Chapter Text
Olive parecia estranha naquele dia.
Era uma quarta-feira e Adam não conseguiu dormir muito bem no dia anterior. Ele a viu na parte externa do campus pouco antes das quatro da tarde, carregando muitas pastas e ao lado de Anh. Seria mais fácil se não tivesse visto, porque pensou muito sobre como poderia ter se oferecido para carregar. Ou só pegar tudo e levar para onde ela precisasse. Queria uma desculpa qualquer para vê-la de perto.
Isso o assombrou, pensou nisso enquanto escovava os dentes depois de uma péssima salada de quinoa. Logo após, quando ligou o notebook na ilha da cozinha e tentou trabalhar um pouco, não conseguia tirá-la da cabeça. Deveria mandar uma mensagem, perguntar como está, se estava tudo bem. Mas não o fez, e revirou na cama a noite inteira. No fundo, seria melhor se não soubesse, porque a resposta poderia quebrar seu coração em mil pedaços.
Mas às quartas eram seu dia favorito, porque tinha sua razão para encontrá-la, ficar com ela o tempo que permitisse. Escutaria suas piadas, tentaria fazer o mesmo, a assistiria tomar aquela gororoba nojenta de abóbora com especiarias e, depois, seu dia ficaria mais leve.
Mas Olive não parecia a mesma: pálida, um pouco rouca, aquele tremor visível quando apontou para a bebida no cardápio, como ficou sentada, reclusa, a respiração um pouco pesada quando se esforçou para sorrir a Adam, que a encarava do balcão. Ela já estava lá quando ele chegou e, mesmo que tenha parecido genuinamente feliz ao vê-lo, não era a mesma. E isso o incomodava profundamente.
— Olive, você tem certeza que está tudo bem? — disparou assim que colocou às bebidas na mesa.
— Ah, sim. Estou bem, só cansada. Esse seminário vai me matar. Eu ainda não acredito que fui chamada. — massageou as têmporas. — Queria me enfiar num buraco e morrer.
— Você vai se sair bem, engraçadinha. Conseguiu terminar os slides? — Adam deu um gole no café preto. Sem açúcar, claro.
— Não. Eu acho que estou perto. Não sei, preciso fazer algumas análises e não consigo me dividir em cinco, infelizmente.
— Não esqueça de me mandar. Posso dar uma olhada. — se disponibilizou novamente, e ela sorriu curto, agradecida. — E a transferência de proteína?
Olive esquivou do assunto e fez uma ou duas perguntas. Adam queria a escutar falando, mas, em algum momento, só abraçaram um silêncio confortável, e ele não quis quebrá-lo para perguntar se a bebida dela estava ruim, já que a largou pela metade.
Alguns alunos passavam os olhando de forma nada indireta, tirando algumas fotos escondido e cochichando. Ela parecia consciente, mas se esforçava para ignorar. Os quinze minutos passaram muito mais rápido do que ele previa, e isso o fez se assustar quando ela empunhou o celular com a capinha de aminoácidos e glitter, se levantando num sobressalto.
— Até a próxima quarta feira do namoro de mentira! Preciso ir! — sussurrou, saindo logo em seguida.
E ele ficou sentado, no mesmo lugar, intercalando o olhar entre a porta e o copo de Olive meio vazio. Adam deu um sorriso triste, terminando seu café e com tantos pensamentos na cabeça que era impossível contabilizar.
Mas se saiu bem. Conseguiu seguir com o seu dia, ter a reunião com o assistente de seu laboratório, preparar algumas aulas, escrever um pouco de um artigo e limpar sua caixa de email, se estressando com a quantidade de mensagens idiotas que recebia por hora. Pouco depois das 19h, no seu escritório, começou a trabalhar nos slides da conferência, e Olive veio com mais força em seus pensamentos.
Talvez ela ainda estivesse no campus. Será que já estava melhor? Não conseguiria ficar em paz se não soubesse. Ela não ia admitir nunca, mas, mesmo assim, tentou.
[Adam]: Oi, Olive. Você está bem?
Deixou o celular no apoio, antecipando uma resposta. Vez ou outra checava as mensagens, mas nenhuma resposta. Ele terminou os slides e partiu para a papelada burocrática da patente e, quando deu por si, já passava das 21h.
Nenhum sinal dela.
[Adam]: Olive?
Se espreguiçou, dobrando a manga da camisa social preta e afundando as mãos no rosto. Tudo bem, ele poderia sair para caminhar um pouco, quem sabe, encontrá-la comprando barras de chocolate ou enchendo a garrafa de água. Adam colocou o celular no bolso e saiu, certo de que andar lhe faria bem.
Ele atravessou as portas de vidro dos corredores até a parte de convivência, onde poucos alunos tinham mochilas nos ombros, indo embora. Ainda checava o celular quando seguiu em direção ao laboratório de Aysegul, só por curiosidade.
Conseguiu ver o feixe de luz por baixo da porta. Quando chegou na frente, procurou a figura de Olive pelo quadrado de vidro, e seu sangue gelou no momento que a encontrou sentada no chão, com a cabeça apoiada num armário de metal.
Passou o crachá duas vezes, abrindo a porta muito rápido e correndo até ela, se ajoelhando na sua frente: Olive mantinha os olhos fechados, uma camada de suor brilhava na testa e uma expressão de desconforto.
— Olive? Olive!
Ela demorou para reagir: as pálpebras pesadas, parecia confusa, mas começou a tossir pesadamente antes que pudesse dizer qualquer coisa. Demorou para olhar Adam, mas, quando fez, sua voz soava áspera, os olhos, marejados:
— Adam? O que está fazendo aqui?
— O que aconteceu? Por que você está no chão?
— Ah. — riu sem humor. — Eu terminei o experimento e me sentei para descansar.
— No chão do laboratório? É sério? O que você está sentindo?
— Eu estou bem. Está tarde, você deveria ir descansar. — Os lábios pálidos e ressecados formavam um sorriso curto. Ela tossiu novamente, logo encostando a cabeça no armário e fechando os olhos.
Adam delicadamente ergueu a palma até a testa dela, depois no pescoço, seu coração parecia sair pela boca quando percebeu que ela estava quente, muito quente.
— Há quanto tempo está aqui? — murmurou, a ponta dos dedos correndo pelas bochechas.
— Adam, eu estou bem. Eu não quero…
— Olive. — uma lágrima solitária bateu contra os nós dos dedos dele. Ela tremeu, depois mordeu o lábio inferior, como se estivesse se segurando para não chorar. — Quanto tempo?
— Não sei. Acho que algumas horas. — A voz embargada. — Mas já estou bem, foi só um cansaço e…
Adam suspirou pesadamente. Ela estava tão quente. Seu coração se quebrava em mil pedaços ao imaginá-la sozinha, sem forças, sentada num chão frio.
— Vamos para o hospital, tudo bem? — O tom gentil, se aproximou um pouco mais.
— Não. — Ela se retraiu contra o toque. — O meu seguro… não. Não tenho como pagar.
— Não se preocupe com isso, querida. Vamos?
— Não, Adam. Eu não vou… — se concentrou, como se tentasse ficar consciente. — para o hospital. Sei cuidar de mim mesma.
— Sei que sim. Malcolm não está em casa, certo? — ela negou — Vamos.
— Ah, eu já vou. Preciso guardar meus ratos. Você pode ir na frente. Está tarde, Adam.
— Vamos.
Ele desceu as mãos até os antebraços de Olive, ela demorou um pouco para reagir, novamente abrindo os olhos e dando um sorriso sem graça, desviando para tatear o chão e se erguer sozinha. Adam levantou, pronto para segurá-la ao notar como ela se apoiava no armário, num tremendo esforço. De pé, Olive ficou praticamente agarrada à bancada.
A assistiu respirar fundo, caminhar em passos curtos até o outro lado e colocar as luvas, pegando dois pequenos camundongos de uma gaiola transparente e colocar numa menor, com água, comida e uma etiqueta na parte de cima. Ela tirava as luvas quando virou para ele:
— Viu? Eu estou bem. Pode ir.
Adam cruzou os braços. Meu Deus. Tão teimosa. Umedeceu os lábios, incerto de como dizer para que ela deixasse que ele cuidasse dela sem assustá-la. Não tinha a menor possibilidade de deixá-la sozinha nesse estado.
— Olive, você... Olive?
Foi tudo muito rápido: os olhos reviraram, ela deu um passo à frente e cambaleou e, num reflexo, Adam a segurou. Olive estava contra o peito dele, assustado, ele apoiou as mãos na cintura dela, a afastando minimamente para enxergar seu rosto.
— Desculpe, foi só uma fraqueza. Está tudo bem. — Murmurou, ainda mole.
Adam não era uma pessoa medrosa. Na verdade, sentiu medo pouquíssimas vezes na vida, não era um sentimento familiar. Mas, naquele momento, seu mundo parecia colapsar diante de seus olhos, e nunca se sentiu tão impotente. Olive não disse mais nada, apenas deixou algumas lágrimas escorrerem.
— Você vai ficar bem, Olive.
Adam passou um braço pelas pernas, outro pelos ombros e a ergueu sem esforços, os dedos firmes contra o jaleco branco, ela não ofereceu resistência, apenas pendeu a cabeça nos braços dele, o cenho contraído numa expressão de dor. E, talvez por ela não protestar, só o deixou ainda mais preocupado.
Ele pegou a mochila pequena e o celular de Olive, deixando suas próprias coisas para trás e saindo do laboratório às pressas. Os corredores já estavam vazios, os sapatos dele pareciam fazer ainda mais barulho à medida que praticamente corria até o estacionamento. Um dos seguranças estava no posto quando atravessou o portão de saída, mas não fez nenhuma pergunta.
Por sorte, o Prius estava próximo, ele conseguiu pegar a chave de forma desajeitada no bolso e abriu o carro, colocando Olive com cuidado no banco do passageiro, que recostou no estofado, respirando pesadamente. Tomou cuidado para passar o cinto contra o corpo dela, logo correndo para o banco do motorista e ligando o carro.
Sua casa não era longe da faculdade: o trajeto era arborizado, com ruas estreitas e cruzamentos que lhe faziam revirar os olhos todos os dias. Eram os mesmos que Olive passava, e imaginá-la todos os dias com um capacete e bicicleta, sem ciclofaixa, lhe tomava bons minutos e um desconforto terrível. As ruas ainda estavam molhadas pela chuva de outono quando ele estacionou na frente de casa, conferindo-a mais uma vez.
Parecia estar dormindo, apesar da respiração ainda um pouco difícil, ela se abraçava no estofado de couro, um pouco trêmula. Porra. Ele deveria levá-la ao hospital, ela não deveria se preocupar com isso, não com ele ali. Ele grunhiu antes de soltar o próprio cinto, fazendo o que precisava ser feito.
Adam a colocou no sofá, sentindo-a ainda muito quente contra seu toque. Com cuidado, tirou o jaleco branco com o nome de Olive bordado, os sapatos, a deitou e aproveitou para puxar a manta preta da poltrona, a cobrindo até a cintura. Depois, colocou o celular dela para carregar.
Acendeu a luz do abajur antes de ir até a cozinha, pegando o próprio celular do bolso e discando para a única pessoa que conseguiria ajudá-lo:
— Quem morreu? — Holden gritou do outro lado, meio abafado, de fundo, uma música eletrônica muito alta.
— O quê?
— Só tem um motivo para você me ligar, que é esse. Adam, seu merdinha! Você precisa se esforçar para cultivar sua amizade com seu amigo de anos e…
— Ela está com febre.
— O quê? Quem? Olive? — a voz séria.
— Sim. A encontrei no chão do laboratório. Ela está tossindo muito, agora com muita febre. Ainda não tirei a temperatura e…
— Chego em vinte minutos. Não dê nada para ela, nem a cubra. Ela vai sentir frio, mas é o melhor que pode fazer por ela.
— Ok. Obrigado. — colocou o jaleco na máquina de lavar.
Holden se despediu e Adam colocou o celular no bolso. Configurou a máquina e pegou um copo d’água, voltando para a sala e a encontrando do mesmo jeito que deixou. Deixou o copo na mesa de centro e, com muito custo, tirou a manta e segurou, sentando na poltrona ao lado de Olive.
Ela parecia péssima. Adam sentia seu coração apertar quando ela se abraçou novamente, com frio, a camada de suor ainda brilhava na testa. Queria tirar tudo isso dela, ficar no seu lugar. Inconscientemente, pensou em Olive ainda muito jovem, sozinha no mundo. Quando adoecia e precisava se virar, no primeiro dia de faculdade, na sua formatura do ensino médio. Como era corajosa, forte, independente.
Mas ninguém cuidava dela. Era tão resistente. Tão teimosa. Cuidava de seus amigos e colocava as próprias necessidades de lado, e ele não queria isso. Mais que tudo, queria que Olive confiasse nele, a deixasse ser cuidada. Que tivesse ligado para ele ao invés de ficar naquele maldito laboratório, aceitasse que ele a levasse para a faculdade todo dia, pedisse qualquer coisa. Qualquer coisa. Se ele conseguisse, era dela.
Dezessete minutos depois, Holden estava na porta de Adam com uma maleta de primeiros socorros, uma camisa branca colada, com exatos dois botões abertos, expondo o peito cheio de glitter e um chupão no pescoço.
— Onde ela está? — Holden o afastou com uma mão na cintura, entrando na casa. — O que aconteceu?
Sussurrando, Adam explicou tudo que aconteceu até Olive chegar ali, e Holden escutava com atenção. Contudo, ele não respondeu, apenas foi até o sofá, se ajoelhando perto da cabeça de Olive. Adam estava de pé, ao lado de Holden, atento.
— Oi, Olive. Tudo bem? Sou eu. — Holden deu um sorrisinho. Ela demorou alguns segundos para abrir os olhos, e os arregalou assim que o viu. Confusa, tentou se levantar rápido, mas os braços cederam e ela caiu para trás. — Opa, vamos com calma. — tentou ajudar.
Não contava que Adam fosse mais rápido, a segurando pelos ombros.
— Dr. Rodrigues… O que eu estou fazendo… Espera. Onde eu estou? — intercalou entre os dois.
— Ah, sim. Você está na casa do Adam. Ele me chamou, claro, porque eu sou muito mais legal que esse merdinha. Me diga, Olive, como está se sentindo?
— Me desculpem pelo trabalho, eu já estou bem. Acho que já vou nessa, beleza? Obrigada, Adam. E desculpa ter atrapalhado… sua festa, acho? Dr. Rodrigues, não queria incomodar.
— Pode me chamar de Holden. E você não vai a lugar nenhum, gata. Vamos resolver isso.
Holden fez perguntas específicas que, a cada resposta de Olive, Adam sentia seu peito ficar ainda mais pesado: estava sem comer direito há dias, de ontem para hoje, apenas um pacote de cookies. Desidratada. Sua temperatura era de 39.8 graus, e Holden tinha absoluta certeza que em algum momento do dia ela já tinha desmaiado mais de uma vez.
Ele não era médico, claro. Mas um dos melhores farmacologistas do mercado. Olive estava segura. Ali, com os dois, Olive estava segura. Ela tomou algumas broncas de Holden, e tentou justificar com a pesquisa, o congresso, que estava muito atarefada. Que não foi nada. Que tudo estava bem.
— Olive, querida, com essa febre, eu não acho que você pode sair por aí dizendo que está tudo bem. Vou te passar algumas medicações e, se amanhã essa febre não baixar, você vai precisar ir ao hospital.
— Mas meu seguro…
— Isso resolvemos depois. Se você morrer, não vai dar para resolver, né? Adam está aqui, ele vai ser o seu enfermeiro hoje. Isso é uma ordem, mocinha. — piscou, procurando algumas cartelas dentro da maleta.
Holden explicou o que ela ia tomar, o porquê e os horários, e, claro, Adam anotava tudo mentalmente. Ela tossiu alto e, quando ele olhou as próprias mãos, tomou consciência de que elas estavam apoiadas nos ombros de Olive, fazendo um carinho delicado.
— Estou com frio, posso…?
— Não. Não até sua temperatura abaixar. Tome esses primeiro, Olive. — destacou os comprimidos e colocou na palma da mão dela. As outras cartelas foram sendo amontoadas na mesa de centro, separadas por horário.
Adam lhe entregou o copo d’água e ela agradeceu os dois com um sorriso pequeno, tomando os remédios com uma careta e se deitando em seguida. Holden não parecia nada feliz. Nem Adam. Mesmo assim, Holden disse algumas palavras positivas para Olive e se despediu com um aceno.
— Me acompanha, Adam?
— Mas…
— Adam? Me acompanha, seu merdinha. — Holden sibilou, ainda sorrindo para Olive.
Ele deu uma última olhada nela antes de dar meia volta, indo até a porta. No batente, Holden se virou para Adam, o cheiro de chuva ainda muito presente, junto a uma brisa desagradavelmente fria:
— Cara, eu não queria falar lá dentro mas… é sério. Ela não está bem. E ela não quer admitir, nem mostrar. Eu dei alguns remédios para abaixar a febre, pelo menos por agora. Em uma hora, acorde ela e faça alguma sopa, canja, sei lá, menos aquela sua salada de rúcula horrível. Ela precisa comer, porque os próximos remédios não podem ser ingeridos de estômago vazio, também precisa tomar muita água. Deve ser alguma infecção respiratória, a respiração dela está muito pesada. Bom, não sei dizer ao certo, mas não me parece nada bom. Adam, se ela desmaiar de novo, ficar confusa, vomitar ou não baixar a febre, você precisa levá-la ao hospital imediatamente, a hora que for. Ela vai reclamar, mas depois resolvemos a conta.
A cada palavra de Holden, Adam sentia o estômago afundar. Ele sabia que era sério, só não queria acreditar. Ele assentiu, e Holden deu um sorriso curto.
— Cuide dela, vou mandar uma mensagem de madrugada para checar. Te ligo às 06h, se você não me atender, vou aparecer aqui.
— Você vai estar dormindo.
— Não. Vou virar. Só tenho aula à tarde e a noite é uma criança, Malc… bom, estou tentando flertar com uma pessoa e você está me atrapalhando. Por favor, me chame se qualquer coisa acontecer ou se tiver dúvidas.
— Obrigado, Holden.
— Também te amo, cara. Até depois. E tira esse crachá.
Adam o amava também, ele sabia. Ele faria de tudo por Holden, por sua pessoa. Seu amigo de tantos anos, que abandonou tudo que estava fazendo com uma simples ligação. Estava tão grato que mal sabia verbalizar. E nem tinha percebido o crachá.
Com um peso saindo de seus ombros, ele fechou a porta e tirou o crachá, colocando no bolso e voltando sua atenção para Olive, que estava enrolada no sofá de olhos fechados, com a manta preta cobrindo todo o corpo. Seu coração doeu um pouco ao se aproximar, sussurrando o nome dela.
— Hm? — ela resmungou.
— Você não pode ficar com essa manta, lembra? — segurou o tecido.
— Mas eu estou com muito frio.
— Me desculpe, querida.
Contrariado, pegou a manta dela se sentindo a pior pessoa do mundo, que reclamou algumas vezes e deu as costas, abraçando os joelhos. Adam dobrou o tecido e levou até a ponta da escada, para que ela não alcançasse novamente.
Ele esperou que Olive dormisse, o que não demorou muito, Holden avisou que a medicação lhe deixaria com sono. Depois, subiu para checar o estado do seu quarto e trocar os lençois. Ele poderia deixá-la no quarto de hóspedes, mas sua cama era mais confortável. No automático, guardou algumas roupas e papéis, trocando toda a roupa de cama.
Mas aquele sentimento pesado, só crescia no peito e, finalmente, o peso do dia caiu nos seus ombros. Ele deveria ter sacado antes, perguntado, mandado aquela mensagem no dia anterior se ela já tinha jantado, se estava segura em casa. Deveria ter sido mais incisivo no café, comprado alguma coisa, levado almoço para ela. Enchido sua garrafa de água. Se ele não tivesse aparecido hoje, algo muito pior poderia ter acontecido, e só a ideia lhe deixava furioso. Triste. Apreensivo. Assustado.
Caralho, aquilo era assustador de verdade. Aquela raiva mal resolvida na boca do estômago lhe fez apertar a ponta do nariz, tentando se regular. Não era momento disso, Olive precisava dele.
Pegou um travesseiro extra, checou se o umidificador tinha água e separou uma camiseta e toalhas, encheu uma garrafa de água colocando tudo na escrivaninha e marchando para o andar debaixo. Depois, cortou alguns legumes e fez uma sopa de frango, deixando-a ferver. Ligou a secadora, colocando o jaleco de Olive junto aos dele. Aquilo lhe fez sorrir curto, apesar de tudo. Pouco passava das 00h, e estava no horário de fazer o que Holden mandou.
Adam colocou um pouco da sopa num bowl azul escuro, pegou um copo d’água e uma colher, colocando tudo numa bandeja e marchando para a sala.
— Oi, Olive. — colocou a bandeja na mesa de centro, ajoelhando ao lado do sofá e a tocando de leve.
Mas ela não estava dormindo. Os ombros tremiam, a respiração irregular, alguns soluços. Ela limpou os olhos com a palma antes de sentar no sofá e o encarar, os olhos vermelhos em destaque.
— Oi, Adam. Me desculpe o trabalho. Eu já estou me sentindo bem. Preciso terminar os slides do congresso. Não tenho mais tanto tempo.
— Trouxe sopa, você precisa se alimentar. Ordens do Holden. Como está se sentindo?
— Obrigada. Não precisava, Adam, que horas são? — olhou ao redor, Adam ficava mais ansioso ao vê-la daquela forma. Os olhos ainda estavam marejados.
— Aqui. — Pegou o bowl, apoiado num pano para não queimar as mãos. — Prove um pouco.
Entregou a colher, o bowl e a viu encarar ambos, intercalando com ele. Naquela altura, sua palma já estava suada, o coração batia como um tambor contra o peito. Ela deu a primeira colherada, o aroma de especiarias era agradável, Adam também não tinha se alimentado.
Ele a assistiu fechar os olhos com força, assentir e colocar a colher na sopa. Seus dedos agarravam o pano claro, ele assistiu uma lágrima solitária escorrer e, automaticamente, quebrou o curso com o polegar.
— Eu estou aqui com você, Olive. — Adam murmurou mais para si mesmo do que para ela.
Ele viu o exato momento que ela relaxou os ombros e deixou com que aquela avalanche de lágrimas caíssem. Merda. Adam não sabia o que fazer, mas apoiou a mão no joelho dela. Olive tomava a sopa em meio a lágrimas, tosses doloridas e murmúrios.
— Você… não precisava ter cuidado de mim. Obrigada, Adam. Eu sei tomar conta de mim mesma.
— Eu sei que sim. Não tem o que agradecer, Olive.
— A sopa está ótima. Me lembra a da minha mãe. — sorriu sem humor. — Você é a terceira pessoa que faz isso por mim. A de Anh é muito boa também.
— Eu imagino. A comida vietnamita é muito boa.
— É, sim. — deu mais uma colherada. — Obrigada, Adam. Você deve estar cansado, eu vou terminar a sopa e voltar para casa e…
— Olive.
Ela não disse mais nada. Continuou tomando a sopa devagar, e Adam aproveitou para tirar sua temperatura: felizmente, estava baixando, mas não suficiente para lhe deixar tranquilo. Os 38ºc brilhavam no display do termômetro, ele avisou Holden por mensagem e aproveitou para destacar mais um comprimido, colocando-o junto ao copo cheio no alcance de Olive.
Quando terminou, ele pegou o bowl de sua mão e deixou na mesa, voltando sua atenção para ela. Ainda tinha os olhos brilhantes, apesar de muito cansada. Ela pareceu perceber que estava sem o jaleco, e ele antecipou:
— Está na secadora. Vamos subir?
— Subir?
— Subir. Você não vai dormir no sofá.
— Mas eu não vou dormir aqui. Vou para casa, Malcolm vai voltar da festa e se preocupar.
— Você pode mandar uma mensagem. Ele não vai ligar, certo? Você vai passar a noite na casa do seu namorado. Não tem nada demais.
Ela mordeu o lábio, pensou por alguns segundos e, o que quer que tenha pensado, desistiu de falar no meio do caminho. Tomou os remédios, o copo inteiro de água e suspirou. Rendida, ela se levantou do sofá com dificuldade, e Adam também se levantou, tirando o telefone dela do carregador e entregando para subirem. Ela agradeceu por ele ter feito isso, as bochechas corando.
Olive parecia ter muitas coisas na cabeça. Ele ficou atrás dela na escada, com medo dela cair, atento a como os movimentos estavam lentos. Passaram pelo corredor e, no final, Olive já negava com a cabeça quando ele abriu a porta do quarto:
— Eu não vou tirar você da sua cama. Não posso dormir aqui.
— Meu quarto é mais confortável. Vou ficar no quarto ao lado. — acendeu a luz. — Separei uma camiseta, se você quiser tomar banho, tem toalhas aqui. O banheiro é nesta porta. — apontou.
— Adam. É seu quarto. Não posso fazer isso. Eu já atrapalhei demais.
— Você nunca me atrapalha, Olive. Por favor.
Ele a guiou até a cama, a sentindo ainda um pouco trêmula. Olive parecia muito pequena para sua cama, ela sentou e ficou o encarando, antes de dizer:
— Obrigada.
— Não me agradeça. Aproveite para dormir um pouco.
Ela assentiu, a confusão de lágrimas se formando novamente. Ele ligou o umidificador, pegou uma muda de roupas e a viu deitar na sua cama, as mechas espalhadas pelo travesseiro, abraçando as pernas e de costas para ele.
Adam foi até o outro banheiro e tomou um banho rápido, dando espaço para Olive, mesmo que ainda muito preocupado. Vestiu um shorts cinza e camiseta preta, voltando para seu quarto com o termômetro, abrindo a porta com cuidado. Ela estava na mesma posição, mas acordada.
Ele sentou no chão, do lado que ela estava, a luz mínima da janela não dava uma visão clara de Olive. Cruzou as pernas, sentindo a adrenalina baixar e o corpo cansado. Passou a mão pelos cabelos, ainda confuso e assustado com os desdobramentos do dia.
— Dois anos depois que minha mãe morreu, tive uma infecção intestinal e precisei ficar internada por umas duas semanas. — Olive murmurava, a voz rouca e receosa. — Eu já era emancipada, morava sozinha. Dividi o quarto com um garoto que tinha minha idade, e, meu Deus, foi horrível. Eu odeio hospitais. Todos os dias, os pais deles estavam lá. Às vezes se revezavam, levavam presentes, conversavam com os médicos e levavam coisas para que ele não ficasse triste. Eu tinha tanta raiva dele. Tanta inveja. Ninguém foi me visitar, porque eu não tinha ninguém. Eles olhavam para mim com pena, e eu juro que um dia escutei um parente desse menino perguntando se eu não tinha mãe. Ou pai. Eu odeio ficar doente.
A imagem mental de Olive numa cama de hospital tão nova, sozinha, lidando com uma realidade que mal conseguia compreender ainda, lhe dava um nó na garganta. Ele não conseguia ver seu rosto, mas viu o contorno das mãos cerradas dela contra o travesseiro, agarrando-o como se sua vida dependesse disso.
— Sinto muito, Olive.
Não tinha muito o que dizer, nada parecia suficiente. Ou só nada precisava ser dito. Ele sentiu um toque leve na camiseta, os dedos de Olive enroscados na gola, a hesitação dela antes de continuar:
— Tudo bem. Não precisa ter pena de mim. O que quero dizer é… eu não queria atrapalhar vocês. Sei lidar com isso. Você não conseguiu descansar, e Holden perdeu a festa dele por minha causa… me sinto péssima.
— Olive. — Adam levou a mão até sua gola, envolvendo a dela com a palma. — Não sinto pena de você. Pode ter certeza que nada vai atrapalhar a festa do Holden.
— É. Acho que ele e Malcolm são parecidos. Provavelmente estão na mesma festa. — riu fraco.
— Provavelmente.
Ela não se mexeu. Nem ele. Aos poucos, sentiu a mão dela amolecendo contra a sua, viu o peito subindo e descendo. Daqui duas horas, precisava tirar a temperatura e fazê-la tomar mais um pouco de água. Dobrar o jaleco. Mandar mensagem para seu assistente de laboratório e limpar sua agenda do dia seguinte. De manhã, ter certeza de que o café estivesse pronto na hora que Olive acordasse. A levasse para casa depois de buscar a bicicleta na faculdade. Passar na farmácia e comprar remédios. Avisar Holden.
Mas Olive estava na sua cama, dormindo, por um motivo que não o deixava feliz, mas estava lá. Exausto, apoiou a cabeça no colchão, próximo a ela. Ele tinha muitas coisas para fazer, mas, naquele momento, ela precisava dele.
E ele estaria lá, por todo o tempo que Olive permitisse.
