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Between Us Love

Summary:

Esta história não me pertence e é apenas uma adaptação de uma obra Jenlisa publicada no Wattpad. Todos os créditos pertencem à verdadeira autora da obra, cujo usuário é superdalx

Eles disseram que era impossível amar de novo depois do fim. Que o passado seria sempre um muro intransponível. Mas Rachanun e Tipnaree têm uma filha, um amor que nunca morreu, e um segredo que pode reescrever tudo. Entre encontros proibidos, cicatrizes do passado e a luta para ser uma família, elas vão descobrir que o amor é a única lei que vale a pena desafiar.

Notes:

Chapter Text

Rachanun POV

O céu daquela tarde estava pintado com tons pálidos de dourado e azul esmaecido. A brisa leve bagunçava os fios do meu cabelo enquanto eu esperava na porta da creche, tentando disfarçar a impaciência com o celular na mão, mas a tela estava apagada havia minutos. Nenhuma mensagem. Nenhuma atualização. Nada. Só o tic-tac invisível da minha paciência escorrendo como areia.

E então, como uma maldição que atende pelo ronco de um motor, eu ouvi.

A moto.

O som ensurdecedor daquele motor exagerado cortando a calmaria da rua residencial como se ela estivesse chegando pra competir com uma gangue de motoqueiros de filme B. Meus ombros caíram lentamente com um suspiro que mais parecia uma reza falhada.

— Mamãe!

A vozinha da minha filha soou aguda, doce e completamente cheia de alegria, e eu mal tive tempo de processar antes de ver aquela cena: Lunar disparou em direção à mulher que acabava de estacionar perigosamente a moto em cima da calçada da creche, como se leis de trânsito fossem meras sugestões. Ela tirou o capacete com um movimento lento, e os fios castanhos e bagunçados caíram sobre o rosto, que já vinha estampado com aquele maldito sorriso que um dia foi o centro do meu universo.

Tipnaree Weerawatnodom.

Vestida com uma jaqueta de couro desnecessariamente apertada, botas pretas, e aquele charme inconsciente de quem nunca teve que tentar, Namtan desceu da moto com a calma de quem não carrega nenhuma responsabilidade emocional. Revirei os olhos no mesmo instante. Irritante. Completamente irritante.

Mas Lunar? Ela corria como se não existisse chão sob seus pés, só o impulso de chegar mais rápido até aquela figura perigosa e absurdamente irresponsável que, por alguma razão que me escapava, ela chamava de mamãe com tanto orgulho quanto amor.

Namtan abriu os braços como se pudesse engolir o mundo, e quando as duas se encontraram, a cena poderia facilmente estampar um pôster de "mãe do ano", se eu ignorasse todo o contexto.

— Que saudade que eu tava de você, minha Lunar — ela disse com aquele sotaque arrastado, erguendo a pequena no ar como se fosse uma pena, girando com ela até ambas estarem rindo como duas malucas.

E ali estava.

O aperto no peito.

Aquela pontada no fundo da alma. Por um segundo, só um segundo, eu quase sorri.

Mas aí me lembrei: ela estava atrasada. De novo. E veio de moto. De novo. E eu sou a adulta nessa equação. Infelizmente.

Esperei ela finalmente colocar os dois pés no chão, literal e metaforicamente, e foi só então que Namtan se virou na minha direção. O cabelo levemente bagunçado pelo capacete, as bochechas coradas pelo vento, e os olhos semicerrados pelo sol... era uma visão que já teve o poder de me tirar o fôlego. Agora, só me tirava a paciência.

— Ei, Film — ela disse, com aquela voz baixa e maliciosa que fazia até o apelido soar como uma provocação íntima. Eu cruzei os braços imediatamente.

— Oi, Tipnaree — respondi seca, impassível, afiada.

Ela mordeu o lábio inferior, tentando segurar um sorriso. O típico gesto que um dia me fazia esquecer brigas inteiras. Hoje? Só me fazia querer enfiar o capacete dela onde o sol não alcança.

Lunar já tinha se soltado do colo dela e estava pulando de animação, enquanto Namtan se abaixava para pegar o mini capacete personalizado com estrelinhas roxas que ela mesma tinha mandado fazer quando a nossa filha completou três anos. Na época, achei uma loucura. Hoje... ainda acho. Mas o sorriso de Lunar ao colocar aquele troço na cabeça é quase doloroso de tão bonito.

— Vamos lá, pequena? — Namtan perguntou, bagunçando os cabelos finos da criança com carinho.

— Sim, mamãe! — a resposta veio acompanhada de pulinhos e uma risada que me fez apertar os braços ao redor do próprio corpo.

Namtan encaixou o capacete com cuidado na cabeça da filha e ajustou a presilha com uma delicadeza que quase me desmontou. O contraste entre aquela mulher que pilotava feito uma selvagem e a mãe que checava o queixo da filha pra ver se o capacete não estava apertado era... difícil de processar.

Ajeitei minha postura e falei com a frieza exata que eu tinha treinado nos últimos anos.

— Tome cuidado com ela, Weerawatnodom — minha voz cortou o ar como uma lâmina. Namtan levantou o olhar com um sorrisinho torto.

— Relaxar nunca foi seu forte, né? — ela respondeu, e antes que eu pudesse retrucar, piscou pra mim. — Deixa comigo.

E com isso, montou na moto com a leveza de quem não carregava nenhuma bagagem emocional, embora eu soubesse, lá no fundo, que ela carregava sim. Só escondia melhor do que eu.

Lunar subiu atrás dela com a confiança de quem tinha feito aquilo mil vezes. E talvez já tivesse mesmo.

— Segura firme, Lunar! — gritei, num tom que beirava o desespero controlado. Ela virou o capacetinho pra mim e levantou o polegar.

Namtan ligou a moto, e o barulho rasgou o silêncio de novo. O motor rugia alto, chamando atenção de vizinhos e de todos os meus nervos. Com um aceno rápido, as duas partiram. A risada de Lunar se misturou ao ronco da moto enquanto desapareciam na rua deserta, em direção a mais uma aventura que, com certeza, não estava no meu controle.

Fiquei ali parada por alguns segundos. O coração acelerado, o maxilar travado. O silêncio voltou a tomar conta do lugar, e com ele, o buraco do lado esquerdo do peito. O lugar exato onde minha filha dormia todas as noites. O lugar que agora estava vazio.

Suspirei fundo e entrei em casa. A porta fez um clique suave ao fechar atrás de mim, abafando o mundo lá fora.

Hoje seria um plantão longo. Mas mais do que isso... Hoje seria mais um dia longe da minha filha. E eu ainda não tinha aprendido a lidar com isso.

Sacudi a cabeça, tentando afastar os pensamentos. Peguei a bolsa, prendi o cabelo num coque e murmurei pra mim mesma:

— Certo. Hora de ser adulta.

Mas por dentro, eu era só uma mãe preocupada, uma ex-mulher cheia de nó na garganta... e uma mulher que ainda não sabia se odiava ou amava aquela delinquente de jaqueta de couro.

🫀

O hospital tinha aquele cheiro característico de limpeza exagerada misturada com medicação, e era impressionante como mesmo depois de anos ali dentro, aquilo ainda conseguia me incomodar um pouco. Eu tentava manter a postura, a cabeça focada, a respiração controlada... mas não era o cheiro que me tirava do eixo naquela manhã. Era o fantasma de uma jaqueta de couro e um sorriso torto que ainda morava no canto da minha mente.

— Bom dia, doutora — a voz de Sonya veio do meu lado com aquele tom malicioso que ela só usava quando queria me provocar.

Revirei os olhos antes mesmo de encará-la. Era como se meu corpo já soubesse que ela vinha com alguma merda.

— Bom dia, Sonya — respondi sem dar muita brecha, mantendo o foco total na checagem da pulsação do senhor Min. O paciente estava estável, os sinais vitais regulares, e o acesso estava limpo. Ótimo. Eu precisava de tudo que fosse previsível hoje.

Anotei com calma na ficha do paciente enquanto ela se aproximava do outro lado da maca.

— Como se sente hoje, senhor Min? — Sonya perguntou, e mesmo com a zoeira prestes a explodir, a voz dela era sempre gentil com os pacientes.

O homem sorriu com a lentidão de quem já viveu muito, mas ainda achava graça em acordar todos os dias.

— Me sinto... melhor. Com certeza — respondeu ele, com um sorriso fraco, mas sincero.

Não resisti e sorri também. Era bom ver melhora. Era bom sentir que, pelo menos aqui, as coisas tinham solução.

— Ótimo — eu disse com suavidade. — Amanhã finalizamos seu processo, senhor Min. E eu vou liberar as visitas pra hoje.

Ele arregalou os olhos com alegria e deixou o corpo relaxar na cama, se ajeitando melhor sob os lençóis.

— Muito obrigada, doutora — ele disse com gratidão verdadeira, aquela que dava sentido pra qualquer plantão puxado.

Sonya, do lado, trocava o acesso com a paciência meticulosa de sempre. Ela podia ser uma chata comigo, mas era impecável no que fazia. Sorriu para o senhor Min antes de fecharmos a ficha e deixarmos o quarto juntos.

O corredor estava silencioso, um milagre praquele andar, e eu tentei usar isso a meu favor, focando na próxima tarefa, no próximo quarto, no próximo passo.

Mas claro, Sonya não ia deixar isso barato.

— Então... — ela começou, e meu cérebro já começou a correr desesperadamente pra escapar do que vinha a seguir.

Fugir era inútil. O veneno já estava no olhar malicioso dela, naquele jeito de quem saboreava cada palavra antes de jogar na minha cara.

— Como foi hoje vendo sua ex-mulher gostosa? — ela perguntou entre risadinhas, a voz embebida em pura malícia.

Bufei alto, apertando a prancheta contra o peito como se aquilo pudesse funcionar como escudo anti-ironia. Já era a quinta vez que ela vinha com isso nos últimos meses. A quinta vez que eu reagia do mesmo jeito. Como todas as outras vezes.

— Você é uma idiota — soltei automaticamente, sem nem olhar pra ela.

Sonya gargalhou do meu lado, completamente satisfeita.

— Ah, entendi. Então ela apareceu lá com aquela pose que te faz ficar de pernas bambas só de olhar, te deixou louca por ela mais uma vez e depois foi embora como se nada tivesse acontecido.

Eu parei de andar, olhando pra ela como se ela tivesse acabado de me acusar de um crime.

— Não foi assim.

— Não foi? — ela arqueou uma sobrancelha.

Suspirei, cansada, frustrada, irritada e, no fundo, um pouquinho derrotada.

— Ela só surgiu lá com aquela pose de delinquente, como se nunca tivesse saído da adolescência, depois foi imprudente mais uma vez, me deixou com ódio da cara dela, e depois foi embora como se nada tivesse acontecido.

Sonya me olhou com um sorrisinho torto, os olhos semicerrados como se estivesse prestes a entregar um diagnóstico.

— Então basicamente o que eu disse, certo?

Revirei os olhos, soltando um suspiro teatral antes de voltar a andar.

— Vou te ignorar por hoje, Sonya.

— Você sempre diz isso — ela riu, me acompanhando como uma sombra debochada.

— Dessa vez é sério.

— Uhum. Vai lá fingir que não vai passar o resto da manhã lembrando do corpo dela, do sorriso safado e do jeito que ela te chama de Film.

Fechei os olhos por um segundo. Justo. Golpe baixo. Mas ainda assim, justo.

Apertei a prancheta com mais força, como se fosse possível apagar a imagem da Namtan da minha cabeça com força física. Mal sabia eu que aquela mulher era como uma tatuagem mal feita: difícil de apagar, fácil de lembrar, e sempre num lugar que dói.

Seguimos em direção ao próximo quarto. Pelo menos ali eu tinha um paciente pra salvar.

Meu coração, por outro lado... esse tava em estado crítico fazia tempo.

🫀

A luz branca da luminária pendurada sobre minha mesa projetava uma sombra cansada em cada linha do meu rosto. Meus olhos ardiam, uma mistura de exaustão e a falta desesperadora de um café decente. Ou de comida. Ou de um travesseiro. Qualquer um dos três teria sido um sonho naquele momento. O relógio digital na parede me lembrava cruelmente que o plantão estava longe de ser curto, mas pelo menos estava finalmente chegando ao fim.

— Certo, tudo finalizado por hoje — Sonya apareceu na porta da minha sala com o mesmo vigor que eu já tinha perdido há pelo menos quatro pacientes atrás. — O Jihun ainda está esperando a sua assinatura pra seguir com a cirurgia daquele paciente.

Ela estendeu o documento na minha direção com naturalidade, mas os olhos dela me avaliavam, como sempre. Eu sabia que ela notava tudo, meu cansaço, minha expressão, a forma como meus ombros estavam caídos. Ainda assim, não disse nada. Sonya tinha o dom de saber quando empurrar, e quando apenas observar em silêncio.

Peguei o papel e me inclinei pra frente, sentindo a tensão protestar nas minhas costas. O texto dançava um pouco diante dos meus olhos, e eu pisquei devagar pra manter o foco. Li tudo com atenção, ainda que o cérebro gritasse por descanso. O nome do paciente, o procedimento, as observações médicas. Tudo estava em ordem.

Soltei um suspiro cansado e deixei o corpo afundar na cadeira por um segundo. Peguei minha caneta do bolso, um clique suave ecoou pela sala quase silenciosa, e comecei a assinar meu nome com calma. Cada letra desenhada com o cuidado de quem ainda levava aquela responsabilidade a sério, mesmo quando o corpo já implorava pra se jogar numa cama e dormir por um mês.

— Aqui — estendi o papel de volta pra ela, sem conseguir esconder completamente o cansaço na minha voz.

Sonya pegou o documento com um sorriso leve e uma reverência exagerada, como se eu tivesse salvado o mundo.

— Obrigada, doutora Mahawan. A Central de Cirurgias agradece seus serviços — disse em tom teatral antes de sair da sala, seus passos ecoando pelo corredor.

Fiquei ali por um segundo, sozinha. O silêncio era um alívio quase terapêutico. Suspirei de novo e empurrei a cadeira pra trás, me levantando devagar, como se cada osso estivesse voltando pro lugar. Peguei minha bolsa, conferi o crachá no pescoço e desliguei o monitor, encerrando oficialmente meu turno.

Ser médica clínica geral no hospital central era, no mínimo, viver dentro de um furacão. Um caos organizado onde vidas se cruzavam, colapsavam e, às vezes, se curavam diante dos meus olhos. Eu amava o que fazia. Pelo menos, na maior parte do tempo. Mas havia dias, como hoje, em que tudo parecia pesar um pouco mais. E a saudade de casa, de um banho quente, de um silêncio que não fosse clínico... pesava mais ainda.

Saí da sala e segui pelo corredor, acenando com um leve sorriso para alguns colegas que ainda estavam por ali. Todos estavam na mesma vibe: exaustos, mas funcionando. Como máquinas com coração. Vi Sonya mais à frente, parada com a prancheta em mãos, fazendo anotações precisas. Ela me viu também, claro, e me lançou um sorriso malicioso cheio de segundas intenções, que eu conhecia bem demais.

Respondi à altura: um gesto rápido com o dedo do meio, discretamente escondido atrás da minha bolsa. A risadinha abafada dela ecoou enquanto ela voltava a encarar sua prancheta.

Atravessei a última porta automática que me separava do estacionamento e inspirei o ar da noite com um certo alívio. O ar estava frio, limpo, sem cheiro de álcool ou desinfetante. Já era noite fechada, e as luzes espalhadas pelos postes jogavam um brilho alaranjado sobre os carros alinhados.

Me aproximei do meu, destravei com um bipe, e joguei a bolsa no banco do carona com um suspiro pesado. Fechei a porta, me ajeitei no banco e só então me permiti fechar os olhos por um segundo. Só um segundo.

Era hora de ir pra casa.

Minha filha estaria lá em breve.

Liguei o carro, o motor respondeu com suavidade, e comecei a dirigir pela cidade quase adormecida. As ruas estavam tranquilas, as luzes dos semáforos refletindo nas janelas dos prédios como pontos silenciosos de cor. Eu deixei a cabeça encostar levemente no encosto, os dedos firmes no volante, mas o pensamento já longe dali.

Namtan. Lunar. A moto. O sorriso da minha filha. O toque da mão pequena segurando a minha na porta de casa. A forma como o coração ainda acelerava, não por causa do trabalho, mas por causa dela. Daquela idiota.

Revirei os olhos no escuro do carro.

— Ridícula — murmurei pra mim mesma, mas nem sabia se estava me referindo a ela ou a mim.

Segui em frente, guiando pelas avenidas já vazias, na direção do lugar onde meu mundo morava, com olhos brilhantes, um capacete roxo, e um coração que amava duas mães completamente diferentes.

E só de imaginar ouvir os passinhos apressados da Lunar correndo pela casa, meu cansaço já parecia um pouco menor.

🫀

A porta rangeu suavemente quando abri, revelando minha filha correndo na minha direção com os braços estendidos, os cabelos fininhos dançando com o vento da noite. O céu estava escuro, pontilhado de estrelas tímidas, e o ar carregava um frescor leve que invadia a sala com cada brisa que entrava. Mas nada, absolutamente nada, importava além daquela garotinha sorridente e cheia de energia, vindo em minha direção como se o mundo inteiro coubesse naquele abraço.

— Ai, querida... que saudade — soltei em um quase choramingo, ajoelhando antes mesmo dela me alcançar.

Ela se jogou nos meus braços e eu a apertei com força, o rosto afundado no pescoço perfumado dela. Um cheirinho de shampoo infantil e batata frita, o que imediatamente me deixou em alerta. Mas, por enquanto, o aperto do peito era só amor. Amor puro, urgente, sufocado pela distância de algumas horas que pareceram dias.

— Mãe, só fazem algumas horas — ela disse com aquela risadinha doce, quase musical.

— Não importa — murmurei apertando mais ainda, o coração querendo sair pela boca. — Eu estava morrendo de saudade.

Ela sorriu de novo e, com um gesto que me fez querer rir e chorar ao mesmo tempo, levantou a mãozinha minúscula e começou a cutucar minha bochecha com o dedinho indicador. A mesma maldita mania da outra. Daquela mulher.

Engoli em seco, tentando ignorar o calor instantâneo no peito. Porque não bastava me torturar emocionalmente com lembranças, minha filha ainda tinha que ser uma cópia reduzida da ex-mulher que eu vivia tentando esquecer.

O rostinho redondo, a boca gordinha, o nariz levemente arrebitado, as expressões... tudo era dela. Só os olhos eram meus. Felinos, escuros e intensos. Mas mesmo eles, naquele momento, estavam cheios de travessura e brilho, do jeito que ela costumava olhar pra Namtan quando queria algo.

Eu me recompus, endireitei a postura e olhei séria pra ela, tentando manter o controle da situação.

— Você comeu, mocinha? — perguntei semicerrando os olhos.

Ela abriu um sorriso safado e, como se quisesse me matar aos poucos, voltou a cutucar minha bochecha com o dedo.

— Sim, mãe. A mamãe me levou pra comer hambúrguer.

Minha expressão congelou por um segundo. A boca entreaberta, os olhos arregalados. Hambúrguer?

Levantei o rosto devagar, já sabendo exatamente o que ia encontrar.

E lá estava ela.

Tipnaree Weerawatnodom.

Encostada no batente da porta como se fosse a própria estrela de um filme que ela mesma dirigiu. Jaqueta de couro, cabelo bagunçado, uma expressão meio nervosa, meio debochada. As mãos enfiadas nos bolsos, o corpo relaxado, mas os olhos alertas. Me observando com aquele receio tímido, como quem sabe que fez merda e tá esperando o tapa.

Semicerrei os olhos, já quase sentindo o sangue subir.

— Ah, é mesmo? E o que mais? — perguntei com a voz tão afiada quanto um bisturi.

Lunar soltou uma gargalhinha e jogou a cabeça pra trás, os dentinhos aparecendo entre os lábios.

— E milk-shake!

Eu levei a língua até a parte interna da bochecha, buscando uma paciência que eu sabia que não tinha. Olhei lentamente pra ela de novo, tentando não explodir na frente da minha filha.

— Sua mamãe te levou pra comer hambúrguer e tomar milk-shake de noite? — minha voz agora era baixa, quase um sussurro com cheiro de ameaça.

Lunar assentiu com entusiasmo, os olhos brilhando.

E Namtan? Namtan teve o descaramento de rir. Um riso nervoso, frágil, mas ainda assim um riso.

— Ok... — murmurou, como se isso fosse uma resposta aceitável. — Vai lá tomar banho, vai, pequena — ela continuou, tentando desviar o foco. — E não esquece de escovar os dentes também, hein.

Ela levantou a mão, os dedos longos parando suavemente a filha, e com um leve empurrãozinho nas costas, colocou a garota pra correr pela casa, enquanto Lunar ria alto como se tivesse acabado de ganhar o mundo.

A garota sumiu pelo corredor em direção ao banheiro, ainda rindo, e então... Eu me virei lentamente pra ela.

Cruzei os braços. Respirei fundo.

— Você é inacreditável, Weerawatnodom — falei entredentes, mantendo o olhar fixo nos olhos dela.

Ela coçou a nuca, o ombro subindo num gesto culpado e quase... fofo. Fofo. Odeio isso.

— Desculpa, Film, mas você sabe bem que eu não sei dizer não pra aqueles olhinhos.

Ela falou com um tom manhoso, quase suplicante, e se eu não estivesse tão puta, talvez tivesse achado adorável. Mas como eu estava, de fato, a um milímetro de atirar o controle remoto na cara dela, só semicerrei os olhos com mais força.

— Então você simplesmente alimenta a nossa filha de quatro anos com um monte de porcaria porque não sabe dizer não pra ela? — falei mais alto, a indignação subindo pela garganta.

Ela desviou o olhar, encolheu os ombros.

— Desculpa? — tentou de novo, com aquela voz melosa e aquele biquinho desgraçado nos lábios carnudos que ninguém tinha pedido pra ela fazer.

E o pior? Aquele olhar também era desnecessário. Os olhos grandes, castanhos, cheios de culpa e charme. Como se eu não conhecesse aquele truque de corar a culpa com doçura. Eu praticamente inventei esse truque com ela.

Bufei, cansada. Irritada. Louca.

— Ai, cansei de olhar pra sua cara por hoje — resmunguei, dando um passo pra frente.

Ela soltou uma risadinha.

— Nossa, como você tá carinhosa.

— Anda. Sai daqui — apontei pra porta com o queixo, irritada.

Ela riu mais alto, como se tivesse acabado de ouvir a melhor piada do ano.

— Calma aí, eu ainda nem me despedi da nossa filha.

— Tipnaree... — murmurei, com o tom mais ameaçador que consegui reunir no corpo.

— Rachanun... — ela respondeu na mesma moeda, me testando.

Bufei com força, já cansada daquela palhaçada. Fui até ela e empurrei o corpo dela com as duas mãos, firme, sentindo os músculos sob a camiseta dela, o calor da pele, o perfume que eu ainda lembrava mesmo sem querer. Ela saiu rindo, tropeçando levemente, até que finalmente consegui colocá-la do lado de fora da porta.

Ela me olhou com aquele falso olhar magoado, os lábios se contorcendo num sorriso meio debochado, meio encantador.

— Então vai ser assim? — perguntou com aquela malícia de sempre, os olhos dançando nos meus.

Eu tampei a entrada com os braços, o corpo inteiro tentando manter distância, mesmo com o coração completamente em conflito.

— Vaza daqui, Weerawatnodom — falei entredentes.

Ela apenas riu, como se eu tivesse acabado de declarar amor eterno.

Estalou a língua no céu da boca e virou de costas.

— Boa noite, Film — murmurou, e desapareceu escada abaixo.

Fiquei parada ali, no batente, com o coração acelerado, os braços cruzados e uma vontade absurda de bater, ou beijar, aquele maldito rosto perfeito.

Mas só fechei a porta devagar. Com o coração batendo alto demais.

E o gosto agridoce de uma raiva que, no fundo, nunca foi só raiva.

Continua...