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Lorena, completamente sem querer, chega aos dezoito anos cheia de amigos. Na creche, ela e Maggye se tornaram a dupla inseparável que continuaram a ser pelo resto da vida. Alguns anos depois, Lorena não só ganha um irmão de idade próxima, mas também os seus amigos: Kellen e Zé Maria. No ensino fundamental, vira amiga de Paulinho através de um trabalho horroroso de biologia no qual foram vítimas de um cartaz fosforescente. E, finalmente, no último ano do ensino médio, ela toma o posto de tesoureira do grêmio estudantil e vira refém de Lucélia- ela não considera seu relacionamento conturbado com a presidente de classe amigável, mas Lucélia discorda.
Nesse meio tempo, Lorena jamais teve o menor interesse nos esportes do colégio. Ela não tem vergonha nenhuma ao afirmar que não sabe chutar uma bola e que nunca quis aprender. Dependendo dela, Lorena só pisa num gramado para assistir Leonardo jogar lacrosse e isso a muito contragosto. Segue então que, de todas as pessoas em sua turma, Lorena passou a menor quantia de tempo com a capitã do time de futebol do colégio.
Não tem nada de errado com Eduarda Fragoso. Não é como se Lorena tivesse decidido não falar com a pobre garota por alguma desavença, longe disso! Elas tem os mesmos amigos e tudo e até fizeram trabalhos em grupo juntas ao longo dos anos, mas Lorena só nunca teve uma conversa longa com ela. Lorena sabe coisas simples sobre ela, como seu apelido na camisa do time ou seu almoço favorito.
É essa inocência dela que a traz problemas no aniversário da Maggye. Parece que a amiga tá sempre metida nas situações mais estranhas da vida de Lorena- a primeira vez que ela bebeu, a primeira vez que cabulou aula e a primeira vez que foi expulsa de sala. Até que a última foi culpa da Lorena mesmo, que estava mandando por mensagem a fofoca que ouviu de Paulinho no intervalo, mas e daí? Ela vai a acusar por mais esse de qualquer jeito.
O problema é que Maggye decide comemorar num karaokê. É daqueles fechados que se paga para alugar uma sala, então menos mal- só que Maggye tem uns 30 amigos de tudo quanto é canto e faz questão que todos conversem e Lorena, que até aquela noite se consideraria razoavelmente popular, fica presa num grupo do coral no qual só conhece Gerluce; as duas grudam uma na outra como uma fronte unida. Calha também que nesse grupo está nada mais nada menos que Juquinha, debatendo com seus amigos o que cantar no palco.
Calha também que Juquinha quer porque quer cantar High School Musical e Maggye ajuda dizendo “nossa, sabe que a Lore tava pensando em cantar também? Escolham uma aí de dueto, aí ninguém canta sozinha!”. A morte seria preferível, mas Lorena se encontra com a semi-desconhecida para cantar Breaking Free na frente de todo mundo.
Juquinha é uma excelente cantora e Lorena é... decente. Das duas, Juquinha se destaca muito mais e dá um show de carisma, enquanto Lorena faz o seu melhor apesar da vergonha. Ela se sente realmente como Gabriella, olhando seus amigos e uma galera aí cantarem junto delas; Juquinha é o Troy mais animado da história e faz contato visual com Lorena durante os três minutos mais longos da sua vida.
Dá tudo certo. Lorena sente que muito pouco deve não dar certo na companhia da jogadora. Mas Lorena desce sem fazer a menor ideia de como foi, só tendo a certeza de que Juquinha a apoiou 1001% ali em cima. Seus amigos estão impressionados e o expressam na hora- Lorena procura o olhar de Juquinha — uma conexão aleatória na sua opinião — e percebe que a outra já estava a procurando também. Ganha um largo sorriso de volta.
– Sabe que fizemos uma boa dupla, Ferette? – Juquinha diz mais tarde. Ela se senta do lado de Lorena no banco longo no canto da sala e a oferece uma Coca-Cola. Lorena aceita mais por costume que por sede.
– Acho que mais por mérito seu que o meu, Juquinha.
– Discordo muito. Mas olha- a gente devia cantar juntas de novo, o que acha?
É um convite estranho e Lorena sabe que sua confusão transparece em sua cara. – Aqui, hoje? Acho que já gastei minha coragem toda.
– Não, desculpa! – Juquinha olha para baixo, fixando seus olhos brevemente na latinha lacrada de refrigerante. Parece nervosa. – A gente ainda precisa de um representante pro 3º F pro show de talentos.
– Mas de jeito nenhum! – Lorena recusa na hora. – Juquinha, com todo respeito, não faz o menor sentido. Chama a Maggye, sei lá!
Maggye aparece da escuridão da sala e responde, sem titubear: – Amiga, nem no Brasil vou estar. Ia ser tão legal! Quebra esse galho aí.
– Vocês enlouqueceram?
As duas insistem, por que cargas d'água. Lorena também parece ter saído daquele palco com um parafuso a menos, porque aceita.
//
Juquinha não toca no assunto na segunda-feira. As duas sentam, por motivos de mapa de sala, uma do lado da outra bem no meio das fileiras; as conversas breves do fim de semana influenciam sua dinâmica a ponto de Juquinha comentar os assuntos do dia com Lorena como se fossem velhas amigas. Lorena cora durante o dia inteiro, por motivos “desconhecidos”.
– Você nem do show tá falando. Vai inscrever a gente?
– Já combinei com a galera da organização! Tá todo mundo animado.
– E você? – ela pergunta, desconfiada. – Você tá animada também?
A garota a responde com uma careta. Talvez até Juquinha seja capaz de se arrepender as vezes. Lorena sabe que ela já: caiu de todas as árvores do parque ao lado, quebrou os dois dentes da frente ao se jogar de uma rampa com um skate (ela não sabe andar de skate), fez parte de um campeonato de mortal em piscina e abriu a testa batendo na borda. Mas aparentemente seu limite é um palco. Vai entender.
– Poxa, nem sei. – a ruiva responde. – Te chamei pra cantar porque achei que fomos bem ali no sábado, mas agora tô me perguntando se foi uma boa...
A única resposta possível é a indignação. – Você me chamou e agora tá dando pra trás?
– Claro que não! Tô só pensando em voz alta. Cogitando ideias.
A maneira displicente com que Juquinha fala a irrita. Faz semanas desde que elas começaram a sentar juntas e Juquinha não deu nem um pio- bastou dois dias conversando e Juquinha não somente a enfia numa cilada quanto tenta arredar o pé. – Olha, decida-se logo. Eu tenho um monte de matéria para revisar e ainda tô ajudando o grêmio estudantil.
Juquinha se larga na carteira enquanto Lorena fala, visivelmente desinteressada ao ouvir “grêmio”. – Você nem conversa comigo, Lorena, e aí em dez minutos me corta e me troca pela panelinha da Lucélia.
Você também não falou comigo por anos. – Lorena se arrepende de sua fala ao ver Juquinha começar a sorrir. – Não fala nada que já me irritou.
– Agora vou falar o tempo todo contigo, que tal? Você vai esquecer o tempo em que não ouvia minha voz todo dia.
Ela não tem a quem culpar a não ser ela mesma. – Não precisa, Juquinha.
//
Juquinha fala muito. O tempo inteiro. Sobre tudo.
Não é assim, novidade novidade pra Lorena, porque elas estudam juntas há anos. Juquinha frequentemente é expulsa de sala por falar pelos cotovelos sobre matéria, série, novela e esportes com todos que lhe derem ouvidos. Mas esse ano seu melhor amigo, Paulinho — que já parou de ser “inho” faz muito tempo — ficou no 3ª B por pedido dos professores, então a atleta vem procurando um novo interlocutor.
Ela escolhe Lorena. Talvez seja pela proximidade ou pelas amizades em comum, mas de alguma maneira Lorena captou seu interesse. E, sinceramente, não a incomoda tanto quanto ela faz parecer- é meio difícil no início, mas Lorena sempre considerou Juquinha inteligente e divertida. Ela só esconde muito bem.
Secretamente, Lorena até aprecia as tentativas de Juquinha de se aproximar, como criando uma playlist comum entre as duas no Spotify ou passando bilhetinhos com dúvidas sobre a aula, decorados com sorrisos e corações. Essa parte dos corações Lorena decide abstrair. Elas começaram a conversar de verdade ainda naquela semana e pouco sabem uma da outra — ou é isso que Lorena dirá se a perguntarem — então ela fica surpresa pelo tanto que tem em comum.
Tem muitas coisas pra gostar na colega. Ela é uma amiga leal, gente boa e alto astral, tem assunto pra qualquer situação e ainda gosta de bichinhos. Lorena faz questão de ignorar outras qualidades como ter um sorriso que causa borboletas em seu estômago ou seu perfume cítrico que fica nas roupas de Lorena quando ela chega em casa.
Se for aceitar isso, vai ter que aceitar umas coisas que ignorou todos esses anos. Do jeito que tá é melhor.
//
Um dia, Juquinha a encontra por acaso antes da aula. Não é incomum que se esbarrem por aí, mas agora que Lorena se tornou o mais recente alvo de Juquinha, a garota falta brilhar de tão animada e anda rápido na sua direção. Ao invés de dar oi e conversar que nem uma pessoa normal — o que é aparentemente impossível pra ruiva —, Juquinha começa a falar como se as duas tivessem parado no meio de uma conversa.
– Eu acho que a gente podia cantar alguma música de High School Musical de novo!
– Por que você tá falando comigo no meio do corredor vazio? Espera a gente chegar na sala.
– Mas quero conversar só nós duas.
– Agora que não vai rolar.
Sem pensar, Juquinha puxa Lorena para dentro de uma sala vazia e fecha a porta. Elas ficam paradas se olhando e então Juquinha diz: – Pronto, agora estamos sozinhas.
Lorena podia esganá-la. – Se alguém viu a gente só parece que você me puxou pra um lugar pra me pegar, Juquinha!
– Nossa, verdade. Não pensei na ótica da coisa, mas e daí? Me escuta, eu to tentando te dar ideias! Você não reclamou que eu não parecia animada?
– Porque você não parecia mesmo!
Elas discutiam sussurrando para ninguém as ouvir. – Eu estava nervosa! Não posso ficar nervosa?
– Nervosa? Você joga futebol na frente de tipo centenas de pessoas e fica nervosa pra falar de música? Conta outra, Juquinha.
– Ah, agora você controla a MINHA ansiedade?
– Tá, esquece! Qual música você queria?
– Tô pensando ainda. Mas não é bonitinha a ideia de nós, atleta e nerd, cantando Breaking Free de novo?
– Bonitinho, não sei. Com certeza é um clichê.
– Por isso que é divertido!
Lorena já está perdendo a paciência. – Você não joga basquete — tem nem como — e eu não sou nerd de matemática. Ah, e a gente não namora!
– Primeiro que é golpe baixo falar da minha altura, ok? – Lorena abre a boca pra responder e Eduarda já emenda a fala. – E essa expressão também não foi convite para falar.
Foi censurada. – Ok, desculpa.
– Segundo que eles não namoravam nessa parte do filme. Melhore, Lorena.
O nível de incredulidade que ela sente é inédito. – Você me irrita tanto às vezes. Não sei porque deixei você e Maggye me convencerem.
– Eu pedi encarecidamente e você aceitou porque teve pena de mim.
– Não tenho pena de você.
– Então aceitou porque eu pedi? Que fofo.
– Deu. Vou sair dessa sala e você espere pelo menos cinco minutos pra sair. Na próxima, manda mensagem.
//
Eduarda: a gente canta start of something new! estamos literalmente começando algo novo
que é a nossa amizade 🥺
Lorena: Invertendo a ordem das músicas, então
Eduarda: sim! gostou?
Lorena: Tá bom
Para de me mandar mensagem
Tamo sentadas juntas
Eduarda: quero prova escrita de que você concordou comigo
pra posterioridade
lorena para de me ignorar
porque você me odeia?
Lorena: Eu não te odeio, agora faz silêncio
Eduarda: 🤐
//
Eduarda: its hard to believe that i couldn’t see
you were always there beside me
thought i was alone
with no one to hold
Lorena: Caralho para de falar!!!!
Vai mandar todas as músicas do filme agora?
Eduarda: vou
daqui a pouco vai ser when there was me and you
aí você tem que me magoar numa live e quebrar meu coração
Lorena: Eu não sei se rio ou me preocupo
Levou uma bolada na cabeça e enlouqueceu?
Eduarda: tá vendo já tá me magoando
sou emocionada
e atriz de método
//
Juquinha veio com um ar de travessa de fábrica. Desde que começaram a estudar juntas como crianças, Lorena reconhece a mesma carinha toda vez que ela vai fazer alguma arte que provavelmente irá a incomodar. Pode ser começar um porradabol, ficar passando bilhetes idiotas com seus amigos ou até pregar uma peça no time de lacrosse, a expressão é sempre a mesma. Sempre a irritou um pouco, mas naquela manhã, justo no pior dia da semana — quarta-feira —, esse ar a estressa na hora.
Juquinha a puxa para uma conversa na metade do caminho para sua sala, atrás de uma pilastra. As escadas escondem as duas do lado de fora e Lorena sabe que se alguém as viu da última vez agora terá certeza que Lorena é mais uma que caiu na lábia de Fragoso.
A irritação abre a boca para falar. – Lorena, se eu sou o Troy e você a Gabriella, quem são a Sharpay e o Ryan?
– Bom dia. Como você está? Eu estou bem, e você? – Lorena responde, sarcástica. Não chegou ao mau-humor ainda, mas falta bem pouco.
– Desculpa. Bom dia, Lorena. Quem é a Sharpay?
– Não faço ideia.
– Eu tava pensando sobre isso ontem e não sei se tem alguém com o magnetismo da Sharpay no terceiro ano. De vilã tem a Lucélia, mas ela não tem nem as roupas nem o gogó.
– A Sharpay é uma antagonista, não uma vilã, na minha opinião. E você tá falando comigo do nada de novo por quê? Não tava nervosa sobre o show?
– Eu tô nervosa sim, mas não sobre você. – a fala de Juquinha faz seu coração acelerar. Resiste, Lorena. – Então, cheguei à conclusão de que não temos nenhum dos dois.
Realmente considerando o elenco do filme, Lorena chega à mesma conclusão. – É verdade. E falando do filme: como você acha que seu time vai reagir?
– Ah, vão falar por anos. – O nervosismo de Juquinha volta e Lorena se sente um pouco culpada. – Sei lá. É idiota ficar com vergonha de cantar, eu sei. Mas é diferente cantar na frente de todos os nossos amigos e cantar na frente do ensino médio inteiro.
Amansando seu tom de propósito, Lorena tenta a acalmar. – Olha, podemos continuar ensaiando de tarde naquela sala vazia. Não vou te pressionar a contar pra todo mundo e ainda dá tempo de trocar de representante da sala. Vamos ser sujeitos ao rap horroroso do Vandilson, mas tô disposta a fazer esse sacrifício.
Felizmente sua piadinha surte efeito- Juquinha dá uma risada e seus ombros, antes erguidos até a altura de suas orelhas, descem de uma vez. – Obrigada, Lorena, pela paciência. Sério.
– Não precisa me agradecer. Me paga de volta indo pra sala logo. Não preciso de uma fofoca dizendo que a gente tava se pegando.
A risada de Juquinha a acompanha para fora da alcova e até a direção da sala. Respirando fundo, Lorena percebe que não está mais irritada. Deve ter ascendido a um degrau de paz interior. Não deve ter nada a ver com o formigamento nas suas mãos e rosto.
//
O combinado é que elas ensaiem só duas vezes por semana. felizmente — infelizmente? — a temporada de treinos pro futebol começa na terceira semana e as reuniões do grêmio estudantil também. Na sexta-feira, Juquinha tá tão cansada que Lorena fica com pena e cancela o ensaio- as duas ficam sentadas na sala estudando.
A maior inimiga do silêncio, Juquinha pergunta para ela as fórmulas de todas as questões do dever de casa de matemática. Lorena se demonstra solícita por quase uma hora, mas enfim perde a paciência.
– Juquinha, você sabe tudo isso já. Eu sei que você tirou acima da média na prova passada.
– Ué, como você saberia?
– Você pegou a prova e sorriu depois.
Lorena tira os olhos do caderno e presencia Juquinha se tornar um golden retriever de tão feliz. – Você prestou atenção em mim?
Exasperada, ela responde: – Agora pronto. Eu sou atenciosa em geral!
– Mas foi comigo em específico! O que mais você notou?
– Você é mimada.
– Sou mesmo! Meus pais me amam muito e tenho muita sorte.
– É... Que você gosta de irritar os outros.
– Sim, mas você em específico. Você fica com esse vincozinho na testa quando sou bem-sucedida que é uma graça.
Assim, papo de morrer ao vivo. – É cafajeste. – ela completa.
– Calma lá! – reclama Eduarda, incrédula. – Esse eu não concordo! Por que você acha isso?
– Você e aquela maluca da Teca não pegavam metade do colégio?
– Ah, é isso que ela diz, né? – a face de Eduarda percorre mil emoções, nenhuma delas boa, até chegar a algo entre mágoa e uma tentativa de neutralidade. – Você acredita nela?
– Não é isso o que aconteceu?
A resposta inicial de Juquinha é só um pigarro. Ela fica em silêncio por uns segundos, escondendo o rosto de Lorena, que tenta olhá-la nos olhos.
– Vou pra casa. – Juquinha enfim levanta de supetão. Ao ver sua expressão, o coração de Lorena aperta; ela parece estar perto de chorar. – Te mando mensagem depois. – Tchau, Lorena.
– Juquinha? – Ela até a chama, mas a ruiva basicamente corre da sala.
//
Normalmente Juquinha chega mais tarde que Lorena no colégio- ela ganhou um carro quase imediatamente depois de fazer dezoito e agora tem a liberdade de dormir até o último segundo. Ela já deu carona pra maioria da turma ao longo do ano e ainda se recusou a receber dinheiro para a gasolina; sendo rica, ela considera uma hipocrisia ficar cobrando outras pessoas. Não faz falta pra ela.
Hoje, no entanto, ela chega bem cedo e fica parada na porta da sala. Lorena reconhece a ansiedade que sente, pois repara que Juquinha está com as mãos entrelaçadas com força e na frente de seu quadril. Se Juquinha está ansiosa, pode ser um péssimo momento para pedir desculpas.
Seus olhos se encontram e a morena aperta a alça da mochila com força. Tem que tomar coragem e vergonha na cara- o que é o pior que pode acontecer? Lorena tem plena confiança que Juquinha jamais ficaria com raiva dela de verdade- só não condiz com sua personalidade. Ela só não consegue esquecer o olhar de Juquinha quando Lorena tocou no assunto.
– Oi, a gente pode conversar?
A garota aceita, graças a deus, e as duas caminham da porta da sala para a janela no fim do corredor. Lorena respira fundo e fala, meio corrida e sem fôlego:
– Eu te devo desculpas. Não sabia que era um assunto chato pra você. Errei também em acreditar no que as pessoas falaram ao invés de te perguntar ou ficar na minha.
– Lorena, como assim? Eu que tenho que pedir desculpas. Terminei a conversa do nada e nem te dei uma chance pra falar. – Juquinha afirma na hora, mesmo hesitante. Lorena discorda veementemente e sacode a cabeça pros lados. – Não, sério. Eu que fiz questão de deixar a fofoca continuar.
– Mas era mentira, não?
A expressão dela muda para a que apareceu da última vez: suas sobrancelhas descem, a boca afina e os olhos se fixam em algum lugar ao longe. – É mentira, sim. Mas eu prefiro que achem isso, sabe? Na real, a Teca jamais me avisou que era um relacionamento aberto.
Teca tem muita sorte de ter mudado de colégio, porque se dependesse de Lorena ela seria vítima de uma cadeirada nos próximos quinze minutos. – Juquinha, meu deus, desculpa. Não acredito que ela fez isso contigo.
A outra dá de ombros, claramente ainda sentida. – Eu a flagrei pegando uma guria no carro dela e passei um tempo tentando me convencer que tava maluca. Mas um dia a Teca foi lá em casa e eu surtei mesmo, gritei altas coisas- então ela fez questão de enumerar todas as vezes que me traiu. Aí eu mandei ela tomar no cu e sair da minha casa.
A única resposta cabível é segurar as mãos de Juquinha. Elas ficam paradas ali, juntas na frente de todos os colegas. – Eu sinto muito. Você não mereceu isso.
– Eu reagi do nada por causa disso. Mas olha, já passou, ok? Não se preocupa com o que falou comigo, eu não levei pro pessoal.
– Vou repassar isso pra minha ansiedade, vai que ela acredita. – As duas riem alto e Eduarda chega a franzir o narizinho. Um afeto súbito corre pelo corpo de Lorena e parece entrar em seu coração, apertando-o a ponto de tirar seu fôlego. Juquinha, alheia à descoberta de Lorena, a puxa de volta para a sala de aula antes que o sinal toque.
//
Lorena: Você não para de fazer piada mas que coisa
To tentando prestar atenção
Eduarda: você só sorri pra mim quando eu fico fazendo gracinha
Lorena: Mentira!
Eduarda: verdade!
Lorena: Eu sorrio direto pra você
Hoje sorri quando você contou a história dos seus pais, por exemplo
E mais cedo quando você abriu a porta da sala pra mim
Eduarda: você sorriu???
meu deus!!!!!!!!!
Lorena: A culpa não é minha que você não viu, mas não é pq você não viu que não aconteceu
Eduarda: vou abrir todas as portas desse colégio pra você
da sala, dos laboratórios, dos carros... nunca mais abra uma porta longe de mim lorena ferette
Lorena: Juquinha, eu já te disse que não precisa ficar me amaciando pra que eu cante com você
Eu já disse sim, relaxa
Eduarda: Lorena você não tá entendendo
eu quero que você goste DE MIM no geral
descobri mês passado que você não detesta minha cara
to tentando manter esse status
lembra da letra da música!!!!
Lorena: Me deixa abrir minhas portas.
Eduarda: ):
pelo menos para de me chamar de juquinha por favor
Lorena: Vou pensar no seu caso
//
Na próxima sexta, o ódio entra no coração de Lorena. Lucélia está um porre. Tinha decidido, por que cargas d’água, que Lorena precisava ser sua dupla pro trabalho de português e não arredou o pé- o professor foi lá e aceitou a fala dela e pronto. Sua preocupação nem é a nota, pois Lorena sabe que é competente, e sim o saco que Lucélia é no seu pé. A garota não cala a boca e consegue falar mal de todo mundo e o papa por horas, tentando criar intriga onde não há e procurando convencer Lorena da falta de caráter dos outros. Ela parece odiar a prima - Maggye - e Juquinha mais que os outros e fica chateadíssima quando Lorena as defende. Lorena volta para sua carteira resmungando, apesar de aliviada que arrastaram Lucélia para fora durante o intervalo.
Juquinha fez o favor de rir dela durante a aula inteira, então Lorena a colocou na categoria de inimiga também. Por isso, ignora a ruiva quando ela tenta conversar. A displicência de Juquinha não ajuda- ela está sentada esparramada na carteira e com o Instagram aberto no celular. É atraente, mas isso não vem ao caso.
– Não quero papo contigo, Juquinha. – Lorena diz depois da quinta tentativa.
– Foi engraçado Lorena, desculpa! Eu nunca te vi com tanta raiva antes, você tava até bufando.
– Continua brincando pra ver se não fico assim de novo. – Lorena recebe então a pior resposta de todas: Eduarda a fita com seus olhos de Bambi e um leve beicinho. – Para com isso. Você sabe que a Lucélia é um demônio na terra e se divertiu com meu sofrimento.
– Lorena, a Lucélia só te enche o saco porque ela gosta de você. Por isso é hilário.
– Isso é uma ameaça? Tá me rogando praga, Juquinha?
Se endireitando na cadeira, a garota insiste. – Não, sério. Todo mundo sabe que ela gosta de você. Você não sabia?
Lorena empalidece. – Vou vomitar.
– Calma, não precisa disso tudo! Pensa, podia ser um homem.
– Você não tá entendendo: a Lucélia é maluca. Para você ter noção, ano passado ela se jogou da escada pra estragar o aniversário da Maggye. Eu a vi escolhendo o timing perfeito para todo mundo ver.
– Meu deus? E funcionou?
– Funcionou! Os pais da Maggye levaram ela pro hospital e a gente ficou lá se olhando. Nossos pais vieram pra nos buscar e tudo. Ela não tem limites- nossa, que droga!
Após uma pausa, na qual elas ponderam as implicações de uma maluca estar afim de você, Juquinha passa a falar num tom suspeito – Se você começar a namorar outra pessoa, o que você acha que ela faria?
– Quero nem pensar nisso. – Lorena faz uma cara de desgosto só de pensar. – E esse é um problema inexistente, porque eu não vou namorar tão cedo.
– Por que você tem tanta certeza?
– Porque ninguém nunca gostou de mim até hoje— sem ser, aparentemente, o cão da Lucélia.
– Ah Lorena, engana outra. Eu tenho certeza que teve mais gente. Até o Zé do basquete teve um crush em você.
– Só se for na sua cabeça.
– Voltando pro trabalho de português: no próximo eu sou sua dupla, que tal?
– Tá, pode ser.
Juquinha dá um sorriso satisfeito para Lorena. É, infelizmente, um charme. Lorena pode ou não estar ferrada.
Depois ela fica ferrada de verdade. Lucélia decidiu colocar frases como “os personagens se olham num silêncio confortável” que simplesmente não cabem num texto argumentativo. Lorena a xinga tanto que até os tataravós de Lucélia ficam sem graça. Não importa se ela escreveu inocentemente ou se decidiu ser lírica do nada, só importa que Lorena detesta o texto inteiro. Na madrugada de sábado pro domingo, Lorena reescreve a droga do trabalho e desabafa com Juquinha por mensagem.
Juquinha compra a briga também. No entanto, a chateação logo passa; Lorena vem percebendo que é difícil se manter chateada perto de Juquinha. Naquela noite, por exemplo, Juquinha vira a madrugada com Lorena e a distrai xingando Lucélia e então mandando memes para fazê-la rir.
Sinceramente, seu ensino médio teria sido bem mais tranquilo se tivessem se tornado amigas desde cedo. Arrependimento é inútil, mas a cada vez que encontra outro aspecto de Juquinha mais ela cresce em sua estima. Juquinha é gentil e caridosa em suas interações, doa seu tempo para todo mundo e ainda lembra do que falam.
No dia da apresentação, Juquinha a encoraja antes de levantarem e fica sorrindo para Lorena toda vez que ela fala. Lorena tem um pouco de ansiedade ao ser o centro das atenções e Lucélia não a ajuda ao ficar em silêncio a maior parte do tempo. Mas dá tudo certo.
//
Depois de mais de um mês conversando constantemente, Lorena sente que entende Juquinha bem. Então quando ela chega quietinha e o permanece durante a breve hora de ensaio do dia, um alarme já soa na cabeça de Lorena.
Elas vão pro lado de fora do colégio em silêncio. Lorena fica checando a expressão de Juquinha durante os minutos que levam para caminhar à vaga do carro dela e aí fala:
– Você tá diferente, até cantou desanimada. Aconteceu alguma coisa?
A pergunta meio tímida de Lorena faz o rosto da garota corar, por algum motivo. Será que ela ainda fica surpresa que Lorena presta atenção nela? - Ah, deu tudo errado hoje e eu ainda tô de TPM.
Ainda está no ar se elas podem ou não demonstrar alguma proximidade na frente de tanta gente. O nervosismo de Juquinha desapareceu depois de algum tempo e ela já contou que vai cantar para suas colegas de time; zoaram ela, mas durou pouco. Tecnicamente não precisam ficar se esgueirando pelo prédio, mesmo que seja engraçado repetir os temas do musical.
Visto tudo isso, ela sente que tem aval para agir livremente. Então Lorena decide abraçar Juquinha ali na saída do colégio, na frente de todo mundo. É um abraço firme e a ruiva quase desaparece em seus braços, mais baixa e ainda toda encolhida. Juquinha demora um tempinho para captar o que está acontecendo e então derrete nos braços de Lorena, fungando um pouco.
– O que houve?
– Nada- ai, desculpa, são motivos tão idiotas.
– Não são idiotas se tão te chateando.
Juquinha tá frustrada de verdade. – Eu só prendi a manga da camisa na porta, aí depois vi minha nota horrível de Física e agora mais cedo errei três gols. Três! A gente começa a temporada daqui a pouco!
– Shhhh. Vai dar tudo certo. Na hora você vai pelo instinto!
– Como você sabe? Pode dar tudo errado de novo! – Eduarda responde, realmente aflita.
– Eduarda - ela diz, rindo. –, Nunca vi você jogar mal, não vai ser agora que vai rolar.
Lorena fica vermelha na hora, percebendo que: 1) usou o nome de Juquinha pela primeira vez; 2) que admitiu ter assistido um jogo de futebol.
Piora porque Juquinha não soltou sua cintura até agora- por isso ela percebe que seus ombros sobem e a coluna fica mais reta depois de a ouvir. Em um tom cuidadoso e até esperançoso, talvez, Juquinha fala baixinho. – Eu sei que o show de talentos vai ter passado, então você pode dizer não sem problemas... mas você iria ao jogo?
– Claro, Eduarda. Vou sim.
Eduarda se afasta um pouco e lhe dá um sorriso largo. Lorena se perde um pouco em seus olhos- ela é linda, de verdade. Seus olhos profundos, o narizinho com sardas, suas mãos macias e até seus tênis surrados são perfeitos. Não entende porque não se apaixonou antes. Por que demorou para vê-la como pessoa inteira, e não somente como colega?
De qualquer jeito, Lorena agora sabe que era inevitável que se apaixonasse por Eduarda Fragoso.
A próxima etapa é descobrir se está sozinha nessa. Eduarda é gente boa com todo mundo e presta atenção em todos. Nem a viradinha de cabeça que faz quando está prestando atenção é exclusiva de Lorena. O seu sorriso é fácil e Eduarda o presenteia aos outros sem pensar duas vezes.
Lorena já perdeu horas de sono pensando nisso. Eduarda trouxe um chocolate vegano para ela alguns dias atrás; a dava carona sempre, não importa para onde fosse; repousava o braço nas costas de sua carteira enquanto conversavam com outras pessoas.
Pode ser. Pode ser sim, claro! Ela tá tentando pensar positivo, mas a verdade é que ninguém realmente sabe até falar dos seus sentimentos. Então ela só precisa de mais um pouco de certeza e coragem para dar a cara a tapa.
Elas ainda estão paradas se olhando quando ouvem uma buzina, que Lorena reconhece e imediatamente congela no abraço. Eduarda olha pra trás sem entender muito e acena para quem tá dentro do carro- enquanto isso, Lorena já começa a barganhar mentalmente.
Ela vê, por cima do ombro de Eduarda, dois sorrisos malignos pela janela do carro.
//
– Pai! – Duas vozes gritam na hora que a porta abre. Dois rapazes saem rasgando em direção à sala. Lorena, já na fase de desespero do luto, vai correndo para a sala também.
A sala da família é confortável. O chão é de taco claro, as janelas enormes iluminam as paredes pintadas de creme e cheias de retratos e pinturas. O sofá é um móvel longo de madeira cujos assentos são branquinhos e cercado por duas poltronas, todos virados para a TV embutida na parede. Um mundo de plantas competem por espaço com estantes cheias de livros e quinquilharias.
Numa das poltronas está seu padrasto — seu pai de criação —, sentado, lendo um livro grosso de contos e tomando seu chá do meio da tarde. Rogério leva um susto ao ouvir os meninos.
Sem fôlego, Leonardo emite a certidão de morte da irmã. – Pai, a Lorena tá de namorico!
Rogério chega a tirar o óculos de tamanha surpresa.
– Não acredito! Lorena, quem é a menina?
– Eu não tô namorando!
Ele a ignora. – E não trouxe a moça pra conhecer a gente por quê? Não que vocês precisem de aval pra nada, mas acho um pouco importante, né, meninos?
– Não tem moça! – ela continua se defendendo contra os três, mesmo sabendo que é inútil.
Raul fala mais alto que a irmã para confirmar. - Tem sim! É a Juquinha, pai. Aquela do futebol!
– A filha do Henrique? Adoro aquela menina. Traz ela pro almoço do domingo que vem.
Só para enterrar a esperança de Lorena de uma vez, o som de saltos vem do corredor – Amor! A Lorena tá namorando.
Zenilda abre um enorme sorriso e corre para abraçar a filha. Lorena tenta se soltar, mas Zenilda a aperta forte, emocionada. – Ai, filha, que lindo! E quem é?
– Eu não to namorando, mãe.
Leonardo se intromete e Lorena seriamente cogita violência. – Tá namorando sim, que eu vi vocês de mãos dadas na saída, na frente de todo mundo! Nunca que você iria esconder uma namoradinha, Lorena.
– Eu não escondi nada! Eu e Eduarda somos amigas!
– Certeza que a Lô não assumiu essa amizade até outro dia. Você pensa demais nessas hierarquias de turma, mana! Mas tô surpreso que você tá saindo com uma jogadora de fute, porque você nunca quis ir aos nossos jogos.
Lorena não odeia esportes, só não gosta e fica incomodada com a balbúrdia. Mas ela viu sim uns jogos da Eduarda ao longo dos anos e se divertiu. – Nada a ver, Raul. Eu não odeio ninguém lá não.
– Claro que não vai odiar os amigos da namorada, né, Lorena? – Leonardo pergunta, sorrindo.
– Ai, chega vocês! Vou pro quarto.
Ela sobe as escadas batendo o pé com força pra demonstrar sua irritação. Não faz diferença nenhuma para sua família, que continua fofocando sobre Eduarda na sala. Lorena sente que vão abrir um dossiê de tanto interesse.
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Acaba que Lorena não chama Eduarda para o almoço de domingo. Leonardo que chama.
Eles são "amigos no Insta" e Lorena tem quinze minutos para colocar roupas de gente e tentar arrumar o cabelo; especificamente essa quantia pq Eduarda é incapaz de se atrasar quando lhe convém. Talvez ela já tenha chegado e só esteja dentro do carro esperando dar o horário de entrar.
Sua pressa acaba não importando, pois seus pais acamparam na porta da sala. Lorena escuta Rogério cumprimentar Eduarda, claramente feliz, e Zenilda agradecer por algo. Ela chega no térreo na hora que Eduarda entrega flores pra sua mãe e um sorriso desajeitado pro pai; ela parece igualmente aliviada e aterrorizada ao ver Lorena descendo as escadas.
Lorena percebe ali que elas não se encontram muito fora do uniforme- Eduarda veio com uns shorts larguinhos de algodão grosso marrom e uma camiseta branca com margaridas. Uma onda de calor vem passando por São Paulo e Eduarda fica bonita nesse tipo de roupa, enquanto Lorena sempre sente que está destoante fora de suas calças folgadas.
Os pais se afastam sem sutileza alguma com a desculpa de levar as flores pra cozinha. Sua amiga — são amigas! — fica parada uns bons segundos até Lorena a abraçar.
O mundo se encaixa melhor com Eduarda em seus braços, como se estivessem agora enfrentando esse almoço como um time. Ela vem tendo esse efeito em Lorena agora, ao invés da ansiedade das últimas semanas ou a irritação do início do bimestre. É confortável estar tão próxima dela.
– Oi, Eduarda.
– Oi, Lorena. Desculpa ter aparecido assim, mas seu irmão me chamou e eu, sei lá, aceitei, né? Agora que parei pra pensar que pode te deixar desconfortável.
– Deixa de coisa. - ela chega a rir. - Tô feliz que você veio. Só se prepara pro papo sem graça dos meus irmãos.
Ela suspira, sua cabeça ainda encaixada no pescoço de Lorena. O gesto faz cócegas. – Que alívio, fiquei meio preocupada.
Eduarda tem que saber que Lorena está afim dela, não é possível. É com essa meia certeza que Lorena cria coragem e a beija na bochecha. - Para de bobagem, Duda. Vamos?
Seu coração bate forte contra seu peito ao perceber a surpresa feliz nos olhos de Eduarda ao ouvir o apelido. Se existia alguma insegurança na situação por parte da amiga ela vai embora bem ali. A vontade – necessidade, honestamente – de abraçá-la de novo e enchê-la de beijos quase transborda para o ato em si, mas Lorena se contém.
O que segue são as três horas mais tensas da vida de Lorena. Só pra Lorena, claro, pois sua família adora Eduarda.
Raul já a conhece da escola por jogarem bola durante o intervalo e Léo aparentemente já jogou tênis com ela no clube — que clube??? — em uns fins de semana, mas os pais só a conhecem de nome. Ficam encantados com as boas maneiras de Duda e o charme de suas piadinhas. Ela os ganha de vez ao servir batata frita para Lorena sem pestanejar e por acompanhá-la no cardápio vegano da vez. Alí é quando o resto do clã se apaixona por ela.
Os meninos e Eduarda passam alguns bons minutos falando de futebol, consternando Lorena pelo resto do almoço. Rogério nunca deu muita bola para essas coisas e Zenilda criou ojeriza do hobby inteiro depois de anos casada com um maluco por esportes como o ex-marido, então os três engatam um papo bobo sobre os filmes em cartaz.
Depois de tanta convivência, Lorena percebe que a garota vai ficando um pouco mais tensa ao fim da refeição e, ainda durante o assunto tedioso, coloca a mão em cima do joelho de Eduarda. Sua expressão se acalma e seus ombros relaxam na hora- é incrível ter esse tipo de efeito nela assim, na frente de outras pessoas.
Por quantos anos Lorena esteve às margens dos grupos de Eduarda, a assistindo colecionar amigos, fingindo não cobiçar sua atenção e aqui estão, sentadas à sua mesa, rindo das mesmas coisas...
O desejo de algo, algo que ela nem o nome sabe ainda, faz Lorena cerrar a mandíbula e a observar em silêncio. Mesmo que isso só dure até o fim do ano, ou até o fim do show de talentos, Lorena vai ter essa imagem só pra si: seu perfil perfeito na luz da sua janela, um sorriso divertido e as sardinhas pequenas decorando as maçãs de seu rosto. Mesmo se Eduarda decidir um dia que Lorena é entediante demais, tudo ainda vai valer a pena.
Depois, Lorena comete a grandíssima estupidez de convidar Eduarda para seu quarto. Como se ela tivesse a chamado para conhecer Nárnia, Eduarda a segue com as mãos entrelaçadas à sua frente como se não quisesse tocar em nada sem permissão. Não é grande coisa- uns pôsteres de filme, duas grandes estantes lotadas de livros, uma cama confortável e uma escrivaninha abarrotada de papéis e cadernos espalhados.
Duda espera ter permissão pra sentar na cama e continua olhando em volta com um sorrisinho. – Gostei muito do seu quarto, é a sua cara.
– Bagunçada? – ela brinca.
– De nerd.
– Ah, cala a boca, Eduarda. – Ela deita na cama ao lado da outra, horizontal em relação à cabeceira. A próxima estupidez acontece quando Lorena bate no espaço ao seu lado, a chamando para deitar também. Eduarda deita, tão perto que Lorena sente o cheiro suave de seus cabelos e do amaciante de suas roupas.
– Você tá nervosa pro show? – Eduarda pergunta baixinho. – Parece que a ficha caiu pra mim só essa semana.
– Claro, mas a gente tá ensaiando já a quase dois meses. Os professores vão medir esse esforço todo, com certeza.
– E se eu esquecer na hora?
Parece ser uma preocupação verdadeira da ruiva, então Lorena se ergue em um cotovelo para ver o rosto de Eduarda direito. A outra está de olhos baixos e bochechas bem vermelhas; Lorena não sabe se é o ar condicionado. – Eu vou estar lá com você, tá bom? Qualquer coisa olha pra mim e eu te ajudo.
– Jura?
– Juro.
– Você vem sendo muito legal comigo, Lorena. Sei que não era assim, um objetivo seu participar do show e que você tem outras coisas pra fazer, mas significa muito pra mim.
– Continuo sem saber porque você me quer lá em cima com você, mas de nada.
– Você sabe sim. - seu olhar muda, fica mais intenso. Lorena já viu vislumbres dessa expressão pelo canto do olho, que Eduarda já escondeu por trás de livros, cadernos, suas mãos e tosses. Dessa vez Eduarda não foge. – Você tem que saber, Lorena.
Lorena a encara de volta com uma confiança que não realmente sente. É como se estivesse pendurada no topo de um abismo- ela sente seus pés frios e um gancho em seu estômago, suspensa pela ansiedade e terror que é se apaixonar. Falar parece tão idiota, porque Lorena em algum lugar de si já aceitou que Eduarda a quer de volta.
Então Lorena deixa seu peso cair para frente e, pousando uma mão gentil sobre a bochecha de Eduarda, a beija.
É meio surreal. Eduarda parece tão surpresa quanto ela, apesar da inevitabilidade da coisa, e demora para responder. Porém, em um piscar de olhos, Lorena sente uma palma quente em seu pescoço e outra, esmagada entre elas, amassando a camiseta branca que ela está usando.
Não dura muito tempo. Elas escutam alguma confusão decididamente masculina no corredor e se separam na hora, uma mais vermelha que a outra. Ao invés de fingir que nada aconteceu elas, já cúmplices, caem na risada. Mais tarde descem coladas uma na outra, se esforçando desnecessariamente para não segurarem as mãos e se esgueirando para não chamar a atenção da família.
Elas param para se olhar do lado do carro de Eduarda. – A gente se vê amanhã?
– Sim.
– Ok.
– Ok.
É pra interação acabar ali. Nos filmes, o casal se separa agora e deixa tudo nas entrelinhas para se resolverem depois. Mas Lorena não quer que fique nada no ar. Quer que Eduarda saiba que isso significa algo — significa muito, talvez até tudo — para ela. – Duda. Eu não quero fingir que isso não aconteceu.
Eduarda solta um suspiro alto de alívio e seu corpo relaxa. Com confiança invejável, Eduarda se move para passar um braço em volta da cintura de Lorena. – Ai, graças a deus. Não sei nem o que ia fazer.
– Certeza que você ia faltar amanhã.
– Uhum! – Eduarda concorda na hora. O sorrisinho que Duda a dá é prova suficiente que nenhuma das duas ia conseguir agir normalmente na segunda. – Agora que a gente concorda, eu posso ganhar um beijo?
Ela ganha né, óbvio. Lorena não é de ferro. Ninguém resistiria ao tom manhoso de Eduarda, seja quem for.
Quando o carro vai embora, Lorena fica olhando para o portão do condomínio, sentindo-se tonta com a mudança brusca em sua vida. Eduarda Fragoso gosta dela. Ela beijou Eduarda Fragoso! Nunca uma novidade a atravessou desse jeito. Quem diria?
A família Esteves-Dantas inteira está parada na sala esperando; até Leonardo está vibrando de felicidade.
– Meu deus, vocês são muito fofas! - Raul quebra o silêncio primeiro e corre na direção da irmã. – Ela não parava de olhar pra você!
Leonardo se une ao abraço, sufocando os irmãos contra seu peito. – Eu sempre tive medo que você fosse trazer alguma garota chata viciada em filme chato e música chata e você vai e traz um anjo que gosta de futebol! Lorena, nunca mais duvido do seu potencial.
O amor dela pelos irmãos é enorme, mas não ganha do nojo que ela sente por homens em geral. Ela se desvencilha do abraço dos dois com uma careta desgostosa; os pais veem essa como a sua chance de esmagar a garota também.
– Ai filha, tô feliz demais. Que menina boa!
Rogério lhe dá uns tapinhas na cabeça; de todos, a opinião dele é a que mais a preocupa.
Rogério entrou na vida dos Esteves tal como um bote-salva vidas e trouxe a calmaria que eles tinham perdido depois do divórcio da mãe de Ferette. Isso foi há mais de dez anos e Lorena mal lembra de um mundo no qual Rogério não fosse seu pai, mas mesmo assim ela tem certo medo de desapontá-lo.
No entanto, ele está tão feliz com o jantar que qualquer peso que ela sentia se esvai na hora que seus olhos se encontram.
– Ela parece gostar muito de você, filha. – sua voz gentil e grave vibra no peito da adolescente. – É exatamente o que a gente quer ver.
– Ela é legal mesmo, né? – ela responde sem graça. Os irmãos já engatam um coro de "tá namorando" antes mesmo do fim da fala.
Agora fica a pergunta: o que ela vai dizer amanhã? Precisa agir que é toda desapegada e tranquila ou pode ser honesta e se pendurar em Eduarda pelo horário letivo inteiro? Eduarda gosta tanto de afeto físico e isso deve passar pra esse “relacionamento” em que elas tão, certo?
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Passa sim: elas se atrasam pra aula depois de passar vinte minutos grudadas no carro.
Lorena não sente vergonha alguma ao entrar junto com Eduarda no colégio lotado, a outra segurando suas mochilas e tagarelando sobre a tarefa de casa de matemática — a qual nenhuma das duas fez—. Não é a mesma coisa que segurar sua mão, mas já serve para afastar as vinte mil garotas afins de Eduarda.
Elas sentam nas carteiras de sempre, uma do lado da outra, mas próximas o suficiente para suas mãos se esbarrarem de vez em quando. Eduarda tem a cara de pau de pedir o dever de casa de Maggye para copiarem. Em troca, Maggye as conta todas as notícias recentes de Lucélia e algumas outras bobagens antes do sinal tocar.
Toda vez que Lorena olha pro lado, Eduarda também está olhando pra ela. Lorena sabe — tem completa e infeliz certeza — que está vermelha que nem um tomate e com um sorriso enorme. Queria muito ser blasé e misteriosa, mas é impossível com Eduarda a olhando assim.
Depois que Maggye pisca para as duas e retorna ao seu assento, Lorena se pega levando a mão para o pulso de Eduarda- só para tocá-la. É instintivo. Ela pára no meio do caminho, sem graça, mas Eduarda levanta sua mão também e a encaixa na sua. Lorena pode morrer feliz ali.
Eduarda a deixa em casa depois da aula. Elas enrolam uns dez minutos, mas Lorena realmente precisa ir pra casa. Ela fica parada na sala, assistindo pela janela o carro de Eduarda ir sumindo, e pela primeira vez não tem preocupações abarrotando sua cabeça.
Se contassem para Lorena do início do ano que ela iria ficar com Juquinha do time de futebol, ela nunca acreditaria. Nem chegaria a rir, porque era muito fora de cogitação.
Lorena se joga no sofá da sala e pega uma almofada para abafar seu gritinho de felicidade. Deus do céu, que sonho! Está tão feliz que mal escuta a notificação no celular. Pensando que pode ser Eduarda, ela o procura, afobada- é só Maggye.
Maggye: então lore
hoje eu vi uma coisa engraçada sabe...
Lorena: SABIA que você ia mandar mensagem!!!
Maggye: então me conta tudo!!!
desde quando você tá com a duda??? quem beijou quem? quando que você admitiu que tava afim dela?
Lorena: Como assim “admiti”? Não era afim dela antes do karaokê
Maggye: atá.
todo mundo sabe que vocês tinham um crush uma na outra
não é a toa que eu e Paulinho esquematizamos o momento high school musical de vocês
Lorena: PERAÍ VOCÊS FIZERAM OQ???
Maggye: a gente cansou de ver vocês babando e nos mobilizamos oras
o ano ia acabar e você nada
Lorena: Amiga, to impressionada e com medo
Maggye: é bom não precisar da nossa ajuda pro pedido de namoro viu
ative a loba em você
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O show de talentos chega uma semana depois. As duas desistem dos ensaios e aproveitam esse tempo jogando papo fora na pracinha ali do lado.
Eduarda é um anjo. Segura suas coisas, paga seus lanches e, o mais importante, é afetuosa na frente dos outros. Elas tão sempre se tocando- um mindinho ali, uma puxadinha na camisa, um abraço na frente da sala... Lorena tá no paraíso. Elas não são oficiais oficiais ainda, mas tá claro pro para todo mundo que tem algo acontecendo.
Lorena até comenta sobre isso, enrolada nos braços de Eduarda num banco da praça. Eduarda tenta mudar de assunto, mas uma hora deixa escapar que, na real, não gosta da ideia de Lucélia ficar pensando que tem uma chance com Lorena. É uma preocupação absurda porque Lorena prefere se jogar da janela a ficar sozinha no mesmo ambiente que Lucélia, mas é bonitinha de qualquer jeito.
Eduarda acha outra coisa pra se preocupar em breve.
Lorena a chama pra sua casa no sábado a tarde, para assistirem um filme. Elas prestam atenção por uns quinze minutos no máximo, se distraindo batendo papo sobre mil coisas diferentes. Ao longo da tarde, Lorena se deita no sofá e puxa Eduarda para si; Duda deita em cima dela, seu rosto repousando no colo de Lorena.
Tudo parece normal até Eduarda erguer a cabeça para descansar seu queixo — mal lhe diga, pontudo pra caramba — no seu peito.
– Lô – ela começa, bem séria. –, sei que a gente já pulou umas partes, mas podemos ignorar a parte da briga, né?
– Hm? Que briga?
– Aquela da Gabriella e do Troy! – Eduarda se esforça para falar mais alto que a reclamação imediata vinda de Lorena. - Em que ela canta When There was Me and You. Que depois eles ficam andando por aí, amuados.
– Isso de novo, Duda? Não basta a música que a gente vai cantar ou que a gente já cantou?
Eduarda continua falando por cima dela. – Já teve a parte dos amigos unindo nós duas, lá no karaokê, então não tem porque a gente se desentender. Você não acha, linda?
Lorena desconfia e a responde num tom perigoso. – Não sei, Eduarda. É pra gente se desentender?
Eduarda recebe uma dose de bom-senso e se cala, aconchegando-se no abraço de Lorena. É só ganhar um cafuné e Eduarda relaxa ao ponto de tirar uma soneca ali mesmo, as duas grudadas com o filme passando na TV.
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O auditório do colégio está lotado. A maioria das pessoas são outros alunos, graças a deus, mas alguns pais vieram prestigiar seus filhos. Eduarda a avisou, no dia anterior, que ia apresentá-la aos seus ao fim do evento; Lorena está lidando com isso super bem e não vai desmaiar.
Lorena encontra sua família antes de entrarem e quer morrer ao ver Leonardo tirar da mochila um cartaz enorme com o nome das duas dentro de um coração. A missão de vida dos irmãos deve ser matá-la de vergonha em todas as oportunidades que tem.
Depois de todo o terror que elas sentiram durante as últimas semanas, finalmente poder cantar e se livrar logo desse transtorno é outro nível de euforia. A pressão da coisa toda parece sumir na hora que Lorena vira e encontra os olhos de Eduarda fixados nela; sua roupa está igual a de Troy ao fim do filme, seus olhos cheios de glitter vermelho combinando com as faixas do uniforme e, para arrematar, seus lábios num lindo sorriso leve.
Realmente, se apresentar é muito mais tranquilo que elas imaginaram. Primeiro que Start of Something New tá longe de ser uma música difícil; segundo que um monte de alunos e pais animam e cantam juntos na plateia. No filme, o casal cantando é um ato de rebeldia — por que ele joga basquete? Fica a pergunta — e a presença dos amigos é pra ser um triunfo final. Na vez delas, não tem grande quebra de paradigma nem nada, só um evento divertido para as famílias prestigiarem sem a necessidade de um feriado ou outro.
O que é bom, porque elas não ganham.
Ficam em terceiro. Em segundo fica Kellen, uma garota do primeiro ano, que apresenta uma música gospel na qual ela canta e toca piano. O colégio deles não é conhecido por sua aderência à religião, mas a voz angelical da menina acaba comovendo todos. Eduarda a aponta seu pai nos assentos da frente, que tá chorando que nem um bebê. As duas concordam plenamente com a decisão dos professores.
Em primeiro, surpreendendo ninguém, fica Gerluce. Por mais que Lorena e Gerluce tenham interagido puramente nas reuniões do grêmio estudantil, ela tem um respeito enorme pela colega. Gerluce é esforçada, gente boa, inteligente e responsável, então assisti-la se divertindo pela primeira vez é um presente. Quando entregam o trofeuzinho para ela, os gritos de Lorena, Paulinho e Eduarda soam alto e todos os outros alunos estão tão animados quanto eles.
Sinceramente, ficar chateada nem passa pela cabeça de Lorena. Ela já ganhou o prêmio de estar com Eduarda — que se der tudo certo será sua namorada muito em breve — então todo o resto é lucro. E, olha, nem Gabriella e Troy ganharam de verdade no filme: todo mundo sabe que os melhores duetos são os de Ryan e Sharpay. O casal só ganha ao fim porque é um filme da Disney.
Mas volta sim um terrorzinho quando Eduarda a puxa na direção de seus pais. Pelo o que ouviu tanto de Maggye quanto de Paulinho, os dois são tão animados e fofos quanto a Duda, mas ela não é só amiga da filha deles. Nunca se sabe o que um pai pode achar de conhecer a garota que sua filha fica pegando no intervalo.
– Minha princesa! - Violeta atropela o marido afobado e abraça Eduarda. A sua mão solta a de Lorena para segurar a mãe.
O pai dela, Henrique, também a puxa para um abraço. Os dois são iguaizinhos em aparência com a filha, dando pra saber exatamente de onde vieram os olhos castanhos e o cabelo ruivo. Eduarda com certeza herdou o coração mole de Henrique, que, depois de chorar quase o show inteiro, está de olhos marejados de novo. – Lorena, que prazer te conhecer. A Eduarda fala tanto de você que parece que já te conhecemos.
Eduarda cutuca o pai. – Pai, que vergonha!
Mas é verdade mesmo, Lorena. – Violeta cochicha para ela. – Essa daí fala de você há anos.
Lorena espicha a cabeça para fora do abraço forte que recebe e vê Eduarda da cor do cabelo. faz questão de rir e diz, no tom de voz mais ardiloso que tem: – Anos, Duda?
– Não to gostando desse complô. Vou chamar seus irmãos. – a garota cruza os braços e finge sair do círculo.
Lorena realmente se preocupa. – Não! Aí eu já perco qualquer moral que tenho com seus pais.
Henrique e Violeta acham sua resposta um barato e riem junto da filha. – Impossível. Essa daqui te enche de elogios desde esse fatídico karaokê aí- ela e Maggye. Você tem quase um fã clube!
Os Fragoso são tão gente boa quanto lhe disseram e acolhem Lorena muito bem durante a breve, porém ótima, interação à beira do palco. Lorena tem que se ausentar para conversar com sua família — e destruir aquela porra de cartaz — antes do terceiro ano ir comemorar numa lanchonete ali perto. No caminho para fora do auditório, Lorena recebe um monte de parabéns dos colegas e de suas famílias que a deixam encabulada, porém feliz.
Ela e Eduarda vão de mãos dadas junto dos colegas para fora do prédio.
Nas semanas seguintes, Lorena vai bolar um plano cheio de furos com Paulinho para pedir Eduarda em namoro- vai dar tudo errado, mas Eduarda vai aceitar, chorando, mesmo assim. Elas vão apresentar os Fragoso aos Esteves em um jantar na casa de Lorena e as famílias se darão muito bem. Maggye e Paulinho vão se vangloriar por anos e anos, até todos ficarem bem velhinhos, de como juntaram o casal mais querido daquele ano inteiro.
É tudo um clichê enorme, um romantismo desmedido, mas ainda muito divertido de viver.
