Chapter Text
O silêncio de Godric's Hollow sempre foi diferente de qualquer outro, mas nos últimos setenta anos, ele havia se tornado absoluto.
Harry James Potter sentava-se na poltrona de couro gasto de sua biblioteca, com os olhos fixos na lareira que crepitava baixo. Sua aparência era exatamente a mesma de quando completara vinte e sete anos: os cabelos pretos perpetuamente desalinhados, a cicatriz em forma de raio ainda nítida na testa e os olhos verdes assustadoramente brilhantes. No entanto, por dentro, ele carregava o peso de quase trezentos anos de existência.
Ele esticou os dedos e, com um mero pensamento, sem o uso de uma varinha, convocou um copo de uísque de fogo. A magia respondia a ele não como uma ferramenta, mas como uma extensão de sua própria biologia.
No início, Harry achou que sua vitalidade era apenas o resultado de uma genética forte ou da magia residual de ter sobrevivido à Maldição da Morte duas vezes. Mas o tempo, o mais cruel dos juízes, revelou a verdade. Enquanto os fios de prata começavam a adornar as têmporas de Gina, Harry permaneceu intocado. Ele assistiu, com o coração em pedaços, sua amada esposa envelhecer e, finalmente, fechar os olhos pela última vez. Depois vieram Rony e Hermione. Ver Hermione — sempre tão cheia de vida, intelecto e determinação — definhar até se tornar uma anciã frágil foi o golpe que quebrou algo definitivo dentro dele. Seguiram-se os filhos, os netos e os bisnetos. Toda a sua linhagem, todos que ele já amou, foram levados pelo rio inevitável do tempo.
Menos ele.
Harry acabou descobrindo o motivo em uma noite de tempestade, quando tentou destruir a Varinha das Varinhas e a Pedra da Ressurreição jogando-as no fogo do Departamento de Mistérios. Os artefatos simplesmente retornaram para seus bolsos, intactos. A Capa da Invisibilidade, que ele herdara de seu pai, parecia ter se fundido à sua própria aura.
Ele não era apenas um bruxo poderoso. Ele era o Senhor da Morte. Oficialmente, não metaforicamente como o Trio de Ouro pensava.
A ironia da situação era tão vasta que, às vezes, Harry ria sozinho na escuridão de sua mansão isolada. Era uma risada amarga, quase histérica. Durante séculos, o mundo bruxo foi assombrado por Tom Riddle. Voldemort fragmentara sua própria alma, cometera atrocidades indescritíveis e mergulhara na mais profunda depravação mágica, tudo pelo desejo obsessivo de alcançar a imortalidade, de se tornar um deus entre os homens. Riddle queria desesperadamente o que Harry agora possuía. E Harry, o homem que o derrotou, daria tudo o que tinha — cada gota de seu poder incomensurável — para experimentar o luxo simples de envelhecer, de sentir as dores nas costas da velhice e, eventualmente, de se deitar em um caixão para finalmente reencontrar sua família no que quer que houvesse além. Tom Riddle transformou-se em um monstro para evitar a morte; Harry Potter transformara-se em um monstro porque a morte se recusava a levá-lo.
Decidido a encontrar uma saída, Harry abandonou a sociedade bruxa e trancou-se em estudos. Sem laços vivos e sem a necessidade de comer ou dormir regularmente, ele devorou bibliotecas inteiras. Viajou pelos cantos mais obscuros do mundo, aprendendo alquimia antiga no Egito, magia rúnica na Escandinávia, feitiçaria de sangue na América do Sul e necromancia reversa nos confins da Ásia. Ele dominou as artes mágicas a um nível que nem Alvo Dumbledore ou Voldemort jamais sonharam. Ele compreendeu a estrutura molecular da magia e as tecnologias trouxas do futuro.
E foi no ápice de sua erudição solitária que ele encontrou a resposta: não uma cura para a imortalidade em sua linha temporal atual, mas um ritual de retrocesso causal. Uma quebra profunda no tecido do tempo.
O plano de Harry era simples, embora matematicamente absurdo: ele voltaria no tempo através de uma projeção de sua própria consciência e magia. Ele não pretendia salvar seus pais ou impedir a ascensão de Voldemort — ele sabia que mexer com o destino do mundo traria consequências catastróficas. Seu objetivo era puramente egoísta e focado: ele impediria a si mesmo de se tornar o Senhor da Morte. Ele garantiria que a Pedra, a Varinha e a Capa nunca se unissem sob o comando do jovem Harry Potter. Ele quebraria o ciclo antes que ele começasse. Ele escolheria a mortalidade.
No centro de seu laboratório subterrâneo, Harry desenhou o círculo rúnico com seu próprio sangue enriquecido por séculos de magia pura. Os três artefatos da morte estavam dispostos no centro. A Varinha das Varinhas vibrava com ressentimento; a Pedra da Ressurreição brilhava com uma luz gélida; a Capa flutuava como uma sombra faminta.
— Chega — sussurrou Harry, sua voz ecoando com o poder de mil tempestades.
Ele canalizou toda a sua energia mágica para o ritual. O ar ficou tão denso que o oxigênio parecia queimar. As runas no chão acenderam-se em um azul elétrico que rapidamente mudou para o verde-esmeralda de sua própria assinatura mágica. A dor que se seguiu foi inimaginável. Não era a dor do corpo físico rasgando, mas sim da própria alma sendo arrancada da tapeçaria do tempo presente e arremessada para trás, contra a correnteza dos anos, buscando uma âncora de sangue forte o suficiente para contê-lo.
O laboratório explodiu em luz branca e a consciência de Harry Potter foi engolida pelo vazio.
O som de choro foi a primeira coisa que Harry registrou. Não era o choro de um homem adulto ou o lamento de um fantasma, mas o choro agudo, irritante e insistente de um recém-nascido.
Ele tentou abrir os olhos, mas suas pálpebras pesavam toneladas. Quando finalmente conseguiu, a visão estava embaçada, mas ele pôde distinguir tetos altos de pedra e grandes janelas por onde entrava a luz suave da manhã. O cheiro de poções curativas, lavanda e lençóis limpos inundou seus sentidos.
— Olhe para ele, Henry... Ele se parece tanto com Fleamont quando nasceu.
A voz era feminina, cansada, mas repleta de um amor profundo. Harry tentou se mover, mas seus braços e pernas eram minúsculos, rechonchudos e completamente fora de seu controle coordenado. Um pânico frio começou a subir por sua espinha de bebê. O ritual falhara? Ele havia reencarnado como um trouxa? Onde estava sua magia?
Uma grande mão, calejada mas incrivelmente gentil, ergueu-o cuidadosamente. Harry focou a visão o melhor que pôde e congelou. O homem que o segurava tinha feições aristocráticas, mas um olhar severo e ao mesmo tempo caloroso. Ele usava óculos redondos e vestes formais de trabalho do Ministério. Era Henry Potter, seu bisavô paterno e membro ativo do Suprema Corte. Ele conhecia aqueles cavanhaques dos recortes do Profeta.
Atrás dele, na cama, uma mulher de cabelos escuros, olhos cinzentos e expressão exausta, mas imponente, sorria. Seus traços denunciavam a beleza altiva da qual descendia. Era Dorea Potter, nascida Black. Sua bisavó. Bem, agora sua mãe?
— Ele é perfeito, Dorea — disse Henry, a voz embargada pela emoção. Ele olhou diretamente para o bebê nos braços, e Harry sentiu um formigamento avassalador em seu próprio peito. Sua magia estava lá, profunda, adormecida e vasta como um oceano, mas trancada no corpo de uma criança. — Como devemos chamá-lo?
— Charlus — a mulher respondeu baixinho. — Charlus Harry Potter. Um nome forte para o nosso caçula.
Antes que Henry pudesse responder, a porta do quarto foi empurrada com força e um estrondo ecoou. Um rapaz de cerca de dezesseis anos, com os cabelos castanhos bizarramente espetados para todos os lados e óculos pendendo tortos no nariz, entrou correndo. Ele exalava o cheiro característico de ingredientes de poções e trazia as bochechas sujas de fuligem.
— Ele nasceu?! Deixem-me ver! — exclamou o jovem, aproximando-se do berço com uma energia caótica e uma alegria puramente genuína. Era Fleamont Potter. O avô de Harry.
Ali, no entanto, Fleamont era apenas um adolescente desajeitado e entusiasmado. Ele olhou para o bebê Charlus com os olhos muito abertos e abriu um sorriso enorme, revelando-se imediatamente o irmão mais velho protetor.
— Ele é tão pequenininho, papai! — Fleamont sussurrou, esticando um dedo longo e desajeitado para cutucar de leve a mão do bebê. — Não se preocupe, maninho. O mano mais velho vai te ensinar a fazer as melhores poções e a voar de vassoura assim que você conseguir segurar um cabo!
Harry parou de tentar se mover. As engrenagens de sua mente centenária começaram a girar furiosamente, recalculando a cronologia exata com base nas idades que testemunhava. Fleamont já era um rapaz quase adulto. Henry e Dorea haviam sido abençoados com uma gravidez tardia e inesperada.
O ritual sofrera um desvio monumental devido à colossal ressonância mágica das Relíquias. Ele não havia voltado para a sua própria infância nos anos 1980. Ele havia renascido exatamente no início de 1927.
Uma ironia ainda mais vasta e perigosa se desdobrou diante dele. Ele queria evitar se tornar o Senhor da Morte, mas o destino o havia arremessado para o ano exato após o nascimento de Tom Marvolo Riddle em Londres. Em setembro de 1938, quando Charlus Potter completasse seus onze anos e recebesse a carta de Hogwarts, ele cruzaria as portas do Salão Principal exatamente no mesmo dia, no mesmo ano e na mesma turma que o futuro Lorde das Trevas.
Olhando para o rosto adolescente e sorridente de Fleamont e o abraço caloroso de seus pais maduros, o bebê Charlus deixou escapar um pequeno suspiro, fechando os olhos. Se ele queria ser mortal e impedir que o jovem Harry do futuro unisse os artefatos, ele teria que jogar um jogo muito mais complexo, longo e próximo de seu arqui-inimigo do que jamais imaginara.
