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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-08-07
Words:
1,892
Chapters:
1/1
Hits:
12

Forget Me Not

Summary:

Entre as ruínas do antigo centro de adoção e o cheiro de mofo da Federação, Cellbit carregava o peso da culpa por achar que tinha chegado tarde demais. Mas um punhado de pétalas secas onde não deveria haver nada revela um segredo enterrado no fundo da terra. Escondida no escuro, desnutrida e assustada, uma pequena dragoazinha de escamas azuis e vermelhas esperava por uma promessa simples: a de nunca mais ser esquecida.

Notes:

Eu não superei a Hope/Miosotis... eu queria mais fanfics deles... aí eu fiz

Avisinho: a fanfic é em português, mas tem frases em inglês.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

O cheiro de madeira podre, mofo e ambiente fechado pareciam errados diante daquele diário. O chaveiro de ovo já estava preso na mochila e Cellbit estava pronto para sair do centro abandonado de adoção com o coração pesado. Não deixou de passar em suas veias a culpa de não ter chegado mais cedo, de não supor que haviam outras crianças.

Antes de sair, respirou fundo, se recostando no batente do portal de entrada e varreu o lugar com os olhos. Aquele dragãozinho estava tão, tão longe de tudo. Será que ele tinha conhecido algum irmão antes de ser posto naquela celinha? Um espaço tão pequeno…

Mas, antes que pudesse sair, seus olhos notaram a vegetação do lugar. Plantas rasteiras e musgo se alastravam pela estrutura abandonada, tudo em tons de verde e marrom. Mas em um singelo bloquinho por dentro da cela de adoção, pétalas vermelhas e secas jaziam esquecidas. Não tinha flores ali dentro, apenas lá fora, e seria uma trajetória absurda do vento se esse fosse o caso.

Cellbit havia pensado que o vidro estava quebrado pelo tempo, pelo vento, por qualquer coisa. No livro, o dragão disse que não saiu dali para não perder a chance de ser adotado. Mas talvez ele tenha só desistido. Correndo para fora, Cellbit olhou ao redor, procurando por qualquer rastro que um bebê dragão pudesse ter deixado. Nada. Ele sequer sabia há quanto tempo aquela criança teria deixado o centro de adoção.

A desistência era o caminho mais fácil, não teria como correr pela ilha inteira procurando uma criança que ele não sabia nem se estava viva. Mas então pensou… e se ela não tivesse deixado o centro? O diário havia sido encontrado "debaixo dela, na terra". Ela já havia cavado antes, mas até que profundidade?

Com certa dificuldade, ele se enfiou na cela de adoção, passando a mão no piso onde as pétalas mortas descansavam, e as afastou para que pudesse quebrá-lo. Quebrou bloco por bloco até chegar na terra. Atravessou o piso endurecido de pedra e não parou até cair no que parecia uma estrutura abandonada da Federação. Paredes brancas encardidas de humidade e chamuscadas, provavelmente pelo que a criança dissera ter ouvido abaixo dela no diário. Um incêndio.

Ignorando a dor da queda, o detetive honorário da Federação levantou e respirou fundo, o cheiro ainda pior e mais abafado que o lá de cima.

— Ovinho? — chamou. Não sabia nada sobre a criança. Sequer sabia se a encontraria — Dragão? Coisinha?

Saiu chamando pelos corredores. Salas abandonadas com portas de metal pesado formavam o cenário perfeito de pós-apocalipse, a provável origem do fim do mundo. Laboratórios com tubos de ensaio enormes quebrados, mesas de metal frio, instrumentos enferrujados. Entrou em sala por sala, incrivelmente despreocupado em checar por documentos ou anotar mentalmente o que estava testemunhando.

— Pss, pss — ele chamou, se achando tolo por tratar um dragão tal qual um gato.

Metade do lugar já havia sido vasculhada e nada de uma criança perdida. O diário sugeria desistência de tentar continuar. Ele quis fazer o mesmo. Mas então um rangido metálico soou do outro lado do laboratório. Ele sacou uma espada e seguiu devagar até a sala de onde acreditou ter ouvido o barulho. Abriu a porta devagar, deixando outro ranger agudo perturbar o silêncio sepulcral do lugar.

O escuro já estava confortável nos olhos, mas Cellbit sacou uma lanterna e passou o feixe de luz por todo o chão, quase a derrubando ao notar pernas se encolhendo debaixo da mesa. Largou a mochila no lugar, fazendo um barulho que assustou ainda mais a criatura, e, apenas com a lanterna na mão, seguiu devagar até mais perto antes de ouvir o chiado agressivo.

— Tá tudo bem. Foi você que escreveu o diário lá em cima?

A voz aguda soou como um rugidinho confuso e rouco.

— It's… It's okay, I won't hurt you — respondeu na língua que acreditou que ela entenderia melhor. Havia esquecido que o diário estava em inglês por um segundo.

Com um pouco mais de força, o dragão levantou o tom do rugido, saindo um pouco debaixo da mesa, mostrando os dentes afiados.

A pele era completamente pálida, salpicada de escamas de azul cerúleo e vermelhas. O cabelo comprido e branco caía em nós desgrenhados ao redor do rosto, cobrindo parte do rosto, um dos olhos azuis. Parecia ser uma menina mais ou menos da idade do seu filho, talvez um pouco mais velha ou mais nova, ele não saberia dizer. As garras das mãos, apesar de apontadas para o homem, tremiam.

— Did you write that diary?

Ela hesitou, os olhos congelaram. Olhou desesperada para a logo da Federação estampada na parede carcumida do laboratório e o olhou de volta, soltando ganidos preocupados.

— I'm not with the Federation — ele disse o mais rápido que pôde.

Os olhos azuis da menina correram de cima abaixo nele, procurando qualquer coisa que a lembrasse das pessoas que a puseram naquele centro de adoção. Ao ver parte do cabelo pálido como a cor que a cercou por tanto tempo, ela apontou para o próprio cabelo, então para o dele.

— Oh, this… They did this to me. Look, I hate the Federation. I'm not with them, I just want to leave this island. I have a son and a husband. I just want to make sure they're safe.

As palavras soaram gentis, o mais gentil que ele conseguia ser, usando o mesmo tom de voz para quando Richarlyson tinha pesadelos, enquanto se aproximava devagar. Agachou de joelhos no chão até o rosto estar na mesma altura que o dela, colocando a lanterna apontada para o teto, iluminando o ambiente de luz indireta.

— I read you diary. I wasn't sure if you were here, but you're safe now. I found you. I won't forget you.

Os olhos enormes umideceram e, em um salto frágil pela fraqueza da fome, ela agarrou a gola do sobretudo esverdeado, colando a testa no peito do homem que disse que lembraria dela. Devagar, ele devolveu o abraço, a envolvendo com um calor que ela nunca sentiu e com cheiro de café, orgânico e confortável como ela não havia conhecido em tanto tempo.

— Can I pick you up and carry you away from here?

Ela apenas balançou a cabeça, permitindo que as lágrimas rolassem insistentes pelos olhos, umidecendo a camisa do homem, que não se importou. Foi complicado sair dali com uma adolescente nos braços, ainda que ela fosse extremamente leve pelo tempo de desnutrição; ele a segurou com o máximo de cuidado, como se fosse feita de vidro ou de galhos finos.

Quanto mais caminhava, mais a cabeça dela se movia, enxergando o máximo de coisas que conseguia enquanto a paisagem mudava das árvores densas para a prainha onde o barco de Cellbit estava atracado. Assim que a pôs sentada, tirou da mochila um suco de maçã e um sanduíche que separou mais cedo para si mesmo e a entregou.

— Eat it slowly.

Assim que ela levou o suco aos lábios, os olhos dela arregalaram pelo doce da bebida. Enquanto ela foi comendo, ele remou de volta, contando devagar sobre o que sabia da ilha. Sobre como tinha mais gente, como haviam outras crianças iguais a ela. Ela escutava tudo com um alívio doloroso no peito. Era impossível até pouco tempo a possibilidade de alguém encontrá-la. Agora, tinha a promessa de haver ainda mais gente.

Levá-la para perto da muralha era inimaginável, então a levou para o mais perto possível do castelo e, da orla, eles andariam a pé.

— I didn't ask your name. Do have one?

Com os olhos baixos, balançou a cabeça em negação.

— Can I give one? I think Miosotis fits you well. You know, because of the flower and its meaning. It means don't forget me. Some people even call it forget-me-not. And your eyes have its color.

Ela parou de andar imediatamente, o forçando a fazer o mesmo e olhar para trás. Seus olhos se encontraram e Cellbit finalmente percebeu o que fez.

— Oh, sorry. If you don't like it, we can change it. Or if you want someone else to do it… or yourself. You can choose your name if you want to.

Ela rugiu e, percebendo que ela não podia falar, Cellbit procurou na mochila por plaquinhas que ela pudesse usar para escrever.

"Why are you giving me a name?"

— I need to call you something if you going to… Oh, I didn't even ask if you want to come with me. There are more people, if you want to meet them before you choose where to go.

A confusão e a expectativa pareciam querer escorrer pelos olhos dela mais uma vez. Escrever com os olhos embaçados foi complicado, mas ela precisava saber.

"Are you adopting me?"

— If you want me to.

A mão áspera, cheia de cicatrizes, se ergueu na frente dela. Um convite. O peito da dragoazinha subiu e desceu com força e dor antes de aceitar aquela mão. E foi pior ainda quando chegaram à ponte quebrada. Toda a teatralidade de entrada triunfal de fato impactou Miosotis. Ver aquele castelo ao longe cercado de árvores vermelhas… Não era como nos contos de fada que lera quando pequena. Era melhor. Era real. Seus olhos brilharam como se voltasse a ter o equivalente a seis aninhos.

"You live there???"

Cellbit riu. Quando chegaram à entrada do castelo, ela prendeu a respiração. Um trono de pedra negro numa das pontas de um tapete vermelho em formato de cruzeiro invertido. A janela logo acima com o mesmo formato. Todas as bandeiras e vidros vermelhos, as pedras escuras, os móveis de madeira escura. Um castelo saído de um filme de terror de vampiros deixou aquela garota completamente encantada.

"This place is amazing!! Will I live here too?"

— Yeah, sure, you and your brother.

Ela virou o rosto na direção do dele, tentando entender se ele realmente havia dito o que dissera. Seu rosto se exclamou inteiro em surpresa e incredulidade, abrindo a boca enquanto a cauda azul e vermelha arrastava-se no chão.

Passaram um tempo tentando limpar a menina, o primeiro banho dela em tanto tempo, em água morna e cheirosa. O cabelo foi outro problema; desembaraçar todos os nós sem machucá-la foi um trabalho hercúleo, mas que valeu a pena quando ela se viu no espelho e sorriu. As ondinhas pálidas caindo pesadas e úmidas para baixo dos ombros.

O tecido já curto e sujo que ela vestia foi trocado por uma blusa mais larga dele, um improviso que teve que bastar por um tempo.

— I'll ask for clothes for you after. Maybe Phil could have some spare ones from Talullah. Or we could aks to Pomme too. You'll like the other kids.

Ela conseguia imaginar. Outras pessoas do tamanho dela, com asas e caudas e chifres. Que pudessem brincar com ela.

— You're okay by Miosotis?

Havia cheiro de terra molhada lá fora e de café envelhecido ali dentro. Quadros estampavam amor e carinho pelas paredes. Vermelho escorria por toda parte, as árvores rodeavam um castelo enorme e, agora, também pertencente a Miosotis. Por um momento, pensou que esperar aquele tempo todo foi apenas o preço por receber a melhor casa e o melhor pai. Por um momento, esqueceu que havia maldade no mundo. Aquele seria o seu lugar seguro. E aquele seria o início do que ela pudesse chamar de família.

"Yeah. Im okey"

Notes:

Na minha cabeça é cannon