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Há milênios, perdi aquele que deveria ter sido minha cara-metade. Aquele a quem minha alma, moldada pelo próprio Criador, parecia se acoplar nos menores silêncios, na escuta atenta de cada um dos seus gestos.
A chegada dele nunca foi surpresa; fui arranjado para a plateia. Antes que eu existisse, a presença dele já empesteava o horizonte. Antes que meus olhos pudessem se abrir no sexto dia da Criação, sua essência, impregnada de uma calmaria quase sufocante, acalentava o vazio que me preenchia. Ele buscava algo que, até então, sequer tinha nome dentro de nós, pelo menos acreditava.
Após o nascimento do mundo, seu nome foi anunciado. Mas o tempo é um carrasco implacável e, com a minha Queda, esse nome na sujeira das incontáveis noites que vieram depois. Seu primeiro título, o de simples anjo, era o que nos colocava lado a lado. Pés a pés. Não porque fôssemos iguais; mas sim porque igualdade implicaria que ele buscasse e ardesse pela mesma obsessão e inquitetação que eu, o que nunca foi verdade, mas porque, naquele instante original, nenhum de nós estava acima do outro.
Nunca pude competir com a sua amabilidade ou com o fascínio que ele exercia sobre os outros. Na verdade, eu sequer desejava ser visto, por ele ou sua plateia. A presença dele é que devia ser notada à distância, com tal intensidade que os próprios olhos criados por Deus arrisavam ficar nublados ou cegos diante de tamanha luz. Por isso, bastava-me observá-lo de longe. Causava-me uma sutil melancolia ter de me aproximar em momentos de crises divinas ou por meros deveres de ofício. Se existíamos em um equilíbrio sutil, eu não deveria perturbá-lo com minhas atribulações.
Mas o destino não opera por lógica. Fui agraciado, e simultaneamente envenenado, com a atenção dele em um primeiro momento. Aquilo me viciou. Preferi me perder na luxúria desse sentimento a enfrentar a podridão do meu pecado. Não me arrependo; afinal, foram esses vislumbres que sustentaram minha alma durante a posterior desorientação.
Uma inquietação crescente passou a tomar conta do meu ser e desta casca que habito. Cacei de todas as formas os seus olhos azul-marinho fixos em mim, não importava o contexto, a reprimenda ou a dor de minha essência. Milênios depois, entendo o quão malvisto era um anjo ser repreendido tantas vezes pelos céus, mas se esse era o preço para manter algum contato, que assim fosse.
Sua voz me hipnotizava. O roçar de suas asas, maiores e mais majestosas que as minhas lado a lado, me paralisava. "Enfeitiçado", diriam os outros mais tarde. Mas era mais do que isso: era admiração, veneração e inveja corrosiva de como ele conseguia ser tão impecavelmente... vazio. Como eu poderia me tornar como você, se há algo nas profundezas do meu ser que puxa minha essência para baixo? Uma falha de fabricação que dividia minha mente, com incertezas e sombras que cegavam a mim de seus feitos. Ele parecia imune a esse ruído e peso. Sozinho, como sempre estive desde a alvorada dos tempos, me calei diante dos outros para não contaminar a sua pureza com a minha maldição.
Longas caminhadas pelos jardins celestiais foram o meu recurso para tentar conter o que transbordava. Erro meu. Ao admirá-lo tão de perto, esqueci que você podia ler minha essência com pouquíssimas palavras, e que, a cada olhar seu, eu desmoronava e me entregava por inteiro. Tentei equilibrar essa maldição espelhando seus passos, imitando seus movimentos como anjo, moldando-me ao que eu julgava ser o nosso propósito sagrado. Mas isso era um antigo veneno que se alastrou em silêncio até o estopim.
Nunca fomos iguais. Nunca fomos um equilíbrio perfeito. O Criador podia ser o mesmo e o propósito parecia alinhado, mas o que queimava em mim jamais encontrou eco na sua essência. Nossa união era um arranjo feito de vinhas espinhosas, fundido em sal; bastaria uma gota d'água para que tudo se desfizesse.
E assim aconteceu. Tento me convencer de que esse caminho já estava traçado no Livro da Vida. Talvez estivesse. Era o curso "natural": de anjo a serafim. Das sandálias aos pés descalços; das asas modestas ao amontoado de asas majestosas envolvendo sua nova forma divinizada. Sua ascensão quebrou a balança. E o nosso equilíbrio se encerrou ali.
Se é que algum dia houve.
O veneno que antes se acoplava silenciosamente às minhas entranhas passou a transbordar. Cada uma de suas ações direcionadas a mim passou a soar fria, com uma rigidez distante, além de qualquer padrão suportável. Foi nesse instante que compreendi a metamorfose: o que antes fora admiração e obsessão cega transformou-se em ódio puro. Um ódio que corria por toda a minha essência como um vulcão em erupção, sua lava incandescente queimando por dentro cada vestígio do que fui.
A atenção que eu tanto cobiçara agora nos era distribuída quase por piedade ou dever — a mim e aos demais que caminhavam pela corda bamba, os deserdados, os futuros infratores. Mas eu não a queria mais. Pior do que rejeitá-la, passei a desejar a ruína daquele a quem antes via como meu único equilíbrio. E passei a abominar o próprio Criador, que nos colocou nessa peça perversa.
Se o equilíbrio fora destruído e a ilusão de um propósito compartilhado se desfizera no ar, por que continuar servindo? Por que permanecer ajoelhado perante à ti e ao Criador?
O feitiço entre nós finalmente se quebrou, e embora a essência arruinada dentro de mim ainda tremesse diante da sua presença imperiosa, agora oculto atrás do amontoado de asas que escondiam seu rosto, a ausência de seu olhar era o combustível definitivo para a minha antiga inquietação. A rejeição velada atiçou a chama final.
Afinal, naquelesmomento inalmente comprrendi para que exatamente fomos feitos. Com a ruína e a revolta devidamente retiradas do véu de ilusão, percebi então que a pior das dores não foi a rejeição, nem a frieza que emanava de suas novas formas divinas. O verdadeiro martírio foi perceber que caí na mais sórdida dos devaneios. Se tudo já estava traçado nas páginas do Livro da Vida, então meu destino nunca foi o equilíbrio; foi a armadilha. Uma trama orquestrada nas sombras pelo Criador e executada com precisão cirúrgica por aquele que chamei de metade. Fui moldado desde o primeiro instante com a essência quebrada, com a alma defeituosa e predisposta à ruína, apenas para servir de degrau na sua ascensão.
Ele sabia. Agora próximo demais do trono, ao lado da própria fonte de toda a luz, ele certamente contemplou os projetos da Criação e viu a minha farsa desenhada. Viu que eu fora feito para tombar. E ainda assim, sustentou aquele olhar azul-marinho sobre mim durante milênios, fingindo acolhimento enquanto me observava caminhar, passo a passo, em direção ao abismo que prepararam para mim. Seu silêncio direcionado a mim e às minhas perguntas só reforçavam a narrativa e essa é a pior parte do veneno: sustentava a mentira de que ele era minha cara-metade enquanto, na verdade, tudo não passava de um plano friamente calculado para que apenas eu sofresse.
Ele nunca se despedaçou e nem mesmo sentiu o peso da dúvida ou o terror da inadequação: o sofrimento foi um privilégio exclusivo meu. Fui o único ingênuo a acreditar na ilusão do equilíbrio, o único cego que tomou arranjos de espinhos por laços de alma. Ele e o Criador sabiam que eu era o único "defeituoso" da equação, o vaso rachado que seria descartado assim que cumprisse o papel de destacar a perfeição do outro.
Pensar que entreguei minha devoção mais pura e sincera a um teatro celestial, onde só a minha carne queimou e só a minha essência sangrou, é o que transforma... a inquietação em mim em uma chama de injustiça. Fui o único a cair na armadilha porque fui o único que ousou sentir. E sentir... não há palavra mais amaldiçoada para um anjo do que essa. Essa palavra não foi ensinada à nós e nem mesmo estivera em qualquer dos dicionários da língua que humanos fizeram; anjos não sentem, e eu não caí por "sentir".
Caí por ser a única peça com defeito de fábrica, a única a deixar que esse ruído inominável operasse dentro do sistema. A santidade exigia pureza, obediência e uma resignação estéril que, aqueles criados para serem quebrados como fui, não se sustentariam por muito tempo.
A matemática do Criador se cumpriu com uma perversidade impecável: a luz precisa de uma sombra para parecer brilhante; a redenção precisa do pecado para ter valor; e o bem necessita desesperadamente do mal para justificar sua própria existência.
Pois, eu, não fui apenas uma vítima da minha própria vulnerabilidade e ingenuidade; fui o sacrifício necessário para que a santidade dele brilhasse. Fui feito para cair, para que ele pudesse se erguer, num equilíbrio entre os dois mundos.
