. Mas cada mínimo detalhe, quando analisado pela mente apaixonada de Cellbit, parecia ligeiramente errado.

 

​O Roier que subiu a montanha amaldiçoada — Sabe lá Deus o motivo — Na semana passada jamais usaria aquela maquiagem. Havia pequenos corações vermelhos embaixo dos olhos. Olhos esses que agora vinham contornados por um traço preto, pesado e borrado nas pontas — um lápis escuro aplicado sem cuidado, quase como se alguém estivesse tentando desenhar a própria confusão na pele, mas sem a delicadeza de uma mão que fazia isso todas as manhãs. Pior do que o traço preto era o que estava por trás dele: o olhar.

 

​O Roier que conhecia desde a infância sempre ria alto, mantinha a sala de aula movimentada e sabia exatamente como manter uma distância segura para esconder o que sentia. Aquele que voltou da floresta, no entanto, não desviava o olhar de Cellbit por um segundo sequer. Não piscava. Apenas o encarava em um silêncio absoluto e esquisito, imerso em uma atenção obsessiva que o verdadeiro Roier nunca havia demonstrado.

 

​E aquilo era o que mais doía em Cellbit. O que o mantinha paralisado naquela cadeira não era apenas o medo de saber a verdade à sua frente, mas o desespero de um amor que nunca teve a chance de ser confessado e correspondido.

 

​Ele sempre esteve apaixonado por Roier. Um sentimento silencioso, guardado a sete chaves no fundo do peito, construído ao longo de anos de convivência, piadas idiotas e olhares trocados nos corredores. Para Cellbit, amar o seu melhor amigo era uma equação simples, porém trágica: ele o aceitava de longe, como alguém inalcançável. Nunca esperou ser correspondido. Jamais ousou confessar, se conformou com a simples alegria de ter Roier por perto, de ser apenas o seu "gatinho" dentro do limite seguro da amizade.

 

​Ver aquele mesmo corpo agora, rodeado por uma aura sombria, encarando-o com uma devoção maníaca que Roier nunca demonstrara em vida, era uma tortura cruel.

 

​A criatura estava dando a Cellbit exatamente o que seu coração sempre secretamente desejou — a atenção total, o foco absoluto, a obsessão sem filtros. Mas vinha acompanhada do preço mais alto possível: a confirmação de que o verdadeiro Roier havia partido para sempre. Nunca havia retornado daquela montanha.

 

A dúvida corria pelo seu peito. A incerteza de fazer ou não a pergunta que igualmente a Roier, o perseguia pelos corredores, no caminho até sua casa ou da sorveteria preferida deles. O moreno parecia atrair questionamentos dolorosos simplesmente por estar ali. Parecia viver tudo pela primeira vez. Intenso demais, expressivo demais, olhando demais. Um verdadeiro mistério.

 

Mas oh, Cellbit sempre amou um mistério. 

 

​A luz alaranjada do entardecer começava a invadir a sala, esticando as sombras pelo chão de madeira. Cellbit fechou o caderno devagar. O ruído do papel pareceu ensurdecedor no ambiente silencioso. Ele finalmente tomou coragem e ergueu os olhos azuis, encarando diretamente a figura parada na janela, pronto para fazer a pergunta que tirava seu sono todas as noites:

 

​— Você… não é o Roier de verdade, não é?

 

​Os brilhos nos olhos do moreno sumiram no mesmo instante, arregalados como se visse um fantasma. Cellbit podia ver de forma clara o suor que escorria pelo pescoço dele, sentindo os dedos da própria mão tremerem ansiosos. A boca de Roier se abriu pela primeira vez desde que ficaram a sós naquela sala, fechou, e então abriu de novo, sem parecer encontrar as palavras presas em sua garganta.

 

​Uma esperança pequena cresceu no peito de Cellbit. Esperava ouvir uma piada. Esperava que talvez ele afirmasse, com o tom mais alegre possível, que era ele; que Cellbit estava paranoico como sempre, que ele ainda era o Roier e lhe apresentasse um argumento totalmente lógico para provar isso.

 

​Esperava que ele soltasse uma de suas risadas escandalosas, perguntando se ele realmente havia feito aquela pergunta e rindo como se ela fosse muito estúpida. Um sorriso. Uma respiração relaxada. Uma afirmação. Qualquer coisa. Me dê qualquer coisa, Roier.

 

​Mas então… seu mundo desmoronou.

 

​— ¿Cómo tu…? Yo … Eu achei que tinha imitado ele tão bem, gatinho.

 

​A resposta foi como um balde de água fria. Tudo parecia demais de repente, como se toda a verdade estivesse escancarada ali na sua frente. Aquele não era o seu Roier, claro que não. A pele dele tinha a textura de uma promessa quebrada — fria e mole sob a pressão de seus olhos. Ele demorava um segundo a mais para responder algo simples de sua rotina, encostava mais, falava menos, chorava mais e parecia se impor menos.

 

​Aquele não era o Roier. Lá no fundo, em seu coração, sempre esteve a resposta para a angústia que ele mais temia: Roier estava morto. Algo naquela montanha tirou sua vida, e voltou apenas para o provocar e o torturar com a voz doce daquele cujo amou perdidamente a vida inteira. 

 

​O soco do luto o atingiu em cheio. Não mais veria Roier na escola, não mais ouviria suas piadas idiotas que ele tanto sente falta, não mais leriam mangás juntos no seu quarto. Por que ele tinha evitado a verdade por tanto tempo? 

 

O primeiro estágio do luto é a negação. 

 

Por que agora? Por que desse jeito? O que ele deixou passar? Deveria ter tentado impedir Roier de subir aquela maldita montanha? Talvez deveria ter… se declarado para ele antes que fosse tarde demais?

 

​Sua realidade o atingiu novamente e ele se viu hiperventilando, com os olhos arregalados sem conseguir tirar o foco do que estava na sua frente. Roier. Roier?

 

​Ele parecia não respirar. Seus olhos tremiam em um tique nervoso, embora não piscasse em momento algum. E de repente, para a surpresa de Cellbit, ele começou a… chorar?

 

​A tinta preta da maquiagem não escorria como uma lágrima comum; parecia um rio de nanquim espessa, cobrindo as bochechas dele e revelando o vazio que tentava se projetar para fora da carne. Seu rosto foi pintado por grossas linhas pretas antes de se tornar algo a mais. Parecia um desespero físico, pegajoso e nojento que saía às pressas de seus olhos suplicantes e vermelhos.

 

​Era uma massa sem forma, esburacada e distorcida que ia em direção ao loiro com uma aparente hesitação. Cellbit não conseguia se mover; estava apavorado, não sentia as próprias mãos nem acreditava ainda ter pernas para fugir dali.

 

​Mas… fugir do quê?

 

​Tudo o que sua mente desesperada e egoísta via ao olhar para a frente era Roier em puro desespero e medo, derretendo-se em angústia enquanto sua verdadeira forma saía para fora, mostrando-se inteira para ele, sem nenhum tipo de filtro.

 

​— ¿Gatinho?

 

​Porra. 

 

Como ele sabia? Por que o conhecia tão bem? O que foi que realmente mudou? Até que ponto o que estava na sua frente era mesmo o seu amado?

 

​— Você … não vai contar para ninguém, não é? — A voz chorosa e quebrada tomou toda a sua atenção de forma imediata enquanto ele se aproximava da mesa. — Ninguém pode saber, gatinho, por favor!

 

​Seus olhos grandes com pupilas dilatadas fizeram o coração de Cellbit dar um salto. A maquiagem borrada e a aberração que saía dos poros de seu corpo tornavam a cena macabra e melancolicamente linda. Ele é lindo.

 

​As mãos da criatura pareciam frias como as de um cadáver ao se aproximarem e tocarem seu rosto com cuidado, acariciando a bochecha com o polegar. Olhava no fundo de sua alma, parecendo conseguir ler seus pensamentos.

 

​— Não faz isso, por favor, gatinho, eu imploro! Eu não posso me separar de você, não posso! — O corpo da criatura se quebrou em vulnerabilidade. — Não me deixe, por favor, você é tudo o que eu tenho! Não me mande embora, Cellbo, não me afaste de você, eu nunca poderia suportar isso!

 

​Ele se jogou sobre o loiro, abraçando-o com força enquanto desabafava em seu ombro, chorando o que parecia estar guardado por séculos. O peso daquele corpo era um choque de realidade, e o lamento incansável da criatura vibrava contra o peito de Cellbit.

 

​Ao observar aquele horror, Cellbit sentiu uma náusea que não vinha do medo, mas de um reconhecimento terrível. Ele não estava vendo apenas um monstro. Ele estava se vendo.

 

​A criatura estava sofrendo porque não conseguia conter a essência do Roier que já não existia, lutando contra a própria natureza para manter uma casca vazia, tudo para não perder Cellbit. E Cellbit? Ele estava ali, aceitando o toque de um cadáver, tudo porque sua mente racional se recusava a processar a realidade de um mundo sem o sorriso de Roier. Eram dois espelhos quebrados refletindo a mesma dor. Dois monstros egoístas que preferiam uma mentira macabra à verdade fria e cruel da morte.

 

​O loiro levantou a mão de forma lenta em direção às costas de Roier, mas se afastou receoso quando o moreno novamente ergueu a cabeça. Ele não chorava mais. Seu rosto, porém, denunciava o desespero anterior por estar completamente deturpado, derretido como uma massa molhada e tomado pelo que quer que fosse aquela entidade ali dentro.

 

​— Se eu não puder ficar com você… ninguém vai — disse baixo, com a voz séria. — E eu não quero ter que te levar comigo… ainda não, gatinho.

 

​O gosto amargo tomou conta de sua boca. Seu coração estava disparado pelo toque dele, o rosto quente pela aproximação, a mão gelada e trêmula pelo medo. A mente de Cellbit, sempre tão analítica, calculava a porcentagem de erros. Mas o luto não é lógico. Amar aquilo era como tentar se aquecer em um incêndio que já tinha virado cinzas. Não havia calor real, apenas a ilusão sufocante da fumaça. Mas Cellbit estava disposto a se afogar em um mar nojento e desgastante, apenas porque tinha a cor dos olhos de seu guapito.

 

​Ele não queria o certo. Não queria saber se aquilo era moralmente correto ou não. Ele só queria o Roier. E ele estava ali, bem na sua frente. Ou ao menos o que sobrou dele.

 

​Sua mão se ergueu lentamente, como se algo a puxasse para cima, passando pelos braços de Roier até chegar à sua nuca. O moreno deu um pulo de susto com o movimento. Cellbit acariciou seus cabelos escuros com calma, sem nunca desviar os olhos dos deles, brincando com o pedaço de bandana.

 

O azul se misturando com o marrom em uma certeza possessiva, doente e provavelmente mortal.

 

​Ele reconhecia aquele perfume, a maciez do cabelo sempre tão bem cuidado, o uniforme meio desbotado, os olhos grandes e as pintinhas no rosto. Ele o conhecia de seus mais lindos sonhos, aqueles que lhe tiravam o fôlego e faziam seu pobre coração disparar, onde eles viviam uma vida juntos, com um casamento bonito recheado de amarantos em uma ilha isolada. Ternos brancos. Alianças douradas. 

 

Sua alma o reconhece.

 

Em um ato de coragem, sua boca se abre com a certeza que essa era sua última chance. A última vez que poderia dizer a Roier tudo aquilo que seu peito se enchera por tanto tempo, tudo aquilo que deveria ter dito antes que seu tempo tivesse esgotado. O último ato de amor sendo revelado para uma sombra do que um dia teria sido seu lindo Roier. Tudo porque Cellbit estava desesperado com a possibilidade de ainda poder se proporcionar uma confissão correspondida por seu amor de infância.

 

​— Eu te amo.

 

​Soou frágil, baixo e contido. Talvez esperando que ainda restasse parte da alma de Roier ali dentro, uma parte que também o reconheça, que também tenha sonhado com ele, que seu coração o anseie tanto quanto o dele o almeja. Que fosse recíproco. Roier pareceu surpreso, sem palavras para expressar sentimentos que ainda não sabia conter. Qualquer dúvida pareceu se dissipar quando o rubor tomou conta de seu rosto e um grande sorriso se abriu.

 

​— ¡Yo también te amo, te quiero muchísimo!

 

​Ao contrário da declaração frágil de Cellbit, a dele veio alta, desesperada e misturada ao choro. Roier se lançou sobre ele mais uma vez enquanto ria em aparente alegria, segurando-o com força para provar que aquele momento era real. Cellbit retribuiu. Precisava que fosse real.

 

​Mesmo com receio, Roier retirou a cabeça do pescoço de Cellbit, olhou no fundo de seus olhos e acariciou seu rosto, sorrindo e apreciando. Lentamente, aproximou-se. A respiração de um chocou-se contra a do outro, e então, tão rápido quanto a confissão anterior, finalmente aconteceu.

 

​Muito mais deturpado do que Cellbit imaginara, muito mais sombrio do que em seus sonhos, mas igualmente realizador. Roier o beijou com um desespero meloso. Cellbit jurou conseguir sentir a substância que saía dele misturada ao beijo. Era uma sensação nojenta, tão excessivamente nojenta … mas era tão bom? Tão bom e tão exuberante que não queria parar agora.

 

​Ele retribuiu o beijo igualmente desesperado, de olhos fechados, realizando o sonho de finalmente poder beijar Roier o quanto quisesse. Ignorou a realidade sem se importar com o que aquela entidade faria a seguir, não se importava em morrer ali como ele tinha o ameaçado anteriormente. Ele se agarrou a tudo o que tinha, fingindo que aquele era o verdadeiro, deixando sua mente egoísta afundar em uma onda de mentiras com uma única certeza: não conseguia viver em um mundo onde Roier estivesse morto. Não poderia respirar normalmente se ele não fizesse o mesmo. Não pode existir em um mundo em que Roier não exista.

 

​Entrou naquela dança bizarra de teatro onde Cellbit finge não perceber enquanto Roier finge estar vivo.

 

​Roier separou o beijo, sorrindo ao notar que seus sentimentos eram finalmente correspondidos pela pessoa que amava — Mesmo que fossem uma mistura catastrófica e muito mais intensa de seus próprios sentimentos com os do verdadeiro Roier. Mas não importava, porque ele estava apenas fazendo o que mais queria no mundo, ainda se lembrava muito bem das últimas palavras do verdadeiro Roier, em seus últimos suspiros solitários antes de ter seu corpo tomado naquela fria montanha:

 

​“Não deixe o meu gatinho sozinho.”