Work Text:
Eduarda havia sido convencida por seus amigos Paulo, Maggye, Gerluce e Viviane a comemorar seu aniversário em uma festa, sendo acompanhados, por azar do destino, pela chuva forte que caía sobre a cidade. As amigas logo a abandonaram, entrando rapidamente no local para se protegerem da chuva, enquanto Paulo ficou do lado de fora para que a amiga não ficasse sozinha enquanto tentava falar com os pais.
O barulho da chuva se misturava ao volume abafado da festa ao lado e Eduarda tentava, com pouco sucesso, entender o que sua mãe falava no telefone.
Os pais de Eduarda estavam no aeroporto de Lisboa, prestes a entrar no voo para o Brasil e precisavam falar com a filha antes do embarque. Acontece que em algumas horas, passada a meia noite, seria seu aniversário e eles se recusavam a embarcar sem lhe desejar boas graças. Depois de um dia todo tentando o contatobe quando, finalmente, conseguiu, não conseguia ouvir metade das palavras carinhosas da mãe.
"Está ouvindo, minha filha?"
"Estou mãe!" Ela ouvia muito pouco.
"Chegaremos em breve!"
"OBRIGADO!"
"Feliz aniversário!"
"Tá bem!"
"PAPAI TE AMA" esse ela ouviu ao fundo e riu imaginando o homem - o respeitado desembargador Henrique Fragoso - berrar declarações de amor no meio do aeroporto europeu.
"Também amo o senhor!" Ela disse, assumindo que a ligação estava no viva voz.
Paulinho a arrastou para uma área coberta, protegendo-a da chuva e tirando a amiga da passagem para a porta de entrada, onde as pessoas que chegavam para a festa faziam fila para serem revistadas ou mostrarem o ingresso.
"Te amo minha filha se cuide"
"Te amo mãe"
"Não esquece de-"
E a ligação caiu novamente.
Eduarda apenas riu. Eles se veriam em breve, não era preciso todo esse desespero, mas sabia que seu pai provavelmente estava chateado por não ter conseguido se despedir apropriadamente. Se sentia completamente grata por ter pais tão amorosos, se esforçando ao máximo para viajar um oceano para conseguir aproveitar algumas horas do seu dia especial. Violeta e Henrique estavam a trabalho na Europa, mas precisavam urgentemente voltar à sua prioridade, sua garotinha.
Eles mandaram uma mensagem no grupo da familia e embarcaram. Agora sim Eduarda poderia entrar na boate despreocupada.
Enquanto passava pela revista, Eduarda podia ver através da porta de vidro da entrada, suas amigas a esperando do outro lado. Ela via gerluce rindo sem parar para ela e demorou a entender ao que a mulher se referia. Só quando viu Gerluce cutucar Vivi para lhe mostrar algo, soltou um suspiro.
Lá estava ela, a menos de 5 metros de distância, entrando naquela mesma festa, quem ela menos esperava encontrar.
Lorena.
Eduarda revirou os olhos para Gerluce, que riu ainda mais.
"O que foi?" Perguntou Paulinho querendo participar da interação à distância das duas.
"Lorena está aqui" ela falou baixo no ouvido dele e ele riu também.
Quando os dois amigos entraram de fato na festa, a movimentação ainda estava fraca. Talvez pela chuva, talvez por ter começado há pouco tempo. Mas havia muito espaço vazio na pista de dança e dava para notar cada um dos grupos de pessoas que se dividiam entre o salão e o bar.
Paulinho, Maggye e Viviane foram imediatamente pegar bebidas para todos enquanto Eduarda e Gerluce escolheram um canto próximo a coluna mais próxima do centro do salão para dançar de frente para o DJ, à vista de todos menos de quem estava atras da bancada que dividia o espaço ao fundo. Exatamente onde Lorena estava, dançando com um homem. Eduarda notou.
"Qual das suas duas namoradas você vai beijar hoje?" Brincou Gerluce ao flagrar Eduarda distraída, com o pensamento lá no fundo da boate.
"Não tenho namorada nenhuma"
Ela tinha ficado com Maggye uma única vez, uns três ou quatro meses atrás. Totalmente coisa de festa, álcool e oportunidade. Zero intenções de repetir a dose, não porque não tinha sido bom, mas por ter sido algo do momento. Maggye era muito melhor como uma nova amiga que se encontra ocasionalmente por aí. Inclusive era inclusive uma grata surpresa ter aparecido para comemorar seu aniversário junto com eles.
"Aposto que até o final da noite, vai beijar uma sim"
"Ai, fica quieta" empurra ela de leve, com um sorriso.
"Do que estamos falando?" Chega Vivi entregando uma garrafa à Eduarda e brindando com a sua.
"Deve ser da Lorena" Implica Paulinho.
"Cala a boca Paulo Heitz"
"Quem?" Questiona Maggye, querendo participar da fofoca, ou por não ter ouvido direito, Eduarda não sabia.
"A menina que deu ghosting na Eduarda" revela Gerluce, apontando com a garrafa na direção do fundo da boate. Eduarda dá um tapa em seu braço, lhe repreendendo pela indiscrição. "AI"
Estava escuro, não precisava do tapa pois ninguem teria visto, mas foi satisfatório. Maggye deu uma olhada na direção em que Gerluce tinha apontado.
"Ah aquela Lorena? Conheço ela."
Todos se olharam surpresos e Eduarda quis tacar a cabeça na parede. Claro que conhece, a situação não poderia ter ficado ainda mais ironica.
"A mãe dela frequenta a galeria do meu pai. Conta o que houve." Pediu muito interessada na fofoca.
Antes que Eduarda pudesse abrir a boca para resumir ou dispersar a história, Gerluce já se empenhava em resumir o momento como se fosse sua história, buscando a reação dos amigos.
"Elas ficaram em uma festa meses atrás e depois a menina deu ghosting nela no Instagram, e ainda fugiu quando se viram em outra festa."
Vivi e Paulinho assentiram, confirmando os fatos com seriedade e Maggye abriu a boca em um choque divertido com a descoberta.
"Vou lá perguntar porque ela deu ghosting em você" Brincou Maggye, tentando ir na direção de Lorena.
"NÃO FAZ ISSO, TA DOIDA?" Eduarda a puxou rapidamente em um claro desespero que fez todos cairem na gargalhada.
"Calma, estou só brincando!" disse maggye antes de completar mais baixo "...ainda não estou bebada o suficiente para isso."
A história era um pouco mais do que isso, mas ao mesmo tempo não era muito. Não era o lugar para contar aquilo com detalhes para Maggye, e talvez também nem valesse mais a pena. Então Eduarda apenas voltou a dançar com seus amigos e aproveitar sua noite.
Mas ela lembrava muito bem.
Cinco meses atrás, Eduarda estava naquela mesma boate. Era uma festa temática de uma banda que ela nem gostava muito, mas Paulinho e Gerluce eram fãs então ela fez questão de participar junto com o casal. Só que eles brigaram um dia antes e o clima não estava dos melhores, então em certo ponto da festa, enquanto o casal debatia a relação na área aberta da boate, Eduarda e Viviane aproveitavam as músicas conhecidas que o DJ tocava entre as da tal banda. Ao sentarem em uns banquinhos na lateral da pista de dança para descansar, Eduarda avistou ela. Já a tinha visto antes, rapidamente, sabia que estava em um grupo de amigas pois anteriormente era nesse grupo que Gerluce tinha se metido a dançar quando estava evitando Paulo. Mas só naquele momento, parada, descansando, Eduarda tinha de fato enxergado a mulher.
Ela estava na pista com as amigas, mas não estava dançando. Parecia preocupada com alguma mensagem no celular, alguma conversa lhe incomodava. A irritação não lhe impedia de estar linda, na verdade talvez só aumentasse sua beleza. Eduarda notou seu coturno desamarrado, e ainda levou uma música inteira para tomar coragem.
Se levantou e acenou para a mulher, chamando sua atenção. Apontou para o seu sapato, avisando do cadarço desamarrado e antes que ela reagisse, se abaixou para amarra-lo para ela. Em seguida apenas voltou para seu banquinho como se nada tivesse acontecido.
A mulher ficou sem palavras por um instante, totalmente desarmada da irritação que a aflingia anteriormente. E assim que se recuperou da caridade surpresa, foi até Eduarda. "Obrigada." Disse com o sorriso encantador que finalmente tinha dado as caras naquela noite, "Você namora? Posso te dar um beijo?"
Mais tarde quando contou o ocorrido aos amigos, Eduarda jurou que não tinha segundas intenções. Que honestamente nem sabia o que esperar daquilo, não esperava nada. Ela apenas viu uma mulher bonita desconhecida, com cara de brava, e sentiu uma vontade inexplicável de ajudá-la.
Podia ser algum toc pelo cadarço desamarrado.
Ou talvez apenas quisesse se ajoelhar para ela de algum modo.
"Pode" A ruiva respondeu e a mulher se abaixou à altura em que ela estava sentada, apenas lhe deu um selinho de agradecimento antes de dar meia volta para seu grupo de amigas. Com o humor totalmente mudado por óbvias razões.
Vivi, embasbacada, acompanhou a cena do início ao fim. Não fez qualquer comentário em voz alta, tanto por estar bastante alcoolizada, quanto pelo esforço de guardar na memória todos os detalhes para repassar a Gerluce quando a encontrassem na saída.
"Vamos?" Disse Viviane, algumas músicas mais tarde "Gerlu mandou mensagem no grupo. Eles estão nos esperando lá fora, acho que fizeram as pazes."
"Espera só mais um pouquinho" Pediu Eduarda, se sentindo um tanto patética.
Pouco após o agradecimento afetuoso, a mulher tinha saído com uma das amigas, talvez ao banheiro ou ao bar. Eduarda a tinha perdido de vista por um instante e agora estava esperando, torcendo, na esperança que a mulher do coturno voltasse pra roda dela, tomando coragem para ir até ela mais uma vez antes de ir embora. Patética.
"Vai ficar com ela?" Perguntou Vivi, imediatamente lendo as intenções da amiga que parecia um bambi perdido com olhinhos brilhantes procurando seu par no meio da floresta de pessoas.
"Vou só pedir o instagram" conteve a ruiva, na intenção de diminuir as proprias expectativas.
Mas era esse o plano. Ir até a mulher bonita, pegar seu Instagram e torcer para ela não ser hétero.
Só um selinho de agradecimento não esclarecia muito para Eduarda.
Mulheres heteros em festa podem ser criaturas muito peculiares.
Eduarda esperou mais uma música até levantar do banquinho novamente.
"Me passa seu instagram?" Disse próxima, quase no ouvido dela, enquanto entregava o próprio celular com o aplicativo aberto para a mulher digitar seu usuário e se seguir.
@Lor3naF
Ela viu o perfil de Lorena rapidamente e um "Posso te beijar?" Saiu da boca de Eduarda antes que passasse pela cabeça.
A resposta da morena foi em ação.
O inicio do beijo foi meio desajustado. Eduarda ainda estava tentando guardar o celular no bolso de trás enquanto puxava a cintura de Lorena para si com o outro braço. Sua mente travou, a deixando incapaz de realizar multitarefas naquele momento. Quando recalibrou a rota e o aparelho finalmente encaixou no lugar, ela pode usar a mão livre para aproximar a outra pela nuca, se encaixando com mais firmeza. O beijo foi apressado, mas com a sensação impulsiva e arrebatadora de aproveitar um achado inesperado.
Assim que suas bocas se desgrudaram, era hora de ir. Eduarda saiu com Vivi atrás do casal ex-brigado e todo o caminho de volta para casa foi preenchido por conversas e Vivi contando a aventura momentânea de Eduarda conhecendo a tal da Lorena. Ela estava ocupada demais para reclamar de ser o entretenimento dos amigos, estava inspecionando todo o instagram de Lorena Feretti.
Pela manhã Eduarda acordou com uma mensagem na DM.
3:35
Oi amor
Ainda tô meio bebada
Só queria perguntar: gostasse?
Sorriu pois não precisou nem pensar se deveria ou não mandar uma mensagem, lá estava Lorena dando outro primeiro passo.
7:26
Oi princesa, bom dia
Adorasse
E durante o mês que seguiu, as conversas pela DM aconteceram de forma meio inconsistente.
Eduarda revelou que tinha ido pra festa temática sem conhecer a banda.
Lorena indicou suas músicas favoritas.
Eduarda flertava.
Lorena correspondia mas sumia.
Eduarda passou mal de ressaca.
Lorena se preocupava.
Eduarda deu seu número de telefone.
Lorena nunca a chamou por lá e sumiu.
Lorena reapareceu dez dias depois explicando que tinha adoecido de uma gripe, ido parar no hospital.
Eduarda não ligou, estava feliz que estivesse melhor.
Elas comentaram sobre as fotos que tinham saído da festa.
Eduarda falou que lembra que Lorena estava triste e irritada com algo no celular no meio da pista de dança.
Eduarda descobriu que era algo sobre um ex, mas Lorena não falava muito sobre.
Elas conversaram mais alguns dias e então Lorena sumiu novamente. Sem resposta.
Eduarda aceitou e seguiu em frente. Não antes de todos os seus amigos ficarem sabendo que não tinha ido pra frente.
Três meses depois elas estavam na mesma boate e fingiram não ter se visto.
Mais um mês passou e elas estavam ali pela terceira vez na mesma boate, ainda sem se falar.
Tinha batido a meia noite e todos os amigos de Eduarda a amassavam, lhe desejando feliz aniversário. Todos lhe abraçavam com força, faziam belíssimas declarações no seu ouvido, meio bêbados, mas completamente sinceros. Todos pulavam juntos felizes celebrando sua vida, Eduarda não precisava de mais nada além de estar presente ali naquele momento entre aquelas pessoas, suas pessoas.
A pista de dança já estava mais cheia naquele ponto alto da noite. Lorena pulava e dançava no meio dela com o homem que chegara com ela, agora mais próxima do grupo de Eduarda. Toda vez que a ruiva perdia o olhar para aquele lado, quando o voltava dava de cara com Gerluce a encarando com um sorriso travesso no rosto como quem esperava que ela fizesse algo.
Eduarda não pretendia fazer nada, estava decidida. Mas isso não impedia que checasse de tempos em tempos para confirmar se o rapaz que acompanhava a mais alta era apenas um amigo gay, como as aparências indicavam, ou se estavam romanticamente envolvidos. Não iria admitir para ninguém que torcia com todas as forças para que fosse a primeira opção.
Lorena se portava como se a festa fosse sua, como se só existisse ela e seu amigo na pista de dança. Ora saltitando, ora movimentando o corpo como se a música entrasse em seus ossos. Os cabelos soltos, ondulados, ainda mais longos que da última vista, quase chegando na cintura, remexiam como em vida propria. Ela fingia tão bem não saber que Eduarda estava a pouco mais de cinco metros de distancia, que por um momento a ruiva cogitou ter sido esquecida de verdade, ou talvez ela só não ligasse para a sua presença mesmo.
Eduarda se sentia uma completa idiota sem um pingo de autopreservação, pois quando se tratava de Lorena, ela não sabia separar o que via do que sentia. Depois de todo o tempo que passou, a enrolação e o sumiço, ainda não conseguia evitar de enxerga-la como uma fantasia homérica. Para ela era como reencontrar uma metafora física, um enigma esfingico a ser desvendado.
Na intenção de aproveitar sua noite com os que de fato estavam ali lhe dando atenção e ao seu lado, mais que isso, exaltando sua existencia, Eduarda tentou focar em seus amigos.
Ela dançava com Vivi, dividia bebidas com Maggye, berrava letras de músicas com Paulinho bem no ouvido de Gerluce, ria com Gerluce dos passos aleatórios inventados pelo namorado dela, os cinco tiraram inúmeras fotos, suficientes para lotar o armazenamento já limitado do google drive de Paulinho. A diversão era capturada em imagens e em memórias que seriam apreciadas e recontadas em diversas mesas de bar seguintes.
“Eu vou dar um oi pra ela”, disse uma Maggye bêbada, tal hora da madrugada, enquanto caminhava em direção a Lorena e ao amigo. Do nada e sem dar tempo para reações contrárias.
As duas pareciam super à vontade uma com a outra. Logo, depois de cumprimenta-las rapidamente, o amigo se afastou um pouco para uma mesa ao lado e assistia a conversa sentado. O coitado parecia já cansado, mas muito interessado na fofoca desenrolando diante dos olhos.
Gerluce e Paulinho estavam dançando juntos em outra dimensão. Vivi acabara de chegar com mais bebidas. Eduarda estava um pouco bêbada e, naquele momento, se sentia sem supervisão.
Eduarda não pretendia fazer nada, estava decidida. Só que ela não era muito firme em decisões que envolviam belas mulheres.
“Eu vou fazer uma coisa engraçada”, disse para os amigos, mas principalmente para Vivi, a única que estava realmente prestando atenção, e então saiu acompanhando os passos de Maggye sentindo os olhos dos outros três queimando em suas costas.
Eduarda deu oi para Lorena como se elas também fossem velhas amigas, fingindo que nunca havia existido problema algum ou situação não resolvida entre elas. E a mais alta fez exatamente o mesmo.
Eduarda ficou ao lado das duas, fingindo prestar atenção na conversa. Então, sem motivo aparente, passou um braço ao redor de Maggye.
Mostrar intimidade? Provocar ciúmes? Ela já nem sabia mais. Depois colocaria a culpa no álcool.
“Diz pra ela que hoje é meu aniversário”, falou no ouvido de Maggye, como se estivesse contando um segredo. Mas falou alto o bastante, e bem na frente de Lorena. É claro que ela ouviu.
“AH, É O ANIVERSÁRIO DELA!”, Maggye gritou, como se estivesse anunciando uma grande novidade.
Meu Deus, ela estava realmente bêbada.
Eduarda, de repente, se sentiu até mais sóbria.
“Meu Deus, feliz aniversário!”
Lorena se jogou nos braços de Eduarda, abraçando-a novamente.
“Parabéns!”
“Você devia pagar uma bebida pra ela, pelo aniversário.”
Lá vem a Cupido Maggye, do nada.
“Você tem razão! Eu vou te pagar uma bebida”, disse Lorena, animada, como se ela também estivesse esperando a oportunidade certa para tentar alguma coisa.
Eduarda abriu um sorriso enorme.
Então ela ainda estava interessada.
“Não. Você devia pagar duas, pelo ghosting também.”
E lá foi a Cupido Maggye longe demais.
Eduarda quis desaparecer.
Ela achava que todas estavam fingindo que aquilo nunca tinha acontecido. Lorena claramente quase engasgou por um segundo também, mas logo se recompôs.
“Meu Deus, eu sinto muito.”
“Não, tudo bem.”
“Não está tudo bem. Eu vou te pagar duas bebidas.”
“Você não precisa.”
“Mas eu quero. Eu sinto muito mesmo.”
“Lorena…”
Lorena simplesmente pegou o cartão de crédito na bolsa dela que Ze Maria guardava, segurou Eduarda pela mão e foi direto para o bar.
No caminho, elas passaram pelo grupo de amigas de Eduarda, que as acompanhou com sorrisos nos olhos enquanto as duas seguiam em direção ao bar.
“Eu sinto muito”, Lorena repetiu enquanto esperavam na fila.
Eduarda já tinha perdoado os três pedidos de desculpa anteriores. Mas não podia negar que estava adorando aquele pequeno terror nos olhos da mais alta esperando para ser perdoada.
“Aquilo foi muito maldoso da sua parte.”
“Eu sei. Meu Deus, o que mais eu posso fazer pra compensar?”
Eduarda fingiu pensar por alguns segundos.
“Eu sinto muito, Duda. É só me dizer.”
“Você está perdoada. Eu só estou brincando com você.”
“Eu sei, mas eu estou falando sério.”
“Então paga só uma bebida e estamos quites.”
“Promete?” E Eduarda assentiu.
Se Lorena fizesse mais uma cara de tadinha Eduarda começaria a perdoar todos os erros que ela ainda cometeria no futuro. Em sua defesa, seus olhos verdes eram muito convincentes.
“Ok, espera." Lorena disse séria. "Primeiro: você está solteira?”
“Sim.”
“Ótimo. Mas você está emocionalmente disponível?”
Eduarda riu. Que pergunta específica. Parecia o tipo de coisa que só alguém que já tinha se machucado perguntaria.
“Sim”, respondeu com firmeza, tentando não deixar transparecer as dúvidas que passavam pela sua cabeça.
Ela estava? Estava emocionalmente disponível?
Gostava de acreditar que estava disponível o suficiente para qualquer coisa que Lorena precisasse.
“Ótimo. Desculpa, eu só precisava perguntar.”
E, antes que Eduarda pudesse sequer tentar processar aquilo, a mais alta chamou sua atenção para o cardápio.
“O que você vai beber? Pode escolher.”
“Só uma cerveja.”
“Isso não.”
“O quê? Você disse--”
“Sim, mas sou eu que estou pagando. Você pode escolher qualquer bebida.”
“Eu vou ficar na cerveja a noite toda. Não vou misturar agora.”
“Tem certeza?”
Eduarda tinha total certeza. Misturar bebidas nunca tinha dado muito certo para ela no passado. Ela ainda tinha flashbacks de guerra da ultima vez que saira com Paulinho para desestressar pós trabalho e acabaram voltando para casa um pior que o outro com consequencias de uma semana inteira de ressaca.
“Hoje temos Cosmopolitan dois pelo preço de um”, anunciou a bartender, chamando a atenção das duas. “Só hoje!”
Reforçou ao ve-las se aproximar do balcão.
É um golpe. Eles estão tentando acabar com a minha vida, pensou Eduarda.
“Tem ceeeerteza?”, perguntou.
“Só uma cerveja”, respondeu Eduarda firme, depois de reunir todas as suas forças.
“Tudo bem. Só uma cerveja.” A bartender também não insistiu. Apenas pegou a cerveja, abriu para Eduarda e deixou as duas à vontade.
Lorena pagou pela cerveja, mas não pediu nada para si. “Então me conta. Como tem sido sua vida desde a última vez que nos vimos?” Elas apenas se afastaram um pouco, e ela ficou observando Eduarda bebericar a cerveja com os olhos atentos.
“Você que deveria estar me contando, não?” provocou Eduarda, voltando ao sumiço da moça.
“Ai. É mesmo. Desculpa.”
“Estou brincando. Na verdade, não aconteceu tanta coisa assim, pra ser sincera. Eu perdi meu emprego e--”
“Meu Deus, eu também!” interrompeu entusiasmada como aquele tipo de noticia fosse algo bom.
“Não acredito.”
“E foi muito frustrante, sabe? Era o emprego perfeito. Bem remunerado, na minha área.”
“Meu Deus, eu também.”
“Paaara.”
“Estou falando sério. Acabou com todos os meus planos. Terminou de uma hora pra outra. E aí fui expulsa da casa dos meus pais, depois fiquei doente e então tive que voltar pra casa dos meus pais porque alguém precisava cuidar de mim. Uma bagunça completa.” Ela falava gesticulando tentando vender a veracidade de todas as suas desventuras em série, como se Eduarda fosse precisar de muito para ser convencida. "Sério, passei dias no hospital. Tal hora já estava achando que era Deus me punindo por ter te dado ghosting."
Eduarda riu.
"Talvez seja mesmo." brincou “Mas que aconteceu? Na parte de ser expulsa.”
“Pra falar a verdade, foi mais como se eu mesma tivesse me expulsado, sabe? Tive algumas brigas com meu irmão e decidi que já era hora.”
“Aquelas brigas em que eles dizem: ‘quem está incomodado que se retire’?”
“Exatamente! Então eu fui embora!”
“Isso foi corajoso.”
“É. Infelizmente, não durou muito. Fui sabotada pelo meu próprio sistema imunológico.”
“Meu sistema imunológico também não é muito meu amigo.” Eduarda a consolava enquanto cedia a garrafa de cerveja para que a morena a bebesse também “Mas você está bem agora?”
“Sim, cem por cento. Agora só preciso de um emprego de verdade pra poder ir embora de novo.”
“Estou torcendo por você.”
“Obrigada.”
Lorena estava vestida de forma semelhante à primeira vez que elas se encontraram.
Um vestido escuro de alça, na altura da metade da coxa, adornado por um falso espartilho, os famosos coturnos - dessa vez bem amarrados - e uma lista de acessórios tentando vender uma fachada gótica de abraçada pela noite. Mas a estética melancólica contrastava com a forma como ela se expressava. Lorena gesticulava com a empolgação de uma criança visitando um parque, mas não de um jeito infantil, era apenas uma facilidade desconcertante de demonstrar admiração em tudo que saia pela sua boca. Eduarda só tivera a chance de notar aquilo de verdade agora, junto ao perfume frutado, por uma proximidade mais intima de conseguir mapear o brilho dos olhos.
“Ok, eu estou vendo que muita coisa aconteceu, mas você não precisava ter simplesmente desaparecido, né?”
“Eu sei. Desculpa. É que… além de tudo isso, eu fiquei meio envergonhada por ter dado ghosting em você e--”
“E simplesmente decidiu nunca mais aparecer?”
“É, isso também. Mas, além disso, foi meio que um bi panic.” ela confessava meio encabulada.
"Olha, eu também estava toda abobada a cada mensagem que mandava." Eduarda confessou equiparando seus sentimentos. Mas sem querer acabou fazendo com que Lorena se sentisse mal novamente.
"Sinto muito, eu não deveria ter sumido." O olhar de cachorrinho caído da mudança estava de volta, até que ela lembrou de um detalhe e abriu um enorme sorriso. "O que você fez com o cadarço! Ughh, não superei!"
Lá estava ela falando como se o ato de amarrar seu cadarço fosse uma das coisas mais incriveis que alguem já tinha lhe feito. E Eduarda só estava contente de sua gentileza ter encontrado a pessoa certa.
“O que eu quero dizer é que, da última vez que nos encontramos, fazia muito tempo que eu não beijava uma garota que não fosse só uma amiga. Eu meio que não sabia mais como agir. Beijar um cara, tudo bem. Mas, quando é uma garota, de repente ela é o amor da minha vida e não consigo mais pensar em outra coisa.”
Eduarda levou alguns segundos para processar aquelas palavras que provavelmente eram só modo de falar, mas Eduarda gostou muito de ter ouvido aquilo como se significasse alguma coisa.
Talvez tivesse chegado a hora do seu próprio gay panic.
“Agora eu vou pegar aqueles Cosmopolitans e você vai beber comigo.”
Eduarda não se sentia em condições de negar.
Lorena pegou as duas bebidas com a bartender e as colocou juntas, estrategicamente. Não demorou muito para a outra entender a visão. Então Eduarda apenas ficou observando, como gostava de fazer, admirando como alguém podia estar tão investida no ângulo perfeito para uma foto de duas taças.
"Escolhe uma música" disse ela, virando o celular para a ruiva, mostrando seu trabalho com orgulho.
Eduarda assentiu em aprovação, mas sua mente deu um branco. Nenhuma música de que gostava parecia combinar com aquele momento; não havia nada em sua cabeça além da força mistica da natureza à sua frente.
"Escolhe uma música da Taylor Swift." respondeu, porque sabia que Lorena adoraria a ideia.
E adorou. Quase dava para ver fogos de artifício se acendendo em seus olhos com a oportunidade estendida.
Então ela escolheu a música e marcou a ruiva.
Uma foto simples de dois cosmopolitans, sem legenda, apenas Honey tocando ao fundo.
You can call me Honey if you want, 'cause I'm the one you want.
Ah, ela foi tão certeira.
Os drinks estavam na promoção, mas ainda eram caros demais para o quão ruim eram, pensou Eduarda. A foto definitivamente estava servindo como propaganda enganosa, pelo menos para o gosto dela, já que Lorena parecia não ter se incomodado muito com o sabor esquisito daquela mistura.
“Você aí gastando todo esse dinheiro pra se redimir, quando podia simplesmente ter me beijado de novo.”
Lorena parou na mesma hora, largando a taça em cima do balcão. “Espera, ainda era uma opção?”
Eduarda riu, sentindo o coração acelerar um pouco com a pergunta. “É claro que sim.”
O que Lorena pensou que elas estavam fazendo ali?
“Merda… por que eu não pensei nisso antes?”
“Você ainda pode fazer isso.” a ruiva sugeriu, ou melhor, ofereceu.
Antes que pudessem dar qualquer continuidade ao topico de compensações, retribuições e afins, o amigo negligenciado de Lorena se aproximou delas. Eduarda nem lembrava que ele ainda estava ali esperando por ela, e aparentemente a morena também não, tamanha a cara de surpresa com sua aparição. O rapaz estava reclamando que seu sinal de internet estava péssimo e ela simplesmente entregou o proprio celular para que ele roteasse e se divertisse no cantinho tal qual uma mãe que da o celular para a criança se distrair e não ter quer ir embora mais cedo.
Então Lorena começou a contar sobre sua amizade de infancia com Zé Maria, o quanto eles cresceram e aprenderam a serem humanos juntos. Uma irmandade que não vinha de sangue, mas de forças além. Ela falava do amigo de uma forma tão linda, na verdade era um poder especial que ela tinha de tornar os assuntos romanescos.
Era o jeito com que ela entregava um pedido de desculpas, como quem simultaneamente se sente mal de verdade, mas que também faria de novo sem pensar duas vezes. Lorena era como uma música da Marina Sena, que soava diferente a cada vez que Eduarda tentava desvendar. Ela era espiritualidade, sensibilidade, uma intuição. Lorena era a liberdade da busca, o se entender na leveza do errático. Sua existência mirava um arquétipo místico, a sereia que encanta e que afoga. Mas tudo era claramente construído em forma de fachada. Por vezes, as falas deixavam transparecer, nas pequenas rachaduras do lúdico, uma perspicácia de quem sabe o que está fazendo, sabe do que está falando. No charme de uma falsa inocência, o afogamento é voluntário.
E Eduarda estava encantada, já com os pés dentro d'água.
No meio da conversa ela viu, de rabo de olho, Gerluce e Paulinho passarem ali perto de mãos dadas claramente checando de longe o status das duas enquanto fingiam só mudar de ambiente na boate.
Lorena falava do apartamento que tinha dividido com uma amiga, depois de filmes de terror, passando pelos multiplos idiomas que ela tinha aprendido, sua série favorita, o casal pelo qual ela estava obcecada e sobre seu último trabalho. E a ruiva na sua frente anotava tudo mentalmente.
“Segunda-feira nós duas vamos sair.”
A intimação tirou Eduarda do transe que se encontrava na semântica de Lorena. Ela sabia que em algum momento o assunto tinha mutado de tarô para algum filme.
“Vamos?”
“Vamos!" Confirmou decidida. Não há escolha a ser questionada. "Vamos ao cinema. Escolhe um perto de você.”
“Tá. Mas eu levo cinema muito a sério." Eduarda não estava brincando. "Quando vou ao cinema, eu gosto de realmente assistir ao filme. Mesmo quando é um encontro.”
“Eu também." ela levantou os dedos divertida como se tivesse fazendo um juramento "Vai ser uma sessão séria, prometo. Quer dizer, por que a gente pagaria pra ver um filme se não fosse pra assistir ao filme?”
“Exatamente! Eu odeio quando as pessoas fazem isso.”
“Eu também.” Lorena repetiu sorrindo e completou, “depois a gente pode conversar sobre o filme durante o jantar. O que acha?”
Eduarda sorriu de volta.
“Fechado.”
Lorena segurou o olhar dela por mais um instante.
“Então é um encontro.”
Um sorriso pequeno apareceu no rosto de Eduarda.
“É. Um encontro.”
Talvez estar vestida como uma feiticeira devesse ter sido visto como um sinal. Um aviso sobre os feitiços que carregava consigo. Mas as sirenes vermelhas de perigo, brilhando e gritando dentro da cabeça de Eduarda, eram transformadas pelos ritmos do coração.
O vermelho, um espetáculo de luzes. O som, uma melodia.
O tempo passou, e elas nem perceberam.
Elas encontravam uma na outra todas as respostas certas.
A festa se tornou apenas um ruído de fundo.
O espaço fisico entre suas falas, diminuía a cada vírgula.
Então um
"VOCÊS AINDA NÃO SE BEIJARAM?"
as arrancou de sua bolha novamente.
Uma Maggye bêbada passou por elas, sendo arrastada por uma Vivi igualmente bêbada em direção aos bancos de trás.
Vivi articulou silenciosamente com a boca "Desculpa, continuem!"
As duas se olharam rindo, porem um pouco envergonhadas com a constatação. Talvez nem elas soubessem porque não tinham se beijado ainda - além das interrupções. Mas os momentos que estavam sendo compartilhados eram tão familiares que até ali a falta de pactuar a intimidade não soava exatamente como uma falta e sim como uma cobertura de bolo.
Porém aproveitando a observação da amiga de Eduarda, Lorena aproveitou para virar o restante do seu terrivel Cosmopolitan e decidiu tomar a iniciativa mais uma vez. Segurou a mão de Eduarda e a guiou de volta boate a dentro, deixando o copo dela pela metade sobre o balcão. Elas atravessaram a pista de dança como duas crianças atentadas em busca de uma oportunidade para travessuras.
E a oportunidade se manifestou em um banheiro feminino sem fila.
Assim que a porta se fechou, elas começaram a se beijar. Não era exatamente um beijo - era como se estivessem tentando recuperar, de uma só vez, todos os meses que haviam perdido. Beijos apressados, famintos, quase desesperados, como se seus corpos tivessem passado todo aquele tempo esperando por aquilo sem que nenhuma das duas tivesse percebido o quanto.
De repente, alguém tentou abrir a porta, interrompendo-as e fazendo as duas se assustarem. Elas se afastaram num sobressalto e empurraram a porta de volta, fechando-a rapidamente.
“Está ocupado!”, Lorena gritou.
“Você não trancou?”, Eduarda perguntou, ainda sem fôlego. “Você tá maluca?”
As duas riram juntas, ainda recuperando o ar.
Eduarda não sabia se deveria agradecer por terem sido meio que pegas ainda com toda a roupa no lugar ou se ficar incomodada justamente por estarem completamente vestidas.
Então olhou para Lorena.
Olhou de verdade.
Os cabelos estavam completamente despenteados, os lábios vermelhos e borrados, a respiração irregular, o vestido amassado.
É.
Definitivamente a segunda opção.
Eduarda a encostou contra a porta - agora oficialmente trancada - e voltou aos seus lábios, beijando-a com ainda mais intensidade do que antes.
Um beijo com a fome que faria o resto do mundo desaparecer.
Ela colocou o joelho entre as pernas de Lorena, e a outra começou a se mover contra sua coxa entre um beijo e outro, como se tivesse perdido completamente a capacidade de pensar em qualquer coisa além daquele momento e Lorena se agarrou aos ombros de Eduarda com força, como se precisasse de algo em que se apoiar para se manter em estado sólido.
Eduarda ergueu a perna direita de Lorena até sua cintura, aproximando ainda mais as duas, enquanto a outra mão a puxava para si. Lorena estava pressionada contra a porta, contra o corpo de Eduarda, contra tudo aquilo que parecia restar do seu bom senso. Sua perna erguida se ancorava em Eduarda firmando o encaixe em uma busca desesperada por mais contato, mais atrito.
A mão que segurava a perna subia até a bunda, também a puxando mais para si, extinguindo espaços inexistentes, cravando os dedos na pele, apertando em posse. Com os movimentos, as suas roupas também se agarravam. Os acessórios de Lorena prendiam na camisa de Eduarda como se também precisasem fazer parte ou arrancar partes um do outro.
Em meio aos enlaces, a boca da ruiva estava empenhada em um percurso veneratório. Da boca de Lorena passeava pelo queixo, marcava o pescoço, mapeava do maxilar até a orelha. Uma peregrinação religiosa que canonizaria Lorena como sua santa.
E então ela gemeu baixinho no ouvido de Eduarda.
Um som que atravessou seu corpo inteiro, tão íntimo e inesperadamente charmoso que Eduarda teve certeza de que ficaria gravado em sua memória para sempre. Era a confirmação de que aquilo não era um feitiço comum, estava mais para uma maldição. Fadada a não ser a mesma para sempre, apenas assombrada pelo que um dia foi. Assim, o barulho da musica lá fora deixou de ser só abafado pelo ambiente fechado e foi completamente substituído pela manha melódica que crescia e banhava os ouvidos de Eduarda.
Toc
Toc
Toc
Batidas firmes na porta as retiraram do transe, fazendo com que pousassem mais uma vez na realidade. Até a música alta lá fora voltou a ser reconhecivel quando seus corpos se desencaixaram.
"Já vai!" Lorena gritou enquanto Eduarda ainda a olhava, patética.
Elas se recompuseram o mais rápido que conseguiram, desamassando roupas fora do lugar e arrumando cabelos desgrenhados. E então Lorena tomou a iniciativa, abriu a porta e saiu do banheiro a passos largos, puxando Eduarda pela mão como se tivessem um lugar para comparecer com extrema urgência, sem olhar para ninguém que estivesse em sua frente até que chegasse lá.
O lugar era o outro lado do salão.
As duas se encostaram lado a lado em uma das paredes da boate e cairam na risada assim que seus olhos bateram.
Eduarda olhou em volta delas e a boate estava consideravelmente mais vazia do que antes de irem aí banheiro, o que indicava que devia estar muito próximo da hora de fechar. Mas ela não ousou checar o celular para confirmar a teoria. De repente se sentiu correndo contra o tempo.
"O seu amigo deve estar nos odiando." Disse a ruiva, subitamente lembrando que o amigo de Lorena ainda estava ali aguardando por ela.
"Não está, ele vai entender" respondeu se aproximando novamente, "Mas não vamos falar sobre o Zé agora."
Ela puxou Eduarda pela cintura colando suas bocas novamente, como se também tivesse notado a urgencia do relógio. Porém mesmo com o inicio abrupto o beijo foi diferente dos anteriores, menos faminto e mais como um retorno tranquilo a um local familiar. As mãos de Lorena subiam da cintura para as costas, passeando de forma natural, aproximando os corpos sem a intenção de fundir, mas de sentir coexistir. O beijo, até então mais público, vibrava em um tom privado.
Uma porta ao lado delas se abriu fazendo com que afastassem os rostos em sobressalto - apenas os rostos, seus corpos permaneciam colados. Uma mulher de cabelo colorido saía de dentro do ambiente, outro banheiro. Elas não precisaram de mais de dois segundos de olhar cruzado para chegarem à conclusão instantânea de se empurrarem para dentro dele.
E foi como entrar em um portal.
Pisar em um acelerador sem freios.
A última queda da montanha russa.
Toda a intensidade lasciva retornou de sua trégua e os amassos desgovernados dominavam os sentidos. Naturalmente elas retornaram ao estado a que estavam afeitas. Lorena contra a parede, Eduarda com a perna entre as dela e o ataque faminto entre bocas e pescoços.
"Espera," pausou Lorena com a voz falha e ofegante, "Ou vou rasgar a sua roupa."
A cabeça de Eduarda deu duas voltas antes de entender que aquilo não era uma grata ameaça. De fato o espartilho da morena estava prendendo em sua camisa, ameaçando criticamente a integridade do tecido. Ainda que a imagem de Lorena rasgando suas roupas não fosse, de forma alguma, uma idéia ruim, infelizmente ela ainda precisava da camisa para voltar para casa.
Quando estava para processar o quão adorável era o cuidado de Lorena com sua roupa, ela a viu se afastar e começar a se despir do tal espartilho criminoso. Sem qualquer cerimônia, apenas o pendurou ao lado e voltou para uma Eduarda totalmente desconcertada. Por um instante ela supôs que Lorena fosse tirar a roupa inteira, mas o vestido intrometido ainda seguia teimando em seu corpo.
Após receber dela um beijo rapido com um sorriso cínico, Eduarda conseguiu ver passar pela mente de Lorena o exato momento em que ela calculou se seria seguro subir na bancada suspensa daquele lavatório. A ruiva resolveu que deveriam pagar para ver e a ajudou no impulso para que pudesse sentar ali.
Com ambas as pernas ancoradas puxando o corpo de Eduarda para si e sem a camada a mais do espartilho, Lorena parecia ainda mais maleável. Se fazendo derreter sobre a outra, fundindo o desejo com o fisico.
Lorena murmurou algo que Eduarda não assimilou então apenas assentiu de volta, evitando pela vida retirar a boca daquela boca. A morena teve que se afastar um pouco para que sua voz conseguisse sair em um tom aceitável a compreensão do português, "O seu celular..."
"O que?"
"Está tocando"
Eduarda simplesmente não tinha ouvido toque algum, e se não tivesse sido avisada, teria passado total batido. Mas lá estava ele, seu algoz, soando como uma trombeta do apocalipse. Ela pensou em amaldiçoar quatro gerações de quem a interrompia, mas ao checar o nome de Paulinho na tela escolheu ficar preocupada com a ligação inesperada do amigo.
"Onde você está?" Ele iniciou sem um alô.
"No banheiro" Respondeu como se fosse algo muito obvio.
"Ah, desculpe," e ele entendeu o que havia atrapalhado "É que eu não te encontrei em lugar algum e a boate ja está quase fechando, fiquei preocupado."
Ela não conseguia ficar com raiva. O rapaz tinha prometido que só iria embora com ela, que ficaria na festa até quando a aniversariante decidisse sair e ainda a deixaria em casa em seu dia. Era seu melhor amigo no final das contas.
Lorena entendeu o que a ligação representava antes mesmo de ouvir a última resposta de Eduarda e começou a recolocar seu espartilho.
"Ok, estou indo."
O perfume de Lorena estava entranhado em Eduarda como se ela mesma tivesse tomado o frasco inteiro para si, ela sentia o aroma permear sua pele como se a outra mulher ainda estivesse colada em seu corpo. Elas sairam do banheiro de mãos dadas, dessa vez com calma, e foram ao encontro de Zé Maria que já estava com o grupo de amigos de Eduarda.
O DJ anunciou que tocaria a última musica da noite e eles se reuniram no centro do salão para aproveitar juntos. Maggye mal se movia, na fase do efeito do álcool que deixa a pessoa amortecida. Vivi já tinha ficado sobria e bêbada inumeras vezes durante a noite e portanto apresentava todos os sinais possiveis de exaustão. Assim como Zé Maria que intercalava passos lentos e bocejos. Paulinho e Gerluce dançavam ainda com a energia infinita que transmitiam entre si.
Eduarda e Lorena apenas balançavam o corpo de um lado para o outro juntas, as mãos entrelaçadas como um casal de longa data, roubando beijos lentos de despedida pelo meio do caminho.
Lorena ainda tentou sugerir um after para todos, e Eduarda precisou negar para que Zé Maria não explodisse a melhor amiga com o poder do pensamento. O olhar de socorro dele implorava por um banho quente e cama, que no caso seria na casa de Lorena, ela precisava ir com ele para liberta-lo de tanto sofrimento.
E assim, todos se despediram.
Desde cedo, eduarda foi acometida pelo dom de ficar presa aos pequenos detalhes de momentos aparentemente comuns. Sua memória tinha fome do espaço entre o que as pessoas diziam e o que de fato queriam dizer. Ela seguiria lembrando da música, a bebida, o perfume, falas bobas e as reticências, mesmo que os significados só existissem para ela.
No caminho de volta para casa mesmo ela abriu o instagram e mandou uma mensagem para Lorena.
04:08
Vc vai me passar o seu número dessa vez ou nada a ver?
E os tão esperados nove digitos foram recebidos logo em seguida, como mais um presente de aniversário.
