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Under a Gentler Moon

Summary:

O ano é 1999, um ano após a Segunda Guerra Bruxa, e Hogwarts finalmente reabre suas portas após meses de reconstrução.

Draco Malfoy ainda tenta se lembrar como é respirar sem sentir culpa. Ele agora carrega cicatrizes invisíveis e uma parte da guerra que voltou para casa com ele.

Chamado de volta para terminar os estudos - mais por ordem do Ministério do que por vontade própria - tudo o que quer é passar despercebido.

Mas o mundo parece insistir em curar o que ele tenta esconder - principalmente quando Harry Potter, igualmente quebrado, começa a aparecer ao seu lado com um sorriso cansado e uma torta de limão que, inexplicavelmente, tem gosto de paz.

Entre luas cheias, silêncios constrangedores, refeições compartilhadas e uma amizade no mínimo inesperada, dois garotos que já se enfrentaram começam a descobrir que cuidar um do outro pode ser o primeiro passo para seguir em frente. E talvez, só talvez, descubram que algumas coisas não precisam ser ditas para serem sentidas.

Chapter 1: O Ruído do Silêncio

Chapter Text

Draco Malfoy sempre gostou do silêncio — talvez porque fosse o único lugar onde o mundo não o encarava de volta.

Mas o silêncio não o suportava.

Ele grita, quebra, rasga. O corpo de Draco acompanha, tomado por espasmos que doem como castigo. A dor vem como uma velha conhecida: cruel e paciente. Ossos se deslocam, músculos se retorcem e a carne se estica além do limite. A respiração se perde entre os gritos que ele tenta engolir. O som é grotesco demais para alguém que sempre buscou a quietude.

E é ali, no auge do barulho, que percebe a ironia: naquela noite, ele era o ruído que destruía o próprio refúgio.

Tenta não olhar para as correntes. Nem para a porta atrás da qual sua mãe espera em silêncio. Nem mesmo ela pode entrar. Não enquanto ele se torna aquilo.

A transformação nunca fica mais fácil.

Nunca fica menos solitária.

Draco se odeia por cada segundo que permanece consciente.

Ele chora e se contorce, desejando uma realidade onde pudesse ser apenas o Malfoy de antes. Ao menos ele era só um garoto mimado, arrogante e cruel. Um ser humano horrível, sim, mas humano.

Agora, nem isso consegue ser.

O sangue escorre por baixo das unhas. Os ossos se rearranjam. Um gosto metálico invade sua boca.

Tudo grita aquilo que ele se recusa a aceitar.

Monstro.

Não era a primeira transformação. Nem a segunda. Nem a quarta. Draco já perdera a conta de quantas luas cheias enfrentara.

Tudo começara uma semana antes do julgamento da família Malfoy: a primeira transformação, o choque inicial, o medo de ser visto e a dolorosa certeza de que aquela seria sua realidade dali em diante.

Talvez fosse o que merecia.

Um covarde.

Um garoto que escolhera o lado errado.

Alguém tão podre quanto ele deveria sofrer. Deveria pagar.

Então por que é tão difícil? Por que dói tanto?

Lucius Malfoy, agora preso em Azkaban, foi o primeiro a confirmar aquilo que Draco mais temia. A carta que Narcisa recebeu — e que ele só soube porque ela não conseguiu esconder as lágrimas — era curta, fria e definitiva:

"Esse não é o filho que criei. Um Malfoy não se contamina."

As palavras o atravessam como uma lâmina.

O vazio.

A rejeição absoluta.

O peso de deixar de ser reconhecido como filho.

Contido apenas pelo medo de ferir a pessoa que mais amava, Draco se entrega à dor da transformação. Cada músculo se retorce. Cada osso estala. O corpo grita contra a mente, lembrando-o de que arrependimento nenhum seria capaz de apagar o que havia se tornado.

Do lado de fora, Narcisa espera.

Em silêncio.

Firme.

Paciente.

Ela não pode entrar. Não enquanto a lua cheia governa o filho que tanto ama.

Mas permanece ali. Sempre ali. Oferecendo o que só ela pode: presença, paciência e cuidado.

Quando o corpo finalmente cede, Draco desaba.

Os gritos desaparecem.

A dor se aquieta.

Narcisa entra.

Suas mãos encontram a pelagem branca do lobo, ainda quente, repousando entre correntes de ferro e roupas rasgadas. Ela o acaricia com delicadeza, oferecendo uma calma que nem mesmo as luas cheias conseguem roubar.

Meio inconsciente, meio desperto, o lobo relaxa sob seu toque e solta um suspiro baixo.

Por um instante — breve, mas eterno — Draco sente que talvez ainda exista algo de humano dentro dele.