Work Text:
Geralmente, em fins de tarde sem compromisso, logo quando o véu negro da noite começa a cobrir o céu, Henri e Gal se juntam no telhado do Menefreda, para beber e jogar conversa fora. Diante de todo o caos que eram suas rotinas, com os preparativos para a Desconjuração, era sempre bom ter esses momentos sozinhos, e relembrar a única parte boa da infância deles.
Hoje é um desses dias, e Henri espera por Gal no mesmo lugar de sempre. Um pedaço de telhado em que a única forma de entrada e saída era uma janela. Ele se lembra de quando eram mais novos, e essa janela originalmente tinha uma grade, assim como todas as janelas do primeiro andar. Mas, devido à falta de manutenção frequente, ele e Gal facilmente quebraram a velha grade, criando um cantinho só para eles.
Eles iriam para lá sempre que queriam fugir da terrível realidade de suas vidas. Era um lugar onde eles poderiam esquecer o resto do mundo e fingir que tinham uma vida legal.
Só eles dois. Para Henri, essa era a melhor parte. Ainda é, e ele é infinitamente grato por isso. E ele é grato por pouquíssimas coisas em sua vida. Pra falar a verdade, Henri nunca foi uma pessoa muito grata. Não era surpresa, dado o rumo que sua vida tomou depois de seu nascimento. A parte "engraçada" é que quase todas as coisas pelas quais ele é grato têm a ver com Gal.
"Henri." A voz suave e familiar interrompe seus pensamentos, voltando a atenção de Henri para o homem esguio que fazia seu caminho para o telhado, sentando-se ao lado dele.
Ele trazia consigo uma caixa de latas de cerveja barata, da mesma marca que eles sempre compram. A escolha da marca não era por preferência, mas por costume; eles bebem da mesma cerveja barata que os adultos levavam nos shows que frequentavam. Eles sabem que existem cervejas com gosto infinitamente melhor do que o (praticamente) mijo com álcool que eles bebem, mas para que se preocupar em pagar mais caro em cerveja melhor se eles já se acostumaram com esta?
Fora que Henri gosta assim. Lembra ele dos shows e de ficar bêbado com Gal. E de como Gal ficava muito mais grudendo bêbado. De como ele pedia para que dormissem abraçados e sempre lhe dava beijos na testa ou na bochecha antes de dormir.
Na época em que as punições dos adultos eram o único tipo de contato físico que Henri tinha acesso, mesmo que ele tivesse aprendido a gostar, os abraços e beijos de Gal eram como o céu para ele.
Henri é grato pela cerveja e pelo telhado.
Aconchegando-se, Gal entrega uma lata para Henri e pega uma para si. Ploc-tsss ele rompe o lacre e toma um longo gole, expirando pela boca audivelmente, liberando toda a tensão de seu corpo junto.
"Dia cheio?" Henri abre a lata e acompanha o mais velho com um gole também.
"Sempre", resmunga. "Um dos fudidos acordou e vomitou o caminhão inteiro!" Outro gole. "Isso não existe. Daí, os outros não quiseram mais transportar o resto das pessoas por causa que tava sujo e fedendo pra caralho, e ninguém queria limpar."
Ele dá uma risadinha. "E você que teve que limpar, né?"
"Credo, óbvio que não. Mas foi um saco obrigar eles a limpar." Mais um gole. Henri sempre achou engraçado o quanto Gal era 'cachaceiro', especialmente depois de dias estressantes. Mas esse lado dele só era visto por Henri, óbvio.
Henri é grato por ser uma pessoa de confiança para Gal.
"Pelo menos tudo isso vai valer a pena depois. Vai começar a valer quando completarmos a última etapa da Desconjuração." Ele se inclina e repousa a cabeça no ombro do amigo.
Conversa vai, conversa vem. Mais goles de cerveja são tomados, mais latas são abertas. Ambos acabam bêbados, rindo e falando sobre qualquer coisa, ficando acordados até tarde, como quando eram mais novos.
"Sabe, uma das poucas coisas que eram legais quando a gente era criança eram as vezes que a gente se juntava pra jogar verdade ou desafio." As palavras escapam da boca de Gal como se a cerveja as deixasse escorregadias. Apesar de os dois sempre acabarem bêbados, Gal com certeza sempre estava mais. Ele sempre bebia mais.
"Sim! Haha. Eu lembro que sempre acabava em alguém apanhando por causa de um desafio" já Henri é mais moderado. Mesmo que sua voz entregue sua embriaguez, não chega nem a ser tão caricata quanto a de Gal.
"Sempre tinha briga por causa das verdades também. E era um saco quando inventavam aquela bosta de desafiar a beijar os outros" ele bebe o restante da cerveja da penúltima lata com gosto, jogando a lata do telhado mesmo. Ele faz isso desde sempre, e sempre é na expectativa de cair na cabeça de alguém. Ele já contou isso para Henri um milhão de vezes; a esse ponto, ele nem precisa mais.
"Nossa, era uma merda mesmo." Ele só concorda, mesmo que não tenha essa opinião. Na realidade, ele adorava ao mesmo tempo que odiava, pois podia ser tanto uma oportunidade de beijar Gal quanto de ser obrigado a beijar qualquer outra pessoa. Por isso, ele sempre sentava na posição oposta de Gal na roda.
Para Henri não era tão ruim; não é possível que para Gal pudesse ser. A ideia de beijar alguém. Claro, na frente dos seus amigos, existindo altas chances de dar extremamente errado, ou de ser extremamente constrangedor, com certeza seria bem desconfortável, mas e se...
"Mas, diz aí, Gal..." Não se sabe se o álcool causou ou só ajudou essas palavras a se libertarem da boca de Henri. E assim que elas saíram, ele percebeu que não teria mais volta. Ele teria que terminar a frase. Fazer a pergunta. Pois, mesmo que ele não fizesse, Gal iria insistir até que ele falasse, e isso só iria piorar a situação.
Ele dá uma breve pausa, dá outro gole na cerveja quente, na procura de coragem no amargor que infestava sua boca. Engolindo o medo e as inseguranças junto ao líquido que descia queimando sua garganta.
"Se... sem essa bobagem de verdade ou desafio. Se você pudesse escolher beijar qualquer pessoa no mundo, quem seria?"
A pergunta atinge Gal desprevenido. Ele solta uma pequena risada de surpresa. "Ahh... se eu pudesse..." Ele bate o indicador no queixo, como personagens de desenho quando ficam pensativos. Gal sempre fica muito caricato quando bêbado. "Se você me perguntasse quando eu era adolescente, eu com certeza diria o Kurt dos Dragões Metálicos. Nossa, eu tinha um crush taaaaão grande nele. Eu sempre achei que seria ótimo ter ele com a gente, acredita?"
Ele fala com um entusiasmo quase contagiante. Seria se Henri não estivesse com medo da resposta atual. Ele ri junto à Gal, uma risada fraca; riu só porque seria estranho se não o fizesse.
"Mas hoje em dia... eu acho que.... ninguém, na real. Eu não penso mais nessas coisas, sabe? Eu não tenho mais tempo." Ele abre a última lata e dá outro gole, fazendo careta ao sentir o líquido amargo e quente em sua língua.
Mesmo sem mudar de expressão facial ou fazer nenhuma espécie de ruído, a decepção de Henri era ensurdecedora. Pra falar a verdade, a decepção dele nem era tão válida assim; não era como se ele estivesse esperando que Gal o escolhesse de qualquer forma. Quem, em sã consciência, o escolheria? Ainda mais alguém tão especial como Gal.
Mesmo assim...
Aquele sentimento. Aquela dor esquisita no peito. Ela estava lá. Um tipo de dor que Henri nunca havia sentido antes. Pesada. Densa. Ela queimava por dentro como uma espécie de ácido. Como se uma bolsa de veneno tivesse explodido dentro dele.
Que dor infernal...
Provavelmente a única dor com a qual Henri tinha certeza de que não conseguiria se acostumar, ou sequer aprender a gostar também.Era estranho como Henri sabia, mas ao mesmo tempo não sabia dos sentimentos de Gal em relação a ele. Por um lado, era óbvio que não iria haver nenhuma reciprocidade da parte do anjo negro que ele tanto admirava e venerava. Ele é perfeito demais para se rebaixar ao ponto de se sentir atraído de qualquer forma por Henri. Mas, mesmo assim, ele tinha... "Esperança" com certeza não era a palavra certa, e ele também não esperava isso nem em seus sonhos mais profundos (ou profanos).
Ele desejava.
Mais do que tudo nesse mundo.Mas ele, mais do que ninguém, já deveria saber que desejos não valem de nada nessa vida, que eles foram amaldiçoados a aturar.Talvez ele fosse grato por isso. E ele odiava essa possibilidade, pois se sentia traído pelo próprio subconsciente.
"Mas e você, Henri?"
A pergunta acerta a cabeça dele como a bala de uma espingarda (e ele desejava que fosse uma). Se ele mentisse, Gal iria saber. Mas preferia pular do telhado do que contar a verdade.
Isso talvez fosse uma das coisas que ele mais gostava em Gal, mesmo que fosse extremamente incômodo. Ele não podia escapar dele. Não podia evitá-lo.
Ele pensa por breves instantes, encarando o mais velho e logo em seguida desvia o olhar.
"Ah, pff... Ninguém também, né? Que pergunta." Ele busca refúgio na bebida novamente.
Nessa situação não havia uma decisão certa ou errada, mas com certeza essa foi uma péssima decisão.
"Ahh não! Que mentira, Hen-rii!" Ele franze a testa e dá um murrinho leve no braço do menor.
"N- não é mentira! Sério!" Ele ri de nervoso, levando sua boca até a lata mais uma vez.
"Ai, não fode! Eu te conheço desde que você era bebêzinho. Você acha mesmo que eu não vou saber quando você mente?"
Henri tinha sentimentos mistos sobre isso. É bom ter alguém que te entende, mas tinha que ser nessa situação?...
"Já seiii!" Ele se inclina mais perto. "Você não quer é que eu fofoque pra alguém, neeé?"
"Nada a ver! Eu já disse. Não tem ninguém" ele levanta a lata de novo, mas é impedido por Gal, que abaixa a lata com um dedo e o encara, tentando decifrar algo.
"Tsc, é a Nubi, né?"
"QUE?!" Gal falou com tanta convicção que transbordou o absurdo. Henri realmente se espantou com as palavras. "Nossa, você tá muito bêbado! Me dá isso!" Ele brinca e tenta tomar a lata da mão do mais velho.
"Ahh, qual é? Eu nem tô falando de gostar nem nada. Só beijar. Só uma bitoquinha, não?"
O outro ri e acena negativo.
"Mas ela é mó bonitona. Azar o seu." Ele dá outro gole. "Lembra quando você tinha um crush nela?"
"Ah, isso foi quando eu era mais novo, por causa do dia do incêndio. Mas hoje em dia... sei lá. Só não" Ele olha para a paisagem, desconcertado. A vista do telhado nem era tão agradável assim, principalmente porque sua visão não funcionava convencionalmente, mas qualquer coisa era melhor do que ficar encarando Gal nessa situação.
Após isso, o silêncio reina por um tempo. Tempo suficiente para que Henri pensasse que o outro tivesse deixado o assunto de lado. Sentiu alívio por um milissegundo e arrependimento pelo resto desse tempo. Essa situação era culpa dele, afinal. Ele tinha talento para se meter em enrascadas. Gal, sem sombra de dúvidas, era a mais bela e fatal de todas.
"Sou eu, né?"
Ele finge não escutar a pergunta. Permanece em silêncio, tentando se perder nos próprios pensamentos de novo. Se ele não ignorasse, aquela dor voltaria.
"Henri"
Ele odiava quando Gal chamava seu nome com uma voz tão suave; sempre lhe causava arrepios e um frio no estômago que ele não conseguia explicar.
Sente uma mão fria agarrar seu ombro de uma forma tão gentil que lhe causou náuseas. Depois disso, seu cérebro não conseguiu mais processar o que viria a acontecer. Como se estivesse congelado, preso em sua própria mente, sendo permitido apenas assistir como Gal o envolvia em seus braços e segurava seu rosto. Mantendo um contato visual extremamente doloroso.
Mesmo ainda usando a venda, Henri podia sentir o olhar perfurante de Gal. Como se enfiasse agulhas em seus olhos. Essa era a parte menos desconfortável da situação. O contato físico compartilhado pelos dois era gentil e terno. Terrivelmente bom.
Ele sente seu coração acelerar e seu corpo esquentar quando Gal se aproxima ainda mais. Sentindo a respiração dele se misturar com a sua. Por um momento, tudo pareceu ficar mais lento, e ele sentiu uma necessidade irracional de fechar os olhos o mais forte que conseguisse, como se isso fosse lhe impedir de ver alguma coisa. Sentiu medo novamente pela primeira vez em anos. Não sabia exatamente do quê.
Talvez só não quisesse encarar a realidade, o que também era confuso, porque, se Gal realmente estivesse prestes a beijá-lo, seria uma coisa boa, não teria por que ter medo.
Talvez tivesse medo do que viria depois. O que acontece depois que você beija alguém?, ele pensa, sem resposta para a própria pergunta. Ele nunca havia pensado no depois, no que eles se tornariam um para o outro depois de compartilhar um momento tão íntimo.
Sentiu vontade de parar tudo. Não estava pronto para aquilo. Mas também... se não aceitasse, talvez não tivesse outra chance. Talvez essa fosse a última noite de sua vida, ou da de Gal. Talvez estivesse sonhando. A partir daí, muitos 'talvez' surgiram em sua mente. Era cansativo, mas ele não conseguia parar de pensar.
Consumido pelo momento.
Estava vindo...
Mais perto...
Mais perto...
E de repente tudo esfria novamente quando ele sente os lábios de Gal tocarem sua testa, produzindo um grande muahck, e seu peito voltando a queimar com o ácido.
"Prontooo! Henri feliz." Ele ri e termina a última lata de cerveja o mais rápido que consegue, jogando a lata lá de cima, como sempre. O mais velho se afasta e se senta abraçando as pernas. Ele olha para o céu, mesmo que não possa ver o que tem lá. Assim se mantém por mais alguns minutos. Talvez ele estivesse esperando algo. Ele quebra o silêncio: "Tá tarde, vê se dorme ein", se arrasta para a janela e adentra as ruinas.
Henri permanece ali, abandonado no breu. Acompanhado apenas de seus próprios pensamentos e desses sentimentos que ainda insistiam em atormentá-lo.
O desejo. A dor.
Ele não tinha mais o porquê se sentir assim. Acabou, ele já teve sua resposta. Insistir em um sentimento que nunca vai ser recíproco não faz sentido. Mas, ainda assim, ele continua desejando. E ainda dói.
Não é possível que seja assim tão simples. Não depois de tudo que eles viveram juntos, não depois de todo o carinho e cuidado que compartilharam, não depois de tanto apoio e proteção que sempre proporcionavam um ao outro, não importa a situação.
....
Ele decide dormir ali mesmo.
—
De amanhã, a dor ainda estava lá, mas os dias seguiram normalmente. Sequestros, mortes, sangue, gritos, rituais, tortura, bebedeira. E os anos seguintes foram assim também.
Depois daquela noite, nada realmente mudou, e nenhum dos dois tocou no assunto ou em qualquer coisa relacionada novamente.
Mas, mesmo depois disso tudo, Henri não conseguia tirar da cabeça que Gal escondia algo naquela noite. Ele não fazia ideia do que poderia ser, e não quer criar expectativas ou falsas respostas para uma coisa que não volta mais.
Henri nunca mais pensou no que sentia. Ele e Gal nunca foram nada além de bons amigos. A certeza agora doía mais do que qualquer ferimento. Talvez fosse melhor assim.
Henri é grato por isso também.
