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São Francisco.
O último dia do verão mais quente do ano estava chegando ao fim. A propriedade dos Sinclair se localizava no meio de um enorme terreno cercado por mato, areia e terra seca. Não havia muitos vizinhos, pois aquela área era destinada exclusivamente aos Lobos, a menor parcela na população. Estes ficavam em moradias afastadas umas das outras para evitar que os uivos e caça atraíssem os Lobos que não são de sua alcateia.
Todos os moradores em um raio de sete quilômetros haviam se recolhido aos seus aposentos. A única pessoa do lado de fora era uma adolescente de dezoito anos, deitada debaixo do alpendre da casa dos Sinclair.
Era uma garota branca de cabelos louros, com mechas coloridas em misturas de azul e rosa nas pontas, de pés sujos e descalços, vestida com um short cinza brim e uma camiseta lilás larga de algodão com a estampa do álbum de estréia ”Sour”, de uma das suas cantoras favoritas. A aparência de Enid Sinclair pouco agradava os vizinhos e sua família, que eram do tipo que achava que devia haver uma punição àqueles Lobos que se submetiam às tentações mundanas que desviavam do caminho da licantropia. Mas como ela se escondera debaixo do alpendre, logo atrás do batente que separava a casa do terreno, ela estava invisível para quem quer que passasse na rua naquele horário da tarde.
As únicas maneiras que alguém podia encontrá-la era se algum indivíduo da casa dela metesse a cabeça pela janela da sala de estar e olhasse para o chão do alpendre, ou se alguém saísse/entrasse na casa.
Não era nenhum segredo, afinal de contas. Até porque toda a família tinha noção de que desde sempre Enid se escondia lá. E estavam todos satisfeitos com isso. Ninguém estava olhando para ela, ou gritando, ou brigando. Ela só sentia falta de seu celular.
Contudo, a sua paz não durou tanto. Quieta, a loira ouviu dois pares conhecidos de passos arrastados pela calçada do lado de fora da casa.
Pararam por um segundo.
O portão da cerca de paus que limitava os terrenos da propriedade dos Sinclair rangeu duas vezes. Uma vez abrindo, e outra vez fechando. Em seguida, o som agudo da corrente sendo amarrada num pau e passos novamente.
Os irmãos de Enid subiram a pequena rampa do alpendre para adentrar a casa.
A garota viu primeiro Edric, seu irmão mais velho de vinte e dois anos. Um homem alto corpulento de cabelos louros raspados, barba por fazer, o peito nu, braços e pernas cobertos de pelos e tingidos de sangue, vestido com uma bermuda jeans cinza velha e suja de areia e, claramente manchada de sangue, pendurada abaixo dos quadris, expondo a barra da cueca. Um Lobo Beta querendo ser alfa machão, o mais violento e expressivo dos três irmãos.
Ele olhou para a irmã deitada no chão e riu debochado. “Tu só tem essa blusa da Olivia Priquito, é?” Disse, venenoso.
Enid virou o rosto tão rapidamente para longe do olhar dele que sentiu torcicolo, pousou as mãos contra a barriga e torceu o tecido da camiseta, escondendo o rosto da ídola. Já havia se tornado natural que Enid o odiasse tanto.
Edward veio logo atrás. Era gêmeo idêntico de Edric, mesma altura, mesmo corte de cabelo, mesmo rosto, mesmo corpo e mesmas vestes sujas de areia e sangue. Este, no entanto, possuía um talho no rosto na vertical que ia da bochecha até o meio da testa feito recentemente. Ele era do tipo de irmão mais velho que, se Enid fosse agredida por alguém, este seria o causador.
Ele segurava duas carcaças de animais em uma mão só. Enid não virou o rosto para ver o que era, mas pelo cheiro muito forte de sangue, ela tinha certeza que o irmão estava segurando dois patos pelo pescoço.
Quando caçavam, Edric e Edward geralmente faziam muita bagunça e destruíam boa parte das presas, deformando os animais a ponto de parecerem mais ter sido brutalmente assassinados por uma serra elétrica desgovernada do que por dois jovens lobisomens. No chão, formava-se um rastro de gotinhas de sangue que seguia por onde o homem passava.
Ele subiu o alpendre e passou pela garota deitada no chão, ignorando-a completamente, abriu a parte de baixo da porta holandesa que agora se encontrava escancarada, passou e adentrou a casa com o outro gêmeo atrás.
O peito de Enid estava cheio de raiva, queria sair daquela casa o mais rápido o possível. Seu único alívio era ter noção de que o dia já estava para terminar e amanhã mesmo pegaria o trem para voltar para Jericho e morar em Nevermore por mais seis meses.
Estava louca de saudades dos seus amigos, e poderia até aliviar um pouco se pudesse conversar com alguns deles agora, mas Enid estava de castigo sem o seu celular.
A noite começou a cair.
As costas da loira já estavam muito doloridas de ficar no chão de barro por tanto tempo e tinha deixado de almoçar à tarde, então estava faminta.
Enid ouviu passos conhecidos na calçada de novo e se ergueu rapidamente com o som, consequentemente fazendo sua cabeça doer e sua visão ficar turva pelo movimento brusco. Mas ela não ligou. Murray Sinclair estava atravessando a cerca de paus e adentrando a casa, finalmente chegando do trabalho.
Enid levantou do chão. “Pai!” Chamou, a voz saiu rouca devido à garganta seca.
Murray subiu a pequena rampa com um pequeno sorriso esticando os lábios. “Oi, menina.” Disse, com um leve aceno de cabeça. Assim que pisou no chão do alpendre, foi levemente lançado para trás com o forte abraço da filha. “Tudo bem contigo?”
A loira respirou bem fundo, sentindo seu coração pesar a cada segundo que mantinha o pai agarrado contra o próprio corpo. Por fim, ela o afastou e o encarou nos olhos, tentando não surtar de ansiedade. “Pai, o senhor consegue pegar o meu celular? A mãe tomou de mim.” ela implora, olhando para o homem por debaixo dos cílios com extrema dificuldade. O lobo dentro dela rosnou com esse gesto de submissão, mas Enid ignorou.
“Aprontou de novo, foi?” Murray estalou a língua e desviou o olhar da filha, voltando a andar em direção a porta. “Vou ver” murmurou com incerteza.
Um dos pés de Enid começou a doer, só então ela percebeu que estava pisando repetidamente contra o chão de barro com força. Parou de se mover e olhou para a sola do pé descalço, machada de sujeira e avermelhada das batidas. Por sorte não pisou no sangue.
A loira olhou brava para a lua minguante no céu e culpou-a mentalmente, jurando que a ansiedade era sua culpa mesmo que o satélite não estivesse na sua fase de auge para os Lobos naquela noite.
“Passa pra dentro.”
Enid desviou o olhar da lua e virou na direção da voz. Esther Sinclair estava parada na soleira da porta — agora escancarada em cima e embaixo — apontando para dentro da casa, observando a filha imóvel com desdém.
“Tá surda, menina? Passa pra dentro.” Insistiu a mulher, apertando os olhos.
A garota entrou em casa arrastando os pés, escondendo as mãos nos bolsos do short. Assim que passou, Esther fechou as duas metades da porta e caminhou rápido para o corredor lateral que terminava na cozinha. Enid estava com fome, contudo, o lobo dentro dela insistia em manter-se rancoroso com a família, preferindo lidar com a vontade a ter que esperar pelos restos.
Mas ainda queria o seu celular, e só quem podia resolver isso era Murray.
Enid caminhou até a cozinha com as mãos ainda enterradas nos bolsos com a postura retraída de quem estava visivelmente desconfortável.
O ar do cômodo cheirava a destroços de pato. Esther encontrava-se terminando de depenar o segundo corpo, enquanto Edric e Edward escolhiam os membros da primeira ave — já tratada — que iriam comer. O bico, olhos e dedos desta foram arrancados e seu tórax estava aberto, coberto de sangue e com o pescoço amassado ainda preso ao corpo. Para os Lobos doutrinados, a carne caçada não podia ser temperada com nada. Apenas Alfas podiam consumir carne temperada, com no máximo, limão e sal sem ser castigados pela lua.
Encontrou o pai esperando a mulher terminar de tratar a outra presa e conversando alto com os outros filhos. O cheiro da carne fazia o estômago dela revirar faminto, contudo, o ódio falava mais alto.
Quando o homem pousou o olhar na garota, sustentou por alguns segundos antes de virar para a esposa, em seu outro lado. “Esther, em nome da lua, devolve o telefone dessa menina.” Ele mandou. Ela não podia recusar.
Em silêncio, a mãe de Enid abriu uma das prateleiras altas da cozinha e pegou o celular escondido ao lado dos pratos de vidro âmbar, e sem olhar nos olhos da filha, ela estendeu o aparelho em sua direção. A loira tomou o celular da mão da mulher em um movimento ligeiramente brusco e deu as costas, voltando pelo mesmo caminho que fez para chegar na cozinha e deixando sua família para trás.
Enquanto caminhava em direção ao seu quarto, Enid respirou fundo para tentar se acalmar. Aquela mistura de sentimentos ruins consumia cada vez mais uma vontade louca de pegar as malas e sair correndo daquele lugar sozinha, mas preferia não seguir esse impulso.
A fera dentro do corpo dela também estava dando as caras por tempo demais. Enid precisava de muito autocontrole para não se transformar, sabendo que não dependia da lua cheia para aquilo.
Quando chegou, a loira girou a maçaneta e atravessou o aposento, fechando a porta atrás de si. O quarto dela não estava mais tão decorado como costumava ser, porque sempre que ela voltava de Nevermore, sua mãe jogava fora todos os pôsteres, adesivos, fotos, pelúcias ou qualquer outra coisa que remetesse ao mundo dos Normies do quarto dela. Com o tempo, Enid se cansou de sempre ficar decorando de novo e de novo. Preferia investir sua criatividade e atenção para o seu dormitório em Nevermore, o único lugar do planeta que ela verdadeiramente se sentia em casa, porque lá ninguém reclamava por ela ser quem é.
Só Wednesday, no começo.
Quando a vidente chegou na escola e se tornou sua colega de quarto, Enid teve que aturar suas reclamações por um tempo pelo atrito que começou entre elas por acharem ser o extremo oposto uma da outra. No passado, a loira até levou aquilo a sério e foi pessimista com a ideia de que elas iriam dar certo juntas, até ela perceber que Wednesday reclamava de tudo que tinha a audácia de existir sem uma avaliação dela primeiro, não só da explosão arco-íris que a loira era. Demorou bastante para que Enid percebesse que todo esse tempo de estresse era por conta da adaptação, Wednesday não era a melhor pessoa do mundo para lidar com mudanças de rotinas severas como aquela e o fato de ter sido inserida em um espaço que ela seria forçada a interagir com outras pessoas acabou piorando bastante o bem-estar dela lá.
Durante todo esse período de estresse, Enid passou a parar de dar moral pra exatamente tudo o que ela dizia e passou a só pensar: “vai, chata, fala, chata”, entendendo que aquele era só o jeito da colega, e depois que elas começaram a se aceitar, tudo ficou bem.
Atualmente, Enid amava Wednesday ao ponto de ser perdidamente apaixonada por ela, mas ela era só sua amiga e pretendia manter assim mesmo.
Enid se deitou de costas em sua cama e desbloqueou seu celular, rindo baixo pelo nariz. “Chata.” Murmurou. A lembrança fez seu peito apertar de saudades, ela queria estar em Nevermore agora para ouvir Wednesday reclamando até do vento.
Quando pousou os olhos na tela do aparelho, viu que o aplicativo de anotações estava aberto na nota que tinha uma sequência curta de números aleatórios. Em questão de segundos, seu olhar se iluminou de esperança, lembrando-se de que antes de partirem de férias, Wednesday havia entregado o número do telefone fixo de seu quarto, lá da mansão dos Addams do outro lado do estado.
Enid clicou e segurou no número na tela, e numa fração de segundos, a opção de ligar apareceu.
Mas e se ela estivesse ocupada? Lendo, dormindo, ou se não quisesse conversar?
A loira levantou da cama e caminhou até a única janela do quarto e se sentou no chão atrás dela, porque alí o sinal do interior era melhor.
Sentiu seu coração acelerar e errar as batidas quando se deu conta do som de telefone chamando. Ela nem sequer percebeu quando tinha clicado no botão de ligar. Seu estômago apertava a cada bipe, mas não era mais a fome, ela estava ansiosa e sabia disso.
Os bipes pararam.
“Alô?” A estática voz baixa e calma de Wednesday Addams veio do aparelho.
O estômago da loira embrulhou com força e, com cautela, colocou a mão livre sobre a barriga para estar atenta a qualquer reflexo. Respirou fundo duas vezes antes de responder, ouvir a voz da gótica depois de tanto tempo era como se as borboletas em seu estômago estivessem lutando pela vida umas contra as outras. “Oi, princesa. É a Enid.” Encostou o celular no ouvido.
“Alô?” Wednesday chamou outra vez.
“Oi, Wednesday, tá me ouvindo?” Enid levantou do chão — se arrependendo instantaneamente, porque ela levantou tão rápido que sua visão ficou turva. — e virou para a janela para apoiar-se sobre ela. Talvez o sinal estivesse fraco e a morena apenas ouvia sua voz em fragmentos do outro lado da linha.
“Alô?” A voz da gótica repetiu do outro lado.
“Wednesday?” Enid chamou outra vez, testando a comunicação naquele lugar.
Houve um breve silêncio em questão de poucos segundos antes da morena do outro lado da linha responder em um tom consideravelmente mais suave do que estava usando antes: “Enid?”
“Sou eu! Tá me ouvindo?” Enid não conteve um pequeno sorriso com seu sucesso.
“Agora estou. Imaginei que no seu interior não havia sinal de telefone.”
Enid negou com a cabeça e deu uma risadinha nasalada. “Não que isso não seja verdade, mas também não é tão ruim assim.”
“Por que me ligou só agora? Há tanto tempo que dei o meu número a você.” Wednesday pergunta do outro lado da linha.
O sorriso de Enid morreu aos poucos e ela soltou um suspiro curto. “Fiquei de castigo sem celular porque eu bati no meu irmão.”
“Como isso aconteceu?” Wednesday não pareceu surpresa.
“Hoje mais cedo, eu estava arrumando as minhas coisas pra voltar pro colégio amanhã, daí o Edward veio e começou a falar merda sobre mim pra minha mãe porque ele viu aquele bottom da bandeira lésbica na minha mochila.” Enid passou a mão livre pelos cabelos em um gesto brusco e soltou um “ai” na mesma hora, sem perceber que suas garras estavam pra fora e acabaram cutucando seu couro cabeludo. “Enfim, ele veio querer apertar o meu pescoço pra... calar minha boca e, sei lá, não resisti e arranhei a cara do filho da puta. Tá lá a cicatriz até agora.”
“Essa sua decisão foi estupidamente impulsiva. Nós duas sabemos que você consegue se controlar melhor que isso.” A voz da vidente ponderando veio do telefone.
Enid revirou os olhos, impaciente por ouvir o que ela já sabia. “Eu sei, mas parece que quando eu estou nessa casa, tendo sempre que me submeter pra minha família, o meu lobo surta.” Ela se debruça sobre a soleira da janela e encara o terreno escuro, iluminado apenas pela lâmpada do quarto mais próximo — o dela mesma — e pela lua já alta no céu.
O som dos grilos dominou toda sua atenção auditiva. Enid continuou encarando pela janela o mato barulhento e movimentado por conta da ventania das sete da noite, o ar levemente gelado que batia na sua pele fazia os pelinhos de seus braços se eriçarem.
Resmungou na mesma hora e se afastou um pouco da grade da janela. Seu lobo não gostava da sensação de frio.
“Enid, você me ouviu?” A voz ligeiramente mais alta de Wednesday voltou a dominar sua atenção.
Enid piscou. “Desculpa, linda. Não te ouvi.”
Um sopro pequeno ecoou do outro lado da linha e Enid controlou o tamanho do próprio sorriso ao imaginar o bico que a morena estava fazendo por ter falado algo em vão. “Sua família sabe que você é uma Alfa?” Pela ligação, Wednesday quebra o silêncio.
“Claro que não.”
“Por que não contou?”
“Se eles não me aceitam lésbica, quem dirá Alfa. A cabecinha deles vai explodir quando souberem que, na crença deles, eu sou mais forte e essas besteiras... Mas acho que eles sentem o cheiro do Alfa, sei lá.” Enid dá de ombros.
“Mas e nas luas cheias?” Da ligação, Wednesday pergunta.
“Não tô me transformando, aquele exercício de respiração que a Capri passou é muito bom. Eles nunca nem viram meu lobo, não quero que eles vejam o tamanho daquela coisa nunca.” A loira nota que suas garras estavam pontudas de novo e começa a brincar de retrair e sacar distraidamente, observando o esmalte de cada uma das unhas se esticando e diminuindo.
Ninguém fala nada por um instante. Os grilos continuam estridulando no terreno lá fora e algumas aves passam no céu. Enid as reconheceu pelo cheiro. Era um grupo de bacuraus, os passarinhos da noite.
“Você seria livre aqui.” A voz suave de Wednesday tirou Enid dos devaneios outra vez.
Enid deu um sorriso pequeno, sentindo suas bochechas queimarem levemente com aquele gesto de consideração. “Eu sei. Minha mãe até me deixou ir, mas se eu fosse, era capaz de ela não me deixar pisar aqui de novo.”
“Sua mãe autorizou em sã consciência? Impressionante.” A morena debocha do outro lado da linha.
Enid sorri. “Ela disse que eu podia ir até pra puta que pariu que ela não iria dar a mínima”
Houve silêncio por um momento, que logo foi quebrado por um suspiro leve e bem baixinho semelhante a um risinho nasalado do outro lado da linha.
Sério? Wednesday riu disso mesmo?
Enid deu uma risada baixa e satisfeita, contente por ter ouvido Wednesday rir pela primeira vez em dois anos, mas não iria comentar ou fazer festa daquilo. Talvez a melhor decisão fosse levar aquilo naturalmente, mesmo que por dentro, aquele pequeno som tinha feito a noite dela maravilhosa independente de todas as desgraças do dia. O lobo dentro dela alegrou-se, forçando o seu instinto lupino a produzir mais e mais dopamina. O prazer da felicidade começou a correr pelo corpo da loira por conta daquele som baixo, só de pensar em Wednesday contente fazia o lobo querer ficar perto dela, consequentemente, fazendo a saudade piorar.
“Pois é… Queria muito ter passado as férias com vocês.” Enid fica ereta novamente, suas costas doloridas começaram a reclamar devido a posição que ela estava.
“Agora mesmo estaríamos aqui no meu quarto, eu queria te mostrar a rapieira que chegou essa semana.” Do outro lado da linha, a voz de Wednesday soou com uma precisão perceptível, como se cada palavra que saísse da sua boca fossem muito importantes.
“Tu comprou uma espada nova?”
“Comprei. Ela é comprida e estreita, porque seu principal foco é estocadas. A lâmina dela…” Um som de farfalhar ecoou do outro lado da linha, seguido de passos e por fim, uma porta abrindo. “...é fina e bem flexível. O punho dela possui uma guarda estruturada de metal para proteger a mão, igual uma cesta.” Um som de atrito de metal ecoa bem baixo, mas Enid ouve mesmo assim. “A distribuição do peso dela é diferente de todas as outras que eu tenho, que são pesadas na parte da lâmina. Essa aqui, não. Precisa de mais controle no pulso do que da força propriamente dita.”
“Tipo uma agulha gigante?” Enid apoiou os cotovelos na soleira da janela, segurando o queixo com a mão livre. Um silêncio pesado se instaurou por um instante, então ela pensou que o sinal da ligação tinha enfraquecido. “...Alô?” Ela chama.
“Nunca mais diga uma blasfêmia dessas.” Pela chamada, Wednesday responde com um tom ofendido. “A lâmina tem um metro e é bastante fina, de fato, mas não é frágil como uma agulha. O corpo dela não entorta ou quebra fácil.”
“É porque, quando eu imagino uma espada, vem logo na cabeça aquela arma medieval, sabe? Ou então uma katana, são só as que eu conheço.”
Wednesday não falou de imediato. Enid imaginou que ela estivesse pensando em um exemplo. “É uma espada parecida com aquelas de esgrima, que você já conhece.”
A imagem da espada se formou em sua imaginação com as descrições que a amiga tinha dado, de fato, batia bastante com algo parecido com aquelas espadas de esgrima. “Agora eu entendi” Enid inclinou a cabeça de lado e riu. “Se você se permitisse ter um celular, poderia me mandar uma foto dela.”
“Não. Eu preferia te mostrar minhas espadas pessoalmente.” Pela ligação, Wednesday começa a falar ao mesmo tempo que uma porta se fecha. “Inclusive, eu consegui um pendrive do volume um de Kill Bill que mencionei, então não esqueça de colocar seu notebook na mala. Se você esquecer de novo e me fizer ficar entediada na viagem, eu te jogo pela janela do trem.” Enid ouve passos do outro lado da linha, e por fim, aquele som de farfalhar novamente.
“Ah, é! Vou colocar agora, senão, eu esqueço” Enid se afasta um pouco da janela, só o suficiente para alcançar o notebook desligado na escrivaninha para a ligação não cair. “Mas esse não é pesado, né? Ainda não superei o filme d’O Exorcista.” Ela se agacha perto do pé do móvel, abre o maior zíper de sua mochila e guarda no compartimento para notebook.
“Você é uma criança assustada. Passou três noites dormindo de luz acesa.” Wednesday debocha do outro lado da linha.
A loira se ergue novamente e volta para o mesmo local que estava “Me dá um crédito, eu aguentei assistir até o final.” Ela observa o céu escuro da noite. A lua agora se encontrava mais alta.
“A propósito, está tarde. Você não deveria ir dormir?” A voz suave de Wednesday sai do telefone, como se também pudesse ver a lua de onde estava.
“Sem sono, mas bem que eu queria pelo menos deitar na minha cama” Enid olha pra trás, vendo o seu colchão inteiramente bagunçado com vários tipos de roupas, lençóis e outros objetos espalhados. “Já faz um tempão que eu tô em pé…”
“Por que não deita?”
“Se eu sair daqui, é provável a ligação cair.”
“Engraçado que tudo dá errado pra você.” Wednesday brinca, debochando em um tom carregado de sarcasmo.
Enid começa a rir, tendo que se segurar por um instante com as duas mãos na soleira da janela. “E você, já está deitada?” Disse alguns segundos depois.
“Não. Estou sentada no chão.”
A loira franze levemente o cenho. “No chão? Por quê?”
“A Mansão está cheia hoje” Do outro lado da linha, Wednesday começa a explicar. “Meus parentes vieram. Há muitas pessoas falando ao mesmo tempo e pouco espaço pra ficar sozinha. Comecei a sentir meu corpo pesado por conta do estresse e o chão é uma estrutura plana perfeita para se apoiar.”
“Você não faz isso quando se desregula em Nevermore” Comenta Enid. “Vivemos praticamente o dia todo com gente barulhenta ao nosso redor.”
“Ainda tenho filtro social” Wednesday mantém a voz neutra do outro lado da linha. “Ainda.” Ela repete.
“ ‘Ainda’ “ Enid dá risada. “Tá melhor?”
“Sim. O chão reduz a sensação de instabilidade. Não tem como… Cair do chão.”
“E você está usando telefone fixo… No chão?”
“Ele não é grudado na mesa, Enid. Se eu quiser, eu posso colocar onde bem entender.”
“Nossa!” Enid dá uma risada alta, fazendo seu corpo se curvar para frente. “Pra quê essa ignorância, Wednesday? Se for me engolir, começa por baixo.”
“Como assim?”
Enid controla o riso, sabendo que Wednesday tinha dificuldade para compreender certos tipos de trocadilhos. “Nada, não, linda.”
“Prefiro um telefone fixo do que carregar um retângulo luminoso no bolso o tempo inteiro.” Wednesday respondeu com a maior naturalidade.
“Um celular facilita muito sua vida, tá bom? É muito mais fácil enviar uma mensagem.”
“É possível enviar mensagens por cartas também.”
Enid passou as garras de leve pela borda da soleira da janela. “Em que hipótese uma carta seria mais eficiente que um celular?”
“No seu caso, não. Consigo imaginar você escrevendo cartas cheias de glitter e adesivos.”
Enid brincou sem medir as palavras antes que elas saíssem de sua boca. “Vou enviar uma carta pra você com adesivos de corações e pétalas de rosas.” Disse, com um sorriso de orelha a orelha.
“Me parece a descrição de uma carta de amor.” Wednesday responde naturalmente do outro lado da linha.
Eita, porra.
O sorriso de Enid morreu e um silêncio se instaurou na chamada. A loira sentiu o próprio rosto esquentar e fincou as garras na janela pela surpresa, aquelas palavras tinham saído tão naturalmente que só depois percebeu o que tinha dito.
Ela ficou em silêncio por um instante, sem saber exatamente como continuar a conversa sem acabar acidentalmente se expondo mais. “E-Eu…” Ela engole em seco. “Eu não quis dizer…” Parou de falar, o que exatamente ela não queria ter dito? Cada resposta que se passou pela sua cabeça parecia ser uma pior que a outra.
“Não quis dizer o quê?” Wednesday perguntou em um tom neutro, alheia a situação. “Seria interessante analisar o seu estilo epistolar romântico.”
Enid deixou o celular de lado por um momento para esconder o rosto nas mãos. Por enquanto, ela guardaria aquela pequena vergonha só para si, então resolveu brincar com a situação. “Você sabe…” Disse ela, tentando soar casual. “Se eu realmente escrevesse uma carta de amor, ela seria bem genuína.”
Wednesday não responde de imediato, o que fez o estômago de Enid revirar um pouco de ansiedade. Será que agora ela passou da linha?
“Agora você parece estar tratando a ideia com uma seriedade incompatível com uma piada.”
Puta que pariu.
O coração de Enid deu um salto. Sim. Ela foi longe até demais agora. Seu rosto começou a queimar e seu lobo voltou a dar as caras, fazendo-a sentir a vergonha se manifestando por seu corpo com ainda mais potência. “Preciso parar de falar antes que eu me humilhe mais.” Ela sussurra com o tom mais neutro que conseguiu, sem controle da própria boca.
Wednesday suspirou de leve. “Por um segundo eu imaginei que você estava flertando comigo.”
“Não me leve tão a sério.” A loira responde a primeira coisa que vem à sua mente, dando uma risada forçada logo após e se arrependendo daquele assunto a cada segundo.
A vidente demorou para responder. Em um tom baixo, finalmente ela falou: “... Está bem.”
Enid subestimou a dificuldade da amiga em interpretar nuances sociais e esqueceu de se atentar ao limite. Não que Wednesday compreendesse tudo de cara, mas ela não era estúpida. Ela era ótima com linguagem corporal e percebia padrões de comportamento facilmente.
Enid quem acabou falando demais, deveria ter parado com aquilo enquanto ainda tinha tempo.
Envergonhada e sem saber o que fazer, a loira não controlou as palavras que saíram da boca. “Pois, tá bom… Amanhã a gente se vê, vou dormir.” Não iria.
“Até.”
Enid encerrou a chamada.
Por dois segundos, ficou completamente imóvel. Então, lançou o celular para trás sem nem ver onde havia jogado. “Porra!” Murmurou, frustrada. Ouviu o farfalhar do aparelho caindo sobre o colchão da cama, mas ela pouco se importou.
Quem, no mundo, em sã consciência e com total controle da própria boca, diria na cara da pessoa que amava que faria uma carta de amor para ela?
Wednesday sequer teve alguma reação sobre isso.
Enid virou as costas para a janela. “Porra!” Seus joelhos cederam e ela se apoiou sobre a parede, sentada no chão e abraçada às próprias pernas.
Suas garras longas cutucaram a pele da suas panturrilhas, provocando uma ardência na área.
Cutucou uma, duas, três vezes.
As garras ficaram e atravessaram o tecido da pele e furou, a ardência virou dor e Enid sentiu cheiro de sangue.
Wednesday não estava mais em sua mente, pelo menos. Agora ela precisava lavar aquilo.
A loira levantou do chão e atravessou o quarto a passos rápidos, passando pela porta e por alguns cômodos antes de se aproximar da porta do banheiro da casa.
Encontrou a mãe.
“Vamos, menina!” Esther disse alto, parada em frente a porta do banheiro, batendo com força na madeira velha. “Seu irmão quer tomar banho, essa casa não é só sua!”
Aparentemente percebendo outra presença, a mulher virou a cabeça para o lado e olhou nos olhos da filha com desdém e uma leve surpresa.
“Sou eu, mãe.” A voz grogue de Edric ressoou de dentro do banheiro, do outro lado.
A mulher voltou-se para a porta. “Desculpe, meu bem! Pode ficar à vontade, pensei que era a sua irmã.”
O lobo de Enid uivou de ódio dentro dela e quis avançar em Esther, percebendo o perigo, ela deu as costas e correu pela casa, saindo pela porta da frente.
O terreno se estendia escuro e silencioso, a leve ventania fazia seus cabelos e demais pelos do seu corpo — que começaram a crescer sem parar — balançarem no ar.
Pulou o alpendre, deixando a cerca de paus para trás também. Suas pernas já estavam do tamanho de mesas de plástico, seus órgãos esticaram, fazendo a maioria dos ossos de seu corpo estalarem violentamente. Seus sentidos ficaram aguçados e a raiva tomou conta de cada contração muscular que se instaurou por debaixo da pele, provocando a aparição de uma fera enorme.
Caninos pontiagudos atravessaram seu queixo e todos os dentes da sua boca cresceram à medida que o nariz dela virava um focinho longo.
Quando parou de se mover, já era uma loba.
Enid disparou pelo mato. As patas enormes afundavam na terra úmida enquanto ela corria sem direção definida. Era muito mais fácil assim.
Não havia palavras e nem pensamentos completos.
Seu pai não a amava verdadeiramente, nem seus irmãos, ou sua mãe, e nem Wednesday a amava. De fato, Enid estava fadada a viver como uma Alfa e morrer sozinha.
Seu coração ainda estava acelerado, mas agora o esforço físico começava a competir com aquela ansiedade que a tanto tempo atormentava seus sentidos.
No alto, a lua minguante brilhava para a loba, e embora Enid a odiasse, sentia como se estivesse pagando por seus pecados. Quem diria, até aquela religião estúpida a atormentava agora.
A exaustão podia esperar.
Isso seria problema da Enid de amanhã.
