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Tudo estava dando errado no dia de Wooyoung, e o relógio ainda marcava 8:15.
Começou quando ele estava se arrumando para ir trabalhar, ou esperançosamente, já que ele tinha um acordo acordado. Depois foi sua blusa que decidiu estourar antes de abotoar o último botão, e seu blazer favorito ficou manchado. Ele devia ter acordado com o pé esquerdo.
Mas enquanto o caos em apenas alguns minutos se instalava no seu dia, na cama de casal ainda dormia seu amado: Mingi. Ele tinha conhecido o (não tão) pequeno híbrido de Maine Coon, e a conexão foi quase imediata. Wooyoung só lembrava de Mingi já fazendo companhia no café da esquina e no fim ele acabou virando mais que isso. Além de companhia, tinha virado seu conforto, refúgio, alma gêmea, paixão ou o que você quer que seja.
Nem parecia que Wooyoung estava quase batendo a cabeça na parede e Mingi dormia todo enrolado na cama. O moreno até tentou ver esperanças no seu dia se lembrando que veria seu amado estirado em algum canto da casa quando chegasse, mas era difícil prestar atenção nisso quando seu telefone parecia um alarme de incêndio na mesa de causas.
Antes que Wooyoung tacasse o celular pela janela, ele apenas colocou no silêncio e foi terminar de tentar se arrumar.
Quando ele já estava mais decente e atrasado do que antes, finalmente deu um beijo na testa do Mingi e deixou um bilhete do lado da cama, lembrando o híbrido de suas obrigações.
Como já era de se esperar, uma chuva intensa caiu e o trânsito parou. O relógio ainda marcava 7:19.
O trânsito foi um saco; buzinas ecoando em todo canto, motoristas folgados, todas as sinalizadoras deixam de ficar vermelhas justamente quando ele ia ultrapassá-las, e aquela chuva que não dava para enxergar quase nada. Ok, não tinha como ficar pior, né?
Depois do sacrifício que foi colocar o carro no estacionamento, e ficar parado por alguns minutos enfrentando a chuva que batia com força no vidro do carro, ele tinha que sair do carro uma hora ou outra. Quando finalmente tomou coragem para fazer isso, e graças a Deus, ele se lembrou de levar a guarda-chuva, seu corpo acelerou o mesmo caminho de todos os dias, como se estivesse no piloto automático.
Ele já conseguiu ver o prédio da empresa quando um carro passou em uma poça e fez toda a água voar na sua roupa. O frio piorava mais ainda sua situação, quem reparasse poderia supor que ele tivesse acabado de escapar de um tsunami.
A única vontade dele era se jogar na frente de um carro e acabar logo com essa tortura capitalista, mas ele precisava voltar para a casa e encontrar seu amor ronronando na cama.
Na recepção, os rastros de água seguiram até o elevador, onde ele clicou várias vezes o botão para fechar a porta mais rápido e ninguém entrou com ele. Ele não acreditava que ainda precisaria bater o ponto e ficar oito horas sentado em uma cadeira e aguentar verificar mil documentos.
Wooyoung não odiava seu emprego, mas às vezes virava algo tão monótono que ele tinha vontade de fazer outra graduação. Ainda mais naquele dia perfeito para ficar de grude com seu marido, apenas aproveitando o dia maratonando séries e comendo alguma porcaria industrializada.
Depois do casamento dos dois, ele não conseguia pensar em outra coisa além disso, a lua de mel não tinha sido o suficiente. Ele meio que precisava viver ao lado, em cima ou dentro dele, depende do dia.
O expediente passava lentamente. Wooyoung mandava mensagens para Mingi para verificar se ele estava bem ou para mandar uma foto aleatória com uma legenda falando que estava com saudades. E o relógio ainda marcava 16:05.
Wooyoung estava tentando pensar positivamente, ele jura que estava. Mas ficava difícil quando o funcionário do lado mascava um chiclete com a boca aberta, o som irritante do salto da supervisora fazia um barulho mais alto do que o de costume e seu chefe não parava de enviar arquivos para ele verificar, corrigir e mandar para o sistema de novo. Seu único pensamento positivo era: Mingi usando algum moletom dele com um short minúsculo e esperando o mesmo com uma bandeja com vários petiscos para eles.
Demorou muito, e parecia um milagre, mas o expediente tinha acabado. Agora o relógio marcava 18:00.
Wooyoung estava tão estressado que acendeu um cigarro assim que pisou os pés para fora da empresa. Deixou a fumaça percorrer por seus pulmões e sair pelo nariz. Ele precisava fazer isso antes que morresse de irritação.
Para a felicidade dele, e parecia que o dia estava acompanhando seu humor, a chuva se acalmou; chovia um pouco, mas nada comparado com o começo do dia. O trânsito estava fluindo, o vento não estava agressivo e o frio deixava ele mais ansioso para chegar em casa. Por um momento, tudo parecia ocorrer bem, ele só precisava do seu marido agora.
Ele até passou em uma floricultura para comprar umas flores para Mingi, e em uma padaria para comprar o doce preferido deles. Ele até poderia estar cansado, mas ver o sorriso genuíno do amor da sua vida era mais importante.
Wooyoung chegou na frente da casa com um sorriso no rosto, o buquê em uma mão e a sacola na outra; ele finalmente poderia abraçar seu gato gigante.
Ele entra e já se depara com uma cena linda; Mingi estava na bancada cortando algumas frutas, um jazz tocava baixo e apenas a luz amarela iluminava o ambiente aconchegante e deles. O grande híbrido de Maine Coon estava concentrado nos morangos, mas Wooyoung sabia que ele tinha escutado sua chegada.
“Bem-vindo de volta, amor”, disse o híbrido, finalmente se virando para Wooyoung que pendurava suas coisas atrás da porta. O híbrido soltou um som confuso ao ver as flores vindo em sua direção e ele não conteve o sorriso. “Ah, não precisava, Woo”, um bico se formou nos lábios de Mingi e a cauda se enrolou envergonhado nas próprias pernas.
Wooyoung só ficou parado observando a reação do outro. Mingi segurou o buquê com uma mão e julgou o estado do moreno; ele conseguia sentir o cansaço do mais novo, sabia que Wooyoung só fumava quando o estresse estava extremo, e hoje, aparentemente, tinha sido um desses dias. “O que aconteceu, hein? Por que você tá com essa cara de cachorro chutado?”, o mais velho dizia já abrindo os braços, deixando as frutas e o buquê de lado.
Wooyoung quase voou para os braços do híbrido, enfiando a cara no pescoço dele e cheirando ali. Ele sentia a cauda do outro se enrolar no seu quadril e as pequenas garras fazerem um carinho na nuca, era isso o que ele precisava.
Mingi tinha certeza que ouviu algum murmúrio abafado, mas apenas riu e aconchegou mais ainda o moreno em seu abraço. Ele conhecia Wooyoung o suficiente para saber que ele evitaria qualquer tipo de diálogo. “Ei, eu sei que você provavelmente não vai querer conversar muito agora, então vai tomar um banho bem quentinho, coloca um pijama confortável, e eu já levo suas comidinhas para o quarto, sim?”.
Wooyoung olhou com uma cara triste, ele ainda não queria ficar longe dele, mas sabia que seria mil vezes mais relaxante se ele fizesse tudo isso. E com Mingi falando com aquele tom de voz tão doce e suave, ele não conseguia desobedecer. Com um selinho dramático, e um aperto no abraço antes de soltar, ele foi para o quarto separar as coisas para o banho.
Enquanto arrumava e preparava suas coisas, ele sorria bobo com sua vida atual. Ele estava casado com um híbrido lindo, tinha sua casa própria e um emprego estável; não tinha como ele almejar outra coisa. Claro que algum dia estressante iria ter, ele não tinha como controlar o universo, mas saber que assim que voltasse para casa essa seria sua realidade, todo esforço valia a pena.
O banho era um aconchego, uma espécie de manto depois de um dia como aquele. A água quente tirava 50% do cansaço impregnado em sua pele. Na cabeça dele um banho relaxante depois de um dia maçante era como renascer. Com um pouco mais de paciência, já que ele só queria ir para a cama logo, ele se permitiu ter um momento de auto cuidado mais denso e tirou aquela cara de peixe morto que estava. Ele até passou um creme no corpo!
Até o banho parecia uma estratégia para ficar longe de Mingi, mas quando ele saiu do banheiro, secando o cabelo com uma toalha, encontrou o híbrido mexendo no celular e com várias comidas em uma bandeja. Ele poderia, definitivamente, secar o cabelo mais tarde.
“Não sabia que você tinha virado cozinheiro”, Wooyoung riu, e sentou na cama, soltando um som por finalmente conseguir relaxar. “Ah, eu tento, né? Eu percebi que você teve um dia exaustivo, você odeia quando chove e não pode ficar em casa”. Mingi larga o celular em algum canto da cama, e puxa Wooyoung para si, já pegando algumas frutas para colocar na boca do moreno.
Enquanto uma alimentava, a outra fazia um debaixo da camisa velha de Wooyoung. “Não precisa ficar me alimentando…”, o moreno disse em um tom baixo, não acreditando nas próprias palavras. “Você me mima tanto, deixa eu te mimar também, você merece descanso e cuidado”, Mingi falou ignorando a “reclamação” do outro. Ele sabia que Wooyoung gostava de cuidar e que receber de volta se tornou estranho, mas ele fez questão de mostrar o quanto ele merecia ser amado em voz alta.
Wooyoung não respondeu mais nada depois disso, apenas soltou um suspiro de derrota e deixou seu peso cair mais no peitoral de seu marido. Ele amava o quanto Mingi o conhecia, cada detalhe sobre ele não estava despercebido pelo híbrido. Ele se sentiu vulnerável? Sim, mas às vezes tenha cuidado só era possível se você se abrisse com a alma por alguém.
Em algum momento, as frutas e salgados já foram esquecidos no canto da cama gigante, e a única coisa que importava era o som dos beijinhos que Wooyoung distribuía no rosto do híbrido e o som da cauda batendo levemente no colchão. Eles sabiam que a conversa não era necessária, que a conexão já bastava e os toques carinhosos eram uma âncora depois de um dia exaustivo.
Os beijos viraram cheiros, os cheiros viraram suspiros, os suspiros viraram um ronco leve e um ronronar baixo, o aperto forte ficou frouxo, mas ainda estava ali.
Eles não sabiam se o paraíso existia, mas aquela casa, com certeza, virou o mais próximo que eles retornaram do céu.
No final só tinha sido um dia ruim.
E o relógio marcava 23:17.
