Work Text:
A festa de formatura do terceiro ano do ensino médio seria a causa da morte de Lorena — e ela não estava brincando.
Faltavam menos de dois meses para se despedir oficialmente da escola e iniciar sua vida universitária. Apesar de toda a pressão social que existia por trás daquilo, não era nem de perto o que estava tirando o sono dela.
Lorena só conseguia pensar em como faria para convidar Eduarda, a garota por quem era apaixonada há anos, para ser seu par no baile.
Lorena e Eduarda estudavam juntas na mesma escola desde que se entendiam por gente. Compartilharam a fase de aprender o alfabeto e escrevê-lo em letras bastão, de fazer as primeiras contas de somar, de participar de festas de amiguinhos em comum e, agora, estavam com a mesma ansiedade de finalizar aquele ciclo tão importante para começar outro ainda maior.
Apesar de todos esses anos de convivência, Lorena soube esconder muito bem — até onde ela sabia — que nutria uma paixão secreta por Eduarda.
Se fosse possível fazer uma comparação coerente, Eduarda era para Lorena a Lauren Jauregui de 2016, que usava cabelo curto e jaqueta de couro e era capaz de enfeitiçar todas as meninas ao seu redor. A diferença era que sua crush tinha cabelos ruivos, um pouco maiores do que os da cantora, e olhinhos tão redondinhos e brilhantes que pareciam ter sido desenhados.
A popularidade de Eduarda pelos corredores do colégio, no entanto, não a fazia uma menina malvada típica de filme norte-americano. Muito pelo contrário: era conhecida por seu jeito doce de tratar professores, funcionários e todos os colegas. Mesmo assim, Lorena sentia que ela era inalcançável.
As duas nunca chegaram sentar juntas e conversar por mais de cinco minutos sobre qualquer assunto. Parte disso vinha da própria timidez de Lorena, que achava que poderia fazer xixi nas calças só ver Eduarda passar na sua frente. A falta de contato direto, porém, não impedia que a ruiva fosse igualmente querida com ela. Sempre que passava por Lorena em algum lugar fazia questão de cumprimentá-la com um aceno ou um simples "oi". Aquilo era suficiente para desarmar completamente a postura — patética — da morena de olhos verdes.
O único ponto em comum entre as duas era Paulinho, primo de Lorena e melhor amigo de Eduarda. E foi nele que Lorena decidiu focar para tentar convidar a ruiva para o baile.
O plano de Lorena era simples: tomar, de uma hora para outra, toda a coragem do mundo para poder olhar nos olhos de Eduarda e chamá-la para ser seu par. Mas ela não sabia como, quando e se poderia fazer isso, visto que, até aquele momento, não tinha ideia se a colega já estava comprometida.
Por isso, num dia qualquer depois da aula, convidou Paulinho para ir até a casa dela e finalmente revelar o que estava tirando seu sono.
— Paulo, preciso da sua ajuda.
O menino largou a mochila no chão do quarto da prima e se sentou na ponta da cama dela.
— Não tenho dinheiro para te emprestar. Meu pai cortou minha mesada porque eu peguei uma camisinha escondida no guarda-roupas dele e ele descobriu.
Lorena olhou para ele, incrédula. Primeiro por Paulinho achar que ela queria dinheiro, e depois por pensar por que diabos ele queria uma camisinha.
— O que você ia fazer com uma camisinha, pelo amor de Deus?
Paulinho bufou e se jogou no colchão, visivelmente sem paciência.
— Ia jogar ping-pong, Lorena. Porra, o que a gente faz com uma camisinha?
— Sei lá, prefiro nem saber — ela disse, puxando a cadeira de sua escrivaninha e se sentando em frente ao primo. — Não quero seu dinheiro. Quero ajuda para uma coisa séria.
Ele se sentou novamente e olhou para a prima, que balançava as pernas freneticamente de nervoso.
— Fala de uma vez.
— Eu... Eu preciso de ajuda para convidar a Eduarda para o baile de formatura — disse num fôlego só.
Paulinho ficou estático por alguns segundos antes de simplesmente começar a rir de forma descontrolada. Lorena continuou olhando séria para ele, mordendo o lábio inferior com tanta força que estava quase fazendo-o sangrar.
Quando percebeu que ela não estava brincando, ele se inclinou para frente, ainda tentando segurar o riso.
— Como é que é?
— Isso mesmo que você ouviu. Eu quero chamar a Eduarda para ser meu par.
— Lorena... Pera aí. Desde quando... — começou a dizer, mas logo parou. Coçou o cabelo, tentando entender. — Desde quando você se interessa pela Eduarda?
Lorena ficou em silêncio. Poderia inventar uma data ou uma situação qualquer, mas a verdade era que ela se enxergava ao lado de Eduarda antes mesmo de entender que gostava de meninas. Por isso, seria até difícil de justificar para o primo.
— Isso importa, Paulo? — perguntou impaciente.
— Claro que importa! Ela é minha melhor amiga e você é minha prima! Nunca nem passou pela minha cabeça que você gostava dela.
— Pois é, mas agora está passando. — Lorena se levantou e começou a andar em círculos pelo quarto. — Eu gosto dela há anos, Paulinho, mas não sei como dizer isso. Então pensei que convidá-la poderia ser uma boa estratégia.
Paulo ficou alguns segundos encarando a prima, ainda tentando processar aquilo.
— Meu Deus. Minha prima sapatona está apaixonada pela minha amiga sapatona. Fim dos tempos!
Lorena não aguentou e chutou a canela dele, fazendo-o gritar um "AI!" tão alto que os funcionários da casa poderiam ouvir.
— Se arrependimento matasse, só teriam sobrado meus ossos debaixo da terra — ela murmurou, pegando a mochila de Paulinho e jogando em cima dele. — Vai embora.
— Não! Calma! Eu tô brincando, prima — justificou, tentando conter uma risada. — Eu só não esperava, sabe? Mas vocês podem formar um casal bem bonito.
Lorena se sentou novamente, vendo que o primo tinha adotado um tom mais sério. Parecia que finalmente poderia ajudá-la.
— Tá. Mas eu não sei como fazer isso, Paulo. Eu nem falo com ela, ela nem deve saber o meu nome!
— Claro que sabe! Você é parente do cara mais gato do terceirão. Todo mundo acaba sabendo quem você é.
Foi a vez de Lorena rir.
— Você é insuportavelmente inacreditável.
— Brincadeira! Mas olha, posso ser sincero com você? — perguntou, e a morena assentiu. — Tô achando que a Duda já pode ter um par.
A frase caiu como um verdadeiro balde de água fria em Lorena. Claro que Eduarda já deveria ter um par. Bastava olhar para ela para saber que outras milhares de meninas — e até meninos — deveriam estar atrás dela para aquele momento.
— Por que você acha isso? — a voz saiu baixa, com receio de demonstrar que estava prestes a chorar.
— Não é certeza, tá? Mas ela me contou esses dias que a Isa Alencar a convidou. Só não sei se aceitou.
Até parece que não ia aceitar, Lorena pensou. Isa Alencar era simplesmente uma das, se não a maior e mais requisitada garota do ensino médio. Até os meninos do fundamental falavam dela.
Lorena já tinha visto as duas juntas várias vezes, mas nunca chegou a flagrar um beijo ou coisa do tipo. No máximo via as duas trocando carinhos discretos no meio da aula e até entrando juntas no mesmo carro para irem para sabe-se lá Deus onde.
— Ai, Paulo. Ela deve ter aceitado. Deixa isso para lá, vou sozinha mesmo.
— Não! Eu não tenho certeza, tá bom? Posso sondar para você — disse, sorrindo. — Além do mais, acho você muito mais legal que a Isa. Você e a Duda combinam.
— Me poupe. Nem você acredita no que está falando.
— É sério, Lorena! Olha, ela é muito metida. A Duda detesta gente assim. Capaz de ter dado um fora nela.
Aquilo ainda não era o suficiente para convencer Lorena de que teria uma chance. Precisava ouvir da boca de Eduarda que ela ainda não tinha ninguém.
— Tá bom. Digamos que ela não tenha aceitado. O que você acha que eu devo fazer?
— Não ironicamente, acho que basta falar com ela e convidar.
Lorena ficou olhando para a cara dele mais uma vez.
— Ela não aceitou a Isa, que provavelmente fez a mesma coisa, e você me diz pra falar com ela?
— É, ué. Vai que ela se apaixona à primeira vista.
— Juro por Deus que se você fizer mais uma piada, eu te jogo aqui de cima. — Lorena apontou para a sacada do seu quarto.
— Você está muito estressada, priminha. Vamos fazer o seguinte: amanhã, na escola, eu vou perguntar a ela discretamente, tá? E aí, com base na resposta, vou saber como te ajudar.
— Tá.
***
Chegar à escola naquela manhã tinha sido uma missão quase impossível para Lorena. Ela tinha dormido muito mal, em partes pela ansiedade de saber o que Paulinho descobriria e por medo daquele boca de sacola deixar escapar sobre sua paixão por Eduarda.
Apesar de Paulinho não ser da turma das duas, ele sempre dava um jeito de aparecer na sala delas. E não foi diferente naquele dia.
Pouco depois da segunda aula, após o professor de Matemática se despedir, Lorena viu Paulo entrar pela porta.
Ela costumava se sentar nas primeiras fileiras para conseguir prestar mais atenção e fugir do converseiro que sempre se formava do meio para o fundo da sala. Por isso, quando viu o primo caminhar pelo local e sumir de sua vista, ela teve certeza de que ele estava indo até a carteira de Eduarda.
Ficou incomodada e completamente ansiosa porque, daquele ângulo em que estava, não dava para espiar nada daquela conversa. Se quisesse saber, teria que virar o corpo completamente na direção deles.
Mesmo muito curiosa, não se moveu. Continuou parada, olhando para o próprio caderno aberto com as anotações da aula. Tentava fingir que aquilo era a coisa mais interessante do mundo e não se Eduarda tinha planos para beijar a boca de Isa ou qualquer outra menina na formatura.
Passaram-se pouquíssimos minutos até ela perceber que a professora de Geografia entrava na sala para ministrar a próxima aula. Ela ouviu a docente pedir, com toda a paciência do mundo, que Paulo fosse para a própria turma ou iria puxá-lo pelos cabelos, arrancando uma risada dos colegas.
Ao passar por Lorena, o primo piscou na direção dela e fez um sinal com os dedos indicando que falaria com ela depois. Menino idiota.
Ao final do dia, enquanto aguardava pelo motorista da família e finalmente podia usar o celular, recebeu uma mensagem do primo.
Paulinho idiota
Priminha
Boas notícias
Eduarda está livre para viver um amor com vc
Lorena ficou olhando para a tela enquanto um sorriso bobo crescia nos lábios. Tentou disfarçar ao perceber que muita gente passava por ela para deixar a escola, mas já era tarde. Estava com uma cara de boba apaixonada.
Lorena Ferette
não brinca com isso, paulo.
ela não aceitou o pedido da isa????
Paulinho idiota
Não jkkkkkk
Ela contou que disse pra Isa que não estava na vibe
E eu sei que vc vai achar que deve ter outra pessoa na mira dela
Mas, pelo que ela me disse, ainda não tem ninguém…
Então é sua chance, priminha
Lorena Ferette
meu deus vou me matar hoje 13h99
tá, agora eu preciso tirar coragem do cu pra chamar ela
E ESSE É O PROBLEMA
Paulinho idiota
Calma, o pai já disse que te ajuda 😎
Tentativa 1 - Bolas assassinas
A primeira tentativa de Lorena foi numa segunda-feira. Durante o fim de semana, Paulinho ficou boas horas na casa dela, montando as melhores — ou não — ideias para colocar em prática.
Juntos, chegaram ao consenso de que um bilhete deixado no armário de Eduarda seria um bom começo. Lorena só precisava escolher as palavras certas e rezar para que a ruiva aceitasse.
No meio de uma das aulas, ela colocou o bilhete escondido na calça do uniforme e pediu ao professor permissão para ir ao banheiro. Assim que saiu da sala, caminhou em direção ao corredor onde ficava o armário de Eduarda. Não tinha nada decorando a caixa metálica, mas Lorena sabia que era aquele. Já tinha visto a ruiva parada na frente dele inúmeras vezes. Daria certo.
Com medo de ser pega no flagra, Lorena passou rapidamente o papelzinho por uma das frestas do armário e saiu caminhando apressada de volta para a sala de aula.
O bilhete continha uma mensagem bem simples: Eduarda estava sendo convidada para o baile por uma pessoa secreta. Caso aceitasse ou minimamente tivesse dúvida de quem se tratava, deveria aparecer em uma das quadras poliesportivas da escola no final das aulas.
Claro que a ideia tinha sido de Paulinho. Enquanto bolavam o plano, Lorena tentou argumentar que aquilo mais parecia uma estratégia de sequestro e homicídio. No fim, mesmo odiando, decidiu seguir o primo.
As últimas aulas do dia passaram mais devagar do que as obras superfaturadas da prefeitura. Lorena sentia que poderia vomitar a qualquer momento, mas se segurou. Precisava continuar firme, porque a pior parte seria olhar nos olhos de Eduarda e dizer o que sentia.
Assim que o sinal tocou, indicando o fim do dia letivo, ela colocou a mochila nas costas e correu para o ponto de encontro. Como o local estava vazio e ela corria o risco de ser vista por uma pessoa aleatória, decidiu se esconder em um dos quartinhos onde ficavam as bolas de futebol, com visão privilegiada para a entrada da quadra.
Ficou ali por cerca de dez minutos, mexendo no celular, até ouvir algumas vozes de longe. Não conseguiu identificar de primeira. Mesmo assim, ficou imediatamente em alerta. Já conseguia imaginar Eduarda se aproximando, toda linda, para dar sua resposta.
No entanto, quando Lorena espiou melhor através da porta, teve uma surpresa. Não era Eduarda que estava ali, mas sim Isa Alencar.
— Que porra ela está fazendo aqui? — sussurrou para si, ainda tentando identificar a segunda pessoa que estava com ela.
Viu a garota se aproximar um pouco mais e percebeu que quem estava com Isa era Teca, a melhor amiga dela. Conforme andavam, Lorena conseguiu ouvir melhor a conversa das duas.
— Juro, amiga. Quem será que deixou isso lá? — Isa questionou, remexendo o papel nas mãos, claramente ansiosa, enquanto olhava para todos os lados. — Se for algum menino me chamando para o baile, eu vou ficar puta.
Lorena sentiu as mãos suarem. Como assim alguém teve a mesma ideia que ela? Tantos lugares naquela escola para marcar de se encontrar para fazer um convite e escolheu logo a quadra? Não é possível.
— Amiga, vai que foi a Duda… Será que ela se arrependeu e decidiu te chamar dessa vez? — foi a vez de Teca criar a teoria da conspiração dela.
Lorena já não sabia mais o que pensar. Como assim Eduarda? Paulinho garantiu, com todas as letras, que a ruiva tinha dado um fora em Isa e que não tinha interesse.
— Tomara, Teca. Queria muito beijar a boca dela de novo, mas ela está se fazendo de difícil.
Não, não, não.
— Esse bilhetinho foi dela, certeza. Já, já ela aparece aí.
Lorena finalmente entendeu o que tinha acontecido.
Aquele bilhete tinha sido escrito por ela. Ela tinha colocado a merda do bilhete no armário errado. Confundiu o de Eduarda com o de Isa e, agora, seu convite estava nas mãos de uma mocreia que achava que a futura namorada de Lorena a chamaria para o baile.
— QUE MERDA! — Lorena gritou sozinha, batendo a mão em um dos armários do quartinho.
Ela só não imaginava que a porta iria se abrir e que seria atingida por uma verdadeira avalanche de bolas de futebol de todos os tamanhos e cores.
Lorena não teve tempo de reação. Quando percebeu, estava levando boladas em todas as partes do corpo.
— Porra! Porra! Porra! — começou a xingar desesperada, sem saber o que fazer.
Enquanto tentava controlar a queda das bolas, ouviu as duas meninas sw e aproximarem.
— Quem está aí? — uma delas perguntou.
Lorena paralisou no lugar, segurando umas cinco bolas de uma vez.
Não adiantava mais se esconder. As garotas já sabiam que tinha alguém ali.
Para tentar se livrar delas de uma vez, decidiu abrir a boca.
— O-Oi… É a Lorena do 3°A.
Isa e Teca se aproximaram da porta do quartinho e se depararam com aquele cenário de guerra. Elas trocaram olhares entre si e tentaram segurar o riso.
— O que aconteceu? — Isa perguntou. Seu tom de voz era carregado de desprezo.
— Deixei cair, não está vendo? — Lorena rebateu, já impaciente.
Não bastava seu plano ter dado errado, ainda precisava dar satisfação para duas bruacas. Fim dos tempos.
— Nossa, que grossa… — Teca resmungou, fazendo Lorena revirar os olhos. — Vamos voltar para lá, amiga, ela já deve estar chegando.
A vontade de Lorena era de enfiar as maiores bolas que tinham ali goela abaixo das duas. Em vez disso, começou a guardar tudo de volta no lugar e saiu da quadra sem nem olhar para elas.
Ao chegar em casa, a primeira coisa que fez foi contar do desastre para Paulinho por telefone. O primo ficou longos minutos apenas rindo da situação, afirmando que conseguia imaginar Lorena levando boladas na cara.
Apesar de tentar muito se controlar, ela também se divertiu com a própria desgraça. Era patético pensar que, quando finalmente decidiu tomar uma atitude, tinha sido aquele desastre.
Mesmo com as gargalhadas, Paulinho percebeu a frustração dela e garantiu que o segundo plano seria diferente e com mais chance de sucesso.
Tentativa 2 - Morte por asfixia (mas não com o body splash da Wepink)
A segunda tentativa de convidar Eduarda para o baile era carregada de romantismo. Paulinho sugeriu que Lorena comprasse um buquê de flores para a ruiva, afinal, aquele, segundo ele, era o sonho de toda menina.
Lorena também tinha vontade de receber flores num dia qualquer de alguém especial — se fosse de Eduarda, melhor ainda. Por isso, a ideia pareceu ainda melhor que a primeira. Ela só queria ter a chance de fazer sua paixonite feliz.
Na sexta-feira daquela mesma semana, saiu da escola direto para uma floricultura. Fez questão de acompanhar cada passo da montagem do buquê de lírios, que tinha custado toda a sua mesada. Sorria, completamente abobalhada, imaginando Eduarda igualmente feliz ao receber o presente.
Ela ainda não tinha coragem de se revelar, por isso pediu que Paulinho fosse o intermediário. Um papelzinho pequeno tinha sido inserido entre as folhas, com apenas um coração desenhado e a assinatura de uma “admiradora secreta”.
Paulinho inventou uma desculpa qualquer para ir até a casa de Eduarda. Estava igualmente nervoso, querendo que tudo desse certo para a prima.
Assim que Eduarda abriu a porta, já de pijama, o amigo não conseguiu se conter e já entregou o presente.
— Paulinho… Mas o que-
— Surpresa! — ele exclamou, exibindo um sorriso de orelha a orelha.
Eduarda olhava confusa para ele, sem entender por que diabos o melhor amigo estava ali com flores na mão para entregá-la. Não era seu aniversário, muito menos uma data especial.
Pegou o buquê da mão dele e abriu espaço para que o amigo entrasse em casa. Cheirou uma, duas, três vezes e olhou encantada para as pétalas.
— Tá. São muito lindas. Agora você pode me explicar de onde veio isso?
Paulo, folgado do jeito que era, já se jogou no sofá da casa da amiga e esticou as pernas em cima da mesa de centro. Recebeu um olhar fulminante de Eduarda, que não sabia se ficava brava com ele ou encantada com o presente.
— Mandaram te entregar.
— Mandaram… — ela repetiu, sem paciência. — Quem mandou, Paulo?
— Tem um bilhete aí. Você vai descobrir.
A ruiva imediatamente pegou o papelzinho escondido entre as flores e leu. Não dizia nada concreto. Virou o bilhete de todos os lados possíveis, mas não tinha mais nada escrito.
— Só tem dizendo que é de uma admiradora secreta, cara. Como isso me ajuda?
Paulinho deu de ombros.
— Aí é com você, só vim entregar.
Com raiva do amigo, Eduarda sentiu vontade de jogar o buquê inteiro nele e fazê-lo engolir cada flor. Mas ele era lindo demais para ser destruído assim, então foi até a cozinha e procurou algum recipiente para colocá-lo com água.
Ela estava prestes a voltar a xingar Paulo quando sentiu uma coceira incômoda no nariz. Incomodada, Eduarda usou a ponta dos dedos para coçá-lo, mas parecia ter sido inútil.
Soltou o primeiro espirro.
— Atchim!
— Saúde! — Paulinho falou, ainda na sala.
Ela nem teve tempo de agradecer, pois mais dois espirros sequenciais a interromperam.
— Que inferno… — reclamou baixinho, ainda coçando o nariz.
— Caralho, Eduarda. Tá difícil aí, hein?
— Eu não sei o que está acontecendo… — respondeu, já voltando para a sala usando a camiseta para tentar aliviar a coceira.
— Você está ficando vermelha.
Ela tentou responder, mas foi novamente interrompida por uma sequência de espirros.
— Atchim! Atchim! Atchim!
Paulinho se aproximou, preocupado, percebendo que a amiga lutava para controlar a respiração. Além dos olhos estarem marejados e o nariz vermelho, ela tentava coçar a garganta.
— O que foi?
— Tá coçando mui– — tentou dizer, mas a voz saiu fraca.
Eduarda tentou respirar fundo, mas o ar não pareceu entrar direito. Um aperto tomou conta do peito, seguido por uma tosse seca que a fez se curvar levemente.
— Duda, vamos para o hospital.
Ela negou com a cabeça e apontou para o banheiro social. Paulinho entendeu que ela provavelmente tinha algum remédio guardado ali. Correu até o cômodo, abriu uma pequena caixa transparente e começou a vasculhá-la às pressas. Em poucos segundos, voltou carregando seis cartelas diferentes nas mãos.
Eduarda, ainda lutando para respirar, apontou para uma delas. Paulo retirou um comprimido da embalagem, colocou na mão dela e correu até a cozinha para buscar água.
Eduarda tentou engoli-lo assim que ele voltou, mas teve dificuldade. A garganta ainda estava apertada, e ela precisou tentar mais de uma vez.
— Calma. Devagar — Paulinho pediu, segurando o copo para ela.
Deu outro espirro.
— Atchim!
Paulinho olhou para o vaso sobre a mesa. As flores.
— Duda... as flores.
Ela abriu os olhos, ainda respirando com dificuldade, e franziu a testa.
— O quê?
— Você começou a espirrar depois que mexeu nelas. Será que você é alérgica?
Eduarda encarou o vaso. Ela nunca tinha recebido flores para saber se tinha algum tipo de alergia. Na verdade, era até comum sua mãe comprar algumas para enfeitar a casa, mas ela nunca havia chegado perto o bastante para enfiar o rosto entre as pétalas e sentir o perfume.
— Eu nem sabia que isso existia.
— Bom... agora sabe.
Paulinho pegou o vaso imediatamente e o afastou dela.
— Acho que essa pessoa que mandou estava tentando me matar.
— Que nada… ela só não deveria saber mesmo.
Eduarda deu de ombros, ainda com os olhos marejados.
— É. Não tinha como saber. Mas a intenção foi boa, as flores são lindas.
***
Lorena ficou arrasada quando descobriu sobre a crise alérgica. Poderia, literalmente, ter matado Eduarda. E o pior era que tivera a intenção mais pura do mundo.
— Você está pensando em desistir, não está? — Paulinho perguntou, percebendo o silêncio dela.
Lorena suspirou.
— Talvez.
— Por causa das flores?
— Sim, Paulo. Tudo que eu faço dá errado!
Talvez fosse melhor parar por ali.
Primeiro, tinha colocado o bilhete no armário errado e passado a maior vergonha da sua vida. Agora, quase tinha mandado de base a menina por quem estava apaixonada.
— Não vai desistir! — ele disse, quase indignado.
— Ai, eu vou sim, e você não vai me impedir! — respondeu, tão revoltada quanto ele.
— Ela só teve uma crise alérgica, Lorena, que nem ela sabia que tinha. Como é que você ia adivinhar?
— Sei lá… Eu podia ter escolhido chocolate.
— E se ela fosse diabética? Ou tivesse alergia a algum ingrediente do chocolate?
Tá, talvez ele tivesse razão.
— Tá vendo? — Paulinho apontou para ela. — Você ia ficar mal de qualquer jeito. E, se depender de você, a Eduarda vai se formar sem nem saber que existe uma menina apaixonada por ela há anos.
Lorena mordeu o lábio, tentando esconder um sorriso.
— Talvez seja melhor assim.
— Cala a boca! Vou dar um jeito nisso.
Tentativa 3 - De frente com Biluzinho
Lorena estava realmente chateada com as tentativas frustradas. Tentou convencer Paulinho de todas as formas a desistir daquilo de uma vez, mas ele parecia incapaz de ouvi-la.
Depois do incidente com as flores, ela decidiu dar uma pausa das surpresas. Não tinha mais psicológico para ver mais uma patacoada.
Sua falta de coragem para tentar novamente também incluía fugir da ruiva em todas as oportunidades. Em um dia de aula em que precisava entregar uma atividade manuscrita de História, Lorena esperou até o último segundo para se levantar da cadeira só porque era Eduarda quem estava ajudando a professora.
Paulinho acabou percebendo o afastamento da prima e decidiu agir. Ele sabia que Lorena não convidaria Eduarda para nada diretamente e, já que tudo que ela fazia em segredo também dava errado, ele resolveu assumir o controle da situação. Só precisava encontrar uma desculpa boa o bastante para colocar as duas no mesmo lugar.
Numa tarde pós-aula, mandou uma mensagem para Eduarda.
Paulinho Reitz
Ei, preciso de um favor 😬
Dudinha
Lá vem… O que você quer?
Paulinho Reitz
Te contei que meus pais viajaram, né?
E meus tios me chamaram pra ficar na casa deles
Na praia, passar o fim de semana
Mas não tenho como levar o Biluzinho
Queria saber se vc pode olhar ele pra mim lá em casa…
Dudinha
Ai, Paulo.
Pq vc não leva esse cachorro com vc?
Paulinho Reitz
Pq lá tem pitbull!!!
Meu shihtzu é um príncipe
Tenho medo dele morrer
Dudinha
Vc sabe que já existe creche pra cachorro né?
Fica o dia inteiro no Tiktok, deveria saber
Paulinho Reitz
Eu sei, porra!!
E eu tentei, mas já tá cheio
Pfvr, quebra essa pra mim
Vc dorme lá em casa se quiser
Faço compras pra vc e tudo. O que vc quiser!
Dudinha
Tudo???? 😁
Paulinho
Não abusa da minha boa vontade tbm.
Topa ou não?
Dudinha
Tá, eu topo
Vou te passar minha lista de exigências
E me diz que horas vc vai pra eu chegar aí
Agora tchau, tenho o que fazer
Paulinho Reitz
Se tivesse um prêmio de sapatona mais importante do mundo, vc ganharia
Na vdd vc dividiria o prêmio com a Lorena
Te amo, Dudinha!!!
O início do plano estava indo mais fácil do que Paulinho tinha imaginado. Repetiu a mesma história para Lorena, que reclamou umas cinco vezes mais que Eduarda — primos, né? —, mas que também acabou aceitando.
Os pais dele realmente tinham viajado, mas não existia convite algum para a casa de praia dos tios. Paulinho apenas juntou o útil ao agradável: finalmente colocar Lorena e Eduarda no mesmo lugar e, de quebra, passar um fim de semana inteiro com Gerluce, a bolsista da escola por quem estava com os quatro pneus arriados.
Eduarda chegou à casa do amigo às 9h de um sábado. Desejou a morte de Paulinho incontáveis vezes por fazê-la levantar cedo, mas a possibilidade de passar algumas horas sozinha naquele casarão, com comida e tudo o que quisesse bancados pelo amigo, ajudava a diminuir a irritação.
Ele já não estava mais lá, assim como os funcionários da casa. Então, assim que digitou a senha na fechadura eletrônica, foi recebida por uma coisinha mais animada do que esperava.
— Oi, fofinho! — saudou o animal, que veio correndo na direção dela, abanando o rabinho.
Eduarda se abaixou para fazer carinho nele antes de entrar. Guardou suas coisas no quarto de hóspedes e, quando voltou para a sala, encontrou uma folha de papel deixada estrategicamente sobre a mesa de centro.
Como cuidar do Biluzinho
1. Dê muito amor e carinho. Ele é sensível e gosta de colo;
2. Ele come duas vezes ao dia. Um medidor cheio é suficiente.
3. Leve-o para passear duas vezes ao dia. Ele também gosta de fazer cocô na grama do quintal;
4. Ele também assiste TV. Tem uma playlist no YouTube que ele gosta de ver.
5. Só isso mesmo. Sejam felizes!
Eduarda leu até o fim e começou a rir sozinha.
— Que idiota… — murmurou. — Playlist no YouTube. Sério, Biluzinho?
O cachorro apenas inclinou a cabeça.
Não deu muita atenção ao último item da lista. Para ela, o “sejam felizes” era apenas mais uma das idiotices de Paulinho. Certamente ele estava se referindo a ela e ao cachorro, como se passar aquele fim de semana tomando conta de um shih-tzu fosse algum tipo de férias.
Depois de alimentar Biluzinho e garantir que ele tivesse água, Eduarda se jogou no enorme sofá da família Reitz.
A casa era silenciosa demais para alguém acostumada a passar os fins de semana com a própria família, mas ela não reclamaria. Tinha comida na geladeira, internet rápida, televisão enorme e, principalmente, ninguém para ficar mandando que ela levantasse do sofá.
Eduarda estava esparramada na cama, distraída com o TikTok, enquanto fazia carinho em Biluzinho. O cachorro permanecia deitado ao seu lado, completamente entregue aos afagos, quando ouviu uma voz feminina.
— Biluzinho? Cadê você?
Eduarda franziu a testa e se sentou devagar no colchão.
Imaginou que poderia ser alguma funcionária que tinha ido a pedido do próprio Paulinho, o que era estranho, pois ele tinha garantido que ninguém trabalharia naquele fim de semana.
O cachorro saltou da cama, provavelmente ao reconhecer a pessoa, e correu em direção à sala. Eduarda mal teve tempo de ajeitar os cabelos e seguiu atrapalhada atrás dele pelo enorme corredor.
— Calma, Bilu, pelo amor de Deus!
O shih-tzu não queria obedecer, até que Eduarda parou de ouvir o som das patinhas dele pelo piso, supondo que ele já tinha chegado ao seu destino.
Ela apareceu na entrada da sala completamente descabelada, ainda tentando recuperar o fôlego. Foi então que olhou para cima e reconheceu quem estava ali.
Lorena. Sua colega de turma e prima de Paulinho.
— Oi…? — Eduarda disse, sem jeito.
Olhou a garota de cima a baixo. Ela tinha uma mochila nas costas e segurava uma pequena sacola em uma das mãos.
Lorena parecia tão surpresa quanto ela. E não era de se esperar nada diferente, até porque estava diante do amor da vida dela. Eduarda só não sabia daquele fato.
— Oi.
— Você veio atrás do Paulinho? Ele viajou…
— Não. Ele pediu para eu vir ficar com o Biluzinho.
Eduarda piscou. Olhou para o cachorro, que agora estava sentado aos pés de Lorena, e depois para ela.
— Mas… Ele me pediu para ficar com ele.
— Ah.
— Ele não te falou que eu estaria aqui?
— Não.
— Pra mim também não.
Lorena soltou o ar pelo nariz, finalmente entendendo a situação.
Era apenas mais uma armação do primo. Só que, daquela vez, ele tinha exagerado. Como tinha a coragem de colocar Eduarda e Lorena na mesma casa por um fim de semana inteiro?
Ela estava com tanta raiva que sequer tinha tido tempo de processar o fato de estar, finalmente, conversando com a menina de quem gostava. Na verdade, até aquele momento, sua preocupação tinha sido apenas descobrir a próxima idiotice que Paulinho havia planejado.
Só então, olhando para Eduarda ali, a poucos passos dela, Lorena percebeu a enrascada em que tinha se metido.
— Esse Paulinho é um idiota — Lorena disparou, jogando a mochila no sofá. — Pior que eu não posso voltar para casa. Meu irmão vai dar uma festa lá e praticamente me expulsou.
— Fica aqui, não tem problema. Acho que seremos só nós duas. Ou… — Eduarda olhou para o cachorro, que agora estava com a língua de fora, completamente alheio à situação. — Nós três.
Lorena soltou uma risadinha sem graça.
— É… Acho que sim.
— Ou eu posso voltar para casa também, se quiser… — Eduarda sugeriu, vendo que Lorena estava um tanto desconfortável. — Não tenho irmão para me expulsar.
— N-não… Tá tudo bem. — respondeu rapidamente.
— Certo — Eduarda deu de ombros, como se aquilo não fosse grande coisa, e se abaixou para pegar Biluzinho no colo. — Paulo deixou uma lista inacreditável ali em cima, se quiser dar uma olhada. Mas ele já comeu agora de manhã.
— Ah… tá. — Lorena assentiu. — Eu vou… deixar as coisas. — Colocou a mochila nas costas mais uma vez e apontou na direção do corredor que dava para os quartos.
— Vai lá.
Lorena seguiu pelo corredor, enquanto Eduarda ficou na sala com Biluzinho. Estava prestes a largar a mochila lá, quando percebeu que as coisas de Eduarda estavam em cima da cama.
— Ah, não…
Pegou a mochila novamente e saiu pelo corredor, dessa vez em direção ao quarto de Paulinho. Girou a maçaneta.
Trancado.
— Claro que está… — murmurou, revirando os olhos.
Lorena respirou fundo e olhou para a porta ao lado. Nem se deu ao trabalho de tentar. Mesmo que o quarto dos tios estivesse aberto, ela não se sentiria confortável dormindo na cama de um casal.
Retornou para a sala e encontrou Eduarda ainda de pé. Ela a encarou com uma expressão preocupada.
— Aconteceu alguma coisa?
— O quarto do Paulo está trancado.
— Você queria pegar algo lá?
— Eu pensei em dormir lá… Só tem o de hóspedes, e você está lá.
Eduarda olhou para ela por alguns segundos, como se só naquele momento tivesse entendido o problema.
— Ah. Você pode ficar no quarto comigo.
Lorena arregalou os olhos.
— Com você?
— É. — Eduarda deu de ombros. — Eu não me importo. A cama é grande, ou eu posso dormir no sofá também.
— Não!
Eduarda piscou, surpresa.
— Não?
— Quer dizer… não precisa. Dormir no sofá é ruim.
— Então você fica na cama comigo — disse. — Se você estiver confortável, claro — Eduarda completou.
Lorena assentiu devagar, tentando parecer absolutamente normal.
— Estou. — mentiu.
Não estava, nem um pouco.
***
Paulinho ignorou absolutamente todas as mensagens de Lorena e Eduarda. A ruiva estava mais tranquila, não tinha nenhum problema muito grande em ter que dividir a casa e a cama com Lorena. Apenas ficou genuinamente irritada com o fato de o amigo ter ocultado a informação de que teria companhia.
Já Lorena tinha milhões de motivos para xingá-lo de todos os nomes feios possíveis. Primeiro porque ele a tirou de casa em pleno sábado. Segundo porque estava ali, frente a frente com Eduarda. E, como se não bastasse, ficaria dois dias ao lado dela e, provavelmente, dividiria a mesma cama.
Era coisa demais para processar de uma vez. Ainda assim, precisava se controlar ou acabaria virando estatística por ser uma boboca.
Elas mal conversaram até a hora do almoço. Lorena fugiu de Eduarda como se ela tivesse uma doença contagiosa. O afastamento, porém, durou pouco. A ruiva, que, até onde sabia, não tinha nada a ver com as questões pessoais de Lorena, perguntou o que ela queria de almoço e acabou descobrindo que ela era vegana. Pediu dois yakisobas e a convidou para sentar à mesa.
Eduarda nunca tinha conversado muito com ela. Não sabia nada além de que era prima de Paulo e uma das melhores alunas da turma. Mesmo estudando na mesma sala por tantos anos, as duas sempre tinham sido distantes.
Ali, no entanto, começava a perceber que Lorena era legal. Só parecia um pouco desconfortável — o que, considerando que tinham sido praticamente jogadas na mesma casa por um fim de semana inteiro, era até compreensível.
E ela era linda. Eduarda não podia negar.
Se alguém tivesse pedido para ela fazer um ranking das meninas mais bonitas da escola, Lorena provavelmente apareceria no top 3 sem muita dificuldade.
Sentada à sua frente, Lorena parecia diferente da garota que Eduarda conhecia apenas de vista. Os cabelos castanhos pareciam bem mais bonitos e hidratados do que ela via todas as manhãs. A cor dos olhos dela também chamava muita atenção.
E tinha o jeito tímido.
Lorena parecia que estava sempre buscando o melhor lugar para apoiar as mãos, mal conseguia sustentar olhares e, quando falava, seu tom de voz diminuía no meio da frase.
Eduarda ficou encarando-a enrolar o macarrão no hashi, completamente concentrada. Quando Lorena percebeu, levantou os olhos.
— O quê?
Eduarda piscou.
— Nada.
— Ah…
— É que você é bonita. — Deixou a frase escapar. — Quer dizer… Você se parece um pouco com o Paulinho, mas ele é muito feio.
Lorena colocou a mão na frente da boca para rir, largando os hashis apoiados no prato.
— Primeiro você me chamou de bonita e agora de feia.
— Eu não te chamei de feia!
— Mas disse que eu pareço com ele… É a mesma coisa.
— Parece só um pouco! — Eduarda fez um gesto com a mão, tentando explicar. — Essa coisa de parentesco mesmo, sabe? Isso que eu quis dizer. Mas você é muito mais bonita que ele.
Eduarda simplesmente voltou a comer, mas sentiu uma pequena satisfação ao perceber que tinha conseguido deixá-la sem graça.
***
O primeiro passeio de Biluzinho ficou por conta de Lorena, dentro do espaço pet do condomínio de casas de luxo onde o primo morava.
Enquanto o cachorro corria adoidado, cheirava cada canto e latia para todo mundo que passava, Lorena tentava se concentrar em ler um livro.
Tentava. Porque a cabeça mal conseguia assimilar as palavras. A cada duas ou três linhas, sua atenção escapava das páginas e voltava para Eduarda. Especialmente para o elogio feito por ela durante o almoço.
Ela tinha passado anos apaixonada por aquela garota, sem sequer conversar com ela e, em poucas horas, já tinha conseguido um elogio, um almoço juntas e, mais tarde, provavelmente dividiram a mesma cama.
Se Paulinho tivesse planejado aquilo de propósito, Lorena teria que admitir, contrariada, que pela primeira vez o primo tinha feito alguma coisa certa.
Bufou irritada, fechou o livro e decidiu retornar para casa. Sua intenção era tirar um delicioso cochilo em qualquer canto daquela casa, contanto que Eduarda não estivesse perto.
Só que, aparentemente, o destino tinha decidido testar os limites de sua sanidade.
Assim que chegou próximo da área externa, ouviu um barulho e decidiu espiar o que estava acontecendo.
Era Eduarda. E de biquíni, prestes a entrar na piscina.
Lorena paralisou, olhando diretamente para o corpo dela.
Talvez fosse porque nunca tinha tido a oportunidade de reparar nela daquela maneira. Na escola, Eduarda estava quase sempre envolvida em alguma atividade esportiva, seja tênis, ginástica artística e até futebol. Lorena conhecia aquela imagem de longe, pelos corredores e pela quadra, mas vê-la ali, sem uniforme, fez seu coração acelerar.
Tentava, realmente tentava, a todo custo, desviar o olhar das curvas da ruiva, mas sempre voltava. Era magnético.
Imaginava os cenários mais promíscuos possíveis quando ouviu a voz dela.
— Ei, Lorena! — Eduarda chamou, percebendo sua presença. — Vem também!
Lorena piscou algumas vezes.
— Eu?
— Sim, ué! A água está quentinha.
Lorena olhou para as próprias roupas. Depois para Eduarda. Depois, novamente para as próprias roupas.
— Eu não trouxe biquíni.
— Não tem problema. Você pode entrar de roupa mesmo.
A solução era bem simples para Eduarda, enquanto para Lorena era uma péssima ideia.
Ela tinha passado todas aquelas horas tentando não ficar nervosa perto da garota. Agora, a última coisa que ela conseguiria fazer era ficar dentro da piscina com ela. Sabe-se lá Deus onde aquilo ia parar.
— Não. Eu vou… — apontou para dentro da casa. — Estou com um pouco de dor de cabeça. Vou deitar lá na cama.
— Você quer remédio? Eu tenho aí…
— Não, não. Já, já passa. Aproveita a piscina.
E, antes que Eduarda pudesse insistir, ela virou-se e entrou na casa.
Subiu as escadas quase depressa demais, tentando ignorar o próprio coração acelerado. Só respirou aliviada quando fechou a porta do quarto atrás de si.
Jogou-se na cama e cobriu o rosto com as mãos.
— Inferno de mulher.
***
Lorena só saiu do quarto por volta das 20h, pois realmente dormiu. Ela só não sabia se, naquele meio-tempo, Eduarda tinha entrado no quarto para pegar roupas secas ou até mesmo tomado banho.
Descobriu que a resposta era não para as duas perguntas quando desceu novamente e se deparou com a ruiva, ainda de biquíni, jogando videogame com Biluzinho no colo.
Estava esparramada no sofá, xingando sozinha com alguma coisa que tinha dado errado no jogo. Lorena ficou olhando-a de longe, com um sorrisinho no rosto.
Ainda era estranho ver Eduarda daquele jeito. Na escola, estava quase sempre cercada de outras pessoas, sendo bajulada para todos os lados. Ali, sem ninguém por perto, parecia muito mais normal.
— Merda! — Eduarda reclamou, apertando alguns botões do controle. — Boss desgraçado.
Lorena tentou conter uma risada, mas deixou escapar o famoso barulhinho de porquinho, atraindo a atenção de Eduarda, fazendo-a rir também.
— Foi mal — Lorena disse, tentando disfarçar.
— Não, não. — Eduarda balançou a cabeça, ainda sorrindo. — Foi engraçado. Você tá melhor?
— Tô… sim.
Eduarda assentiu e voltou a atenção para o videogame. Lorena aproveitou a distração dela e caminhou até a cozinha, ainda querendo morrer por causa do som que tinha feito. Bebeu água em goles longos, como se quisesse prolongar aquela atividade simples, mas percebeu a aproximação de Eduarda.
— Eu estava pensando em fazer alguma coisa para comer — a ruiva disse, encostando-se na geladeira. — Você está com fome?
— Um pouco.
— Meu macarrão é muito bom… — a ruiva comentou, abrindo a geladeira. — O Paulinho comprou umas coisas que eu gosto. Dá para fazer uma versão vegana para você também.
— Se não for incomodar, eu aceito.
— Claro que não. — Eduarda sorriu. — Pode ir para a sala se quiser. Não vai demorar.
Lorena assentiu, mas, antes de sair, olhou discretamente para Eduarda. Não queria comentar sobre a roupa, mas também não conseguia ignorar o fato de que ela ainda estava de biquíni.
— Você não quer ir tomar banho antes? Eu fico com o Biluzinho.
Eduarda olhou para si mesma e pareceu finalmente perceber a situação.
— Eu nem lembrava que ainda estava assim! — soltou uma risada. — Não quis entrar no quarto para não te acordar.
Alguns minutos depois, Eduarda retornou usando um pijama de ursinho e os cabelos ainda úmidos. Lorena precisou segurar o sorriso ao vê-la daquele jeito.
A ruiva foi direto para a cozinha e começou a separar os ingredientes para o molho enquanto a água esquentava.
— Quer ajuda? — Lorena perguntou, aproximando-se.
— Não precisa. O Biluzinho ainda não comeu, né? Se importa de colocar a comida dele?
— Vou lá — avisou, pegando o cachorrinho no colo para alimentá-lo.
Quando voltou, o cheiro de alho e cebola refogados já tinha tomado conta da casa. Eduarda estava concentrada diante do fogão, mexendo o molho enquanto cantarolava baixinho uma música que Lorena não reconheceu.
Ela entrou na cozinha e se sentou no banco ao lado dela, no balcão. Eduarda colocou os dois pratos à frente delas.
— Esse é o seu — apontou para o prato de Lorena. — Sem queijo.
Eduarda pegou um punhado generoso de queijo ralado e jogou por cima do próprio prato, fazendo Lorena rir.
Eduarda esperou que Lorena desse a primeira garfada. Queria vê-la se render à única coisa que realmente sabia fazer na cozinha, além de brigadeiro. Lorena enrolou um pouco de macarrão no garfo e levou à boca.
— Tá muito bom.
A ruiva abriu um sorriso satisfeito.
— Eu falei!
Continuaram comendo devagar, fazendo comentários sobre o que Paulinho tinha comprado para deixar a despensa cheia.
— Pelo menos ele comprou coisa boa, né? — Eduarda comentou.
— Ele tinha que compensar a canalhice.
— Você vai para o baile?
A pergunta veio tão de repente que Lorena se atrapalhou com a própria garfada. Engoliu errado e começou a tossir, afastando o prato enquanto batia de leve no próprio peito.
Eduarda se levantou rapidamente e foi até ela, pronta para fazer a manobra de Heimlich, caso fosse necessário.
— Calma. Vai passar — tentou tranquilizá-la, passando a mão levemente pelas costas dela.
Lorena tossiu mais algumas vezes até finalmente conseguir respirar direito.
— Pronto… — murmurou, ainda meio sem ar.
— Você tá bem?
Ela assentiu, com os olhos marejados.
— Tô. Só não mastiguei direito.
Eduarda continuou ao lado dela por alguns segundos, certificando-se de que estava mesmo bem, antes de voltar ao seu lugar.
Lorena tomou um gole de água e respirou fundo.
— Sobre o baile, acho que não… Não é muito a minha praia.
Até porque eu queria ir com você.
— Ah. Eu também não sei se vou — Eduarda comentou, enrolando o macarrão no garfo. — Não me chamaram e eu também não chamei ninguém.
Lorena levantou os olhos.
— Sério? — Tentou parecer surpresa, embora soubesse que Eduarda não tinha aceitado o convite de ninguém.
— Uhum. — A ruiva deu uma pequena pausa antes de continuar. — Tem uma menina que gosta de mim, mas eu já fui sincera com ela e disse que não sinto o mesmo. Não seria justo chamá-la só por chamar. Acho que isso poderia piorar as coisas na cabeça dela.
Lorena até pensou em perguntar de quem se tratava, mas ela sabia muito bem. Lembrou-se do dia em que Paulinho sondou Eduarda e descobriu que ela tinha recusado o convite de Isa Alencar.
Na época, Lorena tinha ficado feliz; agora, ouvindo Eduarda falar sobre aquilo com tanta naturalidade, sentiu até um pouco de pena da outra garota.
— É… — disse, mexendo distraidamente no garfo. — Não seria muito legal mesmo.
— E se formos juntas?
— O quê?
— Ao baile.
— E-eu e você?
Eduarda riu baixinho diante da reação.
— Sim! Eu sei que a gente não tem muita intimidade, mas é só o baile de formatura… Podemos ir como amigas.
Amigas.
A palavra fez o estômago de Lorena revirar. Convivendo há poucas horas com Eduarda, conseguia vê-las desenvolvendo uma amizade. Mas ela queria muito mais do que aquilo.
— Não sei, Duda… — murmurou, baixando os olhos para o prato.
— Por quê?
Ela abriu a boca, mas fechou novamente. Como ela explicaria que tinha passado anos imaginando exatamente aquilo? Que já tinha pensado em qual vestido usaria, em como seria dançar com Eduarda e até em como seria chegar ao baile ao lado dela.
— Eu… sou tímida. Não gosto muito de ir para esses eventos.
— Mas é a formatura! Não vai acontecer nunca mais, Lorena! — tentou convencê-la.
— Eu sei… — ela hesitou, procurando uma forma de dizer aquilo sem parecer estranha. — É que você é muito popular. Todo mundo te conhece, todo mundo fala com você. No baile, vai ter um monte de gente querendo ficar perto de você.
Eduarda deu de ombros.
— E daí?
— E daí que eu vou parecer uma esquisita andando do seu lado.
A ruiva soltou uma risadinha.
— Você não é esquisita. E eu não vou te largar. Só se você quiser. E, sinceramente, eu prefiro alguém com quem eu consiga conversar sem precisar ficar competindo com outras vinte pessoas.
Lorena sentiu o rosto esquentar. Aquela ruiva definitivamente conseguia o que queria.
— Ah.
— Então?
Ela respirou fundo.
— Vou pensar.
Eduarda assentiu, sem pressioná-la.
— Tudo bem.
Mas o sorriso que apareceu no rosto de Lorena denunciava que ela já tinha uma resposta encaminhada.
***
Mais tarde, depois de tomar banho e trocar de roupa, Lorena voltou para o quarto e encontrou Eduarda já deitada de um lado da cama, mexendo no celular. A ruiva levantou os olhos quando percebeu sua presença e afastou um pouco o cobertor, apontando para o espaço vazio ao seu lado.
— Você pode ficar desse lado.
Lorena colocou o travesseiro no lugar e deitou, tomando o máximo de cuidado para não chegar perto demais. Deixou uma distância enorme entre as duas, quase caindo para fora da cama. Eduarda continuou rindo para a tela, até perceber a posição quase desconfortável em que a outra estava.
— Você está confortável?
— Estou.
— Tem certeza? Porque você está praticamente caindo da cama.
Lorena olhou para o espaço enorme entre elas e soltou uma risadinha sem graça.
— Eu estou bem aqui.
— Tá bom.
Eduarda não insistiu. Apenas apagou a tela do celular, colocou-o sobre o criado-mudo e se ajeitou no travesseiro.
— Boa noite, Lorena.
— Boa noite.
Lorena fechou os olhos e tentou dormir, mas estava longe de conseguir. Era difícil relaxar sabendo que Eduarda estava deitada a poucos centímetros dela. Por mais que tentasse se convencer de que aquilo era apenas uma situação normal entre duas amigas, seu coração não queria concordar.
Ela passou um bom tempo encarando o teto, mudando de posição de vez em quando e tentando encontrar uma forma de se distrair. Aos poucos, porém, o cansaço acabou vencendo a ansiedade, e Lorena finalmente pegou no sono.
Acordou no meio da madrugada, sem fazer ideia de que horas eram. Ainda sonolenta, tentou se ajeitar na cama, mas parou no meio do movimento ao perceber alguma coisa diferente.
Eduarda estava muito perto. Muito perto mesmo. Tão perto que conseguia sentir o ar de sua respiração.
Conseguia enxergá-la completamente, pois o quarto não estava totalmente escuro. O rosto estava a poucos centímetros do de Lorena, com os cabelos espalhados pelo travesseiro e a expressão tranquila de quem dormia profundamente. O coração da morena, que até aquele momento estava completamente tranquilo, resolveu disparar de uma hora para outra.
Um fio de cabelo tinha caído sobre o rosto da ruiva.
Lorena ficou olhando para ele, incomodada com a vontade quase automática de afastá-lo. Levantou a mão devagar, mas parou antes de chegar perto. Aquilo seria estranho. Ela nem sequer tinha intimidade com Eduarda o suficiente para saber se podia fazer uma coisa tão simples.
Baixou a mão novamente e se obrigou a virar de costas para ela. Tentou fechar os olhos e voltar a dormir, mas a proximidade continuava presente na sua cabeça. Agora, além de saber que Eduarda estava logo atrás dela, conseguia sentir o calor do corpo da ruiva através do cobertor.
***
O domingo passou muito mais rápido do que as duas imaginavam. Depois do café da manhã, ficaram brincando com Biluzinho, que estava exigindo muita atenção.
Lorena e Eduarda acabaram se divertindo com as maluquices do cachorro, principalmente quando ele resolveu sair correndo pela casa inteira com o controle da televisão na boca, arrancando risadas de uma e deixando a outra desesperada.
Ficaram na sala assistindo televisão enquanto o cachorro dormia entre as duas. Em algum momento, Eduarda acabou pegando no sono no sofá, e Lorena ficou quieta, tentando não fazer barulho enquanto assistia a um filme que já tinha visto outras vezes.
Almoçaram e, no fim tarde, começaram a arrumar as coisas para deixar a casa de Paulinho. Ele finalmente tinha dado sinal de vida, mandando uma mensagem avisando que voltaria em breve.
Eduarda mandou um áudio desaforado para ele, xingando todas as gerações do amigo, enquanto Lorena a incentivava.
O motorista da família de Lorena chegou para buscá-la no fim da tarde e, ao saber que Eduarda também precisava ir embora, acabou oferecendo uma carona. As duas não moravam tão perto uma da outra, mas a rota permitia que ele deixasse a ruiva em casa antes de seguir para a casa de Lorena.
— Duda...
A ruiva virou o rosto para ela.
— Oi?
— Sobre o baile...
Eduarda sorriu, como se já soubesse exatamente o que ela queria dizer.
— Você pensou?
— Pensei.
Lorena abaixou os olhos por um instante, reunindo coragem.
— Eu aceito ir com você.
***
Entre provas finais e os últimos trabalhos que precisava entregar, Lorena quase conseguiu esquecer que o baile estava chegando. Quase. Porque bastava alguém mencionar a formatura para seu estômago dar um nó e a lembrança de que iria ao evento ao lado de Eduarda voltar com tudo.
O quarto dela estava tomado por roupas, maquiagem e acessórios espalhados pela cama. Ela já tinha trocado de roupa duas vezes, embora soubesse desde o início qual vestido queria usar. A melhor amiga dela, Maggye, também estava lá. As duas tinham combinado de se arrumar juntas e, entre fofocas e ameaças de desistência, Lorena tentava fingir que não estava prestando atenção no relógio a cada cinco minutos.
Paulinho tinha ficado responsável por buscá-las. Pediu para o motorista pegar as duas em casa antes de seguirem para buscar Eduarda.
Quando entrou no carro, Lorena ajeitou cuidadosamente o vestido para não amassar e colocou a bolsa no colo.
— Demoraram, hein? — Paulinho provocou, virando o corpo para olhar Lorena e Maggye melhor. — Mas estão lindas.
— Não demoramos! Você que quase não tem cabelo e nem toma banho — a prima rebateu.
Passaram boa parte da viagem se provocando, entre piadas de Paulinho e comentários de Maggye. Lorena estava tão entretida que nem teve tempo de raciocinar quando chegaram ao endereço. Só percebeu que estavam ali quando viu Eduarda aparecer na porta.
A ruiva caminhou até o carro, abriu a porta traseira e se sentou exatamente ao lado de Lorena, que estava no meio.
— Oi, gente.
— Oi — responderam em um coro.
Eduarda fechou a porta e, assim que se acomodou, olhou para Lorena de cima a baixo, sorrindo.
— Você está linda.
Lorena assentiu, escondendo um sorriso.
— Você também.
— Adorei seu vestido — comentou Eduarda, sem saber um terço do efeito que causava na morena.
Lorena abriu a boca para responder, mas foi interrompida por Paulinho. Sempre ele.
— Nossa, que interessante. Eu e Maggye também estamos aqui, viu?
Lorena fechou os olhos, morrendo de vergonha.
— Cala a boca, Paulo!
— Ué, só comentei que tem mais gente além de vocês duas.
— Por favor…
Eduarda riu e deu um leve empurrão no ombro de Lorena com o próprio.
— Deixa eles.
Lorena olhou para ela, sem saber se ria ou se se jogava pela janela.
Assim que chegaram ao salão, foram recebidas por uma decoração elegante, digna do valor que os pais tinham investido para que a festa acontecesse. O espaço já estava cheio de alunos, familiares e professores, que se enturmaram entre si.
Depois de cumprimentarem alguns colegas, os quatro seguiram para uma das mesas reservadas para suas turmas. Paulinho e Maggye ficaram de um lado, enquanto Lorena e Eduarda acabaram sentadas juntas do outro.
Lorena ajeitou discretamente o vestido e olhou ao redor, tentando se acostumar com o ambiente. Respirou fundo e apoiou as mãos sobre o colo, até sentir Eduarda se aproximar um pouco, sussurrando em seu ouvido:
— Está nervosa?
Lorena virou o rosto na direção dela, encontrando um sorriso discreto no rosto da ruiva.
— Um pouco.
— Eu também.
A confissão fez Lorena sorrir. Ela não esperava que Eduarda também estivesse nervosa e, de alguma forma, aquilo fez seus próprios sentimentos parecerem menos exagerados.
— Você? — Lorena riu baixinho. — Achei que você não ficasse nervosa com essas coisas. Daqui a pouco seus fãs chegam aqui.
Eduarda fez uma careta e balançou a cabeça, cansada só de imaginar ter que conversar com meio mundo de gente.
— Hoje eu vou ficar só com o meu par — declarou com a maior naturalidade.
Um garçom passou pela mesa carregando uma bandeja, e ela pegou dois drinks de uma vez, estendendo um deles para Lorena. Eduarda já tinha começado a beber o próprio drink quando percebeu que Lorena continuava olhando para ela.
— Que foi?
— Nada.
— Você está estranha.
— Não estou.
Eduarda deu de ombros e tomou mais um gole, completamente tranquila.
A movimentação no salão aumentou conforme os familiares começaram a chegar. Lorena logo reconheceu os pais no meio dos convidados e se levantou para recebê-los. Eduarda fez o mesmo quando avistou os seus. Distribuíram abraços, receberam muitos elogios e foram puxadas para uma sequência inevitável de fotos.
Quando finalmente se livraram dos familiares, alguns colegas já esperavam pelas duas para registrar a noite com a turma. Entre poses e brincadeiras, Lorena e Eduarda acabaram ficando juntas em boa parte das fotos, quase sempre lado a lado.
— Vamos dançar? — Eduarda perguntou do nada.
Lorena olhou para a pista e depois para ela, pega de surpresa.
— Eu?
— Vamos! É só hoje, depois você se livra de mim. — Eduarda estendeu a mão, e Lorena não conseguiu recusar. Segurou os dedos da ruiva e deixou que ela a conduzisse até a pista.
Uma sequência de funks começou, fazendo todos darem um grito uníssono e animado. Lorena, que definitivamente não tinha nascido para rebolar, nem tentou acompanhar os passos dos colegas. Ficou apenas se mexendo de um lado para o outro, rindo dos amigos. Paulinho e Maggye dançavam ao lado delas, completamente despreocupados com qualquer noção de vergonha. A presença dos dois deixou Lorena mais à vontade e, depois de algumas músicas, ela já estava se divertindo de verdade, sem pensar tanto em como se mexia.
Aos poucos, a playlist foi mudando de ritmo, até que uma música mais lenta começou a tocar. Eduarda diminuiu os movimentos e ficou de frente para Lorena.
— Posso?
Lorena assentiu.
A ruiva segurou uma das mãos de Lorena e apoiou a outra em seu braço. A morena fez o mesmo, ainda um pouco desajeitada, e as duas começaram a se movimentar devagar. Lorena tentou prestar atenção na música, mas era difícil com Eduarda tão perto.
Ela sabia que só teria aquele momento para revelar tudo para Eduarda. Talvez, amanhã, elas nem conversassem mais.
— Duda… preciso te contar uma coisa.
Eduarda franziu a testa, curiosa.
— O quê?
Lorena desviou o olhar para outro canto da festa antes de conseguir encontrar coragem para encará-la novamente.
— Lembra das flores que você recebeu em casa?
— Uhum, lembro. O que tem elas?
— Eu que mandei.
Eduarda arregalou os olhos.
— Você?
Lorena assentiu, sentindo o rosto esquentar.
— Eu… queria te convidar para o baile. Só não sabia como fazer isso.
— Lorena... eu nunca nem suspeitei que tinha sido você.
— Eu tentei mandar um bilhete primeiro, mas ele foi parar nas mãos erradas — revelou.
Eduarda levou a mão à boca, tentando conter o riso.
— Quem recebeu?
— A Isa…
A ruiva não conseguiu se conter e gargalhou, jogando a cabeça para trás. Lorena acabou rindo também, embora ainda sentisse o rosto quente.
— Não acredito que foi você! — Eduarda soltou, ainda tentando recuperar o fôlego. — Ela ainda achou que tinha sido eu.
— Pois é… — Lorena escondeu o rosto por um instante, morrendo de vergonha. — Foi horrível.
— Agora tudo faz sentido. — Eduarda voltou a encará-la e apertou a cintura dela mais uma vez, fazendo um carinho por cima do vestido. — Então você realmente queria ir comigo?
Lorena respirou fundo e assentiu.
— Queria. Muito.
Eduarda deixou escapar um sorriso pequeno, daqueles que apareciam quando alguma coisa realmente a deixava feliz.
— Você podia ter falado.
— E falar o quê? “Oi, Eduarda. Eu gosto de você desde sei lá quando e queria te chamar pro baile”?
— Eu não ia achar ruim.
— Você fala isso agora.
— Falo porque é verdade.
Lorena abaixou os olhos, mas Eduarda não deixou que ela se escondesse outra vez. Com cuidado, levantou um pouco o rosto dela, fazendo com que seus olhares se encontrassem.
— Eu gostei das flores — admitiu, agora sem nenhum traço de brincadeira na voz. — Mesmo tendo quase me matado.
— Desculpa por isso…
— Você não sabia.
— Mesmo assim…
— Eram muito lindas. Eu fiquei triste por não poder mais cheirá-las, mas minha mãe adorou e também quis saber quem mandou.
Eduarda continuou olhando diretamente nos olhos de Lorena, até que eles desceram até a boca da morena. Ela percebeu e o coração bateu mais forte.
Eduarda se aproximou devagar, dando tempo para que ela recuasse se quisesse. Lorena, porém, permaneceu exatamente onde estava. Quando os rostos ficaram próximos, a ruiva inclinou levemente a cabeça e encostou os lábios nos dela.
Foi um selinho breve, delicado, mas suficiente para fazer o coração da morena disparar e deixá-la completamente sem reação. Quando se afastaram, Lorena ainda estava tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
— Desculpa… — a ruiva murmurou, com um sorriso sem graça. — Desculpa ter tomado a iniciativa.
Lorena ainda estava tentando processar o beijo. O coração batia tão rápido que ela teve a impressão de que Eduarda conseguiria ouvir. Baixou os olhos por um instante, deixando escapar um sorriso tímido, e depois voltou a encará-la.
— Eu não sei por que você não fez isso antes.
Eduarda ficou surpresa com a resposta. O sorriso voltou ao rosto dela, dessa vez muito mais aberto.
— É mesmo?
Lorena assentiu, ainda com o rosto quente, mas foi ela quem tomou a iniciativa.
Segurou o rosto de Eduarda com as duas mãos e encontrou a boca dela. Os lábios se encaixaram com mais vontade, e Lorena sentiu o corpo inteiro reagir quando Eduarda correspondeu, puxando-a um pouco mais para perto pela cintura.
Eduarda abriu um pouco a boca, e a ponta da língua dela tocou de leve o lábio inferior de Lorena, como um convite. Lorena tremeu, mas não se afastou. Abriu a boca em resposta, e a língua de Eduarda deslizou para dentro, quente e macia, encontrando a dela.
Elas se apertaram ainda mais uma contra a outra. A mão de Eduarda deslizou da cintura para as costas de Lorena, puxando-a com firmeza, enquanto a língua se aprofundava no beijo lentamente. Até tinham esquecido que estavam no meio de uma pista de dança, ao redor de todos os colegas, professores e parentes.
Quando finalmente se separaram, o fizeram devagar, os lábios ainda se tocando de leve. Lorena abriu os olhos com cuidado e sentiu o sopro quente de Eduarda contra a boca. A ruiva ainda sorria, o olhar brilhante, e então se inclinou mais uma vez, deixando um beijo carinhoso na bochecha dela.
A poucos metros dali, Paulinho estava olhando diretamente para as duas.
— Meu Deus… — Lorena murmurou, afastando-se um pouco da ruiva ao perceber que ele estava parado olhando para elas. — Eu vou matar ele.
Eduarda acompanhou o olhar dela e encontrou o amigo parado, com um sorriso enorme no rosto e o copo erguido, como se estivesse fazendo um brinde. Ela não aguentou e também começou a rir, balançando a cabeça.
— Deixa. Pelo menos o plano dele funcionou — brincou, buscando a mão dela. — Vamos voltar para a mesa?
Lorena caminhou ao lado dela, ainda sorrindo feito uma idiota. Sentia uma felicidade boba, incontrolável.
Durante anos, Lorena tinha achado que Eduarda estava longe demais para ela. Agora, caminhava ao lado dela, tentando esconder um sorriso que simplesmente não cabia no rosto.
Pela primeira vez, não precisou imaginar como seria beijá-la ou tê-la por perto.
Ela finalmente sabia.
