Work Text:
Quando lançadas no meio das pedras, onde havia pouca terra, sementes ainda germinavam. Porém, assim que o sol apareceu, murcharam, porque não tinham raízes.
Não há sol agora. A lua sumiu do céu, e uma legião de nuvens carregadas circula ao redor da casa. Chovendo ou não, a luz foi interceptada.
A luz que habita na casa de Hayden era fraca, mas ainda brilhava. Um pouco da TV ligada, um pouco da lâmpada acesa no canto do quarto.
Balthazar estava deitado na cama do melhor amigo. Despreocupado, o homem-fera brinca com um cubo mágico que o grifo tinha deixado lá.
Já Hayden, sentado de costas para a escrivaninha, observou o cabeludo por um meio segundo, que pareceu uma eternidade.
Engoliu seco, arranhando a garganta, quase estourando o celular que ele mantivera na mão.
— E aí?
O loiro sobressaltou.
— Han?
— E aí? O que ela disse?
Verdade. O que a garota da história de Hayden disse?
Isto é, qual história ele contava mesmo? Mês passado? Semana passada ontem?
— Não lembro. O namorado dela chegou e disse que ia me pegar na porrada. Fui logo avisando que só me agarro com mulher.
Balthazar estalou a língua, franzindo o cenho.
— Se ela tem namorado, por que ficar com ela?
— Porque ela é gata.
— Nunca vi você recusar paquerar uma mulher.
— Quem não gosta de tomar fora, gosta de tomar dentro.
São tantos comentários desconfortáveis que o alado solta, que Balt não sabe se são propositais ou não.
— Não me tire para depravado! Você também estava tendo um rolinho com uma garota, não estava?
— É, estava.
— Mas?
— Não rolou. Ela disse que eu era “desleixado”.
Aquila pigarreia, tentando conter a risada ainda no meio do caminho.
— Porra, desleixado?
Ele não se aguenta e começa a gargalhar de qualquer jeito.
Os olhos acinzentados de Balthazar perigosamente se suavizam.
— Cala a boca! — O cabeludo arremessa o cubo mágico na direção do amigo.
Ele apara sem dificuldades.
— Haha! O que diabos significa ser “desleixado”?
— Sei lá! Ela disse que eu era muito… muito… muito!
— Que você era “muito”? Tipo, muito grudento?
— Eu não diria grudento…
— Desleixado tipo, babar na boca dela?
— Meu Deus, Hayden!
— Ué, vai que. Você ainda é meio cachorro.
— Cachorro, cachorro. E você é uma galinha!
— Adoro quando as garotas me chamam assim.
Balthazar esfrega a própria cara, grunhindo. O cômodo fica em silêncio por aproximadamente um minuto, até que ele diz:
— Seria tão ruim assim?
— O que?
Hayden ponderou.
— Você babou na boca dela?!
— Eu não. Agh!
O loiro se levantou da cadeira e caminhou até o amigo, que escondia o rosto entre as almofadas, as orelhas baixas. Deu tapinhas naquele ombro forte.
— Vamos lá, lobinho. Sempre há uma chance dessas coisas acontecerem.
— Porra de lobinho! Isso tá me matando de vergonha.
— Além de mim, ninguém nasce sabendo beijar bem.
— Eu não beijo mal!
— Ah, sério?
Balthazar solta um som muito parecido com um choramingo.
— Eu acho que não…
— Você deveria focar mais em soprar as casas de palha. Deixa a paquera pra mim, bebê.
Hayden dá uma piscadela.
Por algum motivo, isso irrita o castanho mais do que deveria. Ele sabe que é uma brincadeira infantil, mas ainda assim é frustrante. Parece que o grifo é intocável, e até mais — incompreensivo.
— Por que você é incapaz de me ajudar?
— Que?
— Fica aí, tirando uma com a minha cara, se gabando. E eu…
— Ah, pera aí, né? Não vai dar uma de chorão agora.
— Não é ser chorão. Mas, parece que você se esforça pra me colocar na tua sombra!
— Eu te coloquei na minha sombra, porque você beija mal? — O loiro zombou.
Não é sobre beijar, nem ficar. Existe uma angústia maior que tudo isso habitando no coração de Balthazar, uma dor que começou inofensiva, quase parecida com amor.
— Porque você não aceita que eu posso fazer o que você faz!
As orelhas do homem-lobo tiritaram enquanto ele franzia as grossas sobrancelhas.
— “O que eu faço?” O que diabos isso significa?
— Sair por aí. Agir que nem um otário. Pegar quem eu quero.
Hayden soltou uma risada seca, não-humorada e ríspida. Agiu como se aquela ideia só era ofensiva demais.
Imagina se incomodar porque seu amigo fica com outras pessoas. Com homens. Seu amigo fica com homens. Porra.
— E o que você quer que eu faça, Balthazar? Vire padre, porra?
— Que você me respeitasse.
— Como eu vou te respeitar se você?
— Se eu o quê? Diz, Hayden.
Engler se aproximou lentamente. Ombros enrijecidos enquanto caminhava, passo a passo, na direção de Aquila. Aquela postura era perigosa.
O equilíbrio entre homem e besta.
— Se você é um cachorro.
Não é possível saber quem começou aquele beijo.
Lábio contra lábio, foi um encontro tão brusco que os dentes se bateram. Hayden puxou o outro, e Balthazar chiou enquanto prendia o loiro dentro dos próprios braços musculosos.
Instintivamente, uma mão grande se acomodou na lombar do grifo, basicamente embalando ele no beijo quente.
— Tá achando que eu sou mulher, porra? Tira a mão da minha bunda!
O meio-lobo murmurou, ignorando.
— Fica quietinho, fica.
Inclinando-se, ele retoma o beijo, abrindo espaço pela boca de Hayden.
O loiro retribuiu, com certa dificuldade. O ritmo frenético de Balthazar era difícil de acompanhar. O moreno fazia grande do trabalho sozinho, variando entre sugar e estalar a língua.
— Mhm… Ngh!
O beijo é separado.
— Eu preciso respirar!
Balthazar ofegou, inclinando a cabeça como um cão confuso.
— Ah, é?… — Piscou lentamente.
Parecia até meio embriagado, encostando o nariz no ombro do amigo e inalando o cheiro dele.
Hayden não desgosta da proximidade, pelo contrário. E esse é o pensamento que o perturba. Ele tem ojeriza quando concebe a ideia de realmente gostar de proximidade. Uma proximidade que pode fugir dele a qualquer momento.
Por segurança, ele vira o rosto de Balthazar de volta para a frente. Segura o rosto dele com a palma e o guia.
É diferente de um rosto feminino. Engler tem um rosto forte, maxilar largo e a textura irregular de barba que ele precisa constantemente raspar.
O beijo de Hayden é diferente. Tão inebriante quanto ele.
Mais contido, porém cheio de luxúria. O loiro sabia exatamente o que fazer, quando fazer. Devagar, ele foi tão certeiro que as pernas de Balthazar quase cederam.
O grifo riu.
— Gostou, não é? Admite que eu sou o melhor no que faço.
— E daí? Ninguém liga, Hayden.
— Pff. Tá. Você entendeu?
— Entendi o que?
— O jeito certo de beijar.
Balthazar olha pra cima, pensando. O amigo dele logo entendeu que aquilo era um não.
— Você começa devagar. — O grifo deposita um selinho na boca do homem-fera — e pode ir intensificando. Mas, é mais gostoso quando você guia.
— E se eu quiser ser guiado?
O moreno questionou.
— Bom, não é o tipo de situação que eu gosto de estar.
— Mesmo?
O meio-lobo imita Hayden. Segura o rosto dele entre as mãos e distribui beijos molhados e irregulares pelos cantos daquela boca.
A maneira lânguida que Balthazar provocou o loiro de um jeito inusitado. Um arrepio gelado correu pela sua espinha, e a saliva acumulada foi rompida com o tremor da voz dele.
— Ah!
Balthazar arregala os olhos.
Hayden arregala os olhos.
Os dois com o rosto igualmente vermelho, porque o grifo acabou de gemer.
Ele nem pensa duas vezes. Empurra o amigo num solavanco, agarra o celular na escrivaninha e grita antes de bater a porta.
— Nunca mais fale sobre isso.
Slam.
Balthazar ficou ali, derrotado. Sozinho no quarto do melhor amigo, sabia que não conseguiria encontrá-lo.
Não hoje.
E nem no próximo mês.
Realmente, eles nunca mais falariam sobre esse dia.
