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Characters:
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Language:
Português brasileiro
Series:
Part 5 of Desafio Loquinha
Stats:
Published:
2026-10-13
Words:
1,298
Chapters:
1/1
Comments:
4
Kudos:
39
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2
Hits:
488

Manifesto

Summary:

— O turno de vocês acabou. Se cuidem que amanhã é outro dia. Principalmente você, Juquinha.

O olhar sério do delegado disse tudo que Eduarda precisava saber. Ele tinha plena consciência do que tudo aquilo que estava acontecendo significava para ela, afinal, eles eram uma família.

ou

Resultado do primeiro turno das eleições deixou todo mundo revoltado. Com elas não seria diferente.

Notes:

Eu quase não escrevo esse tema do desafio loquinha, mas se render não pode ser uma opção, independente do resultado.

Não entrem em pânico.

Se organizem.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Eduarda estava sentada na sua mesa na delegacia, olhando a tela do computador sem realmente enxergar. As lágrimas já começavam a se formar nos seus olhos, mas ela se recusava a deixá-las cair.

Um vazio enorme, misturado com raiva, revolta e uma pitada de medo, tomava conta do seu corpo e pensamento, deixando a policial paralisada sem saber o que fazer, porque a sua vontade real era de deixar tudo aquilo fluir para fora do corpo, virar a mesa e quebrar as vidraças da delegacia. No entanto, o seu lado racional sabia que aquilo não poderia ser feito, então ela se mantinha parada.

O resultado das apurações do primeiro turno da eleição caíram como um banho de água praticamente congelante de tão fria. O governo do estado continuaria nas mãos de bandidos e a corrida presidencial se dirigia para o mesmo caminho. Os gritos de comemoração de alguns colegas policiais do lado de fora da sala dos investigadores só servia para fazer seu sangue ferver mais ainda, enquanto Paulinho se mantinha igualmente paralisado do seu lado.

Eduarda tentava entender a lógica dos que estavam comemorando. Não fazia sentido, porque tudo que o governo estadual atual fez foi cortar verbas e dificultar as investigações; foi brutalizar a polícia com um discurso que matava mais do que ajudava e entregava mais poder para quem eles deveriam estar combatendo. Mas talvez fosse isso mesmo que seus colegas policiais quisessem, passe livre para violência glorificada.

Um dos seus colegas passou gritando e batendo no vidro, fazendo o número 22 com as mãos e se a policial não tivesse metade do autocontrole que tem, provavelmente teria acertado um soco na cara do imbecil. Vontade não faltou.

O delegado Jairo chegou e saiu mandando todos acabarem com a algazarra e irem trabalhar, fingindo muito bem que estava levando tudo na brincadeira. Em seguida, entrou na sala e chamou a atenção dos dois investigadores.

— O turno de vocês acabou. Se cuidem que amanhã é outro dia. Principalmente você, Juquinha.

O olhar sério do delegado disse tudo que Eduarda precisava saber. Ele tinha plena consciência do que tudo aquilo que estava acontecendo significava para ela, afinal, eles eram uma família.

A ruiva, então, desligou o computador e arrumou as coisas na bolsa, esperou Paulinho sair na frente e o seguiu até o carro de cabeça baixa e sem tirar os olhos do chão, pensando apenas em pôr um pé na frente do outro até chegar no estacionamento.

Seu carro estava com Lorena, uma vez que a sua esposa ainda votava próximo a sua antiga casa e iria aproveitar o dia para também visitar Zenilda, deixando o deslocamento de Eduarda por conta de Paulinho. 

Os dois entraram no carro e não tiveram vontade de sequer ligar o rádio ou de abrir a boca para falar qualquer coisa. Eduarda apenas baixou o vidro e observava as pessoas e os carros na rua, tentando entender o porquê daquela realidade estar se concretizando.

— Me liga se precisar de alguma coisa. 

Foi tudo que Paulinho disse quando Eduarda desembarcou. Ela apenas acenou com a cabeça, mas não teve forças para dar uma resposta.

Ao entrar em casa, a ruiva percebeu que a esposa ainda não havia chegado, a casa estava escura e Bóris ainda dormia na poltrona de Lorena, o gato apenas levantou a cabeça e quando reconheceu Eduarda, logo voltou a se acomodar novamente.

A policial tirou os sapatos e guardou a bolsa no aparador atrás da porta, não se deu ao trabalho de ligar nenhuma luz, apenas se jogou no sofá e deixou as lágrimas escorrerem, já que a reação de sair quebrando tudo que via pela frente era irresponsável demais para ser colocada em prática.

Deitada, dando vazão a um choro silencioso, com um braço cobrindo os olhos para as lágrimas secarem imediatamente, Eduarda ainda tentava entender como metade do eleitorado havia escolhido a personificação de tudo que existe de ruim como futuro presidente.

Os escândalos, a corrupção, a porra do pai envolvido com tentativade golpe de estado. Absolutamente nada fazia sentido naquela escolha, exceto o ódio que ele representava. O ódio às religiões de matriz africana, às pessoas trans, aos demais LGBT’s, às mulheres, às pessoas pretas e foi aí que Eduarda entendeu que muita gente não encolheu aquele merda porque quer um futuro melhor, e sim porque quer liberdade para odiar, para matar e para destruir tudo e todos com toda permissão que quiserem. Seu coração afundou mais um pouco. O volume das lágrimas aumentaram.

Afinal, depois da pandemia, depois da negação da vacina, depois da tentativa do genocídio Yanomami, depois do rombo do INSS e tudo ligado àquela família de bandidos, ainda assim escolherem eles? Não era só engano, não era só desinformação, a falta de caráter já estava ali escancarada também.

É claro que existiam as pessoas que iriam se aproveitar economicamente do que poderia acontecer caso o presidente Lula não se reelegesse, mas não existiam 56 milhões de milionários no Brasil e Eduarda sabia de onde vinha toda essa onda de ódio alimentada pela elite que ela tinha consciência de que fazia parte.

Durante o curso de direito, Eduarda foi apresentada ao conceito de Necropolítica, uma forma de governo onde o Estado decide quem vive e quem morre, de acordo com a sua política pública e funcionamento, deixando parte da população, àqueles que ele quer que sejam mortos, vulneráveis e sem seus direitos humanos básicos efetivados.

É o que acontece na periferia, por exemplo. Quando a polícia invade as casas e atira antes de perguntar e ninguém liga porque a conclusão geral é que a pessoa que morreu era provavelmente bandido.

Esse tipo de política de Estado é eficiente para que aqueles que estão no poder se mantenham nele, é uma forma de controle social através da violência, além de ser uma arma contra a mobilização social, pois joga grupos de vulneráveis uns contra os outros ao desumanizar alguns deles.

Também serve como cortina de fumaça. Pois, o Estado declara que o “inimigo” é um certo grupo social  enquanto os reais problemas são esquecidos pela população que direcionam todo seu remorso e frustração para aquele grupo de vulneráveis.

O problema e o que gerava a real preocupação de Eduarda era que ela e a esposa faziam parte desse grupo que seria considerado inimigo, que provavelmente teria seus direitos não mais reconhecidos em um eventual mandato daquele crápula. Sem falar nas outras consequências como direitos trabalhistas, meio ambiente, economia, a imagem do país no mundo… Não havia absolutamente nenhum ponto positivo naquele cara e naquela família e mesmo assim ele conseguiu aquele resultado. Era apavorante. Era revoltante. 

Um barulho na porta fez Eduarda dar um sobressalto, era Lorena chegando em casa e acendendo a luz. A ruiva imaginou que o seu rosto era de choro e sua expressão também devia estar péssima, porque Lorena largou tudo no chão e correu para abraçar Eduarda que desabou num choro composto de medo e raiva. Tudo junto.

Assim que a ruiva se acalmou, Lorena secou algumas de suas lágrimas e segurou seu rosto entre as mãos.

— A gente não vai desistir sem lutar, tá bom? Eu sei que a situação é horrível, mas eu já tô organizando uma manifestação no fim de semana com a Gerluce e o Júnior, tá? A gente não vai ficar quieto e deixar esses caras tomarem conta do país. A gente vai lutar, tá bom?

Eduarda fez que sim com a cabeça e abraçou Lorena de novo. A camisa vermelha da esposa, cheia de adesivos com estrelas e o número 13 colados nela, ainda cheirava ao perfume da morena.

A ruiva secou o restante das lágrimas e olhou nos fundos dos olhos verdes da esposa.

— Vamos à luta, companheira.

Lorena sorriu e deu um beijo de leve em Eduarda.

— Vamos à luta.    

Notes:

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