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"Esse é o melhor da saga," Tord estava agachado na frente da televisão, seus dedos deslizando pela capa do DVD com admiração pelos visuais psicodélicos.
Eles sempre assistiam esse filme; Return of The Insane Zombies Pirates From Hell era uma tradição para os quatro. Só que, desta vez, estavam sozinhos na casa. Edd normalmente ficaria feliz em estar com qualquer um de seus amigos, mas Tord não era apenas isso a muito tempo.
"Sério, por que não continuaram com a loira nos outros filmes? Definitivamente a melhor Final Girl desde a Sally Hardesty." Ele encaixou o disco no leitor, a breve luz no dispositivo indicando o início do filme. "Além de ser super gostosa."
Edd permaneceu calado. Não conseguia fingir que se importava com o que Tord esteve falando pela última hora. Por um momento cogitou até discordar só para vê-lo ficar indignado e iniciar uma discussão.
Ele escorou o rosto em uma mão enquanto observava Tord levantar para apagar as luzes. Desde quando teria começado a considerar o norueguês como amigo? Bom, desde sempre. Edd pensou.
Era assim e somente assim que ele enxergava a relação deles. Mas isso foi antes de Tord começar a tocá-lo em momentos como esse, onde estavam sozinhos fazendo algo familiar como ver um filme slasher. Antes de ter se convidado para o quarto de Edd no meio da noite e ter dormido ao seu lado. Antes de anunciar sua partida de Durdam Lane e Londres.
Tord sentou no sofá, a bacia comicamente grande de pipoca em uma mão enquanto seu outro braço passava por trás do sofá para apertar o ombro do britânico.
Como ele consegue fingir que nada aconteceu? Edd se questionou mais uma vez. Provavelmente a décima da semana. Eu deveria ter falado alguma coisa quando ele disse que ia embora? Era isso que ele esperava?
Um grito na tela cortou sua linha de pensamentos, fazendo sua atenção ir diretamente para o homem ao seu lado; Tord estava genuinamente entretido pelo sangue falso escorrendo na tela. O mesmo sangue que eles já assistiram milhares de vezes, só que com Tom e Matt.
Ver o norueguês com os olhos brilhando, principalmente quando a razão era violência, sempre lhe aquecia o rosto e disparava o coração, euforia essa que já colocou Edd em situações deploráveis — Não que ele estivesse reclamando — envolvendo Tord; como a vez em que a tentativa falha de assistir suas vizinhas transando acarretou em uma sessão de masturbação mútua.
Mais uma vez foi lembrado que estava se desprendendo da realidade quando a mão que estava no seu ombro agora deslizava em direção ao rosto. Tord estava próximo, muito próximo. Os olhos grandes, levemente psicóticos, o encarando.
Edd não disse nada. Sentia que era o mais apropriado para a situação. Até que percebeu o quão perto estavam e que aquilo provavelmente significava um beijo muito em breve. Só de pensar que Tord queria — mais que isso, ousava — fazer isso já foi o suficiente para mudar completamente o humor de Edd.
"Que foi?"
"Você tá calado desde que eles saíram."
"Pensei que íamos ver o filme. Não falo muito mesmo quando tô assistindo alguma coisa." Edd se afastou um pouco, matando a fagulha de clima romântico.
"... Pensei que ia gostar de passar um tempo comigo." Tord suspirou, desviando o olhar para a cena colorida na televisão. "O filme e... Isso aí. Tudo isso eu fiz pensando em te deixar mais feliz."
"Ah, claro. Obrigado pela consideração, mesmo. Aposto que pensou na nossa amizade também quando resolveu abandonar tudo do dia pra noite, não?"
"Porra, Edd." O tom de voz do norueguês aumentou um pouco, não de propósito, Edd sabia disso. Simplesmente acontecia quando estava irritado ou quando seu sotaque transparecia. "Eu já disse que vou vim visitar depois, tá bom? Não posso viver na merda de Londres pra sempre quando o que eu quero tá lá fora!"
"Não podia ter me avisado antes? Ou, não sei, pelo menos falar o que é que tanto te interessa ao ponto de deixar sua casa pra trás?"
"Essa não é a minha casa." Tord sussurrou irritado.
"Claro que é! Você foi meu primeiro colega de quarto! A única razão de eu ter alugado uma casa com mais cômodos foi porquê combinamos de morar juntos!" Edd também estava ficando agitado agora. Todas as suas frustrações da semana ressurgindo nesse instante.
"Não importa, você ainda tem Matt e o Thomas."
"Você sabe muito bem que eles não têm a mesma relação comigo do jeito que a gente têm!" O britânico avançou, agarrando a mão de Tord e a levando até seu peito. "Ou acha que todo mundo nessa casa me toca como você? Ou vai fingir que isso aqui também não tá acontecendo, igual você sempre faz?"
"Herregud ..." Tord murmurou incrédulo. A situação tinha escalonado tão rápido que não sabia se queria continuar discutindo, ir embora agora mesmo ou beijar Edd. "Eu nunca fiz isso."
"Então me fala por que você vai embora logo depois de passar meses me dando sinais de que queria alguma coisa!"
"Mas eu não disse que queria, disse?" Tord sabia que era cruel. Ele também sabia que deu sim sinais, muitas vezes se aproveitando do quão fácil era convencer Edd a fazer qualquer coisa que ele quisesse. "A gente foi sempre assim. Dormindo na mesma cama, dividindo a mesma comida e as vezes um beijo. Não mudou nada."
"Só que agora somos adultos, Tord. Se isso tudo foi sempre só uma brincadeira pra você, então...."
Edd tentou respirar fundo, mas seu peito doía e as lágrimas iriam cair se ele fizesse. Teria sido tão mais fácil ter ido com Matt e só voltar quando Tord tivesse ido embora.
"Então eu espero que você vá logo. Espero que seu carro só pare quando estiver bem longe de Londres."
O filme continuou rolando. E, por alguns minutos, foi o único som que preencheu o cômodo. Os dois fizeram a silenciosa decisão de voltar a assistir os zumbis na tela. Parecia ser o último resquício de normalidade entre eles agora.
O silêncio entre eles sempre foi algo comum, principalmente no começo, quando nenhum sabia falar a língua do outro direito. A comunicação era feita primariamente por anotações e ilustrações, o que acumulou em pelo menos dois caderninhos cheios de "Hvordan sier man det på engelsk?" e os rabiscos dos dois adolescentes. Então, quando ficavam em silêncio, significava que provavelmente estavam fazendo algo juntos; seja aprendendo novas palavras em inglês ou assistindo Return of The Insane Zombies Pirates From Hell.
Mas não estavam fazendo nada disso agora. Até porquê o filme já havia acabado a alguns minutos e nenhum deles se levantou para pular os créditos finais.
"...Beklager, Edward. Jeg vet ikke hva jeg driver med." [ ...Desculpe. Eu não sei o que estou fazendo.]
"Du er en idiot." [Você é um idiota.] Edd conseguiu expressar com um sotaque britânico forte.
Isso normalmente faria Tord rir, era engraçado ver qualquer um dos idiotas de Londres se esforçando pra falar outro idioma igual ele tinha de fazer todos os dias com o inglês. Mas agora era diferente. Edd sabia que era mais fácil para ele se expressar em sua língua materna e nunca reclamava quando o fazia.
Por coisas como essas que Edd seria para sempre seu melhor amigo, mesmo quando estivesse a quilômetros dali.
"Aquilo que eu disse antes... Eu quero algo mais com você, é só que..." Tord já conseguia sentir o arrependimento de ter começado a falar. Teria sido muito mais fácil simplesmente deixar o resto do dia passar e ir embora pela manhã, antes mesmo que os outros acordassem. Sem conversas constrangedoras. Sem precisar explicar nada.
Era muito mais fácil falar com alguém como Tom, por exemplo.
Não porque Tom fosse mais interessante — bem longe disso. A vantagem era que, com ele, Tord podia simplesmente provocar e ser sarcástico. Podia transformar qualquer sentimento em uma piada cruel e fingir que não significava absolutamente nada.
O problema era que, com Edd, isso não funcionava. Ele simplesmente não conseguia mais fingir que nada aconteceu. Inclusive, se não estivessem em uma situação tão lamentável, Tord estaria disposto a confessar que pensava com frequência na vez em que se masturbaram.
Não é hora pra isso. Tord teve de se repreender.
"Não precisa se explicar. Melhor, nem tenta, sério." Edd finalmente voltou a olhar para ele, sua expressão carregada de melancolia e, mesmo que de forma relutante, compreensão.
"Eu quase que prefiro o Tord que criei na minha cabeça. O Tord que teria pelo menos me levado pra jantar ao invés de me fazer assistir o mesmo filme pela milésima vez." Edd riu. Era uma risada verdadeira e meio lunática. Mas havia algo amargo nela, quase imperceptível. Pois ele sabia que, cedo ou tarde, Tord iria embora e aquela versão dele, por mais imperfeita que fosse, também não seria mais real.
As brigas deles nunca duravam muito, e mesmo assim Tord ficou surpreso com o quão rápido Edd havia lhe perdoado.
"A gente ainda pode ir, meu carro tá lá fora-"
"Não, não. Tá tudo bem. Eu prefiro ficar aqui, de qualquer forma."
Edd deixou a mão parada ao lado da de Tord, os dedos tão próximos que bastava um pequeno movimento para se encontrarem.
Percebendo que Tord estava apreensivo e ficaria sentado o resto da noite no sofá caso não fizesse nada, resolveu entrelaçar os dedos com os do norueguês.
Por alguns segundos, apenas ficaram assim.
Então Tord soltou um suspiro e se inclinou devagar, apoiando a cabeça no ombro de Edd. O gesto era simples, quase tímido.
"Jeg kommer til å savne deg." [Vou sentir sua falta.] Tord cochichou no casaco do outro, mesmo que não precisasse, já que estavam sozinhos.
"Também. Mas pelo menos eu tenho o Matt e o Tom, não é?"
Tord abriu um sorriso fraco. Babaca.
