Work Text:
A luz do luar só é apreciada
Por aqueles que estão dispostos a ver
E eu sempre fui um ótimo observador.
Enid poderia dizer que os tons alaranjados do céu anunciando mais um pôr do sol eram umas de suas cores favoritas, de fato.
Mas seria uma mentira. Não era. Bem, não quando havia Wednesday ali, ao seu lado. Enid fitou-a pelo canto de olho: os tons monocromáticos sempre presentes nas roupas. Nas unhas cuidadosamente pintadas de preto. Os cabelos perfeitamente trançados e a franjinha que agora caía sobre seus olhos, coisa que, quando acontecia, lhe arrancava uma carranca que durava cerca de alguns segundos. Enid sorriu com a visão. E, depois de alguns meses na companhia dela, a loira tirou a conclusão mais óbvia: talvez tons monocromáticos fossem seus favoritos, agora.
O que era estúpido, ela pensou enquanto observava as próprias roupas — o conjunto da saia plissada branca junto do seu suéter favorito em tons de rosa e laranja — mas faz sentido. Ao menos, para ela. E isso bastava.
“O filme é tão terrivelmente entediante assim ou você só descobriu um novo entretenimento no meu rosto?” A voz de Wednesday a tirou dos próprios pensamentos. Enid piscou algumas vezes antes de finalmente conseguir olhar para a morena — dessa vez, com os olhos focados aos dela.
“Jesus, Wednesday.” Ela deixou um sorriso nervoso escapar. “Você me assustou.”
“Certamente não mais que este filme esteja me assustando.” O comentário ácido escapou-lhe dos lábios com naturalidade, coisa que fez Enid rir um pouco mais alto, mesmo que tomando cuidado. O cinema era ao ar livre, e, naquele fim de tarde, eles estavam exibindo Legalmente Loira. Era o filme favorito de Enid: o que certamente faria Wednesday odiar com todas as forças de seu ser, mas, ei, as coisas que você definitivamente faria pela garota por quem você está se apaixonando. Lentamente.
Wednesday diz que é o tipo de tortura mais incerta e divertida que ela teve o prazer de provar. Se apaixonar é como, nas suas palavras, deixar-se enterrar viva e confiar que uma pessoa em específico vai lhe tirar dali. Entrar em um caixão fechado e lhe entregar a chave. Apaixonar-se é, em sua mais pura forma, estar à beira de um precipício com a pessoa que você mais ama te segurando pelas mãos enquanto você confia, do fundo do seu âmago, que ela não vai te deixar cair.
E Wednesday não poderia estar mais fascinada pela sensação lhe corroendo como uma parasita.
O lado ruim, ela supôs, era a vulnerabilidade ao qual o sentimento se atrelava. Estar apaixonado significava se desarmar. Se deixar guiar pelo sentimentalismo exacerbado, coisa que ela jamais fará, obviamente… ou jamais faria. Agora, havia uma razão para fazê-lo: os pares de olhos azuis lhe olhando tão ansiosamente, esperando uma resposta a uma pergunta que, infelizmente, Wednesday não havia ouvido. “O quê?”
“Eu perguntei se está tão assustador assim.” Enid disse quando puxou o doce de alcaçuz com os dentes, tentando arrancar um pedaço. Mastigou devagar, sentindo o sabor lhe invadir o paladar enquanto ela fechava os olhos com a sensação.
Wednesday teve que se conter. Os lábios de Enid certamente eram naturalmente mais doces, ela repreendeu o próprio pensamento em seguida. Pigarreou antes de falar: “Já assisti filmes de terror menos assustadores, eu suponho. Mas é… suportável.”
Não que nenhuma das duas estivesse de fato prestando atenção ao filme, isso era óbvio. Wednesday obviamente não estava, e Enid sabia, mas o convite havia sido um pretexto para ficarem sozinhas sem interrupções. Sim, elas dividiam o mesmo quarto por um semestre inteiro, mas as obrigações escolares tornavam um pouco difícil qualquer coisa que tentassem fazer juntas. Enid juntou o útil ao agradável — um convite para que Wednesday viesse lhe visitar em São Francisco durante as férias com a promessa de dias chuvosos quase frequentes — e ali estavam elas.
Enid pensou que talvez nunca tenha se apaixonado na vida. E isso deveria ter a assustado — afinal, ela já havia mantido sua cota de relacionamentos (isso significava que ela nunca havia amado alguém tão verdadeiramente?) mas o pensamento lhe trazia um alívio confortável demais pra uma constatação tão repentina. Bem, Wednesday era sua primeira paixão. A primeira garota por quem ela havia se apaixonado. Talvez a única. Definitivamente a única, ela pensou, quando largou o doce de alcaçuz deixando-o em cima do mesmo saquinho que comportava todas as guloseimas que havia comprado. No entanto, o movimento fez suas mãos, quentes e convidativas, roçarem sobre a ponta dos dedos de Wednesday. O contato fez ambas se olharem mais uma vez.
Orbes escuras nas azuis.
Enid sentiu que, talvez, o mundo tivesse desacelerado por alguns segundos, como nos filmes de romance que ela costumava consumir excessivamente. O toque das suas mãos que pareciam ter sido feitas para isso. Os olhos escuros, intensos, tão cheios de sentimentos que a loira daria qualquer coisa para decifrar. Wednesday era um enigma; um tipo de luz rara que só pessoas dispostas a ver pudessem apreciar. Ela pensou que talvez pudesse defini-la como luz lunar. E o pensamento a fez sorrir.
Wednesday foi a primeira a recuar lentamente do toque, mas, pela primeira vez, o fez a contragosto. Não era insuportável; pelo contrário, lhe trazia uma espécie de paz. O toque da ponta dos seus dedos gélidos pareciam se completar às mãos de Enid. Os olhos azuis, intensos, transparentes demais. Enid era um livro aberto; um tipo de luz que talvez viesse a ofuscar aqueles tão rasos para não aprecia-la. Ela pensou que talvez pudesse defini-la como luz solar. E o pensamento lhe agradava. Mais do que deveria.
“Wednesday?” A voz da loira lhe pegou de surpresa enquanto seus olhos lhe encaravam com certa… curiosidade. “Posso perguntar uma coisa?”
“Além dessa que você acabou de perguntar, eu suponho?” Ela levantou uma sobrancelha, deixando um repuxar de lábios quase imperceptível escapar.
“Além dessa.” A morena assentiu enquanto aguardava a pergunta. E se arrependeu amargamente de ter continuado a manter o contato visual, pois a pergunta a seguir era tudo menos segura. “Você já se apaixonou?”
Wednesday pensou. Pensou em todas as vezes que teve que se conter um pouco mais com Enid por perto. Dividir um quarto com a garota por quem você está nutrindo sentimentos enquanto ela, em atos levemente desesperados, se envolvia em relações completamente disfuncionais com homens que definitivamente não estavam na média da sua beleza era, sem sombra de dúvidas, inquietante. Mas Wednesday era boa em disfarçar, sempre fora. Ou pelo menos ela achava.
“Você sabe que eu-”
“Despreza o sentimento e o evita como se fosse uma praga.” Enid completou, um sorriso no canto dos lábios que definitivamente era melancólico demais pra alguém como ela. “Eu sei. Mas, hm… pessoas mudam, não?”
Wednesday não confirmou nada. Não negou, também, não poderia. Ela era capaz de fazer coisas mais perigosas que isso, ou pelo menos ela achava: era capaz de enfrentar monstros, casas assombradas e desenterrar túmulos no meio de uma madrugada fria. Coisas que ela podia tocar, controlar, analisar meticulosamente. Mas não a vulnerabilidade de um sentimento que ela sequer entendia. Isso a assustava infinitamente mais. Entretanto, não era capaz de negar nada a garota de olhos azuis tão vivos lhe encarando ansiosamente.
Enid, por outro lado, pensou que era possivelmente a garota mais patética de São Francisco no momento. Você já se apaixonou? Sério? Definitivamente o tipo de pergunta que não se faria para Wednesday Addams, ela supôs. E ela também sabia que a resposta seria negativa, isso era óbvio, mas quem poderia culpa-la? Dias tentando abordar o assunto com o mínimo de naturalidade e Enid sempre, sempre, o adiava. Não vou falar hoje. Wednesday ainda tem alguns dias aqui, não preciso me apressar tanto assim, era o que ela pensava durante todos os outros dias.
Enid tentou não deixar a risada nervosa transparecer, mas sabe que provavelmente não havia conseguido. Bem, que se dane. “É, eu sei. Meio patético.” Wednesday queria retrucar. Ao invés disso, observou quando a loira ajustou a própria postura e continuou. “Eu acho que nunca me apaixonei, também. Quer dizer… eu deveria, não é?” Ela entrelaçou as próprias mãos em um movimento ansioso. “Mas não. Nunca. Bom… eu acho que nunca tinha me apaixonado antes.” Ela deixou um suspiro escapar. “Até eu conhecer alguém e-”
“Essa é uma das suas tentativas te dizer que está conhecendo alguém de novo?” Wednesday interrompeu aos próprios pensamentos quando ouviu sua voz sair baixa, cortante. E se arrependeu 0,1 segundo depois, obviamente.
“Não, eu-” Enid fechou os olhos por alguns segundos. “Eu estou tentando dizer que-” Ela mesma se interrompeu, tentando não se engasgar nas próprias palavras. E Enid não era nem de longe alguém que encontrava dificuldade em expressar seus sentimentos, mas, dessa vez, sentia como se houvessem milhões de lâminas na garganta lhe impedindo de formular alguma frase coesa. “Eu não estava falando exatamente de um… garoto.” Wednesday não sabia se era possível sentir o ar faltar com as palavras de alguém. Ela pensou em responder. Formulou diversas frases prontas, ácidas e cortantes na mesma medida, mas nenhuma delas parecia certa ou condizente. Então deixou que ela continuasse. “E você não vai dizer nada. Claro que não.”
Só e somente após essa observação que Wednesday percebeu, com certa curiosidade, que Enid realmente esperava algo dela. “Eu não sabia se deveria dizer algo.”
O pôr do sol já havia se despedido há alguns bons minutos sem que nenhuma das duas notasse, e agora, o céu quase totalmente escuro as presenteava com a luz do luar. “Wednesday, se eu não te falar, acho que vou explodir. Então eu só…” Seus olhos focaram-se na menor mais uma vez. “Eu tava falando de você.”
“Falando o quê, exatamente?”
Enid respirou fundo. Contou até dez, lentamente. Era a Wednesday, ela pensou. Não dava pra esperar uma reação diferente disso.
“De você, Wednesday!” Ela disse com certa urgência na voz e no olhar. “Eu gosto de você. Eu- Eu tô me apaixonando por você.”
Wednesday pensou se era assim que as pessoas apaixonadas se sentiam. As borboletas no estômago que ela gostava de nomear como aranhas por que, honestamente, ela jamais deixaria tais objetos tão adoravelmente coloridos se infiltrarem e as invadirem. O que era um pensamento irônico quando ela olhou com tanta atenção para Enid: o suéter em tons de rosa e laranja ou as unhas exageradamente coloridas — com excesso do dedo anelar que agora carregava um esmalte preto, coisa que intrigava Wednesday — talvez ela realmente já tivesse deixado alguém tão colorido quanto as borboletas lhe invadirem o coração e seus pensamentos. E a pior parte era que ela não repelia o sentimento, nem sequer tentava. Para ela, se apaixonar por Enid era a tortura mais deliciosa que ela teria o prazer de provar.
Percebeu que havia, novamente, se perdido em pensamentos, seu olhar se voltando aos lábios de Enid, o gloss brilhante que já havia feito Wednesday se questionar tantas vezes qual era o gosto. A loira, por outro lado, comentou mais uma vez quando sentiu as pontas dos seus dedos se encostarem aos de Wednesday em um choque térmico do qual ela não cansava de sentir. “Wednesday…” Ela suspirou lentamente. “Por favor, fala alguma coisa.”
Ela não respondeu. Não com palavras; Wednesday era péssima em se manifestar dessa forma. Era péssima em se expressar no geral, exceto quando tinha a máquina de escrever em sua frente e deixava as palavras da sua novel lhe escapar com facilidade. Aproveitando-se do lampejo de coragem que ele invadiu por segundos, Wednesday, então, subiu as mãos de Enid junto das suas, deixando-as na altura dos seus lábios enquanto deixava um beijo singelo nas pontas dos dedos da loira. Enid prendeu a respiração; ela conhecia Wednesday bem o suficiente para saber que ela abominava toques físicos de qualquer tipo, portanto, ela sabia que era uma resposta positiva. Muito mais que positivo, até. E, quando seus olhos se voltaram mais uma vez, a loira recebeu a resposta que tanto esperava no fundo das orbes escuras e de repente tão decifráveis de Wednesday: era mútuo. Definitivamente mútuo.
“Ainda acho que você é estranha, aliás.”
“O sentimento é incrivelmente mútuo.”
E, quando Wednesday viu os lábios de Enid se adornarem em um sorriso doce, carinhoso e absolutamente apaixonado, ela pensou que não sabia se era possível alguém morrer de amor. Mas, caso fosse, ela seria a primeira vítima.
