Work Text:
Edd esteve encarando a televisão a horas.
Talvez não, na verdade. Mas era assim que ele sentia que estava desde que acordou naquela sexta-feira: sentado no sofá e mofando no material gasto enquanto a televisão brilhava com as notícias mais desinteresses.
Apesar da situação consideravelmente desagradável e monótona, não havia uma boa razão pra desviar os olhos. Ringo, a exigente gatinha que normalmente estaria miando por atenção, dormia ao pé da mesa na cozinha; Tom e Matt estavam enfiados em seus quartos, ainda dormindo, o que não era problema, já que Edd era quem provia o dinheiro para a casa.
Bom, pelo menos quando conseguia algum trabalho. Uma semana tinha se passado desde a última vez que havia realmente ganhado uma quantia considerável para pagar as contas. Era difícil viver em Londres sendo um artista freelancer. Por isso, era viável procurar por qualquer mínima promoção que eles pudessem pagar, desde o sachê da Ringo até às roupas que usavam.
Não sabe como passar o Dia de São Valentim? Soou da tela. Aproveite o dia na ASDF Land, o melhor parque de diversões da cidade! Brinquedos especialmente decorados para o dia esperam todos os casais, além de ofertas incríveis!
Ah, sim. Tinha isso também. Era Dia de São Valentim. Não que Edd ligasse muito pra parte romântica, fazia anos desde a última vez que sequer segurou a mão de uma garota, mas era uma ótima oportunidade para conseguir coisas mais baratas. O britânico passou a mão pelos cabelos, cogitando ir até o centro para tentar conseguir alguma coisa barata no mercado. Afinal, ele ainda tinha de preparar o almoço. E o jantar. E alimentar a gata. Enfim, era bom que começasse a andar logo.
-Nossa querida patrocinadora, Coca-Cola, oferece UM fardo especial de doze latinhas com 50% de desconto para os casais! Para reinvindicar, tenha os ingressos carimbados na entrada do parque.
Isso imediatamente o chamou a atenção, seu olhar agora grudado na propaganda e mãos agarrando o travesseiro do sofá com emoção. A embalagem 3D de um CGI barato girando ao lado da logo ASDF era uma visão quase divina, e ainda por metade do preço!
Edd imediatamente se levantou, seu corpo finalmente se libertando da superfície gordurosa. De repente, sentia que tinha energia pra andar Londres inteira se isso significasse comprar Coca mais barata; sua mente não registrou as condições como algo sério, sabia que poderia só inventar algo no momento, não é como se estivessem realmente checando quem está acompanhado.
Estavam. Estavam sim checando.
Já do lado de fora era possível ver um rapaz conferindo os carimbos dos ingressos com um tamanho desinteresse, mas não o suficiente para o fazer parar. Edd franziu as sobrancelhas, escorando o rosto na grade gélida da entrada e agarrando as barras com tamanha tristeza. Se recusava ter andando tanto para ser barrado, a ideia de voltar sem os refrigerantes lhe deixou genuinamente irritado; teria sido mais fácil pedir que um de seus amigos tivessem o acompanhado — Tom teria aceitado, provavelmente, já que gostava do ASDF — ou um de seus vizinhos, talvez? Como Laurel, ou...
"Eu posso te ajudar a entrar."
Edd bateu a cabeça na barra em que estava escorado, o coração errando uma batida com o susto da voz repentina atrás de si. Suas mãos imediatamente foram para a testa já inchada, uma onda de tontura o fazendo cerrar os olhos com força.
"[Devagar,] Sakte, Edward." A voz fez novamente, tentando não rir.
O britânico abriu os olhos, o sol escaldante embaçando a visão por alguns segundos. Era exatamente o que ele precisava agora: uma cabeça doendo, o cheiro insuportável de doce derretendo e Tord o assustando. Além de provavelmente ter que voltar pra casa sem o refrigerante e gastar mais dinheiro com o metrô.
Espera aí.
Edd sentiu sua pressão cair, a dor já insuportável se juntando com a surpresa de ver Tord novamente depois de tanto tempo. Faz o que? Cinco anos, talvez?
"Os bilhetes. Eu posso te ajudar a entrar lá. Eu conheço o cara."
Tord estava diferente. Fazia muito tempo desde que deixou Durdam Lane, então era normal que tivesse mudado, mas tinha algo... Estranho. Era fácil perceber para alguém que o conhecia bem.
Um curativo nojento e velho cobria boa parte da sua bochecha esquerda, parecia ser mais alto — talvez sejam os sapatos — e seu cabelo tinha um brilho quase artesanal. Finalmente teve coragem de olhar para os olhos, e então percebeu que Tord já estava o observando de volta. Com hesitação, Edd sorriu para ele, e o sorriso foi retribuido.
"Tord? Hva gjør du her?" O homem da bilheteria estava próximo deles agora, falando rápido o suficiente para Edd não conseguir entender nenhuma das palavras.
"[Ele está comigo,] Han er med meg, Paul." Paul. Então eles se conhecem.
"São namorados?" Paul murmurou, como se a simples ideia fosse repulsiva. Ou como se soubesse que era mentira.
"A gente tá aqui pelos refris. Ja, min kjærlighet?"
Edd sentiu seu rosto esquentar com a vergonha de lembrar o que isso significa. A vergonha de lembrar o porquê de ter aprendido e a vergonha de estar nessa situação. Nem deve estar TÃO mais caro assim no mercado.
"[Escuta,] Hør her, Tord. Não sei o que vai fazer aqui mas espero que seja rápido." Paul carimbou um dos ingressos que estava no bolso e o empurrou para o norueguês, fazendo um "vai embora" com os lábios.
-
O sol iluminava os balões e metais coloridos das atrações de uma forma que quase fez Edd esquecer que não estava ali exatamente para se divertir. Era infantil e bobo, mas ele se sentia genuinamente feliz por ter encontrado Tord nessas condições — e por ter o encontrado no geral — talvez até pudessem ir em algum dos brinquedos se enchesse o saco do amigo o suficiente, era assim que ele conseguia a maioria das coisas de outras pessoas afinal.
Começou a observar o norueguês novamente e, agora que estavam caminhando e sem ninguém por perto prestando atenção, pôde perceber que as coisas estranhas de antes eram facilmente explicadas: o curativo estava lá para tampar um corte; estava mais alto por conta do par de botas militares; provavelmente tinha pintado o cabelo e por isso o brilho era mais forte.
Isso trouxe um alívio imenso, o estranhamento era apenas fabricação do tempo em que estiveram separados. Tord tinha o direito de mudar e tinha mudado, Edd só precisava se adequar à nova realidade da vida que o amigo estava levando.
Abriu um sorriso, estava animado para reatar a conexão que tinham.
Andando entre a multidão que começava a se formar, Edd percebeu o quão incomodado Tord parecia; apesar de ainda se portar como o adolescente que gostava de provocar os amigos, estava claramente procurando por algo que não envolvia a música alta e os brinquedos. Algo que provavelmente ultrapassava os interesses de um cidadão comum, já que era sempre assim com ele.
Desde cedo, antes mesmo de conseguir pronunciar mais de dez palavras em inglês, Tord tentava convencer Edd e os outros de sonhos grandes que envolviam revoluções, maquinaria e discursos de Lênin; claro, na maioria deles, ele era o centro, o líder que salvaria o mundo do capitalismo e seria bajulado por garotas asiáticas. Mas tinha algo de genuíno e quase inocente quando desenhava a foice e o martelo no seu caderno.
Eventualmente, deixou os desejos adolescentes e planos grandiosos para trás e começou a focar no claro talento que tinha para física e outras coisas que nunca deixou ninguém ver, mas que rendiam folhas e mais folhas de anotações. Foi exatamente por isso que saiu da casa que compartilhava com Edd e provavelmente é por isso que está no parque.
Como era de se esperar da cidade, o clima fechou rapidamente, fazendo o céu escurecer numa mistura de azul, linhas cinzas e nuvens escuras. Isso fez com que as pessoas que estavam fora das filas procurassem abrigo da garoa fina, seja debaixo de tendas ou dentro das lojinhas de lembrançinhas; a alegria afobada que tomava conta do parque começou a se dissipar, deixando a situação antes mágica para trás e voltando para a realidade.
"Achei." Tord agarrou a mão de Edd, as gotas geladas de água passando por eles enquanto corriam para baixo de uma barraquinha com um letreiro comicamente grande da Coca-Cola apontando para ela. Era quase impressionante como não tinham percebido antes.
Edd teve de se apoiar no balcão, respirando com dificuldade. "Eu tenho que parar de..." Seus olhos param nas latinhas de refri, uma mistura de azul e vermelho do letreiro as iluminando, fazendo com que ele deslizasse para mais perto com interesse. "Parar de ser tão sedentário."
Tord não se virou para ele. Na verdade, desde que passaram por Paul, mal reagia a qualquer contato que o britânico tentava iniciar.
De repente, se sentia inadequado. Talvez Tord o achasse muito bobo agora e Edd só estava passando vergonha.
Não era assim antes. Quando eles eram mais parecidos e compartilhavam os dias dentro da casa, Edd não tinha a preocupação de parecer idiota ou não, até porque ele era mesmo, mas Tord gostava disso.
Boa parte do tempo em que passavam juntos era preenchido por desenhos obscenos que publicavam em fóruns, música alta e brigas passageiras, geralmente pelos motivos mais bestas possíveis.
Mas, desde que deixou eles, Tord parecia mais maduro e focado em um objetivo que só ele podia ver.
Edd mordeu o interior da bochecha, agora inquieto. Do nada, seu casaco e tênis levemente molhados estavam o deixando extremamente desconfortável. Tentou ignorar, ajeitando a postura quando percebeu a mulher dentro da barraca o encarando com desaprovação.
Tentou um sorriso tímido como desculpas. Abaixou a cabeça enquanto esperava Tord pedir a Coca, vendo pela visão periférica o amigo mostrar o bilhete colorido que indicava o hipotético romance entre eles.
"Obrigado por... Por me ajudar a conseguir entrar no parque. Não sabia que o seu amigo Paul ia realmente estar de olho nisso aí." Inclinou a cabeça na direção do bilhete, rindo do absurdo de estar acompanhado por ninguém mais que Tord. "Então, você... Você tá de volta pra Londres ou...?"
"Paul não é meu amigo." Tord entregou o dinheiro para a vendedora, agradecendo o fardo com um sorriso. "Aí."
Edd piscou rápido, ainda meio desnorteado com a situação. Ele olhou para baixo, pegando dos braços do amigo as latinhas de refri.
"Não precisava ter pagado, eu já ia-"
"Cadê o resto?"
"O resto- Tom e Matt?"
"Tom e Matt." Tord sussurrou, como se descobrisse pela primeira vez como falar essas palavras.
"A gente pode... Pode voltar. Eles tão lá," mordiscou o lábio. "Aposto que iam gostar de te ver."
Que mentira.
Tom tolerava a presença do norueguês; já foram amigos — Edd suspeitava as vezes que até mais que isso — mas depois que saíram do ensino médio, já não era a mesma coisa. No dia em que Tord deixou Durdam Lane, Thomas fez questão de ajudar a colocar as malas no carro, com certeza quebrando algumas das coisas ao jogá-las no porta-malas. Matt gostava dele, ou pelo menos fazia um bom trabalho em fingir; ênfase no gostava, pois se acertou com uma das invenções de Tord, um apagador de memórias, e desde então suas memórias só sobreviveram pelas fotografias e troféus que colecionam das aventuras que viveram.
"Eu não vou voltar pra casa. Só vim te ver," O norueguês deslizou as mãos pelo casaco verde, apertando os braços de Edd para o manter parado.
Por um momento, Edd pensou ter visto algo nos olhos de Tord. E por um momento, pensou que seria abraçado, ou beijado, talvez. Não é como se não tivessem feito isso antes, mas ia ser bem diferente agora, depois de tudo que aconteceu e o tempo em que ficaram separados...
Edd cerrou os olhos com força ao sentir Tord se aproximando, as latinhas escorregando nas suas mãos pelo suor que começou a escorrer. Quantas vezes não tinha imaginado esse exato cenário? Era praticamente um sonho se realizando, então porque isso estava o deixando tão nervoso?
"O que você tá fazendo."
Edd imediatamente abriu os olhos, encontrando os de Tord o encarando. Merda. Abriu a boca para tentar falar alguma coisa, mas antes que pudesse emitir algum som, sentiu uma mão pressionar contra sua boca.
Tord começou a olhar em volta freneticamente, segurando o amigo perto de si com força; a vendedora parecia ter percebido algo também, batendo as janelas metálicas e se trancando dentro da loja.
A chuva aumentou, deixando o céu mais escuro e provocando uma neblina bizarra que se estendia pelo parque inteiro, as luzes dos brinquedos sendo a única fonte de localização.
Ainda assim, Edd viu o que estava vindo.
Zumbis. Não era a primeira vez que tinha visto um desses, inclusive, uma história engraçada tinha acontecido a uns anos atrás envolvendo Tord e o conceito de um morto-vivo. Mas agora estavam sozinhos e vulneráveis.
Uma das criaturas que se aproximava contorceu o pescoço na direção das luzes de onde estavam, as órbitas vazias tentando encontrar um alvo. Era uma visão agoniante, os membros se torciam em direções inaturais e a carne verde inchada parecia respirar por conta própria debaixo da chuva.
"Edward," suspirou contra o ouvido do britânico. "Me escuta. Eu vou te soltar e você me segue. Eu sei onde a gente pode ficar."
O outro assentiu rapidamente, seu coração acelerando com o mar de emoções afogando seus sentidos; os lábios de Tord estavam perto de seu ouvido, sua mão agarrando com força o casaco e... Ah, os zumbis também. Tinha isso, claro. Ele estava com muito medo deles.
-
Correram por alguns minutos na direção contrária das atrações, passando entre as árvores para passarem despercebidos pelos zumbis até chegarem em uma área afastada do parque. Os destroços espalhados pela grama molhada criavam uma trilha até o fliperama, ou o que sobrou dele.
Uma onda de nostalgia fez Edd parar por um momento enquanto Tord procurava por algo no bolso.
Era o fliperama que frequentavam na adolescência, quando Tom e Matt ainda não tinham tanta intimidade e Edd eram quem tinha que convencê-los a trocar palavras; eram sempre os jogos que faziam os três se soltarem, e as vezes quatro, se Tord estivesse em Londres naquele mês.
E o mesmo que foi queimado pelos clones. Teve isso também. Foi uma situação engraçada, dependendo de quem você pergunte.
O norueguês começou a andar na direção do concreto, um feixe de luz violeta saindo de um dispositivo estranho que segurava para iluminar o caminho, fazendo com que Edd saísse da sua fantasia sobre o passado e voltasse a seguir o amigo.
Entre as poças d'água, boiavam as fitas policiais desgastadas de um tempo em que ainda se tinha interesse em reconstruir o local; o que não aconteceu pelo tamanho estrago feito.
Tom até foi até o fliperama no dia seguinte depois de ser coagido pelo resto do grupo, mas os corpos que provavelmente estariam carbonizados não estavam mais lá. O caso foi abandonado, Bing continuou sendo um diretor de cinema fracassado e o lugar permaneceu em pedaços; as memórias escorrendo pelas paredes toda vez que a chuva deterioava um pouco mais o material.
Uma pequena parte da estrutura permaneceu de pé, provavelmente onde deveria ser a parte norte do salão principal. Os fios expostos das máquinas balançavam com o vento e a chuva, dando um visual apocalíptico para os desenhos desgastados nas laterais.
Tord chutou uma pilha de pratos e copos descartáveis que estavam jogados no canto, se agachando para examinar alguma coisa. Ele parecia saber o que estava fazendo, então Edd esperou parado ao lado de um dos jogos. Passou a mão na tela, sentindo um pequeno choque passar da ponta dos dedos para o resto do braço. Foi esse que a gente jogou juntos pela primeira vez.
Era uma das lembranças que pensava com frequência quando estava sozinho na madrugada trabalhando.
Ele e Tord passaram horas depois da escola no arcade naquele dia. Edd tentou explicar a história do jogo através de rabiscos e frases curtas, admirando o talento que o amigo tinha para atirar e seu sorriso genuíno ao matar os inimigos pixelados.
Se empurravam de brincadeira, lutando pelo controle dos botões e pelo melhor personagem. Desenhavam um para o outro, explicando estratégias para passar de fase.
Antes de irem embora, Tord tentou enfiar algumas libras em uma máquina de bebidas, uma latinha de Coca deslizando do compartimento para as mãos do garoto. Quando viu que o norueguês estava se aproximando, Edd fingiu estar interessado em um dos chapéus de aniversário que estava sobre uma das mesas, enrolando o cordão do casaco no dedo.
"[Olhos,] Øyne, Edward." Tord ficou na ponta dos pés, tentando se fazer maior que o inglês, escondendo o refrigerante atrás de si.
Edd sabia o que ele estava escondendo, mas quis entrar na brincadeira. Revirou os olhos antes de os tampar com as mãos.
Clique. Tssss.
Tord rompeu o lacre perto do rosto do amigo, o cheiro doce provocando uma risada de Edd.
"Seu sem graça," ele tomou a latinha da mão do garoto. "Falei que só era pra comprar se eu ganhasse de você."
"Mas eu quis comprar." Se aproximou. "Não tem quase ninguém aqui, nem tem graça mostrar que você perdeu mesmo."
Edd nem tinha percebido que já estavam quase sozinhos, apenas alguns funcionários tirando as decorações das mesas, crianças entrando e saindo do banheiro e boa parte dos jogos já abandonados piscando imagens chamativas para ninguém em particular.
Antes que pudesse reagir, Tord já estava próximo demais, seus grandes olhos observando Edd como se fosse a única coisa no fliperama.
"[Quer fazer uma coisa maluca?] Har du lyst til å gjøre noe sprøtt?"
"Edward?"
Edd piscou rápido, voltando para a realidade do que estavam vivendo no agora. Olhou para baixo, onde parte do piso estava levantado, revelando uma escada que levava para... Algum lugar. Chegou mais perto, uma salinha extremamente branca e iluminada estava lá embaixo, um grande contraste para o desastre que era na superfície.
"... Como que-"
"Eu sou um cientista," Tord abriu um sorriso, olhando para o esconderijo que ele mesmo havia montado. "E outras coisas aí. Eu fiz muitas coisas nesses anos, muita coisa mesmo."
Edd assentiu devagar, tentando entender como que isso aconteceu. Claro, nunca tinha duvidado da inteligência do norueguês. Ou da amizade deles. Mas agora parecia que nada em que ele acreditava era verdade.
"Vem. Saí da chuva."
-
Era surreal. As paredes sustentavam quadros repletos de cálculos e esboços que Edd não conseguia decifrar, uma bandeira preta com um símbolo vermelho pontiagudo — deveriam simbolizar orelhas de gato, talvez? — além de uma grande quantidade de frascos vazios que claramente já guardaram algum líquido dentro.
Ficou boquiaberto ao pé da escada enquanto Tord enfiava algumas coisas dentro de uma mochila.
"Não era pros zumbis terem chegado aqui," começou. "Sabe, foi só um erro de cálculo e mesmo assim a ReDeux vai descontar uma porrada de dinheiro do meu salário."
"Rede... Re o quê?"
O norueguês se virou, seus olhos passeando pelo rosto de Edd, se divertindo com o quão chocado ele parecia.
"ReDeux Biotecnologia. É onde eu trabalho agora e é bem pertinho da sua casa."
Os passos de Tord ecoaram pelo espaço pequeno. Parou na frente da bandeira, observando o tecido por alguns segundos.
"Tem tanta coisa que você não sabe, Edward. Tem tanta coisa pra acontecer ainda e você nem sabe."
"... Você tava em Londres esse tempo todo?"
"Londres, Oslo, Bucareste, Washington... Isso importa?" Se virou. "No futuro, nada disso vai fazer diferença. Vamos ficar juntos de novo, inclusive o Matthew e Thomas."
Edd sentiu seu corpo arrepiar. Provavelmente era pra servir de conforto, mas as palavras de Tord fizeram os olhos do inglês arderem com as lágrimas que ameaçavam cair.
O orgulho que brilhava em Tord se acalmou por um momento, suas mãos alçando o outro par com um toque gentil mas insistente.
"Eu prometo que vai fazer sentido. Vai valer muito a pena tudo que eu tô fazendo." Sussurrou, apertando o pulso de Edd para que ele olhasse para cima. "A gente vai se ver de novo daqui uns meses na sua casa. A revolução vai estar na porta da Europa quando isso acontecer. Vai ser o melhor dia das nossas vidas, Edward."
A respiração de Edd começou a acelerar, seu coração batendo forte contra o peito. Ele não conseguia acreditar no que estava ouvindo, seu cérebro ainda processando o fato de que Tord nunca foi visitar por cinco anos inteiros.
Um aço rijo encostou na lateral de sua cabeça, os dedos do norueguês circulando o gatilho. Puta merda.
"Não vai doer. Você só vai esquecer de tudo que aconteceu hoje. Lembra do protótipo que eu fiz quando ainda tava em Durdam Lane?" Riu baixinho, chacoalhando o apagador de memórias contra o cabelo castanho do britânico. "Mas esse aqui fiz só pra você."
Com a outra mão, segurou a nuca de Edd, o puxando para um beijo.
O beijo foi tudo menos gentil. Enquanto os lábios de Tord pressionavam firmemente os seus, Edd correspondeu à pressão com um suspiro, suas mãos deslizaram para agarrar a camisa do outro com força.
Sentiu o sabor doce da boca do norueguês, um contraste forte com a amargura das revelações e a pressão da arma. Sua resistência se transformou em um estado de desespero e êxtase, o extinto de sobrevivência se misturando com o relutante prazer de estar beijando Tord de novo.
Num movimento rápido, Tord forçou Edd contra a parede, mantendo o inglês refém e, antes que ele pudesse tentar fugir, pressionou o joelho entre as coxas do amigo, que tomou um susto com o toque e bateu a testa contra a do outro homem.
Tiveram de se separar do beijo por conta do impacto, uma linha de saliva conectando os dois. Os dedos de Tord cravaram na cintura do britânico para o manter mais parado o possível. Para garantir que não o machucasse de verdade.
"Não se mexe," arfou contra o rosto de Edd. "Vai ser pior se você se mexer."
Um suspiro sufocado escapou da garganta de Edd. Um som que era deveria ser um protesto, saiu como um gemido baixo; o contato físico era eletrizante, a adrenalina fazendo com que se sentisse mais vivo do que nunca e, ao mesmo tempo, como se estivesse a beira da morte.
Tord observou enquanto o dispositivo contra a cabeça de Edd ganhava vida; o tênue brilho vermelho que saia da ponta da arma refletindo na sala inteira. Ele não hesitou, nem demonstrou qualquer sinal de remorso. Era claro que suas ações não eram motivadas por um desejo de crueldade, mas um ato genuíno de piedade para que Edd esquecesse da dor de descobrir o que descobriu.
"NÃO- Não, não," Edd tentou resistir de novo, arqueando as costas para fugir da arma, seus olhos arregalados focados no dedo que estava prestes a apertar o gatilho. "Eu não vou contar pra ninguém! Sério, Tord- Que merda! Para com isso-"
Um flash intenso o cegou, acompanhado de um zumbido elétrico terrível que parecia ter ecoado pelo seu crânio. Sentiu uma descarga intensa percorrer seu cérebro, afetando a noção de realidade por alguns segundos, fazendo com que o corpo perdesse a gravidade e Edd caísse no chão.
A última coisa que viu foram um par de botas em frente ao seu rosto enquanto tremia pelos espasmos provocados pela descarga elétrica. Algo quente escorreu de seu nariz, provavelmente sangue, sentiu um gosto metálico na língua antes de apagar definitivamente.
-
"Bip. Bip. Bip. Bip. Bi-"
"Para com isso." Tom deu um soco fraco no ombro de Matt, que suspirou MUITO ofendido com o ataque, mesmo que não tivesse doído.
"Ei! Eu tô tentando criar um ambiente confortável e familiar pra ele!"
Edd piscou com força, abrindo os olhos devagar para se acostumar com a luz amarelada da sala da casa deles. Parecia mais forte do que nunca, queimando suas bochechas e fazendo suas pálpebras coçarem.
"Santo gatinho andando de bicicleta...Tu tá molhado e sujo pra caralho- Onde é que você tava, Edd?"
"Eu achei ele jogado na frente do nosso quintal," Matt olhou na direção da janela, como se fosse descobrir o que aconteceu se olhasse bem de perto. "Você veio andando, foi? Hein, Edd?"
"Eu... Eu não... Eu não sei," Pressionou a mão contra o nariz, o sangue seco criando uma textura desconfortável. "... A Ringo já comeu?"
"Já, eu dei a ração agora a pouco- Cara, o Matt foi comprar umas coisas no mercado e quando voltou você tava todo ferrado na calçada. Tem certeza que tu não bebeu um galão de Coca-Cola ou alguma coisa assim?"
Edd balançou a cabeça, se sentando no sofá. Seu corpo estava meio dolorido e as roupas molhadas de lama estavam extremamente nojentas.
"Sei lá... Deve ter sido. Eu nem lembro onde eu tava nas últimas... Na verdade,o dia todo."
Tom e Matt se entreolharam, dando de ombros, não tinha muito o que fazer. Edd estava relativamente bem, ainda tinha sua carteira e ninguém parecia ter invadido a casa.
"Olha... Eu vou fazer a janta. Vocês dois se virem aí." Tom se levantou do sofá, dando um tapinha nas costas de Edd.
Edd sorriu para ele antes de virar para Matt.
"... Trouxe Coca do mercado?"
