Chapter Text
O som das lâminas cortando o ar misturava-se ao eco dos tiros pesados na avenida devastada. A cidade não enfrentava um daqueles monstros colossais que costumavam estampar as notícias, mas sim uma infestação de Kaijus de pequeno porte. Eram dezenas deles, ágeis, quadrúpedes e velozes, saltando entre os destroços dos prédios como pragas urbanas.
Para as Forças de Defesa, era uma operação de contenção padrão, para Gen Narumi e Soshiro Hoshina era a oportunidade perfeita para provar quem mandava.
— Vinte e sete! — gritou Narumi, girando sua imensa baioneta e partindo um Kaiju ao meio. Ele limpou o sangue da bochecha com as costas da luva, abrindo um sorriso arrogante— Está ficando para trás, franjinha!
— Vinte e sete? Que fofo, Narumi-taicho — Hoshina respondeu, a voz carregada de um deboche calmo enquanto suas espadas duplas brilhavam em movimentos quase invisíveis. Ele fatiou dois monstros em um piscar de olhos. — Vinte e oito e vinte e nove. Quem está atrás agora?
Pelo comunicador da central técnica, um suspiro pesado e irritado estalou na linha. Era o Diretor Isao Shinomiya, assistindo à transmissão de dados diretamente do laboratório
— Vocês dois... parem de palhaçada e limpem a área com seriedade. Isso não é um maldito fliperama— A voz de Isao era gélida, capaz de congelar qualquer soldado, mas os dois capitães eram orgulhosos demais para recuar.
— Só mais um para desempatar! — Narumi exclamou, avançando em direção ao último sinal de energia biológica detectado na quadra. No entanto Hoshina foi mais rápido, seus pés mal tocavam o chão enquanto ele cruzava a distância, impulsionado pela liberação de força do seu traje.
O último Kaiju estava encurralado contra uma parede de concreto. Soshiro ergueu as espadas, pronto para o golpe final que lhe garantiria a vitória na disputa, só não esperava a reação do monstro.
Em uma fração de segundo, o corpo do pequeno Kaiju inflou grotescamente, como um baiacu terrestre. Antes que as lâminas de Hoshina o alcançassem, a criatura explodiu em uma descarga defensiva, disparando centenas de projéteis afiados como agulhas em todas as direções. Hoshina arregalou os olhos. Não havia tempo para bloquear.
Usando puramente seus reflexos de elite, ele forçou o corpo em um movimento brusco e antinatural de torção, esquivando-se da chuva de espinhos por milímetros. O movimento foi incrivelmente rápido, bem-sucedido em salvá-lo do impacto direto, mas o preço veio imediatamente, uma pontada violenta e lancinante rasgou a parte interna de sua coxa direita.
— Uhg! — Um gemido sufocado escapou por seus lábios.
O músculo, levado além do limite em um ângulo errado, tencionou instantaneamente em uma cãibra severa e dolorosa. A força de suas pernas cedeu, e Hoshina desestabilizou-se, abaixando-se levemente e apoiando uma das mãos nos joelhos, arquejando enquanto uma queimação insuportável travava seus movimentos.
Alheio ao que havia acontecido, Narumi surgiu saltando dos destroços. Com um disparo preciso de sua arma, ele destruiu o núcleo do Kaiju inflado, que desintegrou-se em poça cinzenta— Trinta! Eu venci, seu quatro-olhos de uma figa— Narumi ergueu os braços, rindo alto e vangloriando-se para as câmeras de transmissão do traje— Chupa essa, Terceira Divisão! O Capitão da Primeira é absoluto!
Ele esperava uma resposta atravessada, uma piada ácida ou um suspiro de desdém de Hoshina. Mas o vice-capitão permaneceu estranhamente silencioso, mantendo a cabeça baixa, a respiração pesada controlada a muito custo.
No alto-falante do capacete, a linha biométrica apitou. A voz de Konomi Okonogi cortou a transmissão com clara preocupação— Vice-Capitão Hoshina? Seu ritmo cardíaco disparou e os sensores de pressão muscular da sua perna direita estão em nível crítico. O que aconteceu?
Hoshina respirou fundo, forçando-se a ficar ereto, embora a perna direita estivesse rígida como uma barra de ferro. Ele deu um passo trôpego, mancando visivelmente, e guardou as espadas nas bainhas— Não foi nada, Okonogi-san... — respondeu, tentando manter o tom leve, embora sua voz tenha saído um pouco tremida— Só... tencionei a perna no último desvio. Coisa boba.
Narumi parou de rir. Seus olhos, ocultos pela franja fixaram-se na postura defensiva de Hoshina. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, analisando a forma como o outro evitava colocar peso sobre o lado direito. O olhar de Gen era clínico; ele conhecia lesões de combate melhor do que ninguém. Ao perceber que não havia sangue e que os ossos estavam intactos, o instinto de preocupação foi imediatamente soterrado pelo seu ego.
Narumi cruzou os braços e soltou uma risada nasalada, zombando abertamente— Olha só para você. Que patético, Hoshina, ficou tão desesperado para não perder para mim que o seu pensamento lento fez seu corpo frágil pifar? Seus reflexos estão enferrujando.
Hoshina sentiu o sangue subir às bochechas, misturando a dor física com a irritação pura. Ele lançou um olhar mortal de soslaio para Narumi, os olhos estreitados em fendas perigosas
— Nem todos nós podemos prever o futuro, Narumi-taicho — respondeu Hoshina, a voz afiada como suas espadas.
— Uma desculpa esfarrapada para quem perdeu — desdenhou Narumi, virando as costas e começando a caminhar em direção ao veículo de extração— Anda logo, não vou te carregar.
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Meia hora depois, na ala médica da base temporária avançada, o clima estava tenso. Hoshina estava sentado na ponta de uma maca de exames, sem a parte superior do traje de combate, vestindo apenas a regata preta militar. Sua coxa direita estava visivelmente inchada sob a calça tática arriada até o joelho. Ele precisava desesperadamente de uma massagem de liberação miofascial profunda para desobstruir os nervos e fibras musculares retorcidas, ou ficaria incapaz de andar direito por semanas.
Narumi estava encostado na parede oposta, de braços cruzados, mascando um chiclete com cara de tédio.
A porta automática se abriu com um estrondo. O Diretor Isao Shinomiya entrou na sala. A aura de fúria que o acompanhava fez até mesmo o ar condicionado parecer mais frio. Ele segurava um relatório digital nas mãos.
— Senhor Diretor... — Hoshina começou, tentando suavizar a situação— O departamento médico informou que as macas de fisioterapia estão ocupadas com os soldados da linha de frente, então eu pensei se podiam liberar um profissional para...
— Não haverá profissional da saúde para você, Soshiro — interrompeu Isao, a voz soando como um trovão contido. Seus olhos severos alternaram entre o vice-capitão e o capitão da Primeira Divisão — O comportamento de vocês dois hoje na avenida foi inadmissível. Competindo contagem de abates no meio de uma zona urbana ativa? Agindo como crianças mimadas? Vocês colocaram a eficiência da operação em risco por puro ego.
Narumi revirou os olhos, desencostando-se da parede— Ah, qual é, velhote? Nós limpamos a área em tempo recorde...
— Silêncio, Gen! — Isao bateu o relatório contra a mesa auxiliar, fazendo as ferramentas médicas tilintarem — Como vocês dois adoram trabalhar em "parceria" para inflar seus próprios orgulhos, vão resolver isso juntos. O departamento médico está sobrecarregado cuidando de quem realmente seguiu as ordens. Portanto, você, Narumi, vai fazer a massagem de reabilitação na perna do Hoshina. Considere isso um castigo oficial por sua insubordinação.
O silêncio que se seguiu durou apenas um milésimo de segundo— O QUÊ?! — gritaram os dois ao mesmo tempo, as vozes ecoando pelas paredes da sala.
— Ficou maluco, Diretor?! — Narumi deu um passo à frente, horrorizado, apontando para Hoshina como se ele fosse um balde de lixo tóxico— Eu tocando nesse nanico? Nem morto! Eu sou o Capitão da Primeira Divisão, não um massagista para perdedores!
— Com todo o respeito, Senhor Shinomiya, eu prefiro ter minha perna amputada a deixar as mãos brutas do Narumi perto de mim! — Hoshina protestou, o rosto corando de indignação e puro constrangimento. A simples ideia de ter Gen Narumi manipulando suas coxas de forma tão íntima fazia seu estômago revirar de uma maneira estranha— Eu posso me curar sozinho!
Isao Shinomiya nem sequer piscou diante do drama de ambos. Ele caminhou até a porta, parando antes de sair, e lançou um olhar gélido sobre os ombros— Isso não foi um pedido, Capitão Narumi. É uma ordem direta da liderança das Forças de Defesa. Se eu souber que o Vice-Capitão Hoshina não está apto para o treino amanhã por negligência sua, seu salário e suas horas de videogame serão confiscados pelo próximo trimestre. E Soshiro, se você tentar sair dessa sala sem o tratamento, será suspenso por má conduta. Passem bem.
A porta automática se fechou com um chiado mecânico e suave, deixando para trás um silêncio sepulcral e sufocante.
Narumi olhou para a maca. Hoshina olhou para o chão.
A atmosfera na sala médica acabara de se tornar perigosamente quente.
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Hoshina demorou consideravelmente mais tempo do que o estritamente necessário para trocar a calça tática pesada por um short curto de treino. Cada movimento de rotação do quadril disparava pontadas agonizantes na parte interna de sua coxa, mas, honestamente, a dor era apenas metade da justificativa, a outra metade era o desespero puro em tentar adiar o constrangimento sufocante que o aguardava do outro lado da porta.
Gen Narumi o seguiu até o seu alojamento soltando maldições audíveis a cada passo dado no corredor, mesmo quando Soshiro se trancou no banheiro, tentando abafar os gemidos de dor enquanto se despia, ele conseguia ouvir os xingamentos de Narumi em alto e bom som através da madeira. Gen reclamava do "velhote", do tempo perdido e de ter que tocar no vice-capitão da Terceira Divisão.
Por mais que Hoshina preferisse continuar com aquela dor insuportável a se submeter àquilo, a lembrança da fúria nos olhos de Isao Shinomiya deixava claro que desobedecer não era uma opção inteligente. Eles precisavam acabar com aquilo. Logo.
Ao sair do banheiro, apoiando o peso na perna sã, Hoshina travou. Narumi já estava sentado na ponta de sua cama. Ele segurava um frasco de óleo corporal de reabilitação que havia pegado na ala médica, a franja longa cobrindo parcialmente os olhos arroxeados e os lábios torcidos em uma carranca de puro tédio e irritação.
O quarto de Hoshina estava impecavelmente organizado, como sempre, cada livro alinhado, as espadas de treino em seus suportes corretos, tudo em seu devido lugar. No entanto, naquele dia, Hoshina sentiu um incômodo físico no peito, como se toda a harmonia do ambiente estivesse corrompida. E o motivo era o homem sentado ali. Gen Narumi não pertencia ao seu espaço. Ele era caótico, barulhento e invasivo demais para o santuário particular de Soshiro.
Gen ergueu o olhar por baixo da franja, a expressão amarga enquanto apontava com o queixo para o colchão— Deita logo aí para a gente acabar com essa merda — resmungou, sem um pingo de paciência.
Hoshina obedeceu em silêncio, sentindo o corpo inteiro tencionar antes mesmo de ser tocado. Deitado de costas na cama, ele observou, com os dentes cravados no lábio inferior, quando Gen despejou uma quantidade generosa de óleo diretamente sobre sua perna direita sem o menor cuidado ou delicadeza. O choque térmico do líquido gelado contra a pele quente da coxa, somado à ignorância brutal da ação de Narumi, fez a mente de Hoshina panejar por um segundo.
Antes que pudesse protestar, as mãos fortes de Narumi se fecharam em sua coxa. A força desnecessária que o capitão aplicou de primeira fez o vice-capitão arfar alto, o corpo arqueando levemente no colchão.
— Que porra você pensa que tá fazendo?! — Hoshina xingou, amaldiçoando Gen entre dentes, os olhos faiscando enquanto tentava empurrar o ombro do outro — Quer me quebrar de vez, seu imbecil?
— Cala a boca! A culpa disso tudo é sua e do seu corpinho de vidro! — Narumi retrucou imediatamente, xingando-o de volta sem hesitar — Se você tivesse desviado direito, eu estaria jogando agora, não aqui perdendo meu tempo!
Para piorar, as mãos de Narumi apertaram ainda mais, deslizando com firmeza pelo músculo rígido até localizarem exatamente o ponto onde as fibras haviam se retorcido. Um nó duro e extremamente doloroso havia se formado ali. Sabendo exatamente o que estava fazendo, Narumi aplicou pressão direta e implacável bem em cima do nó, de propósito, para revidar a provocação.
A dor fez a visão de Hoshina embaçar por um instante. Irritado ao extremo, ele segurou o pulso de Narumi com força, os nós dos dedos brancos— Se você apertar aí de novo com essa ignorância... eu juro por Deus que corto cada um dos seus dedos fora assim que eu conseguir levantar!
— Tenta a sorte, franjinha! Vamos ver se você consegue pegar as suas espadas antes de eu te prensar nessa cama!
A discussão começou inflamada, as vozes batendo contra as paredes do quarto. Brigar e trocar farpas era a rotina deles; faziam isso nos treinos, nas reuniões de capitães e no campo de batalha. No entanto, manter aquele tom hostil começou a se provar uma tarefa terrivelmente difícil dadas as circunstâncias.
Havia algo de errado. O quarto estava fechado, a iluminação era baixa e a situação carregava uma intimidade física forçada que nenhum dos dois sabia como administrar. Hoshina já havia recebido massagens de liberação miofascial antes no departamento médico, mas nunca, em toda a sua carreira militar, aquilo tinha parecido tão absurdamente constrangedor.
Aos poucos, o cansaço físico da batalha e o esgotamento da discussão cobraram o preço.
As ofensas mútuas foram morrendo até que um silêncio pesado e denso caiu sobre eles. A partir daquele momento, o único som audível no ambiente passou a ser o ritmo cruzado de suas respirações.
Narumi continuou o trabalho, mas sua postura mudou. Embora fosse um desleixado na vida pessoal, ele ainda era o guerreiro mais formidável das Forças de Defesa. Suas mãos eram grandes, calejadas pelo cabo das armas, mas incrivelmente precisas quando ele deixava de tentar machucar de propósito. Aquelas mesmas mãos que disparavam com precisão milimétrica começaram a encontrar os pontos de gatilho corretos. A pressão, embora ainda profunda e dolorosa, tornou-se regular, firme e foi aí que a temperatura do quarto pareceu subir de forma alarmante.
O atrito constante do óleo, o calor emanando das palmas de Narumi e a resposta biológica do músculo começaram a fazer a pele de Hoshina queimar intensamente onde os dedos de Gen passavam. O alívio da dor começou a se misturar com uma sensação térmica avassaladora.
Narumi desfazia os nós com os polegares, subindo pela extensão da coxa direita de Hoshina, contornando a musculatura definida de um espadachim.
Hoshina tentou manter a mandíbula trancada, os olhos fixos no teto, lutando para focar em qualquer outra coisa que não fosse a textura das mãos de Narumi contra a sua pele. Mas foi sem querer. Não deu para segurar. Quando o polegar de Narumi pressionou a fáscia mais sensível perto da virilha, desfazendo a última grande tensão do músculo, um som involuntário escapou da garganta de Hoshina.
— Ah... m-nhg...
Não foi um gemido de dor. Foi um som baixo, sutil, mas carregado de algo muito mais vergonhoso, espesso e vulnerável.
No mesmo milésimo de segundo, os movimentos de Narumi pararam abruptamente. O silêncio no quarto tornou-se tão absoluto que era possível ouvir o ponteiro do relógio na parede. Por baixo da franja bagunçada, os olhos arroxeados de Narumi se arregalaram de choque, fixando-se no rosto do vice-capitão. Hoshina parou de respirar instantaneamente, sentindo o oxigênio travar em seus pulmões. Suas bochechas arderam em um tom vermelho vivo, o coração batendo tão forte contra as costelas que ele teve certeza de que Narumi podia ouvir.
O constrangimento era quase palpável, sufocante.
Sentindo o chão sumir sob seus pés pelo deslize, Hoshina tentou desesperadamente recuperar a postura protetiva de sempre. Ele desviou o rosto para o lado oposto, cerrando os dentes, e soltou um comentário ácido com a voz ligeiramente trêmula— O que foi...? Perdeu alguma coisa aí? Só... continua logo com isso para acabar de uma vez. Anda.
Narumi não respondeu. Ele não fez nenhuma piada idiota, não zombou e não usou aquilo como munição para o seu ego, o que assustou Hoshina ainda mais. Após alguns segundos de hesitação, os movimentos das mãos de Gen voltaram à pele lambuzada de óleo. No entanto, tudo estava completamente diferente.
O ritmo acelerado e bruto de antes desapareceu. Os movimentos de Narumi tornaram-se mais lentos, arrastados e pesados. As palmas de suas mãos agora cobriam uma área maior, apertando a carne macia e firme das coxas de Hoshina de uma maneira que não parecia mais com fisioterapia.
Era um toque deliberado, possessivo. Os dedos de Gen subiam pela extensão da perna, demorando-se nas curvas do músculo, exercendo uma pressão morna que subia cada vez mais alto na coxa — avançando centímetros perigosos além do que era estritamente necessário para tratar a lesão.
Hoshina agarrou os lençóis da cama com as duas mãos, sentindo o calor do corpo de Narumi inclinar-se ligeiramente mais sobre o seu, transformando a punição de Isao em um jogo de poder silencioso e extremamente carnal.
