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Doces ou Travessuras

Summary:

Uma noite de Halloween passada com os doces, porém astutos, Fogos-Fátuos de Amity Park.

Notes:

Work Text:

​Este era o segundo Halloween de Danny como meio-fantasma, e estava sendo muito, muito melhor do que o primeiro. Por outro lado, quase qualquer coisa seria melhor que o Halloween passado, contanto que “liberar acidentalmente um fantasma ancestral maligno e quase ser forçado a comer a cueca do Dash” não estivesse na programação.

​Cara, ele nunca tinha ficado tão feliz em ver o Sr. Lancer quanto no dia em que o professor entrou no refeitório e interrompeu aquilo. Foi um tanto patético.

​Enfim.

​Aquele Halloween estava indo bem. Sim, houve fantasmas causando problemas durante o dia, aproveitando o poder extra no ar e a fragilidade da realidade que vinha com a celebração. Mas o que havia de novo nisso? Danny se beneficiava do mesmo efeito, então não era como se ele estivesse em desvantagem.

​Danny não participaria da casa mal-assombrada este ano, nem, para decepção de Tucker, sairia para pedir doces.

​Bem. Ele ajeitou a mochila no ombro enquanto caminhava pela rua. Ele não ia pedir doces de um jeito tradicional, pelo menos. Estava fazendo uma ronda para checar os fantasmas residentes de Amity Park. Ele não esperava que eles lhe dessem doces... ou qualquer outra... coisa. É.

​Na verdade, ele tinha trazido doces com ele para dar aos fantasmas menores e àqueles que tinham casas e, portanto, poderiam receber visitantes. E também para Tucker, quando se encontrassem mais tarde. Danny se sentia um pouco culpado por ter deixado o amigo sair para pedir doces sozinho.

​Danny olhou para o céu. Não faltava muito para o horário em que tinham combinado de se encontrar. Sam e Tucker queriam conhecer as mais novas adições à população fantasmagórica de Amity Park. Jazz também queria, é claro, mas em uma reviravolta chocante do destino, ela tinha sido escalada para ajudar na casa mal-assombrada, então teria que ficar para uma próxima.

​O vento aumentou, soprando as folhas pela rua e quase levando o chapéu de Danny. O garoto conseguiu agarrá-lo antes que fosse longe demais. Não seria nada bom perdê-lo. Ele não estava usando uma fantasia muito elaborada, e sem o chapéu pontudo, suas vestes pareceriam apenas estranhas.

​Ele tinha acabado de passar por um local naquela rua e, logo em seguida, seguiria para o Parque Marley para encontrar os amigos.

​


 

​— Isso é um tédio — reclamou Paulina.

​— É — concordou Star. — Talvez esse tipo de coisa funcione para calouros ou alunos do fundamental, mas para nós? Totalmente imaturo.

​Paulina cruzou os braços e soltou um gemido.

— Já era um tédio no fundamental também. Halloween deveria ser assustador e tenebroso. Não — ela gesticulou — isso. Quer dizer, copos de plástico laranja e roxo? Maçãs? Doces genéricos? Bleh.

​— É — concordou Star. — Falou tudo, Pauli.

​— Tipo, nem os esquisitões estão aqui. — Paulina suspirou profundamente. — Se está sem graça demais até para aqueles inúteis, é porque está muito ruim mesmo.

​— A gente podia batizar o ponche — sugeriu Dale, um dos jogadores de futebol.

​— Que nojo. Nem pensar. Você quer que alguém morra?

​— Eu não ia colocar tanto assim — protestou Dale. — Só o suficiente para deixar as coisas interessantes.

​Paulina virou-se para Dale e colocou as mãos na cintura. Ela o avaliou de cima a baixo. Dale estava usando uma tentativa bem suspeita de fantasia de múmia. Perto de Dash, que vestia um traje do Phantom razoavelmente bem feito; Kwan, que estava de monstro de Frankenstein; e Star, que decidira ser a Supergirl naquele ano, ele estava deixando a desejar. E muito.

​Claro, todos eles empalideciam diante da fantasia de bruxa elegante, elaborada e muito, muito sexy de Paulina.

​— Eu tenho uma ideia melhor — disse Paulina. Sua animação deliberadamente falsa fez com que os agregados mais fracos dos populares corressem para se esconder, e até os membros mais populares começaram a se afastar discretamente de Dale. Paulina anotou mentalmente quem eram os satélites que ficaram. Poderiam valer a pena futuramente. — Por que você não guarda a tigela de ponche e impede que algum idiota tente batizá-lo, ok? E, ah, só para deixar as coisas mais interessantes: se alguém ficar bêbado ou passar mal porque algum imbecil batizou a bebida, eu vou contar aos professores que foi você. — Ela inclinou a cabeça, pensativa. — Acho que também vou expulsar da lista dos populares qualquer um que for estúpido a esse ponto. Digo, não é como se eles tivessem algo a acrescentar, certo?

​— Você está falando sério?

​— Morta de séria.

​Dale saiu de fininho.

​— Pesada — comentou Dash.

​— Ele é um completo idiota — disse Paulina, agitando os dedos em sinal de desdém. — Pode até ser bonito e um bom jogador, mas existe um limite para as coisas.

​— Falou e disse — concordou Kwan, balançando a cabeça com vigor. Ele tinha um primo que havia morrido em um acidente causado por motorista embriagado.

​— Sabe — disse Tiffanie, namorada de Dash —, acho que está rolando alguma coisa lá no Parque Marley. Querem dar uma olhada?

​— Claro, por que não?

​


 

​Ninguém saía para pedir doces na casa da família Fenton. Na verdade, ninguém pedia doces na rua deles por quase um quarteirão inteiro. Isso se devia, principalmente, à tendência de Jack de cobrir de gosma qualquer um que aparecesse fantasiado de fantasma. Ou de bruxa. Ou de monstro de Frankenstein. Ou de zumbi. Ou de esqueleto. Ou... Bem. A lista continuava por um bom tempo. Um tempo bem longo.

O outro motivo era que a maioria dos vizinhos que conseguia aturar os Fentons também era, no mínimo, um pouco estranha. A coisa menos bizarra que essa galera distribuiu nos últimos anos foi pasta de dente em “tamanho diversão”. Os grandes vencedores no quesito bizarrice eram, sem dúvida, os Fentons. Eles alternavam entre distribuir armas pequenas, doces que tinham a tendência de ganhar vida e devorar todas as outras guloseimas da sacola, e pedaços de caramelo sem embalagem. Estes últimos costumavam ser entregues com lágrimas nos olhos. Isso quando eram entregues.

​Não, ninguém batia na porta dos Fentons para pedir doces ou travessuras há anos.

​Isso deixava os pais de Danny, Jack e Maddie — caçadores de fantasmas extraordinários e pesquisadores de ponta em suas áreas — livres para dedicar o Halloween inteiro ao trabalho. Ou seja, proteger o próprio lar da ameaça sorrateira dos fantasmas.

​— Você pegou o Fenton Localizador, querido? — perguntou Maddie. Ela estava ocupada garantindo que todas as armas estivessem com a carga máxima e prontas para o uso.

​— Pode apostar que sim, docinho! — exclamou o sempre empolgado Jack. — Devo preparar o Veículo Fenton de Assalto Fantasma?

​Maddie pensou seriamente a respeito.

​— Não, acho que não. Vai ser difícil identificar fantasmas com tanta gente fantasiada, então é melhor irmos a pé.

​— Falou e disse, Mads! Então, para onde vamos primeiro?

​— Hum. Bem, tem aquela festa enorme no parque...

​


 

​Havia, Sam notou, um leve ar de desespero naquela festa. Não um desespero social, do tipo que ela havia acabado de deixar para trás no festival de esnobismo em sua casa, mas um desespero real. Ou talvez fosse apenas um medo cuidadosamente mascarado. O último Halloween, afinal, incluiu uma invasão, mesmo que tivesse durado apenas algumas horas. Esse era o tipo de coisa que costumava assustar as pessoas.

​Na verdade, era até um pouco estranho que aquela festa estivesse acontecendo. Seria muito mais compreensível se todos estivessem trancados em casa, esperando por um desastre. Por outro lado, naquela época, o Portal Fenton tinha acabado de ser aberto, e as lutas contra fantasmas ainda eram algo com o qual as pessoas estavam aprendendo a lidar. Sam tinha quase certeza de que muitos ainda achavam que tudo não passava de uma farsa. Agora, a população estava acostumada com fantasmas. Claro, alguns ainda eram aterrorizantes, mas outros, como Danny e (por incrível que pareça) o Fantasma da Caixa, eram populares.

​Falando no Danny...

​Sam deu uma cotovelada em Tucker.

​— Ei, que horas são?

​— Umas 18:30 — respondeu Tucker, resmungando em volta do palito de um pirulito.

​Ela e Tucker tinham acabado de se encontrar. Sam já estava no parque havia quase uma hora. Tucker passou o tempo recolhendo doces de qualquer um que estivesse disposto a dar guloseimas para adolescentes, e só apareceu por ali depois que as opções se esgotaram.

​— O Danny já deve estar chegando.

​— É. Onde a gente ia se encontrar mesmo?

​— Na fonte.

​— Ah, é.

​


 

​Danny contornou a festa comunitária no centro do parque. Havia principalmente adultos, e principalmente humanos, mas dava para notar um bom número de crianças e alguns fantasmas que se misturavam facilmente no meio do pessoal fantasiado. Parecia uma festa legal; tinha uma banda local tocando, além de alguns jogos e barraquinhas montadas. Havia uma fileira de pessoas dentro de casinhas de papelão distribuindo doces para a garotada, e tudo estava muito bem iluminado.

​Mas Danny não estava ali pela festa. Pelo menos, aquele não era o seu primeiro destino da noite. Talvez fosse o último, se a comemoração ainda estivesse rolando depois de sua última visita.

​A velha fonte seca surgiu em seu campo de visão assim que Danny virou em uma nova trilha. Sam e Tucker já estavam lá, esperando. Tucker vestia uma fantasia de Faraó Egípcio até que bem-feita. Ele alternava entre ser um egípcio e um cientista maluco no Halloween desde que Danny se entendia por gente. Danny ficou um pouco surpreso por ele estar usando uma fantasia egípcia depois do que havia acontecido um mês antes, mas, para ser honesto, nem tanto assim. Sam estava vestida de Hera Venenosa. Danny já sabia que ela faria isso. Ela tinha deixado a raiz do cabelo crescer e comprado um monte de removedor de tintura na última vez em que foram ao mercado juntos, tudo para que seu cabelo ficasse vermelho para a fantasia. Ela estava...

​Bonita.

​Ela estava bonita.

​— E aí, pessoal! — disse ele, assim que se aproximou o suficiente para ser ouvido. — Como foi o dia de vocês?

​— Até que foi bom — respondeu Sam. — Fugi de uma festa na casa dos meus pais. Vocês não vão acreditar no que eles queriam que eu vestisse. — A declaração veio acompanhada de uma revirada de olhos. — Minha mãe achou que eu estava tirando a tinta do cabelo para virar algum tipo de zumbi consumista descerebrado que só veste rosa.

​Ela falou em tom de piada, então Danny apenas concordou com a cabeça e disse:

​— Que nojo. E você, Tuck?

​— Ah, a caçada não rendeu tanto quanto no ensino fundamental, mas fazer o quê. — Ele deu de ombros.

​— Ah, é! Quase esqueci. Toma aqui. — Danny tirou um pacote de doces da mochila e o estendeu para Tucker.

​— Cara, pelos céus, você é um herói! — Tucker agarrou o pacote com as duas mãos e o apertou contra o peito. — Doce, doce açúcar.

​Sam espiou dentro da mochila de Danny.

​— Uau. Quanto da sua mesada isso custou?

​— Tudo o que não foi gasto reabastecendo os kits de primeiros socorros, mais um pouco do que eu surrupiei do Vlad na última vez em que ele apareceu em casa pra dar em cima da minha mãe — disse Danny, sem a menor sombra de culpa.

​Sam quase engasgou de rir.

​— Você não fez isso — ela ofegou.

​— Ah, ele fez sim — confirmou Tucker, que não estava em um estado muito melhor. — Você é louco, cara.

​— Mas, falando sério — disse Sam, já um pouco recuperada. — Você não vai se encrencar por causa disso, vai?

​Danny deu de ombros.

​— Provavelmente não. Quer dizer, não mais do que eu já estou por causa de outras coisas, eu acho.

​— Tudo bem, só... você sabe, tome cuidado.

​— Pode deixar.

​O clima estava ficando pesado demais. Era hora de mudar de assunto. Ele sorriu.

​— Estão prontos para encontrá-los?

​— Sim, é para isso que estamos aqui — respondeu Sam, sorrindo de volta. — Então, para onde vamos?

​— Por aqui — indicou Danny.

​O Parque Marley era maior do que parecia. Na verdade, era muito maior do que deveria ser. O lado de fora não condizia com o lado de dentro. Se você ficasse nas áreas principais — os portões, as pistas de asfalto e concreto, o grande lago e as áreas cobertas de piquenique —, provavelmente não notaria nada. Se você se afastasse desses locais, indo para as partes menos movimentadas, começaria a perceber. As trilhas de cascalho não levavam para onde deveriam levar. As velhas mesas de piquenique cobertas de musgo estavam sempre em lugares diferentes. Os lagos menores mantinham uma constante camada de névoa ou neblina sobre a água, mesmo em dias claros. As árvores eram maiores e mais altas do que aparentavam para quem as via do lado de fora do parque. Mas era preciso pegar as trilhas de terra, ou sair completamente do caminho marcado, para encontrar as coisas realmente estranhas.

​Nas partes ocultas do Parque Marley, escondia-se uma floresta profunda, escura e, acima de tudo, encantada.

​Danny não tinha certeza se isso acontecia por causa de todos os fantasmas que “moravam” ali, ou se os fantasmas estavam lá justamente por causa disso. Ele não achava que isso importava. De qualquer forma, o assunto sempre rendia discussões interessantes quando ele, Sam e Tucker estavam em patrulha.

​Esta noite, o trio iria sair da trilha.

​O espaço entre as árvores foi escurecendo, e as luzes e sons da festa ficaram para trás, desaparecendo no silêncio. Danny se transformou em fantasma, de forma quieta e lenta, sem os anéis habituais; sua transformação cintilou e brilhou, espalhando-se da mão esquerda pelo braço, até cobrir o corpo inteiro. Sua aura ganhou vida como uma vela sendo apagada, só que ao contrário.

​— Sinistro, cara — comentou Tucker, acenando com a cabeça.

​— Bom, eu não queria cegar vocês.

​— Por que você não faz isso o tempo todo? — perguntou Sam. — Chama menos atenção.

​— Os anéis são mais rápidos — justificou Danny, dando de ombros. Ele invocou um globo de ectoplasma verde e vívido na mão. — Eu imagino que tenha mais chance de alguém notar algo com os anéis, mas menos chance de alguém realmente ver qualquer coisa. De qualquer forma, ninguém percebeu nada até agora.

​— A Jazz — lembrou Sam.

​— Aquele tal de Weston — emendou Tucker.

​— É, mas o Weston é maluco.

​— E quanto àquele culto?

​— Não conta. Eles não ligam para o clarão de qualquer jeito.

​— Então, a que distância esses caras estão, afinal? — perguntou Sam.

— Ficam lá perto do riozinho onde eu costumo treinar. Pelo menos, é lá que eles estavam, mas podem ter se mudado. Eles ainda não se estabeleceram de verdade. — Ele fez uma pausa. — Mas a gente deve conseguir vê-los de qualquer forma, eles brilham... Ah! Olha um ali!

​Sam e Tucker apertaram os olhos na direção da escuridão.

​— Eu não estou vendo nada — disse Sam. — Você é quem tem olhos melhores para enxergar no escuro, lembra?

​— Ah, é verdade. Bom, de qualquer jeito, eles devem nos notar a qualquer momento.

​


 

​— Ei — chamou Star, apontando —, aquele ali não é o trio de esquisitões?

​— Argh — reclamou Paulina. — Não chame os três assim. Faz parecer que são os personagens principais de algum livro. Eles são só esquisitos e fracassados.

​— Tá, tá bom, mas o que eles estão fazendo aqui?

​— Curtindo a festa? — sugeriu Dash, examinando a seleção de máscaras na barraca de um vendedor. — Fugindo daquele baile patético do colégio?

​— Mas eles estão se afastando da festa.

​Paulina pensou no assunto por um minuto. Ela tinha um bom faro para chantagens e queria manter aquela garota, a Manson, na palma da sua mão desde o ensino fundamental. A única coisa que tinha contra ela, até o momento, era o fato de que Manson era secretamente rica. Vazar essa informação provavelmente arruinaria a própria base de poder de Paulina mais do que qualquer outra coisa, por mais que fosse divertido ver Manson se contorcendo sob uma atenção indesejada.

​— Vamos segui-los — decidiu ela.

​Falar era mais fácil do que fazer. Os esquisitões tinham uma vantagem significativa e foram direto para a parte mais arborizada do parque. Paulina e seus amigos os perderam de vista rapidamente.

​— Talvez a gente devesse voltar para a festa? — sugeriu Kwan. — É meio assustador aqui.

​— Não seja tão bebê — retrucou Paulina, suspirando em seguida. — Só mais alguns minutos, tudo bem? Eles devem estar usando uma lanterna para enxergar. Nós deveríamos conseguir vê-los.

​— Eles não poderiam estar usando os celulares?

​— Pff. Você acha mesmo que aqueles fracassados têm celulares. Faça-me o favor. — Ela avistou uma luz se movendo por entre as árvores. — Ali! — exclamou. Em seguida, baixou o tom de voz para que os perdedores não a ouvissem: — Agora é só segui-los.

​


 

​A pequena bola de luz à frente deles parou de se mover e, em seguida, disparou na direção do trio em alta velocidade. Por reflexo, Sam e Tucker ergueram os braços para se proteger, mas a luz freou bem na frente de Danny. Começou a girar ao redor dele, emitindo sons musicais que, de alguma forma, fizeram os três pensarem em exclamações animadas e em cores mudando rapidamente.

​Danny riu e murmurou algo que esperava ser um cumprimento. Clockwork tinha lhe dado uma “cola” com o idioma que os Fogos-Fátuos usavam, mas ele não teve muito tempo para praticar.

​O Fogo-Fátuo trinou e esbarrou carinhosamente na bochecha de Danny.

​— Ei — disse Danny, em inglês. — Você pode nos levar até os seus amigos?

​O Fogo-Fátuo flutuou no ar por um instante e depois disparou para longe.

​— Fofo — comentou Sam.

​— Não é?

​O Fogo-Fátuo voltava a todo momento para garantir que Danny e seus amigos o estavam seguindo. Outros Fogos-Fátuos se juntaram a eles à medida que avançavam pelas profundezas do bosque, até que cerca de uma dúzia os escoltasse. Todos pareciam muito interessados em Danny e não paravam de esbarrar ou pousar nele. Um dos menores estava fazendo ninho em seu cabelo. Tucker, é claro, estava tirando fotos com seu PDA.

​Eles estavam chegando à parte estranha do parque. As árvores haviam se tornado esquisitas e retorcidas, e davam frutos peculiares e disformes. Estava tudo silencioso, com exceção de Danny, Sam, Tucker e os Fogos-Fátuos. Nenhum animal vivia ali, onde havia tantos fantasmas.

​— Quase lá — disse Danny alegremente, com uma voz cantarolante. Suas bochechas estavam levemente coradas, e seus olhos brilhavam mais do que o normal.

​— Eles não estão te deixando chapado de novo, estão? — perguntou Tucker.

​— Não! — respondeu Danny, estalando a língua na palavra. — Eles só são muito fofinhos.

​No ecossistema fantasmagórico, os Fogos-Fátuos eram como peixes-rêmora. Eles tinham uma relação simbiótica com fantasmas mais fortes e poderosos, recebendo proteção e um lugar para viver em troca de processar energia emocional e ectoplasmática para que o fantasma mais forte pudesse absorvê-la. O status único de Danny como um meio-fantasma significava que, às vezes, ele ficava um pouco... estranho, caso “comesse demais”. Os Fogos-Fátuos que vieram para Amity Park não tinham entendido exatamente como compensar isso. Ainda. Mas não era como se Danny estivesse ficando chapado. Isso era uma bobagem.

​Ele deu uma risadinha. Um Fogo-Fátuo roçou a ponta do seu nariz, e ele riu de novo.

​— E fazem cócegas! Ou será que eu tenho cócegas? Qual é o sentido certo dessa palavra mesmo? — Ele pensou no assunto por um instante, depois deu de ombros. Isso realmente não importava. — Então. — Ele deu uma cambalhota no ar, passando a flutuar de cabeça para baixo. — O que acharam deles?

​Sam e Tucker trocaram um olhar.

​— Até que eles são bem legais — disse Tucker.

​— Eles realmente complementam toda essa estética de “floresta encantada” — comentou Sam.

​Os Fogos-Fátuos se reuniram em torno de Danny e emitiram uma série de tons crescentes. Havia muito mais do que uma dúzia deles agora, e o bosque ao redor estava ficando cada vez mais iluminado.

​— Meus amigos gostaram de vocês, seus bobos! — disse Danny.

​Uma das bolas brilhantes emitiu um som agudo de compreensão e voou até Sam para tocar rapidamente em sua bochecha antes de recuar timidamente para trás de Danny.

​— Bem — disse Sam, sorrindo —, eles são macios.

​


 

​— Pelos céus — sussurrou Paulina —, aquele é o Phantom!

​— Eu sei — disse Dash, também maravilhado.

​— O que ele está fazendo com aqueles inúteis?

​— Sei lá, talvez ele sinta pena deles? — sugeriu Star.

​Paulina franziu a testa ao ver Phantom sorrindo e rindo junto com a Manson. Aquela era a forma mais relaxada em que já o tinha visto. Normalmente, ele só era avistado durante ou depois de uma luta contra fantasmas, ou algum outro desastre, como um incêndio ou um acidente de carro. Naquele exato momento, ele estava abraçando uma bola de luz como se fosse um ursinho de pelúcia.

​Ele ficava bem fofo assim.

​— Nós vamos segui-los — declarou Paulina.

​— Tem certeza de que isso é uma boa ideia? E se acontecer alguma coisa ruim? — perguntou Kwan.

​— Com o Phantom aqui? Até parece. Ele vai nos proteger. Vamos lá.

​


 

​— Estou captando um pico de ectoatividade perto do parque! — avisou Jack.

​Maddie franziu a testa e espiou por cima do ombro de Jack. Ela não esperava que o parque fosse ser um ponto quente esta noite (ou melhor, um ponto frio, considerando as temperaturas médias dos fantasmas). Eles estavam vigiando uma fileira de casas abandonadas e supostamente mal-assombradas a algumas ruas de distância.

​— Não é lá que está acontecendo a festa da comunidade este ano? — perguntou Maddie.

​— Aquela da qual fomos banidos? Acho que sim!

​— Há muitas vítimas em potencial por lá — disse Maddie, preocupada. — Se um fantasma atacasse...

​— Nós deveríamos ir lá investigar! — exclamou Jack. — E então poderemos pegar esses fantasmas!

​


 

​O Agente K encarou a tela do seu computador com irritação.

​— Eu odeio o Halloween.

​— O que foi? — perguntou seu parceiro, o Agente O, bebericando uma xícara de café.

— Aqueles novatos idiotas estão saindo para uma caçada não autorizada.

​— Eu não acho que eles sejam exatamente “novatos” — observou O. — São transferidos. Do Brooklyn.

​— Eles ainda não deveriam sair em missões independentes sem preencher os formulários 11003, 342, 891b e obter aprovação.

​O deu de ombros.

​— Bem, não vai ser culpa nossa quando o Phantom destruir todo o equipamento deles, não é?

​— Mas a papelada... — choramingou K.

​— Qual é, nós passamos o dia todo preenchendo papelada. Não vai ser tão ruim assim.

​K gemeu.

​— Para começo de conversa, nós nem deveríamos estar caçando o Phantom — resmungou ele. — Moleque irritante.

​— Hum? O que foi?

​— Nada, nada.

​


 

​Eles chegaram ao riozinho. Devia haver uns cem Fogos-Fátuos por lá, aninhando-se nas árvores, flutuando pelo ar. Todos tinham cores diferentes, brilhantes, lindos, misturando-se em redemoinhos extasiantes. Parecia a Noite Estrelada de Vincent van Gogh, mas em tons pastéis.

​Danny estava no centro de tudo, sorrindo e tagarelando sem parar. Era no mínimo duvidoso que os Fogos-Fátuos estivessem compreendendo alguma coisa, mas isso não o impedia. Ele parecia determinado a garantir que cada um deles fosse apresentado de forma pessoal e individual a Sam e Tucker.

​De repente, Danny paralisou e soltou um suspiro assustado.

​— Esqueci os doces.

​— Não esqueceu, não — disse Tucker, que estava achando toda aquela situação muito divertida. — Você deu para mim.

​— Não! Doces! — Danny puxou um saco de guloseimas de dentro da mochila. Era muito maior do que aquele que ele havia dado a Tucker.

​— O que é isso? — perguntou Tucker, ofendido. — Você estava escondendo o jogo da gente!

​Danny continuava tirando doces da mochila. Ele enfileirou uma bela variedade em cima de um tronco caído ali perto.

​— Você não olhou dentro da mochila dele? — perguntou Sam. — Ou não escutou o que eu falei sobre isso?

​— Eu não sabia que vocês estavam falando de doces! Doce ambrósia! — Tucker esticou a mão para pegar os doces, mas levou um tapa de Danny para se afastar. — Para que foi isso?

​— Você tem que dividir — repreendeu Danny. — Essa galera ainda não comeu nada. — Seu olhar ficou distante. — Talvez eles nunca tenham comido doce na vida. — Ele fez uma pausa dramática. — Isso precisa mudar. Não podemos permitir que isso continue. É uma tragédia.

​— Tá bom, tá bom. Cara. Você entrou fundo nessa. Nossa. Dá uma iluminada.

​Danny inclinou a cabeça para o lado e fez sua aura brilhar mais forte.

​— Iluminada assim?

​


 

​De alguma forma, Paulina e seus amigos haviam sido cercados.

​Ela não sabia como, exatamente. Estava ocupada demais focando no Phantom e nos fantasminhas. Mas lá estavam eles. Os pequenos fantasmas os cercaram por completo, apesar de estarem, literalmente, brilhando. Eles balançavam silenciosamente para cima e para baixo no ar, observando, mesmo que não tivessem olhos.

​Paulina engoliu em seco. Aqueles fantasmas não pareciam violentos. O Phantom parecia gostar deles, inclusive, e não havia recomendação melhor na opinião da garota. Mas eles ainda eram fantasmas. Ainda eram perigosos.

​Ela deveria gritar? Phantom estava flutuando para longe de forma bem rápida, mas ainda devia conseguir ouvir, certo?

​As pequenas bolas de luz deram risadinhas, e então começaram a arrebanhá-los para longe, esbarrando suavemente nos cotovelos deles. Não machucava, mas mesmo assim. Fantasmas. Tocando neles. Nada bom.

​— Pauli... — começou Kwan.

​— Shh. Me deixa pensar — cortou Paulina.

​Os fantasmas pararam de repente, aglomerando-se perto dos estudantes.

​— Gente? — chamou Kwan. — Acho que nós estamos invisíveis.

​Ele tinha razão. Não era assim que Paulina queria passar o seu Halloween, mas com certeza estava sendo emocionante.

​— Ei — sussurrou Star —, aqueles ali são os Homens de Branco? — Ela apontou para a floresta.

​Sem dúvida, os caçadores de fantasmas “aprovados pelo governo” da GIW estavam se movendo por entre as árvores. Com seus ternos brancos e equipamentos verdes brilhantes, eles mesmos quase pareciam fantasmas.

​— E, tipo, aqueles não são os Fentons? — perguntou Tiffanie.

​Paulina olhou para o outro lado. Comparado ao branco berrante da GIW, os trajes de proteção normalmente chamativos dos Fentons se misturavam muito bem às sombras.

​Juntos, os dois grupos formavam uma assembleia das pessoas que Paulina menos suportava. Ela podia até não ir com a cara dos esquisitões da escola, mas ela ativamente desprezava caçadores de fantasmas. Eles eram horríveis com o Phantom, o herói dela. Seu lábio se curvou de nojo antes que ela se desse conta e o alisasse. Não pegaria bem para ela ganhar rugas.

​Um herói que, por sinal, era amigo desses pequenos fantasmas.

​Paulina não era idiota. Ela sabia quando estava sendo testada. Sabia quando alguém queria alguma coisa dela.

​— Vocês querem que a gente dê um jeito nisso, não querem? — perguntou Paulina.

​Os pequenos fantasmas balançaram no ar.

​— E o que a gente ganha se fizer isso?

​Um dos fantasmas flutuou para cima, assumiu o mesmo tom de verde dos olhos de Phantom e disparou rapidamente de volta pelo caminho de onde tinham vindo.

​— Vocês vão nos deixar assistir? — perguntou ela.

​Os Fogos-Fátuos balançaram de novo.

​Paulina assentiu com a cabeça e marchou na direção dos Fentons. Os Fogos-Fátuos se espalharam pelas árvores, desaparecendo de vista. O plano funcionaria melhor com os Fentons, ela só precisava chegar perto o bastante antes de começar para que o pessoal da GIW não escutasse nada.

​— Paulina — sibilou Star —, o que você está fazendo?

​— Só sigam o meu roteiro — disse Paulina. Ela estava confiante de que daria certo. Já tinha feito coisas do tipo antes. Não com apostas tão altas assim, claro, mas o ensino médio podia ser brutal.

​Ela fungou algumas vezes para entrar no personagem. Então puxou o ar fundo duas vezes e começou a correr.

​— Sra. Fenton! — gritou ela, debulhando-se em lágrimas. — Sra. Fenton! Gracias a dios! — Ela costumava carregar no sotaque quando queria se fazer de boba. Era mais fácil enganar as pessoas quando elas achavam que eram mais espertas que você. — Que sorte a nossa encontrar vocês!

​O Sr. Fenton, claro, tinha a arma apontada para eles. Paulina ignorou o fato. As armas dos Fentons foram projetadas para não machucar humanos, ao contrário do equipamento da GIW. Mais um motivo para começar o teatro por ali. A Sra. Fenton empurrou a arma do marido para o lado um momento depois.

​— Vocês são colegas de classe do Danny, não são?

​— Sí, señora, nós somos. E nós estamos tão aliviados. — Certo, ela estava exagerando um pouco na dose agora. Ela olhou para trás, para os amigos. Eles estavam entrando na onda, ótimo. — Nós viemos para a festa, mas tem fantasmas perseguindo a gente há horas!

​— Fantasmas? Onde? — exclamou o Sr. Fenton.

​— Ali! — apontou Paulina para o local do grupo mal visível da GIW.

​Como planejado, os Fentons viram manchas brancas indistintas se movendo pelas árvores, acompanhadas de pontos verdes brilhantes, e qualquer resquício de pensamento racional parou por aí.

​— Fantasmas! — rugiram os Fentons em uníssono, erguendo as armas e abrindo fogo.

​A GIW começou a atirar de volta na mesma hora, é claro (o armamento ectoplasmático deles só ajudava na ilusão de que eram assombrações), então o grupinho de elite bateu em retirada apressada de volta para...

​Onde eles estavam mesmo?

​Paulina poderia jurar que ouviu os fantasmas rindo.

​


 

​Ainda bem que Danny não precisava respirar quando era fantasma, porque ele estava rindo sem parar havia cinco minutos. Todos os fantasmas naquela reunião improvisada estavam ficando progressivamente mais agitados, embora Sam e Tucker não tivessem certeza se era pela energia fantasma que pairava tão espessa no ar a ponto de brilhar e cintilar, ou se era por causa de todos aqueles doces.

​Aliás, Sam e Tucker também já estavam no meio de um belo pico de glicose.

​Também foi uma sorte que os Fogos-Fátuos parecessem gostar de comer as embalagens de plástico, senão Sam teria entrado em uma discussão bem feia com Tucker sobre jogar lixo na natureza.

​— Vocês fizeram o quê? — ofegou Danny, antes de se acabar em risadas novamente. Cada risadinha o fazia flutuar um pouco mais alto no ar.

​Sam e Tucker estavam rindo também, embora, no caso deles, fosse mais porque as palhaçadas de Danny os divertiam do que pelo que o próprio Danny estava achando tão engraçado.

​— Do que você tá rindo, cara? — perguntou Tucker.

​— Pelos céus, esses carinhas — Danny acenou para os Fogos-Fátuos — se livraram de todos os três grupos de perseguidores jogando uns contra os outros.

​— Hum, perseguidores? — perguntou Sam. — E três?

​— Três grupos — esclareceu Danny. Então seu sorriso congelou. — Ai, meu Deus, meus pais vão ser banidos do parque para sempre. — Em seguida, sua expressão relaxou. — Ah, fazer o quê. Isso ia acabar acontecendo mais cedo ou mais tarde. Sem danos graves, a não ser para algumas árvores.

​— Seus pais estavam nos perseguindo?

​— Eles, a Paulina e a GIW! Mas os meus pais sempre fazem isso. E o pessoal da GIW foi preso. — Danny abriu um sorriso de orelha a orelha. — Como eles estavam brigando perto do limite do parque, os vizinhos chamaram a polícia.

​— Danny... Seus pais foram presos?

​O sorriso de Danny ficou ainda maior.

​— Não. — Ele começou a fazer carinho em um Fogo-Fátuo de tamanho médio que se esgueirou para o seu colo.

​Tinha uma vibração bem “gênio do mal” rolando ali.

​— Acontece que minha mãe e meu pai estão na lista de “excêntricos inofensivos”, e a GIW está tanto na lista de “lunáticos perigosos” quanto na de “federais malditos”, só que a polícia não usou a palavra “malditos”...

​— Mas, Danny — disse Sam, cautelosa —, como você sabe?

​— Sobre as listas?

​— Sobre o que está acontecendo lá no parque.

​Danny agarrou um Fogo-Fátuo próximo, que emitiu um tinido de animação.

​— Esses carinhas me contaram!

​— Eu achei que você não falasse a língua deles — pontuou Sam.

​— E não falo — confirmou Danny. Ele franziu a testa e começou a afundar no ar. — Peraí...

​— Isso vai ser que nem quando você consegue prever o futuro quando sofre uma concussão? — indagou Tucker.

​— Eu consigo o quê?

​Tucker mordeu o lábio.

​— Ih, a gente não comentou sobre isso?

​— Não. A gente já testou isso?

​— Danny Fenton, se você tentar causar uma concussão em si mesmo só para ver o futuro, eu vou contar para a Jazz.

​Danny ergueu as mãos num gesto defensivo.

​— Eu não ia fazer isso. — Então ele sorriu e voltou à forma humana, caindo no chão da floresta. Ele tirou o boné da fantasia e se virou para um Fogo-Fátuo. — Aposto que você ficaria ótimo com isso!

​


 

​— Sabe — comentou Tucker, na manhã seguinte, enquanto andavam pela rua —, eu tô surpreso que você não esteja com uma ressaca fantasma nem nada do tipo.

​— Eu tô surpreso que você não tenha uma... ressaca de doces. Sei lá. — Danny esfregou os olhos. — Acho que talvez eu tenha, sim. Preciso falar com eles sobre isso... Ou pedir para outra pessoa falar por mim. Pelo lado bom, minha mãe e meu pai não foram banidos do parque para sempre. Só pelos próximos meses.

​— Que bom — disse Sam. — Eu acho que você realmente deveria pedir para outra pessoa falar com os Fogos-Fátuos, considerando o quão avoado você ficou ontem à noite.

​— Eles não queriam fazer aquilo — disse ele, defendendo os bichinhos. — Meu corpo que é estranho mesmo.

​— Então, o que a gente vai fazer hoje? — perguntou Tucker. — Alguma coisa estranha e fantasmagórica no Dia de Todos os Santos?

​— Olha, agora que você tocou no assunto...

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