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Just Look Like Her

Summary:

Nico Robin nunca teve nada em que se apegar, nunca esteve em segurança e sua vida tornou-se sem sentido muito cedo. Tudo muda quando seu mundo vira de cabeça para baixo quando ela ganha um motivo para viver no formato de um bebê que pode ter sido sequestrado.

Ou

Nico Robin ganha um irmão por acidente e um motivo para ser livre.

Notes:

Espero que vocês gostem tanto dessa história quanto eu gostei de escrever ela.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

eu sou cordão umbilical

para mim, nunca tá bom 

o sol queimando meu jornal 

minha voz, minha luz, meu som

— Caetano Veloso

 

Essa história é para o meu irmão.

★

Robin tem onze anos quando Crocodile a acha interessante e útil o bastante para mantê-la por perto.

 

Ela é uma coisinha magricela e desesperada, se contorcendo contra o aperto do Crocodile e suas algemas de pedra do mar, ela berra e berra e berra, até que sua força seu esvai e ela aceita seu destino, mesmo sem saber exatamente o que vai acontecer a seguir.

 

Anos depois ela conseguiria dar nome ao que o homem fez, sequestro. Mas aos onze ela quase sente alívio, em sua busca incessante por respostas e a verdade, ela não teve um dia em que realmente tenha se sentido segura.

 

Não que ela se sinta segura com o senhor da guerra e sua organização criminosa do submundo, Robin sabe bem que será descartada como lixo no exato instante que passar de arma útil para peso substituível, mas mesmo assim sente uma inquietação que carrega consigo desde sempre em seus ossos diminuir conforme os dias passam e ela percebe que aquela é sua melhor chance até agora — melhor ainda quando a alimentam, lhe dão roupas e tiram as algemas, ela se sente quase humana.

 

Ela estará protegida, será treinada, não passará fome e terá acesso a lugares do submundo que não teria se não fosse minimamente esperta e perspicaz para não morrer ou ser vendida para o governo.

 

Então ela aceita de bom grado a tutela de Crocodile, como se ele fosse um homem generoso de verdade, como se ele fosse uma boa pessoa que quer essa órfã por perto apenas por compadecer-se de sua triste história. Robin faz seus planos também, ela não é burra, não sabe quanto tempo tem, mas vai aproveitar cada segundo.

 

Miss All Sunday. Crocodile lhe dá esse nome generosamente um dia, ele diz que nomes reais são para fracos e ele não vai aceitar ninguém fraco ao seu lado.

 

Ela tenta agradá-lo, realmente tenta, não por querer aprovação, claro que não, Robin não tem um pingo disso em si mesma, não depois de Ohara, de seu povo, ela se tornou mulher muito antes de ser adulta, essas coisas estúpidas que crianças buscam não estão mais em sua alçada. Mas ela sabe que precisa dele para alcançar seus objetivos, então usará Crocodile até onde puder, assim como ele a usará.

 

Ela se mantém quieta, observando da escuridão, treinando, usando seus poderes da fruta do diabo, sendo útil para a organização, desafiando os integrantes do grupo um a um com sua posição de protegida do chefe, ela passa anos assassinando, desmantelando organizações de dentro para fora, traindo e se afundando cada vez mais nas profundezas do submundo como apenas alguém como ela poderia. Robin recolhe cada informação que pode, guardando em sua memória e se tornando uma assassina espiã que faria inveja a outros, e isso agrada Crocodile. Sua frieza e análise profissional fazem com que ela seja o peão perfeito mesmo tão jovem.

 

Ela sabe que é isso que o atrai nela, um quadro em branco que já conta histórias, mas que está disposto a contar o que ele quiser com o incentivo certo. Robin não se importa em dançar no ritmo do mister zero, contanto que ele seja a escada que ela precisa para realizar seu objetivo principal.

 

Mas ela desliza. 

 

Obviamente ela deslizaria, porque não importa o quanto ela finja ser a assassina e espiã fria, perfeita e completa, ela não é isso no fundo.

 

— Você, Nico Robin, usa seu coração na manga. — o professor Clover lhe disse certa vez, gentil e sorridente como Robin já não se lembra se era mesmo, mas tem certeza que sua memória não a enganaria — E essa é a sua maior qualidade.

 

Então, em um dos dias horríveis que ela aprendeu a suportar, porque isso é melhor do que lutar por sua vida em uma instituição de meia boca que não é metade do que a Baroke Works é, sua vida muda. Crocodile a treinou pessoalmente hoje, além de fazer comentários mordazes sobre como ela não consegue dar um soco com os braços de macarrão que ela ostenta como sinal de suas fraquezas, então agora ela tem manchas escuras onde olhar e manca de maneira humilhante em direção a seu quarto. 

 

Mas antes que ela comece a fantasiar com maneiras que a base submarina possa afundar ainda mais, matando a todos eles por causa da pressão, ela escuta um barulho que não ouve já há algum tempo.

 

Esse barulho lhe lembra de dias bonitos e brilhantes, onde ela podia rir e crescer sendo ela mesma, onde ela podia ver outras coisas florescerem além de finais trágicos e genocídio. Ela hesita, pensando que sua mente está lhe pregando uma peça por causa da dor e do cansaço, mas Robin ofega quando o barulho de bebê continua.

 

A garota caminha até uma porta entreaberta e espia pela fresta que solta raios de luz verde musgo. Mais um minuto de hesitação antes que ela aceite que nasceu para bisbilhotar e entre no quarto quase vazio além de um berço simples bem no meio.

 

Robin ofega quando vê um embrulho repousar dentro do berço enquanto o conteúdo se mexe inquieto, querendo chamar atenção. A garota olha para todos os lados, xingando-se por não ter pensado em checar se o bebê tinha companhia no quarto — mas aparentemente não, o bebê foi deixado sozinho naquele cômodo gelado e solitário.

 

O bebê, parecendo exigir sua atenção, solta resmungos revoltados que quase a fazem rir — mas não ri, porque ela não sabe se consegue fazer isso mais, não de verdade, ela tenta não pensar muito nisso, não quando ainda escuta Saul em sua mente depois de tanto tempo, rindo e ensinando-a. 

 

— Tudo bem, já estou te olhando. — ela resmunga baixinho, permitindo que o bebê agarre seu dedo — Quem está cuidando de você? 

 

Ela sabe que ele não vai responder, com sua boca banguela e olhos brilhantes de ignorância vazia, mas mesmo assim algo dentro dela se repuxa quando o bebê coloca o dedo dela na boca. Se ele tivesse dentes talvez estivesse dando um lindo sorriso para Robin, mas ela reconhece o esforço dele em transmitir mensagens.

 

— Ou talvez tenham te roubado… — ela pondera enquanto o pega no colo, do jeito que lhe foi ensinado quando era mais nova.

 

O bebê é uma forma sólida contra ela de uma maneira que ninguém nem nada foi em muito tempo, isso faz com que ela sinta outro repuxado dentro de seu peito, é por isso que Robin o segura com força contra si, de repente protetora.

 

Ela caminha pelo quarto observando o único armário ali perto e uma penteadeira alta com gavetas, quase tudo vazio além de alguns lençóis e uma bolsa que ela imagina pertencer ao bebê. A criança resmunga contra seu peito, de repente mal humorado enquanto chupa seu dedo.

 

— Por que você está bravo? — ela pergunta a ouvidos basicamente surdos enquanto o balança distraidamente, o bebê resmunga mais contra seu dedo.

 

Robin quase revira os olhos quando se dá conta que ele deve estar com fome. Algo inconsciente nela a faz se mover e revirar a bolsa até encontrar uma mamadeira pronta, ela não pensa em nada quando começa a alimentar o ranzinza em seus braços.

 

Assim como ficou mal humorado, o bebê logo está sorrindo pacificamente contra a mamadeira.

 

Robin nega com a cabeça e sem perceber sorri um pouquinho.

 

— Você não está pensando em afogá-lo, está? — a voz retumbante de Crocodile ressoa na sala quase vazia e Robin finge não se assustar, sentindo-se tola por ter sido pega de surpresa.

 

Isso é só mais uma fraqueza de muitas.

 

— Não tem graça afogar quem não pode se defender. — ela responde simplesmente o mais rápido que pode, porque sabe que Crocodile não aprova nada além de perfeição em sua organização — Você roubou esse aqui dos pais? Ou o achou e resolveu acolhê-lo? 

 

Crocodile a observa com interesse velado e um pouco de tédio, ele se aproxima do berço agora vazio e dá de ombros. Ela sentiria medo de sua figura imponente que reflete as águas profundas e gélidas do East Blue, mas Nico Robin já não sente medo.

 

— Eu não acolho qualquer cachorro de rua, Miss All Sunday. — ele responde com petulância óbvia e ela trinca o maxilar. — Essa garoto em seus braços é meu filho.

 

E aquilo a deixa surpresa, a raiva esquecida para se focar no bebê em seus braços. Aquela doce criança banguela e com fome é filho daquele monstro sanguinário? Quem teria coragem de dar um filho a Crocodile? Que mãe, que mulher, que pessoa sã, deixaria uma criança inocente e indefesa nas mãos daquele monstro? São tantas questões que ela quase fica zonza.

 

— Tente não parecer tão surpresa, isso não lhe cai bem. — Crocodile comenta com uma risada — Bem, ele é supostamente meu filho agora, já que vou criá-lo.

 

— Você roubou ele? — ela murmura enquanto vê o movimento fofo da mamadeira contra os lábios do bebê, porque só pode ser isso, Crocodile nunca teria um bebê deliberadamente, essa criança deve ter sido roubada de um lar que a queria e a amava.

 

— Não se pode roubar uma coisa que é sua. — ele responde enigmaticamente e Robin começou a fazer planos no mesmo segundo.

 

Ela não é nenhuma libertadora ou heroína — afinal, ela é chamada de filha do diabo por um motivo —, mas não pode aceitar que esse doce bebê cresça com um monstro como Crocodile, ela não pode aceitar que mais alguém cresça sem as melhores chances do mundo. 

 

— Pare de pensar em seja lá o que você está pensando. — o tom dele agora não é mais amigável e ele parece seu chefe assassino novamente — A criança fica.

 

Robin sabe o que é uma ameaça clara quando vê uma, então ela apenas aperta o bebê contra o peito com firmeza e olha para seu chefe de uma maneira que nunca fez antes, com ferocidade e força de vontade que vai além de seus planos e objetivos de vida.

 

É a primeira vez, entre a luta cega para sobreviver e o luto massivo que ela sente o tempo todo, que Robin se sente viva e motivada assim, que ela corre por algo que não esteja dentro de seus planos e sente emoções humanas reais.

 

Ela não sabe como e nem porque, só sabe que essa sensação de proteção e luta está ali.

 

Crocodile parece surpreso, mas apenas por um minuto, então sua feição divertida e debochada volta para ele. 

 

— O nome dele é Luffy. — ele lhe diz simplesmente caminhando calmamente até a porta — Se gostou tanto dele, vou deixá-la acompanhá-lo de perto, isso vai me poupar tempo e paciência. 

 

A reação animalesca dela cessa repentinamente quando o homem vai embora sem mais nenhuma palavra, deixando apenas o quarto vazio e gelado para trás com duas crianças estáticas para trás. Ela observa o bebê cuspir a mamadeira agora seca e reclamar novamente.

 

— Tudo bem… — ela resmunga para alguém, talvez para Crocodile, talvez para o bebê, talvez para si mesma.

 

Ela olha novamente para o bebê agitado e o coloca no ombro dando batidinhas em suas costas, como sabe que deve ser feito.

 

— Luffy. — Robin resmunga para ele e para si mesma.

 

Os ventos da mudança. Liberdade. Verdade. Riso.

 

— Eu sou a Robin. — ela lhe diz com um sorriso, o primeiro verdadeiro em anos e ela nem mesmo entende o motivo — Vou cuidar de você agora.

 

E parece muito uma promessa e talvez um objetivo.

 

Robin não sabia na época, mas acabou de ser libertada.

 

★

 

Luffy floresce.

 

Ela ama flores, isso é inegável. Em outra vida as pessoas saberiam que Nico Robin ama flores de todos os tipos, mas nessa vida ela é um fantasma, uma assassina de mãos manchadas e alma corrompida. Exceto que existe alguém que a conhece, talvez seja a primeira coisa que Luffy aprende em vida e ela se sente honrada quando o observa crescer por toda parte e iluminar sua vida.

 

Luffy é esperança, é um suspiro de vida, é um raio de sol, ele ri e a alegra apesar de sua existência sombria e sinuosa, ele é tudo. Ele é o irmão dela.

 

Ele é um bebê inquieto e risonho, raramente chorando, além de reclamar constantemente de fome, com olhos imensos e curiosos que parecem tocar a alma dela. Robin se vê cuidando dele quase integralmente quando não está em missões ou treinando, não porque Crocodile não tenha empregados o suficiente para cuidar do garoto, mas porque ela quer cuidar dele o tempo todo. 

 

Nico Robin descobre que ainda tem a capacidade de amar de maneira incondicional apesar de toda a tragédia que a persegue, e é Luffy quem lhe ensina sobre esse amor que perdura, que nasce de terra seca e faz florescer como nunca antes, ela sente vontade de ser livre pela primeira vez. Ela ama lhe contar histórias e ajudá-lo em suas brincadeiras mirabolantes, ama fazê-lo rir e lhe ensinar coisas como falar, andar e escrever suas primeiras palavras, ama observá-lo crescer e se tornar uma pessoa por si mesmo. 

 

Robin sabe que está criando seu calcanhar de Aquiles, mas a cada vez que tenta se obrigar a não ir até Luffy e abraçá-lo, toda vez que tenta resistir a não lhe contar uma história ou tenta não escapar da cama para comer uma sobremesa na cozinha no meio da noite, bem, toda vez ela desmorona um pouco, sente-se desmanchar como quando perdeu seu lar. Luffy se torna sua família no primeiro sorriso, na primeira palavra — que coincidentemente é o nome dela — na primeira vez que rola como um bebê apressado que é e ela, Robin percebe, não consegue e nem pode abrir mão dele.

 

Ele cresce para uma criança barulhenta e bagunceira, um garoto por título, odeia tomar banho e pentear o cabelo para algo ordenado, ele diz tudo o que lhe vem à mente e absorve todas as besteiras do mundo como uma esponja, mas é o garoto mais doce que Robin já conheceu, beijando os ferimentos dela quando ela tem dias ruins, espremendo-se em sua cama quando ela sente que ainda tem sete anos e perdeu tudo ontem, inventa histórias mirabolantes só porque sabe que ela gosta, lhe dá flores e diz que a ama todos os dias, como um mantra. 

 

— Olha, essa é você! — Luffy diz, com uma janelinha adorável entre os dentes, ele tem uma dália cor de rosa estendida para ela.

 

Robin sorri aceitando a flor enquanto aconchega o garotinho perto e observa a coloração rosa entre os dedos. 

 

— E você seria qual flor? — ela questiona enquanto o escuta cantarolar uma música que Robin lhe ensinou, de sua terra natal.

 

Ela gostaria de ensinar a Luffy sobre as raízes dele, mas vergonhosamente Robin nunca conseguiu descobrir de onde Crocodile o pegou, ela desconfia de muitas coisas, mas nunca consegue chegar a fundo de nada — uma parte dela, muito egoísta, trava de medo no meio dessas investigações, pois não sabe o que faria se descobrisse de onde Luffy é, a quem Luffy pertence —, então ela faz o possível para lhe ensinar sobre o mundo, passa para ele seus conhecimentos e garante que ele sobreviverá no mundo mesmo se ela não puder protegê-lo.

 

 Robin não tinha muitos motivos para permanecer viva, mas jurou a Luffy e ao vasto, cruel e sórdido mundo, que sobreviverá para cuidar dele, da pequena família que os dois compõem.

 

Ela o treina a mando de Crocodile, que se conformou que os dois estão conectados para sempre desde o primeiro dia — ela sabe que não é generoso como parece, mas tenta apenas aproveitar cada segundo que tem com seu irmãozinho antes que o inevitável desastre comece —, então ela lhe ensina tudo o que pode. 

 

Luffy aprende artes marciais, línguas e a navegar, aprende conhecimentos gerais e a arte dos espiões, ela lhe ensina as línguas perdidas — a língua perdida — e torna ele seu aliado pelas costas de Crocodile, em parte sua cartada final, em parte porque, quando chegar a hora, Luffy irá com ela.

 

Porque irmãos não devem ficar separados.

 

— Nenhuma! — Luffy bufa e ri alto, covinhas em suas bochechas fofas — Eu sou um besouro-hércules! 

 

Robin ri e Luffy a olha revoltado, achando que ela está tirando sarro dele — ela faz isso com frequência, na verdade, parte por diversão, parte para irritá-lo, mas dessa vez ela só o acha adorável com seu vício por insetos.

 

— E qual é o nome real do besouro-hércules? — ela questiona quando o discurso dele sobre ser um besouro forte acaba.

 

— Ah, Robin… — Luffy resmunga perdendo a força enquanto parece fritar o cérebro para lembrar do nome científico de seu besouro.

 

Ela sorri para ele, é, ela não vai perdê-lo.

 

Não é fácil cuidar dele, isso ela precisa confessar, porque Crocodile se mostra um pai cruel e inflexível, o homem é rígido e maldoso, detesta crianças e não deixa de dizer isso a Luffy nem um dia de sua vida, tratando-o como um peso que ele não é. Robin observa das sombras, planejando, arquitetando, guardando anos de informações, cuidando de seu irmãozinho dia após dia, garantindo que ele não sinta metade da dor que ela sentiu em sua infância solitária e triste. Por sorte, Luffy é a pessoa mais resistente que ela conhece, mais forte e determinada do mundo, ele aprende a não esperar amor de uma pessoa infrutífera como Crocodile, que próspera na desgraça, na secura, ele cresce apesar das adversidades e do ambiente hostil.

 

— Você é a minha única família, Bin. — ele sussurra um velho apelido, suas primeiras palavras, na penumbra do quarto abafado dela no submarino, onde ele sabe que é seguro para cair, para ser vulnerável, como ela lhe ensinou. Os dois estão espremidos juntos na cama dela, abraçados depois de um dia longo de treinamento cheio de Crocodile e suas palavras cruéis — Você vai ser minha irmã para sempre, né? 

 

E ele pergunta tão gentilmente, tão espontâneo e magoado, deixando-a livre para dizer o contrário, de um jeito que Robin sabe que ele está franzindo a testa tentando não chorar enquanto faz um bico chateado, que ela precisa apertá-lo o mais perto possível.

 

— Claro, isso é uma promessa, Luffy. — ela responde rapidamente, com medo que ele ache o contrário — Irmãos para sempre.

 

A fruta do diabo que ele come é um descuido de Robin.

 

Foram poucas as vezes na vida que ela de fato tirou os olhos dele. A primeira vez que ele caiu e ralou os joelhos, quando ela se distraiu em uma leitura em um raro dia de folga na superfície, quando ele socou outra criança em um parquinho e eles quase começaram uma briga generalizada, quando Crocodile lhe deu um tapa na cara por falar alto demais a mesa de jantar. Ela se arrepende de todos esses momentos e se culpa intimamente, mas promete melhorar e nunca mais deixar nada de ruim acontecer a seu irmãozinho — Robin se culpa todos os dias de sua vida depois da fruta dele, para isso ela não consegue achar perdão.

 

Ela não quer torná-lo excessivamente precioso para Crocodile, ensinando-o desde cedo o que fazer para não ser interessante para o homem, porque quando a hora chegar, o impedimento será menor com apenas ela sendo uma arma do senhor da guerra — pelo menos é isso que ela espera e diz a si mesma. 

 

Nunca houve descuido quando se trato de Luffy, ela organizou horários, lhe ensinou coisas, cuidou dele mesmo quando não estava por perto, tudo para mantê-lo seguro e o mais feliz possível. Ela sempre soube que não podia falhar, principalmente com ele.

 

Então, quando ambos estão em uma missão de espionagem e reconhecimento para a organização — Luffy tendo sido promovido a seu assistente e parceiro temporário — em uma ilha pequena, calorosa e pacífica, Robin fica excessivamente relaxada dentro de seu personagem.

 

Eles faziam isso sempre, saiam em missões de reconhecimento em dupla ou tiravam férias rápidas sempre que Crocodile permitia, assim Luffy podia ver o mundo e entender o que seu futuro lhe reservava sendo um membro desde o nascimento da Baroke Works. Robin adorava essas missões, porque se sentia genuinamente humana, com um nome de verdade e com o único objetivo de fazer seu irmão feliz.

 

Mas quando a observação de Shanks, o ruivo, passa um pouco dos limites, com o pirata se afeiçoado até demais a seu irmãozinho e o garoto estúpido comendo uma fruta do diabo por acidente, bem, é aí que Robin traça o limite.

 

Depois das emoções conturbadas do dia, com seu irmão sendo sequestrado, quase morrendo em alto mar e Shanks perdendo um braço, ela arrasta Luffy de volta para a casa temporária deles e começa a arrumar as coisas. Ela passou a noite em claro pensando em como escapar dessa situação e não entregar Luffy como novo troféu para Crocodile, ela não chegou a nenhuma conclusão que não leve à morte de algum dos dois lados ou de ambos os lados.

 

Ela guarda roupas em uma mochila que trouxeram com força e rapidez, ela não dobra nada, está trêmula e sente que vai desmaiar, a cidadezinha costeira está movimentada e fala animadamente dos acontecimentos, todos felizes com o desenrolar dos acontecimentos. Racionalmente, Robin sabe que devem esperar até a noite para fugir, mas ela está desesperada, sem rumo, quer ser inconsequente por causa da pressa e não sabe o que fazer.

 

Faz meses que estão infiltrados como dois irmãos órfãos que buscam um refúgio e uma vida nova, apenas esperando pelo bando de Shanks, o plano era mesmo se infiltrarem entre os piratas, mas foi longe demais, ficou íntimo demais. 

 

E claro, seu irmãozinho também ajudou a tornar tudo pessoal. 

 

Você esperaria que uma criança como Luffy teria medo de piratas por sua criação, mas isso parece apenas fascina-lo mais ainda e Shanks é como a personificação de tudo o que mais encanta e inspira o garotinho — isso faz com que Robin fique amarga, toda aquela admiração irrefreada e sem motivo que seu irmão nutre por aquele pirata bêbado e estúpido — inflamando-o em sonhos e objetivos insanos que ela não aprova. Shanks não é como Crocodile, os dois são como lados opostos de uma mesma moeda e, de alguma forma que Robin quase não compreende, Luffy vê isso e fica encantando.

 

— Não podemos ir agora! — Luffy pula na cama de solteiro que eles têm dividido nas últimas semanas — O Shanks pode nos ajudar! Você não viu como ele me salvou? 

 

— Eu ia te salvar! — Robin retruca rapidamente sem parar de juntar tudo o que precisam — Você, seu pestinha inconsequente, o que estava pensando? 

 

— Não é minha culpa se o idiota me sequestrou. — Luffy se estica até uma viga próxima e fica pendurado como um macaco, membros elásticos como borracha.

 

Se Robin já não tivesse visto coisas piores, ela estremeceria, mas sua experiência não a faz se sentir menos enjoada por ver seu irmãozinho se esticar anormalmente.

 

— Bem, quem sabe da próxima vez não coma qualquer coisa que ver pela frente! — Robin bufa alto enfiando uma pilha de papel e livros na bolsa de Luffy, sua pequena vingança por ele tê-la preocupado.

 

— Tinha gosto de lixo. — Luffy confessa tardiamente e logo está agarrando as pernas dela, parando-a em sua busca frenética por tudo o que tem na pequena casa que foi deles nas últimas semanas — Vamos, Bin… Shanks pode nos ajudar! 

 

Robin vê vermelho. 

 

Nos últimos anos ela percebeu que sim, ainda é capaz de sentimentos humanos, mesmo que os reprima por seu trabalho e sobrevivência. Mas ela acha que nunca sentiu uma raiva assim direcionada a seu irmão doce e gentil, por quem ela com certeza morreria sem pensar duas vezes. Luffy é forte e corajoso, como ela o criou para ser, mas Robin percebe, tardiamente, que talvez o tenha criado ingênuo demais.

 

Em um raro momento de impulso — ao qual ela se culpará até o fim dos seus dias terrenos —, ela lhe dá um tapa alto na maçã de seu rosto. Luffy mal cambaleia para trás, talvez por aguentar a força do impacto, talvez pelo choque, talvez por ela não ter colocado tanta força assim no golpe, mas ele não se move além de dois passos.

 

Robin nunca fez isso antes, é claro que os dois já discutiram, algumas vezes brigaram aos socos por alguma birra ou um treino que exigiu isso, mas ela nunca desferiu um golpe que não fosse revidado na mesma intensidade um segundo depois, nunca de mãos abertas assim. Ela mesma fica em choque com isso, mas uma voz dentro dela diz que não pode se desculpar agora, não quando quer ensinar algo.

 

Luffy a olha, segurando o rostinho manchado de vermelho pelo impacto, ele parece mais chocado do que com dor, os olhos cheios de lágrimas não derramadas, Robin sente o coração se partir.

 

— Ninguém pode nos ajudar. — ela retruca de maneira firme e seu tom ganha uma cadência rancorosa com as próximas frases — Esses piratas… eles não se importam com nada além deles mesmos, por que você acha que eles tinham uma Akuma no Mi? E por que eles seriam diferentes do Crocodile? 

 

— Shanks perdeu um braço por minha causa! — Luffy exclama, nariz escorrendo e lágrimas rolando pela bochecha inchada — Ele salvou o bar da Makino e foi atrás de mim! Eles não são como o Crocodile! 

 

Robin ri para si mesma enquanto volta a enfiar coisas na mochila de Luffy.

 

— Bem, tenho certeza que eles não vão querer um pirralho na tripulação deles e muito menos uma filha do diabo. — a garota continua a andar para todos os lados, sua mente nublada de mágoa e rancor, maldições direcionadas a Shanks.

 

Como ele ousa roubar a única coisa que ela tem? Como ele tem a coragem de tocar na família dela? De encantar seu irmão, a única pessoa que ela tem no mundo, de tal maneira que o roube completamente dela? 

 

— Você não sabe disso! — Luffy exclama em um dos raros rompantes de raiva direcionados a ela — Você nunca tenta dar uma chance às pessoas, você só consegue ver o lado ruim de tudo! 

 

— Ah sim, porque todos são gentis e bonzinhos, Luffy. — Robin retruca com sua voz subindo — Acorde, as pessoas são más e cruéis, elas são exatamente como Crocodile é, apenas se escondem! Seu precioso Shanks não é diferente dele só porque perdeu um braço concertando os erros dele! 

 

Luffy fica estático dessa vez, olhando-a chocado e ela tenta entender o que aconteceu, até que percebe o uso das palavras.

 

— Você está dizendo que eu sou um erro? — Luffy sussurra, dessa vez seus olhos não são impiedosos e chocados, dessa vez ele está triste.

 

— Não, Luffy… — ela começa desesperadamente, mas antes que possa pedir perdão de joelhos, alguém abre a porta com força.

 

Ela se assusta e quase quebra o pescoço do intruso, mas é apenas Shanks, cabelo bagunçado, chapéu de palha nas costas, olhos brilhantes e uma garrafa de vinho nas mãos. Robin trinca o maxilar e o olha ressentida sem tentar disfarçar.

 

— Aí estão os irmãos Nico! — Shanks gargalha para si mesmo, como se sua frase fosse uma piada engraçada — Finalmente achei vocês, procurei por toda a vila…

 

Ele observa os arredores e Robin não deixa de notar que seus olhos parem por mais tempo do que o devido nas mochilas meio prontas, então sua feição suaviza e ele finalmente os olha. Shanks não parece preocupado com o estado deplorável dos dois, corados da briga e com os olhos brilhando de lágrimas.

 

— Olha, Makino vai dar uma festa no bar, tudo por minha conta e eu quero vocês por lá. — ele sorri e gesticula para que os irmãos o acompanhem.

 

— Você não deveria estar descansando? — Robin corta as intenções dele com uma pergunta claramente indelicada enquanto aponta para o braço faltando.

 

Shanks observa a manga vazia e ri como um lunático que todos sabem que ele é, nem um pouco abalado pelas palavras da adolescente. 

 

— Ah, isso aqui não é nada. — ele dá de ombros, por sua experiência, Robin consegue ver como ele está tenso de dor, mas Shanks, o ruivo, não é um dos imperadores do mar à toa — Você precisava ver o outro cara, ele sim precisa de descanso.

 

Luffy ri para o homem e Shanks parece derreter observando o garoto, com um carinho insuportável nos olhos que faz Robin entrar em alerta.

 

— Luffy precisa descansar. — Robin decreta, querendo desaparecer daquela vila infernal o quanto antes.

 

Luffy a olha traído e ela devolve o olhar, ele sabe muito bem o que está em jogo.

 

— Robin, por favor… — ele sussurra segurando a mão dela, a mesma que lhe deu um tapa, de repente ela se sente muito mal e muito cansada.

 

— Vamos lá, fuja quando o sol nascer, por hoje podemos festejar. — Shanks os interrompe e ri quando os dois olham assustados em sua direção — Eu sou meio idiota, mas não sou burro.

 

Robin aperta a mão de Luffy e suspira pesadamente.

 

— Vá comer com os outros e a Makino, mas é só por essa noite, tá bom? — ela diz enquanto se abaixa na altura de Luffy, o garoto se ilumina e, por um instante, ele é apenas o irmãozinho dela que ainda a ama e a quer por perto — Me desculpe por antes e por tudo o que eu disse, você sabe que eu não penso assim.

 

Luffy a olha seriamente, olhos gigantes devorando a alma dela de uma maneira reconfortante, por um instante Robin quase torce para que ele seja cruel e mesquinho, que não a perdoe, que vire a cara para ela e vá embora sem dizer nada, mas ele nunca foi do tipo rancoroso. Então, em apenas um segundo, ela tem uma braçada de Luffy em seu colo, esmagando seus ossos e se esticando em um abraço elástico.

 

— Eu também te amo, Bin! — Luffy a solta e o cheiro de borracha, sal e grama a deixam completamente enquanto ele corre porta a fora, quase derrubando Shanks — Vou comer toda a carne que a Makino fizer.

 

Robin sorri para si mesma, cheia de carinho, mas sua feição morre quando Shanks a observa em silêncio, agora mais sério do antes com o olhar dolorosamente carinhoso.

 

— Vá em frente. — Robin quebra o silêncio deixado por Luffy — Nós dois sabemos que perder um membro não te fará ser mais sutil ou delicado.

 

Shanks ri ironicamente, mas concorda com a cabeça, ele deixa o silêncio reinar por mais um segundo antes de começar a falar.

 

— Não sei exatamente de onde você é, mas desconfio. — ele resmunga — Seu nome é mesmo Hanakotoba? 

 

Hanakotoba. Amor puro. Lembranças. Resiliência. Transformação. 

 

— Isso importa? — ela questiona de volta, estóica como aprendeu a ser — Seu nome é mesmo Shanks? 

 

Shanks sorri brevemente, quase com aprovação e ela quase usa seus poderes para realmente matá-lo dessa vez.

 

— Eu adoro o garoto, se você quiser me dar ele, posso levá-lo para longe daqui. — Shanks sorri se recostando na parede de entrada — Pelo preço certo, é claro.

 

Robin trava o maxilar olhando-o como se ele fosse sua presa, ela pensa em, pelo menos, vinte maneiras de matá-lo e desaparecer com seu corpo para que ninguém mais o ache.

 

Mas então o homem ri, alto e estridente, reverberando por todo o pequeno cômodo.

 

— É brincadeira, eu realmente adoro o garoto, se você pedisse eu o levaria de graça. — Shanks comenta como quem não quer nada — Levaria até você se me pedisse.

 

— Não preciso de ninguém, muito menos de um pirata bêbado. — ela quase rosna para ele — Luffy também não precisa. Temos um ao outro.

 

Shanks suspira, seu sorriso diminuindo, algo entre pena e cansaço em sua feição, ele a olha e nega com a cabeça, como se estivesse resignado com alguma coisa.

 

— Lamento por tudo isso, garota. — ele lhe diz em tom paternal — Não sei o que está acontecendo, mas lamento muito e lamento mais ainda que não queira ajuda.

 

Ele ajeita a postura e começa a sair da casa, mas para e a olha em um instante perturbador de seriedade.

 

— Tem um barco do outro lado da ilha, com alguns mantimentos também, vocês sobreviverão por algumas semanas até acharem um lugar seguro. — ele comenta simplesmente — Tem alguns mapas que serão úteis, já que você não quer minha ajuda, tente se ajudar um pouco mais, se não por si mesma, pelo garoto.

 

Ela não tem forças para dizer nada a ele, mas quando Shanks finalmente vai embora, ela pega uma jarra de vidro que Makino lhes deu quando chegaram e arremessa na parede, gritando a plenos pulmões. Flores, água e cacos de vidro se espalham pelo chão quando ela cai de joelhos e soluça.

 

Luffy fica extremamente feliz naquela noite, quase brilhando como o sol entre mesas de carne e piratas bêbados, em seu elemento, Robin percebe e lamenta.

 

Shanks vai embora alguns dias depois, ele dá a Luffy o chapéu de palha e os dois fazem uma promessa que Robin não pode nem chegar perto para interromper e, pela primeira vez, ela escuta.

 

— Quando nos encontramos de novo, eu serei o rei dos piratas! — Luffy exclama com o chapéu de palha na cabeça enquanto acena.

 

Obviamente Luffy cresceria para ser um pirata, Crocodile é um e tudo o que ele conhece na vida é a pirataria, mas rei, bem, essa é nova para Robin, não surpreendente, porque seu irmãozinho sempre foi de coisas grandes mesmo tão jovem, mas certamente curioso aos olhos dela. Mais uma coisa que ela anota em sua lista de culpa do Shanks, o bêbado.

 

Os piratas dão risadas altas, mas Shanks permanece sério e comedido, sorrindo para Luffy e, inesperadamente, para Robin também, ele lhe lança uma piscadela e vira um borrão no horizonte.

 

Em uma decisão impensada naquela mesma madrugada, Robin usa a rota de fuga que ele lhe deixou. Ela não deixa nenhuma carta ou diz alguma coisa a qualquer pessoa, pensar me Crocodile colocando as mãos nas pessoas daquele vilarejo a deixa doente de uma forma que ela não se sente desde sua verdadeira casa, então ela apenas pega Luffy e sai no meio da noite gelada, navegando em um barquinho francamente deplorável, mas que tem os mantimentos prometidos e mapas.

 

— Vamos ser livres agora?! — Luffy pergunta animadamente, o torpor do sono esquecido agora que estão em alto mar, seu braço está enrolado em um dos remos e ele faz movimentos perfeitos junto com ela — Finalmente estamos livres?

 

— Sim, Lulu, estamos livres. — ela responde, um sorriso surgindo involuntariamente em seus lábios quando Luffy solta um grito alto no meio do mar escuro e vazio.

 

É um pouco desesperador para ela o novo sonho de seu irmão, mas se é isso que ele quer, então ele já tem seu primeiro tripulante muito antes de ser capitão.

 

Ela sabe que Crocodile irá atrás deles, mas vai se certificar de ir até os confins do mundo para que ele não os encontre, para que sejam livres.

 

Robin observa os mapas a sua frente e começa a traçar sua rota para o futuro. 

 

★

 

Eles vivem como nômades por bastante tempo, fazem algumas paradas esporádicas que levam anos para terminar, em lugares que tenha grandes populações, onde eles possam disfarçar os nomes e aparências como sabem fazer. 

 

Eles buscam por Poneglyphs, explorando e conhecendo lugares que as pessoas não pensam em chegar, Luffy nunca reclama, parece se divertir, parece até querer mais, tremendo em busca de aventuras como só ele poderia. Seu irmão mais novo se mostra um excelente leitor de runas antigas, não tão interessado quanto ela, mas disposto a agradá-la lendo e absorvendo conhecimento. 

 

É pacífico, um pouco difícil, porque precisam sempre manter os olhos abertos, mas Robin se sente feliz. Eles não tem nenhum pirata enlouquecido fazendo-os treinar até sangrarem ou fazendo-os cometer crimes sem parar em seu nome, podem se permitir ser pessoas por seu próprio direito e vontade. 

 

Luffy continua a crescer e, inegavelmente, ela também.

 

Quando ele tem dezessete e ela vinte e oito, os dois decidem que já basta de nomes falsos e da vida nômade com disfarces — mais como Luffy enlouquecendo-a para se tornar um pirata — é hora de ser Nico Robin, a arqueóloga e Nico Luffy, o futuro rei dos piratas, é hora de sair para o mar e perseguir seus sonhos.

 

As coisas acontecem em um ritmo frenético e estranho, como nunca antes. Luffy derrota a capitã Alvida, liberta um garoto que tem olhos brilhantes e cabelos cor de rosa, insiste em navegar até Shells Town para libertar Roronoa Zoro, o caçador de piratas e torná-lo seu espadachim.

 

Robin nunca o viu tão livre, tão feliz e completo, isso faz com que ela se sinta exatamente assim, longe de missões de assassinato e espionagem, longe de paredes geladas e quartos que mais parecem celas de prisão, longe do pirata maluco e controlador que os criou como armas. Mesmo que sua liberdade tenha sido conquistada há muito tempo, ele ainda tinha essa sede reprimida pelo mundo real, o mundo que ele quer conhecer sendo realmente ele mesmo.

 

— Vá se divertir, vou te esperar. — Robin comenta observando a cidade, tendo prometido a Luffy que também tentaria ser, de fato, livre.

 

Luffy sorri e puxa o garoto tímido para longe enquanto Robin observa revirando os olhos.

 

Roronoa Zoro é realmente um acontecimento, ela pensa quando o vê pela primeira vez. Sujo, fedendo e com a pele descascada pelo sol, mas ele ri suavemente de tudo o que seu irmão diz, aperta sua mão com firmeza e indiferença quando Luffy os apresenta e, de fato, parece acreditar absolutamente no sonho de seu capitão.

 

Ela não deixa de notar que, apesar de confiar em Luffy, Zoro parece desconfiar dela. Robin ficaria ofendida e nervosa com esse prejulgamento no passado, mas agora ela apenas ri e nega com a cabeça enquanto observa um protetor leal nascer em Roronoa Zoro.

 

Aos poucos eles vão crescendo, Nami, a navegadora ladra e irritadiça aparece — é claro que Robin não confia plenamente nela, sabe que ela não está falando a verdade, mas vai deixar as coisas se desenrolarem —, então Usopp com suas pernas bambas e espírito de guerreiro, depois Sanji, sorriso de Casanova e olhos brilhantes para ela.

 

Então eles têm um navio e Robin não se lembra da última vez que teve um lar desse jeito, com um lugar para, de fato, se sentir segura.

 

E Luffy parece completo, um sonho que ele não quer acordar, saltando e sorrindo, iluminando a vida de todos eles enquanto canta suas músicas de piratas favoritas e grita para todos que será rei.

 

Mas nisso ele está enganado, pensa Robin, porque Luffy já é rei, para todos eles.

 

Aos poucos eles se acostumam uns com os outros e, de uma maneira que Robin nunca poderia ter imaginado, eles se tornam uma família, disfuncional e maluca, mas uma família.

 

Ela cai facilmente nesse conforto, apesar dos desafios e perseguições constantes, eles estão bem, tão em segurança quanto um bando de piratas pode estar. Robin sabe que Crocodile não vai deixá-los tão facilmente, mas essa preocupação é tão insignificante naquele momento que ela a joga no fundo do baú que é sua mente e aproveita as festas que eles dão, as comemorações e as risadas.

 

Ser pirata não é tão ruim assim.

 

Pelo menos é o que ela pensa até dar de cara com uma coisa que ela realmente podia morrer sem ver.

 

Ela está dando uma volta no navio, é madrugada e todos parecem já estar dormindo. Nami dormiu em cima de seu diário de bordo e ela sabe que o silêncio no dormitório dos meninos só pode significar duas coisas, ou que eles estão dormindo ou que eles se mataram em um duelo épico.

 

Ela ri baixinho para si mesma enquanto seus pés descalços a levam até a popa do navio, sua lanterna pendurada em uma mão e um livro na dobra do braço, mas para abruptamente quando escuta o som de alguém batendo contra madeira.

 

Robin franze a testa e observa os arredores escuros, o navio iluminado apenas pela luz da lua. Seus olhos recaem no ninho de corvo que deveria estar ocupado por Zoro, que está fazendo a vigia na primeira parte da noite. Ela deposita seu livro e lanterna no chão suavemente, entrando em posição de batalha, braços cruzados e mãos prontas para brotarem, estacando completamente quando dá alguns passos e se assusta com a cena a frente.

 

— Que porra é essa?! — Robin exclama em alto e bom som.

 

Luffy está pressionado contra a amurada do navio com Zoro pressionando-o com o que Robin entende como com força, as mãos do Roronoa espalmadas em seu quadril enquanto as mãos de seu irmão estão nas costas do garoto mais velho, ambos estão corados e amassados pela proximidade, lábios inchados e olhos desfocados.

 

Eles se separaram rapidamente, como se estivesse queimando um ao outro e ela quase não usa seus poderes. Mas Robin não resiste a uma boa novela e agora ela é a irmã mais velha superprotetora, então ela faz Zoro tropeçar e cair de cara no chão, apenas para prender seus braços atrás das costas.

 

— Que diabos você estava fazendo com meu irmão?! — ela quase grita com o homem que ainda tem o rosto plantado no chão do Going Merry — Responda, Roronoa! 

 

— Pare com isso, Robin. — Luffy a empurra fracamente quebrando sua formação e fazendo suas mãos desaparecerem — Você está me envergonhando! 

 

— Ah, você mocinho! — Robin direciona sua revolta a seu irmãozinho, ela puxa um das bochechas dele sem se importar com a careta que ele faz — Seu inconsequente, sabe quantas doenças pode pegar na boca do Roronoa? Centenas! E no meio da noite! Que falta de elegância, você é melhor do que isso! 

 

— Ele não vai pegar doença nenhuma. — Zoro se intromete e ela lhe lança um olhar de aviso — Eu não sou uma maldita pomba doente, Nico! 

 

— Bem, certamente não é nenhum alazão de raça. — a mulher retruca — Você pensou em, sei lá, falar com alguém antes de agarrar meu irmão?

 

— Certamente Luffy sabe muito bem o que quer. — Roronoa dá de ombros, como se não ligasse — Ele não precisa que a irmã mais velha dele lhe diga o que fazer…

 

— Ah, como se você soubesse alguma coisa sobre ele! — Robin exclama olhando-o intensamente — Sou irmã dele a vida toda e você é o que? O imediato há alguns meses?!

 

— Tá bom, já chega. — Luffy diz e ambos se calam com o seu tom, não é o tom do bobinho ingênuo que ele diz ser, nem mesmo o brincalhão risonho que todos gostam, está mais para capitão dos chapéus de palha e futuro rei dos piratas — Olha, Robin, sinceramente ele tem razão, não preciso da opinião de ninguém sobre isso.

 

Robin o olha, de repente percebendo que Luffy cresceu, ele não é mais o bebê faminto de antes, nem mesmo o garotinho aprendendo a escrever, ou o garoto que comeu uma Akuma no Mi por acidente. Ele agora é quase um homem, que se impõe e é capitão, que está a um passo de conquistar sua tão sonhada coroa.

 

— E você — ele se vira para Zoro olhando-o sério —, não fale com a Robin assim nunca mais, ela pode se intrometer no que quiser e, se eu fosse você, cairia nas graças dela, se a Robin disser não, terei que obedecer.

 

— Tanto faz… — Zoro resmunga dando de ombros e saindo de perto deles — Resolvam os problemas de vocês, alguém precisa vigiar.

 

Ela escuta ele resmungar coisas como “malditos irmãos Nico” e “capitão diota”, mas Robin tenta deixá-lo com suas reclamações enquanto se volta um tanto encantada para Luffy.

 

— Desculpe, eu exagerei. — Robin pede a contragosto quando Luffy a olha, desviando os olhos analíticos de um Roronoa ranzinza que sobe até o ninho de corvo.

 

Luffy bufa baixinho e a abraça, o calor do corpo de borracha de seu irmão é reconfortante no frio da noite, ela quase se lembra dos tempos onde ambos tinham apenas uma caminha no esconderijo para se esconderem dos monstros da vida real que os perseguiam e trocavam segredos na penumbra. 

 

É claro que Roronoa se apaixonaria por Luffy, Robin pensa enquanto o esmaga em seus braços, quem não amaria seu irmão? 

 

— Foi meio engraçado. — Luffy confessa e ela sabe que ele está segurando uma gargalhada, talvez para não acordar os outros que ainda estão dormindo, talvez para não ferir mais ainda o orgulho de Zoro, talvez para que ela não caia na gargalhada com ele — Mas tudo bem, você pode se intrometer no que quiser, só precisa confiar em mim.

 

Robin ri baixinho fungando no cabelo bagunçado dele, ela o ama mais do que tudo no mundo, mas talvez dividi-lo com Zoro não seja tão ruim assim, ela quer que todos vejam a grandeza de Luffy e sintam como ele pode fazê-los livres como fez com ela.

 

— Confie em mim, vou cuidar de tudo agora. — Luffy lhe diz quando se separam — Quero só que você seja feliz e livre, entendeu? Preocupe-se só em descobrir a verdade agora.

 

Robin quase se emociona, mas pisca os olhos rapidamente e assente. Ela se pergunta de onde toda essa confiança vem, de onde toda essa fé irrefreada que ele demonstra surgiu, Robin sente que pode chorar de orgulho, como ele, que a conhece verdadeiramente e sabe de seus demônios ainda pode ama-la? Como ele pode ainda confiar nos sonhos dela e carrega-los em seu coração sabendo de tudo? 

 

A mulher sabe que isso não é obra dela, isso é tudo Luffy e a pessoa que ele escolheu ser. 

 

— Claro, Hércules. — ela resmunga baixinho e ele ri suavemente, Robin se permite apertar as bochechas dele com mais força do que o necessário — Mas nós vamos ter a conversa sobre sexo de novo.

 

Ela não precisa perguntar a Luffy como e nem quando, nem mesmo se ele gosta mesmo de Zoro, porque estava na cara desde o primeiro dia que se gostavam, talvez ela não tivesse permitido que sua mente concebesse que talvez eles se gostassem um pouco demais, mas é a realidade e ela consegue viver com isso. Mesmo que ainda veja Luffy como um garotinho com janelinhas lhe dando flores e falando de insetos.

 

Luffy geme e começa a franzir a testa, sinal de que eles talvez deixem a conversa emocional para começar uma briga de tapas no meio da popa do navio, então Robin solta às bochechas elásticas com um estalo alto e ri.

 

— Vá falar com seu namorado ranzinza antes que ele abra um buraco no navio só com o mau humor dele. — Robin aponta para o ninho onde Zoro está emburrado — Diga ao garanhão que teremos uma conversa séria em breve.

 

Luffy bufa e se afasta dela resmungando.

 

Quando Robin está prestes a encerrar o dia, sua leitura esquecida depois das cenas traumáticas que presenciou, Luffy para em seu caminho para o topo e a olha com carinho.

 

— Eu te amo, Hanakotoba. — então voa em direção ao ninho de corvos.

 

Ela ri quando escuta Zoro xingar como um pirata que é.

 

— Eu também te amo, capitão.

 

★

 

É irônico que demore tanto tempo para finalmente seus caminhos se cruzarem com Crocodile. 

 

Eles estão ajudando a princesa depois que Zoro derrotou cem homens da Baroke Works — ele ganha o respeito de Robin de volta e sua benção — e Nami negociou a chegada da garota a terra natal.

 

— O nome dele é mister zero. — Vivi reconta a verdade para eles no navio, Usopp e Sanji agora presentes — Ou mais conhecido como Crocodile, o senhor da guerra.

 

— Mais um senhor da guerra? — Sanji comenta fazendo cara feia enquanto acende um cigarro — Esses caras crescem como praga, você pensaria que é difícil ser um, mas qualquer um compra o título.

 

Robin fica em silêncio onde está sentada, ela pode ver que Luffy também está anormalmente parado, os dois trocam olhares, o segredo deles pesando desde a entrada na Grand Line.

 

— Eu voto para darmos meia volta e passar mais um tempo no East Blue. — Usopp diz simplesmente e todos o ignoram.

 

— Já temos um contrato, vocês terão que lidar com esse cara aí. — Nami retruca simplesmente, mordaz com a ideia de perder seu negócio.

 

— Vai ser divertido lidar com mais um desses caras. — Zoro ri para si mesmo e então olha para Luffy, que está sempre rindo e concordando com ele, Robin quase sente asco de tão doces que os dois são, mas nesse momento ela não consegue encontrar forças para zoação.

 

Zoro perde a feição divertida quando Luffy não lhe dá ouvidos, uma feição sombria decorando seu rosto sombreado por seu chapéu.

 

— Qual o problema, capitão? — ele questiona com preocupação velada, tentando fingir indiferença.

 

Robin quase ri, deve ser aterrorizante para ele ver um lado que nunca tinha visto antes em seu amável e adorado capitão, o homem com quem ele está sempre em sincronia, a quem ele sempre entende.

 

— Ela tem razão sobre Crocodile. — ele resmunga baixinho, Luffy não olha para Zoro, mas seus olhos encontram Robin e ela sorri tristemente para seu irmão.

 

— Receio que sim, capitão. — ela suspira quando ele se senta ao seu lado e segura sua mão.

 

Todos parecem surpresos com as palavras do capitão confiante e forte deles, mas Luffy apenas sorri gentilmente.

 

— Vou contar para vocês uma história bem engraçada agora. — então Luffy vomita tudo o que está preso há dezessete anos, toda a história deles, as crianças da Baroke Works.

 

Quando termina há um silêncio sepulcral na cozinha do navio, todos em choque com o que foi dito.

 

— Vocês são filhos do Crocodile?! — Vivi exclama desacreditada.

 

— Só o Luffy. — Robin diz e Luffy a olha feio.

 

— Bem, não, eu não sei quem são meus pais. — o garoto responde calmamente dando de ombros — Pode-se dizer que Crocodile nos criou, mas não foi exatamente isso que aconteceu.

 

— Bem parecido com pai e filhos, na verdade. — Sanji comenta descontraidamente acendendo mais um cigarro, Robin vê que ele treme um pouco, ela quase revira os olhos, ele é filho de Zeff, perna ruiva — Mas é o momento de acertar as contas com ele, porque como ele ousa ferir uma linda dama como a senhorita Robin! 

 

— Bem, deveríamos matar esse cara. — Nami comenta simplesmente batendo suavemente com as mãos na mesa — Depois de tudo o que ele fez com vocês, isso é o mínimo que pode ser feito com esse monstro.

 

— É, agora não tem jeito… — Usopp nega com a cabeça, trêmulo, mas parecendo tentar desesperadamente reprimir a reação — O capitão Usopp terá que defender a honra de seus queridos tripulantes.

 

Luffy revira os olhos e nega com a cabeça, então seus olhos recaem sobre Zoro do outro lado da mesa. O garoto olha para seu capitão sem desviar os olhos e nega com a cabeça, Robin não está nem perto de entender a linguagem deles, mas aquilo parece ser positivo.

 

— Eu sempre detestei crocodilos. — Zoro comenta e ela observa o rancor crescer por detrás de seus olhos cinzentos — Já chegou a hora de cortarmos alguns ao meio.

 

Vivi os observa hipnotizada, ainda de pé e corada pela surpresa, Robin imagina que todas as princesas devam ser assim, destemidas, mas facilmente impressionáveis. Ela imagina que, em outra vida, teria aterrorizado os sonhos dessa garotinha mesmo dentro da Baroke Works como Miss All Sunday, mas nessa vida ela está ali e tomará sua terra das mãos de Crocodile ao lado de sua tripulação.

 

E esse é o primeiro sinal do fim dos tempos.

 

★

 

A batalha é infernal, mais infernal do que o deserto, pessoas morrendo de todos os lados por nenhum motivo além de um capricho de Crocodile.

 

Eles tem que se dividir e deixar Luffy para trás, eles são enganados e a notícia de que Luffy morreu chega até eles, mas Robin não aceita, porque Luffy é vida, ele não vai morrer nunca.

 

A cabeça dela a trai, reprisando aquele dia há tantos anos atrás. Ela não consegue evitar ver sua mãe, seu professor, seus antigos amigos, Saul, todos eles morrendo em sequência em sua cabeça, enquanto imagina Luffy, sozinho e sangrando no meio do deserto, imagina Crocodile dando um fim na vida da única coisa realmente boa no mundo, a única família que Robin conseguiu manter. Ela se sente tola por pensar que poderia mantê-lo protegido, ela se culpa por tê-lo deixado para trás, por não ter podido protegê-lo. 

 

Então ela é sequestrada, ironicamente e vergonhosamente, Robin tem um buraco em formato de gancho no ombro que Chopper vai ter um aneurisma quando ver antes de suturar, mas ela segue firme pelo corredor secreto nas catacumbas da família real. Robin chora sem fazer barulho enquanto desce degrau após degrau com Crocodile em seu encalço, ela só consegue pensar em Luffy caindo como uma folha de papel seca na areia daquela cidade maldita e fadada à destruição. 

 

Ela perdeu sua família mais uma vez.

 

— Ah, lágrimas, que coisa maravilhosa. — Crocodile ri de seu desespero — Pensei que tivesse te criado melhor do que isso, mas levando em consideração a situação do garoto, vejo que falhei.

 

— Você não me criou! — ela grita contra as paredes secas e antigas — E não criou Luffy! 

 

— E você acha que toda essa garra veio de onde? — Crocodile retruca quando chegam ao patamar indicado pelo rei — Certamente não veio do seu povo instinto e nem mesmo da família patética de quem o roubei.

 

Robin arregala os olhos com a frase do homem, ela dá um passo em sua direção, cega pela sede em informação como sempre foi.

 

— A família dele? Quem são? Me diga! — ela grita e ele lhe dá um tapa de mão cheia que a faz cair no chão com um estalo doentio de algum osso dela.

 

Cobra parece horrorizado com a cena à frente de onde está encostado em uma parede, mas sabiamente não se move.

 

— Leia as inscrições na pedra e talvez eu pense em ser misericordioso. — Crocodile diz simplesmente — Eu odeio quando meus bichinhos mordem minha mão, mas talvez possa perdoá-la por ter sido uma criança birrenta nos últimos anos.

 

Robin cospe aos pés dele, puro ranho e sangue, mas se coloca de pé apesar das algemas de pedra do mar, observando as escrituras. Ela disfarça a surpresa como aprendeu a fazer aos sete anos de idade, então mente.

 

O que se segue é um borrão na mente dela, mas ela se certificar de ficar calada e deitada, mesmo desorientada ela sabe que um deslize a fará morrer de verdade nas mãos de Crocodile e de uma maneira muito mais dolorosa do que ser esmagada por pedras imensas, mas isso não impede que as lágrimas rolem por seu rosto sem parar, ela só consegue pensar no resto do bando e em Luffy, seu irmãozinho doce e gentil, que morreu nas mãos daquele monstro. Ela espera que a tumba caia logo, porque não quer viver nem mais um segundo em um mundo sem Luffy.

 

Mas, heroicamente de uma maneira que Luffy odeia, ele chega. Vivo e tão bem quanto pode estar, mas de pé. Robin chora de alívio no meio da briga deles, agradecendo a qualquer divindade que ela nem acredita, porque agora ela lhe deve uma.

 

Luffy o derrota. Luffy liberta Alabasta para sempre e chove, o inferno acabou, como Vivi diz e eles estão vivos, verdadeiramente livres, verdadeiramente vingados daquele monstro cruel.

 

— Acabou, Bin. — Luffy lhe diz antes de desmaiar a luz do sol escaldante daquele lugar, aos pés do rei e em seus braços — Ele se foi.

 

Robin concorda e repete isso como um mantra, como quando ela tinha quatorze anos e Luffy três, e estava aprendendo a contar. Ela repete isso para si mesma, para o corpo dele, enquanto dorme, quando acorda de novo e quando ele acorda.

 

Ela abraça Luffy tão forte quando ele acorda três dias depois que o garoto ri desesperadamente, gritando que Robin quebrou suas costelas recém curadas.

 

Esse é o som da vitória.

 

★

 

Quando Aokiji aparece, meses depois, depois de Alasbasta, depois de Skypiea e centenas de outras aventuras que eles colecionam uma atrás da outra, tornando-se, talvez, os novatos mais importantes e impressionantes na primeira parte da Grand Line, é como um balde de água fria na cabeça de Robin.

 

Ela treme e treme e treme, e não é por causa do gelo que quase a matou dessa vez, mas por causa do passado que vem para assombra-la. 

 

Enquanto congelada, tremendo e em um sono confuso, doloroso e horrível, ela vê todas as coisas que ainda a assombram, sua mãe, Ohara, Saul, todas aquelas pessoas que a odiavam sem conhecê-la, todos aqueles dias de fome e frio miserável, todas as vezes que Crocodile aterrorizou Luffy e a aterrorizou no processo, e mais centenas de coisas que se tornam um monstro imenso que ameaça devora-la se ela der um passo em falso. 

 

Quando acorda na enfermaria improvisada que eles montam no Merry, ela apenas pisca para todos eles de guarda juntos, como nos velhos tempos em que não sabiam o que estava matando Nami lentamente e estavam desesperados para ter a navegadora deles de volta, os sons de roncos e suspiros suaves aquecem mais do que os cobertores ao redor dela.

 

Ela observa Luffy deitado, babando em seu próprio travesseiro enquanto faz o equivalente do som de um aquecedor grande, Robin quase sorri, os terrores noturnos amortecidos pelo barulho familiar de seu irmão.

 

Ela se senta apesar das dores musculares que roem suas articulações e a dificuldade para respirar pela possível hipotermia. Robin não pensa muito enquanto estica a perna na direção de Luffy e o cutuca insistentemente. 

 

Seu irmão ofega como se estivesse se afogando, logo acordando, seguro e relaxado, mas acostumado demais com uma vida em constante mudança para perder seus antigos hábitos tão facilmente.

 

— Café da manhã? — ele resmunga como se tivesse algodão na boca, os olhos fazendo aquela coisa engraçada e adorável quando não se focam o suficiente em nada por causa do torpor do sono.

 

— Ainda não, bobinho. — Robin comenta baixinho, não querendo acordar os outros — Apenas Aokiji.

 

Isso parece despertar Luffy que olha ao redor em alerta e Robin quase ri da cara que ele faz. Não demora muito para ele perceber que não há perigo naquela sala, mas com certeza haverá se eles não começarem a se preocupar.

 

— Você acha que ele virá novamente? — Robin pergunta tão inocentemente que quase fica constrangida. 

 

Luffy coça a barriga distraidamente, seus movimentos são letárgicos, ela imagina que seja porque borracha fica frágil depois de congelar e o pensamento quase a faz vomitar. 

 

Porque claro, claro que seu estúpido irmãozinho corajoso desafiaria diretamente Aokiji para uma batalha para proteger sua tripulação, Robin nem sabe porque ficou surpresa quando soube — seu peito pesa entre raiva dilacerante por ele ser tão estúpido e orgulho desenfreado porque ele é um ótimo capitão. 

 

Ela se lembra daquelas vezes, naquela infância distante e falsa que ambos tiveram, quando ele lhe entregava flores coloridas e ajudava insetos, mãozinhas pequenas e pegajosas de sorvete a meia-noite em dias felizes com histórias contadas na penumbra de um caixão submarino em que ambos estavam aprisionados, Robin imagina que ele foi criado para isso, ser corajoso e forte, para defender os seus com unhas e dentes, ela se sente estúpida por pensar que ele seria tão conservador quanto ela naquela idade. 

 

— Claro que sim. — Luffy comenta com uma sinceridade dilacerante, como tudo em sua vida — Ele só foi embora porque é honrado demais para atacar vocês depois de uma luta contra o capitão. 

 

Ela observa o garoto apertar as cobertas que o cobrem, sua feição endurecida por pensamentos que ela não consegue decifrar e os acontecimentos do dia, Luffy parece anos mais velhos do que realmente é e Robin meio que deseja que ele volte a ter sete anos de idade, lhe confidenciando cada pequeno pensamento que passa por sua cabeça. 

 

— Eu queria ter matado ele. — Luffy comenta simplesmente, parecendo decepcionado — Aí ele não viria mais atrás de você, não viria mais atrás de nenhum de nós, então a gente não precisaria contar com honra nenhuma. 

 

De repente Robin se lembra que Luffy também é um assassino, que ele também manchou as mãos de sangue e teve que enfrentar vários dos mesmos infernos que ela, mesmo que em medida diferente, que ele também foi criado por Crocodile e suas mãos cruéis, que ele foi criado por ela e seus passos silenciosos no submundo. Se ela cresceu na escuridão, então Luffy cresceu nos ecos dos movimentos calculados dela, em cada livro que ela o fez devorar quando mais novo, em Poneglyphs raros e maneiras espertas de sobreviver.

 

E Aokiji está em um pedaço cinzento de suas memórias, suas mãos geladas que tiraram Saul dela e a chance que ele lhe deu — apesar da ameaça aberta para se manter atenta, porque ele ia persegui-la em breve —, ainda em seus pesadelos, ainda com sua voz sussurrando em seus ouvidos. Ironicamente ela fica feliz por ter conseguido passar tanto tempo com Crocodile sendo útil, isso garantiu que Luffy não precisasse sofrer desses mesmo terrores aos quais ela ainda é completamente suscetível, tendo tanta segurança quanto ela conseguiu garantir com seus esforços. Entretanto, nada disso apaga o fato de que Aokiji estava lá, de que ela se lembra mais dele do que se lembra de sua própria mãe, de seu querido professor Clover, até mesmo de Saul em dias particularmente difíceis. 

 

— Honra. — Robin replica amargamente — Não sei se uma pessoa como ele pode ser considerada honrada.

 

Buster Call ressoa em sua mente sem parar como uma música de baixo custo com guitarras desafinadas, prevendo tragédia, morte e o fim. Ela não consegue esquecer, porque é como uma doença que está em seus ossos desde sempre e não há cura para sua condição, às vezes ela fica feliz por isso, por ainda ter esse medo paralisante e raiva explosiva contra a marinha, mas as vezes ela simplesmente se sente uma peça a parte do mundo, como se fosse uma espectadora de uma telenovela com o final triste, seu enredo roubado dela por mãos cruéis e sanguinárias. 

 

Luffy parece entender e a olha com olhos gentis dessa vez, a voz rouca de um capitão que está disposto a enfrentar o inferno por sua tripulação desaparecendo, dando lugar ao doce e gentil garoto que ela viu crescer.

 

Ele geme baixinho quando se arrasta para o lado na cama de solteiro extra que veio do dormitório feminino e Robin não precisa de outro chamado além de alguns tapinhas no lado que restou para saltar para a coberta do irmão. 

 

Eles se aconchegam como quando eram crianças e Luffy ainda cabia em seus braços como um urso de pelúcia grande — como Chopper e ela mal consegue acreditar que seu irmão magrelo, esguio e elástico foi do tamanho do doutor dela —, ele ter crescido não a impede de abraçá-lo e aconchegar o rosto no ombro ossudo dele. Luffy entrelaça as pernas deles e dá tapinhas no braço dela, seu ombro se movendo anti naturalmente para que o rosto dela não se machuque enquanto estão deitados, ele cantarola uma daquelas músicas de piratas que aprendeu com Shanks, alguma coisa sobre amor não correspondido e mares agitados, em uma voz suave e bem afinada que esconde de todos os outros enquanto se faz de palhaço diariamente, Robin sente que mesmo passando pelo inferno, ter Luffy ao seu lado é como uma rajada de vento suave, agraciando seus pulmões com alívio. 

 

— O que vamos fazer? — ela sussurra quase inaudivelmente para seu irmão mais novo.

 

Luffy cantarola por mais alguns segundos e ela começa a cair em um sono suave, seu corpo doendo e ainda gelado, o medo paralisante ainda em suas veias, sabendo que seu irmão provavelmente sente o mesmo — ou não, porque eles são formados da mesma matéria, mas seus resultados são completamente diferentes —, ele demora vários segundos para respondê-la e quando responde, Robin não sabe se é um sonho movido a música e cansaço ou se é real. 

 

— Vamos lutar.

 

★

 

Enies Lobby é um inferno personificado.

 

Robin pede perdão aos deuses que nem acredita por ter reclamado tanto de sua vida até ali, porque trair seu irmão é a pior coisa que ela já teve o desprazer de fazer na vida.

 

Robin matou, roubou, se infiltrou, fugiu, fingiu ser quem não era, mas nada disso se compara à expressão de puro desgosto no rosto de Luffy.

 

Ela prometeu que seriam irmãos para sempre.

 

Mas ela quebra todas as promessas que faz, assim como quebra tudo o que toca na vida, foi isso o que ela fez quando era mais jovem, em Ohara e é isso que ela faz com sua última família no mundo.

 

Ela quer voltar, mais do que tudo, porque há algo com o Going Merry — sua casa — e aconteceu alguma coisa com Usopp — seu nakama, seu outro irmãozinho à sua maneira — e Luffy parece tão cansado de tudo.

 

Ter que virar as costas mais de uma vez para Sanji e Sogeking também é insuportavelmente difícil, mesmo que seja necessário, ainda parte seu coração mais do que ela imaginou ser possível. 

 

Se eles estão assim, ela pensa, Luffy deve estar despedaçado. 

 

Ela quer gritar, para CP9, para seus nakama, que ela acredita em Luffy, mas acredita tanto que quer que ele viva. Viva como ela não viveu, sempre com medo, sempre com pesar, ela quer que seu irmão seja feliz, então Nico Robin verá seu fim para proteger a coisa que mais amou no mundo. 

 

Me desculpe, Robin pensa repetidamente, sem parar, me desculpa por quebrar mais essa promessa. 

 

Robin não sabe se diz isso para seu povo morto, sua mãe que se foi cedo demais, seus colegas de profissão que demonstraram mais gentileza em sua infância do que qualquer um, para Saul, que tinha razão quando disse que ela encontraria seu povo, para Luffy, para seus companheiros, ela também nem tenta descobrir. 

 

Ela tenta aceitar que foi criada para isso, que Crocodile lhe ensinou há muito tempo que precisa trair e virar as costas para as coisas se quiser sobreviver, Luffy aprendeu isso. 

 

Mas ela lhe dará a chance de não precisar fazer isso, ela se sacrificará para que ele fique seguro e não precise mais escolher entre amor e sobrevivência. Robin não vai permitir que o mundo despedace seu irmão como fez com ela, ele será rei mesmo que Robin precise morrer para garantir isso. 

 

Franky é um companheiro falastrão, que tagarela o tempo todo como é legal que ela tenha tantos amigos dispostos a morrer para trazê-la de volta, ela não acha que seja nada legal, mas não contradiz. Ela acha que mereça algum tipo de crédito por ser um aprendiz de Tom e ter os projetos Pluton em sua posse, mas não consegue lhe dar muita fé naquele momento, não depois de tudo o que fez até ali. 

 

Ela nem consegue esboçar reação enquanto ele fala e fala e fala, nem quando ataca os guardas ou chamar seu nome depois de mais um soco de Spandam, talvez em outros tempos ela teria admirando a coragem estúpida dele, sua impetuosidade e emoções a flor da pele.

 

Relutantemente ela admite que os discursos dele são bons, comoventes para dizer o mínimo. As palavras dele, não é crime viver, ressoam em sua mente como uma música bonita no convés do Merry enquanto aproveita o fim de tarde tomando chá gelado com seus companheiros. Robin admite a contragosto que gostaria de ter conhecido Franky em outras circunstâncias, ela tem certeza que Luffy gostaria de chamá-lo para a tripulação.

 

Mas Robin está tão cansada e preocupada. 

 

Tudo o que consegue pensar é em Ohara, em crocodilos, em irmãos mais novos sorridentes, em piratas e lares ao mar, o rosto de sua mãe ainda fresco em sua mente, mas ameaçando desaparecer depois de tantos anos — ela se pergunta se um dia Luffy pensará assim dela também, quais lembranças ele escolherá para reprisar em sua mente, quais ele contará ao mundo.  

 

— Nico Robin. — Franky tagarela pela enésima vez, parecendo obcecado por falar seu nome completo — Nico Luffy. Que coincidência, né? 

 

Robin não responde enquanto continua olhando para o chão, absorta demais em sua própria tragédia para ligar para a epifania repentina de Franky. 

 

— Vocês são parentes ou algo do tipo? — Franky insiste e Robin imagina que ele deva falar muito quando fica nervoso, porque apenas isso explica ela ainda escutar a voz dele e não a voz decorada de seus companheiros em seus últimos momentos — Ele é seu sobrinho ou primo distante? Talvez de segundo grau por parte de pai?

 

— Ele é meu irmão. — Robin responde e ajeita a postura, uma demonstração de orgulho que exibe sempre que fala de Luffy.

 

Isso faz Franky demonstrar surpresa, surpresa genuína, como se a ligação deles não fosse óbvia o suficiente para todos, Robin vê o momento exato em que os olhos do homem se enchem de lágrimas e seus lábios se curvam para baixo.

 

— Ah, seu irmãozinho… — ele chora copiosamente enquanto ela observa um pouco horrorizada e fascinada — Ele está tão desesperado para te trazer de volta e isso é tão super lindo, Nico Robin! 

 

Robin o observa chorar por vários minutos e resmunga algumas histórias de quando Luffy era criança depois que Franky insiste aos soluços, também contando uma ou outra anedota sobre seu próprio irmão mais velho, Iceburg — ela não deixa de notar quanto pesar há em suas palavras quando fala do homem, rezando egoisticamente para que Luffy nunca fale dela com tanta mágoa.

 

E, incrivelmente, Franky luta por ela, queimando projetos e apostando na vida dela, em sua tripulação — ela passa a respeitá-lo só um pouquinho por suas decisões e coragem. 

 

Quando Luffy chega, olhando feio para ela, como se estivesse bravo por Robin não querer morrer com sua tripulação, com sua família e não por ter fugido, traído e lhe dado as costas, ela quase caí de joelhos.

 

— Olha só, Robin, você pode fazer o que quiser quando voltar, pode viver ou pode morrer, mas volta para casa! — Luffy grita enquanto há uma confusão de nakama ao fundo, porque sempre há uma confusão com os Chapéu de Palha. 

 

E ela chora e grita e implora. Mas quando foi que a vontade de Luffy não foi feita? 

 

— Eu quero viver! — Robin grita e sua voz soa como tambores, soa como o sorriso de Luffy depois de batalhas, soa como liberdade — Me leve para o mar com você! 

 

E isso faz seu irmão sorrir, um sorriso diferente daqueles que ele deu pela vida toda, como se estivesse vitorioso, como se estivesse satisfeito, não, esse prenuncia que logo seus inimigos saberão o que é o calor do inferno e ele é o arauto do fim dos tempos — isso significa que os Chapéu de Palha ganharão ao final do dia e o mundo se curvará a sua vontade. 

 

E quando Luffy queima a bandeira, quando ele ordena que queimem a bandeira, quando ele declara guerra ao governo mundial por ela, então Robin percebe que é só o começo.

 

Então, ela empresta um pouco da coragem de Luffy, a qual ela sabe ter sido semeada por ambos a vida toda, um pouco da esperança chorosa de Franky, um pouco da fé sem medidas de sua tripulação e luta.

 

— O Luffy vem. — ela grita, como fez a vida toda, como fará para sempre. 

 

Se Spandam está morto no final e Enies Lobby em chamas, bem, então talvez seja culpa dela e uma que ela carregará com prazer até o fim da vida.

 

E se, enquanto ela abraça seu irmão imóvel, que ri loucamente em meio a lágrimas de satisfação, ela também chora de alívio, uma cena que eles têm repetido muito nos últimos meses, bem, então ela não tem culpa e isso não é da conta de mais ninguém além dos dois, os dois irmãos trágicos, que cresceram em meio às sombras e ao sangue, mas mesmo assim floresceram e venceram.

 

Porque ela está livre. 

 

E foi Luffy quem a libertou, mais uma vez.

 

— Nunca mais me abandone. — Luffy manda, seu rei, seu capitão, seu irmão — Nunca mais.

 

— Eu prometo. — Robin jura enquanto o segura firme e perto — Eu prometo. 

 

★

 

Garp aparece logo depois, tanto tempo depois deles terem saído para o mar, meses insignificantes que passam cheios de aventuras, festas e liberdade.

 

E ela quase se dá um tapa na cara, porque é tão óbvio que ela se questiona se não ignorou os sinais propositalmente, se auto sabotando por medo de perder sua única família.

 

Ele reconhece Luffy como em um filme encantado de família, que é emocionante e engraçado ao mesmo tempo, mas Robin não vê nada disso.

 

Por um instante perturbador Robin pensa que Luffy não a perdoou por sua fuga e suposta traição, pensa que ele repensará sua declaração de guerra contra a marinha e irá embora com sua nova família recém descoberta, mas isso não parece passar por sua cabeça enquanto encara o avô com um olhar que às vezes ela vê no espelho, um olhar de puro nojo e horror cômico.

 

Monkey D. Garp é da marinha, parece perturbado e olha para Luffy como se fizesse planos.

 

— Não acredito que você é um pirata, seu pirralho! — o homem exclama quase rindo e Robin faz cara feia.

 

— Bem, não acredito que você é da marinha. — Luffy diz com nojo e todos meio que dão risadas, mas disfarçam quando Garp lhes olha feio — É decepcionante não vir de uma longa linhagem de piratas ou de insetos com chifres.

 

Isso quase faz Robin rir como quando eram crianças observando insetos e flores, mas ela resiste à tentação, trocando olhares com um Zoro igualmente perplexo.

 

— Ah, claro que você ficaria decepcionado assim, obviamente eu não deveria ter esperado um neto comum. — Garp revira os olhos — Mas não há problema, podemos dar um jeito nisso, ainda há tempo de te consertarmos.

 

Robin franze a testa e trinca o maxilar, de soslaio ela vê Zoro segurar as espadas com firmeza e sabe que terá a retaguarda protegida enquanto torce o pescoço de Garp.

 

— Tenho certeza que nosso capitão não precisa de nenhum concerto. — ela cruza os braços e está pronta para dizer seu ataque quando Garp a olha.

 

— E quem seria você? — ele questiona ameaçadoramente, Robin tremeria se fosse qualquer outra mulher, mas ela é Nico Robin e seu irmão precisa ser protegido.

 

— Ah, vovô, essa é a Robin! — Luffy se levanta em um salto animado, ele abraça Robin pelos ombros, ainda uma cabeça mais baixo que ela — Ela é a minha irmã.

 

Garp o observa cético, mas assente com a cabeça.

 

— Mais uma pirralha para colocar na linha? — o homem concorda.

 

— Você sabe muito bem quem eu sou e não há ninguém para colocar na linha! — Robin exclama, já sem paciência para aquele velho que diz ser avô de seu irmão — Um homem que não consegue manter um bebê seguro não deve nem ser chamado de homem, então não venha querer mandar em algo depois de quase dezoito anos, dos quais você não sabe nada! 

 

Garp a observa com certa surpresa, ela fica satisfeita quando vê uma sombra de vergonha em seus olhos, mas logo o homem suspira pesadamente.

 

— Terei que levá-lo à força. — Garp declara.

 

— Você pode tentar. — Luffy diz desafiadoramente com uma piscadela — Mas, como minha irmãzinha disse, não há nada para colocar na linha depois de tanto tempo.

 

Ela quase se surpreende com o recado velado que Luffy dá, ele não está interessado em ser Monkey D. Luffy quando passou uma vida toda sendo Nico Luffy.

 

Isso parece pegar Garp de surpresa, ele observa o neto com atenção e uma tristeza antiga que reflete em seus olhos — os dois tem os mesmos olhos e formato de nariz, Robin aposta que a textura cacheada dos cabelos é exatamente a mesma —, ela se pergunta que tipo de inferno pessoal esse homem passou procurando por um neto que nasceu livre, o desespero de Dragon sendo o homem mais poderoso do mundo e mesmo assim não ter mais o próprio filho.

 

Egoisticamente Robin não liga para todo esse sofrimento, pois Luffy é irmão dela, ela fica feliz por tê-lo encontrado independente do sofrimento que infligiu àquele oficial da marinha e a um rebelde que se esconde nas sombras. Se eles perderam Luffy, a culpa não é dela, talvez essa seja sua sorte.

 

Mas por um instante ela pensa em Monkey D. Luffy, rindo livremente desde o primeiro dia de vida, crescendo com outros hipotéticos irmãos, brincando com outras crianças como uma criança, não espião, não assassino, não um filho não amado do pirata Crocodile. Ela gostaria muito daquela vida para ele.

 

Mesmo que fosse uma vida sem ela, uma vida onde ela fica solitária e vazia, assim mesmo ela pensa que seria lindo. 

 

Garp assente.

 

— Então, haverá guerra. — ele declara e vai embora simplesmente, como se aquilo não fosse nada — Vou levar você para casa, garoto, custe o que custar. Também vou te colocar na linha, garota.

 

Luffy, Robin e Zoro observam o buraco que Garp saiu sem dizer uma palavra enquanto as tropas vão embora, Koby lhes dando um último adeus antes de correr atrás dos outros oficiais.

 

— Consigo ver de onde a insanidade veio… — Zoro quebra o silêncio negando com a cabeça, então os olha — Dá para ver claramente.

 

Luffy ri enquanto Robin revira os olhos, negando envolvimento com qualquer Monkey D.

 

Mais tarde, depois de pegar Usopp de volta e fugir do avô maluco, Robin se espreme na cabeça do Sunny com seu irmãozinho e os dois observam o pôr do sol rumo à próxima aventura.

 

— Você gostaria? — ela quebra o silêncio confortável enquanto o cutuca com um dos pés — De ser Monkey D. Luffy? 

 

— Monkey D. Luffy, rei dos piratas. — ele repete calmamente, a cabeça descansando nos braços, ele parece em paz — Não soa tão bem quanto Nico Luffy, rei dos piratas, você não acha?

 

— Não foi isso que eu perguntei. — ela retruca calmamente, porque também está em paz, mas ela sente medo.

 

Luffy a olha com aqueles olhos analíticos que a devoraram logo na primeira vez que ela o segurou nos braços, todos aqueles anos atrás.

 

— Um avô marinheiro e um pai revolucionário ausente? — o garoto questiona com certo rancor na voz — Qual a diferença entre eles e Crocodile? 

 

— Te fiz uma pergunta semelhante há algum tempo… — ela cantarola baixinho enquanto bate no chapéu de palha e Luffy ri — Eu estava errada.

 

— Uma das raras vezes, diga-se de passagem. — seu irmão ri mais um pouco — Shanks era a exceção, ele é legal.

 

Robin revira os olhos enquanto parece voltar no tempo, ela tem de novo dezoito anos e está com ciúmes do relacionamento entre Shanks e seu irmão, com medo de perdê-lo, mas isso se suavizou com os anos. Quando Luffy for rei e devolver sua primeira coroa, ela terá que agradecê-lo pela chance que lhes deu, pela liberdade que os incentivou a conquistar, ela vai chamá-lo de bêbado e dizer que ainda não vai com a cara dele, mas talvez agora ela possa tentar gostar de sua pessoa.

 

— O que quero dizer é que eu só trocaria meu carcereiro e meu sobrenome. — Luffy continua seu raciocínio — Ninguém pode garantir que eu teria a vida perfeita que você está imaginando, talvez eles tivessem me dado para alguém e me esquecido. 

 

Robin o olha com ceticismo e ele ri mais um pouco, como sempre faz hoje em dia, nessa maldita fase da adolescência.

 

— Não me olhe assim, você sabe que é verdade. — o garoto suspira e dá um chutinho leve no pé dela — Talvez eu tivesse crescido matando tigres e crocodilos na selva, nunca se sabe.

 

Nico revira os olhos, é, ele prende crocodilos hoje em dia e a maneira que ele “mata” tigres ela não quer pensar nem morta. 

 

— Talvez você tivesse uma mãe. — ela continua teimosamente.

 

— Pobre mulher, com um bebê do Dragon. — Luffy nega com a cabeça, parecendo genuinamente triste agora — Ou ela era só relapsa e não se importava ou eu fui roubado mais de uma vez.

 

Robin não diz nada, não querendo alcançar o estado de espírito onde ela vai procurar por aquela mulher e onde ela sabe que vai falhar.

 

— Eu procurei por eles. — ela diz ao invés de oferecer seus serviços de detetive, Luffy a observa curiosamente — Pela sua família, nunca tinha encontrado nada.

 

Luffy não parece acusador enquanto assente, mas ele a conhece como ninguém, deve imaginar o que aquilo significa o que ela sente sobre isso.

 

— Que bom. — ele responde finalmente e Robin o observa com desgosto mal disfarçado, irritantemente o garoto ri — Eu não quero saber de uma realidade onde você não é minha irmã, Robin.

 

Ela sente os olhos se encherem de lágrimas e pisca rapidamente para afastá-las, mas sem muita força, pois sente que Luffy merece essa demonstração de emoção genuína.

 

— Sempre fomos eu e você contra o mundo, Bin. — ele diz suavemente segurando a mão dela, suas mãos de borracha cheias de cicatrizes contra as dela, um pouquinho mais macias, mas feridas e manchadas de sangue que nunca sai, Luffy não parece dar a mínima enquanto sorri — E vamos ser para sempre, só que com um bando agora.

 

Ela ri em meio a um soluço e assente abraçando seu irmão que agora é grande demais para ser ninado e quase afundar no peito dela.

 

— Mas talvez Nico D. Luffy seja legal. — Luffy diz de repente e Robin bufa — Zoro disse que seria irado, talvez você pudesse adotar também, Bin! Nico D. Robin! 

 

— Ninguém vai colocar D. nenhum no nome, Luffy. — Robin retruca resolutamente e Luffy reclama — Você precisa parar de dar ouvidos ao seu namorado emo, irmãozinho.

 

Luffy exclama e a empurra para longe, ela ri da feição dele e dos xingamentos que ele solta.

 

— Bem, pelo menos meu namorado não é um viciado em refrigerante! — ele retruca todo mesquinho e altivo.

 

Robin cora até a raiz dos cabelos.

 

— Cala boca! — ela quase o empurra no mar pela ousadia dele — Não é nada disso, seu idiota! 

 

— Ah é? — Luffy ri provocando-a — Porque eu bem vi… 

 

— Isso é um não definitivo para o D.! — ela exclama e, sendo seu irmãozinho estúpido mesmo já sendo um adolescente sabichão, se distrai com isso e salta da cabeça do Merry, começando uma discussão com toda a tripulação envolvida sobre o assunto.

 

Esse é o som da família dela. Esse é o som da verdadeira liberdade e soa exatamente como a risada de seu irmão.

Notes:

Ei! Essa história é sobre o amor que existe entre todos os irmãos!

Eu comecei e escrever essa historia há meses, fique namorando isso desde então. Comecei a ver op em abril depois de ver o live action e simplesmente fiquei obcecada (agora estou em Whole Cake e to pirando com esse arco), na época em que escrevi essa historia estava em Alabasta e fiquei simplesmente obcecada pela minha menina Nico Robin rindo de todas as besteiras que o meu garoto Luffy fazia, então meu cérebro perturbado começou a maquinar.

Olhe no fundo dos meus olhos e me diga que os dois não são irmãos, morrerei gritando isso.

Nos últimos meses não consegui parar de pensar sobre como a vida da Robin seria se ela tivesse, de fato, tido alguém para amar desde jovem. O Crocodile estar nessa linha tênue de vilão e pai também me deixa fascinada, Luffy e Robin são suas armas de guerra, mas são seus filhos e ele tem todo o controle (ele ainda quer mais). Conforme escrevia avançava no anime, arrumei muitas partes depois de ver Enies Lobby, mas acabei ficando mais obcecada ainda depois de Marineford, nesse universo aqui o Luffy conseguiu salvar o irmão que foi levado (sinto muito, não sinto tanto).

A Robin só não é tão dificil de escrever quanto o Luffy, cheia de monólogos internos e sempre cinco passos a frente (mas ainda frágil, traumatizada, com medo), amo ela por ainda amar e ainda lutar mesmo sem forças. Não sei o que é ser uma irmã mais velha, mas vejo todo o sacrificio e amor que podem ser investidos em um outro alguém que você ama mais do que a vida (ei, Luffy! eu te entendo, também sou uma irmã mais nova que foi amada por um irmão mais velho).

Sem contar que todo esse universo também muda muito do que o Luffy é (mesmo que permaneça o mesmo em essência), na história original ele cresce desassistido até que tenha o Ace e o Sabo, aqui a Robin lutou com unhas e dentes para protege-lo, torna-lo esperto e mantê-lo vivo, mesmo que Crocodilo tenha o tornado um assassino, ele ainda cresceu tão protegido quanto podia (mesmo que a Robin sofra de uma síndrome forte de irmã mais velha).

Também sou uma fa doente de zolu e frobin não sei se deu para repara rs.

Tenho MUITAS coisas a dizer sobre essa história e espero que vocês adorem tanto ela quanto eu adoro!

Fun fact: a Robin já escutou o Luffy chamando o Zoro de tigrão.
Fun fact2: estou escrevendo o ponto de vista do Luffy dessa história!

Até a próxima! Tomem água e se cuidem!