Work Text:
Fim dos Anos 90
Henrique Fragoso se considerava um homem moderno, urbano e cosmopolita. Mas após anos trabalhando em bancos de diferentes bairros da capital paulista, ele decidiu buscar um refúgio no interior para chamar de seu. Pesquisou cidades no estado que agradassem pelas opções de lazer com a família e até deu sugestões para seus superiores. Infelizmente, não é possível escolher para qual agência você é mandado quando pede transferência. E foi assim que os Fragoso foram parar na cidade de Tibagi, no estado do Paraná.
Com aproximadamente 15 mil habitantes, a cidade tinha duas escolas públicas, uma farmácia, dois armazéns, um mercado e uma igreja. E agora, um novo banco. Henrique ficou encarregado de inaugurar o primeiro banco daquela rede. Por algum motivo, isso era um grande evento e pessoas que moravam lá já sabiam da notícia, animados com a novidade.
Henrique veio primeiro, organizando a chegada do restante da família: sua esposa, Violeta, e sua filha, Eduarda. Durante sua estadia solitária, hospedou-se na Pousada das Figueiras, todos os dias acordado pelo barulho dos pratos sendo postos para o café da manhã e o cheiro de bolo caseiro. Notou os olhares curiosos, sentiu-se um forasteiro - por vezes, se referiam a ele como “o homem que veio de São Paulo”. Faziam perguntas buscando conhecê-lo melhor, algo que ele apreciava ao mesmo tempo em que não estava acostumado do lugar de onde vinha: “Quantos anos tem a sua filha?”, “O que sua esposa achou da mudança?”.
Aprendeu que as dinâmicas ali eram diferentes. As pessoas interagiam deliberadamente, conheciam histórias, trocavam contatos. Não havia imobiliária, então perguntou para o gerente da pousada, Rogério, se ele conhecia alguma casa para alugar. Foi assim que o caminho dos Fragoso cruzou com o da família Ferette pela primeira vez.
Dono da única farmácia da cidade, Santiago, havia herdado imóveis de seu pai. Como Tibagi era pequena e o fluxo de pessoas não era tão comum, algumas das casas estavam vazias. Henrique visitou três antes de decidir pela casa amarela na rua Machadinho, perto da agência em que ia trabalhar. Havia uma grande varanda na frente e ele já imaginava Violeta lendo por ali enquanto Eduarda brincava. A cozinha era ampla, iluminada, do jeito que a esposa gostava. A parte de trás permitia algumas alterações para uma horta, um passatempo que poderia ser explorado pelos três.
Parados em frente à casa, os homens finalizaram o negócio de boca em um aperto de mãos. Rogério havia comentado que Ferette era um homem rígido nos costumes, mas honesto e de palavra. A impressão de Henrique sobre Santiago foi semelhante à descrição de Rogério, exceto pelo fato de que o paulistano conseguiu fazer o farmacêutico rir com seu humor debochado.
- Essa, definitivamente, é a melhor casa de todas que te mostrei, Henrique. Era da minha falecida mãe. Mas tenha cuidado com os vizinhos, são meio barulhentos. - Santiago disse com um sorriso no canto da boca, caminhando em direção a tal casa.
Então, o farmacêutico abriu o portãozinho e encarou a porta da frente, que estava aberta. Outro costume do interior, ao qual Henrique ainda estava se acostumando. Santiago se agachou e abriu os braços. Lá de dentro da casa saiu correndo um casal de crianças, um menino loirinho banguela e uma menina de cabelos castanhos e ondulados.
Assim que viu aquela cena, Henrique sentiu seu coração apertar. Não aguentava mais ficar longe da família. Foi até o hotel, discou o número de casa e avisou à esposa que iria buscá-las naquele final de semana. A mudança viria logo depois, já estava tudo acertado.
.
Eduarda Fragoso tinha 9 anos e nunca havia se mudado antes. Vivia no mesmo apartamento na Consolação desde que nasceu. Estava nervosa por ir para uma cidade longe, pequena, sem seus avós que tanto amava, sem seus coleguinhas de escola. Nos últimos dias, acordava no meio da noite para dormir na cama de casal com a mãe. De repente, se apegou mais do que o normal a um ursinho de pelúcia que já tinha ido para a estante. Sinais singelos, mas muito claros para a mãe dedicada e observadora.
Violeta notou a menina encarando as caixas no cômodo que antes era seu quarto, segurando as mãozinhas num gesto nervoso, como se esperasse alguma notícia que desfizesse o combinado semanas antes de que iriam para o interior do Paraná.
- Filha, tudo bem? Vamos?
- E as caixas? - perguntou, insegura.
- Os homens da mudança vão vir pegar, Duda. Nós vamos deixar tudo do jeitinho que você gosta lá na casa nova. - Violeta se aproximou, tomou uma das mãos da menina, e tentou a guiar calmamente para fora do quarto.
Eduarda apertou a mão dela e ficou parada:
- Você acha que lá vai ser legal? - Os olhos de jabuticaba esperavam uma resposta acolhedora.
- Acho que vai ser diferente daqui, filha. É calmo, tem mais natureza, você vai poder andar de bicicleta, essas coisas. E seu pai vai ter tempo para passar conosco, vai trabalhar menos. E tenho certeza que você vai criar memórias lindas.
- Tá certo, mãe.
Violeta e Eduarda passam o dia na casa dos pais de Violeta, uma forma de acalmar a menina e também deixar o apartamento livre para o início da mudança. Henrique chega à noite, conta sobre o processo de abertura da filial do banco, os colegas de trabalho, a rotina na cidade pequena. Ri um pouco ao compartilhar que a chegada delas era a fofoca do mês, talvez do ano.
.
A primeira coisa que Eduarda nota são as plantações. Terras planas e amplas com soja, trigo, milho - ainda que ela não saiba dar nome aos grãos. Depois, o clima mais quente e o céu azulado. Não enxerga o cinza tão presente em São Paulo: dos prédios, da poluição, dos carros, da pixação, dos sacos de lixo. Algo ali, conforme a mãe havia prometido, traz calma. As pessoas caminham sem pressa, as bicicletas são mais presentes que os carros, os portões das casas são baixos e ficam encostados, o cadeado apenas uma mera lembrança.
Aparentemente, até mesmo o carro de Henrique é novidade. O Chevrolet Ômega bordô já chamava a atenção quando dirigido apenas pelo proprietário, mas agora com a esposa no passageiro e a menina ruiva no banco de trás, confirmava a vinda do agito para a pacata Tibagi. Ao pararem em frente à casa amarela escolhida por Henrique, Violeta solta um suspiro de satisfação:
- Ela tem cara de lar, Ique! Eu já amei. Foi uma ótima escolha... Vamos, Duda? Olhar lá dentro? Qual vai ser seu quarto, ein?
Os olhos da menina brilham com a pergunta, uma casa cheia de possibilidades. Ela corre pela porta, passando direto pelos espaços comuns e indo ao corredor com os quartos.
- Eu quero esse! - Ela escolhe o quarto que tem um baú de madeira embaixo da janela. Com um assento almofadado por cima, é o local perfeito para se sentar, brincar e ler.
- Tá bem, filha! Vamos pintar as paredes com a cor que você quiser, não é, Violeta?
- Com certeza, meu amor. E vamos comprar cortinas lindas, também. Vai ficar a sua cara.
Eduarda dá um pulinho e imagina tudo, preenchida pela felicidade. Sai correndo para explorar o restante da casa, em especial o quintal na parte de trás. Pensa em como seria finalmente ter um cachorro ou plantar flores igual sua vó.
E então, ela ouve Lorena pela primeira vez. Uma risada alta, aberta, livre, solta, leve. Primeiro é apenas curiosidade: o que acontece para causar esse som? Gostaria de repetir a ação que resultou nessa reação. Eduarda nota um pequeno buraco na cerca que dá para a casa vizinha.
E então, ela vê Lorena pela primeira vez. O cabelo castanho, ondulado até o ombro. A camiseta branca com o bichinho bochechudo da Colcci. O shorts rosa acima do joelho. O tênis branco de luzinha. Ela usava uma pulseira de miçangas amarelas e rosas no braço esquerdo. Tinha uma bexiga cheia de água nas mãos, buscando o melhor momento para jogar contra um menino, que tentava se esconder, mas já tinha as costas molhadas de um balão que Lorena havia acertado nele e provocado o riso que encantou a vizinha.
Eduarda se afasta rapidamente, como se antecipasse ter invadido um momento íntimo. Uma vergonha tomando conta - como faria amigos nessa cidade completamente diferente? Corre de volta para dentro da casa, pedindo para a mãe um copo de nescau.
.
A segunda chega com o início das aulas na escola para Eduarda, que acorda manhosa e mal-humorada. Os pais percebem antes mesmo da menina levantar, que coloca as cobertas por cima da cabeça. Geralmente animada e extrovertida, parece querer se esconder do mundo lá fora.
- Pequena, não podemos nos atrasar... Preciso preencher alguns papéis e você tem que conhecer seus colegas. Seu pai já saiu resolver um monte de coisa, agora é a nossa vez!
- Eu não quero estudar de manhã! Tô com sono... - Ela diz, esfregando os olhos e bocejando ao mesmo tempo.
- Lá em São Paulo você ia estudar de manhã só ano que vem, mas aqui só tem essa escola, meu amor. Vamos tomar banho, vai. - Violeta afirma, puxando levemente a filha para fora da cama.
Eduarda gostaria de adiar essa experiência o máximo possível, mas a mãe supervisionava cada ação: ligar o chuveiro, esfregar o corpo, usar a toalha, vestir o uniforme.
Violeta analisa a inquietação da filha, as perninhas pra lá e pra cá ao sentar na cadeira, esperando o café da manhã. Elas tomam suco de laranja e comem um pão na chapa. Eduarda raramente comia quando estava ansiosa e a mãe sabia. Se tivesse que ser sincera, Violeta também estava nervosa pela filha. Não é fácil testemunhar de forma madura e distanciada o amadurecimento da sua cria.
Eduarda está usando um shorts preto com uma listra azul marinho. A camiseta branca, simples, tem apenas o nome do colégio municipal Telêmaco Borba. Nos pés, o all-star preto e sua meia da sorte, de joaninhas, presente de aniversário da avó.
Não há necessidade de ir de carro. A escola fica a poucas quadras de distância e Violeta está acostumada a fazer muitas coisas a pé. Aproveitam para conhecer as ruas e os estabelecimentos que estão abrindo naquele horário, observam os outros pais com seus filhos, a rotina de cidade pequena.
.
Lorena adorava o primeiro dia de aula, pois isso significava usar materiais escolares novos, conhecer professores e aprender coisas diferentes. Era, em essência, uma CDF, embora ainda não soubesse disso. Sentava-se na frente, um pedido da mãe após a visita no oftalmologista confirmar o astigmatismo, fazia perguntas, dedicava-se aos projetos individuais e em grupo. Uma aluna exemplar, um prazer de se ter em sala, diziam nos corredores.
A primeira coisa que Lorena nota é a cor do cabelo de Eduarda. Um alaranjado brilhante, fios sedosos. A ruiva está de costas, de mãos dadas com a mãe. Violeta conversa com a professora Lígia na porta, que sorri e acena do jeito mais acolhedor possível para a aluna nova. Quando a matriarca se despede, Lorena observa o beijo na testa igual Zenilda sempre dá nela quando rala o joelho na calçada. Algo no seu peito diz que as duas terão mais coisas em comum do que o afago materno.
- Pessoal, essa é Eduarda, aluna nova que veio de São Paulo, capital, não é? - Lígia olhou para baixo e depois para o restante da sala de aula, sorrindo.
A menina concordou, sem dizer palavra, meio sem graça, encarando os tênis.
- Vamos fazer assim: hoje você pode sentar em dupla com a Lorena, tá? Pode puxar aquela carteira ali do lado dela.
Eduarda se aproximou, reconhecendo a menina que tinha visto pela cerca no final de semana. Os olhos verdes a encararam, cheios de expectativa. A ruiva se inclinou para ver o livro de perto, as duas sorriram, aprendendo a dividir o mesmo espaço em uma linguagem que encantava e surpreendia pela facilidade.
A amizade veio rápida e inexplicável, como muitas coisas na infância parecem ser. Um empréstimo de lápis de cor amarelo, o cheirinho de morango da caneta colorida, uma ensinando a outra a desenhar estrela, o carimbo no formato de selo de carta, bilhetes trocados para confirmar se poderia assistir TV na casa da outra mais tarde.
Na saída da aula, as duas andavam lado a lado, procurando as mães. Encontraram as duas conversando e marcando um café. Era o início de uma amizade entre Violeta e Zenilda.
.
Anos 2000
Fevereiro trouxe consigo um dos verões mais quentes dos últimos anos. Os moradores da cidade haviam desistido de qualquer decoro na vestimenta, que agora consistia basicamente em shorts, chinelo e camiseta. Mulheres caminhavam segurando a sombrinha em uma das mãos, e um leque na outra. Crianças brincavam de banho de mangueira, espirrando água em pedestres desavisados que chegavam muito perto.
Eduarda e Lorena estavam deitadas em duas espreguiçadeiras na parte externa atrás da casa dos Fragoso. Ambas estavam em trajes de banho: Eduarda vestia um maiô preto e Lorena um biquíni branco com listras alaranjadas. As aulas estavam longe de começar e elas aproveitavam mais um dia de tédio, lendo revistas e fofocando sobre a primeira noite do baile de Carnaval mais tarde, tentando pegar um bronze. A ruiva veio de dentro da casa com uma jarra de limonada e dois copos na mão.
- Você acha que a Kellen vai levar o José Maria? - Lorena pergunta, tentando segurar o riso, enquanto Eduarda serve um dos copos para ela.
- Ah. Aqueles dois nunca dá pra saber. Eu te contei que ela ficou com o Raul semana passada, né. É capaz do Zé beijar alguma aleatória, só pra fazer ciúmes. - Eduarda responde.
- Nem entendo que rolo legendário é esse, o Zé tem maior pinta. - Ela diz, sem tirar os olhos da revista Cláudia.
Zé Maria era primo de Lorena e ambas sabiam que ele ficava com homens de vez em quando. Na cidade pequena e conservadora, era algo que pedia um cuidado extra. Ambas carregavam dentro de si o peso de gostar da melhor amiga e não querer arriscar perder a amizade, mas flertavam com mais frequência do que conseguiam admitir, sem saber direito para onde isso poderia levar.
A fala espontânea de Lorena, entretanto, trouxe o assunto à tona e deixou o ar entre as duas mais pesado, como se o indizível permeasse cada molécula do corpo delas pedindo pra ser comunicado de alguma forma. Tentaram mudar o assunto.
- O que você achou da minha fantasia? Nem falou nada quando eu te mostrei. - Eduarda disse, observando as reações no rosto da morena.
- Gostei. É feiticeira, isso?
- Gênia da lâmpada, algo assim. Minha mãe deu a ideia. Uma dessas mulheres que aparecem nos programas de auditório. Ela disse que era fácil de fazer na máquina de costura.
- Entendi. E você realiza desejos? - Lorena, mesmo quando não pensava, flertava mais do que era seguro para alguém que nem sabia se era correspondida.
- Posso tentar... - Eduarda corou - Mas só hoje à noite. E você?
- Meu pai não me deixou colocar fantasia, vou só personalizar a camiseta do bloco... Inclusive, posso fazer isso aqui hoje?
- Claro. - Eduarda sorriu, imaginando Lorena cortando metade da barra do tecido e deixando a barriga de fora a noite toda.
.
O carnaval de Tibagi chamava muitos turistas, gente de todo o lugar do estado, em busca de uma aventura no feriado prolongado. A festa acontecia na rua mesmo, adolescentes como Lorena e Eduarda se misturando em meio aos adultos, as regras sobre menores não beberem álcool se curvando naquele dia. Parecia um momento mágico, a chuva de confetes e serpentina tomando conta do asfalto, as pessoas dançando marchinhas e sorrindo.
- A moça tá sozinha?
Vandílson se aproximou de Lorena, falando baixo no ouvido dela. Eduarda tinha saído de perto para ir ao banheiro químico, mas assim que avistou a cena começou a sentir uma raiva incontrolável por dentro. Ali ela percebeu que não aguentaria mais um dia sem se declarar.
Lorena franziu a sobrancelha, tentando ser educada e se esquivar do flerte ao mesmo tempo. O homem tinha o cabelo platinado igual o Supla e um bigode escuro que lhe causava nojo.
- Não, não estou sozinha... - Lorena responde, automaticamente, pensando como continuar a justificativa.
- Ela está comigo - Eduarda completa, encarando o homem, e esperando que Lorena entenda aquilo não apenas como um gesto protetor, mas também uma declaração.
- Vocês... juntas? Ok, justo. - Vandílson podia ser cafajeste, mas não era homofóbico. Não faria cena ali, apenas deixou as duas meninas se encarando e foi até outra moça, que parecia de fato desacompanhada.
- Quer sair daqui? - Eduarda pergunta, seu passo meio apressado à frente de Lorena. O corpo da ruiva estava em estado de emergência: a respiração rápida, as mãos suando, as pupilas dilatadas. Além de tudo, com a garganta seca, duvidava que conseguiria colocar em palavras o que carregava no peito desde a primeira vez que viu Lorena pela primeira vez.
A morena ficou estática por segundos que pareciam horas, mesmo desejando correr pelas ruelas de Tibagi de mãos dadas com a pessoa na sua frente.
- Va-Vamos. Pode ser, Duda. - Lorena tentava sem muito sucesso processar o que tinha acontecido em tão pouco tempo. Para alguém de fora, como Vandílson, poderia ser apenas uma amiga defendendo a outra de um flerte indesejado. Mas para Lorena, foi como enxergar a luz após anos vivendo na penumbra.
- É... eu... Não era bem assim que eu imaginava falar... - Eduarda dá alguns passos para trás e pisa numa lata de Skol, então observa um homem fantasiado de Mister M vomitar na esquina, tendo certeza que aquele era o momento menos romântico do mundo.
Lorena percebe sua boca semi aberta, em choque. Eduarda pensava nela e em dizer coisas para ela, coisas que talvez não tivesse coragem. Da mesma forma que Lorena fazia quase todas as noites.
- Vem, ali, atrás da biblioteca. Vamos conversar.
Era um local mais afastado dos desfiles, mas ainda iluminado pelas luzes festivas. Lorena cruzou os braços, esperando a outra dar explicações. Não era uma cobrança pesada de quem queria satisfações, mas sim um olhar surpreso de quem já tinha perdido muito tempo.
- Lore, eu não sei por onde começar. Eu acho que sempre soube que eu era diferente, que não gostava de meninos como as outras garotas. E você sempre esteve presente na minha vida de uma forma que eu nunca quis olhar pra mais ninguém... Parece que eu não preciso de mais nada quando você tá comigo.
Lorena foi se aproximando de Eduarda, como se aquela declaração precisasse ser sentida fisicamente, não só ouvida na voz aveludada da ruiva.
- Eu acho que nunca quis olhar pra isso por medo de perder a sua amizade. E eu ainda tô com medo, mas precisava que você soubesse.
A morena estava tão perto agora que conseguia sentir o hálito quente de Eduarda. Ela olhou pra baixo, encarando os lábios da melhor amiga. E então decidiu falar antes de agir, num esforço para se acalmar:
- Eu passei meses tentando descobrir se era só admiração ou outra coisa. E agora que a gente sabe que é correspondido, vamos fazer o quê?
Eduarda umedeceu os lábios e pegou nas mãos de Lorena, num gesto com uma intenção mais do que clara. Lorena não se afastou, pelo contrário. Parecia que aquele momento foi criado para elas, sem qualquer intervenção de todo o resto que estava acontecendo na cidade.
A ruiva colou os corpos das duas e pegou na cintura da morena com a mão esquerda, deixando a direita livre para acariciar as bochechas dela. Lorena respondeu com um sorriso tímido, percebendo que a partir dali seria um ponto sem retorno, a relação delas já transformada só pelo que tinham dito em voz alta. Eduarda passou o polegar pelas covinhas, um jeito de salvar na memória com o tato, criando um pequeno manual de referências sobre Lorena aos poucos. Estava só começando.
Lorena fechou os olhos, deixando-se entregar. Depois de anos tentando manter tudo sobre controle, não parecia real que a pessoa que sempre foi seu porto seguro também seria um convite à perdição. Ela sente as mãos de Eduarda como se fossem a única coisa segurando seu corpo, impedindo de derretê-lo por pura antecipação.
A respiração é sôfrega e a insegurança palpável de nunca ter beijado ninguém antes. Nisso Eduarda já tinha alguma vantagem. Lembrou-se de uma festinha no ano passado em que a ruiva foi desafiada a beijar uma menina qualquer. Já naquele dia, o ciúme tomou conta de uma forma tão avassaladora que vomitou instantes depois de testemunhar a cena. Mas não queria pensar nisso naquele momento.
Eduarda pareceu perceber os pensamentos de Lorena, agora arrastando a mão que estava no rosto diretamente para a nuca dela, segurando ali com toda a possessividade do mundo. Finalmente entendeu do que os poetas falavam quando questionavam pertencer a alguém ou a alguma coisa. Nos braços de Eduarda, nada podia ser ausência.
Lorena entendeu que também podia tocar Eduarda livremente, buscando o contato ao colocar as duas mãos em volta do ombro dela. Parecia algo casto, até que, assumindo certo controle, ela empurra Eduarda contra a parede. Não há surpresa alguma quando os corpos se encaixam, apenas um alívio imediato que questiona onde esse outro ser esteve durante toda a minha vida? Como sobrevivi tantos anos sem esse toque e esse afago?
Não saberiam responder sobre o passado, mas poderiam decidir sobre o futuro.
Eduarda abre a boca de leve, buscando contato dos lábios sem muita pressão, mas Lorena responde num chupão desesperado na boca dela, como se precisasse do ar dos pulmões de Eduarda para sobreviver. Quando Eduarda inclina um pouco o pescoço, buscando o melhor ângulo para a posicionar sua língua, Lorena passa o polegar no ponto de pulsão e aperta, deixando a ruiva meio zonza. Nesse mesmo instante, Lorena geme baixinho, para o beijo e sorri de forma profana enquanto encara os olhos escuros de Eduarda. Sentiu-se uma presa entrega ao abate. E aproveitando cada segundo.
- A gente realmente tá fazendo isso.
- Sim. Você... tá arrependida?
- Não. Estou surpresa de um jeito bom. Acho que é o dia mais feliz da minha vida, Duda.
- O meu também. E tá só começando... A gente tá só começando.
Lorena apoiou o rosto no ombro da ruiva, respirando e sentindo o cheiro de Eduarda, um misto de sabonete e um adocicado da própria pele alva. A outra, por sua vez, ficou fazendo cafuné nela, os cabelos sedosos que a encantaram desde que a conheceu 8 anos atrás quando elas tinham 9 anos. Agora, ambas com 17 anos, o mundo parecia fazer muito mais sentido sendo construído juntas.
.
Anos 2010
(8 anos depois)
Lorena e Eduarda continuaram inseparáveis desde que se conheceram, mas mais ainda depois de se declararem. O namoro envolveu passagens de fases da vida: mudança para a capital para estudar, baladas com amigos, uso de drogas recreativas, exames finais, finais de semana de ressaca ou voltando juntas para visitar os pais.
As famílias aceitaram tudo muito bem, ainda que Santiago tenha passado alguns meses emburrado e tentando processar a orientação sexual da filha. Henrique teve que se envolver, respeitosamente, falando para ele deixar de bobagem. Zenilda e Violeta não poderiam estar mais felizes por passarem juntas todos os feriados. As expectativas dos dois lados era de que elas voltassem para o interior eventualmente, após suas formaturas.
Mas a vida aconteceu de outra forma. Eduarda se formou em Direito e decidiu se dedicar aos concursos públicos, um ritmo de estudo que era melhor aproveitado em Curitiba. Lorena nunca quis construir uma vida no interior enquanto buscava uma carreira. A formação em Letras e o mestrado que emendou logo depois não incluía Tibagi nos planos.
Quando decidiram viver sob o mesmo teto não foi algo espontâneo, mas planejado com o cuidado que sempre esteve presente no relacionamento. As dinâmicas das atividades domésticas já eram, de certa forma, presentes quando uma passava vários dias no apartamento da outra.
O momento parecia se encaixar, assim como os corpos delas anos atrás naquele primeiro beijo.
Foi Eduarda quem planejou as férias fora da temporada normal, considerando que só aguardava sua convocação no concurso. Lorena estava lotada de compromissos na universidade, mas concordou que precisava de um final de semana a sós. Escolheram juntas a Ilha do Mel pela proximidade geográfica e por, surpreendentemente, nenhuma das duas terem visitado antes.
Durante o pôr-do-sol, Lorena olhou para Eduarda com uma sensação de completude que deixou ambas sem graça. Teve ali a epifania de que não tinha um anel, mas que há muito carregava no peito um pedido.
- Duda, eu não quero existir mais um segundo sem te chamar de esposa... Você quer casar comigo?
Eduarda deu uma gargalhada genuína e Lorena franziu a testa, de repente ficando nervosa.
A ruiva colocou a mão no bolso do moletom e tirou uma caixa com um par de alianças, abrindo-a com cuidado e com um sorriso largo no rosto.
- Faz sentido que até nisso a gente pensa igual. Eu com o anel e você com o pedido. Eu te amo, Lorena. Vai ser uma honra dividir o resto da minha vida com você.
- Eu te amo, Eduarda.
.
