Chapter Text
25 de janeiro de 2023
Não sei como começar a escrever isso, eu sinceramente nem ia escrever nada. Se não fosse os recentes acontecimentos eu não estaria sentada na frente desse computador datando o que aconteceu hoje, resolvi que vou deixar nos rascunhos, não vejo sentido em postar quando as pessoas nem sabem o que são blogs hoje em dia. Apesar disso, acho que preciso me apresentar.
Sou Jolene Watson, mas sempre me chamaram de John. Tenho 30 anos e sou, quer dizer, era uma enfermeira militar. Eu trabalhava em uma base da Polônia, mas um acidente fez eu me machucar seriamente. Apesar do meu ombro estar melhor agora, certos movimentos ainda me incomodam e ainda tem minha perna esquerda, que acabou sendo afetada também. Tenho sobrevivido com base na pensão militar, mas mesmo assim é difícil bancar os custos caros de Londres sozinha. E além dessas questões físicas tem as questões mentais, tenho feito terapia desde então e fui diagnosticada com transtorno pós-traumático, minha psicóloga me disse que eu poderia escrever, que isso ajudaria, e deu a ideia de um blog ou de um diário, eu achei ridículo, mas bem, aqui estou eu.
Na verdade, não estou escrevendo por ser um exercício que ela me passou, estou escrevendo por conta dos recentes acontecimentos que citei no primeiro parágrafo, talvez esteja meio embaralhado e estranho o que vou contar, vou tentar dar o máximo de detalhes possíveis.
Quando eu trabalhava na Polônia, eu acordava às 5:30 da manhã, e isso ficou comigo mesmo meses depois do acidente. Eu não fiz nada demais enquanto esperava o horário para ir na terapia, tomei meu café da manhã, assisti televisão e fiquei observando as pessoas da minha varanda. Meu apartamento não era grande, mas era bem feito, o que sinceramente complicou as coisas, ele era afastado do centro de Londres e o seu aluguel era bastante caro apesar disso, mas era o que tinha disponível no momento.
Uma coisa infeliz que ficou comigo, foi o grande trauma de barulhos altos, tudo na minha casa era silencioso, eu não assistia a televisão em um volume acima de vinte e meu celular sempre estava no silencioso, eu deveria agradecer pela localização do meu apartamento ser longe do centro de Londres, mas eu odiava isso. Eu fico em alerta com qualquer barulho alto, caminhões, ônibus, aviões, gritos, vidro quebrando, tudo, eu sempre estou esperando o pior.
Eu fiquei um bom tempo sentada na frente da janela, observando o pequeno movimento. Sempre estava frio nessa época do ano, era bom, mas me deixava mais em alerta do que o normal. Olhei para o meu relógio de pulso, faltava apenas alguns minutos para minha consulta começar. Me levantei lentamente e fui até o quarto, onde coloquei meu casaco pesado e uma bota, nada demais, já que eu apenas estava indo para a terapia. Não quis levar minha bolsa, apenas coloquei meu celular, chave e carteira nos bolsos da calça. Antes de sair, eu resolvi pegar um pequeno caderno que eu tinha e uma caneta. Esses eu guardei no bolso do casaco e fui.
Por conta da minha perna era difícil caminhar rápido, eu deveria usar minha bengala, mas eu me recusava a usar aquilo, preferia andar mancando.
A caminhada foi lenta, eu tentava controlar meus instintos sempre que escutava um barulho alto, mas no final eu consegui chegar em segurança na clínica. A recepcionista me deu um sorriso e disse que eu estava adiantada, eu acenei com a cabeça e me sentei, esperando ser chamada. Novamente fiquei observando a janela, até que meu nome foi chamado.
— Jolene Watson.
Me levantei e entrei na sala, a mulher me recebeu com um sorriso, mas logo sua feição ficou séria.
— John… onde está sua bengala? — Ela cruzou as pernas enquanto me encarava.
Eu lambi os lábios enquanto pensava numa resposta adequada, no final percebi que não valeria a pena mentir, então disse a verdade.
— Eu não me sinto bem usando a bengala, é estranho, eu sou nova demais para isso.
— Doutora, a senhora precisa entender que não é uma questão de idade, você teve uma ferida séria, se você não usar sua bengala, isso vai piorar. — Ela me olhava seriamente, seu rosto mostrava que ela estava desapontada comigo, não tinha o que fazer sinceramente, apenas aceitar.
— Eu… eu vou usar minha bengala.
Ela me deu um sorriso e anotou algo em sua prancheta antes de partir para a próxima pergunta.
— Começou a escrever?
— Ainda não… não sei como começar.
— Começar é sempre difícil, você pode escrever como foi seu dia, algo que você viu, pode até descrever uma paisagem.
O resto da consulta foi normal, contei como foi minha semana, como eu estava e também falei sobre a questão dos barulhos. Ela me respondeu que isso é algo que vai melhorar com o tempo, não é da noite pro dia. O problema é que isso era uma questão séria para mim. Eu não voltaria para a base militar, mas eu também ficaria um longo tempo tentando viver na cidade de novo, me acostumando com barulhos, pessoas e… coisas.
No fim da consulta eu resolvi dar uma volta em um parque que tinha por ali, coincidentemente era perto da universidade que eu consegui meu diploma e o meu doutorado. E mais coincidente ainda, uma pessoa chamou meu nome.
— Jolene? — Eu parei — John Watson?
Me virei e sentado em um banco estava meu antigo colega de universidade, Mike Stanford.
— Mike, oi! — Ele se levantou e me deu um abraço.
— Você está diferente, quanto tempo, Watson!
— Que nada! Você é quem está diferente.
— Sim, eu engordei um pouco, não é?
— Não! Que isso, como está? Vamos sentar para conversar.
— Estou bem — ele disse enquanto íamos em direção ao banco novamente — Ouvi dizer que você estava em uma base militar, não me diga que levou um tiro! — Ele falou olhando para minha perna.
— Na realidade não, mas foi um acidente bem feio, como pode ver, mas apesar disso meu ombro está melhor que minha perna, queria entender o motivo. — Revirei os olhos.
— Eu sinto muito, eu virei professor, sabe? Odeio aqueles alunos. — Soltamos uma risada — Como está sendo a vida em Londres novamente?
Suspirei. — Complicada, a pensão quase não cobre tudo, estou fazendo milagres, acredite se quiser.
— Seu apartamento é caro?
— Sim, sim. O que é estranho, a localização não é aqui no centro, mas é perto. Ele é pequeno também, mas bem arrumado.
— Já pensou em dividir um quarto?
Eu soltei uma risada. — Quem dividiria um quarto comigo? — Eu o olhei, e dessa vez foi ele quem soltou uma risada. — O que?
— Bom… você foi a segunda pessoa a me dizer isso hoje.
— Sério?
— Sim, na realidade, acho que vocês poderiam dividir um quarto. Ela não está muito longe daqui, ela fica muito tempo no laboratório do campus.
— Bom, nesse caso, eu ficaria feliz em te acompanhar se não for incômodo.
— Que nada! Vamos.
E assim partimos. Eu estava feliz com a ideia de ser uma mulher, eu realmente sentia a falta de ter uma amiga e dividir um quarto seria ótimo.
Caminhamos devagar até chegar no campus, era bastante nostálgico voltar naquele lugar depois de anos desde que me formei, o laboratório felizmente não ficava muito longe, então logo adentramos no local. Ele era um laboratório normal, a única diferença é que tinha uma pessoa ali.
Uma mulher alta, provavelmente com mais de 1,70. Ela tinha cabelos ondulados, amarrados em um coque frouxo. Usava uma camisa social branca e uma calça preta. Ela estava curvada sobre um microscópio analisando alguma coisa que não pude ver de imediato. Assim que entramos, seus olhos azuis caíram sobre nós, principalmente sobre mim, mas ela não disse nada de imediato e quando disse, não foi uma apresentação.
— Mike, preciso de uma caneta, a tinta da minha acabou e as outras estão… em algum lugar. — Pigarreou.
Mike passou a mão pelos bolsos, sem sucesso nenhum.
— Desculpe, não estou com as minhas aqui.
— Ah! — Eu mexi no meu bolso, pegando a caneta que eu resolvi trazer, com a esperança de escrever algo. — Aqui, eu tenho. — Andei até ela para entregar a caneta. — Me chamo Jolene Watson, mas você pode me chamar de John, todos me chamam assim.
Dei um sorriso enquanto ela se aproximava para pegar a caneta.
— Estônia ou Polônia? — Franzi as sobrancelhas quando escutei aquilo, confusa.
— O que?
— Em qual base esteve, na Estônia ou na Polônia?
Olhei para Mike, mas ele apenas balançou a cabeça negativamente com um sorrisinho no rosto.
— Então, qual dos dois? — Ela continuou.
Eu encarei os olhos azuis, queria entender como ela descobriu isso.
— Polônia…
— Imaginei. — Ela puxou a caneta da minha mão e voltou para o seu experimento, anotou algumas coisas em um bloco de notas e logo voltou para o microscópio. — Recebi algumas amostras de sangue hoje de manhã, resolvi analisar eles e acho que descobri algo fascinante, Mike, estou impressionada.
— Sério? — Ele respondeu.
Naquele momento, um caminhão passou perto demais da onde estávamos, fazendo um barulho extremamente alto. Meu instinto fez eu olhar para o lugar do barulho e colocar a mão na minha perna boa, a direita. Quando me acalmei, voltei minha atenção para a mulher, que agora estava me encarando. Ela ajeitou sua postura e disse:
— Eu fico sem falar por muito tempo e toco violino em horários aleatórios, isso te incomoda?
Eu pisquei rápido, olhando para Mike novamente, ele novamente apenas sorriu.
— Não… mas por…
— Apenas acho que quem vai dividir um apartamento precisa saber dessas coisas.
Olhei seriamente para Mike dessa vez. — Contou para ela?
— Absolutamente, não.
Ela foi até o canto da sala e pegou seu sobretudo e cachecol.
— Eu preciso pegar algumas coisas para terminar esse experimento, estou de olho em um ótimo lugar no centro de Londres, podemos visitar ele amanhã às 12h. — Ela andou até a porta, mas eu a interrompi.
— Espera… espera um pouco. — Eu sorri, incrédula. — Mal nos conhecemos e já vamos dividir um apartamento, é tão simples assim? Você também não disse o endereço e nem seu nome! E também…
— Jolene Watson, enfermeira militar que foi suspensa após sofrer um acidente, provavelmente uma explosão, já que o barulho que o caminhão fez pode ser considerado parecido com um, você automaticamente ficou em alerta e colocou a mão na sua perna direita, a boa. Sua perna esquerda foi muito afetada, claramente, mas também parece que afetou outro lugar, não só físico, mas sua mente. Suas botas estão sujas de uma lama típica das planícies da Europa Oriental. Seu pescoço está com uma marca causada pelo frio, algo comum para quem passa meses usando cachecóis térmicos. Seu corte de cabelo mostra que você só o fez porque não tinha paciência para fazer o coque militar todo dia e só resolveu manter ele desse jeito pois está acostumada, é mais fácil. Apesar da sua perna você ainda mantém uma ótima postura e não usa bengala, mostrando que você ainda não aceitou completamente o que aconteceu. — Eu estava em completo choque, mas ela ainda não terminou. — Seu relógio está muito bem cuidado, mostrando que foi um presente recente, de alguém que você admira muito, provavelmente algum parente próximo, chuto que era seu pai, certo? E pela sua caneta, que está muito bem cuidada, eu chuto que foi algo que sua terapeuta te deu, já que é uma caneta comum entre os psicólogos, por algum motivo que eu não entendo, são horríveis. Mas enfim, em conclusão, você é uma ex enfermeira militar na base da Polônia, sofreu um acidente sério, não se acostumou ainda com a vida em Londres, foi diagnosticada com transtorno pós-traumático e tem um exercício que você acha chato, escrever, já que mal encostou na caneta. Visitou seus pais logo após receber uma melhora e eles te deram um presente que você se sentiu forçada a aceitar, já que não gosta desse tipo de coisa. E como seus pais são velhos e moram longe, você usa esse relógio para se lembrar deles.
Eu abri a boca para falar algo, mas ela me interrompeu novamente.
— Como eu sabia sobre dividir o apartamento? Simples, falei com Mike sobre minha dificuldade de encontrar uma colega de quarto, ele sai para sua caminhada matinal e volta vinte minutos mais cedo com uma ex colega de faculdade, essa parte foi a mais fácil de todas. — Ela caminha até a porta, mas antes de sair, olha para mim e diz: — Meu nome é Sherlock Holmes e o endereço é 221B da Baker Street. — E assim, ela sai da sala.
Eu olhei incrédula para Mike que tinha um sorriso divertido no rosto.
— Ela é assim mesmo, boa sorte.
Eu passei o resto do dia em completo choque, nunca tinha conhecido alguém que pensava ou falava daquela maneira… era incrível. Eu mal dormi naquela noite, poderia dizer que estava sim ansiosa para encontrar ela no dia seguinte, então fui até a 221B da Baker Street às 12h.
Fui andando até o apartamento, dessa vez usando minha muleta para me locomover, quando cheguei, passou apenas alguns poucos minutos até que eu notasse Sherlock se aproximando. Ela me cumprimentou com um sorriso e apertou minha mão. Sherlock estava usando preto da cabeça aos pés, a única coisa de diferente era o seu cachecol azul escuro, seu cabelo agora estava solto, e meu Deus, era enorme.
— Eu conheço a proprietária, Sra. Hudson. Ela me deu um ótimo preço, já que eu ajudei ela no caso do seu marido que estava basicamente… indo para a forca. — Ela bateu na porta.
— Você impediu ele de morrer?
— Ah, não. Eu garanti isso. — Ela sorriu.
A porta se abriu e uma senhora apareceu, ela tinha por volta dos cinquenta anos e sorriu animadamente quando viu a mulher ao meu lado.
— Olá, Sherlock! Como é bom te ver!
— Digo o mesmo, Sra. Hudson! — Elas se abraçaram. — Essa é a Dr. Watson.
— Pode me chamar de John. — Apertei a mão da senhora.
— Vamos, entrem! Não fiquem paradas nesse frio. — Ela abriu espaço e entramos, subimos as escadas e logo estávamos dentro do apartamento.
Ele não era extremamente grande, para mim tinha o tamanho perfeito, tinha dois quartos de tamanhos médios, uma cozinha conjunta com a sala de jantar, uma sala, um pequeno escritório e um banheiro. Era um local meio… retrô? Rústico? Não sei a palavra certa, mas ele não era extremamente… futurista, por assim dizer. O único problema era que estava extremamente bagunçado, tinha livros por todo o lugar, objetos químicos e algumas… bizarrices.
— Aquilo é um crânio? — Falei apontando para cima da lareira.
— Ah, sim… um amigo. O que achou do lugar?
— Ótimo, só precisamos dar um jeito nessa bagunça.
Holmes pareceu ficar envergonhada com esse meu comentário, e pigarreou antes de me responder.
— Bom… podemos dar um jeito nisso… — Falou enquanto juntava os livros que estavam espalhados pela sala.
Eu puxei uma poltrona para me sentar, nunca iria admitir isso em voz alta, mas me sentia aliviada, era como se minha perna agradecesse por isso. Fiquei observando a lareira enquanto Holmes puxava a outra poltrona e se juntou a mim.
— Realmente vai ficar? Bom, tem a questão do barulho…
— Sim, eu gostei do lugar. Quero ficar no centro para me acostumar de novo com essa… barulheira…
— Certo. — Ela pulou da cadeira. — Peço desculpas por essa bagunça, Watson.
— Pode me chamar de John.
— Eu já passei um tempo aqui, mas é sinceramente cansativo e ruim morar sozinha, não acha, Watson?
— Bom, acho que depende de cada pessoa. — Respondi observando ela andar de um lado para o outro pela sala. — Está tudo bem?
— Sim, eu só estou pensando em uma forma de organizar tudo isso.
— Não se preocupe, eu te ajudo com isso, pode ser agora se quiser.
— Não.
— Não?
— Não, preciso reorganizar de uma forma que fique agradável para mim.
— Ah sim…
Franzi as sobrancelhas observando ela andar. De repente ela parou e olhou para mim, dando um sorriso.
— Certo, Watson, já pensei na maneira perfeita de organizar tudo. Por favor, volte para casa e arrume suas coisas, você pode se mudar amanhã de manhã, o que acha?
— Bom… claro, tudo certo.
— Então, me permita te acompanhar até lá embaixo.
— Ok…
Eu estava de certa forma desconfiada, mas não tinha nada de errado naquilo, ela realmente parecia se importar com minha opinião e queria que eu aceitasse morar com ela, então eu relevei aquela atitude e desci as escadas em sua companhia. Ela puxou seu celular e chamou um carro para mim
— Até amanhã, Watson, e não se preocupe, eu já paguei por isso.
— Não precisava…
— Eu insisto, boa viagem e até amanhã! — Em um piscar de olhos ela bateu a porta e foi para dentro do apartamento de novo.
Eu fiquei boquiaberta por uns instantes, mas balancei a cabeça e esperei o carro chegar, quando me lembrei que ela não me disse o número da placa, o nome do motorista e a cor do carro. Quando pensei em subir novamente para falar com ela, meu celular vibrou no bolso, com a mensagem de um número desconhecido.
“A placa é LM96MAK, o carro é cinza e o nome do motorista é Greg.
Boa noite, Watson.”
Novamente, eu estava boquiaberta. Eu não tinha dado meu número para ela, e parecia que ela tinha lido minha mente! Isso me deixou em choque, mas não tive muito tempo para pensar sobre, pois o motorista já tinha chegado.
— Olá, boa noite!
— Boa noite, senhora.
— O endereço é…
— Não se preocupe, o endereço já foi colocado.
Arregalei meus olhos, abri a janela do carro e olhei para cima, onde ficava o meu futuro apartamento, lá estava ela, Sherlock Holmes. A mulher mais misteriosa e esquisita que eu já tinha conhecido em toda minha vida. Vendo a confusão no meu rosto, ela fez algo simples, abriu um pequeno sorriso.
Estou escrevendo isso durante a madrugada, realmente não consigo dormir. Estou ansiosa para ver onde isso vai dar.
