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Language:
Português brasileiro
Collections:
Desafio Loquinha
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Published:
2026-08-08
Words:
5,236
Chapters:
1/1
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6
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28
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240

cidade dos planos

Summary:

Lorena ama a praia, então não é exatamente uma surpresa que ela odeie Brasília quando é obrigada a se mudar para lá depois que seu pai é eleito deputado federal pelo seu estado. Isso até começar a bater ponto em um dos muitos clubes na beira do lago Paranoá.

Ou

Lorena aos poucos começa a desvendar a cidade esquisita ao lado de uma ruiva brasiliense entrona.

Notes:

Espero que vocês possam se apaixonar pelo menos um pouquinho pelo meu quadradinho, minha grande cidade pequena.

Uma (tentativa de) ode à Brasília e a Loquinha.

Título vindo da música: Brasília do Sérgio Sampaio.

Work Text:

Lorena ama o mar. Quando está se sentindo triste ou chateada ou nostálgica ou perdida ou feliz, ela logo procura as ondas como seu refúgio seguro. E ela nem precisa entrar no mar de fato, às vezes só sentir a água gelada na sola dos pés já é o suficiente para ela se sentir renovada. 

Lorena ama levar seus livros para a praia, ama ouvir o barulho da maré, ama até mesmo o canto esganiçado das gaivotas quando elas dão rasantes nos turistas desavisados. 

A praia é a casa de Lorena. Onde ela se sente mais em paz, onde respirar é possível longe do amor opressor do pai e das expectativas da mãe. A praia é onde Lorena se sente ela mesma. 

Por isso, não é exatamente uma surpresa que ela odeie Brasília quando ela é obrigada a se mudar para lá depois que o pai é eleito deputado federal pelo seu estado. 

Brasília é confusa com suas siglas, seus números, seus endereços estranhos, seus planos, suas linhas retas. E acima de tudo, ela odeia Brasília porque a cidade lhe tirou o que, possivelmente, é a única coisa que lhe fazia feliz. A possibilidade de colocar o pé na areia e sentir a maresia balançar seus cabelos. 

O mais próximo da praia que Lorena conseguiu obter foi bater ponto todo final de semana em um dos muitos clubes à beira do lago Paranoá. Não é, nem de longe, o mesmo que ver o mar todos os dias, mas ouvir o barulho da água batendo contra o deck de madeira aplaca um pouco a saudade de seu coração. E a brisa que vem das águas a refresca um pouco do calor seco dessa cidade esquisita. 

Então Lorena passa a ter uma rotina a cada final de semana. Coloca o livro da vez em sua ecobag, toma um café da manhã reforçado preparado por Zezé, pega um uber do apartamento funcional do pai na Asa Sul e parte rumo ao que agora é seu lugar favorito. Bom, talvez “favorito" ainda seja uma palavra muito forte para usar, mas com certeza já o lugar que ela menos detesta na cidade. 

Ela lê seus livros e escreve em seu sketchbook e paga 85 reais o quilo do almoço, olha as pessoas ao seu redor e reza para que as pessoas ocupando a quadra de areia sejam menos barulhentas.

Todo.

Final.

De semana.

Como um ciclo vicioso. 

Até que um dia tudo isso muda. 

- Você vem sempre aqui. 

Lorena sobe os olhos verdes das palavras impressas na fonte serifada para encontrar um ponto novo em sua rotina de sempre. Uma jovem mulher de olhos castanhos e cabelos alaranjados como a terra que ela já percebeu que ocupa tudo nessa época de seca. 

Lorena percebe que ela não lhe fez uma pergunta, tampouco lhe pediu licença. Só se deu a liberdade de sentar a sua mesa com seu top branco suado e sua viseira combinando, com seu suco de maracujá e seu cabelo amarrado em um rabo de cavalo. A mulher não lhe pergunta nada, apenas se senta em sua mesa como se fossem velhas amigas. 

Lorena por um instante se irrita. Sempre ouviu dizer da fama de mal educados dos brasilienses, de como eles não são abertos o suficiente como seus conterrâneos e ainda assim… ainda assim essa mulher se sente no direito de sentar em sua mesa e abrir espaço para si mesma em sua vida. Lorena promete para si mesma que não vai deixar acontecer por mais do que poucos minutos. 

- E como você saberia? Está me espionando?

A risada da recém chegada é clara e levemente estridente. Seus olhos se enrugam no canto, como se ela fizesse isso o tempo inteiro, como se rir já estivesse marcado em seu corpo como um acontecimento corriqueiro.

- Você bem que queria, gatinha. Mas não, é só que eu frequento o clube há um tempão… minha família foi uma das primeiras societárias, então acaba que conheço boa parte da galera que frequenta. - ela para um instante dando um gole em seu suco enquanto avalia Lorena de cima a baixo. - Você não é dos antigos, mas agora tá sempre aqui. 

Lorena revira os olhos e volta para as letras pequenas na página levemente amarelada. O trecho de onde a ruiva lhe arrancou é crucial, o cenário árido, a tensão, os momentos que antecedem a morte da cachorrinha. Lorena já leu esse mesmo trecho algumas outras vezes e chorou em todas elas. Quer estar concentrada para chorar outra vez. Acha que é menos feio chorar pelo animal fictício do que por sua vida já tão bagunçada. Ela espera que seus gestos tenham sido suficientes para afastar a intrusa de seu espaço.

Não foram.

- Eu sou Eduarda Fragoso e você?

Seus olhos verdes pausam sobre as palavras no papel “agachada e arisca”. Sente que está como a cachorrinha em sua história: desconfiada. Sente que quer rosnar para a mulher do outro lado, mostrar seus dentes, afastá-la de uma vez por todas para que possa voltar ao seu momento de paz. Seu único momento de paz. 

- Me dê um nome. Um nome e eu vou embora. 

O olhar de Lorena sobe, mas ela não parece um cão. Parece uma onça. Como as onças pintadas que vivem no cerrado. Os olhos felinos avaliam a figura desconhecida da mesma forma como foi avaliada, pensando se vale a pena responder. 

- Lorena. 

- Lorena de que?

- Você me pediu um nome. 

A risada da ruiva preenche o espaço outra vez, mas ela é fiel a sua palavra. Depois de dar uma piscadela na direção de Lorena, ela vai embora. 

(...)

No final de semana seguinte, uma briga com o pai tira Lorena mais cedo do que de costume de casa. Ela coloca apenas um pote com salada de frutas na bolsa e espera o BYD Dolphin no pilotis do prédio enquanto tenta não levar as palavras dele para o coração. 

Aberração. Esquisita. Desperdício. Vergonha.

No auge dos seus 21 anos, nada do que Santiago Ferette fala para ela é exatamente uma novidade, o que não a impede de se magoar mesmo assim. Ela ama e odeia o pai na mesma medida. Lembra do colo que recebia dele quando era pequena, antes dele se tornar essa pessoa tão difícil de lidar e são esses momentos que fazem com que ela sempre o perdoe, ainda que ele nunca peça desculpas. Lorena se pergunta até quando memórias de uma infância distante serão suficientes para sustentar um presente que já se tornou insustentável.

Ela chega cedo ao clube, logo no início da manhã, antes das famílias e suas crianças, mas depois do pessoal esportista. Esses já ocupam as piscinas com raias, as quadras de areia, os campos de futebol e as quadras de tênis. 

É quando vê fios ruivos refletirem a luz da manhã. Um novo top sendo usado pela mesma pessoa. Uma saia plissada e uma nova viseira, verde dessa vez. Lorena estanca na calçada íngreme por um instante vendo os movimentos da mulher, os braços definidos, a postura concentrada de quem está esperando o saque que vem do outro lado. Não sabe quanto tempo fica ali, mas é o suficiente para a mulher lhe ver e piscar em sua direção quando marca um ponto. 

Lorena sente as bochechas arderem e desce em direção ao lago. Se ela procura a mesa mais distante possível das quadras, é só porque hoje ela não quer ser incomodada pelo barulho. Ou é isso que ela diz para si mesma. 

(...)

- Quem estava espionando quem hoje, hein?

Já se passaram horas desde que Lorena chegou ao clube. Tantas que ela já havia relaxado e se deixado acreditar que a mulher - Eduarda, como sua mente faz questão de lembrar - não iria procurá-la. Agora se perde na biografia de uma menina que lutou pela educação de outras meninas em seu país ao ponto de levar um tiro na cabeça por isso. Lorena adoraria ter a sua coragem. Tem muitas coisas pelas quais Lorena gostaria de lutar também. 

- Não sei do que você está falando. 

Dessa vez Lorena não tira os olhos de seu livro porque teme que, se encontrar seus olhos com os castanhos em frente aos seus, deixará transparecer tudo. Sua mãe sempre lhe diz que ela é muito expressiva. Hoje Lorena não encara aquilo como um elogio. 

A risada da semana passada preenche de novo o espaço entre elas e parece livre como as araras que passam voando e procuram morada na palmeira alguns metros adiante.

- Espero que goste de suco de maracujá. 

Um copo de vidro é colocado em sua frente e só então ela se permite ser corajosa o suficiente para olhar para a mulher do outro lado da mesa. Ela toma seu próprio suco com um sorriso discreto nos lábios, mas o castanho que lhe fita não é zombeteiro, apenas acolhedor. Lorena estende a mão e pega o objeto gelado. 

- Achei que você não fosse vir hoje, que eu tivesse te assustado. 

Lorena desvia o olhar para longe, para as casas do outro lado do lago, para as lanchas que passam tranquilas nas águas. Como poderia abrir mão desse lugar se ele é o único onde se sente minimamente mais leve? Se é onde pode, por fim, respirar longe da presença do pai de um jeito que é impossível dentro do apartamento de 300m². 

- Eu gosto daqui. 

Ela diz simplesmente. Ainda não está disposta a abrir o seu mundo para essa desconhecida. Às vezes acha que é incapaz de abrir seu mundo para alguém. 

Nenhuma das duas fala mais nada e Lorena acha que já é seguro voltar a ler seu livro sem que seja interrompida uma segunda vez. Ela sente o olhar de Eduarda sobre ela, mas não deixa que isso a distraia muito. Algumas frases ela precisa ler mais de uma vez, mas estranhamente não se incomoda com isso. 

Eduarda só fala de novo quando o barulho do canudo sugando o suco do fundo do copo ecoa entre elas. 

- Obrigada pela companhia, Lorena. Te vejo aqui semana que vem. 

A ruiva lhe dá a mesma piscadinha de antes e se afasta. 

O coração de Lorena acelera, mas ela não sabe dizer se é ansiedade pelo próximo sábado ou por algo ainda mais perigoso. 

(...)

É assim que Lorena estabelece uma segunda rotina nessa cidade ainda alienígena. 

Ela chega enquanto Eduarda ainda está jogando, fica ali até que a outra mulher a veja e quando é notada, atravessa o clube até a orla e escolhe a mesa mais afastada. Quando Eduarda toma um banho e se troca, ela a procura e as duas dividem um suco de maracujá olhando as belezas de um cenário que Lorena está começando a admirar. 

No começo, elas trocam poucas palavras. Lorena ainda é muito reticente a deixar qualquer um chegar perto e Eduarda já entendeu que a morena gosta de espaço. Mas aos poucos a ruiva começa a comentar os livros que a outra mulher traz, perguntando algo quando nunca leu aquele título ou compartilhando suas próprias opiniões quando é uma história que conhece.

Lorena começa a pegar confiança em dividir suas opiniões e as duas compartilham, além da bebida gelada, risadas que ficam cada vez mais altas, cada vez mais soltas. Algumas vezes elas se encontram apenas aos sábados, um dia que as duas já começaram a marcar no calendário como um dia delas, com caneta azul como o céu infinito de poucas nuvens. Outras, estendem o encontro para o dia seguinte e voltam aos domingos para dividir uma refeição superfaturada e comentários literários. 

É assim que Lorena faz o que ela considera sua primeira amizade em Brasília. 

- Mas me conta Lorena… o que você gosta de fazer além de bater ponto no clube todo final de semana?

A morena olha para a nova amiga, mas ela segue concentrada em cortar seu pedaço de picanha. Eduarda é despretensiosa e, por ainda não saber seu sobrenome, Lorena tem certeza que ela está lhe perguntando porque ela verdadeiramente quer conhecê-la e não porque quer se aproximar de sua família. 

- Hum… eu não conheço muita coisa por aqui ainda. Dou uma volta pela minha superquadra ou eu e minha mãe vamos fazer compras no Iguatemi.

O garfo da ruiva para a meio caminho da boca e ela lhe olha como se não acreditasse no que está ouvindo. A expressão é tão engraçada que Lorena ri, as covinhas se afundam em suas bochechas e Eduarda deseja poder tatuar a imagem em sua própria mente para jamais esquecê-la. 

- E o que mais? Não faz mais nada? Há quanto tempo mesmo você tá por aqui?

Lorena para para pensar. Seu pai veio antes resolver toda a burocracia que uma mudança carrega. Ela, a mãe e o irmão vieram depois. 

- Uns seis, sete meses talvez…

- Vei, isso é impossível! 

A ruiva parece tão indignada que Lorena ri ainda mais alto, ainda mais livre.

- Ué, não tem muita coisa para fazer aqui.

Eduarda lhe olha como se quisesse arrumar uma maneira dela engolir suas palavras.

- Só alguém que não conhece Brasília falaria algo assim. - a tenista amadora revira os olhos e finalmente leva o pedaço de carne à boca, saboreia o alimento antes de falar outra vez. - Tipo agora eu vou ter que fazer te apresentar minha cidade, ser minha missão pessoal. 

Aquela é a primeira vez que Lorena pensa que com Eduarda ela é capaz de ir até para a lua. Logicamente ela não diz isso em voz alta, apenas guarda esse segredo em seu coração onde já guarda tantos outros. Nesse sentido, seu coração é como coração de mãe, sempre tem espaço para mais um. 

(...)

Lorena percebe que começou a confiar em Eduarda quando passa para ela o número de seu celular e também o endereço de sua casa. 

“cheguei”

A mensagem curta lhe avisa que a ruiva já está embaixo de seu prédio e Lorena sente o coração acelerar. Confere sua imagem no espelho uma última vez. Seu vestido longo e confortável, mais uma das ecobags de sua coleção, a jaqueta jeans que ela decide colocar de última hora porque os poucos meses morando por aqui já lhe ensinaram que, em Brasília, é sempre bom estar preparado para todas as estações em um único dia. 

- Tchau mãe, volto mais tarde!

Ela joga por cima do ombro já a caminho da porta, mas dona Zenilda acha que é insuficiente porque lhe chama de volta para a sala de janelões e piso de taco. 

- Onde mesmo que você vai?

- Sair com uma amiga do clube. 

É a primeira vez que Lorena sai sem ela ou Leonardo e a matriarca dos Ferette sente em seu coração que a filha finalmente está saindo de seu casulo, que finalmente está pronta para ser a borboleta que ela sempre acreditou que Lorena fosse. 

- Fico feliz minha filha, me mantenha informada!

- Claro, mãe.

A caçula dos Ferette dá um beijo na bochecha da mãe, mas apesar da promessa, se esquece completamente do celular até a hora de voltar para casa.

(...)

- Para onde a gente está indo?

Lorena olha pela janela, para os prédios parecidos, para as estradas largas e os números nas placas. Ela não admite, mas gosta que sua nova cidade tenha tantas árvores, que tantas crianças andem de bicicletas nas calçadas e tantas senhoras caminhem acompanhadas de suas cuidadoras nos inícios das manhãs e nos finais das tardes. 

- Se eu te falar o nome do lugar, você vai saber onde é?

Lorena leva só um segundo para responder. 

- Provavelmente não. 

- Então qual é o ponto em eu dizer?

Ela quer discutir com Eduarda, mas não acha que pode montar um argumento melhor do que dizer que quer saber mesmo assim e não acha que a ruiva vai considerá-lo válido. Então ela se permite apenas relaxar o corpo contra o banco do carro elétrico e admirar a paisagem. 

Como seguem pelo eixinho, não cruzam com nenhum semáforo. São apenas alguns quilômetros das linhas retas que se repetem constantemente na cidade. Nas vias, nos prédios, nos monumentos feitos de concreto. Brasília é tão diferente de sua cidade natal!

Elas chegam ao eixo monumental e Lorena se sente maravilhada com o que vê. A rodoviária parece caótica, como todas as rodoviárias costumam ser. Logo depois Eduarda lhe mostra o complexo cultural com a Biblioteca e o Museu Nacional e um grande espelho d’água entre eles. No vão de concreto, acontece uma batalha de rap e a cena é tão inusitada que Lorena deseja parar o carro só para observar mais e conseguir entendê-la. 

Em seguida vem a Catedral, com suas curvas e seu formato ousado. Lorena acha que parece que a cidade une as mãos em direção ao céu, como se pedisse algo que ninguém sabe ao certo o que é. Se pergunta se por acaso fosse ela com as mãos em posição de prece, seria ouvida pela força maior que rege o universo.

Mais a frente fileiras de prédios iguais com letras douradas indicam os Ministérios. E ao fundo onde seu pai trabalha. O famoso prédio que parece um H com seus pratos em posições opostas. Um arrepio desce sua coluna. Quer manter o pai o máximo possível afastado desse momento. 

As duas seguem o caminho e Lorena acha que nunca vão chegar em seu destino final. Brasília às vezes parece se estender sem fim, em estradas que vão indo e vão indo e unem pontos muito distantes uns dos outros. Para preencher o tempo que passa, elas aumentam o volume do rádio quando uma música salta da playlist de Eduarda e toca igualmente dois corações nostálgicos, elas riem das improvisações, das vozes que desafinam e dos cabelos esvoaçantes que se embaraçam e se embolam e dão cada vez mais nós uns nos outros.

Quando chegam, é a um prédio de concreto aparente com um amplo estacionamento e um jardim maior ainda. Banners gigantescos descem de algumas colunas do prédio mostrando a programação. 

- Bem vinda ao CCBB. 

Os olhos de Lorena começam a brilhar. 

- Nós temos um desses na minha cidade também! Só que lá é um prédio histórico no meio da rua. 

- Bom… em Brasília os prédios são históricos de maneira diferente. 

As duas descem do carro, arrumam os cabelos o máximo que conseguem e partem em direção à sua primeira aventura. 

Dessa vez o Centro Cultural Banco do Brasil recebe uma exposição chamada “Amazônia - Poéticas Femininas”. Só o nome já faz o coração de Lorena acelerar e criar as melhores expectativas. 

Elas encontram cores. Azuis fortes, amarelos vibrantes, vermelhos que reverberam no interior das duas. O corpo e a mente feminina são protagonistas e mostram um afeto e uma diversidade que toca o coração de Lorena, que traz lágrimas aos seus olhos verdes. Eduarda finge não ver, mas discretamente dá um passo para mais perto. 

Elas comentam o que veem, da mesma forma que comentaram livros nas últimas semanas. Trocam os turnos no momento de interagir com os óculos de inteligência artificial e comparam a outras exposições que já foram ao redor do mundo. Depois, saem para o extenso jardim e Eduarda tira da bolsa uma toalha que estende no chão. 

- Você nunca me contou como veio parar aqui.

A ruiva dá uma lambida em seu sorvete, um que comprou na lanchonete do local e tão fugaz como um passarinho, um pensamento invade a mente de Lorena. Por um instante mínimo, ela deseja ser aquele sorvete. 

- Meu pai foi transferido a trabalho. 

Tecnicamente não era uma mentira. 

- Ele trabalha com o que?

A morena pegou novamente Eduarda lhe olhando com seus olhos de corça. Achava incrível como ela conseguia transmitir tanto com um olhar. Se tivesse nascido com o dom da palavra, Lorena escreveria dezenas de poemas só sobre aqueles olhos, sobre se sentir acolhida pela terra que Eduarda leva dentro deles.

- Política. 

- Cara, isso é muito amplo… pode ser senado, câmara, os ministérios, cargos comissionados.

Lorena apenas ri, querendo manter o mistério e Eduarda, como sempre, percebe. Decide mudar o assunto. 

- E o que você faz da vida? Trabalha? Estuda?

- Eu fazia Letras, mas tranquei a faculdade antes de vir para cá.

Lorena não diz que foi muito antes de mudar de cidade, não diz que foi a mando de seu pai, não diz que foi após os apelos da mãe para que as brigas infinitas parassem. Lorena não diz que faz anos que sente que seu sonho foi arrancado dela. 

- E você? - ela vira a conversa para a ruiva, ainda se sente desconfortável compartilhando tanto de si. - O que você faz além de jogar tênis todo sábado de manhã?

- Faço Direito na UnB e estágio em um dos tribunais. Sua faculdade era particular ou pública?

- Particular. 

Seu pai jamais aprovaria que ela entrasse numa universidade pública, mas isso é informação que ela guarda para si mesma. 

- Poxa, pensei que se fosse pública você pudesse pedir transferência para a UnB, tipo... o processo é meio chato, mas você com certeza aproveitaria um montão de créditos. 

Lorena sorri, porque não há nada mais que ela possa falar sobre isso. Preenche o silêncio tomando seu sorvete e ouvindo as crianças brincando nas obras de arte transformadas em playground.

- Você quer conhecer?

Ela faz uma careta ao virar para a ruiva achando que perdeu uma parte da conversa. 

- O que?

- A UnB! Fica aqui pertinho… quem sabe você não se anima de voltar a estudar. Você é muito inteligente, tenho certeza que passaria logo no vestibular. 

- Hoje é domingo…

- E o que que tem?

- Como que a gente vai entrar?

Eduarda ri. O som é como o canto dos pássaros, como a água do lago que Lorena está começando a aceitar, como a primeira carícia depois de anos privada de carinho.

- Cara... a UnB não tem portões, nem grades, nem muros. A gente pode dar só uma passada de carro, só para você ver como é que é.

Um sentimento começa a nascer dentro do coração de Lorena. Parece muito com esperança. Ela se sente aterrorizada, mas aceita a mão de Eduarda mesmo assim. 

(...) 

A Universidade de Brasília é um terreno enorme que se estende por quilômetros que parecem não ter fim, assim como tudo nessa cidade. Os prédios de concreto aparente ficam espaçados e não possuem nenhuma grade entre si. 

Lorena divide sua atenção entre o que vê pela janela e o falatório empolgado de Eduarda. Como em outras partes de Brasília, as placas são repletas de siglas que a ruiva vai, aos poucos, traduzindo para ela. Passam pela Faculdade de Medicina, pela Faculdade de Educação, pelo Famoso ICC e pela Faculdade de Direito, carinhosamente apelidada de Olimpo, por estar na parte mais alta do terreno (e também abrigar os estudantes mais insuportáveis de todo o campus).

Eduarda não fala só da parte física do local, mas engata uma história atrás da outra sobre festas no subsolo, sobre os Centros Acadêmicos, sobre professores insuportáveis, sobre amigos que conseguiram a oportunidade de estudar fora do país. Eduarda fala sobre conviver com pessoas diferentes, sobre a oportunidade de pegar matérias em outras áreas de conhecimento, sobre as aulas de dança que acontecem nos mais diversos espaços de convivência. Eduarda conta para ela quais são os melhores pontos para almoçar, onde o açaí é realmente gostoso e quais cafés evitar. 

Lorena olha para ela, atrás do volante do carro, com os cabelos refletindo a luz do sol parecendo labaredas de fogo, com a risada alta preenchendo o espaço entre elas e os olhos brilhantes lhe encarando de lado e pensa que nunca ninguém lhe pareceu tão bonito. 

Dentro de seu coração um dos segredos desperta, se aproxima da porta e bate inseguro na madeira querendo sair. Ele espia pela fechadura o espaço do lado de fora, desejando ser destrancado e retirado desse lugar escuro e frio. Lorena engole em seco e manda a criança que está guardada dentro dela repreender o segredo. 

Todo mundo sabe que nada sairia de bom de ter seu segredo exposto ao mundo, que ele foi feito para morar ali em seu peito. Então, depois de ser repreendido, seu segredo volta cabisbaixo para o lugar onde sempre morou. 

Do lado de fora, Lorena abre ainda mais o sorriso, forçando tanto os lábios que sente que o que tem no rosto é na verdade uma careta. Por fora, Lorena finge que está tudo bem. 

(...)

Depois que os números de telefones são trocados entre elas, as mensagens passam a ser constantes. 

Primeiro, elas vêm com planos despretensiosos feitos ao longo dos dias. O sorvete caro mas absolutamente perfeito do Brazilian Ice Cream, o hambúrguer no Páprica original (aquele no contêiner no posto da Asa Norte), um passeio de bicicleta no Parque da Cidade (aqui Lorena se encanta com a risada de Eduarda ao dizer que nunca conheceu ninguém que chamasse aquele meio de transporte de camelo), o dog da Igrejinha. 

Depois, as mensagens já nem precisam mais de tantas desculpas. São “bom dia” e “boa tarde” enviados pelo simples pretexto da saudade que embora ainda não seja revelada de maneira explícita, já começava a aparecer pelas frestas que as duas deixavam aparentes. São os memes que viram e lembraram uma da outra, as indicações literárias, as músicas preferidas, os convites ao cinema (no Pier 21, o shopping mais esquisito que Lorena já conheceu). 

As mensagens começam a ser constantes como os sorrisos de Lorena ao respondê-las, como os toques insistentes de seu segredo na porta de seu coração, como os olhares furtivos que dona Zenilda começa a dar em sua direção quando as notificações anunciam uma nova mensagem.

A amizade (será essa mesma a palavra? Lorena já não sabe dizer) entre elas continua a crescer, como as flores dos ipês que florescem colorindo a cidade, enchendo de cor também sua vida que, até então, parecia ser sempre cinzenta. O sentimento que Lorena começa a criar pela brasiliense, vai crescendo também tal qual árvore retorcida, nos espaços onde encontra brechas em seu interior.

Um cerrado vai criando forma dentro de Lorena, com raízes profundas e escondidas que buscam lá no fundo o que precisam para sobreviver. O que ela deixa transparecer é tão pequeno que, quem olha, acha que não tem nada lá, sem saber que o cerrado é na verdade conhecido como floresta invertida. 

(...)

É no cerrado que Lorena encontra as respostas que finge que já não tinha. A cerca de 250 km de Brasília, fica a Chapada dos Veadeiros e as duas decidem trocar um final de semana de clube por outro tipo de água. 

A chegada a Alto Paraíso é ao som de uma gargalhada de Lorena que se sente livre para sair como nunca antes. O portal para a cidade é uma grande nave espacial e é tão inesperado para a morena que ela logo saca o telefone e tira várias fotos, das boas vindas, de sua própria risada, do rosto admirado de Eduarda. Lorena quer guardar esse momento para sempre muito além de apenas a sua memória. 

Elas passam rapidamente no chalé que alugaram só para descarregar as coisas e trocar de roupa e logo seguem para o primeiro destino munidas de tênis, bonés, protetor solar, snacks, garrafas de águas e repelente. Será um longo dia de caminhadas pela frente.

A primeira parada é Cordovil.

A natureza que encontra é diferente de tudo que Lorena já viu antes. Em casa, as matas são fechadas e úmidas e as árvores tão altas que deixam grandes dosséis. Aqui, tudo é plano. A vegetação é rasteira boa parte do caminho e depois, aparece em árvores baixas, retorcidas e espaçadas. Uma parte da trilha é feita nas pedras, mas o que encontram no final faz cada segundo valer a pena. 

Eduarda não perde um segundo e vai logo tirando os sapatos e roupas, pronta para mergulhar nas águas verdes do poço que recebe a queda de 45m. Logo ela está de biquíni marrom como seus olhos e cabelos presos num rabo de cavalo. 

Lorena não parece tão certa assim. 

- O que foi?

A ruiva pergunta quando percebe que a morena não tirou nada além dos sapatos. 

- A água tá gelada. 

- Achei que você gostasse de água gelada. 

É verdade, Lorena está acostumada com as águas geladas de casa, as ondas frias e o choque térmico entre elas e o dia quente, mas o gelo que encontra aqui é diferente. Parece mais perigoso. 

- Não tô acostumada com cachoeira.

- Esse é o propósito da viagem, uma nova aventura!

Lorena olha incerta para a água que reflete o dia claro, para os peixinhos pequenos que mesmo ali no raso nadam ao redor das pedras. Ela balança a cabeça em negação. 

- Acho que vou esperar um pouquinho.

Eduarda escolhe respeitar a decisão, coloca todas as roupas juntas à sua mochila e anda alguns metros até uma pedra um pouco mais alta. Lorena aproveita que a outra mulher está distante para olhá-la sem medo e sem reservas. Seu corpo atlético coberto apenas pelo tecido marrom, os fios suados do cabelo pela caminhada no sol quente, o sorriso imenso que ela lhe endereça quando percebe que está sendo observada. 

- Vem Lorena! - ela grita de longe tentando incentivar a morena. 

- Eu que não vou pular num poço cheio de pedra! - ela devolve. 

- Então me filma, meu pulo vai ser legendário!

Lorena ri livre outra vez, os cabelos voando, a cabeça para trás, os olhos claros estreitados na direção da mulher que criou raízes do seu coração.

- Você quis dizer lendário?

Se possível, o sorriso de Eduarda se torna ainda maior, brilhante como as estrelas, puro como o canto dos pássaros, indispensável como o ar que entra nos pulmões de Lorena. 

- Vai, eu vou contar até três!

Lorena obedece. Pega o celular, abre a câmera, ativa o zoom e dá um sinal positivo para a ruiva começar a contar. Ela grava a cena, mas decide não ver tudo pela tela, foca os olhos na figura alaranjada que passou a aquecer seus dias tal qual o sol. 

Quando vão ver o vídeo horas depois, percebem que o enquadramento ficou meio torto, mas Lorena não se arrepende nenhum pouco. Vai lembrar para sempre do arco que Eduarda fez no ar antes de cair na água, da risada que explodiu cristalina em meio a beleza do Cerrado. 

Lorena não se arrepende nenhum pouco de ter olhado para ela, porque foi vendo a absoluta liberdade de Eduarda naquele momento que ela finalmente admitiu para si mesma que está apaixonada por aquela mulher. Está apaixonada pelo tom de seus cabelos que imita o por do sol em dias de noite fria, pelo castanhos dos olhos que combina com a casca das árvores, pela mão quente que sempre lhe é estendia como um convite ao carinho.

Seu primeiro segredo consegue destrancar e abrir a porta e olha feliz para o lado de fora, satisfeito por poder, pela primeira vez, vislumbrar os planos de um futuro que deseja.

Ela decide comemorar sua revelação tirando a roupa e correndo em direção a Eduarda. A água fria lhe envolve num abraço quase paralisante, mas Lorena dá as boas vindas a ela, não mais com medo, pelo menos não aqui. Aqui há só ela, Eduarda e o Cerrado. A natureza plana e aberta lhe dá a oportunidade de abraçar o corpo esguio debaixo d'água, lhe dá a chance de respirar o ar puro que sua cidade natal nunca lhe deu. Aqui no Cerrado, Lorena se sente Lorena pela primeira vez.

Lorena ama o mar, acha que sempre amará, mas ali percebe que talvez também seja capaz de amar as cachoeiras.