Chapter Text
O cheiro de poeira e sangue impregnava o ar abafado do armazém de roubos.
Felt recuou até que suas costas colidissem com o balcão de madeira velha, os pulmões ardendo, as pernas trêmulas. No chão, o Velho Rom gemia, o peito robusto manchado de vermelho, segurando uma ferida profunda.
Diante delas, a silhueta graciosa e letal de Elsa Granhiert parecia dançar sob a luz pálida da lua que filtrava pelo teto quebrado. A lâmina de sua adaga curva brilhava, banhada em sangue fresco.
— Que expressões deliciosas... — Elsa sussurrou, os olhos brilhando com um êxtase doentio enquanto dava mais um passo à frente. — Eu me pergunto como serão as entranhas de uma garotinha tão rápida quanto você.
Ao lado de Felt, a garota de cabelos prateados — que se autodenominava Satella, embora Puck já tivesse alertado sobre o perigo daquele nome — tentava erguer uma barreira de gelo com as mãos trêmulas. O grande espírito flutuava ao seu lado, os pelos eriçados e a expressão séria, mas a energia de ambos estava no limite. O fim era inevitável. Felt fechou os olhos, esperando o fio gélido da lâmina.
BAM!
As portas pesadas do armazém foram escancaradas de um só golpe, voando para os lados com um estrondo que ecoou por todo o casebre.
Felt abriu os olhos abruptamente. Parado no limiar, banhado pelo luar, estava um homem de cabelos ruivos flamejantes e olhos azuis cristalinos. Trajava o uniforme branco imaculado da Guarda Real. Era o Santo da Espada, Reinhard van Astrea. A personificação viva da perfeição e da salvação.
Mas ele não estava sozinho. E foi aí que o ar na sala congelou de verdade.
Andando um passo à frente dele, com uma calma que beirava o insulto, estava uma jovem. Ela vestia trajes escuros, quase sombrios, e tinha cabelos pretos curtos. Seus olhos, no entanto, eram o que mais chamava a atenção: eram opacos, sem brilho, carregando uma exaustão tão profunda e monumental que pareciam os olhos de alguém que já havia assistido ao fim do mundo centenas de vezes.
Reinhard, o homem mais forte do mundo, não desembainhou sua espada. Ele apenas se posicionou ligeiramente atrás dela, os braços cruzados, agindo como uma muralha silenciosa. Uma gaiola viva.
Elsa parou o ataque instantaneamente, estreitando os olhos, a guarda ligeiramente elevada diante do Santo da Espada.
— Ora, ora... o Santo da Espada em pessoa? — Elsa sorriu, embora a tensão em seus ombros fosse evidente. — Veio me prender?
A garota de cabelos pretos deu mais um passo à frente, ignorando completamente o perigo da lâmina de Elsa. Ela soltou um suspiro exausto, massageando as têmporas.
— Não temos tempo para isso, Elsa. Guarde as adagas — a garota falou. Sua voz não tinha ódio, malícia ou arrogância de vilã. Tinha apenas a apatia mecânica de quem estava seguindo um roteiro decorado. — Eu não vim aqui para ver o Reinhard quebrar os seus ossos. Eu vim aqui para te fazer uma proposta de negócios. Quero contratar você e sua irmã, Meili.
O sorriso no rosto de Elsa vacilou. A menção ao nome de Meili fez a Caçadora de Entranhas recuar um passo milimétrico, as pupilas se contraindo.
— Uma proposta?... E como você sabe sobre…
— Eu quero a ajuda de vocês para matar algumas pessoas — a garota continuou, interrompendo-a sem a menor cerimônia, os olhos fixos nos de Elsa. — E, em troca, nós vamos ajudar vocês duas a realizarem o seu maior desejo. Nós vamos matar a "Mamãe". Vamos arrancar a cabeça da líder da guilda dos assassinos, a Capella Emeralda Lugnica, a Arcebispa da Luxúria. —
O silêncio que se seguiu foi absoluto e sufocante.
As adagas nas mãos de Elsa tremeram perceptivelmente. A faceta de assassina psicopata e imperturbável desmoronou em um piscar de olhos. O terror genuíno misturou-se à perplexidade em suas feições. Elsa, que segundos atrás parecia uma deusa da morte imparável, agora parecia uma criança encurralada diante de um monstro incompreensível.
— Quem... quem é você?! — Elsa perguntou em voz alta, a voz perdendo a compostura, quase falhando de pavor. — Como você sabe disso?! Como sabe sobre a organização?! Como sabe sobre ela?!
A garota de cabelos pretos a encarou por alguns segundos em silêncio. Então, ela endireitou a postura, permitindo que uma aura sutil, mas pesadíssima, emanasse de seu corpo.
— Meu nome é Subaru — ela disse, pronunciando o próprio nome pela primeira vez. Ela olhou diretamente nos olhos trêmulos de Elsa. — E eu sou aquela que carrega o título de Arcebispa da Inveja do Culto da Bruxa.
Se a menção à Capella havia desestabilizado Elsa, a revelação de Subaru dropou uma bomba atômica dentro daquele armazém.
— Arcebispa da Inveja...?! — Emilia arquejou, recuando até que suas costas bateram na parede de madeira. Seus olhos violetas estavam arregalados em puro terror. O preconceito, o medo e o tabu que cercavam a Bruxa da Inveja e com quem Emilia passara a vida sendo dolorosamente comparada, materializaram-se ali, na sua frente, na forma de uma seguidora real. Ela abraçou o próprio corpo, tremendo visivelmente.
Ao seu lado, Puck manifestou-se imediatamente. O pequeno gato flutuante cresceu ligeiramente em tamanho, seus pelos eriçados como agulhas, e uma pressão congelante começou a emanar dele.
— Uma Arcebispa?! Emilia, saia de perto dela agora! — Puck rugiu, os olhos brilhando em puro instinto assassino ao sentir o cheiro avassalador da Bruxa exalar de Subaru.
No entanto, antes que Puck pudesse conjurar uma única estaca de gelo, Reinhard van Astrea moveu a mão direita. Ele apenas descansou os dedos sobre o punho de sua espada, a Reid. Não desembainhou a lâmina, mas a aura esmagadora do Santo da Espada expandiu-se pelo recinto como uma onda de choque, anulando instantaneamente a pressão mágica do Grande Espírito. O olhar de Reinhard para Puck foi gélido e absoluto. O aviso implícito era claro: Dê um passo e você morre.
— O Santo da Espada... protegendo o Culto? — O velho Rom sussurrou do chão, a voz rouca cheia de incredulidade e horror. O gigante veterano, que já havia visto os piores horrores da Guerra Civil de Lugnica, segurou o ombro de Felt com uma força quase dolorosa, puxando a garota para trás de si. — Felt... não respire alto. Não faça nenhum movimento. Essa garota... é uma monstruosidade viva.
Felt estava paralisada. Ela não entendia de política ou do Culto da Bruxa, mas o terror nos olhos de Rom, de Emília e da própria Elza dizia tudo o que ela precisava saber. O mundo parecia ter virado de cabeça para baixo. O herói do reino estava agindo como o guarda-costas pessoal de uma líder terrorista.
No centro da sala, Elsa olhava de Subaru para Reinhard. O choque em sua mente era uma tempestade. Ela sabia o quão invencível e monstruosa era a "Mamãe". Mas diante dela estava uma Arcebispa que sabia de todos os seus segredos, escoltada pelo homem mais forte do mundo. Era uma loucura. Uma insanidade absoluta.
E, no entanto... no fundo daqueles olhos sádicos de Elsa, um brilho doentio e inédito de esperança começou a surgir. A perspectiva de ser verdadeiramente livre da dor e das garras de Capella.
Elsa engoliu em seco, abaixando lentamente as adagas, embora suas mãos ainda tremessem.
— Matar a Capella... — Elsa sussurrou, a voz recuperando uma pitada de sua cadência habitual, mas ainda marcada pelo respeito temeroso. — Se o Santo da Espada e a Arcebispa da Inveja estão oferecendo a cabeça daquela criatura... eu seria uma péssima profissional se recusasse um contrato desses.
Subaru apenas assentiu levemente, sem demonstrar comemoração, como se já soubesse exatamente qual seria a resposta desde o início.
— Ótimo. O show acabou — Subaru disse, virando-se de costas. — Reinhard, limpe o Velho Rom, cuide de suas feridas e as da Emília depois tire todos daqui. Enquanto isso Elsa, eu quero que pegue a Meili na casa que a escondeu do outro lado da favela. Vamos nos reunir na Mansão Astrea. Temos muito o que conversar.
Com a aceitação do contrato profano e o silêncio aterrorizado dos sobreviventes, o destino de Lugnica começava a ser reescrito sob o teto da casa do Santo da Espada.
