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Mi corazón es tuyo

Summary:

Eduarda, recém viúva, tenta incansavelmente achar uma babá para seus sete filhos.

Lorena, após perder tudo em um incêndio, se vê sem escolhas, aceitando tudo por sobrevivência.

Poderia esse amor pela família e por elas superar os sacrifícios de uma vida difícil?

Notes:

“Una tormenta provocaste dentro de mis ojos cuando te vieron frente a mí”

Chapter 1: Mi corazón es tuyo

Chapter Text

A Chacrinha está em festa no dia de hoje. Dona Lígia, uma senhora muito querida da comunidade, ficou responsável por preparar os pratos do grande evento. A música é escutada pela favela inteira que já dançavam enquanto outros se preparavam para irem até o lugar reservado. A festa acontecia no meio da rua, todos os outros salões ou espaços haviam sido reservados para a família Ferette. Os Ferettes eram donos das maiores boates do país, eles alugavam esse espaço apenas para não correrem o risco de algum evento chamar mais atenção que a grande Chicago.

Isso nunca foi desculpa para as festas, um povo feliz conseguia ver felicidade em todas as boas coisas da vida. Era assim que eles viviam.

Mas uma casa específica era o centro das atenções hoje. As paredes amarelas, os sofás pequenos mas confortáveis, os quadros mostrando duas mulheres e um homem, a cozinha com louças novas recém lavadas no escorredor... e um violão, que era delicadamente limpado por Lorena, uma mulher de tirar o fôlego. Seus cabelos eram selvagens, seus olhos verdes chamavam atenção em todos os lugares, sua pele era macia até para a vista. A morena vestia um vestido rosa pink, usava várias pulseiras de pano e algumas com pingentes que faziam barulho e encostavam na madeira do violão enquanto o limpava.

Esse violão, era especial demais. Ele merecia todo esse cuidado e as olhadas emocionadas de Lorena, que o deixou com um beijo terno após a limpeza.

— Mamãe... 'tô cuidando dele direitinho. — A mulher o põe na capa fechando o zíper e indo em direção a um prego colocado na parede para o pendurar com a corda.

— Bom dia, bebê! — A porta se abre revelando sua melhor amiga, Maggye, que se aproxima dando um beijo estalado antes de ir em direção ao sofá.

— Bom dia! — Uma risada envergonhada é dada por Lorena. Mesmo vivendo sua vida inteira com o jeito carinhoso da Maggye e sendo praticamente igual, ela ainda se sentia uma criança sendo acolhida perto da mais velha.

— Eu 'tô exausta, mas eu não perco esse frevo por nada! - Maggye diz enquanto passa o batom se olhando no espelho.

— Vai ser legal, né?! Espero que dê tudo certo.

— Já deu, mon amour! — Suas mãos abraçam o corpo de Lorena que tentava arrumar o cabelo - claramente, sem sucesso -.

— Mon amour? Ui, que chique. O que significa?

— Gatinha. Escutei de um cara hoje mais cedo e ele disse que estava chamando aquela gata feia do Zé Maria. Mas hein, vem cá.

— Você 'tá me agarrando, Maggye, eu já estou aqui.

— Detalhes. - Ambas riem juntas e Lorena se ajeita no abraço. — Eu estou muito feliz pela a gente, pela nossa casinha e por ter você comigo. Não sei o que seria de mim sem você, Lore.

Lorena e Maggye há uns meses haviam entrado com a papelada para comprar uma casa própria na comunidade e recentemente fizeram a mudança comprando tudo do zero, demorou tanto que elas chegavam cansadas todos os dias. Mas valeu a pena todo o esforço e a paciência em achar o lugar certo para todas as coisas.

O abraço vira uma comemoração de pulos e risadas altas. Elas finalmente haviam conseguido.

— Ai, Lorena, cacete! Sua pulseira enganchou no meu cabel- Ai, ai, aaaaai, Lorena!

— Desculpa, bi. Não 'tá saindo! Vem pra cá pra eu enxergar melhor. — A morena puxa o braço até o rosto levando consigo o cabelo e a cabeça de Maggye.

— Bicho, eu vou te matar.

— Cadê minha rainha? — A porta é aberta novamente mas dessa vez abrindo passagem para Júnior, namorado de Lorena, que vê a cena e não consegue disfarçar a risada com o ódio evidente em Maggye. — Pelo visto, está lutando com o dragão.

— Amor, traz a tesoura.

— QUE TESOURA, LORENA? Júnior você nem ouse chegar perto da cozinha, eu sou faixa marrom em boxe. — A amiga de Lorena tenta chutar o homem sem mexer a cabeça, o que como o imaginado, não dá certo e só a faz sentir mais dor. — Ai!

— Foi! Saiu! — Assim que o cabelo é libertado, Lorena corre e se esconde atrás de seu namorado. — Maggye, foi sem querer. Cadê o papo de que você não sabe viver sem mim?

— Pegou um ônibus pro inferno. Você tem sorte que eu 'tô atrasada pra pegar comida, se não você ia ver.

Assim que Maggye fecha a porta, Lorena recebe um beijo totalmente desastrado de Júnior, ela já havia se acostumado com aquele jeito afobado dele. Parte dela, achava até fofo.

— Você não sabe como eu estou feliz pela sua casa nova, meu amor.

— Você sabe que... - Os braços da mulher se apoiam nos ombros do moreno. — Essa casa poderia ser sua também... Você só precisa fazer uma coisa.

— Pagar o aluguel? — O namorado a oferece um sorriso sacana e recebe um beliscão no pescoço. — Ai, Lorena! Eu já entendi, nós vamos nos casar, só não dá agora.

— Por que não? Já temos a casa. Só falta você querer.

— Não temos condições de ter uma criança agora. Imagina duas como você quer. — A expressão emburrada de Lorena da espaço para um rosto confuso.

— Mas eu quero ter uns sete.

— Escutou? Estão chamando a gente pra festa. Corre, corre, corre!! — Junior pega a mão da amada e anda rápido até o evento na frente de sua rua.

Mas Lorena sabia que ninguém havia os chamado. Aquilo era um assunto a ser discutido depois.

 

Enquanto isso...

A mansão dos Fragoso estava silenciosa, diferente do habitual. A chegada da nova babá havia deixado as crianças pensativas. A mais velha, Mariana, que é chamada de Mari pela família, vigiava o balde de slime verde, enquanto os mais novos fingiam que nada estava acontecendo, continuando suas tarefas de casa pedindo auxílio ao irmão mais velho, Edu.

O quarto de estudos era extremamente colorido, tendo em vista que, a maioria dos filhos ainda era criança. Mari era a mais velha com dezoito anos e longos cabelos loiros. Mesmo sendo adotada, ela lembrava muito a sua mãe, e se orgulhava disso. A menina possuía um gênio forte, era como uma rocha extremamente dura e difícil de acessar, afinal, ela precisava se proteger e proteger seus irmãos. Eduardo, era apenas um ano mais novo. O garoto possuía lindos olhos azuis e suas madeixas de cabelo eram castanhos puxado para o ruivo. Também adotado, Edu foi criado pelas mães que o resgataram muito novas e o criaram com muito amor. Eduardo sempre gostou de pensar que era o orgulho delas, o filho que nunca deu trabalho por ser tão grato por tudo que fizeram por ele e por Mariana.

Com os mais novos a história é um pouco diferente, a vida não foi tão cruel com eles. Eles foram a decisão de continuar a construir uma família. Cecília foi a primeira, a menina de treze anos puxou o cabelo loiro da mãe, por mais que não acredite, seu rosto é delicado e angelical. O sorriso típico de adolescente possuía um dentinho torto na frente. Para ela, era o fim do mundo, mas para as mães, era a coisa mais preciosa já vista. Seus olhos são grandes e verdes. Encantadores. Mesmo sendo biológica, Cecília não parecia nada com as mães.

Já Gabriel, sua chegada na mansão foi diferente. Ele veio enrolado em um pano sujo abraçado em uma manta velha, chorava como quem havia perdido o mundo inteiro, e para uma criança, era quase a mesma coisa. Agora, com onze anos, Biel é um lindo menino saudável, sua pele morena mas pálida e seus cabelos da mesma cor de sua pele chama atenção onde passa. O garoto também é bastante criativo. Sua paixão por dança é o que o motiva, sua mãe sempre amava ver suas apresentações. Há um ano que ele já não dança mais.

Depois veio os gêmeos idênticos, Arthur e Heitor, de oito anos. Os dois possuem os cabelos laranjas como o fogo, seus irmãos costumam chamá-los de diabinhos, ato esse, que é totalmente reprovado pela mãe. Os olhos são tão escuros e grandes que você consegue se perder dentro de suas íris. A hiperatividade dos meninos de fato é um de seus pontos fortes, principalmente agora...

E por fim, a caçula de cinco anos, Liv. Ruiva como uma linda princesa, sua pele é pálida e cheia de sardas delicadas. Seus olhos são mais parecidos com o de Cecília, verdes. Porem, eles possuíam um formato específico, quase que perfeitos. Eram grandes e puxados como um pequeno filhote de onça. A pequena Liv possui um pequeno problema... Ela nunca mais falou qualquer palavra desde o falecimento de sua mãe. A caçula passou por todos os psicólogos renomados do mundo mas ninguém foi capaz de fazê-la voltar a falar.

Isso nunca a impediu de entrar nas travessuras de seus irmãos, que por sinal, estava prestes a acontecer.

— Sim, amiga. Essas crianças vão entrar na linha rapidinho. — Todos escutaram a nova babá no corredor. Isso significava apenas um coisa: era hora de agir! — Eles vão aprender que eu sou a autoridade.

Edu por ser o mais alto, posicionou o balde em cima da porta na armadilha que os mais novos construíram. Enquanto isso, Cecília e Biel seguravam seus travesseiros cheios de penas, estavam aguardando o momento certo. Mari, a líder, segurava uma corda que levantava o balde.

Assim que a nova orientadora deles abriu a porta, o caos começou. A corda foi solta, a meleca verde feita de cola e tinta caiu sem piedade ou freio na cabeça da mulher, que ficou paralisada por alguns segundos tentando processar o que tinha acabado de acontecer. No momento que a ficha caiu, a mais velha passou os dedos por cima dos olhos na tentativa de pelo menos conseguir abri-los, o que - novamente - não foi uma boa ideia, pois assim que seus olhos se abriram, eles deram de cara com duas crianças jogando todas as penas de seus travesseiros em cima da cola verde.

— AAAAAAAAAAAAAH, EU ME DEMITO!

O grito e as risadas de sete anjos atraíram a atenção de Eduarda Fragoso, que subiu as escadas correndo esquecendo completamente a etiqueta.

— Posso saber o que houve aqui? — Eduarda Fragoso, dona de uma das maiores empresas de tecnologia policial, perdeu sua esposa há um ano e desde então, assumiu uma postura rígida com seus filhos e empregados. O luto de Eduarda foi muito mais interno do que qualquer outra coisa, foi como se tivessem mudado seu DNA. Ou, parte de seu DNA era Mariana, e agora sem ela, ela é só um sistema nervoso no piloto automático. Seus olhos que antes brilhavam como estrelas, agora era escuros e fundos.

— Eu. Me. Demito. — A mulher responde, e agora prestando atenção, Eduarda percebe que a recém contratada estava... verde? E coberta por penas. Se fosse um tempo atrás, a ruiva riria da travessura e se culparia por também ser travessa. Mas dessa vez, a única coisa que ela sentia era cansaço. Era a sexta babá que se despedia em menos de um mês. Depois da morte de Mariana, ela não conseguia conciliar a empresa e os filhos, precisava se um auxílio e a melhor ideia que teve, foi contratar uma babá para orienta-los durante suas horas de trabalho. Porém, era muito difícil para eles aceitarem isso.

— Por favor, deve ter alguma coisa que eu possa fazer para a senhora não desistir. — A anfitriã intercalava os olhares, para a mulher, ela oferecia olhos grandes e pidões, para os filhos, olhares que sinalizava o quão encrencados eles estavam.

Virando e empurrando Eduarda, a mulher respondeu:

— Nem todo o seu dinheiro vale o preço de ficar cinco minutos com esses demônios.

Paulinho, o mordomo da casa, se apressava para buscar uma toalha e ajudar a moça a se limpar, ou pelo menos, tentar. O homem de quarenta anos possuía um belo rosto e um lindo cabelo preto com alguns grisalhos. Antes de mordomo, ele era o melhor amigo e rede de apoio de Eduarda. O homem foi um pilar para a ruiva não perder sua humanidade. Claro, depois de seus filhos.

— P-por por favor, re-reconsidere. — Havia apenas um detalhe, quando nervoso, Paulinho gaguejava.

— Reconsiderar? Quem deveria reconsiderar é a senhora dessa casa. Reconsiderar nunca mais por um dedo do diabo no mundo, se ela tiver mais três filhos, o capeta é invocado! — Marie gritava enquanto descia as escadas segurando suas malas e tentando limpar seu rosto com a toalha que Paulinho havia oferecido.

— Por favor! Olhe o vocabulário. — Eduarda descia junto atrás da mulher por medo dela escorregar e cair com a velocidade que ela andava.

— Você é quem? Verde desse jeito. — Gerluce, a cozinheira aparece na sala furiosa. Se havia uma coisa que a santa Gerluce não permite é que deem em cima de Paulinho e xinguem ou maltratem suas crianças.

— Eu sou Marie Lohan!

— Ah, te catar! — A mulher tira seu avental e é segurada por Paulinho.

— Gerluce, por favor! — A mãe das crianças entra na frente. — Olha, Marie. Eu sinto muito. Meus filhos são difíceis mas eles são uns anjos. — Marie olha para cima e vê as crianças fazendo carinhas de anjo enquanto os gêmeos imitam asas. — Por favor, nos dê mais uma chance.

—Nunca! Paulinho, abra a porta para mim. — O mordomo mesmo contra gosto, abre a porta e a ajuda até a saída.

Assim que a porta é fechada, todos escutam apenas uma coisa:

— Estão todos de castigo.

 

  Durante esse tempo, Lorena achou por alguns segundos ter irritado Zeus. A tempestade caía sem piedade, gotas fortes e grossas caíam sem tempo de reação. O vento, os trovões, tudo fazia as pessoas acreditarem que um novo dilúvio havia começado. Após a festa de casa nova, Lorena e Maggye foram trabalhar. Seus turnos eram noturnos, já que, trabalhavam na boate Chicago. Maggie trabalhava como bartender, muitas vezes precisava vestir laces de cores diferentes e roupas extremamente curtas. A morena ficava responsável por servir os drinks e bebidas para os homens que frequentavam o lugar.

  Já Lorena, era a mina de ouro. Sua participação era única e extremamente valiosa para Santiago, dono da boate. A mulher dançava no pole dance, mas não era qualquer dança, era o que sustentava aquele lugar. Sua participação era tão essencial que alguns homens preferiam dirigir por horas apenas para ver seu show. Exatamente, show! A entrada de Lorena Marruá era ansiada por todos, era sentida por cada pessoa ali dentro. Para Lorena, dançar era como respirar. Era como se sentir viva e por alguns minutos, a dançarina perdoava a vida por tudo que ela fez consigo. As pessoas olhando ou não, não importava, era o seu momento.

  No ônibus, voltando para casa, as amigas dividiam um fone de fio escutando um brega paródia de um amigo delas que saiu da comunidade para tentar a vida como cantor. Bagdá sempre foi muito gentil e um ótimo rapaz. Para Maggye, isso não era o suficiente para ela gostar do que estava ouvido.

  — Eu 'tô assim, apavorada. — Lorena escuta a voz de sua amiga após elas escutarem a voz de Bagdá cantando alguma coisa sobre falar bosta no privado.

  — Gente... o instrumental é... exótico? — A dançarina tentava achar algo bom na melodia. Ela sempre fez questão de apoiar muito o sonho de seu amigo.

  — Isso aqui é "exótico" até em russo. - As duas riem e voltam a prestar atenção no novo single. Até que a atenção de Maggye é desviada com a entrada de uma mulher com mercadoria. — Lorena, olha quem chegou.

  — Desculpa eu interromper o silêncio para a viagem de vocês.

  As duas amigas não conseguem interromper a risada e começam a se cutucar pois já haviam decorado todas as falas da vendedora.

  — Oh gente, eu sou uma pessoa... deficiente. — Lorena e Maggie falam baixinho ao mesmo tempo que a senhora em pé. — Tenho problemas mentais...

  As duas estavam prontas parar continuar o texto que tanto escutavam mas algo as impediu. O ônibus havia parado de uma vez. A voz do motorista avisando que não conseguiria passar pois a rua alagou foi escutada por todos. Incrédulas, elas foram para frente do ônibus e viram a água. Muitos carros estavam a vista apenas por causa do teto. O desespero começou a bater e todos dentro do ônibus começaram a bater parar abrirem as portas. O medo da água subir e eles ficarem presos ali era mais forte que a razão.

— Maggye, não solta a minha mão.

— Você está louca, Lorena? Eu não vou pular aí, eu não sei nadar.

— O nível da água ainda está baixo, não me solta. — Respondeu, pegando na mão de sua amiga com força antes de descer os degraus e pular na água. 

  O que aconteceu a seguir, foi totalmente fora da curva. Por alguns segundos, Maggye soltou sua amiga e escorregou em um esgoto que estava aberto na tentativa de conter mais água. O que, de fato, não deu certo e acabou sendo um perigo para quem pisasse ali, ou seja, um perigo para Maggye.

  Quando Lorena olhou para trás e não viu sua amiga, o pânico bateu. Lorena não conseguia escutar mais nada, ela não escutava os gritos, nada. Apenas sua voz gritando pelo nome de Maggye na esperança de escutar alguma resposta, que nunca chegou. Desesperada, mergulhou na esperança de ver algo que pareça ela.

  Não conseguiu ver nada.

  Assim que as últimas pessoas passaram, ela tentou mais uma vez. Aquilo era totalmente culpa dela. Maggye a avisou. Ela era apenas uma estúpida teimosa.

  A água na rua começou a se movimentar como uma correnteza natural, ela vinha forte e sem piedade. Lorena, mais uma vez, aproveitou de sua adrenalina e mergulhou prendendo a respiração. Seus olhos abriram com dificuldade por causa da água suja e movimentada. Por alguns segundos jurou novamente não ter visto nada, até mudar a direção e ver os longos cabelos da Damatta descendo junto ao seu corpo no bueiro.

  Sem pensar muito, nadou para baixo se desviando de pequenos objetos que foram levados pela correnteza. Assim que alcançou o corpo, Lorena rapidamente, pegando impulso no chão, a levou à superfície esperando, ou melhor, rogando que ela esteja bem. Ela precisava estar bem. Não poderia perder sua amiga, ela não.

  -- AJUDA! ALGUÉM! Por favor... alguém me ajuda.

 

Na mansão...

 

  Eduarda andava de um lado para o outro pensando o que iria fazer e como falaria com seus filhos. Sempre fora muito próxima de seus filhos, afinal, mesmo sendo CEO de uma rede gigante, grande parte das vezes, Eduarda estava no meio das travessuras de seus filhos. Não poderia culpa-los por algo que a própria os ensinou. Todavia, o contexto que vivia, era diferente. Com Mariana, as travessias eram apenas com as pessoas de casa, entre eles. Sempre pontuou que o respeito era algo indispensável, principalmente com desconhecidos.

  A viúva, por sua vez, se sentia sufocada. Era uma dor sem fim e nenhum tempo para fazer ela ir embora. Se agarrava no amor que sentia pelos filhos e acordava todos os dias de manhã.

  Um pé atrás do outro.

  Porém, momentos assim a fazia duvidar se estava fazendo a coisa certa com eles. Queria ama-los tanto a ponto de não sentirem falta de outro amor, o que era impossível. Mariana possuía um vazio nos oito corações que apenas ela poderia preencher.

  Olhando para o enorme quadro no meio do salão, Eduarda suplicou por um conselho de sua falecida esposa. Precisava saber o que faria, quais palavras usaria para não trazer mais dor àquela família.

  -- Por que fazem isso? -- Sua voz saiu cansada. -- Por que não aceitam nenhuma babá?

  -- Não queremos que ninguém substitua a mamãe! -- Os gêmeos falam em sintonia em um grito fino.

  -- Oh. meus amores. Ninguém nunca vai substituir a mãe de vocês. Vem cá. -- A mulher chama todos os sete em um grande abraço. -- Uma babá não vai ocupar o lugar da mãe de vocês, ela só irá me ajudar a manter a rotina de vocês. Eu sei que essas coisas, quem exercia era a Mariana. Mas ela está em outro lugar agora, meus amores. -- Uma lágrima escorre tão lenta que perde a força fria em seu rosto. -- Então, vamos nos agarrar nos bons momentos e no que ela os ensinou. A amar.

  Paulinho e Gerluce observavam a cena de longe abraçados, sempre se emocionavam com a boa mãe que Eduarda havia se tornado, principalmente após um trauma tão grande na vida daquela linda família.

  -- Por favor, me prometam que irão dar uma chance à nova babá e honrar os ensinamentos da mãe de vocês.

  -- A gente promete, mamãe.

  -- Mari? -- Os olhos castanhos encontram o rosto da mais velha retorcido. Eduarda via sua insatisfação em evidência.

  -- Posso tentar.

  A mãe sorri e da um beijo em seu cabelo.

  -- Obrigada. -- Os filhos se afastam do grande abraço e começam a voltar para seus quartos. -- Isso não significa que se safaram. Estão todos de castigo. -- Resmungos são ouvidos na escada. As crianças continuaram subindo sem deixar de reclamar. -- E SEM CONTESTAR!

  -- Você é ótima com eles. -- Gerluce se aproxima passando a mão pelo avental ao lado de Paulinho.

  -- É- É É evi- evidente que to- todos apreciam a- a sua criação, Du- Duda.

  A ruiva olha novamente para o quadro da esposa antes de responder.

  -- Sinto que eu poderia fazer mais por eles.

 

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  -- A senhora vai ficar bem, podem ir para casa. Foi apenas um susto. Mas recomendo que deem uma passada no hospital o quanto antes para alguns exames. -- O paramédico diz tranquilizando Lorena que abraçava Maggye sem soltar por um segundo. Isso quase virou um problema quando pediram para ela se afastar para que eles conseguissem examina-la.

  -- Ai. graças a Deus.

  -- Tá bom, Lorena, me deixa respirar um pouquinho, princesa. -- A mais velha se afasta lentamente terminando de se secar com a toalha fornecida pela SAMU.

  -- Nunca mais faz isso na sua vida. Eu mandei você não me soltar.

  -- E eu falei que não sabia nadar, sua cachorra! Sério se eu morresse, Lorena, eu voltaria pra te infernizar porque eu sei como você tem medo de fantasma.

  -- O que, queridinha? Você não é nem doida de pensar isso.

 

Chegando em casa, Lorena e Maggye perceberam luzes intercalando entre vermelho e azul, muitas pessoas em volta de uma faixa amarela. O desespero dessas pessoas era quase palpável. Um arrepio correu por todo seu corpo ao ver pessoas desoladas, chorando, algumas tentando acalmar seus filhos que soluçavam de tanto chorar.

Lorena por alguns segundos pensou que alguém poderia ter falecido, as faixas poderiam estar em volta do corpo, as pessoas chorando poderiam ser a dor de perder alguém.

Em nenhum momento a mulher pensou que a tragédia era consigo.

  -- O que aconteceu aqui? -- O medo da resposta fez suas pernas fraquejarem. Naquele momento, Lorena pensou que poderia ter acontecido algo muito grave.

  -- Lore, a chuva... ela... -- Sem conseguir falar por causa do choro, dona Ligia engoliu o pranto antes de continuar. -- A chuva causou um curto-circuito. Nossas casas pegaram fogo. Não sobrou nada, Lorena. Nada.

  Escutar aquilo foi inexplicável. A sensação de perder tudo outra vez foi avassaladora. Lorena não sentia mais seu corpo. Havia um tormento dentro de si que não cessava. O sentimento de perda veio junto com o de sua mãe, havia perdido seu lar outra vez e duvidava se aguentaria passar por isso novamente.

  Desesperada, sem pestanejar, a mulher correu em direção a muvuca, se desviando de todas as pessoas inclusive dos guardas que impediam a passagem. Mesmo escutando os comandos para se afastar do local, Lorena continuou correndo até ser segurada por um policial que percebeu os gritos a tempo.

  -- Me solta! -- Se debatia desesperadamente sem conter o choro após ver tudo em cinzas. -- Moço, é a minha VIDA ali dentro. É tudo... É tudo que eu tenho. Por favor, me deixa passar.

  -- Eu sinto muito, senhora. É perigoso entrar no momento. -- Maggye se aproxima e abraça sua amiga por trás na tentativa de acalma-lá. -- Por enquanto, mandaremos todos vocês para um abrigo. Eles darão comida, água e roupa nova. Amanhã vocês poderão retornar e olharem com calma. Nenhuma estrutura foi totalmente destruída. Poderão reformar com o tempo. E novamente... eu sinto muito.

  -- Não sobrou nada? -- A voz de Maggye saiu quebrada atrás de Lorena ainda a envolvendo em um abraço. Agarrar a morena era como agarrar tudo aquilo que havia sobrado. E de fato, era.

  -- A casa de vocês é aquela amarela? -- Elas afirmam. -- Sobrou um violão velho só.

  O corpo de Lorena derreteu nos braços de sua amiga. Seu pranto, por mais que tampasse a boca com sua mão, era escutado e sentido por todos ali. Toda comunidade sabia a quem pertencia aquele violão. Era emocionante para todos.

E aquele violão velho mas extremamente precioso era o sinal para a mulher não desistir. Ela não seria vencida fácil assim. Por isso, assim que chegaram no abrigo, Lorena imediatamente ligou para Santiago sem que Maggye soubesse. Ela iria recuperar sua casa nem que perdesse a liberdade para isso.

  -- Um empréstimo, hein? -- A voz rouca e nojenta de Ferette ecoou pelo celular de sua dançarina favorita. -- Você sabe que... essa quantia, terá muitos juros.

  -- Eu sei.

  -- Como eu sou uma ótima pessoa e como minha esposa gosta muito de você Eu tenho um acordo.

  -- Acordo? -- Lorena do outro lado da linha ergue a sobrancelha e se assusta ao perceber que acabou falando alto demais. -- Acordo? - Dessa vez, diz sussurrando.

  -- Isso. Você irá me agradecer pelo favor.

  -- Desembucha, Santiago. -- A mulher diz já perdendo a paciência.

  -- Você assina um contrato de um ano trabalhando na Chicago.

  -- Contrato? Mas eu sou dançarina, eu não trabalho fixo para vocês. -- O pressentimento de Lorena gritava tentando lhe avisar que não tinha como ser fácil assim.

  Um silêncio se instaurou na linha por alguns segundos.

  -- Vou te dar o dinheiro que precisa para se reconstruir, mas você precisará me devolver a grana, fechou? O que você conseguir na Chicago, metade vem para mim até quitar sua divida.

  -- METADE? -- Seus olhos se arregalam e sua garganta fica seca.

  Não recebia mal dançando na boate, pelo contrário, era um dinheiro relativamente bom para se viver. Os clientes deixavam muitas gorjetas e extras. Foi por isso que a dançarina conseguiu comprar sua casa e mobiliar tudo de uma forma rápida. Perder metade disso era voltar para o sufoco, não iria conseguir viver sem tanto dinheiro.

  Porém, também não conseguiria pagar tudo sozinha de uma vez. A necessidade falou mais alto que a razão. O grito do desespero é bem mais agudo que o gemido da insatisfação.

  -- Pelo seu silêncio, vejo que é algo a se questionar. Depois que você resolver tudo, venha aqui para conversarmos e quem sabe, assinar o contrato. Mandarei o Macedo lhe entregar o dinheiro que precisa.

   A ligação é desligada. Sem despedida. Sem empatia. Ela apenas acaba. Como se Santiago Ferette não tivesse virado seu mundo de cabeça para baixo. Como se ele colecionasse almas todos os dias, a ponto de virar cotidiano. E de fato, era.

   Lorena precisava urgentemente de um emprego.

 

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  -- Isso, Larissa. Preciso que você consiga uma nova babá para mim... Sim, eu sei. Por favor, alguém precisa aceitar esse emprego... -- Eduarda falava ao telefone enquanto lia os novos pedidos dos clientes. -- Como assim ninguém quer? Eu sei, eu sei que já é a vigésima vez mas eu preciso da sua ajuda.

  -- Juquinha? -- Jairo aparece na biblioteca com a roupa de sempre. Um terno cinza e apertado com uma gravata de bolinha. O homem que criou Eduarda e Paulinho era visto como um pai para ambos. Após reconhecer a voz, a mulher tratou de resolver sua ligação o mais rápido possível para dar atenção ao seu pai.

  -- Larissa, eu te imploro. Pode dobrar o valor do salário. Sim, pode fazer isso... O mais rápido possível... Não, não consigo ir à empresa enquanto não conseguirmos contratar alguém. -- O homem se sentava calmamente no sofá ao lado da mesa principal. Eduarda falava de forma afobada, como sempre fazia quando estava nervosa. Mesmo sentada, ela conseguia derrubar várias coisas que estavam em cima da madeira. Era tudo muito engraçado para Jairo. Aquela era a nova rotina deles. -- Obrigada, mesmo. Eu vou conversar com eles e dessa vez vai ser diferente.. Sim, eu sei que eu já falei isso outras vezes. Obrigada por avisar. Tchau!

  -- Dia difícil? -- O delegado pega a garrafa de whisky na mesa e enche o copo com gelo.

  -- O senhor nem imagina. -- Eduarda encosta as costas na cadeira finalmente relaxando. -- Acredita que eles jogaram cola verde na babá que eu contratei ontem? E depois, jogaram as penas dos travesseiros. Não sei mais o que eu faço com eles, papai.

Quando Mariana faleceu, Eduarda se prontificou a ficar com os filhos nos primeiros meses. Ela entendia a dor de perder uma mãe, por isso em hipótese nenhuma pensou em deixa-los sozinhos nesse momento.

Porém, os meses se passaram e a mãe precisou voltar ao trabalho. Além dos filhos, outras pessoas precisavam dela para continuarem suas vidas normalmente. Eduarda percebeu que, a vida não havia parado, seus filhos ainda precisavam ir à escola, seus funcionários precisavam continuar trabalhando, tudo ainda precisava da rotina. Por isso, optou por contratar uma babá.

Nunca deu certo, eles sempre a expulsavam.

O casamento delas sempre foi sobre amor aos filhos e a companheirismo. Tudo que suas crianças viram durante suas vidas foi um amor lindo e uma amizade mais bonita ainda. Mas um detalhe é que: Eduarda nunca se apaixonou. Para ela, o amor funcionava da forma que seu casamento se estendeu. Aquilo era o ideal. Eduarda perdeu sua melhor amiga, companheira e mãe de seus filhos. Em sua percepção, seu luto era muito doloroso mas não chegava perto da dor deles.

Talvez ela não consiga sentir esse amor que ela tanto vê. Todo amor em si é para, e exclusivamente aos seus filhos.

-- Você vai conseguir, minha filha. Tudo acontece por um motivo. -- O barulho dos gelos batendo no vidro enquanto Jairo balançava o copo se fazia presente naquela grande biblioteca silenciosa. -- Talvez, todas essas mulheres não eram boas o suficiente para cuidar deles. Tenho certeza que Mariana cuida de todos nós lá de cima. A babá certa vai conquistá-los um por um.

 

Um por um.

 

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  -- Não acredito que você me arrastou pra procurar emprego, Lorena. -- Maggye bocejava enquanto as mulheres esperavam sentadas ao lado de outras pessoas que entregavam seus currículos naquele local.

  -- É rapidinho, vamos só entregar e ir embora.

  -- E você colocou o que nesse currículo aí? -- A cabeça da morena se inclina para ler o documento nas mãos de Lorena. -- Você fala inglês, é?

  -- Of corse.

  -- Corse não é tipo, vaca? -- As duas se entreolham e riem alto.

O lugar estava um caos, várias pessoas pulando fila e poucos seguranças para tomar conta. Uma coisa que chamou a atenção de Maggye foi uma pasta ao lado, abandonada. O postite em cima acusava uma vaga de emprego que todos recusavam. Em breve, iria para o depósito e ficaria lá.

Que tipo de emprego com esse salário era tão recusado assim?

Aproveitando a bagunça, a Damatta abriu a pasta e leu tudo sobre o emprego.

 

Ocupação: Babá

Função: Orientar as crianças Fragoso, ajudar nos deveres escolares, manter a rotina da escola, conferir a rotina noturna e as vezes, viajar com a família.

Salário: R$**,***,**

 

  -- O QUE? -- O grito por incrível que pareça, chamou atenção apenas de Lorena que se sentava ao lado da amiga sem sequer perceber sua movimentação.

Foi nesse momento que a mulher estranhou a pasta rosa em suas mãos. Seus olhos desceram todo o conteúdo. A cada informação lida, os grandes olhos verdes se abriam ainda mais juntos a sua boca.

Quem recusaria tanta grana por cuidar de crianças? Era a maior paixão de Lorena.

Isso fez as duas pensarem em uma ideia não tão convencional...

  -- Lorena, vamos mudar todo o seu currículo.

 

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  Eduarda estava em sua empresa quando recebeu a informação de que apenas uma pessoa havia se interessado na vaga. Frustrada, a mulher sabia que não havia muito o que fazer. O único lado bom, era que a mulher havia se formado nas melhores faculdades do mundo e falava três línguas fluentemente. Tirando o histórico impecável trabalhando com os filhos do Luciano Huck.

  Sem escolha, Eduarda mandou mensagem para essa tal de... Lorena Marruá. Sobrenome meio exótico, talvez?

  "Bom dia. Falo com Lorena, certo? Quem fala é Eduarda Fragoso, gostaria de discutir sobre a vaga para ser babá dos meus filhos. Quando poderia comparecer à minha casa? Aguardo sua resposta."

  Assim que a mensagem foi enviada, a CEO sentiu um frio na barriga. Uma ansiedade boa. Sorriu sem perceber e sem saber o motivo de estar tão esperançosa. Olhando as horas, Eduarda se prontificou de se organizar para chegar em casa antes dos seus filhos. Sua rotina funcionava assim agora, ela só iria à empresa após o motorista levá-los para a escola e voltava para casa antes deles chegarem. Deixá-los sozinhos nunca foi uma opção.

  E para ser sincera? Mal poderia esperar para vê-los novamente. Talvez aquela ansiedade seja isso.

  É. Com certeza é.

 

  Mensagem recebida:

  "Oiiiii, é a Lorena!!! podemos nos ver agora mesmo se a senhora não estiver ocupada! :)))))))"

  O frio voltou outra vez. Eduarda não entendia essa ansiedade em conhecer essa mulher. Nunca havia a visto mas por algum motivo sentia que um encontro importante estava prestes a acontecer. Mas de qualquer forma, não tinha tempo para pensar essas besteiras. Desligou seu computador e pegou sua mochila antes de responder:

  "Ok. Te mandarei o endereço."