Work Text:
Eduarda encarava o copo americano na sua frente, as gotas de condensação na lateral do copo escorriam, mostrando que a cerveja que nele residia estava esquentando, aos poucos. Ela bebeu o resto de líquido de uma vez só, tentando fugir da humilhação que estava passando naquela mesa. Ao seu lado, seus dois melhores amigos do trabalho, Paulinho e Júnior, gargalhavam.
— Cara, você é inacreditável Juquinha. Como é aquele termo…? — Paulinho falou, entre risadas, e olhou para o lado, pedindo confirmação de Júnior para falar algo. O garoto assentiu, sorrindo por trás de seu copo de cerveja — Ah! É lésbica patética!
Eduarda quase cuspiu sua cerveja.
— Meu Deus Paulo, de onde que você tá sabendo esses termos?!
— O Júnior me ensinou! — Ele falou, orgulhoso.
— Mas o Júnior pode falar esse tipo de coisa, ele é bissexual. Você, que é hétero, não pode.
— Eu dei o passe livre pra ele — Júnior fala, ainda rindo bastante. — Hoje tudo é permitido pra rir de você, lésbica patética.
— Quem é a lésbica patética? — A voz de Maggye aparece por trás da mesa, chegando para se juntar ao grupo. Junto dela, chegava também Lorena.
— A Juquinha, amor — Júnior fala, levantando a cabeça para receber uma bitoca de sua namorada.
— Ai, essa daí é, realmente — Lorena fala, buscando o último lugar vago na mesa.
— Meu Deus Lore, até você? — Eduarda coloca a mão no peito, de forma dramática — Eu esperava isso de todos, menos de você.
— Duda, meu compromisso é com a verdade. — Ela fala, e as duas gargalham juntas.
A maioria das noites de sexta de sua vida eram assim. Reunida com seus amigos de sempre, no mesmo bar de sempre, tomando a mesma cerveja e os mesmos petiscos (os que ficavam mais baratos durante o Happy Hour)
Alguns poderiam achar enfadonho, mas Eduarda era uma criatura de rotina, e nada lhe fazia tão feliz quanto compartilhar o mesmo momento de sempre com seu grupo de amigos. Menos Gerluce, a esposa de Paulinho, que normalmente faltava o Happy Hour de sexta por causa da neta pequena.
— Mas diz aí, o que a Duda fez de patético dessa vez? — Maggye perguntou, já roubando o copo de cerveja de seu namorado.
— Deixa que ela conta, né Juquinha? — Paulinho falou, já tendo dificuldade de segurar sua risada.
Eduarda sentiu o rosto esquentar com toda a atenção que recaiu sobre si, mas respirou fundo, e contou sua história.
— Tá. Vocês sabem aquela escrivã bonita, que sempre almoça junto comigo?
— Gata — Maggye e Júnior falaram ao mesmo tempo.
— Pois é. Muito gata. A gente fica papeando no horário de almoço, eu andava sondando ela, jogando umas indiretinhas pra saber se ela é para mulheres, e tudo mais.
— E no que deu? — Lorena perguntou, interessada.
— Deu que eu perguntei que tipo de coisa que ela gosta de fazer em um primeiro encontro, assim, hipoteticamente.
— Essa é boa — Lorena falou, aprovando. — Qual o date ideal dela?
— Aí é que tá… — Eduarda falou, sua voz ficando um pouco mais baixa — O date perfeito dela é sair pra sambar.
— Essa é das minhas — Maggye fala, e Júnior concorda com a cabeça — No nosso primeiro encontro, o Júnior me levou pra sambar na Lapa. Meu pretinho me ganhou ali. — Ela finalizou com um beijo na bochecha dele.
— Eu sei! Ele já contou a história desse dia tantas vezes pra gente lá na delegacia que foi a primeira coisa que pensei quando ela falou isso!
— Então você chamou ela pra sair? Ir sambar na Lapa? — Lorena perguntou.
— A questão não é essa… O problema não é chamar… — O tom de Eduarda era incerto, hesitante.
— E qual é o problema então?
— Calma Lorena — Paulinho falou, entre gargalhadas. — Deixa ela terminar. Qual é o problema, Juquinha? — Eduarda resmungou algo inaudível, com vergonha.
— Você o quê, Duda? Não entendi bem — Lorena se aproximou, para ouvir melhor.
— Eu não sei sambar…
A mesa ficou em silêncio por alguns segundos, em incredulidade pura. Maggye foi a primeira a gargalhar, seguida por Lorena, e logo Júnior e Paulinho voltam a rir da história que já haviam escutado momentos atrás. Eduarda deixou a cabeça cair e bater na mesa, envergonhada.
— Você chamou ela pra sambar, sem saber sambar? — Maggye perguntou, em meio a uma risada histérica.
— Não! Eu não cheguei a chamar ela ainda.
— Porque você não sabe sambar — Lorena falou, rindo.
— É…
As risadas continuaram, e Eduarda pediu para o garçom trazer mais cerveja, uma rodada de croquetes de porco e um caldo de mandioca vegano, para Lorena.
— Como que você não sabe sambar, Duda? Eu achei que era algo inerente a todo brasileiro. — Lorena falou, entre um gole de cerveja e outro.
— Você tá falando isso pra uma guria, patricinha de Porto Alegre, Lorena. Essa daí não tem uma grama de ginga inerente nela não — Paulinho respondeu.
— Aí depois você vem me pedir pra cobrir plantão seu, né Paulo? Falso do cacete.
— Mas ele tem razão. — Júnior acrescentou — Você tinha que ver ela na festa do delegado, Lore. A gente colocou música pra tocar, essa aí tentou mandar um passinho e quase caiu de cara no chão. Acho que ela nasceu com dois pés esquerdos.
— Gente, eu não acredito nisso, de verdade. Todo mundo sabe sambar, cara — Lorena falou, indignação real em sua voz.
O garçom interrompeu a conversa trazendo a bebida e os petiscos. Todos esqueceram, momentaneamente, da vergonha de Eduarda, para comer e beber com vontade, comemorando o fim da semana.
Com alguns litros de álcool no sangue, Lorena se tornou ainda mais indignada com a incapacidade de sua amiga de sambar. O problema é que o álcool, que em Lorena aflorava sua indignação, em Eduarda aflorava a coragem.
Além de diminuir a inibição.
— Eu tô dizendo, de verdade, Lore. Às vezes o Júnior tá certo, e eu nasci com dois pés esquerdos. — Ela esbravejava, com um copo meio cheio na mão.
E quase que no timing perfeito, os alto falantes do bar começaram a tocar Sorriso Maroto. Lorena se levantou de supetão, arrastando sua cadeira no chão, e assustando todos na mesa.
— Então você vai me provar, agora. Bora sambar.
— Lorena, eu tô bebendo! — Eduarda falou, desesperada — Se eu já não sei sambar normalmente, imagina bêbada!
— Eduarda você bebe mais que um Opala. Não são alguns copinhos de cerveja que vão te deixar bêbada. — Ela puxa a amiga pelo braço, que se levanta indignada — Vamos, chega de corpo mole.
As duas vão juntas até a pequena área livre, entre as mesas, destinada aos corajosos que arriscam passos depois de alguns copos de cerveja. Mas, no momento, as únicas corajosas eram Eduarda e Lorena. Seus amigos viraram as cadeiras em direção às duas, formando uma pequena plateia. Maggye já estava com o celular em mãos, pronta para gravar o desastre.
Lorena começou, aos poucos, a se balançar no ritmo da música, tirando os pés do chão, de forma coordenada. Eduarda estava imóvel, como se seus sapatos estivessem parafusados ao chão.
— Ai Duda, bora lá, se solta! — Lorena falou, sambando animada — É simples, dois pra lá, dois pra cá…
Eduarda arrisca alguns passos, motivada pela animação de sua amiga. Mas imediatamente se torna óbvio porque sua frustração era tanta. Eduarda era péssima.
Trocava os pés, tropeçava em si mesma, mordia a própria língua, olhando pro chão em total concentração para acertar os passos, sem contar que não existia ritmo nenhum em seus movimentos. Os braços, ao invés de soltos e acompanhando seus movimentos, estavam grudados na lateral de seu corpo.
Ela trocou um pé pelo outro e quase caiu, e decidiu que aquilo era prova o suficiente para sua amiga. Desistiu de dançar.
Lorena se sentiu atacada pela tentativa de samba em sua frente, e ficou parada, incrédula com a falta de gingado de sua amiga. Quando ela quase vai de encontro ao chão, Lorena gargalha, e a segura pelos braços, impedindo que ela continue a passar vergonha.
— Ok, você me convenceu. Eduarda Fragoso definitivamente não sabe sambar.
— Precisava dar ênfase nesse seu “definitivamente”? Sério, vocês só sabem me humilhar. Vou arranjar novos amigos.
As duas voltaram para a mesa entre gargalhadas, e encontraram com seus amigos tentando disfarçar, voltando a cadeira para seus lugares de origem rapidamente. Maggye escondeu o celular com pressa, mas piscou para Lorena, já deixando claro que enviaria o vídeo que gravou, mais tarde.
O quinteto continuou bebendo e conversando, vez ou outra circulando e voltando ao assunto de Eduarda querendo conquistar a escrivã do trabalho, mesmo com suas habilidades negativas de dança.
— Mas Duda, porque você não chama ela pra outro date que não seja para sambar? — Maggye perguntou, quando eles voltaram ao assunto.
— Maggye, você já viu ela. Você sabe o quão bonita ela é. Todo mundo naquela delegacia tentou uma chance com ela, e ela recusou todos. Eu preciso me destacar, chamar ela pro date favorito é o jeito ideal de fazer isso.
— É, você tem razão…
— Não é possível que ela seja tudo isso, gente. — Lorena perguntou, sendo a única que ainda não tinha visto a escrivã pessoalmente.
— Ela é Lore. O pior é que ela é. Espera um pouco — Maggye puxou seu celular, abrindo o Instagram da garota para mostrar para a morena. — Olha só a beleza dessa mulher.
— Amor?! — Júnior perguntou, surpreso — Desde quando você tem o Instagram dela?!
— Quando eu fui te buscar pra gente almoçar juntos, mês passado. A gente ficou papeando, e eu amei as jóias que ela tava usando. Ela me passou o Insta da loja que confeccionou, e a gente se seguiu.
— Eu devo sentir ciúmes? — Ele perguntou, com um tom curioso.
— Não sei, eu deveria sentir ciúmes de você com indo almoçar todo dia sagradamente com o Peixoto?
— Touché — Ele falou, entre risadas, e recebeu um beijo estalado na boca.
— Meu Deus, eu vou morrer solteira mesmo, é o fim pra mim — Eduarda lamentou, sentindo uma leve inveja do casal na sua frente. — Se até esses doidos estão felizes em um namoro lindo, eu não tenho salvação — Ela deixou a cabeça bater na mesa novamente, de forma dramática.
— Duda, você realmente quer conquistar essa garota do seu trabalho? — Lorena perguntou, de repente.
— Eu quero! Eu quero muito. — A ruiva levantou a cabeça de uma vez só, ficando tonta com o movimento.
— Tudo bem. Então eu vou te ensinar a sambar — Lorena declarou, com um sorriso singelo.
— Você faria isso por mim, Lore? — Eduarda perguntou, com um sorriso imenso no rosto.
— Claro que sim, Duda. A gente é amiga, claro que eu vou te ajudar a conquistar a garota.
Eduarda avançou em Lorena, lhe puxando para um abraço apertado, rindo. Ficou realmente surpresa, porque apesar de sempre presente no Happy Hour de sexta, Lorena era a pessoa que se sentia menos próxima em seu grupinho. Mas, se realmente conseguisse aprender a sambar e chamar a escrivã para sair, Lorena provavelmente se tornaria sua melhor amiga.
Por mais que a tradição era se reunir nas sextas, naquela quarta, Eduarda estava novamente sentada no barzinho de sempre. O grupo, porém, estava incompleto. Paulinho ficou na delegacia, sendo o escolhido para o plantão do dia. Em seu lugar, Gerluce já bebia seu segundo copo de cerveja, finalmente tendo uma folga para curtir. Seria uma noite só de garotas, se Júnior não estivesse ali. Mas ninguém se incomodava com a presença dele.
— O Paulinho me atualizou da fofoca. Vai conseguir conquistar a escrivã gata, Duda?
— Até você, Gerluce? — Lorena perguntou, rindo.
— Ué gente, eu sou hétero, mas não sou cega. Eu sei que elá é bonita. — Ela toma um gole de cerveja, rindo — Além do mais, eu queria ter em mente quais eram as mulheres solteiras que trabalham com o Paulo, quando a gente começou a namorar.
— Eu sei bem disso. Quando te dei carona, foi a primeira coisa que você me perguntou. Tive que dizer com todas as letras que eu era lésbica. — Eduarda falou, nostálgica.
— Uma ruiva gostosa dessas, sendo parceira dele? Não que eu não confie no meu homem, eu confio completamente. Mas é bom ficar informada.
— Gente, o mundo hétero é bizarro — Maggye falou, por trás de seu copo, arrancando risada de todos na mesa.
— Bom, e no que findou isso? Você chamou ela pra sair ou não? — Gerluce retomou o assunto, para a infelicidade de Eduarda.
— Não, ainda não. Só vou chamar quando souber sambar.
— Ai, que tudo. Você vai pagar umas aulas?
— E ela lá tem dinheiro pra isso, Luce? — Lorena interviu, rindo — Eu que vou ensinar ela.
E novamente, elas prestaram atenção na música que tocava. Samba, mais uma vez. Lorena chamou o garçom, e pediu para ele aumentar a música um pouco mais. Sendo clientes regulares naquele bar, eles eram conhecidos por todos que trabalhavam ali, então o pedido foi prontamente atendido.
— Inclusive, vamos aproveitar que hoje é um dia menos cheio, e começar com a primeira aula, Fragoso?
Eduarda arregalou os olhos. Não estava psicologicamente preparada para dançar de novo, ainda mais depois da vergonha que passou na sexta-feira. Mas Lorena estava ali, lhe oferecendo ajuda, então ela não queria negar. Respirou fundo, e foi junto à morena até o pequeno espaço livre do bar, para dançar.
— Tá bom, vamos lá — Lorena deu alguns passos para trás, e Eduarda prestou atenção na morena — Começa trocando seus dois pés, um para frente, e outro prá trás. Tipo como se tivesse fazendo uma tesoura com suas pernas.
Lorena falou, mas percebeu tarde demais o que tinha acabado de sair de sua boca. Eduarda não segurou a gargalhada, rindo histericamente assim que ouviu. Lorena, igualmente lésbica, também não conseguiu ficar séria.
— Desculpa Lorena, mas a tesoura que eu sei fazer com as pernas é outra. — Eduarda fala, em meio às risadas.
— Tá, eu sei, eu me expressei mal — Sua risada vai diminuindo aos poucos — Mas é só pra botar um pé pra frente, e outro prá trás, trocando eles. Vai Duda, leva a sério.
Eduarda tenta imitar os passos da garota em sua frente, colocando o pé para frente e para trás. Mas novamente, não havia ritmo nenhum em seus passos, e nenhuma leveza no movimento. A ruiva trocava os pés com pequenos pulinhos, aparentando mais saltitar do que sambar.
De longe, Gerluce ria histericamente.
— Duda, solta um pouco mais seu corpo. Você tá toda dura, os braços tão colados no seu corpo. Assim ó — Lorena dá um passo para trás, sambando bem lentamente, fazendo a troca de pés com perfeição — Viu que eu não tô pulando, e sim pisando? Sua vez, vai.
A ruiva tenta, novamente, fazer a troca de pés. Sua concentração era admirável, mas havia se tornado um problema, porque ao olhar para baixo, focando em fazer o movimento correto de seus pés, Eduarda não percebeu que estava aos poucos, indo para trás. Lorena, que também prestava atenção somente em seus pés, percebeu tarde demais que sua parceira de dança já não estava no mesmo lugar onde começou a dançar.
As duas só perceberam o que estava acontecendo quando Eduarda se chocou com uma das mesas do bar.
Ela imediatamente se desculpou com o casal que acertou, sem querer. Eles riram, garantiram que não havia problema nenhum, e disseram que estavam se divertindo com a saga da ruiva aprendendo a sambar. Eduarda se sentiu incrivelmente envergonhada com o ocorrido. Estava no ponto de desistir de tudo aquilo, desistir de sambar, desistir da escrivã do trabalho, quando ouviu Lorena gargalhar.
Já tinha escutado aquele som várias outras vezes, risadas eram uma coisa que não faltavam quando seus amigos se reuniam. Mas por algum motivo, ali, aquele som parecia diferente. Eduarda se virou para encarar a morena e deu de cara com um sorriso de orelha a orelha, seus dentinhos tortos a mostra, as covinhas que enfeitavam seu rosto extremamente marcadas, e os olhos verdes brilhando, com lágrimas oriundas da risada histérica que saia de sua boca.
Pela primeira vez desde que Lorena se juntou ao grupo, Eduarda percebeu, realmente percebeu, o quão linda ela era.
Se sentiu presa em um transe, encarando sua amiga rir. A vergonha passou, assim como a vontade de desistir de tudo. Queria continuar ali com Lorena.
— Você foi sambando prá trás, meu Deus do céu — Lorena falou, ainda tentando parar de rir — Eu nem sabia que isso era possível.
— Tentando sambar, você quis dizer, né? — Eduarda se aproximou novamente, saindo do transe estranho que ficou presa.
— Vem cá — Lorena lhe puxou pelo braço, deixando as duas bem mais perto do que antes — Eu vou te segurar pela cintura, e você tenta de novo, a troca de pés. Talvez assim você não sambe pra trás.
Lorena colocou as mãos em sua cintura, causando um frio na barriga de Eduarda. De repente, sua mente se fixou no fato de que estava dançando colada com uma mulher muito, muito linda. Péssimo momento para ter reparado em Lorena assim. De qualquer forma, ela precisaria aprender a sambar junto de alguém. Esse era seu objetivo afinal, então torceu para que o nervosismo que aquela proximidade gerou não afetasse as suas, já bem pobres, habilidades.
Tentou novamente a troca de pés, tendo muitas coisas para prestar atenção ao mesmo tempo: Fazer o movimento sem dar pulinhos; Apoiar um pé pela ponta da frente, outro pelo de trás; Soltar seu quadril e ficar menos robótica em seus movimentos; A sensação das mãos macias de Lorena nesse mesmo quadril (Péssimo dia para usar uma calça de cintura baixa e um cropped); E um cheiro maravilhoso de flores que invadiu seu nariz, e que ela não fazia ideia de onde vinha.
— Presta atenção, não vai pra trás não — Lorena apertou sua cintura, com mãos firmes, para segurar Eduarda em seu lugar.
O problema é que aquilo causou uma reação física imediata em Eduarda, que sentiu o corpo inteiro se arrepiar, e suas pernas fraquejarem. Nunca imaginou que Lorena tivesse essa pegada toda. Depois disso, ela não se surpreendeu quando errou a troca de pés, pisando em falso e quase caindo, se não fosse por Lorena lhe segurando.
As duas se encararam, e riram juntas de tudo aquilo.
— Sem querer te ofender, Duda, mas você é pior do que eu pensava.
— Não considero ofensa, Lore. Considero verdade.
As duas teriam retomado as posições, se não fosse por Júnior aparecendo e avisando que a comida que elas pediram havia chegado. As duas concordaram em deixar as aulas para outro dia, e focar nos pratos quentes de comida às esperando na mesa.
— E aí, vai desistir da sua pior aluna? — Eduarda pergunta, no caminho de volta para a mesa.
— Muito pelo contrário — Lorena responde, rindo — Vou até pesquisar na internet alguns tutoriais para te ajudar melhor. Eu vou garantir que você se torne uma sambista de respeito, Dudinha.
Aquelas palavras ecoaram na mente de Eduarda enquanto comia. Ela participava da conversa que acontecia na mesa, rindo e respondendo sempre que necessário, mas sua mente passeava nas palavras de Lorena, no macio de suas mãos, no som de sua gargalhada, e no lindo sorriso que ela abria enquanto as duas dançavam.
Não entendia de onde aquilo tinha saído. Provavelmente era resultado da seca que estava passando, já que faziam meses que havia saído com alguma garota.
Era isso, com certeza. E Lorena era linda, de fato, mas era sua amiga, só isso. Provavelmente esses pensamentos estranhos sumiriam depois que conseguisse seu encontro com a escrivã. Com certeza.
Sexta-feira e todos estavam no mesmo bar novamente. Dessa vez, Eduarda estava tomando uma soda italiana deliciosa, e sem um pingo de álcool, se preparando para o plantão da madrugada. Havia parado lá para dar um oi a seus amigos (E porque era alérgica a ideia de todos estarem juntos no bar, sem ela. Foi ela que achou o lugar, afinal)
Lorena e Maggye contavam alguma história sobre o estúdio de moda onde trabalhavam, quando os alto-falantes começaram a tocar samba novamente. Imediatamente, Eduarda e Lorena buscaram os olhares uma da outra. O samba já havia se tornado um linguajar próprio das duas. Mas Lorena estava bebendo bastante naquela noite (aparentemente, o dia de trabalho fora difícil) e Eduarda estava com uma roupa mais pesada, pois sairia dali direto para a delegacia.
Lorena sorriu, sabendo que agora não era hora para aulas de samba, e se levantou para sambar sozinha. Se levantou animada, e foi até a parte livre do bar. Eduarda aproveitou para poder apreciar de longe o gingado da morena. Por motivos educacionais, obviamente.
Ela dançava com uma perfeição invejável, os passos fluidos, girando e girando ao som da música, com um sorriso de orelha a orelha. Pelo visto, sua magnitude chamou a atenção dos outros, pois uma garota de cabelo cacheado chegou a pista, puxando Lorena para dançar.
Eduarda prestou um pouco mais de atenção, podendo entender agora como era sambar junto. Lorena era mais alta que a garota, e logo lhe puxou para conduzir o samba. Seu braço esquerdo rodeava quase a cintura inteira da garota, e o direito lhe segurava pela mão. As duas levaram alguns segundos para acertar o ritmo, mas quando conseguiram, era hipnotizante.
Os passos estavam sincronizados, as duas giravam sem parecer que ficariam tontas. E no fim, se prestasse bastante atenção, Eduarda conseguia ver que realmente era dois pra lá, dois pra cá
O quanto precisaria treinar para dançar bonito assim? O quanto precisaria aprender com Lorena para que elas duas dançassem bonito assim? Porque com certeza não era uma visão bonita, uma ruiva indo para trás de forma desengonçada enquanto uma morena tenta impedir sua ré segurando sua cintura.
— Amiga, normalmente quem fica babando na Lorena sou eu, não você. Tá roubando meu posto? — A voz de Maggye lhe tirou de seus pensamentos como um balde de água fria.
— Ai, sabe como é… — Ela falou, envergonhada de ter sido pega encarando — Eu não tinha percebido antes o quando que a Lorena dança bem — Ou o quão bonita ela é, sua mente completa a frase em pensamento.
— Essa daí é pé de valsa mesmo, nas festas da faculdade ela iá só pra dançar. Nem ao menos bebia. Foi começar a beber agora, sabia?
— Chega a ser hipnotizante — Eduarda fala baixo, mas Maggye consegue escutar, e dá um sorriso de canto, como se estivesse vendo algo prestes a acontecer — Espero que ela me ensine a ponto de a gente dançar bonito assim.
— “A gente” sendo você e a escrivã, né? — Paulinho perguntou, e prontamente recebeu um tapa de Maggye.
— Óbvio que é, né Paulo? Eu hein… — Eduarda finalmente tirou os olhos de Lorena, e bebeu o resto de sua soda, sentindo falta do amargor do álcool naquele momento.
Depois de um tempo, Lorena voltou da pista ofegante, mas absurdamente feliz. Comentou que a menina com quem dançava se chamava Luna, e que talvez mais tarde elas dançassem novamente. Júnior parabenizou a amiga por já ter arranjado uma boca para beijar naquela noite, e a mesa inteira riu. Incluindo Eduarda.
— Então no fim, ainda foi melhor pularmos a aula de samba hoje, né? — Eduarda falou, com humor na voz.
— Ah, mas também teria sido legal te ensinar, Duda — Por algum motivo, a animação de sua voz tinha morrido um pouco.
— Eu espero mesmo, porque meu objetivo é dançar bonito assim com você, viu? — Ela falou, e viu o sorriso de Lorena se abrir novamente. Elogiar sua dança lhe fazia tão feliz assim? Se fosse por isso, Eduarda passaria o dia inteiro elogiando, apenas para manter aquele sorriso lindo no rosto de Lorena — Sério mesmo, Lore. Era hipnotizante,
— Ela ficou aí babando, a gente teve até que pedir uns guardanapos — Maggye falou em tom de brincadeira.
— Bom, mas eu quero mesmo te ensinar direitinho, Duda. Na verdade, eu estava até pensando… — Ela fala, com grande hesitação na voz — Se a gente não podia sair nesse domingo. Tem uma roda de samba muito legal lá na Lapa. Todo mundo dança sem medo, sabendo ou não, então se a gente for dançar lá, ninguém vai ligar pra ruiva sambando em ré.
A mesa inteira explodiu em risada, e dessa vez, Eduarda não se sentiu envergonhada. Não era de um todo mal, a piada. Pelo menos estava ouvindo a risada de Lorena, então valia a pena.
— Eu topo. Tenho o domingo todo livre, graças ao plantão de hoje. — Eduarda checa seu relógio, percebendo que já está na hora de ir — Inclusive, deu minha hora. Você me manda mensagem depois confirmando o horário, viu? — Ela falou para Lorena, que concordou com a cabeça, com aquele mesmo sorriso lindo.
O coração de Eduarda deu um salto. Hum, reação estranha.
Ela se despediu de cada um dos amigos com um abraço. Quando abraçou Lorena, ela sentiu o mesmo cheiro de flor que invadiu seu olfato na quarta. Deveria ser o perfume dela. Era delicioso, Eduarda teve que segurar o impulso de esconder o rosto em seu pescoço e inalar aquele cheiro.
Saiu do bar olhando para trás, a tempo de ver Lorena se levantando da mesa para puxar Luna para dançar novamente. Um gosto amargo ficou na sua boca. Queria dançar daquele jeito, queria dançar com Lorena daquele jeito.
Durante o plantão, nos momentos de tédio, procurou em seu Tiktok “tutorial de como sambar”, mas como não podia levantar e sambar no meio de sua sala na delegacia, de nada adiantou a busca.
Eduarda esperava ansiosamente por Lorena, encostada na parede de um casarão. Apesar de sua insistência, Lorena disse que não precisava ser buscada em casa, e que as duas deveriam se encontrar lá, então estava ansiosamente checando seu relógio, com medo de ter chegado muito adiantada.
Quando levantou o olhar de seu relógio, Eduarda a viu. Ela vinha com uma saia longa branca, com pequenos detalhes coloridos, que pareciam ser flores. Vestia uma blusa leve, de alça, e para a surpresa de ninguém, listrada. Tinha um óculos escuro em seu rosto, mas no meio do caminho, ela levantou o oculos do rosto, colocando entreo s fios negros de seu cabelo. E no rosto estava aquele sorriso. Aquele sorriso que parecia iluminar todo o Rio de Janeiro de uma vez só.
Seu coração saltou mais uma vez. Talvez ela devesse ir em um cardiologista.
O que importava era que Lorena estava linda.
Era diferente, de alguma forma. Lorena trabalhava em um estúdio de moda, o que significava que sempre que ela ia para o bar, direto do trabalho, estava estilosa. Mas existia o cansaço, a pressão do trabalho, o resultado de um dia inteiro ocupada, que dava um ar diferente a Lorena quando ela chegava naquele bar. Não ficava feia, nem de longe, mas era completamente diferente quando ela estava arrumada para sair.
— Oi Duda! — Ela chegou, já lhe puxando para um abraço. O cheiro de flores invadiu seu nariz de novo, dessa vez até mais forte, lhe deixando levemente zonza. — Te deixei esperando por muito tempo?
— Que nada, eu acabei de chegar — Ela diz, e as duas se afastam — Bom, vamos indo? Espero que essa roda de samba tenha alguma coisa pra comer perto, eu tomo café cedo, já tô com fome.
As duas subiram as ruas, passando por diversos estabelecimentos, já se ouvia pagode e samba por todo lado. Era aquele lindo clima contagiante e alegre do Rio de Janeiro. Eduarda não morava a muito tempo no Rio, então aquilo ainda tinha aquele gostinho de novidade pra ela.
— Olha Duda, vem cá — Lorena falou animada, lhe puxando pela mão até uma pracinha bem movimentada.
Parecia ter um mar de pessoas ali, e a música era alta. Havia pandeiros e tamborins, cuícas e cavaquinhos. No meio de toda aquela gente, um espaço grande, livre para quem quisesse sambar no olho do furacão. E o que mais tinham eram corajosos mostrando seu gingado.
Pelos cantos era possível ver ambulantes vendendo cerveja, e barraquinhas de espetinho de carne improvisada. E para onde ela olhava tinha gente sambando. Uns com a mesma proficiência que Lorena apresentava, outros que pareciam pertencer a um desfile na Sapucaí. E, surpreendentemente, havia sim alguns desengonçados que estavam aprendendo.
Era contagiante. Aquilo ali fazia Eduarda querer sambar.
— Vamos comer primeiro? — Lorena perguntou, mas naquele momento, tudo que Eduarda queria era puxar Lorena pela cintura e girar com ela, que nem viu a mesma girando, na sexta.
Mas Eduarda ainda não sabia sambar.
— Eu quero sambar assim — Ela olhou, encantada com tudo aquilo. — Me ensina a sambar assim? Deixa a comida pra depois, Lore. Por favor. — Lorena ficou momentaneamente surpresa com a paixão na voz de Eduarda, mas logo a puxou para um canto da praça, com menos gente e mais espaço.
— Até parece que você vai conseguir sambar assim em um dia, Dudinha —- Ela falou, com um sorriso de canto, e Eduarda estava começando a ficar preocupada com seu coração, porque não era normal ele bater tão rápido assim.
Era quase como se ele estivesse sambando sozinho.
— Tá, vamos voltar ao básico? Pé na frente, pé atrás? Mas sem ir para trás.
Tendo bastante mais espaço do que no bar que frequentavam, Eduarda se sentiu mais segura para dançar sem esbarrar em ninguém. Começou aos poucos, ainda fora de ritmo, com a troca de pé. De repente, não parecia mais tão difícil. Estava conseguindo trocar os pés, mesmo que fora de ritmo, e não estava indo para trás!
— Boa Duda! É assim mesmo. O ritmo a gente resolve depois — Lorena falou, rindo, com aquele sorriso lindo — Agora você faz assim, joga o pé da frente um pouco pra fora. Mas não muito! Tenta me imitar.
Lorena, bem lentamente, começa a sambar. Agora, com esse movimento, parecia mais com o samba. Realmente, ela parecia jogar o pé bem pouco para fora. Eduarda tenta juntar os dois movimentos imediatamente, e quase caiu.
— Uma coisa de cada vez, doida — Lorena lhe segurou pela cintura novamente, e Eduarda pensou que seria muito melhor se ela deixasse as mãos ali, para caso ela caísse novamente. Só por isso. — Primeiro aprende a colocar o pé pra fora, depois junta os dois, vai.
Ela tirou suas mãos macias da cintura de Eduarda, que sentiu falta do contato imediatamente, mas tentou continuar focada nos passos. Ela repetiu o movimento com os pés até se sentir confortável para unir os movimentos. Mas, desacostumada com a novidade, ela começou a ir para trás novamente. Lorena começou a gargalhar, lhe segurando pelas mãos para não lhe deixar dar ré.
Eduarda continuou até conseguir juntar os movimentos e ficar no lugar e Lorena em momento nenhum soltou suas mãos. Eventualmente, ela imitou os mesmos movimentos, sambando devagar, somente com os pés. A ruiva prestou atenção, tentando se adequar ao ritmo. Até que finalmente conseguiu sincronizar com os passos treinados de Lorena.
Estavam sambando juntas. Não era a coisa mais bonita do mundo, e os passos de Eduarda ainda eram muito feios se comparados aos de Lorena. Mas estavam de mãos dadas, e mais ou menos no mesmo ritmo. Não importa, para Eduarda, elas estavam sambando juntas.
E seu coração estava sambando no mesmo ritmo.
Ficaram ainda alguns minutos naquele balançar desengonçado, gargalhando. Era incrível ver isso. Lorena estava feliz. Estava feliz em estar ali naquele samba com ela. Estava com aquele sorriso lindo de novo, e Eduarda sentiu que tinha ganhado a semana inteira por ter colocado aquele sorriso ali.
Quando a música acabou, Lorena não soltou sua mão. Pelo contrário, ela lhe puxou para perto das grelhas improvisadas de churrasco, falando que agora sua fome havia apertado.
— E você vai comer o quê? Aqui não tem churrasco de berinjela.
— Eu sei que não, idiota — Ela falou em um tom carinhoso, apesar do xingamento — Mas tem batata frita, meu salvador sempre que eu saio na rua sem trazer algo para comer.
Eduarda se surpreendeu por não ter pensado em trazer alguma coisa vegana para Lorena, mas ela parecia feliz em só comer uma porção de batata de rua, enquanto a ruiva se deliciava em seu medalhão de frango com bacon.
As duas se sentaram em um dos bancos da praça, dividindo um Guaraná Antártica. Diferente de todos os encontros onde foi, ali Eduarda não sentia pressão nenhuma para preencher o silêncio, não deixar o papo morrer. O desespero de falar algo interessante, de não deixar a peteca cair.
Ali, ela e Lorena estavam caladas, comendo, dividindo um refrigerante, e admirando a roda de samba. O pé de Lorena batia no ritmo dos pandeiros, e Eduarda não conseguia manter o olhar muito tempo parado, querendo sempre apreciar uma pessoa diferente, analisando o ritmo e o estilo de dança de cada um.
O silêncio entre elas não parecia cobrar nada, não pressionava, não desesperava. Era um silêncio confortável.
Até que a ficha caiu em sua mente, trazendo um desespero completamente novo. Porque ela havia acabado de comparar aquele dia com um encontro?! Ela e Lorena eram amigas. Já havia saído sozinha com suas amigas, mais de uma vez. Pelo amor de Deus, já havia levado Gerluce para um bar gay depois que Paulinho lhe pediu para levar sua namorada para algum lugar divertido e seguro para ela espairecer.
E em nenhum desses casos ela comparou o dia com um encontro. O que a levou para aquela linha de raciocínio?
Ela ficou em silêncio, revisando em sua mente cada detalhe daquele dia, voltando até mesmo a analisar o momento que Lorena lhe convidou para irem juntas sambar. Será que era porque sambar na Lapa era o primeiro encontro ideal para a garota que queria conquistar, do seu trabalho?
Parecia ser a única explicação plausível. Conseguia se ver perfeitamente chamando ela para sair, e fazer a mesma programação que estava tendo com Lorena naquele dia. Parecia um ótimo primeiro encontro, de fato.
De repente, Lorena se levantou, jogando fora o recipiente onde estavam suas batatas, e se jogou no meio do aglomerado de gente. Eduarda se sentiu incrivelmente confusa com aquela ação repentina, levantando na mesma velocidade, deixando para trás o resto de refrigerante na lata.
— Ei, Lorena?! — Ela tentou acompanhar, mas a morena praticamente voou até o olho do furacão — Onde você tá indo?!
E então, Eduarda prestou atenção na música que tocava. Não era um samba qualquer, era samba-enredo. Todos ao redor mudaram a energia completamente, cantando a música em uma só voz, batendo palmas e girando.
No centro, os mais corajosos se reuniam sambando de um jeito que Eduarda provavelmente nunca conseguiria. E em meio a todos eles, Lorena parecia flutuar. Girando e sambando em uma velocidade assustadora, e parecia não se cansar nem um pouco. Era uma cena que parecia pertencer a um desfile no sambódromo.
Ela parecia ser o centro das atenções, todos batendo palma pela magia que ela parecia transmitir, e a felicidade pura de estar ali no meio.
No segundo refrão, Eduarda já se sentia segura para cantar junto àquele povo. Queria poder se jogar ali no meio e dançar com Lorena, compartilhar daquela alegria, mas tudo que poderia fazer era bater palmas e cantar juntos.
— Deixa girar, que rua virou bembé, deixa girar que a rua virou bembé! — ela batia palmas, bebendo da euforia de todos ali, mas no fim, seus olhos não saiam de Lorena.
Naquele momento, Eduarda percebeu que seu magnetismo pelo samba de Lorena não era inveja de suas habilidades, não era vontade de dançar igualmente, não era a proficiência. Era ela. Porque ali, tinham muitos dançando tão bonito quanto, mas ninguém brilhava que nem Lorena. Eduarda só tinha olhos para ela.
Quando o samba terminou, Lorena pareceu voltar a si, e percebeu que tinha simplesmente deixado Eduarda para trás. Ela procurou com os olhos pela ruiva, e quando a encontrou, sorriu. Maldito sorriso.
O seu coração saltitou no peito. Estava começando a se preocupar de verdade com alguma doença séria.
— Meu Deus do céu, Duda, me desculpa — Lorena atravessou o mar de pessoas para chegar até ela — É só que eu sou apaixonada nessa música, eu precisava dançar, é mais forte que eu, e quando eu vi, eu já estava lá no meio e-
Eduarda calou Lorena com um beijo.
Foi um impulso que lhe venceu. Ela não pensou muito. Não pensou em nada, na verdade, porque sua mente estava repleta de Lorena sorrindo, e Lorena dançando, e Lorena gargalhando. E ver Lorena na sua frente, preocupada em ter lhe deixado sozinha, quando aquilo lhe permitiu ver umas das cenas mais lindas que já havia presenciado…
Era precioso. Então Eduarda não pensou, só avançou. E para sua surpresa, Lorena retribuiu. Seus lábios começaram a se mover em sincronia, um ritmo próprio, alheio a todo o som do mundo externo. Ali, só havia elas duas, e o contato de suas bocas.
Eduarda quis mais, quis aprofundar o beijo, quis provar do gosto de Lorena, não queria pensar em mais nada que não fosse ela e aquele beijo delicioso, mas os ventos não sopravam em seu favor naquele momento.
Alguém esbarrou nas duas, quebrando o contato, e quase derrubando Eduarda. Quando ela se virou pra reclamar, ela percebeu que o erro era delas. Estavam paradas se beijando no meio de uma roda de samba, todos ao seu redor dançavam juntas. Elas que estavam atrapalhando.
Antes que Eduarda pudesse puxar Lorena para longe de toda aquela gente, alguém foi mais rápido que ela e e puxou Lorena para o centro. Quando menos percebeu, Lorena estava de novo no olho do furacão, sambando com desconhecidos, e aquele mesmo sorriso voltou ao seu rosto, felicidade pura.
A ruiva se afastou, voltando para o banco onde estava sentada, e começou a refletir.
Porque caralhos ela beijou Lorena?
A resposta mais simples era porque sentiu vontade. Mas era essa vontade que não fazia sentido em sua cabeça. Ela entendia que Lorena era linda, sem sombra de dúvidas, além de engraçada, cuidadosa, uma ótima companhia, e parecia trazer felicidade e iluminar qualquer lugar que pisava. E acabara de descobrir que ela beijava bem. Provavelmente isso faz dela uma namorada incrível.
Mas elas eram amigas. E nem eram tão próximas assim. De seu grupo, Lorena sempre pareceu ser a mais distante de si. Parecia até mesmo ter mais intimidade com Gerluce, a mais sumida do grupo devido a suas várias responsabilidades como mãe e avó. Mas quando se tratava de Eduarda, ela sempre parecia se manter a um braço de distância.
Exatamente por isso que, essa vontade toda, não fazia sentido em sua cabeça. Não havia precedentes.
E então, ela se lembrou da comparação que fez, ainda mais cedo. Como tudo aquilo parecia muito com um encontro. Especificamente, o primeiro encontro ideal de sua crush do trabalho.
Será que era isso? Estava se imaginando como faria quando fosse sua vez de trazer a escrivã, e definitivamente queria beijá-la. O que era mais um motivo para não fazer sentido, sua vontade de beijar Lorena. Seu objetivo era outro, tudo aquilo era em prol de lhe fazer conseguir conquistar a garota de seu trabalho.
Então aquele beijo foi um impulso sem sentido, e não se repetiria. Resolvido.
Lorena eventualmente voltou, e também parecia decidida a ignorar o beijo, o que para Eduarda, era ótimo. Seria idiota tentar explicar que estava comparando aquela saída de amigas com um encontro futuro que teria com sua crush.
— Então, depois de me roubarem mais de uma vez, vamos continuar as lições? — Ela falou, ainda um pouco ofegante, mas havia algo diferente em seu tom. Não era a mesma animação de antes, por algum motivo. Seria cansaço?
— Ué, mas eu já não virei sambista profissional? O movimento dos pés já tá incrível — Eduarda falou, tirando sarro.
— Duda, você ainda parece um robô da cintura pra cima, vamos, levanta.
Lorena lhe puxou para perto, segurando sua mão, mas logo soltou. Ela não gostou disso, queria segurar sua mão, dançar de mãos dadas, queria até andar segurando a mão dela. Era uma sensação boa, suas mãos eram macias…
— Foca aqui, Duda — Ela puxou a atenção para si. — Dobra seus braços, um pouco abaixo do peito, assim — Ela mostrou como fazer, e Eduarda timidamente imitou — Mexe pros lados, no ritmo. Tudo bem que pegar ritmo é um pouco difícil para você — As duas gargalharam, e o clima pareceu voltar ao normal. — Não fica toda dura não, sente a música, deixa o samba rolar por você. Se solta, vai.
Eduarda respirou fundo, e tentou juntar o movimento das mãos aos dos pés. Começou hesitante, devagar, mas o olhar de Lorena era encorajador, e a dica de de sentir a música era realmente boa, porque a animação e energia de tudo aquilo parecia de fato falar consigo.
— Quebra esse quadril Duda, se solta, vai! — Lorena gritou, uma felicidade tomando conta de sua voz, e Eduarda escutou.
Aos poucos, ela se soltou, deixou os braços livres, os pés começaram a dançar sozinhos, o quadril relaxou, e Lorena logo lhe acompanhou, também dançando de forma simples, ali, com ela. Ela prestou atenção no jeito que ela dançava, trocando os passos, repetindo o mesmo movimento, soltando os braços, e Eduarda espelhava tudo.
Estava sambando. Estava realmente sambando, e pela reação de Lorena, não era aquela coisa desastrosa de todas as vezes que tentaram. Podia não ser a fluidez que muitos tinham ali, e ela podia não estar confortável do jeito que alguns estavam, ao ponto de saltitar, bater os pés juntos, ou girar. Mas aquilo era novo para ela.
Estava sambando com Lorena, graças a Lorena.
Será que, pra quem olha de fora, era mais bonito do que quando ela dançou com aquela Luna?
O pensamento veio tão de repente, e de forma inusitada, que lhe fez perder o ritmo e pisar nos próprios pés, quase caindo.
— Bom, temos um novo recorde de quanto tempo você consegue sambar sem tropeçar e quase comer asfalto — Lorena falou, rindo, e parando sua dança junto.
— Com sorte, até o fim do dia, eu termino uma música, não acha? — Eduarda falou, mas sua mente ainda corria livre com diversos pensamentos, entre eles, a euforia de ter conseguido o que tanto queria, e a estranheza de querer tanto continuar sambando com Lorena, mesmo que não precisasse.
— Mas você conseguiu, Duda! Você tava sambando!
— A gente conseguiu, Lore. Se orgulha também, a ensinar alguém com dois pés esquerdos — As duas gargalharam — A gente tava sambando juntas,isso é incrível.
— É, agora vamos trabalhar em melhorar esse “sambar junto” — Lorena falou, e pareceu engolir seco antes de terminar sua frase — Afinal, isso tudo é pra você dançar com a escrivã gata, não é?
Ouvir aquilo foi como um balde de água fria em Eduarda. Matou de uma vez todo o sentimento gostoso que estava sentindo ao sambar com Lorena, o que não fazia sentido nenhum!
Era até frustrante, se sentir assim. Porque no fim, Lorena estava certa! Tudo aquilo realmente era em prol de conquistar a escrivã. Lorena se ofereceu para isso. Mas ouvir aquilo da boca dela, reduzindo um momento que as duas estavam vivendo juntas a “isso é para te ajudar com a escrivã” parecia tão errado em sua mente.
— É, quem sabe, não é? — Foi tudo que saiu da boca da ruiva. Sua vontade era sair um pouco dali, respirar — Eu vou comprar uma água pra gente, volto já, viu? — E saiu rápido, antes que Lorena se oferecesse para ir junto.
Comprou uma água para Lorena e um refrigerante para si. Queria mesmo era a Spaten geladinha que estava em promoção, mas estava de carro, e planejava deixar Lorena em casa. Bebeu o refri sozinha, olhando de longe, Lorena novamente ser puxada para sambar com todos ali.
Ela tinha jeito, tinha talento, e todos queriam poder desfrutar daquilo.
O peito de Eduarda se encheu de um sentimento que não sabia nomear. Queria voltar lá e puxar Lorena para sambar com ela de novo, mesmo que não fosse tão boa assim.
Quando ela voltou para perto, Lorena largou a pessoa com quem estava dançando para ir ao seu encontro. Duda sentiu seu ego explodir, e reprimiu um sorriso convencido.
— Pega, bebe um pouco de água. Você só parou pra comer e olhe lá — Ela falou, o sorriso sendo óbvio até em sua voz.
— É que eu nunca tinha vindo aqui. Não sabia que era tão gostosinho, essa energia maravilhosa — Lorena encarava a roda de samba com os olhos brilhando — Sei lá, eu me sinto em casa.
Eduarda abriu a boca para falar algo, algo que estava na ponta de sua língua, “A gente pode vir mais vezes, eu te busco, eu venho com você todos os domingos, só pra te ver sorrir desse jeito”
Mas Lorena foi mais rápida.
— Sua escrivã está certa, é um ótimo lugar para um primeiro encontro.
Tudo que ela queria falar morreu em sua boca, deixando um gosto amargo. “Sua escrivã”. Até parece.
— Vamos sambar? — Lorena perguntou, sorrindo, e Eduarda afirmou, e as duas se embrenharam no meio da muvuca, sambando juntas, mesmo que não estivessem grudadas.
Ficaram ali até o sol começar a baixar. Lorena se desgarrou várias vezes para dançar em meio ao povo, parecia conhecer todos os samba-enredo que tocavam. Eduarda anotou mentalmente alguns para ouvir com calma. Mas eventualmente o cansaço lhe venceu, e Lorena pediu para Eduarda lhe deixar em casa, o que a ruiva fez com prazer.
A Lapa era um pouco longe de onde Lorena morava, então não levou nem 10 minutos para Lorena cochilar encostada no vidro do carro. Eduarda achou aquilo a coisa mais preciosa do mundo, e também completamente plausível. Tinha pena de Lorena, que trabalharia amanhã com a perna em frangalhos. Não entendeu de onde veio tanta energia, mesmo depois de uma semana trabalhando, para sambar ininterruptamente uma tarde inteira. Mas Eduarda não reclamaria.
Realmente queria viver aquilo todo domingo.
Acordou Lorena delicadamente quando chegaram em sua casa.
— Lore, a gente chegou — Ela falou, com uma voz suave, chacoalhando a morena de leve — Você cochilou.
— O que? — Ela acordou atordoada, parecia ter tirado uma ótima soneca — Meu Deus do céu, me perdoa Duda. Eu dormi que nem percebi — Tinha vergonha genuína em sua voz, e Eduarda gargalhou.
— Tá tudo bem, surpresa eu teria ficado se você não tivesse cochilado. Você dançou muito, deve estar exausta.
— Um pouco — Ela segurou um bocejo, e seu rosto se avermelhou. Preciosa. — Mas muito obrigada, a volta deve ter sido entediante.
— Na verdade não. Eu estava ouvindo os samba-enredo que tocaram lá. Foi uma viagem de volta muito gostosinha — Ela falou, sorrindo — Agora você vai jantar alguma coisa, tá? Não vai dormir direto, por favor.
— Credo, eu nunca faria isso.
— Sério? É algo que eu tranquilamente faria.
As duas gargalharam juntas, e ficaram trocando olhares no carro, sorrindo. Parecia que nenhuma das duas queriam que aquela noite acabasse. Mas eventualmente Lorena quebrou o contato visual, retirou seu cinto, e se preparou para ir embora.
— Obrigada por hoje, Duda. Eu me diverti muito, de verdade. E eu também fiquei muito feliz com o tanto de progresso que você fez. Tá começando a ter o samba no pé, viu?
— Eu que agradeço, é tudo graças a você, Lore. E eu também amei hoje, acho que nunca me diverti tanto — Eduarda se esforçou para deixar o máximo de honestidade ficar óbvia em sua voz. Queria que Lorena entendesse aquilo.
A morena sorriu, e saiu do carro, em direção a seu prédio. Antes de entrar, ela ainda se virou mais uma vez, para sorrir para Eduarda.
A ruiva ligou o carro, e seguiu em direção a sua casa, com seu coração sambando, e pensando que se aquilo fosse realmente um encontro, ela teria se despedido de Lorena com um beijo.
Vontade não faltou.
— Finalmente chegaram! — Júnior gritou quando viu Paulinho e Eduarda passando pela porta do bar — A gente pediu uma batatinha.
Eduarda olhou a mesa composta por Maggye, Júnior e Lorena. Não havia visto a morena desde domingo, quando saíram juntas, e já era a sexta de sempre. A visão dela fez seu coração saltitar no peito. Estava com saudades? Talvez. Não era um problema sentir saudade de amigos, não é?
— Porque o Júnior saiu mais cedo de vocês? — Lorena perguntou, assim que os policiais tomaram seus lugares.
— Mais cedo não, horário de gente normal — Maggye falou, rindo.
— A gente é da mesma delegacia, mas fazemos coisas bem diferentes, eles são investigadores e eu sou da cibersegurança. — Júnior respondeu, enquanto preenchia copos de cerveja para seus dois colegas de trabalho. Eduarda agradeceu.
— Ou seja, a gente vai atrás de bandidos e ele fica atrás do computador jogando paciência.
— Me poupe Paulinho — Júnior retrucou — Foi no seu computador que acharam paciência instalado de forma clandestina.
E o clima animado de toda sexta feira já estava ali, todos rindo, fazendo piadas, e desabafando de coisas que aconteceram em suas semanas de trabalho. Mas a atenção de Eduarda estava dividida. Não conseguia parar de se perder em Lorena.
Estava linda. Uma beleza diferente daquele domingo. Seu cabelo estava preso de qualquer jeito, com alguns fios escapando e caindo em seu rosto. Rosto esse que não carregava mais nenhuma grama de maquiagem, e sua roupa, que parecia ser algum tipo de composição com uma jaqueta e colete, estava descartada de qualquer jeito em sua mochila. Vestia só uma regata leve básica.
Era uma visão de tirar o fôlego. Eduarda não queria parar de olhar nunca.
Contou os minutos até que a playlist do bar fizesse a transição para o samba que sempre tocava. Bebeu alguns goles de cerveja para ajudar na coragem, mas nada que fosse exagero.
Chamaria Lorena para sambar, e queria se lembrar muito bem disso.
Finalmente, ela ouviu os primeiros sons de pandeiros e cuícas, e virou seu olhar, já sabendo que Lorena estava igualmente lhe encarando. O samba era algo delas.
— Vem Lorena, vamos mostrar pra todo mundo que eu consigo sim, aprender a dançar — Ela levantou, e ofereceu sua mão, torcendo para que ela pegasse.
— Claro, eu fiz um milagre e tenho que ser aplaudida — Todos gargalharam da piada, e Lorena segurou sua mão. O contato foi tão acolhedor quanto o primeiro ar fresco que você respira quando termina o expediente.
Elas partem até a área livre de mesas para dançar, e se aproximam, mas pela primeira vez, o posicionamento das mãos pareceu se bagunçar.
— Duda, você tem que aprender a conduzir. Eu coloco uma mão no seu ombro, e você na minha cintura.
Mas, naquele momento, Eduarda queria ser conduzida. Queria as mãos macias e firmes de Lorena em sua cintura, que nem da ultima vez que tentaram dançar juntas naquele bar.
— E se… eu quiser ser conduzida? — Ela falou, sua voz hesitante — Quer dizer, eu não sambo tãããão bem assim, sabe? É até melhor.
Lorena levantou uma sobrancelha em questionamento, mas levou a mão à sua cintura, e começou os passos lentos. O curto-circuito que ocorreu no cérebro da ruiva, ao sentir aquele aperto de novo, quase lhe fez errar os passos. Mas as duas começaram juntas, a sambar.
Ela fechou os olhos, e se deixou sentir a música, que nem naquele domingo. Quando ela abriu os olhos, Lorena a encarava com os olhos verdes brilhantes. E aquele maldito sorriso no rosto, que parecia limpar todo e qualquer pensamento de sua mente.
As duas estavam sincronizadas, os passos em conjunto, e Eduarda até se arriscou a girar junto da morena. Quando as duas rodopiaram, ela viu de canto de olho uma garota cacheada encarando com afinco. Luna.
Seu peito se encheu de algo venenoso, sufocante. Ciúmes, finalmente entendeu. E, logo após, ego, porque quem estava ali, dançando com Lorena, era ela, e não Luna.
Aquilo lhe encheu de uma confiança absurda. Queria se exibir, mostrar para aquela cacheada que dançava melhor com Lorena, que elas eram um par muito mais bonito. Ela se arriscou a girar, e misturar seus passos, a sambar como quem sabe (por mais que ela não soubesse)
Lorena se surpreendeu com sua audácia, mas aceitou o desafio, e as duas soltaram a ginga nos pés. Ficou mais desengonçado, e saiu do ritmo várias vezes, mas definitivamente foi mais divertido. Era como se o mundo tivesse sumido, seus amigos não estivessem vendo nada daquilo, não existisse uma cacheada encarando suas costas como se fosse fazer um buraco. Ali era só Eduarda e Lorena, o samba nos pés, e seu coração sambando no mesmo ritmo.
— Obrigada por me ensinar, Lore — Eduarda falou, do fundo de seu coração.
— Eu que agradeço por aprender — Ela responde, igualmente sincera — Eu amo sambar com você.
E ali, novamente, Eduarda sentiu uma vontade avassaladora de tomar aqueles lábios para si. Dessa vez, não havia explicação ou motivo.
Depois de três músicas seguidas, as duas precisavam de um tempo para recuperar o fôlego, então voltaram para a mesa. Foram recepcionadas por uma rodada de aplausos entusiasmados.
— Só para deixar claro, os aplausos são para Lorena, viu? — Paulinho falou — Realmente, pra te fazer dançar assim, só milagre.
— Meu Deus, vai se ferrar Paulinho — Ela falou, rindo, por mais que concordasse completamente com aquilo. Lorena fez milagre mesmo.
— Mas é sério, foi lindo. Vocês são bonitas juntas. Sambando juntas, no caso — Maggye falou, e pelo seu tom de voz, o erro na frase foi completamente proposital.
E aquela frase ficou, realmente, ecoando na mente de Eduarda o resto da noite. Porque cada um de seus amigos queria testar suas habilidades de sambar.
Maggye lhe puxou para dançar, e dessa vez Eduarda realmente teve que conduzir. Foi um pouco desengonçado, mas bem melhor do que ela imaginava. A estilista ainda terminou falando que aquele samba conseguiria conquistar corações.
Depois, Júnior queria uma palinha, e com ele foi muito mais descontraído. Ele preferia sambar sozinho, e Eduarda o acompanhou no gingado. De alguma forma, aquilo se tornou uma competição de quem sambava mais rápido, fazendo Eduarda tropeçar nos próprios pés e quase cair novamente. Lorena riu, declarando em alto e bom som que aquele era seu novo recorde.
Até Paulinho lhe arrastou para dançar, e por mais que ele tenha feito bastante piada com sua falta de habilidade, ele não estava muito atrás, e os dois acabaram pisando no pé um do outro várias vezes, fazendo a mesa inteira rir.
Por último, ela puxou Lorena para dançar mais uma vez, e ficou comprovado em sua mente que dançar com ela era diferente. Dessa vez, se arriscou em conduzir, e percebeu que a cintura dela cabia perfeitamente em sua mão. Sentiu seu corpo inteiro se esquentar com essa informação.
Estava cansada, seus pés doíam depois de serem pisados, e suas pernas pareciam gelatina de tanto dançar, mas se pudesse, ainda passaria a noite inteira dançando com Lorena.
Realmente precisava colocar seus pensamentos e sentimentos em ordem, assim que chegasse em casa. Não aguentava mais aquela confusão toda, e precisava entender de uma vez por todas, porque tudo com Lorena era tão diferente para si.
Porque seu coração sambava toda vez que se encontravam.
— Oi Duda, posso almoçar com você?
Eduarda estava almoçando um fricassê de frango delicioso, enquanto assistia o desfile da Beija-Flor de Nilópolis (Bembé realmente ficou na sua cabeça)
Não esperava que Clara, a escrivã gata, fosse lhe acompanhar no almoço naquele dia.
Na verdade, já fazia um bom tempo que não almoçavam juntas. Se era porque Eduarda agora almoçava mais cedo, um horário que definitivamente não era bom para a escrivã sair de sua mesa, ninguém poderia dizer. Nem que aquilo foi completamente proposital da parte da ruiva.
— Ah, claro — Ela deu espaço ao seu lado na mesa — Fica à vontade.
— Faz tempo que a gente não almoça juntas, né? — Ela perguntou, sorrindo — Você agora almoça fora do meu horário.
— Ah, é que o Delegado pediu que eu ficasse disponível no horário que o Paulinho estivesse almoçando, então agora eu como mais cedo — Era mentira. Paulinho costumava comer na própria sala, enquanto lia seus inquéritos.
— Que pena, eu adorava almoçar com você, quem sabe eu não tento mexer nos meus horários pra vir mais cedo também.
Edurda era meio lenta, mas não era idiota. Clara estava obviamente flertando com ela. Ou no mínimo jogando um verde e esperar para ver o que iria colher.
Desde quando Clara lhe dava essa abertura toda?
— Quem sabe, né? — Aparentemente, ela sempre respondia a mesma coisa quando não sabia o que dizer.
— Inclusive, você soube da festa do Peixoto?
— Ouvi por cima, mas ele estava em um plantão contrário ao meu, eu quando eu cheguei, ele estava em operação.
— Vai ser uma grande festa, vai alugar uma chácara, fazer um churrasco, chamar todo mundo da delegacia — Uma pausa. — Vai chamar uns amigos dele que tocam samba. — Clara falou aquilo com um sorriso calculado no rosto, sabendo exatamente para onde levaria aquela conversa. O problema é que Eduarda também havia entendido o rumo que tomaria.
— Sério? Poxa, vai ser muito bom.
— É, e o Peixoto ainda disse que poderíamos trazer um par, sabe, pro pessoal que namora. Tipo o Paulinho. Com certeza ele vai levar a Gerluce, né? — Eduarda assentiu com a cabeça. Ela não gostava do caminho para onde essa conversa estava indo. — Então eu estava pensando, se você não quer ir comigo…
Eduarda quase se engasgou na própria comida.
— Já que você gosta tanto de sambar quanto eu, e eu já estava pensando esses tempos, de te chamar para sair, sambar na Lapa. A festa do Peixoto apareceu no momento perfeito, não acha?
— É uma grande coincidência…
— O que acha, então? Quer ir junto comigo?
E não era esse o objetivo desde o começo? Aprender a sambar para chamar ela para sair? E agora, Eduarda não precisava passar nem pela dúvida se ela aceitaria ou não, porque estava sendo chamada para sair. Era o melhor dos cenários, de fato.
Sorrindo, Eduarda abriu a boca para responder o convite.
Quinta-feira era um dia estranho para se reunirem no bar, considerando que a tradição era estar lá toda sexta, e dois dias seguidos era forçar demais para a carteira (e o fígado)
Mas logo naquela sexta seria a festa de Peixoto, e Paulinho e Gerluce iriam juntos, assim como Maggye e Júnior. E Eduarda também, só não sabiam se iria com alguém. Lorena seria a única deixada de fora da farra, e todos concordaram em se reunir no bar na quinta, quando as agendas bateram.
A morena ainda tentou argumentar, que não precisava, que uma semana que eles não fizessem algo juntos não era o fim do mundo, mas Maggye já tinha deixado claro que queria comer os bolinhos de milho com bacon, Paulinho declarou que não sobreviveria uma semana sem seu caldinho de feijão, e Eduarda disse que queria sambar. Com Lorena.
Então lá estavam eles, comendo e bebendo como sempre, mas dessa vez o aniversário de Peixoto era o assunto principal.
— Ele disse que ia ter carne pra dar raiva — Júnior disse, enquanto pegava alguns bolinhos da mesa — E que tinha separado alguns dos meus cortes favoritos para assar.
— Esse Peixoto tá de olho em você, Albano Júnior, você fica esperto. — Maggye falou, irritada.
— Ainda bem que eu só tenho olhos pra você, minha rainha. E amanhã você vai chegar bem linda e eu vou ficar até apagado diante da sua beleza e vou falar todo orgulhoso que você é minha mulher — Júnior disse, regando sua namorada de beijinhos.
— Me chamaram pra ficar de vela, pelo visto. — Lorena disse, encarando todos na mesa. Até Gerluce tinha marcado presença.
— Tem eu aqui — Eduarda disse, e ela parecia excepcionalmente feliz naquela noite — Eu também tô de vela, Lore.
— Tem alguma coisa estranha com você — Gerluce falou, com os olhos semicerrados — Você tá toda sorridente, dona Eduarda. Desembucha, o que houve?
— Eu também percebi — Maggye acrescentou — Desde que chegamos aqui, ela tá só risadinhas.
— Talvez eu saiba o motivo — Paulinho disse, em um tom divertido, e o sorriso de Eduarda morreu na hora. Ele não só não sabia o motivo, como poderia bagunçar todo o seu planejamento — Eu conto, Juquinha?
— Fica calado, Paulinho. — Ela esbravejou, mas a mesa inteira explodiu em reclamação
— Como assim “fica calado?” Tá escondendo fofoca agora, é? — Gerluce quase gritou.
— Ah, mas você não vai fazer as coisas calada assim, de jeito nenhum. Amor, fala o que ela ta aprontando — Maggye se virou para seu namorado, exigente.
— Amor, mas nem eu sei! Isso é coisa dela e do Paulinho!
E em meio a tudo isso, Eduarda estava atenta a reação de apenas uma pessoa: Lorena. Se ela também queria saber o motivo daqueles sorrisos, se ela queria arrancar a informação de Paulinho, ou se respeitaria seu silêncio. E quando as duas trocaram olhares, a mesa inteira pareceu sumir. Só existiam elas duas, se encarando. Eduarda sorriu, mas antes que Lorena pudesse retribuir o sorriso, Paulinho decidiu abrir a boca.
— Ok, calma! Eu vou contar! A Juquinha conseguiu o date com a escrivã.
O sorriso que havia começado a se abrir no rosto de Lorena morreu imediatamente, sua expressão inteira morreu junto, incluindo o brilho dos seus olhos. A mesa inteira explodiu em gritos e assobios, e Lorena foi a única a ficar calada.
— É sério isso? Que massa! Que horas foi isso, Jucs? — Júnior falou animado.
— Duda, explica isso direito, agora. — Já a voz de Maggye não parecia tão acolhedora.
— A Clara falou que estava animada para sambar na casa do Peixoto, que já tinham chamado ela pra ir, foi você né Juquinha? Apareceu a oportunidade e você agarrou, né? Atacante! — Paulinho declarou com orgulho.
Ninguém na mesa percebeu que Eduarda não sorriu com a revelação, nem ao menos confirmou. Ninguém percebeu que ela parecia desesperada, e não tirava os olhos de Lorena. Ninguém percebeu, também, o sorriso forçado de Lorena, e como ela não comemorou.
A morena se levantou, chamando atenção de todos na mesa.
— Gente, eu adorei ter visto vocês hoje, espero que curtam bastante a festa amanhã, me mandem fotos viu — Ela parecia se esforçar muito para manter a voz firme — Tenho que estar no trabalho amanhã cedo, então acho que já vou indo, foi mal viu?
— Amiga…? — Maggye já ameaçava se levantar, mas Lorena lhe impediu com a mão em seu ombro, mantendo ela sentada.
— Relaxa Maggye, eu só realmente preciso ir logo, até semana que vem pessoal — Ela pausa, parecendo engolir seco — Que bom que você conseguiu seu date, Duda. Fico feliz que tenha te ajudado a conseguir isso.
Com isso, Lorena se vira e parte em direção a saída do bar. Todos ficam calados, incrédulos, surpresos com aquela reação, sem entender o que tinha acontecido.
Demorou dez segundos inteiros para Eduarda levantar de uma vez, pegando sua bolsa na mesa e indo embora, sem ao menos se despedir, surpreendendo todos na mesa de novo.
— LORENA! — Ela gritou na saída do bar, com medo de não conseguir alcançar ela a tempo. Ela estava virando a esquina, indo em direção ao metrô — Deixa eu te levar em casa, por favor.
— Porque, Duda? De metrô pra minha casa é rapidinho, e minha casa não é exatamente no caminho para sua. — Sua voz parecia cansada, e trêmula.
— Já tá tarde — Ela se aproximou um pouco mais, com cuidado — Deixa eu te levar, por favor.
Lorena lhe encarou de longe, mas decidiu dar meia volta, e seguir junto com a ruiva até seu carro. As duas andavam em uma distância considerável uma da outra, completamente diferente de como fora todos aqueles dias. Mesmo já dentro do carro, não existiam traços do silêncio confortável que já tinha se tornado esperado, entre elas.
Ali, a falta de uma conversa parecia sufocar as duas, o trajeto inteiro. Eduarda não teve coragem de nem ao menos ligar o som para tocar alguma música. Lorena estava muda, e não ousava olhar para outro lugar além da paisagem que se passava pela janela.
Quando o carro chegou ao destino, antes de destrancar a porta e deixar a morena sair, Eduarda respirou fundo, e começou:
— O Paulinho tá errado. Eu não vou sair com a Clara, a escrivã. — Ela falou, antes que Lorena fosse embora.
— Como assim, Eduarda? — Lorena falou, sem acreditar muito naquilo — O Paulinho não mente, então alguma coisa tem aí.
— Bom, se chamaram ela, eu não sei, mas ela me chamou — Eduarda falou, e Lorena visivelmente murchou com a informação — Ela me encurralou no almoço, me avisou do aniversário do Peixoto e me chamou para ir junto com ela. Pra gente sambar.
— Exatamente o que você queria, Duda — O tom de voz de Lorena era trêmulo, enquanto ela tentava fingir animação — Que bom, parabéns — Ela sorriu — Eu que fui besta de achar que algo diferente aconteceria — Lorena falou baixo, mas Eduarda ainda conseguiu escutar. Seu peito se encheu de esperança.
— Eu neguei — A ruiva falou, com um sorriso no rosto. Lorena arregalou os olhos.
— Negou?! Como assim você negou, Eduarda?!
— Eu agradeci o convite, mas falei que não tinha interesse, porque já ia levar outra pessoa pra sambar comigo.
— Você é louca? Não era esse o objetivo o tempo inteiro? Conseguir sair com ela? — Lorena estava realmente incrédula, ao ponto de ser cômico. — Peraí, como assim você já ia levar alguém? Tem outra garota?
— Tem sim. Quer dizer, eu ainda não chamei ela, mas espero que ela aceite. Eu me esforcei bastante pra aprender a sambar, pra poder sambar com ela — Eduarda desafivelou o cinto, para poder encarar Lorena de frente, com um sorriso imenso no rosto.
— Duda, me explica isso direito, por favor — Lorena parecia menos estressada, e mais confusa, mas existia um fio de esperança naquele pedido.
— O objetivo, no começo, realmente era aprender a sambar pra chamar ela pra sair. Mas, quando eu menos percebi, sambar junto se tornou uma coisa nossa, Lorena. E o sorriso que você abre toda vez que eu acerto um passo, que eu entro no ritmo, que a gente gira junto… Toda vez que você sorri, eu quero sambar por você.. Com você — Eduarda falou, e os olhos de Lorena se arregalaram a cada frase dita. — Eu gosto de você, Lorena. Então eu pergunto: Você quer sair comigo para ir sambar amanhã? Eu prometo não te fazer passar vergonha. Eu tive uma ótima professora, afinal.
O rosto de Lorena passeou por diversas expressões. Surpresa, incredulidade, alívio, mas finalmente parou em um sorriso imenso, as covinhas furando suas bochechas, os dentes tortos despontando… O sorriso mais lindo do mundo.
— Eu quero, Duda. Sambar com você se tornou minha coisa favorita do mundo, então é claro que eu quero.
Eduarda gargalha, em alívio puro, e considera se deve ou não, se inclinar para ou beijar os lábios que dominavam sua mente nos últimos dias, mas uma buzina vindo da avenida logo a frente a surpreende. Por um segundo, se esqueceu que estava parada na frente do prédio de Lorena. Definitivamente não era o lugar ideal para isso. Não era problema, seu plano era ganhar todos os beijos que queria, no dia seguinte.
— Eu tenho que ir, ficar assim no carro, no meio da rua, é meio perigoso — Lorena falou, sorrindo de orelha a orelha, e Eduarda queria ter algum jeito de proteger ela, só para usar de desculpa para enrolar mais naquele carro. — Ah, antes de ir, porque o Paulinho falou aquilo, então? Ele não sabe?
— Não, eu ainda não comentei com ninguém. Acho que isso significa que você aparecer amanhã vai ser uma surpresa.
— Você quer que seja surpresa? — Ela perguntou, com uma sobrancelha levantada, rindo.
— Porque?
— Porque, se você quiser que seja, vai ter que aguentar a Maggye indo te xingar mais tarde. Porque ela sabe que eu gosto de você.
— Você gosta de mim? — Eduarda perguntou, com a expressão mais idiota do mundo em seu rosto.
— Ai que menina besta — Lorena responde, rindo, e as duas gargalham juntas.
— Pode deixar a Maggye acreditar que você teve seu coração partido por uma ruiva nanica, amanhã o queixo dela vai cair com nossas habilidades sambísticas juntas. — Lorena gargalha um pouco mais alto, e o som parece preencher o carro inteiro.
— Então tá, até amanhã Duda — Lorena fala, e finalmente toma coragem para sair do carro.
Ao fechar pela porta, ela se apoia no vidro aberto, e deixa um beijo no ar para Eduarda, que ri, incrédula, e acompanha com o olhar até a morena sumir pela porta do prédio.
Ela dá partida, entrando na rua novamente, e dando play no som do carro. Sua playlist de samba começou a tocar, para se adequar ao ritmo frenético das batidas do seu coração.
Quando Eduarda chegou no local, o som dos pandeiros, violas e atabaques eram escutados de longe. Assim que pisou no lugar, com Lorena ao seu lado, a morena sumiu em direção a roda de samba, como a ruiva já esperava que aconteceria. Não era problema, assistir Lorena sambando era um privilégio para si.
Mas antes que pudesse escolher um lugar em meio aquele povo, Paulinho lhe puxou pelo braço, para um canto, onde seu grupo de amigos estava reunido.
— Chegou, Juquinha! — Seu parceiro lhe deu um braço apertado, definitivamente já havia tomado algumas.
— Cadê a escrivã? Chegou com você? Quero saber se ela é tudo isso mesmo. — Gerluce perguntou, lhe abraçando também.
— Pois é, Duda. Que tal se você apresentar seus amigos pra ela? — Maggye falou, mas seu tom não era convidativo, e sim espinhoso.
Eduarda teve que segurar a risada. Na noite anterior, depois de deixar Lorena em seu prédio e chegar em casa, a morena lhe mandou mensagem avisando que Maggye lhe garantiu que seria seus olhos e ouvidos na festa, para saber se a escrivã tinha alguma real chance de engrenar com Duda.
— Se eu te falar que não sei? — Eduarda falou, com um sorriso do tamanho do rosto — Não foi com ela que eu vim.
— Como assim? — Júnior perguntou.
— Se ela vem, com quem ela vem, eu não faço ideia. Mas eu sei que a menina que eu chamei para vir está ali no meio, sambando. E eu queria muito sambar com ela. Porque foi pra isso que eu treinei esses dias todos. Então, se vocês me derem essa licença.
Eduarda disse, e se afastou dos amigos, rindo. Sabia que eles a seguiriam sem pensar duas vezes, então, sem olhar para trás, ela foi até a roda de samba, a tempo de ver Lorena girando animadamente, e encantando a todos. Mas quando as duas fizeram contato visual, Lorena parou, e sorriu para ela. Aquele sorriso pelo qual valia a pena sambar.
Sem um pingo de hesitação, Eduarda atravessou a multidão para chegar em Lorena, e dançar com ela. Não se importou com seus dois centavos de samba sendo comparados com todos que pareciam ter fogo no pé, naquela roda. Porque estava dançando com Lorena, e só isso importava.
— Então, quer me provar que as aulas valeram a pena? — Lorena falou, lhe segurando pela cintura, os rostos próximos.
— Pra mim, só de eu estar bem aqui, sambando com você, já valeu a pena — Eduarda falou, e Lorena gargalhou, jogando a cabeça para trás. As duas começaram a se movimentar, e já estavam sincronizadas ao ritmo uma da outra. Eduarda, dando tudo de si, e Lorena se adequando aos passos dela.
— Sabe, tem uma última lição que eu não te ensinei, quando se trata de sambar juntinho — Lorena falou, se aproximando ainda mais de seu rosto.
— Ah é? E qual que é? — A ruiva perguntou, baixando o tom de voz, falando bem perto do rosto de Lorena.
— Não é samba de verdade se não tiver um beijo bem gostoso junto, sabia?
— Não sabia não — Eduarda falou, segurando Lorena pelo queixo. As duas já haviam se perdido completamente no ritmo da música, dançando agora num compasso próprio. — E você não me ensinou porque, linda? — Lorena alargou ainda mais seu sorriso com o elogio.
— Porque quem tinha que ganhar esse beijo era eu. — Ela fala, se aproximando ainda mais, cortando quase toda a distância. Suas respirações se misturavam, e o cheiro de flores de Lorena lhe deixava embriagada.
— Então eu posso te dar esse beijo?
— Já deveria ter dado — E Lorena encerra a distância com seus lábios.
O beijo é como um gole de água em um dia de calor. Impressionante como ela foi capaz de sentir saudade de algo que só teve uma vez, por tão pouco tempo. Mas agora estava beijando Lorena novamente, e aproveitaria cada segundo. Subiu as mãos, passando pelos ombros e pescoço, e pousando no seu rosto. Enterrou suas mãos nos seus cabelos negros, e aprofundou o beijo.
Era viciante. O gosto da boca dela era viciante. As línguas se chocaram, travando uma batalha intensa, quase no mesmo ritmo que seu coração batia. Os estalos pareciam ecoar em sua cabeça, e Eduarda se sentia girando. Tudo parecia vinte vezes mais intenso.
Se afastaram quando o ar faltou, e a visão que teve lhe tirou do eixo. Os cabelos de Lorena bagunçado, sua boca vermelha e as pupilas dilatadas. Era uma vista que lhe dava fome. Avançou imediatamente para mais um beijo, e Lorena retribuiu de bom grado, mas elas foram interrompidas por uma mão pesada em seu ombro, lhe puxando.
— Venham bem aqui, vocês duas! — A voz de Maggye quebrou a bolha onde elas se encontravam, e a garota as puxava pelo braço. Lorena e Eduarda tentaram acompanhar, rindo, de mãos dadas. — Me expliquem isso agora!
O grupo estava separado, Maggye puxou Eduarda e Lorena para onde ela e Gerluce estavam sentadas. Os homens tinham buscado comida e bebida para todos. As duas foram sentadas forçadamente na mesa por Maggye, que as encara como um policial encara bandidos na mesa de depoimento.
— Podem me explicar agora mesmo o que acabou de acontecer ali?
— A gente tava sambando, ué — Lorena respondeu, com a cara mais inocente do mundo. Gerluce riu
— E o beijo? Fazia parte da coreografia?!
— Aparentemente sim, menina, acredita? — Eduarda falou, e ao seu lado, Lorena segurou a risada — Ela acabou de me falar que não é um bom samba se não tiver um beijo bonito.
— E o beijo foi bonito mesmo, viu? — Gerluce adicionou, e Maggye se virou para pedir silêncio pra cuidadora.
— Então ontem, quando a dona Lorena saiu toda murcha do bar ontem, porque a Duda tinha conseguido o date com a escrivã azeda, era mentira?
— Não mesmo. Eu faltei me humilhar, me ajoelhar na frente dela pra ela me deixar levar ela em casa pra gente conversar — A ruiva falou, sorrindo.
— E eu consolando a Lorena ontem? Achando que ela estava arrasada com a rejeição?
— Mostrei pra Duda hoje no carro, quando ela foi me buscar.
Maggye ficou completamente atônita, gaguejando e tentando organizar suas palavras, e falhando miseravelmente. Parecia dividida entre xingar, comemorar, e perguntar cada mínimo detalhe do que havia acontecido entre suas duas amigas. No outro lado da mesa, Gerluce já gargalhava alto.
Nesse meio tempo, os meninos chegaram com pratos cheiros de carne, e duas garrafas de cerveja para servir a mesa inteira. Paulinho já parecia querer falar algo no meio do caminho, ansioso para compartilhar o que tinha visto, sendo contido por Júnior.
— Ô Juquinha — Ele começou, antes mesmo de se sentar na mesa — Que diabo é isso que eu vi a Clara dançando com a outra escrivã, do turno oposto dela?
— Acabou de chamar pra sair e já tomou toco, Jucs? — Júnior perguntou, rindo — Você sambou tão mal que ela já te trocou? Acho que a Lorena não soube ensinar direito, né Lore?
Demorou cinco segundos inteiros para Júnior e Paulinho lembrarem que Lorena não deveria estar ali.
— Ué, Lorena?! — Paulinho perguntou, arrancando mais uma risada de Gerluce — O que você tá fazendo aqui? Quem te convidou?
— A Duda, ué.
— Elas tão juntas, gente — Gerluce adicionou, sorrindo, feliz com aquela novidade.
— Juntas? Vocês duas? — Júnior perguntou, incrédulo — Vocês duas estão juntas? — Ele perguntou, diretamente para Eduarda.
A ruiva olhou de canto de olho para Lorena querendo medir a reação dela. Seus olhos estavam brilhando, ainda com a euforia do samba, do beijo, da felicidade em estar ali com ela, ao invés de só receber notícias de longe, que a garota que ela gostava estava beijando outra.
— É. Estamos juntas sim. Chamei ela pra vir sambar comigo. — Ela falou, orgulhosa, e sentiu a mão de Lorena apertar a sua, por baixo da mesa.
— Mas você chamou ela depois de tomar toco da escrivã? — Paulinho perguntou.
— Não Paulo, meu Deus. Eu nunca chamei a Clara pra vir. Na verdade, quem deu o toco fui eu. Ela me chamou, mas eu recusei.
— Pra vir com a Lorena?
— É
— Que bom — Ele falou, tomando um gole de sua cerveja — Eu nunca gostei dela. Já tava me preparando pra fingir o sorriso ouvindo aquele papo furado dela. Que bom que você trouxe a Lorena. Dela eu gosto.
A mesa inteira explodiu em gargalhada, e as coisas pareceram se normalizar ali. Era como mais uma sexta qualquer no bar favorito deles, e ninguém se importava com as mãos conectadas as duas, ou com Lorena preferindo ficar calada, encarando seus olhos, ao invés de conversar, ou Eduarda interrompendo seu raciocínio para roubar um selinho da morena.
E se elas abandonaram os amigos algumas vezes para ir sambar, nenhum deles se importou. Maggye até mesmo optou por guardar o celular e não gravar Eduarda quase caindo, devido ao efeito que o álcool já estava fazendo em seus passos.
— Acha que tem alguma coisa pra eu comer aqui? — Lorena perguntou depois de um tempo — Ou será que eu vou ter que pedir em aplicativo? Meio complicado uma vegana vir em um churrasco…
— Complicado coisa nenhum, meu bem — Eduarda falou, percebendo que o rosto de Lorena se avermelhou com o apelido — Eu sabia que você não ia ter nada pra comer aqui, e antes de ir te buscar, passei no bar e pedi o sanduíche de jiló empanado que você sempre come lá. Tá nas minhas coisas, a hora que quiser comer você pode pegar lá
Ao invés de agradecer com palavras, Lorena não hesitou em lhe puxar para um beijo intenso e forte, que deixou a ruiva tonta, mas imensamente feliz.
— Você pensou até nisso? Assim você vai me ganhar fácil.
— Primeiro — Ela disse, levantando um dedo — Eu estou ganhando você com minhas habilidades sambísticas, já disse. — Lorena gargalhou, e Duda roubou um selinho rápido. Levantou o segundo dedo. — Segundo que é o mínimo, né? Se é pra ir num date com uma vegana linda, tem que garantir que independente do lugar, você vai ter o que comer.
— Ah, mas isso aqui não é um date, Duda.
— Não? — Seu sorriso morreu imediatamente. Lorena riu, e deixou mais um beijo casto em sua boca.
— Não. Eu ainda quero que você me chame para um primeiro date em específico.
Eduarda inclinou a cabeça, confusa, sem entender o que ela falava. Até que se lembrou de seu próprio desejo. Seu próprio “primeiro date” ideal. Sabia que era exatamente o que Lorena.
— Então, Lorena Ferette, você me daria a honra de levar você pra uma roda de samba maravilhosa que tem na Lapa, nesse domingo?
— Nossa, Eduarda Fragoso, nunca achei que você chamaria. Eu adoraria.
— Só tem um probleminha — Eduarda fala, com um sorriso canalha no canto de sua boca.
— Problema? Qual — Lorena perguntou, confusa.
— Você vai ter que me ensinar, porque eu não sei sambar. — Ela disse, rindo, e sendo calada com um beijo.
